Arquivo para categoria Vida Eterna

A MENINA QUE EXPLICOU A MORTE

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Esperávamos a paz, e construímos uma década de violência, de guerras. Países em guerras fratricidas no mundo árabe da Síria, do Iraque, do Oriente médio. Nações africanas em guerras internas, cujo único objetivo é a garantia do poder e do domínio sobre riquezas e populações. Em nosso mundo latino-americano sofremos a guerra pelo tráfico e pelos pontos de drogas. Nos países ricos assistimos a outra guerra, a da rejeição dos migrantes, dos fugitivos do mundo conflagrado que diariamente tentam encontrar novo chão, nova pátria, e encontram a expulsão, o desprezo a deportação.

Milhares de famílias abandonam sua terra e seus bens e atravessam fronteiras esperando alguma acolhida, mas são acolhidas pela ordem de retorno ao lugar nenhum, pela deportação. São consideradas peso morto, ameaça ao conforto dos países ricos. As famílias deixam de ser famílias: são mães abandonadas, crianças fugindo pelas estradas e ruínas, homens tentando salvar algum coisa, jovens deserdados da esperança. As imagens geradas por esses dramas quase não comovem, pois  a violência continua e as ruínas aumentam com destruições sempre maiores.

Mas, sem dúvida, o que mais nos fere são as imagens das crianças, das quais se rouba a infância e que são marcadas a ferro pelo vírus da violência, a ponto de não conhecer outro tipo de vida. Apesar disso, as crianças brincam, jogam bola, as meninas se fazem de professoras, realizando o milagre da  vida mas injetando no coração o sentimento da violência, pois foi isso que sempre viram e sentiram. Leia o resto deste post »

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HÁ 50 ANOS, DESPEDIDA DE NOSSA MÃE LÚCIA

1964 - 25 de novembro - 2014 - Encomendação e Despedida de nossa mãe

1964 – 25 de novembro – 2014 – Encomendação e Despedida de nossa mãe

Não creio que haja diálogo mais doloroso do que esse, em 29 de novembro de 1964, quando Pe. Osmar Müller me perguntou: – “Então sua mãezinha morreu, não é mesmo?” Só lembro que fiquei muito envergonhado, pois os soluços não me deixaram falar. Senti-me o adolescente mais infeliz do mundo e na pior idade para ouvir essa pergunta afirmativa.

Era verdade: três dias antes, na igreja matriz de Antônio Carlos, ainda sem reboco, estávamos reunidos meu pai, e meus irmãos Maria, Nesir, eu, Cecília, Inês, Ivone, Pedro e Sebastião. Esse último, o caçula, estava com seis anos e Maria, a mais velha, com 17. Imenso e tranqüilo, como a nos envolver num único abraço, meu pai Artulino: 44 anos de idade e 8 filhos para criar e educar. Não era imenso, mas parecia ser, pois era nosso único refúgio humano. Tranquilo, sim, pois não tinha oportunidade para expressar dramas. Lembro o momento mais belo – na extrema dor há muita beleza –, na hora da Consagração, quando o coral cantava o hino “Mais perto do meu Deus, ó Pai do céu, em dura provação, e tentação. Quando em pavor gemer, hei de fiel dizer: mais perto do meu Deus, ó Pai do céu!”. Ouvi-lo foi tão doloroso que cuidei para nem ao menos suspirar, assim prejudicando a beleza pungente desse canto de fé cantado nos últimos momentos do naufrágio do Titanic, em 1912. Tantas vezes o tinha cantado e escutado, mas somente nesse momento ouvi-o de verdade.

No meio de meus irmãos, tios, primos, povo, Pe. Alfredo Junckes, ao lado do cadáver de Lúcia Pauli Besen, minha mãe, senti-me vítima de divina injustiça na provação e na tentação. E me fiz a pergunta idiota que daí para frente escuto, e já são 50 anos: “Por que nós?” Tempos depois penso que faria uma afirmação mais equilibrada, porque a convivência com a dor nos torna misericordiosos: “Felizmente nós, e não os outros”. Missa terminada, o sepultamento, no antigo cemitério, ao lado da igreja. Passava das 11 horas de um dia de muito calor. O povo, generoso com sua presença, olhava-nos com ternura e solidão, porque nada podia fazer, e se retirava. Recordo que Ivone chorava desconsolada e pedi que parasse, pois não ficava bem. Estética das lágrimas num adolescente que guardou-as para derramá-las nas décadas seguintes, aumentadas com a morte de meu pai e do caçula Sebastião, que morreu aos 47 anos, mesma idade daquela que sepultávamos.

Na véspera, 25 de novembro, ao desembarcar em Biguaçu, mal informado, perguntei ao motorista: “E como está a mãe?” A resposta foi seca: “Já morreu nessa madrugada”. Passados 50 anos, acho que foi a melhor resposta, unindo perfeita dor com perfeita verdade, sem encantamentos que eventualmente poderiam postergar a dor, não suprimi-la. E eu tive uma certeza: não temos mais mãe.

Agora já estava sepultada, numa carneira, e nos foi dado o consolo de não escutar a música fúnebre das tradicionais pazadas de barro, cadenciadas ao ritmo do choro. E meu pai falou: “Filhos, vamos para casa, que o pai vai preparar o almoço”. O pai não teve tempo para lamentos, as oito bocas pediam comida.

A noite que antecedeu o enterro e a tarde que seguiu foram os tempos mais longos de minha vida. Tinha o sentimento de que o tempo voava, mas é porque estava parado. Aproveitei e escrevi carta para Mons. Valentim Loch, reitor do seminário de Azambuja, onde estava internado. Ignoro os caminhos, mas parou com minha irmã Nesir que a guardou, mostrou-me, mas não li. É um cofre que vela os sentimentos daquela tarde há 50 anos, e acho que não fica bem violá-los.

Antigas recordações que não envelhecem

Lúcia Pauli Besen - nossa mãe

Lúcia Pauli Besen – nossa mãe

Lúcia, nossa mãe, nasceu em Antônio Carlos em 12 de setembro de 1917. Bárbara, sua irmã, ingressou no convento das Irmãs da Divina Providência em Florianópolis. Pouco depois, ela também teve autorização para segui-la, o que lhe deu o privilégio de estudar no Colégio Coração de Jesus, assim aprendendo a falar em português. Era postulante devota quando se dirigiu à Irmã Bernadete: “Irmã, quero deixar o convento”. Diante do susto da formadora, afirmou com segurança: “Quero me casar para ter uma filha freira e um filho padre”. Saiu, e conseguiu trabalho no Hospital de Caridade onde, pela competência e dedicação, mereceu ir para o centro cirúrgico como instrumentadora do Dr. Richard Gottsmann, que nela apreciava a atenção, a rapidez e o falar alemão. Não engane o nome “Gottsmann” – homem de Deus, porque era ateu devoto. Minha mãe, ingênua, queria convertê-lo para salvar-lhe a alma e Herr Doktor sempre repetia: “Já viu alma na barriga de alguém?” Em sua ânsia missionária teve de se haver com três alemães: Moellmann, Gottsmann, Freusberg.

O tempo passou, e lembrou a promessa de ter uma filha freira e um filho padre. Retornou à família e, em 7 de setembro de 1946, contraiu matrimônio com Artulino Besen. Os filhos foram aparecendo até o oitavo, em 1959. Hoje ainda recordo como nossa mãe dava conta do serviço: o lar, os filhos, nossa avó Catarina sempre doente, o quintal, as galinhas, tirar leite, cozinhar, fazer pão, aplicar injeções nos vizinhos, costurar toda a roupa da família, remendar as usadas, rezar e cantar. Rezar. E como minha mãe rezava. As Irmãs tinham-lhe ensinado o medo do pecado, mas não lhe lembraram a alegria de não pecar. Escrupulosa, num dia confessou-se duas vezes, para ter certeza, e sempre em alemão, para ter mais certeza ainda. Grande prazer de minha mãe era escutar notícias de outros países e depois conferi-las num Atlas geográfico, pois a palavra “estrangeiro” nela despertava emoções revividas olhando mapas.

Os filhos foram a alegria que o Senhor lhe concedeu nessa vida. E cuidou de nossa vida espiritual com zelo. Ao anoitecer, tirava-nos da cama para “tomar” nossas orações, primeiro para decorarmos e depois para rezarmos: Pai-nosso, Ave-Maria, Creio, Salve Rainha, as duas Consagrações e um bocado de Jaculatórias. Mesmo com tanto trabalho, permitiu aos três mais velhos estudarem fora, buscando a vida religiosa. E cumpriu a promessa: Maria, a primeira filha, tornou-se religiosa e missionária, hoje na Bahia. E ao mais velho, competia ser padre.

Lembro com muita nitidez da imagem que se formou em minha mente na hora em que o motorista disse: “Já morreu de madrugada”. À beira da BR 101, abandonado até pela solidão, a imagem que se formou em minha mente foi um flash: eu estava rezando a Primeira Missa sem a presença de minha mãe. E, daí em diante, tive que tomar a decisão vocacional sem o anteparo de alegrá-la.

No dia de Finados de 1964, quem conta é minha irmã Maria, nossa mãe falou, da porta da cozinha, olhando para o cemitério: “Este Mês estarei lá”. Foi a profecia. Meio século passado, neste 2 de novembro lembro tudo isso e pela primeira vez compartilho, por causa dela e de meu pai e meus irmãos. Nenhum de nós duvida de sua ressurreição.

Pe. José Artulino Besen

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CREIO NA RESSURREIÇÃO DA CARNE

Creio na ressurreição da carne!, afirmamos com alegria no 11º. artigo do Credo, nossa Profissão de Fé. “A confiança dos cristãos é a ressurreição dos mortos; crendo nela, somos cristãos”, se afirma desde o início do Cristianismo. A cada ano, no dia 2 de novembro, com a Comemoração dos Fiéis defuntos celebramos nossa fé em nossa ressurreição pessoal e na de nossos irmãos..

Em nossa sociedade hedonista, que reduz a perspectiva de felicidade para o aqui e o agora, crer na ressurreição parece desnecessário, porque se prefere afirmar que não há ressurreição e nossa sepultura é o último endereço. Se assim é, aproveitemos a vida e não percamos tempo com suposições, preferem muitos afirmar.

Nós cristãos, porém, cremos na ressurreição da carne, esperamos ardentemente o encontro final com o Criador. Essa esperança nos faz viver bem, porque cada dia é precioso, não podemos perder tempo, investimos a vida naquilo que é bom e justo. A fé na ressurreição faz de nossa vida uma escola de amor para o encontro com o Amor, uma escola de fraternidade para o encontro com o Pai. Com tão firme esperança, a morte não nos amedronta, pois sabemos que ela foi derrotada na Cruz. Existe a morte natural, afinal, nosso corpo segue os limites da natureza, mas não existe mais a morte metafísica, esse poder maligno que nos quer destruir.

Mas, o que é a ressurreição da carne? Primeiro, temos de responder a uma outra pergunta: o que entendemos por carne? Consideremos a Eucaristia: quando Jesus diz “quem come minha carne e bebe meu sangue” (Jo 6,56), está afirmando: “Quem me receber como alimento”. Carne e sangue significam a mesma realidade: a pessoa. Tanto isso é claro que comemos o Pão e estamos recebendo o Senhor em sua Carne transfigurada. Permanecem as espécies do pão e do vinho, mas agora transfiguradas no Corpo e Sangue do Senhor ressuscitado.

Somos espírito encarnado

Desse modo, quando professamos “creio na ressurreição da carne” estamos dizendo “creio na ressurreição da pessoa”. Na linguagem bíblica o termo “carne” significa pessoa na sua integridade. Nós não fomos criados corpo e alma, como duas realidades separadas: Deus soprou o espírito de vida num corpo que se tornou, desse modo, ser vivente, pessoa humana (Gn 2,7).

Por influência do dualismo grego, do platonismo (que dizia que a alma é prisioneira do corpo) somos levados a pensar o homem como composto de duas partes separáveis: o espírito e o corpo. Hoje somos convidados a superar essa dualidade, pois assumimos a linguagem bíblica: nós, carne, somos um espírito encarnado. Os anjos são espírito puro. Nós, porém, não somos anjos, somos homens e mulheres, somos alma na carne, de modo inseparável.

O Espírito que ressuscitou Jesus dentre os mortos dará vida a nossos corpos mortais mediante o Espírito que habita em nós (cf. Rm 8,11): “corpo”, aqui, é a pessoa humana cuja morte foi vencida por Cristo no Espírito.

E como fica nosso corpo que vai para a sepultura e se decompõe? Nós não sepultamos uma pessoa, sepultamos um cadáver. Não há ninguém enterrado nos cemitérios e sim, cadáveres que retornam ao pó. A morte foi vencida: nós morremos, sim, mas logo somos ressuscitados pelo poder do Espírito.

Há uma outra conseqüência: como não somos anjos, mas espírito encarnado, no momento da morte recebemos um corpo transfigurado, pois continuamos a ser humanos. A linguagem dualista diz que o corpo vai para a sepultura e a alma para o julgamento e, no final dos tempos, os dois se reunirão. Podemos crer assim, pois a tradição catequética da Igreja, inclusive o atual Catecismo, ainda se servem da linguagem dualista: corpo e alma. Mas, devemos superar o dualismo corpo e alma como fruto do aprofundamento da Palavra de Deus que nos afirma que o Criador criou anjos (puros espíritos) e o homem e a mulher (espírito encarnado). Aqui entra igualmente a antropologia, o estudo do ser humano: somos pessoas humanas porque somos espírito encarnado. Não somos divisíveis.

A eternidade, superação do tempo e do espaço

Surge muito a pergunta: e depois, o que acontece? Para onde se vai? No momento da morte nós deixamos a condição humana que vive no tempo (quando?) e no espaço (onde?). Então, não faz sentido perguntar nem o onde nem o quando. Houve época em que se falava em 10 anos de purgatório, cinco meses de purgatório e os artistas até desenhavam ou descreviam a situação do Purgatório. Não faz muito tempo, ainda se pintava o Purgatório como um lugar de fogo, sede, sofrimentos, mas, isso é contraditório, pois na eternidade não há tempo nem espaço. O Purgatório é um estado de purificação diante do Deus Amor e não um lugar.

Se é assim, qual o sentido de rezar por alguém que morreu anos atrás? Por que somos convidados a rezar pelos mortos? É muito importante essa oração, pois, no momento de nosso julgamento, Deus tem diante de si todas as orações feitas e que se farão por nós, como tem diante de si toda a nossa vida. Deus é o eterno presente: todas as nossas orações, Missas celebradas pelos falecidos no presente e no futuro estão diante de Deus.

Nesse instante sentiremos a dor de nosso amor imperfeito (purgatório), sentiremos a alegria de entrar na vida divina (céu) e podemos optar pelo desespero eterno (inferno). Tudo isso já acontece fora do tempo. Alguém perguntaria: e como fica o corpo se não há espaço nem tempo? A pessoa humana – corpo encarnado – é transfigurada pelo poder do Espírito. Veja o que aconteceu com Jesus: ressuscitado, continuou sendo Verbo feito Carne, mas entrava por portas fechadas, pois estava transfigurado. Assim seremos nós. E o que acontecerá com nossas cinzas no cemitério? Tanto João Paulo II como Bento XVI ensinam que a nossa ressurreição não supõe nossa natureza física atual: Deus nos dará um corpo glorioso.

Graças damos a Deus que nos oferece tão feliz herança: habitar entre os santos e anjos pela eternidade. E tudo isso, porque Cristo ressuscitou: “Se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação e vazia é também a vossa fé. Mas não! Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que adormeceram” (1Cor 15,12-14-.20).

Acima de tudo, tenhamos firme o olhar que contempla o Deus da misericórdia:

Um dia te encontrarei, e tu lerás em minha face
todo o desconforto, todas as lutas
todo o lixo dos caminhos da liberdade.
E verás todo o meu pecado.

Mas eu sei, meu Deus,
que o pecado não é grave,
quando se está na tua presença.
É diante dos homens que somos humilhados.
Mas, diante de ti, é maravilhoso sermos assim tão pobres,
a tal ponto somos amados!”
(Jacques Leclercq).

Pe. José Artulino Besen

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A MORTE, PLENITUDE DE VIDA

Cristo Ressuscitado na Igreja, penhor de nossa ressurreição (Centro Aletti)

Cristo Ressuscitado na Igreja, penhor de nossa ressurreição (Centro Aletti)

As almas dos justos estão nas mãos de Deus
e nenhum tormento as atingirá.
Eles estão em paz” (Sb 3,1-7).

Diante de um túmulo, onde acabamos de depositar os restos mortais de um familiar, de um amigo querido, de um jovem, uma criança, o silêncio é o discurso mais forte e convincente. O silêncio da morte se confraternizando com o silêncio da dor, da solidariedade. E, talvez, achemos que tudo foi um absurdo, que a vida não passou de uma grande ilusão, que o amor de Deus por nós foi uma brincadeira de mau gosto.

Pensamos que a morte seja o fim, que não valeu tanto esforço. Para um cristão, porém, não é assim. Ao descrente, a morte pode ser irmã da desesperança, mas para quem crê, a morte é apenas um passo que nos leva da esperança da eternidade feliz à posse da felicidade eterna.

A morte é a plenitude da vida. É o momento mais significativo da existência humana. Naquele momento em que os olhos se fecham para a vida terrena, a vida atingiu seu momento mais pleno: naquele instante colocamos nas mãos tudo o que fomos e fizemos em nossa vida. Como que, dizemos ao mundo e a Deus: “Eis o que consegui fazer com minha vida!”. Ali se encerra a etapa do crescer e fazer, do construir, do realizar o bem e o mal. O momento do nascimento foi o início de um projeto: o instante da morte é o balanço final deste mesmo projeto.

Não é importante viver muitos anos: o importante é nascer. Quando a criança vem à luz, inicia seu caminho para a eternidade. Um caminho longo ou breve, fácil ou difícil, levado com seriedade ou na brincadeira, mas um caminho que desemboca irreversivelmente na existência sem fim. No instante da morte fechamos os olhos à luz do mundo para, em seguida, os abrirmos às portas do Reino da Luz, onde existiremos no amor em plenitude, em Deus.

Não tememos esse momento, pois o Deus do amor e da misericórdia “que nos carregou ao colo e nos acariciou no regaço” (Is 66,12) é o motivo de nossa confiança. “Ainda que eu atravesse o vale escuro, nada temerei, pois estás comigo” (Sl 22,4).

A morte nos ensina como a vida é importante, decisiva. Ensina-nos, igualmente, como as pessoas são importantes. Tão importantes que fazem falta ao morrerem, deixam-nos um vazio impossível de ser preenchido, por que cada pessoa é única. Não será repetida. Sua vida foi uma missão dada por Deus. O que ela não fizer, ninguém mais o fará. Deus não nos fez criaturas descartáveis, mas necessárias para seu plano de amor. E mais: Deus não nos jogou no mundo como brinquedos nas mãos do destino. Criou-nos para sermos seus filhos, num primeiro momento vivendo a existência terrena e depois, junto dele, eternamente.

A partida de alguém nos faz mergulhar na saudade. Recordando as palavras do grande intelectual cristão: “Passamos a vida dizendo adeus: adeus aos anos, adeus à saúde, adeus aos projetos pessoais, adeus aos amigos. E num dia diremos A DEUS – vou para Deus”. Mas essa mesma partida do mundo é a chegada a Deus, que também tem saudades de seus filhos e os quer junto de si. Deus nos leva quando estamos maduros, “como um feixe de trigo que se recolhe a seu tempo” (Jó 5,26).E toda a despedida é um “até logo”, pois logo mais também chegaremos à plenitude de nossa vida, também nós abriremos nossos olhos à Luz eterna. E será o reencontro final na casa do Pai, na nossa casa: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Depois de ir e vos preparar um lugar, voltarei e vos tomarei comigo, para que, onde eu estou, também vós estejais” (Jo 14,2-3).

Pe. José Artulino Besen

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A VIDA E A MORTE NA FÉ CRISTÃ

A Palavra de Deus nos ressuscita (Centro Aletti)

“Pois se quando éramos inimigos fomos reconciliados com Deus
pela morte de seu Filho, muito mais agora, uma vez reconciliados,
seremos salvos por sua vida” Rm 5,10).

A origem e o destino do ser humano motivam as perguntas que alguns chamam de “malditas” e das quais ninguém consegue fugir: “donde viemos? para que vivemos? para onde vamos?”. Todas as religiões e filosofias religiosas existem para explicá-las. Em nossos tempos, duas respostas encontram muita simpatia, por serem simples e aparentemente mais consoladoras: a oriental (popularizada pela Nova Era) e a espírita.

Pela explicação oriental, do Hinduísmo, é uma parte da energia cósmica (um Deus-energia) aprisionado na matéria. Vivemos para libertar esta energia e retornar ao Ser único. Não somos pessoas, mas parte de um único Ser. O Espiritismo Kardecista afirma que Deus criou um determinado número de espíritos. Os que pecaram receberam como castigo a encarnação num corpo a fim de que pudessem se purificar. No momento da morte, se não estiverem purificados, voltam a se encarnar (reencarnação), e assim sucessivamente, até atingir a purificação total e voltar para o Reino da Luz. Deste modo, eu não sou novidade na história, mas alguém que já viveu em outras vidas. Se alguém nasce com defeito físico, é porque numa outra encarnação já o tinha e não conseguira a purificação. Se outro vive poucos dias, é porque tinha pouca coisa de que se purificar. No espiritismo não existe a realidade da graça e da redenção que salva e santifica: o espírito se purifica pela prática da caridade. A vida é cumprimento de um Karma.

Sem entrar em comentários ou críticas a respeito das outras religiões, nós cristãos cremos na Palavra de Deus, cremos o que nos ensinou Jesus Cristo, Filho de Deus, morto e ressuscitado. E esta Palavra verdadeira nos ensina que no momento da fecundação, quando um óvulo se encontra com um espermatozóide, gerando o embrião, Deus cria um espírito que nele se encarna e forma um novo ser humano, uma pessoa. Além da inclinação ao pecado – o pecado original – que o Batismo anula, não somos portadores de nenhuma responsabilidade por outras vidas: Deus nos cria no momento da fecundação.

Somos totalmente responsáveis pelos nossos atos, bons ou maus. Nascemos por um ato do amor divino e passamos a vida fazendo nossas escolhas pessoais, boas ou más, de vida ou de morte. Se crescermos no amor, caminhamos para Deus, dele nos afastando se fizermos na vida o jogo do egoísmo.

No momento da morte, as escolhas que fizemos durante a vida continuam na eternidade: se vivemos com Deus, estaremos para sempre com ele (o céu); se vivemos sem Deus, permaneceremos sem Deus (o inferno). O inferno é necessário, pois o homem, como ser livre, deve ter o direito de viver e morrer sem Deus.

E não há retorno, segunda chance, pois somos pessoas responsáveis pelos nossos atos: “Está determinado que os homens morram uma só vez” (Hb 9,27). É a Palavra de Jesus: “Os justos irão para a vida eterna e os maus para o castigo eterno” (Mt 25,46). A fé, vivida na caridade para com Deus e o próximo, nos garante, por graça divina e não por nosso merecimento, a participação na vida, morte e ressurreição de Jesus: “Se alguém crer em mim, ainda que esteja morto, viverá!” (Jo 11,25).

Não precisamos buscar novidades. Estaremos sempre na mesma situação de Pedro: “A quem iremos, Senhor? Tu tens as palavras da vida eterna!” (Jo 6,68). “Felizes os que crêem sem ter visto” (Jo 20,29).

Pe. José Artulino Besen

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VIVER PARA MORRER – MORRER PARA VIVER

Jesus pregado na cruz – Cripta na igreja de São Pio

Morte e vida são estados inseparáveis da experiência da fé cristã. Quem não morre não produz frutos se não vive, e quem vive não produz frutos se não morre. Essa é a pedagogia que Jesus revelou no drama da redenção: sendo Deus, fez-se homem, e fez-se homem para ser Deus. Desceu ao mais profundo da miséria para alcançar o mais alto da glória.

A vida espiritual, isso é, a vida no Espírito, tem início quando Cristo nos ordena: Vive! E tem continuidade quando novamente nos ordena: Morre!

A ordem de viver se dirige a nossa condição de mortos pelo pecado necessitados de morrer para o pecado. Somente o Senhor que venceu a morte pode ordenar que a vida tome conta de nossa existência. Mas, o cristão não tem como opção simplesmente viver, pois ele busca reviver a vida do Paraíso. Apenas viver é um convite ao comodismo, uma cilada na qual muitos caem: estou livre, pois morri para o pecado e agora vivo. A salvação está garantida. Engano.

Jesus não morreu e ressuscitou para que vivêssemos apenas vida humana: a vocação cristã é a vida divina, sermos imagem e semelhança de Deus. Com o “vive”, somos imagem de Deus; com o “morre” iniciamos o caminho da semelhança com Deus, nossa deificação. O horizonte não pode prescindir do chamado que Deus nos faz: sermos participantes da natureza divina (2Pd 1,4), pois somos da raça divina (At 17,28-29). Somos chamados a ter a mesma herança de Cristo, formar o mesmo corpo de Cristo, participar da mesma promessa de Cristo (cf. Ef 3,6).

Alguém poderia objetar: então, viver vida cristã é deixar de viver vida humana? Não, pois se é realmente humano sendo realmente divino, à imagem de Cristo. Vivendo em Cristo, quanto mais humanos, mais divinos somos e, quanto mais divinos, mais humanos. O Senhor veio nos descrever o Pai para nos introduzir na pedagogia de filhos.

Após o grito do “vive”, segue-se o grito do “morre”: morrer para tudo aquilo que em nós obscurece a imagem de filhos de Deus, deturpa nossa condição de sermos de raça divina, de possuirmos a natureza divina. É o caminho tantas vezes citado por Paulo: no momento em que renascemos iniciamos o logo, doloroso, mas feliz processo de conversão. A conversão é o ponto de partida daqueles que escutaram o grito da Vida e sentem que não morrendo para a morte não alcançarão a vida em plenitude, a liberdade dos filhos de Deus. Morrer para todas as escravidões é tornar possível sermos verdadeiramente livres.

Esse destino não é fruto de nossa competência: é obra da graça. Deixamos o caminho livre e a graça pode nos trabalhar até liquefazer nossa alma, na expressão bela e atemorizadora de Evágrio Pôntico (+399): para nos introduzir na beleza da vida espiritual, o Espírito precisa nos liquefazer e assim nos moldar segundo a semelhança de Deus. Na hora em que morrermos totalmente para o egoísmo nossa vida será reconstruída como vida nova, vida em Cristo.

Os santos e profetas escutaram o “Vive” e sentiram muita alegria. Depois escutaram o “Morre” e mergulharam no campo das provações de amor. Novamente escutaram o “Vive” e mergulharam na paz total quando, novamente, o Senhor ordenou “Morre”, pois na condição presente a perfeição é um caminho a ser plenificado somente na contemplação definitiva da face do Senhor, buscada com todo o empenho durante a vida terrena.

É um combate de amor, é uma luta de amantes: Oséias a viveu casando-se com uma prostituta que depois retorna à prostituição; Jeremias, perseguido por todos os lados, chora como amante provado: “Tu me seduziste, Senhor, e eu me deixei seduzir! Foste mais forte do que eu e me subjugaste! Tornei-me a zombaria de todo dia, todos se riem de mim. … Pensei: Nunca mais hei de lembrá-lo, não falo mais em seu nome!. Mas parecia haver um fogo a queimar-me por dentro, fechado nos meus ossos. Tentei agüentar, não fui capaz!  … Tu, porém, Senhor, estás comigo como lutador invencível!” (cf. Jr 20, 7-13). Para Jeremias, era impossível viver sem o Senhor. Dom Hélder Câmara (+ 1999), profeta da Igreja, foi seduzido pelo Senhor na imagem do injustiçado: nunca mais teve paz. De todo lado perseguição, calúnia, desprezo entre seus próprios irmãos, mas permaneceu na alegria de ser liquefeito por Jesus escondido em cada pobre. Pe. Paulo Bratti (+ 1982), homem provado na fidelidade ao Evangelho, gostava de repetir: “Nós queremos as consolações de Deus, mas não queremos o Deus das consolações”. Queremos ouvir o “vive”, subtraindo o “morre” o que é impossível para quem aceita viver a vida cristã como paixão e ressurreição.

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NÓS CREMOS NA VIDA ETERNA

“Se cremos que Jesus morreu e ressuscitou,
assim também os que morreram em Jesus,
Deus há de levá‑los em sua companhia”
(1Tes 4,14).

Finados 2São Paulo divide os homens em duas categorias: os que vivem tristes porque não têm esperança, e os que vivem felizes, porque têm esperança (cf. 1Tes 4, 13ss).

Tem esperança o que sabe que a vida começa em Deus, ultrapassa os poucos anos passados na terra, e em Deus continuará para sempre. O pensamento da morte, então, consola e não desespera, pois sabe que tudo tem sentido, que tudo está orientado para o encontro final da criatura com o Criador. Nada do que realiza é sem importância, pois tudo está orientado para a posse de uma eternidade feliz.

A certeza da ressurreição faz com que o idoso não desanime ao ver que suas forças definham, que serão sempre menos os anos de sua vida. Faz com que o doente irrecuperável tenha um horizonte de vida, além do sofrimento e da morte certa. Faz com que não se desespere diante da morte de uma criança inocente, de um jovem no vigor da mocidade. Porque a figura deste mundo passa, mas a vida permanece para sempre.

O cristão não perde a cabeça diante dos desafios da vida, não perde a alegria de viver, mesmo carregando cruzes pesadas, porque diante de si tem um horizonte onde brilha a Luz que não tem fim. Ele não sabe quais serão seus próximos passos, mas sabe qual será o final: a festa sem fim no Reino de Deus. A sua caminhada pode ser marcada por lutas difíceis, mas tem confiança na vitória final da vida sobre a morte. Tudo passa, somente a vida permanece.

Toda essa esperança, porém, não o faz fugir dos compromissos diante do mundo e da vida. Pelo contrário: o horizonte da ressurreição leva‑o a empenhar‑se com mais vigor para que, já aqui, sinta o gosto da eternidade. Ele sabe que todos ressuscitarão: por esse motivo se esforça para que mais gente caminhe, confortada pela esperança da eternidade. Tendo a certeza da comunhão final com Deus quer, já agora, reunir os filhos de Deus numa grande família.

A ressurreição mostra com clareza a importância da vida: conhecendo o final, não se desviará do caminho que a ele conduz, não empenhará sua existência naquilo que a traça destrói e a ferrugem corrói. Evitará fazer qualquer coisa que o impeça de ver a Luz final.

O homem passará pela experiência da morte, mas não pela experiência do abandono do Deus vivo que o gerou. O Deus que o chama carinhosamente de filho, não o destruirá para sempre. Quer tê‑lo para sempre junto de si; é o Criador buscando ansiosamente o encontro final e definitivo com a criatura.

Por isso conserva viva a esperança, e é feliz. Cristo ressuscitou. Nele a garantia de nossa ressurreição.

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NOSSOS MORTOS – MEMÓRIA E CINZA

Finados 3

Em dois de novembro, dia de Finados, Comemoração dos Fiéis Defuntos, nos dirigimos aos cemitérios e com carinho depositamos flores e acendemos velas nos túmulos das pessoas queridas. Pais recordam filhos que partiram, filhos recordam pais, esposos lembram os mortos, amigos pranteiam amigos: todos agora igualados pela morte, na expectativa da feliz ressurreição. Ver um túmulo nos pode desafiar a fazer o bem que aquela pessoa ali recordada fez, ou evitar, sem julgamento, a violência que essa pessoa criou ao seu redor. Recordar os artífices da justiça, da paz e da beleza nossos ancestrais ou contemporâneos.

É a casa da memória, da gratidão, da reconciliação. Geralmente visitamos o cemitério e ornamentamos os túmulos na véspera dos Finados, no dia de Todos os Santos. Uma visão da fragilidade humana e um desafio à santidade a que somos chamados por nossa imagem e semelhança de Deus.

Gostaria de apresentar uma breve reflexão sobre um costume que se impõe: a cremação de cadáveres, iniciada no século XIX no ardor do ateísmo/panteísmo/materialismo e hoje muito especialmente em países secularizados. Decide-se por túmulos sem nenhuma identificação ou por espalhar as cinzas ao vento. Iniciamos dizendo que o Código de Direito Canônico, o Catecismo da Igreja Católica (n. 2301) e o Diretório sobre a Piedade popular não opõem obstáculos à cremação em si, mas quanto à motivação e ao destino das cinzas.

Muitas pessoas têm dificuldade de encarar a morte de seus semelhantes, pois quebra o ritmo ordinário da vida com a imagem de alguém que se ausenta. Na sociedade secularizada a morte é muitas vezes ocultada. Melhor encerrar tudo entregando o cadáver a uma empresa, para evitar o incômodo de um “morto”, por mais querido que seja. A cremação surge como um caminho breve. Mas, será que a cremação respeita o desejo dos parentes e amigos que gostariam de visitar a sepultura? Não estaria subjacente a negação da dignidade do corpo, em vida comunicador de vida, de afeto, de trabalho, de alegria? Em outros tempos previa-se até uma Missa do Cadáver, celebrada nas Faculdades de Medicina: unia-se ali a oração pelos mortos ao respeito pelos cadáveres que seriam objeto de estudos dos estudantes. Era o respeito pelos restos mortais de pessoas nem conhecidas.

A face mais delicada é a possibilidade interrompida da memória dos que nos precederam, negando aos descendentes a memória dos antepassados. Por que hoje se dá tanta importância à busca dos restos mortais das vítimas das guerras, dos genocídios, das vítimas da violência da Ditadura do Brasil? É o desejo sagrado de dar-lhes uma sepultura, um lugar de descanso. Veja-se a dor dos parentes das vítimas de acidentes aéreos: como dói não poder contemplar e sepultar os restos mortais de pessoas queridas!

Após o ato da cremação – geralmente feito com grande respeito – espera-se em casa a urna com as cinzas. Alguns as dispersam no mar, outros em um jardim, outros as guardam em casa.

Psicólogos e sociólogos advertem: o rito da cremação quebra o rito do luto com a entrega dos restos mortais a uma empresa. Guardar as cinzas em casa cria um ambiente onde não se faz a distinção do lugar dos vivos e dos mortos, com um clima doentio de luto sem fim. A urna com as cinzas, guardada em casa, pode ser respeitada pelos parentes atuais. E no caso da venda do imóvel, anos depois, não haveria o perigo de se jogar tudo no lixo?

Talvez o lado mais grave do dispersar as cinzas ou conservá-las em casa seria o negar a memória pública dos que nos precederam. Uma sociedade caminha olhando os caminhos traçados pelos antepassados. O corpo de nossos mortos é relíquia venerável ou incômoda?

Uma solução apresentada é haver nas igrejas, capelas de cemitérios, espaços onde colocá-las por algum tempo, até a superação natural do rito da saudade. E depois depositá-las nos locais públicos onde são inumados muitos falecidos.

Outro perigo é a transferência do rito do sepultamento para empresas que lucram com ofertas de cerimônias sofisticadas, mas que tiram o envolvimento dos familiares. Já existe mercado de luxo para velório, cremação de pessoas (e de animais de estimação).

Aqui e ali se denunciam abusos: cremação de diversos corpos ao mesmo tempo, revenda das vestes, ornamentos e da própria urna. Se o morto é parte de um negócio, nada impede o mergulho no mundo da esperteza.

Nas orações diante de um morto lembramos a alegria trazida por aquele corpo, sua purificação pela água batismal, sua unção com o óleo do Crisma, sua alimentação pelo Pão eucarístico, agradecemos a Deus pelo instrumento de amor que foi e pedimos perdão se foi instrumento de ódio, violência, ou se foi maltratado pela fome, pelas misérias de nosso egoísmo.

Como é bom que aprendamos a lembrar, com Simone Weil, que a maior graça que nos é dada é saber que os outros existiram. E que continuam a existir.

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«O hoje cristão transcende o tempo»

21Na vida compassada entre o relógio e o calendário damos muito valor ao significado dos dias e tempos, o que não aconteceu na virada do primeiro para o segundo milênio, quando a noção de divisão de tempo era desconhecida da grande maioria. E assim, para nossa emoção, estamos no oitavo ano do terceiro milênio! A Nova Era o anunciou como a era de Aquário, era de paz e fraternidade, e a cada dia machucamos a história com guerras, terror, mortes.

Nós, cristãos, continuaremos a viver o anúncio dos anjos: «Hoje nasceu um Salvador, o Cristo Senhor». Um hoje que transcende o tempo e participa da eternidade de Deus. Não somos movidos pelas previsões, mas conduzidos pela esperança.

Na vida da Igreja, o segundo milênio teve início com a ruptura entre a Igreja Latina e a Ortodoxa, uma ferida dolorosa, pois privou estas duas pujantes formas de catolicismo da mútua fecundação das suas riquezas espirituais e teológicas. A metade do segundo milênio viu nascer mais uma ferida no corpo eclesial, a reforma protestante, que dividiu o Ocidente católico.

A cada ano permanecem palpitantes duas agendas religiosas: o ecumenismo e o diálogo inter-religioso. Recuperar a túnica inconsútil da Igreja e saber dialogar proveitosamente com as grandes religiões. Nas pegadas de seu Senhor, a Igreja sempre mais renunciará a se apresentar como potência religiosa, para ser humilde e dedicada servidora do mundo.

Além do desafio da salvação humana, intrínseco à fé cristã, a Igreja é chamada a um outro compromisso: o da salvação da Criação, conseqüência de sua fé no Deus Criador. Após séculos de devastações, agressões ao meio-ambiente, de consumismo e desperdício acelerados nas últimas décadas, o mundo já era. É preciso correr atrás do prejuízo para que o ser humano salvo tenha onde morar e viver. Por um engano, com raízes filosóficas e religiosas, por ter hiperbolizado a compreensão de sua natureza, o ser humano confundiu seu serviço à Criação com o domínio da Criação. Deu no que deu, pois os recursos naturais não são inesgotáveis. É impressionante como agora estamos vendo os frutos de nossa blasfêmia contra o Criador: rios e lagos poluídos, matas devastadas, buraco na camada de ozônio, espécies em extinção e os lixões – essas cloacas do desperdício humano – desafiando a administração pública. A natureza é generosa e oferece uma oportunidade a cada um de nós, e para os cristãos isso é compromisso. A teologia não pode estar separada da ecologia. A natureza é a primeira tenda de Deus entre nós.

Uma nova ciência desafia a compreensão cristã da vida humana: a biotecnologia, a manipulação genética de embriões com fins terapêuticos. A ciência não pode manipular a vida humana, sagrada: «Sobre a terra, o homem é a única criatura que Deus quis para si mesmo», ensinou a o Concílio do Vaticano II. Afirmou João Paulo II: «A gênese do homem não corresponde apenas à lei da biologia, mas diretamente ao querer criador de Deus, Deus o ‘quer’ em cada concepção.». É o bom combate necessário defender a dignidade humana do embrião a partir da concepção.

Uma grande agenda para nós, cristãos, que não faltaremos em generosidade com o Deus da vida, mais uma vez, como a cada ano enquanto durar a História.

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«CREIO NA COMUNHÃO DOS SANTOS»

Todos os Santos

Todos os Santos

Nós cremos na oração em favor dos vivos e dos mortos, porque Cristo, o único mediador, está no meio de todos e leva ao Pai nossas preces. O amor de Deus não permanece insensível às súplicas de seus filhos, e também se sensibiliza se algum de seus filhos opta pelo caminho da perdição.

Martin Heidegger, filósofo alemão, afirmou que “a morte é a plenitude da vida”: como cristãos podemos deduzir que é o momento em que abrimos nossas mãos diante de Deus e lhe apresentamos tudo o que fizemos com o dom de nossa vida. Quem sabe, naquele momento, muito pouco de bom teremos a mostrar mas, esse é o milagre, podemos mostrar ao Senhor as orações que se fizeram ou farão por nós. E o coração divino se enternecerá diante de tantos que por nós rezam ou rezarão: ele, eterno presente, tudo conhece.

É da necessidade de um coração cristão rezar pelos que morrem e pelos quais ninguém chora, reza, pelos que são sepultados como “indigentes”, como necessitados, dos quais ninguém tem necessidade. Rezar por aqueles aos quais tantos “mandam” para o inferno!

“Saber amar aqueles que se perderam e amá-los mesmo na sua perdição”, ensinava o humilde mendigo romano, São Bento Labre. Também os que porventura estão no inferno são amados por Deus e devem ser amados por nós. Até podemos crer que antes do Juízo final eles serão tocados pelo amor e reavaliarão sua opção de uma eternidade sem Deus. O amor tudo quer e tudo pode!

Se estamos sofrendo, ofertemos as dores: todas as dores que não libertam são dores perdidas. Por que desperdiçá-las? Cada vez que resgatamos um pecado, tornamos o mundo melhor. Esse resgate é a retribuição que podemos apresentar aos milhões de inocentes sofredores que remendam continuamente o tecido do mundo rasgado pelo pecado. O sofrimento do inocente clama ao céu por justiça e pela redenção dos injustos.

O inferno – anjos e homens sem rosto

O inferno é a consciência trágica da não-comunhão, a consciência de enfermidade do próprio eu. É fruto de uma escolha, na vida terrena, de viver sem comunhão. O homem foi feito para a comunhão com Deus, com os outros e, ao mesmo tempo, sua vontade de estar curvado sobre si mesmo priva-o dessa comunhão. É, para o condenado, desespero em estado puro saber que continua sendo uma pessoa e escolhendo um modo de vida radicalmente contrário.

São Macário (século IV) afirma que um condenado lhe contou que seu suplício no inferno era não poder ver a face do outro; eles estão ali, lado a lado, até de mãos dadas, mas não se podem ver. De tempo em tempo, graças às orações dos cristãos, um pode ligeiramente ver a face do outro e o sofrimento é diminuído. Estamos doentes quando uma agressão nos suprimiu a capacidade de nos comunicar, a comunhão. O pecado é a tentativa de preencher essa solidão existencial.

É o rosto que caracteriza os seres que só podem viver se em comunhão: Deus, os anjos, os seres humanos. O demônio não tem mais rosto e, por isso, procura suprimir o rosto dos outros (Bertrand Vergely, filósofo e teólogo ortodoxo francês, nascido em 1953). Cair em tentação é ceder o próprio rosto ao demônio e entrar em desespero, tentando roubar o rosto do próximo, provocando violência avassaladora. O pecador vive essa realidade infernal, mas dela pode se libertar tanto por abertura à graça quanto pela prece dos fiéis.

O céu – Deus, anjos e homens em comunhão

“A fé cristã não é um sistema de doutrinas, mas o modo de reabilitar o homem decaído, em virtude da crucifixão do Homem-Deus e com a graça do Espírito Santo” (Teófano o Recluso, Cartas I, 135). A fé cristã nos tira da solidão em que o pecado nos mergulha e, através do Filho que assumiu a natureza humana, recupera a felicidade da comunhão e, nela, a verdadeira oração leva a uma intensificação do amor pelo próximo. E o amor pelo próximo leva a uma intensificação da oração.

“A maior graça que temos é saber que os outros existem!” (Simone Weil, 1909-1943). Não há maior felicidade para um ser redimido do que saber que há outras pessoas diante dele, pois “o maior dom que podemos receber é o outro”. A jovem convertida francesa, mística cristã sem nunca pedir o batismo, conclui que é o outro que nos possibilita dar sentido à vida através da ação e da contemplação: agir pelo Outro/outro, contemplar o Outro/outro, isto é, Deus e o homem.

Se no pecado cedemos nosso rosto para o demônio e o roubamos do outro, na vida celeste da graça o rosto é transfigurado e procurado, porque refletido sempre na Luz do rosto divino.

O céu é a comunhão com Deus. À imagem da Trindade, um Deus em três Pessoas, somos/seremos um com Deus, dele inseparáveis na comunhão eterna: nossa existência individual não subsistirá e sim, nossa pessoa, que é sempre comunhão. A melhor imagem do Céu é a Liturgia: a comunhão de todos na Trindade ao redor da mesa que se faz altar. Felizes nós, os convidados para a Ceia do Senhor!: naquele dia, que será dia para sempre, não seremos mais convidados, mas comensais. E queremos, de coração, que toda a família humana esteja reunida na comunhão eterna.

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NOSSOS MORTOS, UMA PRESENÇA

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Comunhão dos Santos

Numa sexta, à noitinha, o pai foi surpreendido pela mais triste das notícias: seu filho de 18 anos acabara de falecer, vítima de acidente automobilístico. Além da dor, a revolta contra Deus: o filho viajava para auxiliar seu grupo jovem num retiro espiritual. É assim que Deus acompanha os que por ele trabalham?

Passado o primeiro luto, a angústia das primeiras dores, sobrava o sentimento da solidão: Felipe era filho único e os espaços que ocupava na vida familiar, na casa, estavam vazios. Uma nuvem obscura substituía sua presença luminosa de jovem, de jovem bom.

O pai buscou socorro e o encontrou onde menos aceitaria naquelas horas: na vida de fé. Durante a celebração da Missa ele escutou o padre rezar: “Lembrai-vos dos nossos irmãos e irmãs que morreram na esperança da ressurreição e de todos os que partiram desta vida: acolhei-os junto as vós na luz de vossa face”. Surgia um ponto luminoso no coração de pai mergulhado na penumbra: seu filho acreditava em Deus, esperava na ressurreição, então foi acolhido na luz da face divina. Refletiu um pouco mais: “meu filho está diante da face de Deus; na celebração da Eucaristia estamos todos mergulhados na glória da Trindade divina; junto de Deus estão todos os que são dele; meu filho está junto de Deus”.

E fez-se a luz: “meu filho está aqui, como em cada celebração eucarística, pois nela se reúne toda a família divina. Aqui sempre posso me encontrar com Filipe”.

Daquele dia em diante, mudou a vida do pai: participava da Missa todos os dias e todos os dias se encontrava com seu filho. Um encontro profundo, delicado, na glória do amor de Deus. A presença de Filipe era tão clara como a presença de Cristo: o encontro era mais profundo do que o encontro físico, porque na realidade da comunhão dos santos.

Onde Deus está também estão todos os que são de Deus. Não é possível a solidão, porque não é real a separação: misteriosamente Deus nos une com os nossos, com todos os nossos. Santa Mônica, mãe do grande Santo Agostinho, entendeu o valor da Missa quando pediu, ao morrer: ‘Ponde este corpo em qualquer lugar. Não vos preocupeis com ele. Só vos peço que vos lembreis de mim no altar de Deus, onde quer que estiverdes’”(Confissões, L. 9, 11).

Pelo mesmo motivo, a Missa é uma celebração de cura e libertação, tanto nossa como dos nossos. Nela, a comunidade cura as feridas dos que morreram e foram esquecidos. E como são numerosos, hoje, os esquecidos: os enterrados como indigentes, os destroçados pela guerra, pela violência, os aniquilados pelas drogas. Tantos que morrem chagados, doentes, sem ter quem lhes trate as feridas. E nós podemos tratá-las durante a celebração da Missa. Podemos curar as chagas de nossos relacionamentos mal sucedidos com aqueles que morreram enquanto não os amávamos, talvez nossos pais, cônjuges, irmãos, parentes, porque presentes e essas mágoas têm cura na Eucaristia. Os mortos pelo aborto, cujos anjos contemplam a face do Pai que está nos céus, querem curar a dor e o remorso dos que o praticaram: a Missa cura e liberta, porque nos encontramos todos e podemos estabelecer um ininterrupto diálogo de reconciliação.

Às vezes sofremos dores que médico nenhum diagnostica: são dores dos pecados, dores de pessoas que morreram e delas nos esquecemos. As presenças, deles e nossas, na Eucaristia, podem curar esses sofrimentos que nos tiram a paz.

A Missa é a grande medicina dos filhos de Deus. A Igreja põe diante de nós esse grande tesouro da oração pelos mortos, da reconciliação com os mortos, do reencontro feliz com nossos amigos. É para nós ocasião de ação de graças e, para os mortos, força no caminho da ressurreição.

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