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CELEBRAÇÃO DOS SANTOS E RECORDAÇÃO DOS FIÉIS DEFUNTOS

Escada de Jacó, nossa ponte para Deus (G. Cordiano).

«As coisas santas são para os santos», diz o presbítero na liturgia bizantina, antes da comunhão. E o coro responde: «Um só é santo, Jesus Cristo…». Um só é santo, é verdade, mas todos aqueles que a Eucaristia integra no corpo de Cristo participam dessa santidade. Todo ser humano, criado à imagem de Deus, tudo, penetrados pelo Espírito participam da santidade da existência universal.

No cristianismo das origens, cada comunidade era chamada «igreja dos santos», uma comunhão de redimidos/redentores chamados a orar, testemunhar, servir a fim de que se manifeste em cada ser e em cada coisa a ressurreição. A santidade é a vida finalmente libertada da morte.

Pouco a pouco tomou-se consciência de que alguns cristãos eram testemunhas mais eloquentes, primeiramente os mártires, depois os confessores da fé. Seus túmulos se tornaram lugares de peregrinação, sobre muitos deles ergueram-se igrejas com o altar sobre o túmulo. A comunidade que ali celebrava a Eucaristia queria testemunhar a mesma fé pela qual viveram ou deram a vida. No Ocidente, no ano de 835 foi fixada a festa de Todos os Santos para o dia 1º de novembro. Depois, fixou-se para o dia seguinte o «dia dos Finados»: os mortos são arrastados pelos santos, que sabem não existir mais a morte no Ressuscitado; os mortos são mergulhados no imenso rio de vida da comunhão dos santos.

Numa sociedade secularizada, como a nossa, a morte muitas vezes é ocultada e grandes figuras de santidade são distorcidas e acabamos com o sentido profundo de Todos os Santos. Ainda vamos ao cemitério, limpamos os túmulos, acendemos uma vela, depositamos algumas flores. A maioria nem reza. Mas, precisamos retornar à festa de Todos os Santos, porque ela nos traz, em sua riqueza, a memória dos mortos. Disse Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida” e, para ele os santos abrem caminho, pois se identificaram com o único ser vivo e puderam dizer: «Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim» (Gl 2, 20).

Os santos fazem circular o amor no corpo de Cristo, e sem dúvida no mundo inteiro que misteriosamente se torna eucaristia. Às vezes, enquanto rezamos por alguém que há pouco nos deixou, lembramos também de pedir-lhe que reze por nós. A festa de Todos os Santos abre nossos olhos para a santidade escondida em cada pessoa ou mesmo sobre a santidade da terra (e é por isso que amamos o Cântico das Criaturas de Francisco de Assis).

O corpo de nossos mortos, recordação de uma vida

Em dois de novembro, Comemoração dos Fiéis Defuntos, nos dirigimos aos cemitérios e com carinho acendemos velas nos túmulos das pessoas queridas. Pais recordam filhos que partiram, filhos recordam pais, esposos lembram os mortos, amigos pranteiam amigos: todos agora igualados pela morte, na expectativa da feliz ressurreição. Ver um túmulo nos pode desafiar a fazer o bem que aquela pessoa ali recordada fez, ou evitar, sem julgamento, a violência que essa pessoa criou ao seu redor. Recordar os artífices da justiça, da paz e da beleza, nossos ancestrais ou contemporâneos. O cemitério é a casa da memória, da gratidão, da reconciliação. Oferece-nos uma visão da fragilidade humana e um desafio à santidade a que somos chamados por nossa imagem e semelhança de Deus.

Espalha-se a cremação de cadáveres, iniciada no século XIX no ardor do ateísmo/panteísmo/materialismo e hoje muito especialmente em países secularizados. Decide-se por túmulos sem nenhuma identificação ou por espalhar as cinzas ao vento. Iniciamos dizendo que o Código de Direito Canônico, o Catecismo da Igreja Católica (n. 2301) e o Diretório sobre a Piedade popular não opõem obstáculos à cremação em si, mas quanto à motivação e ao destino das cinzas.

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Antonio Canova – Carita’ elemosina (Dijon Museum)

Muitas pessoas têm dificuldade de encarar a morte de seus semelhantes, pois quebra o ritmo ordinário da vida com a imagem de alguém que se ausenta. Na sociedade secularizada a morte é muitas vezes ocultada. Melhor encerrar tudo entregando o cadáver a uma empresa, para evitar o incômodo de um “morto”, por mais querido que seja. A cremação surge como um caminho breve. Mas, será que a cremação respeita o desejo dos parentes e amigos que gostariam de visitar a sepultura? Não estaria subjacente a negação da dignidade do corpo, em vida comunicador de vida, de afeto, de trabalho, de alegria? Em outros tempos previa-se até uma Missa do Cadáver, celebrada nas Faculdades de Medicina: unia-se ali a oração pelos mortos ao respeito pelos cadáveres que seriam objeto de estudo dos acadêmicos. Era o respeito pelos restos mortais de pessoas nem conhecidas.

A face mais delicada é a possibilidade interrompida da memória dos que nos precederam, negando aos descendentes a memória dos antepassados. Por que hoje se dá tanta importância à busca dos restos mortais das vítimas das guerras, dos genocídios, das vítimas da violência e das ditaduras? É o desejo sagrado de dar-lhes uma sepultura, um lugar de descanso. Veja-se a dor dos parentes das vítimas de acidentes aéreos: como dói não poder contemplar e sepultar os restos mortais de pessoas queridas!

Após o ato da cremação – geralmente feito com grande respeito – espera-se em casa a urna com as cinzas. Alguns as dispersam no mar, outros em um jardim, outros as guardam em casa. Psicólogos e sociólogos advertem: o rito da cremação quebra o rito do luto com a entrega dos restos mortais a uma empresa. Guardar as cinzas em casa cria um ambiente onde não se faz a distinção do lugar dos vivos e dos mortos, com um clima doentio de luto sem fim. A urna com as cinzas, guardada em casa, pode ser respeitada pelos parentes atuais. E no caso da venda do imóvel, anos depois, não haveria o perigo de se jogar tudo no lixo?

Talvez o lado mais grave do dispersar as cinzas ou conservá-las em casa seria o negar a memória pública dos que nos precederam. Uma sociedade caminha olhando os caminhos traçados pelos antepassados. O corpo de nossos mortos é relíquia venerável ou incômoda? Uma solução apresentada é haver nas igrejas, capelas de cemitérios, espaços onde colocá-las por algum tempo, até a superação natural do rito da saudade. E depois depositá-las nos locais públicos onde são inumados muitos falecidos.

Outro perigo é a transferência do rito do sepultamento para empresas que lucram com ofertas de cerimônias sofisticadas, mas que tiram o envolvimento dos familiares. Já existe mercado de luxo para velório, cremação de pessoas (e de animais de estimação). Aqui e ali se denunciam abusos: cremação de diversos corpos ao mesmo tempo, revenda das vestes, ornamentos e da própria urna. Se o morto é parte de um negócio, nada impede o mergulho no mundo da esperteza.

Nas orações diante de um morto lembramos a alegria trazida por aquele corpo, sua purificação pela água batismal, sua unção com o óleo do Crisma, sua alimentação pelo Pão eucarístico, agradecemos a Deus pelo instrumento de amor que foi e pedimos perdão se foi instrumento de ódio, violência, ou se foi maltratado pela fome, pelas misérias de nosso egoísmo.

É bom que aprendamos a lembrar, com a filósofa Simone Weil, que a maior graça que nos é dada é saber que os outros existiram. E que continuam a existir. A festa de Todos os Santos, iluminando a memória dos mortos, nos lembra que Cristo continua incessantemente a vencer a morte e o inferno. Um santo monge do Monte Athos afirmava: enquanto uma alma morar no inferno, aprisionada pelos muros da própria rejeição, Cristo estará com ela no abismo da morte, e com ela estarão todos os redimidos, a suplicar que também ela se abra à eterna festa de TODOS os Santos.


Pe. José Artulino Besen

 

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A MENINA QUE EXPLICOU A MORTE

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Esperávamos a paz, e construímos uma década de violência, de guerras. Países em guerras fratricidas no mundo árabe da Síria, do Iraque, do Oriente médio. Nações africanas em guerras internas, cujo único objetivo é a garantia do poder e do domínio sobre riquezas e populações. Em nosso mundo latino-americano sofremos a guerra pelo tráfico e pelos pontos de drogas. Nos países ricos assistimos a outra guerra, a da rejeição dos migrantes, dos fugitivos do mundo conflagrado que diariamente tentam encontrar novo chão, nova pátria, e encontram a expulsão, o desprezo a deportação.

Milhares de famílias abandonam sua terra e seus bens e atravessam fronteiras esperando alguma acolhida, mas são acolhidas pela ordem de retorno ao lugar nenhum, pela deportação. São consideradas peso morto, ameaça ao conforto dos países ricos. As famílias deixam de ser famílias: são mães abandonadas, crianças fugindo pelas estradas e ruínas, homens tentando salvar algum coisa, jovens deserdados da esperança. As imagens geradas por esses dramas quase não comovem, pois  a violência continua e as ruínas aumentam com destruições sempre maiores.

Mas, sem dúvida, o que mais nos fere são as imagens das crianças, das quais se rouba a infância e que são marcadas a ferro pelo vírus da violência, a ponto de não conhecer outro tipo de vida. Apesar disso, as crianças brincam, jogam bola, as meninas se fazem de professoras, realizando o milagre da  vida mas injetando no coração o sentimento da violência, pois foi isso que sempre viram e sentiram. Leia o resto deste post »

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HÁ 50 ANOS, DESPEDIDA DE NOSSA MÃE LÚCIA

1964 - 25 de novembro - 2014 - Encomendação e Despedida de nossa mãe

1964 – 25 de novembro – 2014 – Encomendação e Despedida de nossa mãe

Não creio que haja diálogo mais doloroso do que esse, em 29 de novembro de 1964, quando Pe. Osmar Müller me perguntou: – “Então sua mãezinha morreu, não é mesmo?” Só lembro que fiquei muito envergonhado, pois os soluços não me deixaram falar. Senti-me o adolescente mais infeliz do mundo e na pior idade para ouvir essa pergunta afirmativa.

Era verdade: três dias antes, na igreja matriz de Antônio Carlos, ainda sem reboco, estávamos reunidos meu pai, e meus irmãos Maria, Nesir, eu, Cecília, Inês, Ivone, Pedro e Sebastião. Esse último, o caçula, estava com seis anos e Maria, a mais velha, com 17. Imenso e tranqüilo, como a nos envolver num único abraço, meu pai Artulino: 44 anos de idade e 8 filhos para criar e educar. Não era imenso, mas parecia ser, pois era nosso único refúgio humano. Tranquilo, sim, pois não tinha oportunidade para expressar dramas. Lembro o momento mais belo – na extrema dor há muita beleza –, na hora da Consagração, quando o coral cantava o hino “Mais perto do meu Deus, ó Pai do céu, em dura provação, e tentação. Quando em pavor gemer, hei de fiel dizer: mais perto do meu Deus, ó Pai do céu!”. Ouvi-lo foi tão doloroso que cuidei para nem ao menos suspirar, assim prejudicando a beleza pungente desse canto de fé cantado nos últimos momentos do naufrágio do Titanic, em 1912. Tantas vezes o tinha cantado e escutado, mas somente nesse momento ouvi-o de verdade.

No meio de meus irmãos, tios, primos, povo, Pe. Alfredo Junckes, ao lado do cadáver de Lúcia Pauli Besen, minha mãe, senti-me vítima de divina injustiça na provação e na tentação. E me fiz a pergunta idiota que daí para frente escuto, e já são 50 anos: “Por que nós?” Tempos depois penso que faria uma afirmação mais equilibrada, porque a convivência com a dor nos torna misericordiosos: “Felizmente nós, e não os outros”. Missa terminada, o sepultamento, no antigo cemitério, ao lado da igreja. Passava das 11 horas de um dia de muito calor. O povo, generoso com sua presença, olhava-nos com ternura e solidão, porque nada podia fazer, e se retirava. Recordo que Ivone chorava desconsolada e pedi que parasse, pois não ficava bem. Estética das lágrimas num adolescente que guardou-as para derramá-las nas décadas seguintes, aumentadas com a morte de meu pai e do caçula Sebastião, que morreu aos 47 anos, mesma idade daquela que sepultávamos.

Na véspera, 25 de novembro, ao desembarcar em Biguaçu, mal informado, perguntei ao motorista: “E como está a mãe?” A resposta foi seca: “Já morreu nessa madrugada”. Passados 50 anos, acho que foi a melhor resposta, unindo perfeita dor com perfeita verdade, sem encantamentos que eventualmente poderiam postergar a dor, não suprimi-la. E eu tive uma certeza: não temos mais mãe.

Agora já estava sepultada, numa carneira, e nos foi dado o consolo de não escutar a música fúnebre das tradicionais pazadas de barro, cadenciadas ao ritmo do choro. E meu pai falou: “Filhos, vamos para casa, que o pai vai preparar o almoço”. O pai não teve tempo para lamentos, as oito bocas pediam comida.

A noite que antecedeu o enterro e a tarde que seguiu foram os tempos mais longos de minha vida. Tinha o sentimento de que o tempo voava, mas é porque estava parado. Aproveitei e escrevi carta para Mons. Valentim Loch, reitor do seminário de Azambuja, onde estava internado. Ignoro os caminhos, mas parou com minha irmã Nesir que a guardou, mostrou-me, mas não li. É um cofre que vela os sentimentos daquela tarde há 50 anos, e acho que não fica bem violá-los.

Antigas recordações que não envelhecem

Lúcia Pauli Besen - nossa mãe

Lúcia Pauli Besen – nossa mãe

Lúcia, nossa mãe, nasceu em Antônio Carlos em 12 de setembro de 1917. Bárbara, sua irmã, ingressou no convento das Irmãs da Divina Providência em Florianópolis. Pouco depois, ela também teve autorização para segui-la, o que lhe deu o privilégio de estudar no Colégio Coração de Jesus, assim aprendendo a falar em português. Era postulante devota quando se dirigiu à Irmã Bernadete: “Irmã, quero deixar o convento”. Diante do susto da formadora, afirmou com segurança: “Quero me casar para ter uma filha freira e um filho padre”. Saiu, e conseguiu trabalho no Hospital de Caridade onde, pela competência e dedicação, mereceu ir para o centro cirúrgico como instrumentadora do Dr. Richard Gottsmann, que nela apreciava a atenção, a rapidez e o falar alemão. Não engane o nome “Gottsmann” – homem de Deus, porque era ateu devoto. Minha mãe, ingênua, queria convertê-lo para salvar-lhe a alma e Herr Doktor sempre repetia: “Já viu alma na barriga de alguém?” Em sua ânsia missionária teve de se haver com três alemães: Moellmann, Gottsmann, Freusberg.

O tempo passou, e lembrou a promessa de ter uma filha freira e um filho padre. Retornou à família e, em 7 de setembro de 1946, contraiu matrimônio com Artulino Besen. Os filhos foram aparecendo até o oitavo, em 1959. Hoje ainda recordo como nossa mãe dava conta do serviço: o lar, os filhos, nossa avó Catarina sempre doente, o quintal, as galinhas, tirar leite, cozinhar, fazer pão, aplicar injeções nos vizinhos, costurar toda a roupa da família, remendar as usadas, rezar e cantar. Rezar. E como minha mãe rezava. As Irmãs tinham-lhe ensinado o medo do pecado, mas não lhe lembraram a alegria de não pecar. Escrupulosa, num dia confessou-se duas vezes, para ter certeza, e sempre em alemão, para ter mais certeza ainda. Grande prazer de minha mãe era escutar notícias de outros países e depois conferi-las num Atlas geográfico, pois a palavra “estrangeiro” nela despertava emoções revividas olhando mapas.

Os filhos foram a alegria que o Senhor lhe concedeu nessa vida. E cuidou de nossa vida espiritual com zelo. Ao anoitecer, tirava-nos da cama para “tomar” nossas orações, primeiro para decorarmos e depois para rezarmos: Pai-nosso, Ave-Maria, Creio, Salve Rainha, as duas Consagrações e um bocado de Jaculatórias. Mesmo com tanto trabalho, permitiu aos três mais velhos estudarem fora, buscando a vida religiosa. E cumpriu a promessa: Maria, a primeira filha, tornou-se religiosa e missionária, hoje na Bahia. E ao mais velho, competia ser padre.

Lembro com muita nitidez da imagem que se formou em minha mente na hora em que o motorista disse: “Já morreu de madrugada”. À beira da BR 101, abandonado até pela solidão, a imagem que se formou em minha mente foi um flash: eu estava rezando a Primeira Missa sem a presença de minha mãe. E, daí em diante, tive que tomar a decisão vocacional sem o anteparo de alegrá-la.

No dia de Finados de 1964, quem conta é minha irmã Maria, nossa mãe falou, da porta da cozinha, olhando para o cemitério: “Este Mês estarei lá”. Foi a profecia. Meio século passado, neste 2 de novembro lembro tudo isso e pela primeira vez compartilho, por causa dela e de meu pai e meus irmãos. Nenhum de nós duvida de sua ressurreição.

Pe. José Artulino Besen

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CREIO NA RESSURREIÇÃO DA CARNE

Creio na ressurreição da carne!, afirmamos com alegria no 11º. artigo do Credo, nossa Profissão de Fé. “A confiança dos cristãos é a ressurreição dos mortos; crendo nela, somos cristãos”, se afirma desde o início do Cristianismo. A cada ano, no dia 2 de novembro, com a Comemoração dos Fiéis defuntos celebramos nossa fé em nossa ressurreição pessoal e na de nossos irmãos..

Em nossa sociedade hedonista, que reduz a perspectiva de felicidade para o aqui e o agora, crer na ressurreição parece desnecessário, porque se prefere afirmar que não há ressurreição e nossa sepultura é o último endereço. Se assim é, aproveitemos a vida e não percamos tempo com suposições, preferem muitos afirmar.

Nós cristãos, porém, cremos na ressurreição da carne, esperamos ardentemente o encontro final com o Criador. Essa esperança nos faz viver bem, porque cada dia é precioso, não podemos perder tempo, investimos a vida naquilo que é bom e justo. A fé na ressurreição faz de nossa vida uma escola de amor para o encontro com o Amor, uma escola de fraternidade para o encontro com o Pai. Com tão firme esperança, a morte não nos amedronta, pois sabemos que ela foi derrotada na Cruz. Existe a morte natural, afinal, nosso corpo segue os limites da natureza, mas não existe mais a morte metafísica, esse poder maligno que nos quer destruir.

Mas, o que é a ressurreição da carne? Primeiro, temos de responder a uma outra pergunta: o que entendemos por carne? Consideremos a Eucaristia: quando Jesus diz “quem come minha carne e bebe meu sangue” (Jo 6,56), está afirmando: “Quem me receber como alimento”. Carne e sangue significam a mesma realidade: a pessoa. Tanto isso é claro que comemos o Pão e estamos recebendo o Senhor em sua Carne transfigurada. Permanecem as espécies do pão e do vinho, mas agora transfiguradas no Corpo e Sangue do Senhor ressuscitado.

Somos espírito encarnado

Desse modo, quando professamos “creio na ressurreição da carne” estamos dizendo “creio na ressurreição da pessoa”. Na linguagem bíblica o termo “carne” significa pessoa na sua integridade. Nós não fomos criados corpo e alma, como duas realidades separadas: Deus soprou o espírito de vida num corpo que se tornou, desse modo, ser vivente, pessoa humana (Gn 2,7).

Por influência do dualismo grego, do platonismo (que dizia que a alma é prisioneira do corpo) somos levados a pensar o homem como composto de duas partes separáveis: o espírito e o corpo. Hoje somos convidados a superar essa dualidade, pois assumimos a linguagem bíblica: nós, carne, somos um espírito encarnado. Os anjos são espírito puro. Nós, porém, não somos anjos, somos homens e mulheres, somos alma na carne, de modo inseparável.

O Espírito que ressuscitou Jesus dentre os mortos dará vida a nossos corpos mortais mediante o Espírito que habita em nós (cf. Rm 8,11): “corpo”, aqui, é a pessoa humana cuja morte foi vencida por Cristo no Espírito.

E como fica nosso corpo que vai para a sepultura e se decompõe? Nós não sepultamos uma pessoa, sepultamos um cadáver. Não há ninguém enterrado nos cemitérios e sim, cadáveres que retornam ao pó. A morte foi vencida: nós morremos, sim, mas logo somos ressuscitados pelo poder do Espírito.

Há uma outra conseqüência: como não somos anjos, mas espírito encarnado, no momento da morte recebemos um corpo transfigurado, pois continuamos a ser humanos. A linguagem dualista diz que o corpo vai para a sepultura e a alma para o julgamento e, no final dos tempos, os dois se reunirão. Podemos crer assim, pois a tradição catequética da Igreja, inclusive o atual Catecismo, ainda se servem da linguagem dualista: corpo e alma. Mas, devemos superar o dualismo corpo e alma como fruto do aprofundamento da Palavra de Deus que nos afirma que o Criador criou anjos (puros espíritos) e o homem e a mulher (espírito encarnado). Aqui entra igualmente a antropologia, o estudo do ser humano: somos pessoas humanas porque somos espírito encarnado. Não somos divisíveis.

A eternidade, superação do tempo e do espaço

Surge muito a pergunta: e depois, o que acontece? Para onde se vai? No momento da morte nós deixamos a condição humana que vive no tempo (quando?) e no espaço (onde?). Então, não faz sentido perguntar nem o onde nem o quando. Houve época em que se falava em 10 anos de purgatório, cinco meses de purgatório e os artistas até desenhavam ou descreviam a situação do Purgatório. Não faz muito tempo, ainda se pintava o Purgatório como um lugar de fogo, sede, sofrimentos, mas, isso é contraditório, pois na eternidade não há tempo nem espaço. O Purgatório é um estado de purificação diante do Deus Amor e não um lugar.

Se é assim, qual o sentido de rezar por alguém que morreu anos atrás? Por que somos convidados a rezar pelos mortos? É muito importante essa oração, pois, no momento de nosso julgamento, Deus tem diante de si todas as orações feitas e que se farão por nós, como tem diante de si toda a nossa vida. Deus é o eterno presente: todas as nossas orações, Missas celebradas pelos falecidos no presente e no futuro estão diante de Deus.

Nesse instante sentiremos a dor de nosso amor imperfeito (purgatório), sentiremos a alegria de entrar na vida divina (céu) e podemos optar pelo desespero eterno (inferno). Tudo isso já acontece fora do tempo. Alguém perguntaria: e como fica o corpo se não há espaço nem tempo? A pessoa humana – corpo encarnado – é transfigurada pelo poder do Espírito. Veja o que aconteceu com Jesus: ressuscitado, continuou sendo Verbo feito Carne, mas entrava por portas fechadas, pois estava transfigurado. Assim seremos nós. E o que acontecerá com nossas cinzas no cemitério? Tanto João Paulo II como Bento XVI ensinam que a nossa ressurreição não supõe nossa natureza física atual: Deus nos dará um corpo glorioso.

Graças damos a Deus que nos oferece tão feliz herança: habitar entre os santos e anjos pela eternidade. E tudo isso, porque Cristo ressuscitou: “Se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação e vazia é também a vossa fé. Mas não! Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que adormeceram” (1Cor 15,12-14-.20).

Acima de tudo, tenhamos firme o olhar que contempla o Deus da misericórdia:

Um dia te encontrarei, e tu lerás em minha face
todo o desconforto, todas as lutas
todo o lixo dos caminhos da liberdade.
E verás todo o meu pecado.

Mas eu sei, meu Deus,
que o pecado não é grave,
quando se está na tua presença.
É diante dos homens que somos humilhados.
Mas, diante de ti, é maravilhoso sermos assim tão pobres,
a tal ponto somos amados!”
(Jacques Leclercq).

Pe. José Artulino Besen

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A MORTE, PLENITUDE DE VIDA

Cristo Ressuscitado na Igreja, penhor de nossa ressurreição (Centro Aletti)

Cristo Ressuscitado na Igreja, penhor de nossa ressurreição (Centro Aletti)

As almas dos justos estão nas mãos de Deus
e nenhum tormento as atingirá.
Eles estão em paz” (Sb 3,1-7).

Diante de um túmulo, onde acabamos de depositar os restos mortais de um familiar, de um amigo querido, de um jovem, uma criança, o silêncio é o discurso mais forte e convincente. O silêncio da morte se confraternizando com o silêncio da dor, da solidariedade. E, talvez, achemos que tudo foi um absurdo, que a vida não passou de uma grande ilusão, que o amor de Deus por nós foi uma brincadeira de mau gosto.

Pensamos que a morte seja o fim, que não valeu tanto esforço. Para um cristão, porém, não é assim. Ao descrente, a morte pode ser irmã da desesperança, mas para quem crê, a morte é apenas um passo que nos leva da esperança da eternidade feliz à posse da felicidade eterna.

A morte é a plenitude da vida. É o momento mais significativo da existência humana. Naquele momento em que os olhos se fecham para a vida terrena, a vida atingiu seu momento mais pleno: naquele instante colocamos nas mãos tudo o que fomos e fizemos em nossa vida. Como que, dizemos ao mundo e a Deus: “Eis o que consegui fazer com minha vida!”. Ali se encerra a etapa do crescer e fazer, do construir, do realizar o bem e o mal. O momento do nascimento foi o início de um projeto: o instante da morte é o balanço final deste mesmo projeto.

Não é importante viver muitos anos: o importante é nascer. Quando a criança vem à luz, inicia seu caminho para a eternidade. Um caminho longo ou breve, fácil ou difícil, levado com seriedade ou na brincadeira, mas um caminho que desemboca irreversivelmente na existência sem fim. No instante da morte fechamos os olhos à luz do mundo para, em seguida, os abrirmos às portas do Reino da Luz, onde existiremos no amor em plenitude, em Deus.

Não tememos esse momento, pois o Deus do amor e da misericórdia “que nos carregou ao colo e nos acariciou no regaço” (Is 66,12) é o motivo de nossa confiança. “Ainda que eu atravesse o vale escuro, nada temerei, pois estás comigo” (Sl 22,4).

A morte nos ensina como a vida é importante, decisiva. Ensina-nos, igualmente, como as pessoas são importantes. Tão importantes que fazem falta ao morrerem, deixam-nos um vazio impossível de ser preenchido, por que cada pessoa é única. Não será repetida. Sua vida foi uma missão dada por Deus. O que ela não fizer, ninguém mais o fará. Deus não nos fez criaturas descartáveis, mas necessárias para seu plano de amor. E mais: Deus não nos jogou no mundo como brinquedos nas mãos do destino. Criou-nos para sermos seus filhos, num primeiro momento vivendo a existência terrena e depois, junto dele, eternamente.

A partida de alguém nos faz mergulhar na saudade. Recordando as palavras do grande intelectual cristão: “Passamos a vida dizendo adeus: adeus aos anos, adeus à saúde, adeus aos projetos pessoais, adeus aos amigos. E num dia diremos A DEUS – vou para Deus”. Mas essa mesma partida do mundo é a chegada a Deus, que também tem saudades de seus filhos e os quer junto de si. Deus nos leva quando estamos maduros, “como um feixe de trigo que se recolhe a seu tempo” (Jó 5,26).E toda a despedida é um “até logo”, pois logo mais também chegaremos à plenitude de nossa vida, também nós abriremos nossos olhos à Luz eterna. E será o reencontro final na casa do Pai, na nossa casa: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Depois de ir e vos preparar um lugar, voltarei e vos tomarei comigo, para que, onde eu estou, também vós estejais” (Jo 14,2-3).

Pe. José Artulino Besen

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