PADRE MANOEL JOÃO LUIZ DA SILVA

Pe. Manoel João Luís da Silva

Pe. Manoel João Luís da Silva

Manoel João Luiz da Silva nasceu em Laguna, SC no dia 19 de dezembro de 1827. Passou a adolescência, dos 12 aos 15 anos, como caixeiro na casa comercial de seu padrinho, em Imaruí.

Alimentando o desejo de ser padre, conseguiu uma pensão dos cofres provinciais catarinenses e em maio de 1846 foi para o Rio de Janeiro e foi matriculado no Seminário São José do Rio Comprido, prestigioso e sério centro de formação humana e intelectual. Ali era ministrada rigorosa formação acadêmica, onde não se excluía o latim, o francês e o Direito canônico e o régio.

Foi ordenado padre em 4 de agosto de 1853, pela imposição das mãos do bispo Dom Manoel do Monte Rodrigues de Araújo, Conde de Irajá, sob cuja jurisdição canônica se encontrava o território catarinense até 1908.

No mesmo ano, em 8 de dezembro, festa da Imaculada Conceição, celebrou sua Primeira Missa na Matriz de Santo Antônio dos Anjos de Laguna, pregando do altar de Nossa Senhora do Parto, sua madrinha. Já trazia consigo a provisão de Vigário colado (vitalício) de Santo Antônio dos Anjos, assinada em 15 de setembro, após apresentação do Imperador. Sua posse coincidiu com a Primeira Missa. Não era costumeiro receber a vigararia colada no início do ministério: o padre fez por merecer..

Na histórica Laguna Pe. Manoel, “Padre Maneca”, viveu e exerceu o ministério por longos 57 anos, até 1911. Nesse mesmo tempo foi vigário interino de Santana de Vila Nova (1856), colado de Nossa Senhora da Piedade de Tubarão (1855), encarregado de São João Batista de Imaruí (1876-1877) e de Santana do Mirim (1899).

Ingressando na política, foi Deputado Provincial, como Suplente convocado à 12ª Legislatura (1858-1859).

Padre Manoel esteve profundamente ligado à sua terra, buscando seu desenvolvimento. Foi grande seu interesse na construção de um novo hospital. Apoiou a Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos, que possuía terreno em local favorável e começou, com muita disposição, campanha de arrecadação de recursos para iniciar a obra. A Irmandade Senhor Bom Jesus dos Passos, à qual pertenciam quase todos os membros da diretoria, teve papel decisivo nesta iniciativa.

Não se opôs que diversas propriedades da Laguna e região, pertencentes à Irmandade, fossem vendidas em prol da construção, assim como os lucros provenientes das festividades em honra ao Senhor dos Passos. Como a instituição era praticamente mantida pela Irmandade, foi solicitado ao Governo da Província a troca do nome do hospital, de São Francisco de Assis para Senhor Bom Jesus dos Passos, o que foi aprovado pela Lei No. 1.017, de 10 de maio de 1883.

A pedra fundamental do hospital a ser construído no Morro da Figueirinha foi colocada em 08 de setembro de 1879, com bênção oficiada pelo Pe. Manoel João Luiz da Silva. A construção estava pronta em setembro de 1884.

Igreja de Santo Antônio dos Anjos de Laguna - sem o acréscimo posterior das torres laterais

Igreja de Santo Antônio dos Anjos de Laguna – sem o acréscimo posterior das torres laterais

Do Padroado à República

O paroquiato de Pe. Manoel estendeu-se pelo Império e o Padroado, ingressou na República, com a separação entre a Igreja e o Estado; a paróquia pertenceu à diocese do Rio de Janeiro até 1892, quando passou à de Curitiba e, finalmente, à diocese de Florianópolis, em 1908. Pela correspondência que mantinha com Dom José de Camargo Barros e Dom Duarte Leopoldo e Silva, pode-se perceber que foi fiel e serena sua adaptação à nova organização paroquial e diocesana, centrada no bispo e no padre. Por ser vigário colado, tinha estabilidade de serviço e côngrua do Estado, mas não se prevaleceu desse privilégio recebido da Monarquia. Obedeceu às determinações quanto ao patrimônio das Irmandades, seguindo a orientação episcopal. Sua autoridade moral e bondade favoreceram, da parte do povo, a aceitação das normas do catolicismo romanizado.

Recebeu dois padres para coadjutores, mas dois padres difíceis de relacionamento, um italiano, Pe. José Francisco Bertero, em 1904 e outro, alemão, Pe. Inácio Rückert, em 1905. Pe. Manoel não tomava decisões sem consultar o bispo diocesano e o conselho foi: é melhor ficar sozinho.

Pe. “Maneca” era alto e magro, claro e corado, olhos azuis, cabelos grisalhos. Inteligente e preparado, todos o respeitavam. Nail Ulisséa, historiadora lagunense, descreveu Pe. Manoel como  “filho de Laguna, inteligência brilhante, caráter exuberante, orador sacro magnífico, uma bonita voz de tenor e extremamente hábil em angariar simpatia.

É indiscutível que a população lhe devotava uma amizade e um carinho que chegava às raias da veneração, e com isto conseguiu manter acesa a luz da fé em seus paroquianos, apesar do isolamento eclesial então vivido. Em 1904, quando completou seu jubileu de ouro sacerdotal, teve a maior homenagem que Laguna já prestou a um de seus filhos. Ao encerramento das festividades, Pe. Manoel subiu ao púlpito, junto ao altar de Nossa Senhora do Parto, sua madrinha, e a quem dedicara sua primeira missa, para agradecer ao povo e formulou a mais bela peça oratória de sua carreira. Dirigiu-se aos paroquianos pedindo perdão por não os ter dirigido melhor, pedindo, entre lágrimas, que esquecessem todas as faltas que havia cometido. O auditório chorava juntamente com ele” (cf. Três séculos da Matriz, 1976, p. 193). A tradição oral e padres que tiveram notícia falaram de uma verdadeira confissão pública dos pecados.

Com a criação da diocese de Florianópolis, em 1908, os antigos padres “brasileiros”, formados no Padroado imperial, patriarcas em sua comunidade, não eram bem vistos pelo novo bispo e pelo clero alemão e italiano, particularmente por serem casados. Buscou-se aposentá-los. Foi o que Dom João Becker sugeriu ao Pe. Manoel, que detinha o título vitalício de vigário colado, portanto inamovível: deu-lhe o título de Vigário Geral Honorário da Diocese de Florianópolis em 30 de abril de 1911. No dia seguinte, 1º de maio, Pe. Manoel renunciou ao benefício de vigário colado. Diferente de Dom José e de Dom Duarte, o alemão Dom João Becker, primeiro bispo de Florianópolis, media o padre a partir do celibato, sem levar em consideração o heroísmo desses sacerdotes que, por décadas, na solidão de pequenas e distantes paróquias, não tiveram nem retiro espiritual, nem acesso à formação.

Já apresentava sinais de doença e muita fraqueza, acentuadas pela promoção/punição da Igreja que o afastava do rebanho. Em 26 de junho do mesmo ano de 1911 pediu a confissão e o viático. Três dias depois, na festa de São Pedro e São Paulo, morria placidamente.

Chorando seu velho pastor e pai espiritual, quase toda a Laguna acompanhou o enterro. Padre Manoel João Luís da Silva vivera 84 anos, 57 como vigário de Santo Antônio dos Anjos da Laguna. Deve muito a ele o forte catolicismo lagunense e das adjacências. Afinal, educou na fé católica quase três gerações.

Pe. José Artulino Besen

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