PADRE RAUL DE SOUZA – CONFESSOR DE ALMAS

Pe. Raul de Souza

Penúltimo de 13 irmãos, Raul de Souza nasceu em Canelinha SC aos 05 de maio de 1922, filho de João Vicente de Souza e Júlia Maria dos Santos. De família de comerciantes, achava que não tinha “dignidade” para ingressar no Seminário, o que estaria mais reservado aos alemães e italianos, pois “brasileiro” não tinha capacidade para ser padre. Depois pensou diferente.

Em 1941, aos 17 anos, acompanhado por um amigo, matriculou-se no Seminário de Azambuja. Estudos exigentes, não fáceis de serem vencidos nessa idade, forçaram-no a muita dedicação. Venceu as etapas de estudo e foi ordenado presbítero em Nova Trento, em 4 de dezembro de 1955. Era um desejo e promessa ser ordenado aos pés de Nossa Senhora do Bom Socorro, nessa cidade. Seu lema de ordenação foi inspirado em São Francisco Xavier: “A Deus, a glória; aos homens, a salvação; a mim o trabalho“.

Em 04 de maio de 1956 foi nomeado vigário paroquial de Nossa Senhora de Fátima, no Estreito, da qual foi vigário substituto em 1959. No ano de 1960 recebeu a provisão de pároco em sua Canelinha natal. Era cioso da presença da Igreja católica, e sempre combateu os missionários de outras denominações religiosas que se aventuravam a confundir seu rebanho. Combateu com todas as forças a “intrusão” de pastores crentes, mantendo em funcionamento um serviço de alto-falante para prevenir o povo contra os hereges: “Alô, povo de Canelinha, estão andando pela rua uns pastores da heresia protestante. Cuidado! Não dêem atenção. Rezemos uma Ave Maria”.

De 21 de dezembro de 1961 a fevereiro de 1969 foi pároco do Divino Espírito Santo, Camboriú. Problemas de saúde o obrigaram a permanecer um ano no Rio de Janeiro, em 1969. Sua disposição para o trabalho pastoral escondia a realidade de não gozar de boa saúde, mas Pe. Raul cuidava muito dela, sendo o paciente ideal para qualquer médico: sempre obediente às prescrições. Queria viver 104 anos!

Em 12 de abril de 1970 Pe. Vito Schlickmann foi transferido para o ofício de reitor em Azambuja e para ocupar seu lugar Pe. Raul foi nomeado Reitor do Pré-Seminário em Antônio Carlos, experiência que lhe foi dolorosa: o Seminário estava para ser fechado e abrigava uma Escola Básica: não tinha vocação para trabalhar com estudantes e jovens, dos quais exigia obediência estrita e vida de oração.

Pároco zeloso, administrador eficiente

Retornou à atividade paroquial em 03 de fevereiro de 1971 como pároco de São Cristóvão, Cordeiros, Itajaí. Ali tinha trabalhado o Pe. Tahecyl Tavares, que levara aos extremos a renovação paroquial e litúrgica: dispensava os paramentos litúrgicos, os ministros guardavam o Santíssimo em casa, organizou uma pequena “armada” com o sindicato de colonos, tendo espingardas guardadas atrás do altar para uma futura guerra aos opressores. Organizou os colonos em cooperativa, reservando um lugar atrás do altar-mor para a guarda do leite a ser vendido. Pe. Raul era o contrário de tudo isso e não soube aproveitar os elementos positivos da experiência. Empenhou-se ao máximo para o retorno à Igreja tradicional. A história posterior deu-lhe razão, mesmo com a perda de ótimas lideranças da ação católica. Ergueu a nova igreja matriz e o salão paroquial. Aliás, Pe. Raul gostava de construir, reformar, fazer festas e campanhas. Filho de negociante, tinha muito traquejo.

Em 21 de abril de 1980, foi nomeado pároco de Santo Antônio, Campinas, São José, sucedendo a Mons. Vendelino Hobold. Campinas foi a paróquia de seu coração. A amizade com a família Vieira possibilitou-lhe concluir a igreja matriz e erguer o espaçoso Centro paroquial e a casa paroquial. Com Germano Vieira prefeito, o telefone resolvia os problemas de material e mão-de-obra.

Em 1987, a contragosto, foi transferido para o Saco dos Limões, Florianópolis. Sempre doente, mas nunca desanimado, fez o que lhe foi possível, contando de modo especial com a colaboração do Movimento de Irmãos.

Como sempre falava que seu sonho era ser Capelão do Hospital de Azambuja, Dom Afonso acreditou e em 05 de junho de 1990 o nomeou capelão. Depois, Pe. Raul comentaria duas coisas, opostas: foi um exílio forçado/foi o ano mais feliz de minha vida! Era a obediência pulsando em seu coração sacerdotal. Ele próprio se enganara, pois seu estilo de vida sacerdotal era visitar famílias, dar catequese às crianças, organizar festas e promoções, o que não se coadunava com ser capelão de doentes dentro de um hospital. Um ano depois, em 1991, foi provisionado na paróquia São Cristóvão, Dom Joaquim, Brusque. Mas, a saudade sua tinha endereço: Campinas! Nunca a esquecera.

E assim, em 29 de janeiro de 1993 foi nomeado vigário paroquial de Santo Antônio de Campinas. Teve a felicidade de celebrar com muita festa e muitos amigos o Jubileu de Ouro sacerdotal em 04 de dezembro de 2005. Na paróquia de Campinas contou sempre com a amizade e o apoio dos párocos Pe. Sérgio José de Souza e, a partir de 2002, Pe. Hélio da Cunha, que tinha conhecido em Antônio Carlos. Era ali, um confessor sempre disponível e procurado.

Amigo das famílias e confessor

Foi um homem tradicional em todos os sentidos: abominava falar em política, em conscientização, ainda mais por sua amizade com políticos. Para ele, a missão da Igreja era salvar almas, olhar a vida eterna e não se meter naquilo que não é espiritual. Devoto do Bom Jesus, a cada ano peregrinava a Iguape em 06 de agosto, para fazer suas devoções. Também tornou-se conhecido por rezar um poderoso Responso de Santo Antônio e para isso era muito procurado por quem tinha perdido alguma coisa. Muito econômico, se julgava pobre e, desse modo, não usufruiu dos bens que adquirira durante o trabalho.

Pe. Raul de Souza era muito família: gostava de a cada dia visitar uma casa, dar a bênção, conversar. Um homem feliz, que cultivava os amigos. Viu no Movimento de Irmãos uma grande força para a vida paroquial e lhe dedicava todo o tempo necessário. Foi um dos introdutores do Movimento na Arquidiocese de Florianópolis.

Outra característica: o amor ao Confessionário. Gostava de afirmar que a mais importante missão do padre era a de confessor. Tinha um sentido forte do pecado e na confissão sentia a grande graça do ministério. Atendia às confissões sem pressa, ajudava o penitente, interrogava, chegando a minúcias.

Tendo consciência de ser padre/pai, estendia-se nas homilias para aconselhar, instruir, repreender. Para simbolizar a paternidade, gostava de fazê-la assentado.

Sua saúde definhava rapidamente e perdeu bastante de sua memória. Passou os últimos meses de sua vida no Lar São Francisco, em Santo Amaro. Ali, em 02 de agosto de 2008, entregou a alma a Deus. Obedecendo a um pedido seu, foi sepultado em Antônio Carlos, numa área reservada aos padres falecidos. Dizia querer ser enterrado onde o povo rezasse por ele.

Viveu 86 anos, 52 no ministério presbiteral. Servo bom e fiel, cumpriu seu lema: “A Deus, a glória; aos homens, a salvação; a mim, o trabalho”.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Eugenio Inácio Martini em 15 de novembro de 2011 - 19:31

    Padre Raul, deixou saudades. Fui coroinha em suas andanças pelas capelas de nossa paróquia em Cordeiros Itajáí-sc. Também o acompanhei algumas vezes nas segundas feiras na praia se não me engano chamada “zimbro” onde ia descansar. Aquele lugar era estranho, não tinha luz elétrica, era no só lampião. Nas festas de São Cristóvão, padroeiro dos motoristas, ele me colocava a contar os carros da procissão. A alegria dele era a cada ano bater record de participação de veículos. As festas eram animadas, eu mesmo era responsável pela barraca de tiro ao alvo. Nós jovens tínhamos uma “bronca” com ele e o chamávamos de “ovo estralado” devido a ele ser baixinho e sentado no seu fusca só aparecer a careca. A “bronca” era porque nas festas queríamos colocar som mecânico jovem e ele só contratava banda musical com aquelas músicas italianas e alemãs. Foi um bom padre. Nada o desabonava na sua função sacerdotal. Deus o tenha em um bom lugar.

  2. #2 por Gélio Osório Filho em 25 de março de 2015 - 23:29

    O Pe. Raul de Souza foi quem me entregou a Santa Hóstia no dia da minha Primeira Eucaristia em 15/08/1.957, na então Igreja de Nossa Senhora de Fátima no Bairro Estreito, em Florianópolis. Eu tinha 9 anos. No dia em que se completaram 50 anos, 15/08/2.007, fui procurá-lo, para relembrar a data, já que há alguns anos eu não o via mais. Morava no Kobrassol, em São José. Já doente ele não se lembrava mais de mim, mas ficou muito feliz com minha visita numa data tão especial para mim e por saber que durante 50 anos eu não o havia esquecido. Conversei poucos minuto com ele em respeito ao seu estado de saúde. Ao despedir-me deu-me um abraço, deu-me a bênção e pediu que eu rezasse por ele. Pouco mais de um ano após, recebi com tristeza a notícia da sua morte. Lembro dele com saudade. Foi por suas mãos que recebi o Jesus Eucarístico pela primeira vez.

  3. #3 por Moacir Felizari em 11 de novembro de 2015 - 13:27

    Fui também coroinha do Pe. Raul de Souza em Cordeiros – Itajaí, uma pessoa de grande coração, gostava muito das crianças, tinha um respeito muito grande com todos os paroquianos. Sua vida sempre foi dedicada a catequisar crianças, jovens e adultos. A minha turma de coroinhas tinha um respeito muito grande pelo Pe. Raul. Era uma pessoa iluminada pelo Espírito Santo. Que do céu possa iluminar nossos caminhos.

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