1.5. A tristeza

Todos os demônios ensinam à alma o amor pelo prazer, somente o demônio da tristeza não aceita fazê-lo, mas destrói os pensamentos que se insinuaram, impedindo à alma qualquer prazer e fazendo-a ressecar pela tristeza, se é verdade que os ossos do homem triste  ressecam (Prov 17,22). Todavia, se se combate apenas um pouco, esse combate torna o solitário provado; convence-o a não aproximar-se de algumas das coisas desse mundo e a não voltar-se para nenhum prazer. Se, porém, assim permanece mais tempo, gera pensamentos que sugerem subtrair a alma desse sofrimento ou a constringem para fugir desse lugar. Isso pensou e padeceu o santo Jó atormentado pela tristeza: Se pudesse levantar a mão contra mim mesmo, ou um outro, a meu pedido, o fizesse! (Jó 30,24). Símbolo desse demônio é a víbora, animal venenoso. A natureza, em seu amor pelo homem, concedeu que ela pudesse destruir o veneno dos outros animais, mas se é presa assim como é, destrói a própria vida.

Evágrio Monge,
Sobre o Discernimento II

A nossa quinta luta é contra o espírito de tristeza, que ofusca a alma diante de toda contemplação espiritual e lhe impede realizar qualquer boa obra. Quando esse espírito malvado prende a alma e a sufoca totalmente, não permite realizar com fervor as orações nem perseverar com proveito das santas leituras; não tolera que o homem seja manso e bem disposto com os irmãos, instila ódio para qualquer tipo de atividade e para a própria promessa da vida. Numa palavra, a tristeza, confundindo as decisões da alma que trazem salvação, nelas dissolvendo o vigor e a força, torna-a como tola e paralisada, amarrada ao pensamento da desesperação. Por isso, se nos propusemos combater a batalha espiritual e vencer, com o auxílio de Deus, os espíritos do mal, protejamos com toda vigilância nosso coração contra o espírito da tristeza. Assim como a traça rói o manto e o verme a madeira, assim a tristeza rói a alma do homem. Ela a convence a evitar todo encontro positivo e não consente em aceitar uma palavra de conselho nem de amigos sinceros, nem em responder-lhes com palavras de bondade e paz; pelo contrário, ela cerca toda a alma, enchendo-a de amargura e de acedia.

Cassiano o Romano,
Ao bispo Castor, vol. I, pp. 75-76

É esse espírito de tristeza que não permitiu a Caim (cf. Gn 4,4-12) converter-se após ter matado o irmão, nem permitiu a Judas (cf. Mt 27,3-5) após a traição do Senhor. Nos exercitaremos somente na tristeza que é para a conversão dos nossos pecados, unida a uma boa esperança; dela disse o Apóstolo: A tristeza segundo Deus realiza obra de conversão salutar e não deixa remorso (cf. 2Cor 7,10). A tristeza segundo Deus, alimentando a alma com a esperança da conversão, vem acompanhada da alegria. Por isso, dispõe o homem a estar disponível e obediente para qualquer boa obra; torna-o afável, humilde, manso, privado de malícia, capaz de suportar qualquer bom esforço e qualquer aflição, tudo coisas que são segundo Deus. É disso que se reconhecem os frutos do Espírito Santo (cf. Gl 5,22) no homem: alegria, amor, paz, longanimidade, bondade, fé, temperança. Da tristeza oposta a esta, pelo contrário, reconhecemos os frutos do espírito malvado, que são: acédia, intolerância, ira, ódio, espírito de contradição, desesperança. preguiça na oração.

Cassiano o Romano,
Ao bispo Castor, vol. I, pp. 75-76

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