Arquivo para categoria Maria

NOSSA SENHORA DE LOURDES – SAÚDE DOS ENFERMOS

Gruta de Lourdes, onde Maria apareceu a Bernadete em 1858.

Gruta de Lourdes, onde Maria apareceu a Bernadete em 1858.

O médico francês Alexis Carrel (1873-1944) foi agraciado em 1912 com o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina. Descrente, em maio de 1902 aceitou acompanhar uma doente, Marie Bailly, no trem que a levava a Lourdes, em busca de cura. Seu caso, peritonite tuberculosa em último grau, era totalmente perdido. Alexis Carrel ajudou-a a mergulhar na piscina e, para espanto seu, Maria Bailly saiu da água curada. Nos cinco dias seguintes o médico viveu intensa experiência espiritual que o levou à fé católica. O relato da cura milagrosa se encontra disponível no “Dossier 54”, no conhecido “Caso Bailly”.

Desde 1858, a Gruta de Lourdes é reconhecida como local de grandes graças para doentes físicos e espirituais, e as águas que ali nascem testemunham a fé e a regeneração de grande número de peregrinos. O Dia Mundial do Enfermo foi fixado na data da primeira aparição de Maria em Lourdes, 11 de fevereiro de 1858.

Há mais de século e meio, de todos os Continentes chega gente para visitar a Gruta de Massabielle, em Lourdes. Na pequena cidade francesa aos pés dos Pirineus, dia por dia, ano após ano, centenas, milhares, milhões, se reúnem os peregrinos: papas, cardeais, bispos, sacerdotes, religiosos, doutores, leigos, católicos e não católicos e até ateus. Ali os bispos franceses reúnem sua Conferência episcopal. Mas, e isso conta muito mais, se reúnem os doentes, sofredores de todos os países, trazidos e acolhidos por voluntários.

Uma equipe de médicos está permanentemente em Lourdes para descrever as curas, atestar os milagres que a ciência não explica, e que já são 69. Há equipes de hospitaleiros para receberem os doentes, conduzirem-nos à piscina, fazer com que se sintam bem. Anualmente 80.000 doentes vão a Lourdes para rezar, tocar a Gruta, beber da água. Em diferentes países se encontram voluntários para acompanharem os doentes nas viagens de trem, de avião.

Em Lourdes o mundo se transforma numa família, sem distinção de etnia, origem, nação. Superam-se as barreiras de cor da pele, língua, cultura, riqueza, das deficiências provocadas pela doença. Lourdes assiste ao milagre da fraternidade sem muros. Os milagres comprovados pela ciência, os inumeráveis milagres de cura espiritual, emocional, de recuperação do sentido da vida, da alegria de viver confirmam o reconhecimento oficial das Aparições da parte da Igreja em 1862. A Gruta de Massabielle gera a alegria da vida fraterna e da Igreja universal.

Tudo teve início em 11 de fevereiro de 1858, quando Bernadete Soubirous, jovem vidente, pobre, sem instrução falou que tinha visto uma Senhora, bela, belíssima, que entre os dedos debulhava as contas do rosário. Aparição silenciosa, nenhuma palavra ainda para essa menina tão sofrida pela doença, humilhação da família, e pela pobreza.

Bernadete Soubirous – a vidente de Lourdes

Bernadete, em 4 fotos de 1861 ou 1863, feitas pelo padre P. Barnadou.

Bernadete nasceu em 7 de janeiro de 1844, no moinho de Boly onde trabalhavam seus pais Francisco e Luíza. Viveu seus primeiros 10 anos numa casa decente, e lá nasceram os 9 filhos, 5 dos quais morreram no início da vida. O amor humano sentido e vivido na família deu-lhe uma personalidade equilibrada, especialmente nas provações, na miséria e na doença.

Durante um ano e meio foi entregue a uma família porque Luiza, devido a um acidente, não poderia amamentá-la. Francisco é um homem bom, não se preocupa em cobrar pelo trabalho, especialmente dos pobres, e os negócios começam a ir mal. Em 1850, perde um olho num acidente e Bernadete tem a saúde piorada com a asma e dores no estômago.

Em 1854, aos 10 anos, a família deve mudar e Bernadete deixa o moinho feliz de sua infância. Buscando o pão para os 4 filhos, Francisco vive buscando serviço, e de moleiro passa aos trabalhos manuais, enquanto que Luíza brabalha como lavadeira, faxineira e agricultora. No ano seguinte, Bernadete é atingida pela epidemia de cólera e sua saúde já delicada se torna pior e a asma se torna crônica. Após negócios mal feitos, o inverno 1856-1857 aumenta a miséria, a fome bate às portas. O casal Soubirous vê-se obrigado a confiar Bernadete à sua madrinha Bernarda, onde ajuda nos trabalhos de casa.

Barnadete ignorava completamente o catecismo, mas foi educada cristãmente. Sabe o Pai nosso e a Ave Maria, e carrega sempre consigo o rosário. Enquanto os irmãozinhos podiam freqüentar as aulas de Catecismo, ela devia trabalhar no campo, cuidar de animais, pastorear ovelhas, para ajudar no sustento. Mas, muito queria ter a graça da Primeira Comunhão.

No início de 1857, devido à desocupação, Francisco perde a casa e o trabalho, e precisou ocupar a cela de uma velha prisão em Cachot, mal conservada, escura e úmida, com pouco mais de 15 m2. Pouco depois, a polícia bate à porta: Francisco é acusado de roubo. Mesmo inocentado, uma vez incluído na categoria de ladrão tornou-se quase impossível encontrar trabalho.

Após mais um tempo junto à madrinha, com saudades da família Bernadete retorna a Cachot. Era 17 de janeiro de 1858. Em 28 de janeiro, aos 14 anos, teve a graça e a felicidade de receber a Primeira Comunhão. Estava preparada para viver outra experiência, definitiva para sua vida e marcante para a vida de sua Pátria e de toda a Igreja: 14 dias depois, recebeu a visita da Imaculada Conceição, de Nossa Senhora de Lourdes.

AS APARIÇÕES DA IMACULADA CONCEIÇÃO

Escolhi narrar de forma breve as 18 aparições a Bernadete. Breve e simples foi o modo como aconteceram e do mesmo modo gostaria de repassá-las, seguindo fielmente os relatos publicados em Lourdes.

1ª. aparição: na quinta-feira de 11 de fevereiro de 1958, acompanhada de sua irmã e de uma amiga, Bernadete se dirige a Massabielle, ao longo do rio Gave, para recolherem lenha seca. As amigas saem na frente e, enquanto Bernadete tira as meias para atravessar o rio, ouviu um barulho, semelhante a um pé de vento, e olha em direção à gruta. Depois narrou: “Vi uma senhora vestida de branco. Vestia um vestido branco, um véu branco, uma cinta azul e uma rosa amarela em cada pé”. Bernadete faz o sinal de cruz e recita o rosário com a Senhora. Terminada a oração, a Senhora desaparece de repente.

2ª. aparição: no dia 14, domingo, Bernadete sente uma força interior que a leva a retornar à gruta de Massabielle, apesar da proibição dos pais. Após recitar a primeira dezena do rosário, vê aparecer a mesma Senhora, e lhe lança água benta. A Senhora sorri e inclina a cabeça. Finda a oração do rosário, desaparece.

3ª. aparição: quinta-feira, 18 de fevereiro, a Senhora fala, pela primeira vez. Bernadete lhe entrega uma caneta e um pedaço de papel e pede-lhe que escreva seu nome. A Senhora responde: “Não é necessário”. Depois acrescenta: “Não lhe prometo a felicidade neste mundo, mas no outro. Você pode fazer-me a gentileza de vir aqui por 15 dias?”.

4ª. aparição: na sexta-feira, dia 20. Bernadete dirige-se à Gruta levando acesa uma vela benta. Devido ao fato, surgiu o costume de levar velas e acendê-las diante da Gruta. A Senhora se manifesta silenciosamente e logo parte.

5ª. aparição: sábado, 20 de fevereiro. A Senhora ensina a Bernadete uma oração pessoal. Ao final da visão, uma grande tristeza invade Bernadete.

6ª. aparição: domingo, 21 de fevereiro. É bem cedinho quando a Senhora se apresenta a Bernadete, que estava acompanhada por uma centena de pessoas. Em seguida, Jacomet, comissário de polícia, a interroga e quer que Bernadete lhe conte tudo o que viu. Ela, porém, lhe falará somente de “Aquero” (aquela coisa).

7ª. aparição: terça-feira, 23 de maio. Rodeada de 150 pessoas, Bernadete dirige-se à Gruta. A Aparição lhe revela um segredo, “somente para ela”.

8ª. aparição: quarta-feira, 24 de fevereiro. A Senhora lhe dirige essa mensagem: “Penitência! Penitência! Penitência! Rogai a Deus pelos pecadores! Beijareis a terra em expiação pelos pecadores!”.

9ª. aparição: quinta-feira, 25 de fevereiro. Estão presentes 300 pessoas. Bernadete narra: “Ela me disse para me dirigir à fonte para beber água. Escavei e encontrei apenas um pouco de água lamacenta. Ela insistiu que eu bebesse. Na quarta tentativa pude beber. Ela também me fez comer da erva que se encontrava vizinha à fonte. Então a visão desapareceu e eu fui embora”. Diante da multidão que lhe diz: “Sabes que te julgam doida fazendo essas coisas?” ela somente responde: “É pelos pecadores”.

10ª. aparição: sábado, 27 de fevereiro. Oitocentas pessoas estão presentes. A aparição é silenciosa. Bernadete bebe água da fonte e cumpre os gestos habituais de penitência.

11ª. aparição: domingo, 28 de fevereiro. Mais de mil pessoas assistem ao êxtase de Bernadete. Ela reza, beija a terra e caminha com os joelhos em sinal de penitência. Imediatamente é levada à presença do juiz Ribes, que ameaça de pô-la na prisão.

12ª. aparição: segunda-feira, 1º de março. Mais de 1.500 pessoas se reúnem e, dentre ela, pela primeira vez, um sacerdote. De noite, Catarina Latapie, de Loubajac, dirige-se à Gruta, mergulha seu braço aleijado na água da fonte: seu braço e sua mão recuperam a mobilidade. É o primeiro milagre operado nas águas de Lourdes.

13ª. aparição: terça-feira, 2 de março. Aumenta sempre mais a multidão. A Senhora lhe diz: “Dizei aos sacerdotes que venham aqui em procissão e que construam aqui uma capela”. Bernadete refere isso ao padre Peyramale, pároco de Lourdes. O padre nada mais quer saber do que uma coisa: o nome da Senhora. E mais ainda, exige uma prova: ver florescer a roseira da Gruta em pleno inverno.

14ª. aparição: quarta-feira, 3 de março. Bernadete dirige-se à Gruta às 7 da manhã, na presença de 3.000 pessoas, mas a visão não vem! Depois das aulas, sente o convite interior da Senhora. Dirige-se à Gruta e Lhe pede o Seu nome. A resposta é um sorriso. O pároco Peyramale lhe repete: “Se a Senhora realmente quer uma capela, que diga o seu nome e faça florescer a roseira da Gruta”.

15ª. aparição: quinta-feira, 4 de março. A multidão, sempre mais numerosa (cerca de 8.000 pessoas) espera um milagre no final dessas quinze aparições. A visão é silenciosa. O pároco Peyramale permanece em sua posição. Nos 20 dias seguintes, Bernadete não se dirigirá mais à Gruta, pois não sentiu mais o irresistível convite interior.

16ª. aparição: quinta-feira, 25 de março. A Visão revela, enfim, Seu nome, mas a roseira (de rosa canina) no qual a Visão apóia os pés durante Suas aparições, não floresce. Bernadete diz: “Ela ergueu os olhos aos céus, unindo, em sinal de oração, as suas mãos que estavam estendidas e abertas em direção à terra, e me disse: QUE SOY ERA IMMACULADA COUNCEPCIOU” – Eu sou a Imaculada Conceição.

Bernadete sai correndo e repete continuamente, durante o caminho, essas palavras que ela não compreendia. Falava o francês com muita dificuldade, pois sua língua era o dialeto occitano-guascão. Mas, são palavras que impressionam e comovem o insensível pároco. Bernadete ignorava essa expressão teológica que descrevia a Santa Virgem. Somente quatro anos antes, em 1854, o papa Pio IX tinha-a definido uma verdade da fé católica.

17ª. aparição: quarta-feira, 7 de abril. Durante essa aparição, Bernadete conserva acesa sua vela. Entrou em êxtase e chama da vela roçou longamente sua mão, sem queimá-la. Esse fato foi imediatamente constatado por um médico presente no meio da multidão, o médico Douzous.

18ª. e última aparição: quinta-feira, 16 de julho de 1858. Bernadete sente a misteriosa chamada à Gruta, mas o acesso está proibido e tornado impossível por uma cerca de arame. Então fica defronte à Gruta, do outro lado do rio Gave, na pradaria. “Me parecia estar diante da Gruta, na mesma distância das outras vezes, eu via somente a Virgem, jamais a vi tão bela”.

A simplicidade dessas linhas não revela o tumulto que as Aparições provocaram na região, envolvendo padres, bispo, polícia, juízes, autoridades políticas, povo, cada vez mais povo, interrogatórios, ameaças, proibições e ela, a humilde e singela Bernadete, nunca perdendo a paz, a alegria e a veracidade nas palavras. Não perdia a paz, mesmo sendo o centro de uma confusão e movimentação cada vez maior.

Bernadete, em 5 fotos de 1863, feitas por Billard-Perrin.

A Igreja investiga as Aparições

Dom Bertrand-Sévère Laurence, bispo de Tarbes, se ocupa imediatamente dos fatos, nomeando uma Comissão de investigação para documentar e constatar os fatos ocorridos ou que viessem a ocorrer, com a finalidade de tomar uma resolução a respeito das curas operadas através do uso da água da Gruta. Durante 4 anos a Comissão pesquisa os fatos, interroga testemunhas, consulta especialistas da ciência, os médicos que trataram dos doentes antes da cura, especialistas em ciências físicas, químicas, geológicas. Bernadete é interrogada repetidamente. O Bispo tirou suas conclusões em 1862 e, com Decreto de 18 de janeiro emitiu seu julgamento sobre as Aparições na Gruta de Lourdes, oficialmente reconhecendo a autenticidade e a veracidade das Aparições, nas quais Bernadete viu a Santíssima Virgem e, especialmente, que os fatos ali ocorridos não podem ser explicados a não ser por intervenção divina.

A grande prova, para o Bispo, é que Bernadete jamais quis enganar: impressionam sua simplicidade, sua pureza e sua modéstia. Somente fala quando interrogada, tudo narra sem ostentação, com inocência, com respostas nítidas, precisas, sem hesitação. Sincera, não caiu em contradição, nada acrescentando, nada mudando. A sabedoria de suas respostas manifesta espírito reto, bom senso superior à sua idade. Seu agir religioso foi sempre humilde. Nela nunca se percebeu desequilíbrio mental, alteração dos sentidos, esquisitices de caráter, nem morbosidade que poderia predispô-la a fantasias imaginativas.

Não foi vítima de alucinação: ela realmente viu e ouviu um ser que se proclamou A Imaculada Conceição. Ela não chegaria a isso por via natural, donde se tem motivo fundado para crer que a aparição seja sobrenatural.

As maravilhas da graça

O argumento final, para Dom Bertrand-Sévère Laurence, bispo de Tarbes, para a Igreja, é constituído pelos frutos que tornam legítima a árvore: os fatos narrados por Bernadete geram benefícios sobrenaturais e divinos. Cita: a multidão que acompanha as aparições, sempre mais numerosa e, após, os peregrinos de regiões sempre mais distantes que acorrem à Gruta para pedir graças a Maria Imaculada; muitos corações cristãos foram fortalecidos nas virtudes, espíritos indiferentes retornaram às práticas religiosas, muitos peregrinos de coração endurecido se reconciliaram com Deus após invocarem Nossa Senhora de Lourdes. Somente Deus, conclui o bispo, pode ser o autor dessas maravilhas da graça que confirmam a verdade das aparições.

O bispo também cita os doentes que provaram da água da Gruta e improvisamente recuperaram a saúde. Doentes terminais e irrecuperáveis ficaram curados ao beberem da água que, após rigorosos exames, demonstrou ser água pura, sem outras propriedades, o que comprova que as curas são obra de Deus.

Lembra o bispo a coincidência da revelação do nome da Senhora “Eu sou a Imaculada Conceição”, desconhecido pela Vidente e revelado em 1854 pelo papa Pio IX.

Então conclui: “Há uma estreita ligação entre as curas e as aparições: a aparição é divina porque as curas têm marca divina; o que vem de Deus é verdade! Por isso, o que Bernadete viu e ouviu, e a Aparição que se proclama ‘Imaculada Conceição’, é a Santíssima Virgem! Declaramos, portanto, que aqui está a mão de Deus!”.

Após ter invocado o nome de Deus, procedeu à leitura da declaração do reconhecimento oficial das Aparições.

Corpo incorrupto de Santa Bermadete (Foto 02).

Corpo incorrupto de Santa Bernadete.

De Bernadete a Santa Bernadete

Após longo discernimento, acompanhada pelo diretor espiritual e pelo bispo, em 4 de julho de 1866  inicia Bernadete sua viagem ao convento da Congregação das Irmãs de Caridade de Nevers. Com o coração sofrido, deu adeus à família, aos seus, à querida Gruta de Massabielle e a Lourdes. Não mais retornaria. Nesse mesmo ano morreu sua mãe, aos 41 anos; cinco anos depois, seu querido e sofrido pai. Antes da partida, tinha perdido um irmãozinho.

Sua saúde sempre esteve comprometida e passou muito tempo no leito. Mas, Bernadete era muito feliz, a cruz a fortalecia. Dizia, nos momentos de muita saudade: “Minha missão em Lourdes terminou”, “Lourdes não é o céu”.

Pronunciou os votos perpétuos em meio à doença. Em 11 de dezembro de 1878 se acama definitivamente. Durante os 15 anos de vida conventual suportou em silêncio sofrimentos físicos e morais, como a indiferença das próprias irmãs. As superioras a tratavam com indiferença. Exerceu as funções de enfermeira e de sacristã, até o agravamento da doença. Não pedia alívio, mas força e paciência. Lembrava as palavras da Imaculada: “Não lhe prometo a felicidade neste mundo, mas no outro”.  A quem a confortava, respondia com um sorriso radiante, na recordação da Senhora de Lourdes: “Maria é tão bonita que todos que a vêem gostariam de morrer para revê-la”.

No silêncio e na paz, morreu em 16 de abril de 1879. Não podia imaginar como Lourdes tinha progredido, o Santuário que estava sendo construído, a fonte milagrosa a atrair sempre mais peregrinos. A Gruta de Massabielle se transformou em centro de cura e libertação, de fé e de caridade. Bernadete contemplava agora a beleza de Maria.

Com a introdução da causa de beatificação e canonização, seu túmulo foi aberto três vezes, em 1909, 1919 e 1925. Para espanto dos examinadores, seu corpo está intacto. Na exumação de 1925, assim o médico responsável descreveu o corpo: “O que mais me impressionou durante esta exumação foi o perfeito estado de conservação do esqueleto, tecidos fibrosos, musculatura flexível e firme, ligamentos e pele após quarenta e seis anos de sua morte”.

Desde 3 de agosto de 1925, o corpo intacto da Santa se encontra exposto numa urna de cristal na capela do convento de Saint-Gildard, na cidade de Nevers, França, a 260 km. de Paris.

Foi declarada Bem-aventurada pelo papa Pio XI em 12 de junho de 1925 e canonizada, pelo mesmo Papa, em 8 de dezembro de 1933. Após a proclamação de Santa, a multidão reunida da Praça de São Pedro prorrompeu no canto do Ave de Lourdes, o mesmo cantado hoje em todo o mundo:

Louvando Maria/ o povo fiel/ A voz repetia/ de São Gabriel:
Ave, ave, ave Maria.

Um anjo descendo/ num raio de luz/ Feliz, Bernadete/ à fonte conduz.
Ave, ave, ave Maria.

Vestida de branco/ da glória desceu/ Trazendo na cinta/ as cores do céu.
Ave, ave, ave Maria.

Mostrando o rosário/ na cândida mão/ Ensina o caminho/ da santa oração.
Ave, ave, ave Maria.

No dia 16 de abril de cada ano, a Igreja festeja Santa Bernadete Soubirous.

MENSAGEM DE LOURDES

Tanto os que peregrinam a Lourdes, como seus devotos pelo mundo, recebem os sinais das Aparições:

A Água que jorrou do chão sujo, escavado por Bernadete, continua a brotar, é o grande sinal da cura física e espiritual. Essa água abastece a piscina onde os doentes se banham. Nunca cessou de brotar, a cada dia aproximadamente 5.000 litros. A Água nos lembra o Batismo e a vida cristã.

A Oração pelos pecadores, pedida por Maria, é oração pela conversão de toda a humanidade, de cada um de nós. O rosário é a grande oração, a oração dos humildes, dos doentes e anciãos, é a oração de Maria.

Fazer Penitência, aceitar e oferecer os sofrimentos pela salvação da humanidade.

A Vela que Bernadete levou acesa se repete como o sinal de Lourdes e de todas as grutas espalhadas pela terra, sinal da fé, da luz.

A Eucaristia é o sinal principal de Lourdes, do mesmo modo que é o centro da vida da Igreja. Todos os dias, à tarde,  se realiza a Procissão com o Santíssimo Sacramento, acompanhada de milhares de devotos que carregam velas acesas.

Em Lourdes, Deus continua a chamar a humanidade à conversão através de meios pobres, mas que sabem nos orientar para a graça.

Pe. José Artulino Besen

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APARECIDA – A IMAGEM DESCARTADA

Francisco toca carinhosamente a Imagem da Aparecida - 27-07-2013

Francisco toca carinhosamente a Imagem da Aparecida – 27-07-2013

Em nossa justa preocupação com a natureza, o bem estar do ser humano, insere-se o tema dos materiais descartados, descartáveis, recicláveis. Sob o slogan do “lixo que não é lixo” aprendemos a recolher e reutilizar o que sobrou do que consumimos ou usamos. Descobrimos cada vez mais que o descartável se constitui em grande riqueza e também desperdício. Aqui podemos recordar que Jesus, após saciar a multidão com os cinco pães e dois peixinhos multiplicados, ordenou que se recolhesse o que sobrara e recolheram doze cestos cheios, a quantia de cestos simbolizando as doze tribos de Israel, os doze Apóstolos, a totalidade. Jesus funda seu Reino com as sobras de seu povo, do mesmo modo que o Pai reúne seu Povo dos restos de Israel. Moisés, Gedeão, Jeremias, Isaías, Amós, Maria, todos se consideravam incapazes, mas, a graça os preparou para a missão.

As mães caprichosas recolhem o que sobrou da mesa dos filhos e transformam-no em outra refeição com o acréscimo de novos ingredientes. Os pobres que batem à nossa porta recebem com imensa gratidão os nossos restos, que não mais são restos, mas nova refeição.

A pedra que os construtores rejeitaram, esta é que se tornou a pedra angular. Isto foi feito pelo Senhor, e é admirável aos nossos olhos” (Mc 12, 10-11). A pedra que foi jogada fora por imprestável foi necessária para o pedreiro arrematar a sustentação do arco. Muitas vezes fazemos a experiência de recolher uma peça que tínhamos jogado fora e que, para surpresa, tivemos de buscar, pois era a que faltava para o trabalho.

Nossa Senhora da Conceição Aparecida

A imagem descartada pelo artista tornou-se pedra angular da religiosidade de um povo, o povo brasileiro. Do barro o escultor tirou uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição. Levando-a ao forno, queimou em excesso e trincou o pescoço. Resultado: imagem enegrecida e cabeça arrancada. O artista soube o que fazer: descartou seu trabalho e jogou-o no rio Paraíba do Sul, em São Paulo.

Por volta de 1717, ao lançarem a rede, três pescadores, Domingos Martins Garcia, João Alves e Filipe Pedroso pescaram uma imagem negra, de pouca beleza, sem cabeça. Novamente a rede foi jogada um pouco mais distante e João trouxe em sua rede a cabeça da Senhora. Dali por diante, a pescaria trouxe fartura e os três amigos voltaram para casa, trazendo a imagem e contando a todos o prodígio que haviam experimentado.

Humildes, cheios de fé, depositaram a imagem numa capela na vila dos pescadores. Já por volta do ano de 1745 teve sua primeira igreja oficial, em torno da qual viria a nascer o povoado e o santuário de Aparecida. Milagres e fatos extraordinários aconteciam, e a devoção de espalhou pelos Estados vizinhos: a imagem descartada pelo artista foi por Deus escolhida para a fundação de uma cidade e santuário onde, pela intercessão da Mãe de Deus, colhem-se frutos de conversão, cura e caridade.

A rápida expansão do culto a Nossa Senhora Aparecida é um fato extraordinário e pode ser considerado um milagre, como são os outros, que gostamos de citar: a grande pesca de peixes, as velas que durante o culto se apagaram sem motivo algum e novamente se acenderam sozinhas, o escravo Zacarias que, capturado depois de uma fuga, passando pela Capela pediu misericórdia a Nossa Senhora e imediatamente as correntes que o prendiam caíram, deixando intacto o colar de ferro que pendia de seu pescoço.

A presença cada vez mais numerosa de peregrinos exigiu igrejas maiores até que, em 1946, teve início a construção do Santuário Nacional de Aparecida, com capacidade para 45.000 pessoas. Ali acorre o povo fiel cumprindo promessas, pedindo graças, participando das celebrações e, sobretudo, sendo abastecidos pela alegria de estar no Santuário da Padroeira do Brasil.

Boa parte dos romeiros é constituída de trabalhadores, idosos, pobres, gente humilde aberta ao dom da fé. Cada um tem consciência de que ali pode entrar sem pedir licença, é sua casa. Com extraordinária alegria retornam a seus lares e narram o que viveram, viram e ouviram. De modo especial: contemplaram a pequena imagem negra da Aparecida, o trabalho descartado pelo artista e que se tornou o coração de numeroso povo que ali e por todo o Brasil expressa e vive sua fé e religiosidade cristãs. Em 2011 foram 11 milhões de peregrinos visitaram a “Casa da Mãe” e nela estiveram os papas João Paulo II, Bento XVI e Francisco. Ela acolheu os bispos da América latina que ali realizaram a V Conferência do CELAM em 2007, e acolhe cada bispo que ali se dirige para as Celebrações e nela se sentem em casa.

Imagem profanada e imagem restaurada

Imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida

Imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida

Num período em que o fanatismo religioso quer ver obra satânica em toda imagem cristã, a imagem original de Nossa Senhora Aparecida não ficou livre: um atentado em 16 de maio de 1978, deixou-a em pedaços, quebrada em mais de duzentos fragmentos. Parecia impossível recuperá-la, pois o que restava eram fragmentos, pedaços esfarelados. Mas, não se podia desanimar. A Imagem foi levada ao Museu de Arte de São Paulo (MASP), onde o fundador, professor Pietro Maria Bardi, a encaminhou à artista plástica e chefe do Departamento de Restauração, Maria Helena Chartuni. Maria Helena mergulhou em um intenso trabalho de reconstituição, completado com sucesso. Restaurada, no dia 19 de agosto do mesmo ano foi levada de volta ao Santuário Nacional de Aparecida, em um carro aberto do Corpo de Bombeiros, causando comoção nacional. Uma multidão esperava pela Imagem em Aparecida, lotando o entorno do Santuário Nacional e da Rodovia Presidente Dutra.

A restauradora Maria Helena fala com carinho do trabalho que considera um divisor de águas em sua vida: “Para mim, existe o antes e o depois do restauro da Imagem. Sinto-me muito abençoada porque nenhum trabalho me deu tanta satisfação quanto aquele. Passados tantos anos, ainda percebo o retorno da esperança que a Imagem proporcionou a mim e toda a população”, revela.

Explica que o trabalho não foi fácil: “Fiquei muito assustada no início. A Imagem estava despedaçada, principalmente a parte da cabeça. Além das dificuldades técnicas, estava lidando com uma peça de arte produzida em terracota (barro cozido)”, lembra. Gosta de comentar a transição operada em sua vida:

“Foi a partir daí que me dei conta de que algo tinha acontecido com a minha fé que até então estava “congelada”, apesar de eu ter sido criada numa família católica. O trabalho de restauro da imagem de Nossa Senhora mudou a minha vida, minha fé. Ela é a mensageira de Deus, aceitou sua missão com humildade, pureza e obediência. Ela deve ser nosso exemplo de mulher de Deus e por isso devemos amá-la e respeitá-la sempre”.

A força dos pequenos sinais –rumo aos 300 anos em 2017

A imagem da Virgem é negra, a cor dos escravos e de nosso povo mestiço. Um sinal forte revelado por Deus e que teve de esperar 160 anos para a abolição da chaga da escravidão no Brasil (1888) e ainda espera o dia em que não haverá preconceitos de cor e condição social.

Os bem pensantes têm por certo que tudo não passa de superstição à espera de sua desmontagem peles mentes esclarecidas. Irritam-se com a religiosidade dos pobres e fracos, mas convivem tranquilamente num país que lhes edifica condomínios onde podem viver sem o perigo e a desagradável presença dos pobres. Afirmam que são donos das luzes e do progresso, mas ignoram o quanto as faces escuras dos trabalhadores são coloridas pelo sol abrasador, pelo pó, pelo ambiente sujo onde trabalham.

Ainda não descobriram que o Deus de Jesus resiste aos soberbos, depõe os poderosos e eleva os humildes. Não percebem que sua orgulhosa descrença não é fruto de sabedoria e ciência e sim, da fé que não lhes é concedida enquanto não forem mansos e humildes de coração.

De sua parte, enquanto suam por uma vida mais digna e melhor, os peregrinos de Aparecida com carinho entoam: Virgem santa, Virgem Bela, Mãe amável, Mãe querida, amparai-nos, socorrei-nos, ó Senhora Aparecida.

Maria leva os devotos a seu filho Jesus, o homem de Nazaré desprezado e crucificado, rejeitado pelos sábios e entendidos, mas pedra angular de um mundo que aspira por fraternidade e vida digna.

Em 27 de julho de 2013, falando ao Episcopado brasileiro em Aparecida, assim se expressou Francisco: “Felizmente, os pescadores não desprezam o mistério encontrado no rio. Embora fosse um mistério que tenha aparecido incompleto, não jogaram fora seus pedaços. Esperam a plenitude, e esta não demorou a chegar. Há aqui algo de sabedoria que devemos aprender. Há pedaços de um mistério, como partes de um mosaico, que vamos encontrando. Nós queremos ver muito rápido a totalidade; e Deus, pelo contrário, Se faz ver pouco a pouco. Também a Igreja deve aprender esta expectativa.

Deus também nos inspira a chamar os vizinhos para dar-lhes a conhecer a Sua beleza. A missão da Igreja nasce precisamente dessa fascinação divina, dessa maravilha do encontro. Porém, sem a simplicidade daqueles pescadores a nossa missão está fadada ao fracasso. “A Igreja tem sempre a necessidade urgente de não desaprender a lição de Aparecida […] As redes da Igreja são frágeis, talvez remendadas; a barca da Igreja não tem a força dos grandes transatlânticos que cruzam os oceanos. Contudo, Deus quer se manifestar justamente por nossos meios pobres, porque é sempre Ele quem está agindo”.

Pe. José Artulino Besen

 

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NOSSA SENHORA DE GUADALUPE

Nossa Senhora pintou sua imagem no manto de Juan Diego, em 1531

Nossa Senhora pintou sua imagem no manto de Juan Diego, em 1531

Todos as narrações das aparições da Nossa Senhora de Guadalupe são inspirados no Nican Mopohua, escrito em nahuatl, a linguagem azteca, pelo índio erudito Antônio Valeriano em meados do século XVI. Infelizmente não foi encontrado o original deste trabalho. Uma cópia foi primeiramente publicada em nahuatl por Luis Lasso de la Vega em 1649. O texto que segue é um resumo das aparições, preservando as carinhosas falas de Maria e de Juan Diego.

Era o ano de 1531. Há dez anos que os espanhóis tinham conquistado o México, destruindo a cultura asteca. Através de missionários, muitos índios, entre eles Juan Diego, conheceram a fé cristã e participavam da vida sacramental. E foi nesse novo mundo que a Virgem de Guadalupe visitou seus filhos.

No dia 9 de dezembro, sábado, Juan Diego se dirigia para a missa. Era madrugada, estava quase no topo da montanha e ouviu cantos suaves parecidos com os dos passarinhos. Encantado com tanta beleza, ficou se perguntando o que seria. Procurava entender o que acontecia quando ouviu uma voz carinhosa: “Juanito, Juan Dieguito”. Subiu mais ao topo e viu uma bela Senhora que depois assim descreveu: “Seu vestido era radiante como o sol, o penhasco onde apoiava seus pés assemelhava-se a uma pulseira de pedras preciosas, e a terra cintilava como o arco-íris”. Juan Diego inclinou-se diante a Senhora e escutou: “Juanito, o mais humilde dos meus filhos, aonde está indo?” Ele respondeu: “Minha Senhora e Menina, eu tenho que chegar na sua igreja no México, Tlatilolco, para seguir as coisas divinas”. Ela, então disse: “Saiba e entenda, você é o mais humilde dos meus filhos, eu, a sempre Virgem Maria, Mãe do Deus Vivo por quem nós vivemos, do Criador de todas as coisas, Senhor do céu e da terra. Eu desejo que um templo seja construído aqui, rapidamente; então, poderei mostrar todo o meu amor, compaixão, socorro e proteção, porque eu sou vossa piedosa Mãe e de todos os habitantes desta terra e de todos os outros que me amam, invocam e confiam em mim. Ouço todos os seus lamentos e dou socorro a todas as suas misérias, aflições e dores. E para realizar o que a minha clemência pretende, vá ao palácio do Bispo do México e lhe diga que eu manifesto o meu grande desejo, que aqui neste lugar seja construído um templo para mim. Tenha certeza que ficarei muito agradecida e lhe recompensarei. Eu farei você muito feliz e digno da minha recompensa, por causa do esforço e fadiga que você terá para cumprir o que eu lhe ordeno. Observe, você ouviu minha ordem, meu humilde filho, vá e empenhe todo seu esforço”. Sem duvidar, o índio inclinou-se diante dela e disse: “Minha Senhora, eu estou indo cumprir sua ordem, agora me despeço, seu humilde servo”.

Juan Diego desceu para cumprir sua tarefa e foi em linha reta pela estrada, até a Cidade do México. Foi direto ao palácio do Bispo, Frei Juan de Zumárraga. Custou ser atendido, mas, ao entrar se ajoelhou e disse ao Bispo a mensagem da Nossa Senhora do Céu, bem como tudo que havia visto, escutado e admirado. Após ouvir toda a conversa, o Bispo incrédulo disse-lhe: “Volte depois, meu filho e eu lhe ouvirei com muito prazer. Eu examinarei tudo e pensarei no motivo pelo qual você veio”. Juan Diego saiu triste, porque sua mensagem não se realizou de forma alguma. Frei Juan duvidou das palavras de um índio que lhe falava coisas tão bonitas.

No mesmo dia, após a Missa, subiu diretamente a montanha e encontrou-se com a Senhora do Céu, que o esperava no mesmo lugar. Prostrou-se diante dela e falou com a linguagem carinhosa e meiga de seu povo: “Senhora, a Caçulinha de minhas filhas, minha Menina, eu fui onde você mandou para levar sua mensagem, como me havia instruído. O Bispo recebeu-me com bondade e ouviu-me atentamente, mas quando respondeu, pareceu-me não acreditar. Ele disse: “Volte depois, meu filho e eu o ouvirei com muito prazer. Examinarei o desejo que você trouxe, da parte da Senhora”. Entendo, pelo seu modo de falar, que não acredita em mim e que seja invenção da minha parte o seu desejo de construção de um templo neste lugar para você. E que isso não é sua ordem. Por isso eu, encarecidamente lhe peço, Senhora e minha Menina, que instrua a alguém mais importante, bem conhecido, respeitado e estimado, para que acreditem. Porque eu não sou ninguém, sou um barbantinho, uma escadinha de mão, o fim da cauda, uma folha. E você, minha Menina, a minha filhinha caçula, minha Senhora, enviou-me a um lugar onde eu nunca estive! Por favor, perdoe o grande pesar e aborrecimento causado, minha Senhora e meu Tudo.” A Senhora respondeu: “Escuta, meu filho caçula, você deve entender que eu tenho vários servos e mensageiros, aos quais eu posso encarregar de levar a mensagem e executarem o meu desejo, mas eu quero que você mesmo o faça. Eu fervorosamente imploro, meu caçula, e com severidade eu ordeno que volte novamente amanhã ao Bispo. Você vai em meu Nome e faça saber meu desejo: que ele inicie a construção do templo como eu pedi. E novamente diga que eu, pessoalmente, a Sempre Virgem Maria, Mãe de Deus Vivo, lhe ordenei.”

Juan Diego respondeu: “Senhora, minha Menina, não deixe que eu lhe cause aflição. Alegremente e de bom grado eu irei cumprir sua ordem. De nenhuma maneira irei falhar e não será penoso o caminho. Irei realizar seu desejo, mas acho que não serei ouvido, ou se for, não acreditarão. Amanhã ao entardecer, trago o resultado da sua mensagem com a resposta do Bispo. Descanse neste meio tempo”. Ele, então, foi para sua casa.

Juan Diego pede um sinal

No dia seguinte, domingo, antes do amanhecer, ele deixou sua casa e foi direto ao Tlatilolco, para ser instruído em coisas divinas, e em seguida poder falar com o Bispo. Por volta das 10 horas, já em cima da hora, após participar da Missa e o povo se ter dispersado, ele apressadamente foi ao palácio do Bispo. Mal chegou, ansioso já estava para tentar vê-lo. E com muita dificuldade conseguiu entrar. Ajoelhou-se diante do Bispo, e triste e chorando, expôs a ordem de Nossa Senhora do Céu e que, por Deus, acreditasse em sua mensagem de erguer um templo onde ela queria. O Bispo fez várias perguntas e ele descreveu perfeitamente em detalhe. Apesar da precisa descrição de sua imagem, o Bispo não deu crédito e disse que somente pela sua súplica não atenderia seu pedido. Era necessário um sinal; só então acreditaria ser ele enviado pela verdadeira Senhora do Céu. Após ouvir o Bispo, disse Juan Diego: “Meu senhor, escute! Qual deve ser o sinal que o senhor quer para eu pedir à Senhora do Céu que me enviou aqui?”.

Frei Juan Zumarraga, viu que Juan Diego respondia tudo sem nada trocar e o despediu. Imediatamente, ordenou algumas pessoas de sua casa que o seguissem, e assim foi feito. Juan Diego foi direto pela estrada e aqueles que o seguiam perderam-no de vista após cruzarem o barranco perto da ponte do Tepeyacac. Retornaram com muita raiva, aborrecidos por não cumprirem a ordem. E o que eles informaram ao Bispo influenciou a não acreditar em Juan Diego: disseram que foi enganado, que Juan Diego inventou o que veio dizer, e a sua mensagem e pedido não passava de um sonho. Arquitetaram um plano: quando ele voltasse, seria preso e o puniriam para que nunca mais mentisse.

Nesse meio tempo, Juan Diego estava com a Virgem Santíssima, contando-lhe a resposta que trazia do senhor Bispo. A Senhora, após ouvir, disse-lhe: ”Muito bem, meu queridinho, você retornará aqui amanhã, então levará ao Bispo o sinal por ele pedido. Com isso ele irá acreditar em você, e a este respeito ele não mais duvidará nem desconfiará de você, e sabe, meu queridinho, eu o recompensarei pelo seu cuidado, esforço e fadiga gastos em meu favor. Vá agora. Espero você aqui amanhã“.

As flores brotadas em pleno inverno

São Juan Diego e o milagre das rosas

São Juan Diego e o milagre das rosas

No outro dia, segunda-feira, quando Juan Diego teria que levar um sinal pelo qual acreditariam nele, não pode ir porque, ao chegar em casa, seu tio chamado Juan Bernardino estava doente e em estado grave. Primeiro foi chamar um médico que o auxiliou, mas era tarde, e o estado de seu tio era muito grave. Por toda a noite seu tio pediu que, ao amanhecer, ele fosse ao Tlatilolco e chamasse um sacerdote, para prepará-lo e ouvi-lo em confissão, porque certamente sua hora havia chegado, pois não mais levantaria ou melhoraria de sua enfermidade.

Na terça-feira, antes do amanhecer, Juan Diego ia de sua casa ao Tlatilolco para chamar o sacerdote, e ao aproximar-se da estrada que liga a ladeira ao topo do Tepeyacac, em direção ao oeste onde estava acostumado a passar, pensou: “Se eu seguir adiante, a Senhora estará esperando-me, e eu terei que parar e levar o sinal ao Bispo, como pressuponho. A primeira coisa que devo logo fazer é chamar o sacerdote, porque meu pobre tio certamente o espera”. Então, contornou a montanha, deu várias voltas de forma que não poderia ser visto por Ela, que pode ver todos os lugares. Mas, ele a viu descer do topo da montanha e estava olhando na direção onde eles anteriormente se encontraram. Ela aproximou-se dele e disse: “O que há, meu caçula? Onde você está indo?”. Ele estava afligido, envergonhado e inclinou-se diante dela dizendo: “Minha Menina, a mais meiga de minhas filhas, senhora, Deus permita que você esteja contente. Como você está nesta manhã? Está bem de saúde? Senhora e minha Menina, vou lhe causar um pesar. Sabe, minha Menina, um de seus servos, está muito doente, é meu tio. Ele contraiu uma peste, e está perto de morrer. Eu estou indo depressa à sua casa no México para chamar um de seus sacerdotes, querido pelo Nosso Senhor, para ouvir sua confissão e absolvê-lo. Depois retornarei aqui brevemente, então levarei sua mensagem. Senhora e minha Menina, perdoe-me, seja paciente comigo. Eu não lhe enganarei, minha Caçula. Amanhã eu voltarei o mais rápido possível.” Depois de ouvir toda a conversa de Juan Diego, a Santíssima Virgem respondeu: “Escuta-me e entenda bem, meu caçula, nada deve amedrontar ou afligir você. Não deixe seu coração perturbado. Não tema esta ou qualquer outra enfermidade, ou angústia. Eu não estou aqui? Quem é sua Mãe? Você não está debaixo de minha proteção? Eu não sou sua saúde? Você não está feliz com o meu abraço? O que mais pode querer? Não tema nem se perturbe com qualquer outra coisa. Não se aflija por esta enfermidade de seu tio, por causa disso ele não morrerá agora. Tenha certeza de que ele já está curado”. (E então, seu tio foi curado, como mais tarde se soube).

Quando Juan Diego ouviu estas palavras ficou enormemente consolado. Estava feliz. Prometeu que, quanto antes, estaria na presença do Bispo, para levar o sinal ou prova, a fim de que acreditasse. A Senhora do Céu ordenou que subisse ao topo da montanha, onde eles anteriormente haviam se encontrado e lhe disse: “Suba, meu caçula, ao topo da montanha; lá onde você me viu e lhe dei a ordem, você encontrará diferentes flores. Corte-as, junte-as, então volte aqui e traga-as em minha presença”. Imediatamente Juan Diego subiu a montanha, e quando atingiu o topo, ele espantou-se pela variedade de delicadas rosas que haviam brotado bem antes do tempo, porque, sendo inverno, deveriam estar congeladas. Estavam muito perfumosas e cobertas com o orvalho da noite. Imediatamente ele começou a cortá-las, recolheu todas e colocou-as no manto que lhe cobria os ombros. Mostrou-as para a Senhora, que lhe disse: “Meu caçula, esta variedade de rosas é a prova e sinal que você levará ao Bispo. Você irá dizer em meu nome que nelas ele verá o meu desejo e que deverá realizá-lo. Você é meu embaixador, muito digno de confiança. Rigorosamente eu ordeno que, apenas diante da presença do Bispo, você desenrole o manto e descubra o que está carregando. Você contará tudo direito, que eu ordenei você a subir ao topo da montanha, e cortar estas flores, e tudo que você viu e admirou. Então você poderá induzir o Bispo a dar sua ajuda para que um templo seja construído e erguido como eu tenho pedido”.

O milagre da imagem de Nossa Senhora que aparece no manto

Era 12 de dezembro, terça-feira. Depois que a Senhora do Céu deu seu aviso, ele se pôs a caminho. Estava feliz e seguro de seu sucesso, carregando com grande carinho e cuidado o que continha dentro de seu manto, de forma que nada pudesse escapar de suas mãos, a não ser o maravilhoso perfume das variadas e belas flores.

Ao chegar ao palácio do Bispo, encontrou-se com o secretário e outros criados. Estavam brabos com ele, disseram que era intrometido, que apenas queria incomodar o Bispo. Juan Diego ficou esperando. Quando viram que continuava ali, em pé, cabisbaixo, sem nada fazer, somente esperando ser chamado, e aparentando trazer algo em seu manto, chegaram perto para matar sua curiosidade. Juan Diego, vendo que não poderia esconder o que trazia, descobriu um pouco o manto onde estavam as flores. Ao verem essas flores, tão fora do tempo, ficaram espantados. Quiseram pegar algumas, mas não conseguiam, pois pareciam estar pintadas ou costuradas na roupa. Então eles foram dizer ao Bispo o que havia acontecido e que aquele índio que tantas vezes lá estivera, novamente tentava vê-lo e por muito tempo já o aguardava.

O Bispo Frei Juan de Zumárraga se deu conta de que aquilo era a prova, para confirmar e concordar com o pedido do índio. Imediatamente ordenou que entrasse. Tão logo Juan Diego entrou, ajoelhou-se diante dele, como estava acostumado a fazer, e de novo disse o que tinha visto e admirado, bem como a mensagem. Ele disse: “O senhor pediu para que fosse dizer a minha Ama, a Senhora do Céu, Santa Mãe preciosa de Deus, que desejava um sinal, e só assim então, acreditaria em mim, que deveria ser construído um templo onde ela pediu para ser erguido. Também dei minha palavra que lhe traria algum sinal ou prova por você pedido. Ela condescendeu ao seu recado e acolheu o seu pedido, com algum sinal e prova para que se cumpra a sua vontade. Hoje, bem cedo, Ela enviou-me para vê-lo. Quando pedi o sinal para você acreditar em mim, ela disse que me daria. Enviou-me ao topo da montanha, onde eu costumo vê-la, para cortar uma variedade de rosas. Depois de cortá-las e trazê-las para baixo, ela segurou-as em suas mãos e colocou-as em minha roupa, para então trazê-las e entregá-las à sua pessoa. Contudo, eu sabia que o topo da montanha era um lugar onde não dava flores, mas, tão logo aproximei vi que estava em um paraíso, com grande variedade de rosas e eu imediatamente passei a cortá-las. Ela disse-me que deveria trazê-las a você, e assim eu faço, para que, nelas, creia no sinal por você pedido e cumpra com Seu desejo e também para mostrar a verdade de minhas palavras e minha mensagem. Aqui estão elas. Receba-as.” Desenrolou o manto onde estavam as flores, e quando elas se espalharam no chão, todas as diferentes rosas, de repente apareceu desenhado na roupa a preciosa Imagem da sempre Virgem Santa Maria, Mãe de Deus, da mesma maneira como hoje ela é guardada no templo do Tepeyacac, chamada Guadalupe. Quando o Bispo viu a imagem, ele e todos os que estavam presentes caíram de joelhos. Ela foi admiradíssima. Eles levantaram-se para vê-la, e tremendo com grande arrependimento, contemplaram-na em seus corações e pensamentos. O Bispo em profundo arrependimento chorava, rezando e pedindo perdão por não ter atendido ao seu desejo. Ao se por de pé, desamarrou do pescoço de Juan Diego o manto em que aparecia a Imagem da Senhora do Céu. Levou-a para ser colocada em sua capela. Juan Diego permaneceu por mais um dia na casa do Bispo, a seu pedido.

No dia seguinte disse a Juan Diego: “Bem! Mostre-nos onde a Senhora do Céu desejava ver erguido o seu templo”. Imediatamente, convidou a todos para lá.

Mal havia Juan Diego havia apontado onde a Senhora do Céu mandou que se erguesse o seu templo, pediu licença para ir embora. Queria, agora, ir para sua casa ver seu tio Juan Bernardino, que também tinha recebido a visita da Senhora e estava curado. Levaram Juan Bernardino a presença do senhor Bispo, para ser informado e dar seu testemunho diante dele. Ambos, ele e o seu sobrinho, foram hospedados pelo Bispo em sua casa por alguns dias, até que se ergueu o templo da Rainha no Tepeyacac, onde Juan Diego a viu.

O senhor Bispo transferiu a sagrada imagem da amada Senhora do Céu para a Igreja principal, retirando-a de sua capela em seu palácio onde ela se encontrava, para que todos pudessem ver e admirar sua bendita imagem. Toda a cidade se comoveu: vinham ver e admirar sua devota imagem e fazer suas orações. Muitos se maravilharam, por ter acontecido tal milagre divino, porque nenhuma pessoa deste mundo pintou sua preciosa imagem.

Foi construída uma igreja, depois uma grande basílica na cidade do México onde está exposta a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe. A imagem milagrosa resiste ao tempo, aos ataques para destruí-la. Continua lá, abençoando seus filhos. São quase 500 anos e o povo continua a venerar a Padroeira das Américas e a honrar São Juan Diego, canonizado por São João Paulo II em 2002. Juan Diego morreu em 30 de maio de 1548, aos 74 anos. Guadalupe é o maior centro mundial de peregrinação.

Nesse 12 de dezembro de 2014, o Papa Francisco celebrará Missa festiva na Basílica de São Pedro, e pela primeira vez isso acontece: um Papa latino-americano celebra a Mãe da América Latina.

Pe. José Artulino Besen

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A VIRGEM MÃE DA TERNURA DE VLADIMIR

Mãe de Deus da Ternura de Vladimir

Há quase nove séculos, os orantes cristãos têm a graça de contemplar o ícone de Nossa Senhora Mãe da Ternura, cujos traços levam a localizar a origem em Constantinopla. Hoje guardada em Moscou, é o modelo de quase todos os ícones marianos.  Uma imagem tão bela, tão fascinante, que a tradição aprecia atribuí-la ao evangelista Lucas, pois ninguém poderia pintar um ícone tão belo se não tivesse recebido de Deus a graça única de contemplar o rosto da Mãe de Deus. Ninguém a conheceria tão filialmente como o Evangelista que dela escutou a narração da Anunciação, da Natividade, da Morte, da Ressurreição, da Ascensão.

Na verdade, o ícone é obra da Igreja, não invenção de pintores, pois eles da Igreja recebem o conteúdo e a disposição das figuras. Sua qualidade não provém da habilidade do artista, mas da vida espiritual dele: após 30 dias de jejum a pão, sal e água, oração contínua, dá a primeira pincelada, sempre na cor branca, indicando a luz que a partir daquele momento penetra na obra. Durante a pintura e no início de cada dia, ele faz o Sinal de Cruz e perdoa os inimigos, porque o ícone é portador de paz. A palavra ícone é bem traduzida como “sou semelhante”, referindo-se ao mistério que se contempla. Não se deveria dizer “esse é um ícone da Mãe de Deus” e sim, “eu sou a Mãe de Deus”.

A Virgem da Ternura de Vladimir é contemplada somente por quem pede a Luz a fim de contemplar seu mistério. Se não for para a contemplação, o ícone será apenas uma pintura para “ver, visitar, olhar, analisar”, uma profanação. A Theotokos (Mãe de Deus) de Vladimir é tão poderosa que um homem que a odiava profundamente, Josef Stalin, quando teve medo que o exército alemão conquistasse Moscou, em 1941, ordenou que o ícone fosse colocado num avião e sobrevoasse Moscou durante o perigo. Dias depois, a nação russa estava livre da invasão. Depois, a Mãe da Ternura aceitou continuar rejeitada e guardada num museu, onde ela pode contemplar os milhões de visitantes que se detém diante de seu olhar.

Hoje, 8 de setembro, contemplamos o nascimento da Santa e Gloriosa Mãe de Deus, de quem celebramos a Imaculada Conceição no 8 de dezembro anterior. E, no ícone de Vladimir, contemplamos todo o mistério de Santa Maria de Nazaré. Com delicadeza e veneração contemplamos essa imagem que denominamos a “Mãe da Ternura” e que seria chamada com toda verdade de o “Senhor da Ternura”, pois o Filho enlaça o pescoço da Mãe com a mão, puxando-a carinhosamente para si. A Virgem inclina o rosto ao encontro do rosto do Senhor, e o Senhor ergue o rosto ao encontro do rosto materno. Seu olhar, porém, continua voltado para nós de tal modo que os 800 anos passados não esgotam a profundeza e a beleza.

Maria, a cheia de graça, não deseja perder a ternura do Filho que sustenta com o braço direito, mas sua mão direita indica-nos que “Ele é o Caminho, a Verdade, a Vida, ele é a Ternura eterna”. E nós lhe respondemos: “Virgem Mãe, tua é a ternura, porque és a Mãe da Ternura”.

O rosto de Maria é milagre que nenhuma arte pode expressar, pois todos os afetos e sentimentos nele estão incluídos. Seus olhos transmitem a luz, porque através dela ingressou no mundo Cristo, a Luz. São vida, porque através dela veio ao mundo Cristo, a Vida.

Se eu estou feliz, a Virgem está feliz. Se estou triste, a Virgem Mãe está triste. Se estou preocupado, a Mãe está preocupada. Mas, se estou com medo, ela me indica o Filho. Se estou inseguro em tomar decisões, ela mostra o Filho. Quando estou feliz e ela me revela olhar triste, está apontando para seu Filho, o Menino Deus, e me explica: ”meu Filho tem o rosto triste de todas as crianças do mundo, e nele, todas são minhas crianças”.

A Virgem é Mãe, Ternura, Harmonia. Ela é a Escada para o Céu, porque nos trouxe o Caminho. É a Mãe de Deus, é a Filha de Deus. Seu colo é o Trono do Filho de Deus que sustenta nos braços todo o universo. O ícone é o céu e a terra, a humanidade e a divindade, a altura a que foi elevada a carne onde o Filho eterno se encarnou. Os braços de Maria são mais fortes do que os anjos e os homens, porque carregam aquele pelo qual foram feitos céus e terra, as coisas visíveis e invisíveis.

O ícone aparenta velhice, necessidade de retoques, mas ele não é repintado, restaurado, de sua superfície não são retiradas as camadas do tempo, da história, porque cada ícone guarda em seu segredo o olhar de todos os que o contemplaram suplicantes, o calor de todas as velas acesas diante dele, o suor de tantas mãos que o tocaram. A Mãe da Ternura nada rejeita, tudo conserva em seu coração. Assim como a criança de outro tempo agora é uma mãezinha enrugada, o ícone está diferente, mais trabalhado pela história humana. Com o correr do tempo, a fumaça das velas e as mãos dos fiéis podem até esconder a imagem original, e o ícone se torna mais precioso ainda, porque toda a luz que possuía foi doada aos devotos. Agora, é pura memória da fé, da confiança, da súplica e da gratidão.

E com todo o povo que confia na Mãe de Ternura, nós que somente podemos nos vangloriar de nossos pecados que levaram o Filho à cruz, fixamos nossos olhos nos olhos compassivos da Mãe e exclamamos com gratidão: “Ó clemente, ó piedosa, ó doce, sempre Virgem, Maria!”

Pe. José Artulino Besen

 

 

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NOSSA SENHORA DOS PRAZERES

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No Estado brasileiro de Santa Catarina há uma igreja, sede de paróquia e catedral, com o título de Nossa Senhora dos Prazeres. A devoção chegou em meados do século XVIII, com a fundação de Lages.

D. Luiz Antonio de Souza Botelho e Mourão, Morgado de Mateus, governador da capitania de São Paulo, entre outras recomendações determinou ao Capitão-mor Antônio Correia Pinto, em 20 de agosto de 1766: “que, fundando a póvoa de Lages lhe desse o nome de “Vila Nova de Nossa Senhora dos Prazeres” e que a padroeira da igreja matriz fosse “Nossa Senhora dos Prazeres””. Era a grande devoção do Morgado de Mateus, que tinha uma convicção administrativa: “Sem Missa não de pode governar os povos”. E assim foi e assim é: Nossa Senhora dos Prazeres é a padroeira da catedral e da diocese catarinense de Lages, cujo nome original foi “Nossa Senhora dos Prazeres dos Campos das Lajens”.

O título mariano Nossa Senhora dos Prazeres veio de Portugal e há no Brasil 12 igrejas dedicadas a essa invocação, sendo a mais importante, do ponto de vista da história, a igreja de Nossa Senhora dos Prazeres de Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco. A igreja foi erguida em ação de graças pelas duas vitórias decisivas alcançadas pelos brasileiros nas batalhas travadas contra os holandeses, nos montes Guararapes, nos dias 18 de abril de 1648 e 19 de abril de 1649, quando expulsaram definitivamente os invasores. No campo de batalha, 2.200 índios, negros, brasileiros e portugueses enfrentaram e venceram 7.400 soldados comandados por Sigismund von Schkoppe. As batalhas eram precedidas de novenas e orações a Nossa Senhora naqueles dias decisivos para garantir a unidade nacional. Ali, sob a proteção de Nossa Senhora dos Prazeres dos Montes Guararapes, nascia o Brasil.

Espiritualidade mariana

A invocação de Nossa Senhora dos Prazeres tem origem na espiritualidade franciscana e quer meditar as Alegrias de Nossa Senhora. Nossa Senhora das Alegrias e Nossa Senhora dos Prazeres têm a mesma origem franciscana, e remontam ao século XIV e Portugal foi a nação que por primeiro festejou os Prazeres, as Alegrias de Maria. Recorda a piedade popular que, por volta de 1590, uma imagem da Virgem apareceu sobre uma fonte em Alcântara e pessoas que iam à fonte beber água conseguiram curas milagrosas. Uma menina que tinha ido beber água escutou a voz de Nossa Senhora que lhe pediu que ali fosse erguida uma igreja onde fosse invocada como Nossa Senhora dos Prazeres. O pedido foi executado e o local tornou-se ponto de muitas romarias.

Por que a origem franciscana? São Francisco, na sua busca pelo Jesus pobre, desprovido de poder, acentuou dois mistérios fundamentais de nossa fé: a Encarnação (o Presépio) e a Paixão (a Via-sacra) e fez brotar uma corrente espiritual poderosa de retorno ao Jesus de Nazaré, bastante esquecido pela Igreja poderosa do século XIII.

Com o tempo, na piedade popular, os dois mistérios deram origem às celebrações das Sete Alegrias e das Sete Dores de Maria. Piedade mariana, sim, mas enraizada profundamente no Evangelho.

Nossa Senhora dos Prazeres (interior da catedral de Lages)

Nossa Senhora dos Prazeres (interior da catedral de Lages)

Partindo da Encarnação, temos a celebração dos Prazeres de Nossa Senhora, as Sete Alegrias de Maria: Anunciação do Anjo; Maria visita sua prima Isabel; Nascimento de Jesus em Belém; Adoração dos Magos; Maria e José encontram Jesus no templo; Maria vê Jesus ressuscitado; Assunção e coroação de Maria no céu. Na piedade franciscana, as alegrias são rezadas na Coroa das Sete Alegrias.

Partindo de Belém e Jerusalém, contemplamos as Dores de Nossa Senhora: Profecia de Simeão; Fuga para o Egito; a perda de Jesus no templo; encontro com Jesus carregando a Cruz; morte de Jesus no Calvário; Maria recebe o Corpo de Jesus; Maria deposita Jesus no sepulcro. Na piedade franciscana, temos a Devoção ou o Terço das Sete Dores de Maria.

Em solo catarinense

Em 1767, em Lages foi erguido o primeiro oratório e chegaram os primeiros padres à Fazenda de Correia Pinto às margens do rio Caveiras: os franciscanos Frei Tomé de Jesus e Frei Manoel da Natividade Teixeira, dando início oficial à vida religiosa e sacramental católica que, até os dias de hoje, anima e alimenta a fé do povo serrano.

A Catedral de Lages teve a construção iniciada em 1912 com inauguração em 1921. Belíssimo e imponente exemplar do estilo gótico, na planta baixa, na forma e cobertura das torres piramidais multifacetadas foi inspirada na Catedral de Magdeburg, Alemanha, que marcou a transição do românico para o gótico, isso em 1209. O estilo gótico foi concebido para ser erguido com pedras, e em Lages não faltaram bons pedreiros para levar a efeito a planta desenhada por Frei Egídio Lother e executada por Frei Gabriel Zimmer. E não faltaram pedras, razão para fundador Correia Pinto batiza-la de Campos das Lajens devido à abundância da pedra laje na região.

Nossa Senhora das Dores é celebrada em 15 de setembro, e Nossa Senhora dos Prazeres no 2º Domingo depois da Páscoa, mas, em Lages, no dia 15 de agosto. As dores e alegrias de Jesus são as dores e alegrias de sua Mãe, e são também símbolo de nossas dores e alegrias até do dia da ressurreição.

Pe. José Artulino Besen

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MARIA, MÃE E FILHA DA MISERICÓRDIA

Mãe da Misericórdia com o Cristo Alimento dos Pobres - Kosovo

Mãe da Misericórdia com o Cristo Alimento dos Pobres – Kosovo

No alto da cruz, trono de glória, Jesus contempla sua Mãe e dela faz a mãe da humanidade: “Mulher, eis aí teu filho” e, contemplando o discípulo amado: “Filho, eis aí tua Mãe” (Jo 19, 27). Na hora suprema de dor e abandono, colocou sua mãe e o discípulo amado como imagens da Igreja: nela, os filhos contemplam Maria, e Maria contempla os filhos. Esta hora de dor para Jesus, foi a hora do amor pela humanidade: a Mãe contempla os filhos no Filho crucificado e os filhos nela contemplam a Mãe.

A Virgem exerce a maternidade em todos os momentos da história eclesial e nós, do mesmo modo, vivemos a condição de filhos. A maternidade eclesial de Maria é uma das causas pelas quais a Igreja Católica deve manifestar a compreensão, a paciência porque, herdeira da maternidade de Maria, ela também se considera mãe de todos os seus membros. A Igreja Católica é autêntica não quando busca selecionar os filhos pela retidão de vida, mas, quando em todos vê seus filhos, a ninguém jogando no olho da rua. Como mãe amorosa, espera sempre porque ama e, porque ama, espera.

O cristão nutre amor filial e eucarístico pela mãe do Salvador: afinal, a carne de Jesus é carne de Maria, o sangue de Jesus é sangue de Maria, o Pão e o Vinho da comunhão eucarística foram gerados no ventre dela. Durante nove meses o Coração de Jesus pulsou no ritmo do coração de Maria.

O coração do Senhor crucificado, antes abrigado e nutrido no coração de sua Mãe, é pura misericórdia, é santuário onde a humanidade recebe redenção total. Aquela que nutriu agora se nutre, e traz para os filhos a misericórdia de Jesus que é também sua misericórdia.

Incluindo em si a Mãe e os filhos, a Igreja Católica, com seu amor e devoção marianos, manifesta o rosto de mulher, esposa, mãe. Amando a Maria como mãe, como mulher, a Igreja retrata os mais belos sentimentos femininos do carinho, da compreensão, do amor sem limites, do perdão, da força para carregar a cruz. O amor de uma mãe no coração pulsante da Igreja faz a história cristã pulsar no ritmo de um pêndulo de compreensão e energia, de carinho e fidelidade.

No contemplar nossas peripécias de pecado e de santidade, de serviço e de autoritarismo, de egoísmo e caridade, Maria escuta a Palavra agora inseparável da história humana: “Mulher, eis aí teus filhos”. E sentindo o peso da mão da justiça divina, Maria repete enquanto perdurar o caminho humano: “Filho, eis aqui meus filhos”. E assim, a misericórdia triunfa sobre o julgamento (Tiago 2, 13).

Maria, causa de alegria, mãe de misericórdia

Em seu rosto mariano, a Igreja procura oferecer a antevisão do Paraíso onde Maria já foi elevada em plenitude: com suas festas, procissões, imagens, flores, cores, com seus adultos e jovens, velhos e crianças é causa de alegria e, com os rostos sofridos, corpos devastados pela dor, manchados pelo pecado é mãe de misericórdia.

Filhos da Igreja, nossa atitude filial é imitarmos Maria em sua bondade, paciência, compreensão, misericórdia. Quem ama a Mãe de Jesus ama também aqueles a quem ela ama.

O alimentar-se contínuo e fiel da Palavra, a contemplação contínua do Filho transfiguraram Maria a ponto de poder dizer como Paulo, e com mérito que ultrapassa qualquer comparação humana: “Eu vivo, mas não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” Gl 2, 20), porque a Carne glorificada do Senhor é a carne glorificada de Maria. Seu Corpo glorificado foi elevado ao mesmo céu donde seu Filho desceu para a encarnação e aonde retornou como Senhor e Salvador. Ali, com os anjos e santos, misticamente contemplando o Filho ao colo, indica nossas pessoas de pobres mendicantes em busca de pão, com a palavra que dele aprendeu: “Filho, eis aí meus filhos”. E o Senhor da vida nos reparte o Pão da vida porque em nós contempla sua Mãe. Na felicidade sem fim em cujo caminho nos precedeu, ela escuta a humanidade que a invoca: Maria assunta aos céus, rogai por nós.

Pe. José Artulino Besen

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MARIA, MÃE DE DEUS E NOSSA, NA FÉ CRISTÃ

Maria com o Menino - Mosteiro de São Bento de Aniane - França - século IX

Tudo o que se afirma de Maria tem como causa única Jesus Cristo, nela encarnado por obra do Espírito Santo. As afirmações da fé cristã sobre Maria não são invenções da piedade cristã, mas conseqüência do mistério da Encarnação, donde elas brotam. Seu início é a resposta dada ao Arcanjo Gabriel “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua Palavra” (Lc 1,38) e, depois, se prolonga nas Bodas de Caná, “Façam tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5). Maria acolhe a salvação pela obediência, pela fidelidade e pelo contínuo indicar onde está o Caminho. Nosso amor por ela segue o mesmo espírito.

Podemos dizer que, em Maria, repousou por nove meses todo o projeto divino em relação à humanidade: é a Arca da Aliança, a Escada, a Porta do Céu. Dando carne e sangue ao Filho eterno de Deus, ela uniu indissoluvelmente as naturezas humana e a divina no Cristo Senhor. Maria é o mais belo hino de ação de graças que a criação consegue oferecer a Deus: nela, humilde criatura, se oculta o mistério trinitário do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Se os textos dos Evangelhos nos descrevem, talvez, menos de três anos da vida do Senhor, Maria contemplou-o mais de 30 anos, desde o berço até a Ascensão. Abraçando-o com ternura, seu coração pulsava no ritmo do coração do Filho. O que para nós é graça que vem da fé, para Maria foi contemplação real. Seu coração guardou cada passo do Homem-Deus, a infância, a adolescência, o ingresso na vida adulta, os gestos e as palavras. É divino mistério o mistério de sua vida em Nazaré, nas festas em Jerusalém, nas visitas aos povoados à beira do lago de Tiberíades. A humilde serva do Senhor contemplou com os olhos e o coração a ação de Deus Pai em seu Filho. A casa de Maria e José era a Casa de Deus.

Os dogmas marianos

A palavra dogma significa conteúdo de fé, mas não expressa toda a realidade, pois os mistérios são insondáveis: quanto mais conhecemos, mais falta conhecer. A verdade é uma fonte que nunca se esgota: quanto mais bebemos, mais aumenta a sede e maior é a água que dela jorra. Não é porque a Igreja formula um dogma que ele expressa a verdade e sim, porque é verdade, a Igreja o proclama como dogma de fé. Podemos dizer que o dogma afirma o máximo que a inteligência e a fé humanas, iluminadas pelo Espírito Santo, podem dizer a respeito de uma verdade e, ao mesmo tempo, expressa o mínimo que se deve afirmar.

Com essa introdução queremos falar dos quatro dogmas marianos: sua Imaculada Conceição, a Maternidade divina de Maria, a Virgindade perpétua e sua Assunção ao céu.

Imaculada conceição de Maria: a primeira Eva, no Paraíso, foi criada sem pecado, mas não resistiu à tentação e rejeitou a Deus. Maria é a Nova Eva, com ela Deus restaura a criação por obra de seu Filho Jesus. Em previsão de sua Maternidade divina, quis Deus que Maria fosse preservada do pecado desde o ventre de sua mãe, Ana. E Maria respondeu a essa graça nunca pecando, sendo a vontade de Deus a sua vontade, como respondeu ao Arcanjo Gabriel, na Anunciação. O mais importante não é que Maria tenha nascido sem pecado, mas que tenha vivido sem pecado, razão pela qual o Anjo a chama de “cheia de Graça”.

Maternidade divina de Maria: Maria recebe o título de Mãe de Deus porque o Filho eterno de Deus dela recebeu a natureza humana. Jesus é Deus e Homem verdadeiro, não se podendo separar a divindade da humanidade. Por isso, cabe a Maria o título de Mãe de Deus. Negando-lhe esse título, estaríamos negando a divindade de Jesus, o Filho de Deus, ou o estaríamos dividindo em duas partes, uma divina e outra, humana.

Virgindade perpétua de Maria: ao contemplarmos o ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, e tantos outros, percebemos na imagem de Maria três estrelas: uma na fronte e uma em cada ombro. Com esse símbolo a Igreja afirma que Maria é Virgem antes, durante e depois do parto. Maria não concebe de José, mas por obra do Espírito. O significado mais profundo desse dogma é que Maria teve o coração unido a Deus, sem divisões. Seu amor foi virgem na fidelidade contínua e perpétua a Deus nosso Senhor. Nenhuma infidelidade ao amor divino tocou seu coração imaculado.

Assunção de Maria aos céus: terminados os dias de sua vida terrena, Maria foi levada (assunta) aos céus. Aquela que foi preservada do pecado, sempre virgem, Mãe de Deus, teve o privilégio de ser glorificada após a vida terrena. Seu corpo, do qual se formou a natureza humana de Cristo, ficou incorruptível e logo foi transfigurado na glória da Santíssima Trindade.

Maria, nosso caminho de fé

Os dogmas são alimento de espiritualidade, e não afirmações para nosso deleite intelectual. Eles agem em nossa vida cristã.

Os dogmas marianos propõem-nos um caminho mariano: o que Deus realizou em sua pobre serva, realizará também em nós, pobres servos. Tudo por graça.

Imaculados pelo batismo – Nós nascemos no pecado, mas, pelo batismo, nos tornamos imaculados, recriados pela graça divina. Quando pecamos, peçamos logo o perdão e nosso coração se torna imaculado. Através da Eucaristia somos continuamente divinizados pelo alimento divino recebido.

Construir a maternidade – Nossa natureza humana foi santificada na natureza humana de Jesus. Por isso é sagrada. Na glória eterna da Santíssima Trindade estamos incluídos na natureza glorificada do Senhor. Na Eucaristia recebemos o Cristo Deus e Homem. Maria gerou o Senhor. Nossa vida, nossa palavra e testemunho podem gerar filhos para Deus, reconciliar os que estão dispersos: temos a graça de ser pai/mãe de novos filhos de Deus.

Virgindade renovada – Deus é fiel a nós, sempre, e nós somos infiéis a seu amor. Estamos divididos pelo pecado, pela fragilidade, pela tentação, por falsos amores, pelo medo da morte. Busquemos a virgindade espiritual, a fidelidade contínua ao Senhor. Pelo Batismo, pelo perdão e pela Eucaristia Deus nos oferece também o dom da virgindade. A cada dia podemos readquiri-la. Mesmo prostituídos, a graça recupera nossa virgindade, tira de nosso coração as divisões.

Nossa assunção aos céus – Maria foi a primeira criatura glorificada em corpo e alma. Igualmente, nós temos a graça de podermos ser glorificados no céu, junto de Deus. Deus nos dará um novo corpo, transfigurado, pois nossa primeira natureza retorna ao pó. Desejemos ardentemente o encontro final com Deus. E Maria intercede continuamente por nós para que sejamos de Deus. Como as primeiras comunidades, peçamos sempre: Vem, Senhor Jesus!

Pe. José Artulino Besen

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ASSUNÇÃO DA SILENCIOSA MÃE DO REDENTOR

Maria, silenciosa Mãe do Redentor – Mosteiro de Olinda PE

É de São Boaventura, teólogo, filósofo e santo a afirmação “De Maria nunquam satis”, que bem pode ser traduzida por “De Maria ainda não se falou bastante” (outros preferem “de Maria nunca se falará demais”). Por mais que os santos e o povo amem a Mãe de Jesus, nela venerem a obra prima da criação, nunca se falará o suficiente dessa humilde jovem e mulher de Nazaré, pois nela reside e se esconde o mistério da Salvação. Ao proclamarmos Maria Mãe de Deus porque Mãe do Filho de Deus, estamos mergulhando no mistério do Deus Uno e Trino, buscamos água num poço que nunca termina de manar água cristalina. Tão grande é o mistério dessa mulher que a nós mortais, conhecedores da fragilidade humana, é mais fácil dizer que dela já se falou que chega, que o importante é falar de Cristo, pois somente Ele salva.

Evidente: somente Cristo salva. E é isso o que se fortalece em nosso espírito ao falarmos do Salvador nascido de Maria. Ele é a ponte, o Pontífice, que possibilita nossa comunicação com Deus, e essa ponte é feita de divindade e de humanidade. Coube a Maria gerar o humano que se uniu ao divino, e graças à sua maternidade o Filho de Deus é Deus e Homem verdadeiro.

Em outras épocas se afirmava Maria como “inimiga de todas as heresias”: parece exagero, mas como não ser isso verdade se todas as heresias cristãs têm origem ou na negação de Jesus Homem verdadeiro ou na negação de Jesus Deus verdadeiro? Quando proclamamos Maria Mãe de Deus – a Theotókos – estamos libertando o Cristianismo de toda heresia cristológica: as que afirmam Jesus não ser humano e as que negam sua divindade. Estamos fincando nossa fé no solo firme da redenção em Cristo.

Se de Cristo nunca se falará o suficiente, também de Maria não se falou ou falará.

 Silenciosa Mãe do Redentor

Na sua humildade, Maria nunca revelou o segredo de seu Filho e da maternidade divina. Mesmo suportando a humilhação sua e de seu Filho, nunca anunciou o mistério que dela brotou e nela se formou. Não tomou como afirmação pessoal proclamar que Deus a fizera Mãe do Altíssimo, do Filho de Deus.

Mãe silenciosa: ela guardava tudo em seu coração. Tanto por não querer revelar seu segredo, quanto por querer compreender melhor o segredo que de Deus recebera. Era humildade e também sabedoria, sabia de sua pequenez e de sua grandeza. Ninguém mais precisaria saber, pois o único importante era fazer tudo o que o Filho dissesse (cf. Jo 2,5).

A maternidade divina é por ela tão ocultada que os Evangelhos têm pudor em citá-la. Paulo apenas fala de “mulher” (Gl 4,4) que completou em si a plenitude dos tempos trazendo-nos o Filho eterno que ingressou no tempo pelo ventre de Maria, a todos dando-nos a dignidade de filhos de Deus.

No encontro com a prima Isabel, que lhe fala que João pulara no ventre ao sentir a presença do Filho nela, e por revelação agradece a visita da “Mãe do meu Senhor”, Maria esconde seu mistério proclamando a bondade de Deus que olhou para sua humilhação. E serve sua prima aquela que carrega o Senhor de todos.

Maria recebera um segredo de Deus Pai. Deus Pai reservou um segredo a Maria: sua carne não conheceria a corrupção de pecado que não cometera. O Filho reservara para sua Mãe o segredo da vida eterna, da qual participaria como primeira entre os mortais.

A carne que formara a Carne do Redentor foi transfigurada e assunta aos céus.

 Nós não guardamos esse segredo

Se Maria, com pudor, guardou o segredo de sua maternidade divina, a Igreja não conseguiu fazer o mesmo: desde o Pentecostes ela se dirige amorosamente à Mulher de Nazaré que lhe deu a existência de tão grande Redentor. De modo particular a Liturgia, que é a Teologia em oração, expressa o privilégio de Maria assunta ao céu. Vem do século IV a solenidade da Assunção festejada em 15 de agosto.

A Liturgia ortodoxa encerra o ano litúrgico celebrando a Assunção e proclama: “Deus, Rei do universo, concedeu-vos privilégios que superam a natureza; assim como no parto vos conservou a virgindade, assim no sepulcro vos preservou o corpo da corrupção e o conglorificou pela divina translação”.

No final do século VIII, o rei Carlos Magno recebe do papa Adriano I um Sacramentário em que, referindo-se à Assunção, louva: “É digna de veneração, Senhor, a festividade deste dia, em que a santa Mãe de Deus sofreu a morte temporal; mas não pôde ficar presa com as algemas da morte aquela que gerou no seu seio o Verbo de Deus encarnado, vosso Filho, nosso Senhor”.

A Assunção da Mãe de Deus foi a grande devoção do Pe. José de Anchieta. Junto com a Festa da Imaculada Conceição, a Assunção foi e é a grande alegria do povo católico latino-americano.

No dia 1º de novembro de 1950, Festa de Todos os Santos, na presença de bispos de todo o mundo, o papa Pio XII proclamou com a Igreja e inspirado pelo Espírito Santo: “pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que: a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celeste”.

Apesar de tanta claridade, continuamos pedindo ainda mais luz para penetrarmos o mistério daquela que saudamos como Estrela do mar, Mãe silenciosa do Redentor, sempre virgem e porta do céu.

Pe. José Artulino Besen

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DUAS MULHERES, DOIS CAMINHOS

"Arbe de vie et mort" - de um manuscrito alemão medieval datado aproximadamente de 1481 e autoria de Berthold Furtmeyr. Nele vemos a Árvore da Vida e da Morte. A Virgem e Eva encontram-se em lados opostos à árvore e, nas folhas acima de Maria, um crucifixo e acima de Eva, um crânio que simboliza a morte. A serpente está enrolada em volta do tronco da árvore. Tem aparência elegante e, ao mesmo tempo, sinistra.

«Eis aqui a serva do Senhor,
faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38).

Com sua decisão, duas mulheres marcaram o destino da humanidade: Eva e Maria. Duas mulheres, dois caminhos. Sua decisão continua a ser proposta ao ser humano no momento de definir seu destino pessoal.

Uma, Eva, foi criada sem pecado. Outra, Maria, concebida sem pecado. A primeira simbolizou o sonho do Criador para seus filhos. A segunda, recuperou este sonho. Ambas foram colocadas diante de Deus. Eva respondeu: Eu quero ser como Deus! (cf. Gn 1,1-6). E Maria: Eis aqui a serva do Senhor! (cf. Lc 1,26-31) A primeira inaugurou a história da morte. A segunda, recuperou a história da vida.

O caminho que Eva escolheu trouxe a morte, o fratricídio, as divisões, a guerra, a fome. O caminho de Maria conduz à vida, à santidade, à fraternidade, à união, à paz, à alegria.

Eva caiu na ilusão de que a criatura pode viver sem o Criador. Maria descobriu que somente em Deus podemos ser verdadeiramente humanos.

Querendo ser como Deus para nunca morrer, Eva trouxe a morte.

Querendo servir a Deus para viver em Deus, Maria venceu a morte.

A história dessas duas mulheres é exemplar para todos. A cada dia também nós somos colocados diante de Deus para darmos nossa resposta pessoal ao encaminhamento que daremos à nossa existência. Às vezes criticamos Eva por seu egoísmo, e nos esquecemos que com freqüência fazemos a mesma coisa: também queremos ser como Deus, viver como se Deus não existisse.

Não podemos prosseguir sem essa resposta, nem há uma terceira resposta possível. Podemos responder eu quero viver como se eu fosse Deus, ou sou servo do Senhor, luz do meu caminho. Está à nossa frente a história de Eva e a história de Maria. A morte ou a vida. A guerra ou a paz. A esperança ou o desespero. Luz ou trevas. A história de Adão e Eva ou a história de Maria e de Jesus.

Nem sempre damos esta resposta conscientemente, mas nossas atitudes são indicativas. Ou nosso estilo de vida a revela nossas opções fundamentais.

Cada pessoa vive do jeito que gosta, mas depois reclama dos efeitos de seu gosto. Há daqueles cuja vida é uma sucessão de tristezas, vinganças, intrigas, egoísmo. E caem na depressão, não vendo mais gosto na vida. Parece-lhes que todos os caminhos estão fechados quando, na verdade, eles os fecharam.

Há casais que se dão o direito das discussões gratuitas, das palavras ofensivas, e depois lamentam dolorosamente a separação não esperada, mas preparada ao longo do tempo.

Uma vida sem Deus é uma vida nas trevas, pois Deus é luz. Inicialmente pode-se ter a ilusão do bem-estar, como o dependente de alguma droga: tudo parece claro, tudo traz prazer. Depois, porém, vem a angústia, a destruição da personalidade, a morte.

Há aqueles que encontraram a paz. Não ficaram livres dos problemas que são vistos como desafios e não como destruição da felicidade. Deus é sempre a luz no seu caminho. E conseguem ser luz para quem cruza seu caminho.

Essas duas mulheres, Eva e Maria, estarão colocadas diante de cada ser humano até o fim dos tempos. Suas respostas serão as duas únicas possíveis para a história humana, que não poderá mais dizer como Eva: A serpente me enganou!, pois já lhes conhece os frutos. Eva era inexperiente, não conhecia a história da morte, o que não é o nosso caso após o Filho de Deus ter-nos revelado o Caminho, a Verdade e a Vida.

No 8 de dezembro a Liturgia celebra a Imaculada Conceição, a concebida sem pecado. E celebra, de modo intenso, aquela que foi concebida sem pecado, mas livremente escolheu nunca pecar. Sua vida foi SIM a Deus.

Com Maria de Nazaré, façamos nossa escolha pela vida plena: a escolha por Deus.

Pe. José Artulino Besen

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O ROSÁRIO, ORAÇÃO DOS POBRES

O Rosário - A Oração dos Pobres

O Rosário se insere nas múltiplas formas de oração com que os féis renovam permanentemente seu encontro com Cristo. É uma oração cristológica, não mariana: com Maria contempla a vida de Cristo. Ensina-nos a olhar Cristo com o olhar de Maria. É a oração dos pobres, dos anciãos, dos analfabetos, dos doentes, de todos.

O Rosário é uma oração dos pobres e uma oração “pobre”: nem sempre temos ocasião ou possibilidade de acesso à Palavra e à Eucaristia, mas podemos, com profunda fé, expressar nossa pobreza com uma dezena, um Terço, um Rosário. Quem sabe, outros se servem do mesmo Terço do Rosário com todo o proveito e unção repetindo muitas vezes o Nome “Jesus” ou, como fazem os orientais com a Oração do Coração, repetindo noite e dia o Kyrie eleison, Senhor Jesus, piedade. Também nesta pequena fórmula há profissão de fé e louvor (Jesus é o Senhor), o Nome (Jesus), a invocação (piedade).

É a oração dos velhinhos, dos doentes que, dia após dia, desfiando as contas do rosário lembram com afeto a Virgem Maria, passam em recordação os dias de sua vida. Uma oração humilde, silenciosa, que traz a paz. Quantos cristãos, na sua pobreza, seguram um rosário tão velhinho como sua idade. Emociona vê-los, no dia do sepultamento, com o rosário unindo suas mãos. Quantos segredos, quantas graças estão ali simbolizados.

Fruto da ternura gerada pela devoção à Mãe de Jesus, essa forma de oração traz ternura e paz a uma vida cansada, onde não houve muito lugar para meditações teológicas, leituras bíblicas, mas houve sempre lugar para a humilde meditação da vida do Senhor.

João Paulo II escreveu, em 2003, uma Carta Apostólica com o título “O Rosário da Virgem Maria”. Pedia – e pede – a toda a Igreja que contemple a Cristo com os olhos de Maria, que veja o mundo com o olhar da Mãe de Deus. Podemos olhar Cristo e o mundo com muitos olhares: o olhar de Maria, de João, de Paulo, de Pedro, da pecadora, do filho pródigo, de Zaqueu. No Rosário contemplamos Jesus com os olhos de Maria: a Mãe contemplando a infância de Jesus, a vida pública, seu caminho de dor, sua vitória final sobre a morte, o nascimento da Igreja no Pentecostes. E, no final, contemplamos Maria com os olhos de Jesus que eleva sua Mãe ao céu e a coroa de glória.

Não se quer retornar a um marianismo piedoso, água-com-açúcar, mas retornar a Maria para acompanhar, com ela, os passos do Senhor por nossa salvação. João Paulo II, que tinha como lema TOTUS TUUS (Sou todo teu, Maria) afirma: “a escuta da Palavra de Deus torne-se um encontro vital, na antiga e sempre válida tradição da lectio divina, que faz tirar das Santas Escrituras a Palavra viva que interpela, orienta, plasma a existência”. O Rosário nasce das Sagradas Escrituras, pois, através dos mistérios gozosos, luminosos, dolorosos e gloriosos contemplamos a vida de Jesus narrada nos Evangelhos.

O Rosário – uma oração e muitas orações

Toda oração cristã tem dois tempos essenciais, louvor e invocação. Assim também no Rosário que é a repetição da oração da Ave-Maria: na primeira parte da Ave-Maria repete-se a alegria da Encarnação, com a saudação do Anjo (Lc 1,28) e de Isabel (Lc 1,42). No centro, a invocação terna e confiante do Nome Jesus, único Nome pelo qual podemos recebemos salvação. Segue-se, na segunda parte, a invocação para que Maria interceda por nós agora (nosso presente de pobres pecadores) e na hora da morte (a hora do êxodo para o Pai). A oração da Ave-Maria convida-nos a contemplar, com ela, os mistérios da Salvação operada em nossa existência.

O fundamental é que toda a nossa vida espiritual, nossos exercícios de piedade, tenham um único objetivo: o louvor e a súplica Àquele que pode e quer salvar-nos, o Filho de Deus.

A Igreja oferece hoje 20 Mistérios para acompanhar as 20 dezenas. Mas, podemos também recitar o Terço meditando um texto bíblico, uma parábola, meditando nossa vida cristã, contemplando as pessoas que passaram por nossa vida, nos reconciliando com passagens que deixaram marcas dolorosas, e nos alegrando com tantas recordações felizes que a graça de Deus nos proporciona.

Contemplando Jesus em sua vida terrena, Maria meditava continuamente a Palavra de Deus feito Carne. E hoje, com o Rosário, pedimos a Maria que nos empreste seu olhar para contemplarmos, também nós, a vida de seu Filho e meditarmos suas palavras.

Pe. José Artulino Besen

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A ASSUNÇÃO DE MARIA AO CÉU

Assunção de Maria aos Céus (Rubens)

A Virgem Maria recebe tem duas celebrações no calendário católico: em 8 de dezembro, a Imaculada Conceição (Maria foi concebida sem pecado no ventre de sua mãe Ana) e, em 15 de agosto, a sua assunção ao céu.

A assunção de Maria significa que, ao terminar sua existência terrena, Maria foi levada ao céu em corpo e alma. Não há sepultura com os restos mortais da Mãe de Jesus: imediatamente após a morte ela foi glorificada. Certamente os Apóstolos que naquele dia estavam em Jerusalém ficaram desolados ao ver morta a Mãe amada do Senhor e que na cruz lhes fora entregue como mãe. Podemos meditar o carinho que os discípulos tinham por essa mulher cheia de graça, de bondade, exemplo de fé total. A tristeza, porém, converteu-se em festa quando viram Maria ser glorificada e ressuscitada.

A morte é conseqüência do pecado e inclui o retorno ao pó donde viemos. Com Maria isso não aconteceu porque ela foi concebida sem pecado e, em toda a sua vida, jamais pecou. Por isso não poderia pagar o preço por algo que não cometera.

Quando o arcanjo Gabriel a visitou para anunciar-lhe que fora escolhida para ser a mãe do Salvador, saudou-a como “cheia de graça”, “bendita entre as mulheres”. Maria era pura graça, pura obediência a Deus, nascera e vivera na total fidelidade à vontade de Deus: “eu sou a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a sua vontade”, respondeu ela a Gabriel. Maria entregara a Deus sua vontade: a vontade de Deus era a vontade dela.

Por causa dessa sua obediência total e por ter gerado o Salvador do mundo, Maria foi a primeira criatura a receber de seu Filho a vida eterna em plenitude, em corpo e alma.

Nossa esperança é a ressurreição

Ao contemplarmos a glória de Maria, devemos nos encher de alegria: também nós queremos e podemos ser glorificados; basta que declaremos a vontade de Deus como nossa vontade, basta que aceitemos ser tocados pela graça do Espírito Santo, ser lavados pela Água viva que jorra do trono de Deus.

Nosso destino não é a tragédia de uma sepultura onde se diz: aqui descansa fulano de tal. Nosso destino é a Casa de Deus na eternidade, nossa casa paterna. O que Maria recebeu logo após a morte, nós também receberemos se seguirmos o mesmo caminho de fidelidade.

A sociedade consumista nos faz pensar que é impossível haver coisa melhor do que a vida terrena e, deste modo, muitos duvidam da eternidade, julgando que nosso endereço final é a sepultura. Chegamos a duvidar da criatividade de Deus, pensando que a vida eterna não pode ser melhor do que essa vidinha que levamos. Deus nos oferece muito mais: oferece a vida divina, a posse dos bens celestes, a libertação dos desejos, do egoísmo, da angústia.

Não é difícil o caminho de Deus: ele mesmo vai à nossa frente. Basta segui-lo com generosidade, e sabendo que não podemos ir sozinhos: nossos irmãos devem ter nossas mãos para conduzi-los. A fraternidade terrestre é condição para a fraternidade celeste.

Festejemos a assunção da Mãe de Deus. E, com Maria, sigamos o caminho de Jesus, aceitemos sua verdade e teremos sua vida.

Pe. José Artulino Besen

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