Ecclesia

Sacerdote, membro do presbitério da Sacra Arquidiocese Ortodoxa Grega de Buenos Aires e América do Sul - Patriarcado Ecumênico, pároco-reitor da Igreja Ortodoxa Grega São Nicolau, de Florianópolis-SC (Brasil), desde 1° de julho de 2018.

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SÃO MAXIMILIANO MARIA KOLBE

São Maximiliano Kolbe – sacerdote e mártir

Nasceu em Lodz, na Polônia, em 8 de janeiro de 1894. Seus pais, Júlio Kolbe e Maria Dabrowska, eram tecelões bem de vida, que trabalhavam em casa com equipamentos teares próprios.

Em 1907, junto com o irmão Francisco deixou a casa paterna iniciando a provação junto aos frades menores conventuais em Leópolis onde, em setembro de 1910 vestiu o hábito religioso. Após o ano de noviciado e de estudos humanísticos foi enviado a Roma onde, de outubro de 1912 a julho de 1915, cursou filosofia na Universidade Gregoriana, seguida da teologia no Colégio Seráfico romano. Por motivo da guerra, passou um tempo em São Marinho, país neutro.

Em 17 de outubro de 1917 fundou a associação “Milícia de Maria Imaculada”, em 1922 erigida como “Pia União”, cujo fim era buscar a conversão dos pecadores, hereges, cismáticos, infiéis e especialmente maçons e a santificação de si próprios e de todos sob o patrocínio da Bem-aventurada Virgem Maria Imaculada e medianeira, assim ele mesmo definiu no redigir os estatutos.

Em 28 de abril de 1918 foi ordenado sacerdote e desejou celebrar a primeira Missa no altar do milagre na igreja de Santo André. Retornando à Polônia, contagiou-se com tísica e teve de passar quatro anos num sanatório vizinho a Zakopane. Em janeiro de 1922, o jovem Kolbe fundou uma revista mariana com o título significativo de “Milícia da Imaculada”, e assim constituir os fundamentos das futuras “Cidades da Imaculada”. A primeira dessas cidades surgiu em 1927, a 40 quilômetros de Varsóvia: era casa editora, a grande tipografia, as casas para os operários, as oficinas, ao todo mais de mil pessoas, a serviço da difusão do culto de Maria no mundo. Das 22 mil cópias em 1922, a revista chegou a ter mais 750 mil espalhadas por todo o mundo. Kolbe pensava em difundir sua obra nos países mais distante. Não por acaso, a segunda “Cidade da Imaculada” surgiu no Japão.

Em 1º de setembro de 1939, com a invasão da Polônia pelas tropas nazistas, estourou a segunda Guerra mundial. A “Cidade da Imaculada” estava exposta à rapidíssima invasão das tropas alemãs e, por isso, a prefeitura de Varsóvia ordenou a imediata evacuação de todos os seus habitantes. Kolbe reuniu os seus e ordenou a todos de salvar-se nos locais mais seguros. Ele ficou permaneceu no posto e se apresentou às tropas alemãs que prenderam as cinquenta pessoas restantes que, após uma caminhada de três dias foram internadas no campo de concentração de Amtitz. Mas, três meses depois foi-lhes permitido retornar à “Cidade da Imaculada”. Kolbe e a comunidade abriram aquelas casas aos doentes e vitimados pela guerra. Foi possível editar um número da revista, onde Kolbe publicou seu último artigo, no qual suplicava à Imaculada para que trouxesse uma paz sempre mais profunda ao mundo.

O Cavaleiro da Imaculada

Em 17 de fevereiro de 1941, o epílogo dramático: a Gestapo invadiu a “Cidade” e prendeu o Pe. Kolbe e outros quatro padres mais anciãos. A motivação foi a mesma que provocou milhões de deportados: a Polônia deveria ser purificada de todos os elementos que com sua profissão pudessem enfraquecer o front interno.

São Maximiliano Kolbe – só o amor é forte

Maximiliano Kolbe foi internado na prisão de Pawiak na noite de quarta-feira, 28 de maio, quando chegou ao campo de concentração de Auschwitz com outros 320 prisioneiros. Na primeira noite ficaram trancados na sala de ingresso do lager, oito metros por trinta. Na manhã seguinte foram despidos e lavados com fortes jatos de água gelada. A todos foi entregue um macacão com um número, e o de Pe. Kolbe era 16670. Foram colocados no barracão 17 dos trabalhos forçados, num primeiro tempo para a construção de um muro ao redor do forno crematório, e depois de uma semana empregados no corte das árvores num bosque distante quatro quilômetros do barracão 17. Foram duas semanas de esforços incríveis, sob as contínuas humilhações dos carcereiros. Doente de pulmonite, terminou no hospital por três semanas e em seguida foi colocado no barracão número 12, o dos inválidos. Pouco tempo depois, Pe. Kolbe foi novamente colocado no barracão dos trabalhos forçados, o famigerado n.14.

Em julho de 1941 um dos prisioneiros desse bloco, o 14, conseguiu fugir: como represália, dez prisioneiros dessa unidade foram condenados a morte pela fome. Esperou-se ainda um dia para continuarem as buscas pelo prisioneiro fugido do lager. Na manhã seguinte, após a chamada, na ausência do fugitivo, o bloco 14 não foi mandado para o trabalho, mas deixado sob contínuo sol quente, por todo o dia. Ao anoitecer, o comandante do campo anunciou aos prisioneiros a sentença e escolheu dez deles para a morte. Frente ao desespero de um dos dez, o pai de família Frank Gajowniczek, Pe. Kolbe deu um passo à frente e ofereceu-se em lugar dele, salvando-o. Os dez foram conduzidos ao bloco n. 13, localizado na parte direita do campo e circundado por um muro de seis metros de altura. No subterrâneo ficavam as celas dos condenados, algumas delas sem janelas. Ao final da terceira semana eram poucos os sobreviventes, entre eles o Pe. Kolbe. Uma injeção de ácido muriático encerrou a vida dos mártires; era 14 de agosto de 1941.

 
São Maximiliano Kolbe – mártir da caridade

O secretário e intérprete do chefe alemão no subterrâneo da morte, Bruno Borgowiecz, assistiu os últimos momentos: “… os pobres condenados morriam um depois do outro, tanto que ao final da terceira semana restavam somente quatro, entre os quais o Pe. Kolbe. Isso deu à autoridade a impressão que era tempo demais, as celas eram necessárias para outras vítimas… O Pe. Kolbe, com a oração nos lábios, ajudou o carrasco na aplicação da injeção mortal…. Tendo saído o SS com o carrasco, retornou à cela, onde encontrou o Pe. Maximiliano sentado, apoiado na parede, com os olhos abertos e a cabeça inclinada. Sua face, serena e bela, estava irradiante”. Pe. Maximiliano Maria Kolbe estava na pátria celeste, em Deus.

Papa São Paulo VI o declarou bem-aventurado em 17 de outubro de 1971. São João Paulo II o canonizou em 10 de outubro de 1982. Um processo rápido, apenas 42 anos após seu martírio.


Pe. José Artulino Besen

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SANTA MARIA MADALENA, APÓSTOLA DOS APÓSTOLOS

Por vontade do papa Francisco, um decreto da Sagrada Congregação do Culto divino de 3 de junho de 2016 elevou a memória litúrgica de Santa Maria Madalena à Festa igual a dos Apóstolos, com data de 22 de julho. Por que essa memória litúrgica de 22 de julho é equiparada à Festa dos Apóstolos? Na verdade, desde uma homilia do papa São Gregório Magno, as três mulheres são reduzidas a uma “Maria”. E assim ficamos 1.500 anos celebrando Maria Madalena como a Maria de Betânia e a Maria prostituta. Essa redução de Maria Madalena tornou-a sinônimo de mulher vulgar na linguagem do povo.

Se formos fiéis aos textos evangélicos, perceberemos uma história diferente para as três mulheres com o nome de Maria, todas tocadas pelo amor do Senhor, com a vida transformada após o contato regenerador. São três Marias, três histórias de salvação.

Foram necessários dois Papas, João Paulo II e Francisco, para retomarmos a imagem verdadeira e única de Maria Madalena. Foi João Paulo II que dedicou grande atenção não só à importância das mulheres na própria missão de Cristo e da Igreja, mas também, e com forte acento, à função de Maria Madalena qual primeira testemunha que viu o Ressuscitado e, mais, a primeira mensageira que anunciou aos apóstolos a ressurreição do Senhor. Santo Tomás de Aquino (1225-1274) definiu-a como “apóstola dos apóstolos”, porque foi ela que anunciou aos discípulos amedrontados e fechados no cenáculo aquilo que eles, por sua vez, deveriam anunciar a todo o mundo.

Promovendo o papel das mulheres na Igreja

O papa Francisco recebe críticas quando se trata de seus esforços (ou falta deles) em promover as mulheres, especialmente para cargos-chave dentro do Vaticano.

Muitas vezes seus críticos o acusam de grandes promessas, mas falhas na entrega. Em setembro de 2014, ele levantou as esperanças de muitos quando nomeou uma mulher – Irmã Missionária Comboniana, Luiza Premioli, brasileira – como membro de pleno direito da Congregação para a Evangelização dos Povos. Isso foi histórico: até então, “membros” das congregações romanas eram sempre homens: cardeais, bispos e às vezes chefes de ordens religiosas masculinas.

No último dia 8 de julho, quase cinco anos depois, Francisco causou alguma comoção quando nomeou sete mulheres para estarem entre as 23 pessoas recém-nomeadas como membros da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica. Seis dessas mulheres são superioras gerais de ordens religiosas, enquanto a sétima lidera um instituto secular.

De repente, o papa fez a bola rolar novamente, deixando os tradicionalistas alarmados. Estaria o papa dando os últimos retoques no documento preliminar para reformar a Cúria Romana?  É de se esperar que outras nomeações semelhantes de mulheres sigam em massa?

Contratempos e mensagens mistas

Maria Madalena (1809 – Antônio Canova)

Maria Madalena – uma mulher – pode ter sido a primeira pessoa a anunciar a ressurreição, mas no Vaticano os homens ainda estão controlando a mensagem.

Apenas 10 dias após a nomeação de sete mulheres como membros da congregação romana que lida com ordens religiosas, o Vaticano anunciou a nomeação do novo diretor em tempo integral da Sala de Imprensa da Santa Sé. Os três oficiais recém-nomeados são todos homens. E todos são italianos, embora um tenha nascido e vivido brevemente na Grã-Bretanha antes de ser mudado para Roma.

Havia a expectativa de que uma mulher fosse nomeada como vice-diretora da assessoria de imprensa. Pelo menos três mulheres foram convidadas a assumir o cargo. Duas delas, uma italiana e outra latino-americana, recusaram-se por várias razões. Diz-se que a terceira, uma brasileira que trabalhou no Vaticano por muitos anos, não conseguiu a aprovação da Secretaria de Estado.

Existem 12 “superiores”, com tarefas variadas, no dicastério da comunicação. Apenas 11 desses postos estão preenchidos no momento (não há vice-diretor do departamento de imprensa). Os homens ocupam 10 deles – nove são italianos e um é argentino. Uma teóloga leiga, eslovena, é a única mulher no alto escalão. Elas não estão melhor representadas entre os 17 membros em tempo integral neste dicastério. Existem apenas duas delas, os outros são 14 cardeais e bispos e um leigo. Há 31 pessoas listadas entre os funcionários dos vários departamentos e escritórios do jornal. Apenas três deles são mulheres no Osservatore Romano.

O papa Francisco normalmente não realiza revoltas radicais: ele prefere iniciar processos que levem a mudanças graduais – e irreversíveis, gosta de estabelecer cuidadosamente as bases ao longo do tempo, o que pode ser extremamente frustrante para pessoas impacientes ou para aqueles que estão empenhados em buscar justiça aqui e agora.

Mas Roma não foi construída em um dia e os papas que tentam mudar as coisas muito rapidamente podem se ver isolados, suas diretivas ignoradas ou obstruídas, e sua própria saúde e bem-estar em perigo! Francisco sabe disso e está cuidadosamente escolhendo suas batalhas. E enquanto ele continua dizendo que é a favor do avanço das mulheres para as funções de liderança e tomada de decisões dentro do Vaticano e de toda a Igreja, ele muitas vezes parece estar perdido em como fazê-lo.

Talvez ele esteja apostando em obter mais orientação e um pouco de especial intercessão de duas das mulheres que ele mais admira – Nossa Senhora, Desatadora dos Nós e Santa Maria Madalena.

Maria Madalena vê o Senhor

Era bem de madrugada, ainda escuro, e Maria Madalena foi ao túmulo e viu que a pedra tinha sido retirada. Assustada, saiu correndo e foi se encontrar com Pedro e o Discípulo amado para queixar-se: “Tiraram o Senhor do túmulo e não sabemos onde o colocaram”.  Os dois discípulos entram no túmulo e percebem que tudo estava em ordem como tinham deixado por ocasião do sepultamento, mas Jesus não estava lá. Viram e creram, e voltaram para casa.

Maria Madalena ficou perto do túmulo, do lado de fora, chorando. Enquanto chorava, inclinou-se para olhar dentro do túmulo. Enxergou dois anjos, sentados onde tinha sido posto o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. Perguntaram-lhe: “Mulher, por que choras?”. Ela respondeu: “Levaram o meu Senhor e não sei onde o colocaram”. Dizendo isto, Maria virou-se para trás e enxergou Jesus em pé, mas não o reconheceu. Jesus perguntou-lhe: “Mulher, por que choras? Quem procuras?”. Pensando que fosse o jardineiro, ela disse: “Senhor, se foste tu que o levaste, dize-me onde o colocaste, e eu irei buscá-lo”. Então, Jesus falou: “Maria!”. Ela voltou-se e exclamou: “Mestre!” Alegre, ela buscou tocar Jesus, que lhe disse: “Não me segures, pois ainda não subi para junto do Pai. Mas vai dizer aos meus irmãos: subo para junto do meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus”.

Então, Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: “Eu vi o Senhor”, e contou o que ele lhe tinha dito (cf. Jo 20, 1-18). Ela penetrava no íntimo da fé: o Senhor ressuscitou.

Revelou ao mundo um novo mundo: Cristo ressuscitou! Esse anúncio não proveio de descoberta intelectual, ideológica, e crer nele exige entrar no mistério. Assim expressou Francisco: “Entrar no mistério significa capacidade de espanto, contemplação; capacidade de escutar o silêncio e escutar o murmúrio de um fio de silêncio sonoro no qual Deus nos fala. Para entrar no mistério é preciso humildade, a humildade de abaixar-se, de descer do pedestal de nosso orgulhoso eu. É preciso o rebaixamento que é impotência, esvaziamento das próprias idolatrias.

Tudo isso nos ensinaram outras mulheres discípulas de Jesus (cf. Lc 24, 1-8). Com Maria Madalena elas passaram a noite em vigília, bem cedinho, saíram levando perfumes e com o coração ungido pelo amor. Saíram e encontraram o sepulcro aberto. E entraram. Vigiaram, saíram e entraram no mistério. Não podemos nos confrontar com o evento da ressurreição racionalmente. Ele somente pode ser contemplado e experimentado participando de sua potência de atração que toca o íntimo. Isto ensinam as mulheres, que não buscam entender, mas se deixam agarrar, entram no mistério”.

João Paulo II ressaltou a importância das mulheres na própria missão de Cristo e da Igreja e, de modo especial, à função peculiar, à função de Maria Madalena, a primeira testemunha que viu o Ressuscitado e a primeira mensageira que anunciou aos apóstolos a ressurreição do Senhor. Santa Maria Madalena é apresentada como um exemplo de “verdadeira e autêntica evangelizadora”, que anuncia a “alegre mensagem central da Páscoa”. Francisco quer significar a relevância desta mulher que mostrou um grande amor e foi tão amada por Cristo. Fazia parte dos discípulos de Jesus, havia-o seguido até aos pés da cruz e, no jardim onde se encontrava o sepulcro, tinha sido a primeira testemunha da ressurreição, testemunha da divina misericórdia.

O decreto que insere a memória de Maria Madalena na liturgia como dos apóstolos encontra a explicação no atual contexto eclesial, que convida a refletir mais profundamente a dignidade da mulher, a nova evangelização e a grandeza do mistério da misericórdia divina. Esperamos redescobrir na Igreja latina Maria de Mágdala evangélica, discípula de Jesus, testemunha da ressurreição e, por isso definida por Francisco “apóstola da nova e grande esperança”.

Pe. José Artulino Besen

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NOSSA SENHORA DO CARMO

Nossa Senhora do Carmo

O título de Nossa Senhora do Monte Carmelo, ou também do Carmo, é uma  das devoções mais antigas e amadas da cristandade e deita raízes nos tempos bíblicos. É a padroeira dos carmelitas e daqueles que se empenham em viver a espiritualidade do Carmelo; é protetora e intercessora daqueles que carregam o Escapulário, é a Rainha das almas do purgatório.

Em todo o mundo se multiplicaram os santuários, igrejas, irmandades, e, santos, papas, religiosos e devotos invocam esse título mariano festejado em 16 de julho.

O culto de Nossa Senhora do Carmelo tem suas raízes nove séculos antes do nascimento de Maria e está ligado a uma passagem da vida do profeta Elias, na cadeia montanhosa do Monte Carmelo, na Alta Galileia, onde tinha fundado uma comunidade de homens, defendendo a pureza da fé no Deus vivo contra a tentação do culto idolátrico a Baal. Ali Elias teve a visão da pequena nuvem, pequena como a mão de homem, que da terra subia para o monte, trazendo a chuva e salvando Israel da seca.

“Então, Elias disse a Acab: “Vai, come e bebe, porque já ouço o ruído de uma grande chuva”. Voltou Acab para comer e beber, enquanto Elias subiu ao cimo do monte Carmelo, onde se encurvou por terra, pondo a cabeça entre os joelhos. Disse ao seu servo: “Sobe um pouco e olha para as bandas do mar”. Ele subiu, olhou o horizonte e disse: “Nada”. Por sete vezes, Elias disse-lhe: “Volta e olha”. Na sétima vez, o servo respondeu: “Eis que sobe do mar uma pequena nuvem, do tamanho da palma da mão”. Elias disse-lhe: “Vai dizer a Acab que prepare o seu carro e desça para que a chuva não o detenha”. Num instante, o céu se cobriu de nuvens negras, soprou o vento e a chuva caiu torrencialmente. Acab pulou na carruagem e partiu para Jezrael.  A mão do Senhor veio sobre Elias, o qual, tendo cingido os rins, passou adiante de Acab e chegou à entrada de Jezrael. ” (1Re 18, 41-45).

Nesta imagem, uma tradição transmitida nos escritos pelos Padres da Igreja via na pequena nuvem o símbolo da Virgem Maria que – carregando em si o Verbo de Deus – deu ao mundo vida e fecundidade e continua a oferecer aos homens sua poderosa intercessão. Essa tradição forte no período medieval, encontrou acordo entre os exegetas os místicos cristãos.

As origens do culto

A devoção a Nossa Senhora do Monte Carmelo é inseparável da história e dos valores espirituais da Ordem dos Frades Carmelitas, à difusão do Escapulário e à oração pelas almas do purgatório.

Nos séculos medievais se estabeleceram no Monte Carmelo as primeiras comunidades monásticas que deram início à vida contemplativa. No século XI, os cruzados encontraram estes religiosos, provavelmente do rito maronita que se definiam herdeiros e discípulos do profeta Elias e seguiam a regra de São Basílio. Pelo ano 1154, retirou-se ali o nobre francês Bertoldo, vindo da Palestina com seu primo Armério e veio decidido a reunir os eremitas em vida cenobítica.

Ali, rodeada pelas pequenas celas construíram pequena igreja que dedicaram a Maria, e os eremitas se denominaram “Frades da Bem-aventurada Virgem Maria do Carmelo”, os atuais Carmelitas. Deste modo, o Carmelo adquiria definitivamente suas duas características: a referência ao profeta Elias e a união com a Virgem. Em seguida, o patriarca de Jerusalém redigiu os primeiros estatutos para os eremitas do Monte Carmelo.

Por volta de 1235, os frades tiveram que abandonar o Oriente, devido à invasão sarracena. Os que não sofreram o martírio instalaram-se pela Europa, fundando  o primeiro convento em Messina. Deste modo os carmelitas espalharam o culto àquela “a quem foi dada a glória do Líbano e o esplendor do Carmelo e do Saron” (Is 35,2).

O Escapulário do Carmelo e as promessas

Por volta de 1247, o frade Simão Stock foi escolhido como o sexto prior geral da Ordem Carmelitana; ele, venerado como santo pela Igreja Católica, propagou a devoção da Virgem do Carmelo e compôs para ela um belo hino, o Flos Carmeli.

São Simão Stock era profundamente devotado a Nossa Senhora e muitas vezes implorava-lhe que concedesse proteção especial à sua Ordem, com o dom de algum privilégio. Segundo a tradição, a Virgem quis ouvi-lo e no domingo, 16 de julho de 1251, apareceu ao Santo, com 86 anos, rodeada de anjos e com o Menino nos braços, mostrou-lhe um Escapulário e disse: “Filho amado, leve este Escapulário da sua Ordem, sinal de minha Irmandade, um privilégio para você e todos os Carmelitas. Aquele que morrer neste hábito não sofrerá um fogo eterno; ele é um sinal de saúde, de segurança nos perigos, de um pacto de paz e de um pacto de eternidade”.

Deste modo, a Virgem deixou nas mãos de Simão o penhor de sua primeira “Grande Promessa”: proteção e salvação eterna àqueles que usassem seu hábito sagrado. Originalmente, o escapulário era uma peça sem mangas e aberto nos lados. Na Idade Média, era usado por monges e frades para cobrir a veste no peito e nas costas.

A segunda promessa: o privilégio do Sábado

Vários anos depois da primeira promessa, no início dos anos 1300, a Virgem apareceu a Jacques Duèze, futuro Papa João XXII, e lhe teria dito: “Aqueles que estiverem vestidos com este hábito sagrado serão libertados do purgatório no primeiro sábado após a sua morte”. Portanto, se com a primeira promessa a Virgem assegurava a salvação eterna, com a segunda ela reduzia a permanência da alma no purgatório a um máximo de uma semana.

Assim, por mais de sete séculos os fiéis têm usado o Escapulário do Carmelo para assegurar a proteção de Maria em todas as necessidades da vida e para obter, através de sua intercessão, a salvação eterna e uma pronta libertação do purgatório.

As promessas relacionadas ao Escapulário também foram confirmadas pela Virgem em Fátima. Em 13 de outubro de 1917, de fato, enquanto o grande milagre do Sol era visto por mais de cinquenta mil pessoas, Maria mostrava-se aos pastores sob as vestes da Virgem do Carmelo, segurando apresentando o Escapulário em suas mãos.

Pode-se dizer, portanto, que os inestimáveis ​​privilégios ligados ao Escapulário são parte integrante da Mensagem mariana de Fátima, juntamente com o Rosário e a devoção ao Imaculado Coração de Maria. De fato, as referências ao inferno e ao purgatório, a necessidade de penitência e a intercessão de Nossa Senhora contidas na Mensagem estão em absoluta harmonia com as promessas ligadas ao Escapulário. Não é por acaso que Lúcia, a única dos três pastores que permaneceu viva, se tornou uma Carmelita Descalça, e disse que na mensagem de Nossa Senhora “o Rosário e o Escapulário são inseparáveis”. A Igreja sempre reconheceu e apreciou o Escapulário, através da vida de tantos santos e de Papas que o recomendaram e trouxeram.

São João XXIII confirmou a devoção e mais vezes o recomendou; São Paulo VI exortava ao uso e “recomendou expressamente a prática religiosa do Rosário e do Escapulário do Carmo”. E São João Paulo II falou a dois carmelitas: “também eu carrego no meu coração, há tanto tempo, o Escapulário do Carmelo, pelo amor que nutro pela Mãe celeste, cuja proteção experimento continuamente”.

Milhões de devoto espalhados pelo mundo atestam a devoção mariana, tão simples, simbolizada nas medalhas sobre o peito e a coluna, o Escapulário da Mãe de Deus.


Pe. José Artulino Besen

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CARDEAL JOHN HENRY NEWMAN

Santo para o nosso tempo.

Card. John Henry Newman

Em 1º de julho o Papa Francisco anunciou a canonização de cinco Bem-aventurados para o dia 13 de outubro, dentre eles a Irmã Dulce dos Pobres, a humilde religiosa dos Alagados de Salvador, e o grande convertido, teólogo e filósofo inglês do século XIX, John Henry Newman.

Uma criança, encantada com a figura do Cardeal Newman, lhe perguntou: “Quem é maior, um cardeal ou um santo?” Newman respondeu: “Veja, meu pequeno, um cardeal pertence à terra, é terrestre; um santo pertence ao céu, é celeste”. O postulador da causa de canonização concluiu: “de uma parte existe a atenção do cardeal pela santificação diária, a santidade simples dos pequenos gestos, mas, de modo radical há a ideia de que a realidade verdadeira é aquela celeste”. Numa pequena reflexão sobre a criança, Newman escreveu que a criança “saiu das mãos de Deus com todos os ensinamentos e conhecimentos do Paraíso há pouco impressos nela”.

Por muitos, Newman é considerado um dos maiores prosadores ingleses, o maior apologista da fé católica nascido na Grã Bretanha e dos mais importantes na história do Cristianismo. Seu arquivo pessoal, guardado no Oratório em Birmingham, conserva 37 tomos versando sobre teologia, filosofia, literatura, história, espiritualidade, e 70 mil cartas. Tinha convicção de que as cartas também eram um meio de fazer apostolado. Sua obra inclui também a fundação da Universidade Católica de Dublin, de que foi Reitor.

A “consciência” é o primeiro vigário de Cristo no homem, definiu esse homem que fez dela o grande tema de seu pensamento, sendo esse o grande mérito: a consciência é o tribunal do homem, é o tribunal que ninguém pode violar. A reflexão de Newman teve ressonância no Concílio Vaticano II, nos grandes temas da liberdade religiosa, liberdade de consciência, diálogo religioso e ecumênico. Sua visão de Igreja estava profundamente radicada na história humana, no compromisso com os pobres.

John Henry Newman pertencia a uma família de religião anglicana, e nasceu em Londres em 21 de fevereiro de 1801. Seu pai John Newman era banqueiro, enquanto que a mãe Jemina Fourdrinier descendia de família huguenote. Sua mãe a avó materna nele incutiram forte religiosidade, já o pai tinha mais interesse no teatro e na música.

John Henry recebeu ótima educação na escola de Ealing, perto de Londres e ali sob o influxo de um pastor, em 1816 aderiu ao Cristianismo reformado a que ele chamou sua “primeira conversão”. No mesmo ano, o banco de seu pai faliu por causa das guerras napoleônicas e o jovem Newman contraiu uma doença grave, que mais tarde qualificou como providencial. Em sua posição religiosa protestante, chegou a crer que o papa era o anticristo.

Em 1817 ingressou no Trinity College de Oxford, marcando pela vivacidade, criatividade e inteligência. Em 1824, decidido a seguir carreira eclesiástica foi ordenado diácono e no ano seguinte, presbítero, recebendo como primeiro encargo a paróquia de St. Clement.

Newman conheceu em Oxford o grupo de teólogos liberais que procuravam explicar racionalmente os dogmas e a fé cristã. Mas depois, foi instruído por teólogos que lhe falaram do valor da Igreja visível, do valor dos sacramentos, de modo especial da sucessão apostólica. O tema da fé e a sucessão apostólica, a visibilidade da Igreja marcavam sua preocupação.

No final de 1827, sofreu uma espécie de colapso nervoso, causado por excesso de trabalho e problemas econômicos da família, ao que se somou a súbita morte de sua irmã caçula. Pouco tempo depois, nas férias de 1828, começou a ler as obras dos Padres da Igreja.

Entrou no Movimento de Oxford, que tentava mostrar que a Igreja Anglicana descendia dos apóstolos. Isso fez com que ele refletisse sobre a Igreja, posição mais próxima à comunhão com Roma. Quanto mais aprofundava o conhecimento da doutrina católica, mais sentia-se distante da doutrina anglicana.

John Henry Newman – 1844

Em 1842, retirou-se para a cidade de Littlemore onde, como um monge austero, levou vida comum com um pequeno grupo de seguidores. Em 1843, retratou-se formalmente de suas declarações contra a Igreja Católica. Em setembro do mesmo ano, pregou seu último sermão como anglicano. Dois anos depois, em 1845, converteu-se ao Catolicismo.

Introduziu no livro Ensaio sobre o Desenvolvimento da Doutrina Cristã, escrito em 1845, a ideia do desenvolvimento da doutrina para defender a doutrina católica de ataques e críticas feitas por alguns anglicanos e protestantes, que achavam que alguns elementos da doutrina católica eram corrupções ou inovações contrárias aos ensinamentos de Jesus Cristo. Esse desenvolvimento foi, em sua opinião, a consequência natural e benéfica do estudo e reflexão da razão humana sobre a Revelação divina, que é imutável. Ele defendeu que este estudo teológico levou a Igreja Católica a perceber progressivamente certas realidades reveladas e que antes não tinha compreendido explícita e totalmente. Joseph Ratzinger (Bento XVI) salientou que “a concepção de Newman sobre a ideia do desenvolvimento marcou o seu caminho rumo ao Catolicismo. Contudo não se trata apenas de um desenvolvimento coerente de ideias. No conceito de desenvolvimento está em jogo a própria vida pessoal de Newman, […] a própria experiência pessoal de uma conversão jamais concluída.” Ratzinger afirmou ainda que, com esta concepção teológica, Newman “ofereceu-nos a interpretação não só do caminho da doutrina cristã, mas também da vida cristã”.

Da fé no Deus vivo à fé católica

A conversão à fé no Deus vivo é a primeira conversão de John Newman. Até aquele momento, ele pensava como a média dos homens do seu tempo e como a média dos homens também de hoje, que não excluem pura e simplesmente a existência de Deus, mas consideram-na em todo o caso como algo incerto, que não tem qualquer função essencial na própria vida. Como verdadeiramente real apresentava-se lhe, a ele como aos homens do seu e do nosso tempo, o empírico, aquilo que se pode materialmente agarrar. Esta é a “realidade” segundo a qual nos orientamos. O “real” é aquilo que se pode agarrar, são as coisas que se podem calcular e pegar na mão.

Ratzinger comenta que, em Newman, a força que impelia pelo caminho da conversão era a consciência. Para ele, “consciência” significa a capacidade de verdade do homem: a capacidade de reconhecer, precisamente nos âmbitos decisivos da sua existência – religião e moral –, uma verdade, a verdade. E, com isto, a consciência, – a capacidade do homem de reconhecer a verdade -, impõe-lhe, ao mesmo tempo, o dever de se encaminhar para a verdade, procurá-la e submeter-se a ela onde quer que a encontre. Consciência é capacidade de verdade e obediência à verdade, que se revela ao homem que procura de coração aberto. Podemos afirmar que a verdade é encontrada por quem a procura.

A conversão ao Catolicismo de 1845 exigiu-lhe o abandono de quase tudo o que lhe era caro e precioso: os seus haveres e a sua profissão (em Oxford), o seu grau acadêmico, os laços familiares e muitos amigos. A renúncia que a obediência à verdade, a sua consciência, lhe pedia, ia mais além ainda. Newman sempre estivera consciente de ter uma missão para a Inglaterra. Mas, na teologia católica do seu tempo, dificilmente podia ser ouvida a sua voz; era demasiado alheia à forma dominante do pensamento teológico e mesmo da devoção.

Em janeiro de 1863, escreveu no seu diário estas palavras: Como protestante, a minha religião parecia-me miserável, mas não a minha vida. E agora, como católico, a minha vida é miserável, mas não a minha religião.

Não chegara ainda a hora da sua eficácia, de sua aceitação. Na humildade e na escuridão da obediência, ele teve de esperar até que a sua mensagem fosse utilizada e compreendida. A “consciência” é a expressão da acessibilidade e da força vinculadora da verdade: nisto se funda o “seu” primado. Sua profunda afirmação: “Sem dúvida, se fosse obrigado a introduzir a religião nos brindes após um banquete (o que não me parece a coisa melhor), brindarei, se quiserdes, ao Papa; todavia, primeiro à Consciência, depois ao Papa”. Para ele era evidente: ao Papa pode ser dedicado o segundo brinde, porque a sua missão é exigir a obediência à verdade.

Fundou o Oratório de São Filipe Neri, na Inglaterra. Em 1879 o Papa Leão XIII criou-o cardeal, e escolheu como lema Cor ad cor loquitur (O Coração fala ao coração).

Morreu em 11 de agosto de 1890. No sermão fúnebre, o Cardeal Manning, também ele um convertido, falou: “Perdemos nosso maior testemunha da fé, e todos ficamos mais pobres e menores por essa perda”.

Passou mais de metade da existência no Oratório de Edgbaston (Birmingham). Viveu o sacerdócio católico celebrando os sacramentos, ensinando as orações, o catecismo, sendo notável pregador. O Cardeal Newman foi sempre manso e nunca atacou a fé católica e a fé anglicana. Sendo grande filósofo e teólogo, dedicou-se aos humildes, compondo e imprimindo orações, exortações, cartões devocionais. Socorreu os pobres, os empestados, sofrendo com eles os efeitos da revolução industrial.

Ó meu Deus, eu creio que tu me amas
mais do que eu me amo a mim mesmo”.

Suas palavras expressam intensa piedade:

“Ó se pudéssemos ver as coisas
com tamanha simplicidade,
de sentir que a única coisa que temos de fazer
é agradar a Deus”.

Bento XVI o declarou bem-aventurado em 19 de setembro de 2010 em Birmingham, em sua viagem apostólica à Inglaterra.

O epitáfio que escreveu para o túmulo indicava o objetivo de sua vida e também a história de sua conversão:

Pelas sombras e pelas imagens, à verdade.

Pe. José Artulino Besen

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IRINEU DE LYON: SOBRE A IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS

Igreja de S. Ireneu, Lyon.

Santo Irineu de Lyon é o grande mestre da teologia oriental, que lhe deve a explicação sobre a criação do homem à imagem e semelhança de Deus: Deus nos criou à sua imagem, mas o pecado enfraqueceu em nós a imagem divina, deixando-nos, porém, a nossa semelhança com o Criador. 

Irineu segue o caminho bíblico oferece como a melhor explicação: o homem é imagem de Deus na sua integridade, espírito e corpo, sem divisão. Vencer a tendência a sermos desencarnados: realçar a alma, a inteligência, deixando de lado a corporeidade. O homem é imagem de Deus na sua totalidade, carne e espírito, não é um anjo sem asas.

Irineu diz que Deus criou o homem à imagem do Verbo encarnado. O Espírito Santo é aquele que realiza este progresso, o dinamismo entre a imagem e a semelhança.  Não permite a interrupção do processo, buscando a restauração pela qual a semelhança recupera a imagem divina. Essa é a obra da vida espiritual do homem, cujo artífice é o Espírito Santo que amadurece

O Espírito Santo é o artífice da vida espiritual do homem, que o amadurece. No termo final dessa passagem, o homem, esquecendo as propriedades da carne, se tornará forma incorruptível, imortal. Assim, a restauração da imagem só pode ser realizada pela ação do Espírito Santo.

O ponto de partida é esse impulso (Fl 3,13-14): em certo sentido, o homem é um ser orientado para o Outro e aspira a superar-se, pois nunca está satisfeito. O pobre em nós busca tornar-se rico. O homem aspira ao que é maior do que ele e orienta-se ao totalmente outro. O “Deus desconhecido” (pregação de Paulo – At 17, 22-31) é a Imago Dei: não é um ideal, mas o princípio constitutivo do ser humano.

O fato da Encarnação é um fato primordial: sem ela, tudo passa a ser vã pretensão. Com ela, o homem se transforma na face humana de Deus. Por isso, a Encarnação não pode estar condicionada à queda, que aconteceria mesmo sem o pecado. O eros (eros = amor que necessita do outro) divino fez Deus descer à terra, fê-lo deixar o mundo do silêncio. O impulso que o homem tem no coração atinge o cume no Cristo histórico. O homem e Deus se olham no espelho e, em certo sentido, se conhecem (Pavel Evdokimov).

O homem, da semelhança à imagem de Deus

Irineu de Lyon (130-200), originário do Oriente, natural de Esmirna, foi discípulo de Policarpo que, por sua vez é discípulo de João. Irineu faz a ponte entre a teologia cristã e a era apostólica. Através dela atingimos o mundo dos apóstolos. Acompanhou um grupo de gregos imigrado na Gália, procurando libertá-los das heresias. Na idade adulta foi ordenado presbítero e depois eleito bispo de Lião. Ali redigiu sua obra fundamental “Adversus Haereses” (contra as heresias), sobre o Deus criador. Abandona a filosofia alexandrina, transmitindo o ensinamento bíblico.

Deus criou o homem “imperfeito”, mas nele incluiu um grande desejo, um impulso de perfeição. Há no homem um profundo desejo de perfeição.

A imperfeição se refere à temporalidade: o tempo tem um valor específico. Nele, tudo se desenvolve segundo certa ordem. Os seres nascem pequenos e passam a crescer. Deus se adapta a esta ordem do ser. Para Irineu, Adão e Eva não são trágicos, mas sim, ingênuos, sem experiência, e são modelos pedagógicos para o homem. A experiência significa amadurecimento. Antes de experimentar, o homem não sabe ir adiante.

Irineu fala do Adão criança mesmo tendo corpo de adulto, pela sua falta de experiência. Idade não fisiológica, mas psicológica: falta de discernimento. Adão ainda não tinha tido tempo para aprender. Mas, sua imperfeição, inocência, era transitória. Por ser ainda ingênua, Eva logo foi convencida pela serpente. Adão era destinado ao crescimento: Deus se serve de uma pedagogia diante do homem. Isso é importante para a espiritualidade: a perfeição nunca está no início do processo, mas é o fim desse processo. Deste modo, o pecado não é trágico: é aprendizado.

Há no homem uma “lei do progresso”: o que conta é atingir a perfeição. O progresso é constitutivo do homem. Deus coloca no homem o impulso, o desejo de perfeição, o sopro de vida. Assim, mesmo a expulsão do paraíso foi pedagógica, para que o homem se tornasse mais perfeito. O pecado e o exílio são temporais: o homem vencerá. Não se prender às consequências do pecado, mas ver a pedagogia, pela qual o homem procura a perfeição.

A queda provocou um enfraquecimento do espírito: a potência divina não foi destruída, mas enfraquecida. O tempo tem imenso valor, pois nele se realiza o progresso: do estado infantil, o homem se encaminha à idade adulta, à imagem de Cristo, o homem perfeito. Cristo é a imagem do Deus invisível (Cl 1,15).

O progresso está inscrito no ser do homem, mas Deus respeita a liberdade e o ritmo do homem. É um progresso lento, inerente ao ser corpóreo. Deus poderia ter dado a perfeição no início, mas o homem não seria capaz de acolhê-la. Assim, pela obra do Espírito, o homem e a mulher caminham sempre mais, da semelhança até a imagem de Deus. Essa é a perfeição fruto a obra de Cristo.

Santo Irineu ofereceu uma reflexão mais bíblica sobre a ação do Deus Criador. O homem e a mulher são grandes, porque essa é a vontade divina:

A glória de Deus é o homem vivo; e a vida do homem é a visão de Deus”.

Pe. José Artulino Besen

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SÃO SEBASTIÃO, SOLDADO DO IMPÉRIO

São Sebastião – Gerrit Van Honthorst

O lugar de nascimento de Sebastião foi Narbonne ou, como seus pais, a cidade de Milão, onde já era venerado no tempo de Santo Ambrósio, no século IV. Esta veneração, menos de um século após seu martírio, é a grande prova de sua existência, martírio e importância nas comunidades cristãs. Ambrósio, antes de ser bispo de Milão, tinha sido prefeito: venera em Sebastião um representante do Império ao qual tinha servido como soldado: Sebastião no tempo da perseguição, Ambrósio, no tempo da liberdade.

No Império romano, uma das carreiras mais importantes era a militar e isso tanto do ponto de vista econômico como de prestígio. Ganhava-se o sustento e a fama da coragem. Sebastião iniciou o serviço militar na Gália, importante província do Império. Ali havia uma pequena, mas corajosa comunidade cristã e nela o jovem soldado foi instruído e batizado.

Roma era o sonho de todo o cidadão do Império, era a Capital, quase divina, onde residiam os deuses, a cultura, o Senado e o Imperador. A cidade imperial foi o destino do soldado Sebastião, por volta do ano 283.

Aproveita a residência em Roma para confortar os cristãos duramente perseguidos e animar a perseverarem na fé aqueles que, sendo interrogados e ameaçados, estavam por fraquejar.

Marcos e Marceliano

Sebastião assistiu ao interrogatório e à condenação dos irmãos Marcelino e Marcos. Os dois jovens, diante dos apelos dos amigos e parentes, estavam por ceder ao culto aos ídolos. Sua fraqueza aumentou quando ouve os gritos de sua mãe e de seu pai. A pobre mãe, não entendendo a atitude dos filhos que aceitam a morte, rasgando as vestes e desnudando os seios, gemia:

Ó queridos e doces filhos, sou presa de uma miséria inaudita e de uma dor intolerável. Ah, que desgraçada sou! Perco meus filhos, que correm por vontade própria para a morte! Se os inimigos os tomassem de mim, eu perseguiria esses raptores no meio de seus batalhões; se uma sentença os condenasse à masmorra, eu iria quebrar a prisão, ainda que morresse por isso. Mas hoje aparece uma nova maneira de perecer: eles mesmos rogam ao verdugo que vibre seu golpe, desejam a vida apenas para perdê-la, convidam a morte a vir. Novo luto, nova miséria! Filhos ainda jovens entregam-se à morte, e pais infortunados, já velhos, são forçados a tudo presenciar.

Falava ainda a mãe desesperada quando chega o velho pai, carregado pelos empregados e, gemendo, gritava:

Meus filhos entregam-se à morte; vim lhes dar adeus, e tudo que havia preparado para me sepultar, ó desgraçado que sou!, empregarei para a sepultura de meus filhos. Ó meus filhos! Bengala de minha velhice, dupla chama do meu coração, por que amar a morte assim? Jovens que vêem tudo isso, venham aqui chorar meus filhos. Pais que assistem a esta cena, aproximem-se, impeçam-nos, não aceitem semelhante perversidade! Olhos meus, chorem até se apagar, para que eu não veja meus filhos decepados pela espada[1].

Marcelino e Marcos estavam com o coração dividido: de um lado, o amor a Jesus Cristo a quem tinham entregado a vida e, de outro, a dor de seus pais e amigos. Não há cena mais dolorosa do que ver os pais entre lágrimas e gemidos suplicando um favor!

Neste momento interveio Sebastião. Sabia ele muito bem o quão forte era a tentação dos jovens. Mas sabia melhor ainda que não valia a pena uma vida traindo-se o Salvador e Deus. Aproxima-se deles, lembra-lhes o que aprenderam, a graça do batismo, o único sentido da vida que é caminhar para a Vida eterna.

Saindo do meio da multidão, falou aos pais:

Nada temam, vocês não serão separados; eles vão para o céu preparar para vocês moradas de deslumbrante beleza. Desde a origem do mundo esta vida não para de enganar os que esperam algo dela. Ela engana os que a buscam, ela ilude os que contam com ela, ela mente a todos. Esta vida ensina ao ladrão suas rapinas, ao colérico suas violências, ao mentiroso suas espertezas. É ela que comanda os crimes, que ordena as perversidades, que aconselha as injustiças. Mas os contratempos são efêmeros, e essa perseguição que agora sofremos, se é violenta hoje, amanhã terá desaparecido: uma hora a trouxe, uma hora vai levá-la. Mas as penas eternas renovam-se sem cessar, a vivacidade de suas chamas nunca diminui, para sempre punir. Estimulemos nosso amor ao martírio. Quando ele ocorre, o diabo acredita obter uma vitória, mas não: quando captura, ele próprio é capturado; quando prende, ele é atado; quando vence, é vencido; quando tortura, é torturado; quando degola, é morto; quando insulta, é maldito”.

Neste momento a graça começa a agir através das palavras de Sebastião: Zoé, esposa do arquivista-mor Nicóstrato, muda há seis anos, arrependida caiu aos pés de Sebastião e logo recuperou a fala (também os mudos que Jesus curava recebiam, com a fé, a capacidade de falar). A força da palavra de um cristão desencadeia uma corrente de graças: o carcereiro Cláudio e 16 outros prisioneiros, entre os quais os pais de Marcelino e Marcos, manifestaram o interesse de conhecer o motivo da fé e da coragem de Sebastião.

Os dois irmãos não queriam a liberdade, pois desejavam antes a libertação total do martírio, irem logo contemplar a Deus face a face. Mas foram libertados e todos foram acolhidos na casa de Nicóstrato e ali foram instruídos e batizados pelo sacerdote Policarpo.

O triunfo da graça de Deus

Afligido por grandes enfermidades, Cromácio, governador de Roma quis pessoalmente conhecer o soldado Sebastião. Sebastião pediu-lhe para quebrar os ídolos, ao que Cromácio respondeu: Não faça isso. Deixe esse trabalho para meus escravos!. Sebastião discordou, pois via nisso uma possível tentação e disse: As pessoas tímidas temem quebrar seus deuses, e se o fizerem e forem feridas pelo diabo, dirão que é castigo porque quebravam seus deuses. Deste modo, ele mesmo quebrou as dezenas de ídolos.

Mas Sebastião percebeu que a conversão não era ainda sincera e que alguns ídolos estavam escondidos, o que foi confirmado por Cromácio. Tocado por suas palavras, converteu-se à fé cristã e, com a cura espiritual, recebeu também a graça da cura física. Para viver sua fé, renunciou ao importante posto de prefeito de Roma.

Fabiano, o novo prefeito da capital imperial, enfureceu-se pelo modo como respeitáveis cidadãos estavam abandonando os deuses do Império e decretou uma nova perseguição. O filho de Cromácio, Tibúrcio, também tinha recebido o batismo e pouco tempo depois foi decapitado, dando sua vida para obter a Vida eterna.

A ira caiu sobre os irmãos Marcelino e Marcos, novamente levados ao tribunal. Fabiano mandou que fossem amarrados a uma estaca, mas os irmãos, em vez de perderem a coragem cantaram: “Vejam como é bom e agradável irmãos ficarem juntos!”. Sentiam-se mais irmãos do que nunca. O prefeito pediu-lhes que renunciassem às suas loucuras cristãs, ao que responderam: Nunca fomos mais bem tratados!. Então Fabiano ordenou que enfiassem lanças em seus flancos e assim consumaram seu martírio após um dia de grande sofrimento.

Sebastião, soldado de confiança

Sebastião – mosaico do século VII, São Pedro in vincolis

O que fazia Sebastião em Roma? Era catequista, encorajador dos cristãos em momentos de dificuldade, mas era também homem do glorioso e invencível exército romano.

No exército romano, a legião de infantaria era composta de 6 mil homens e estava dividida em 10 coortes. Sebastião recebera o comando da primeira coorte, que era a que ficava mais à direita na primeira linha. O posto significava um sinal de confiança da parte das autoridades romanas e, além disso, indicava que havia cristãos em todas as esferas da vida romana, não sendo mais verdade a afirmação de que o cristianismo era a religião de gente “sem eira nem beira”, na afirmação de um escritor inimigo da fé cristã.

Era imperador Diocleciano (284-305), homem de grande autoridade e capacidade administrativa. Foi no seu tempo que o Império romano mais estendeu as fronteiras e, ao mesmo tempo, anunciava um período de problemas internos e externos. Tentando segurar a inevitável crise do Império, Diocleciano encetara diversas reformas administrativas e econômicas. Queria também reformar as consciências restaurando o culto imperial e dos deuses romanos. Decidido a pôr fim ao crescimento do cristianismo, em 24 de fevereiro de 303 publicou o primeiro Edito de perseguição, ao qual seguiram-se outros. Foi o mais feroz ataque do Império ao cristianismo, e também o último. Em 313 o cristianismo ganharia a liberdade, sob o imperador Constantino.

Ignorando a fé cristã de Sebastião, nomeou-o centurião de uma companhia de guardas pretorianos, grande honra, pois significava guardar o palácio imperial e a própria pessoa do imperador. Ali Sebastião não foi considerado tão estranho, pois se sabe que dentro do palácio havia cristãos, inclusive a mulher de Diocleciano Prisca e a filha Valéria. Numa população de 50 milhões de habitantes, pode-se calcular que os cristãos somavam de 7 a 10 milhões, entre eles contando-se as melhores forças morais do Império.

Prevendo tempos tempestuosos, o convertido ex-prefeito de Roma, Cromácio, decidiu transferir-se para a região italiana da Campânia, levando consigo um grupo de cristãos. Sebastião e Policarpo discutiram qual dos dois acompanharia o grupo, a fim de completar-lhe a instrução na fé cristã. O papa Caio (ou Gaio) decidiu que era melhor para a Igreja que Sebastião permanecesse em Roma.

Continua a perseguição aos cristãos

Diocleciano sempre atribuiu aos cristãos a culpa pelos problemas do Império sendo assim hostil a essa fé religiosa à qual atribuía as crises no mundo romano. Vimos que desencadeou nova onda de perseguições, a mais terrível e geral. Tanto o papa Caio como Zoé e Tranqüilino, pai de Marcelino e Marcos, esconderam-se no palácio imperial, nos aposentos do oficial cristão Cástulo. Descobertos, foram condenados à morte. Zoé foi pendurada pelos calcanhares sobre o fogo, morrendo sufocada pela fumaça e Tranqüilino foi apedrejado até a morte. Os outros cristãos, após longa tortura, foram lançados ao mar. Cástulo foi enterrado vivo.

Sebastião – Marco Zoppo – século XV

Sebastião foi acusado diante do imperador, que se queixou amargamente por ter-se sentido traído na confiança depositada. Sempre quis que você ocupasse postos elevados no meu palácio, mas você agiu em segredo contra meus interesses e insulta os deuses, queixou-se o imperador, ao que lhe respondeu Sebastião: Foi para sua salvação que honrei Cristo, e é pela conservação do Império Romano que sempre adorei o Deus que está nos céus.

Foi Sebastião entregue a um grupo de arqueiros da Mauritânia, para que se divertissem atirando flechas mirando em seu corpo. Amarrado a um tronco foi crivado de flechas e depois abandonado como morto para ser devorado pelos abutres, conforme o costume. Uma cristã, Irene, em segredo foi retirar o corpo de Sebastião a fim de dar-lhe sepultura digna e, para surpresa sua, viu que estava vivo! Recolhido, teve as feridas tratadas.

Poderíamos pensar que o ex-centurião da guarda pretoriana fugisse para lugares mais seguros, mas não foi o que aconteceu. Sebastião, livre agora de outros trabalhos, pôs-se a confirmar os cristãos na coragem de viver em tempo difíceis e levar outros a crerem em Jesus. Tendo recebido notícia de que Sebastião estava vivo e continuando a provocar os deuses, Diocleciano ordenou que o aprisionassem e condenou-o a ser espancado até a morte, decapitado e seu corpo lançado numa fossa.

Sabendo do ocorrido através de uma visão, a cristã Lucina descobriu onde estava o corpo, foi buscá-lo e sepultou-o no lugar chamado de “ad catacumbas”, na Via Ápia. Nessas Catacumbas, fora dos muros da cidade de Roma, em 288 tinham sido exumadas as relíquias dos apóstolos Pedro e Paulo. E ali, o apóstolo dos mártires foi também sepultado. Corriam os primeiros anos do século IV, talvez o ano 303-304, quando São Sebastião deu a vida por Nosso Senhor e tornou-se definitivamente soldado de Cristo.

Seu túmulo tornou-se local de culto cristão e, em 367, o Papa Dâmaso fez construir sobre ele uma igreja, até hoje local de muitas peregrinações.

Pe. José Artulino Besen


[1] VARAZZE, JACOPO DE: Legenda Áurea. Tradução de Hilário Franco Júnior. Cia. das Letras, 2003, pp. 178-182.

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A LUZ QUE ILUMINOU A NOITE – NASCEU JESUS

Em Belém de Judá nasce o Salvador

Naqueles tempos apareceu um decreto de César Augusto, ordenando o recenseamento de toda a terra. Todos iam alistar-se, cada um na sua cidade. Também José subiu da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi, para se alistar com a sua esposa Maria, que estava grávida. Estando eles ali, completaram-se os dias dela. E deu à luz seu filho primogênito e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2,1-7).

Sinta a simplicidade desta cena acompanhando a descrição da vidente Teresa Neumann (†1962): vencendo as barreiras do tempo, teve a graça de poder contemplar estes dias decisivos da história humana, agora história divina pela presença real do próprio Filho de Deus: “José fala a Maria que, por ordem de César Augusto, deve partir para Belém, para o recenseamento do Império. Como deveria ser na cidade natal, partiria logo. Maria esperava o parto para os próximos dias, por isso a ordem era dolorosa. José achou que seria muito pesado para Maria e propôs ir sozinho. Maria respondeu que Deus ajudaria e se deveria obedecer às autoridades. Prepararam-se para a viagem.

Como animal de transporte e ao mesmo tempo cavalgadura pegaram uma asna, pois assim teriam leite. Colocou-se sobre ela a tenda cinzenta, juntamente com um cobertor cinzento de lã. O resto da bagagem foi pendurado no lado da asna, à esquerda um pacote que continha um cobertor de lã para José e, dentro dele, pão, frutas e um vestido quente para Maria. À direita havia dois pacotes: um menor, com uma coberta de lã que poderia ser cortada em pedaços para fazer paninhos; dentro dela, havia também blusinhas e paninhos para o bebê que estava para nascer. O outro pacote continha uma roupa quente para Maria e mais alimento. Horizontalmente, estavam fixados os três paus da tenda

Partiram pelas 6 da manhã de 22 de dezembro.  Maria montou no jumento, com os pés para a esquerda. José ia à frente puxando o animal pelas rédeas e tendo às mãos um bastão. Usava uma veste amarela e um manto marrom. Maria vestia um quente manto azul escuro, uma veste marrom avermelhado e um xale de lã amarelo sob o manto. O tempo era frio e chuvoso e as estradas estavam ruins e lamacentas. O dia de viagem foi bom. Pela noite, José armou a tenda e ali dormiram sobre as cobertas que tinham trazido.

23 de dezembro: Maria e José partiram pelas 5 da manhã. Viajaram sem parar até ao meio-dia. Para não cansar o animal, de vez em quando Maria andava um pouco a pé. Pelo meio-dia, Maria estava cansada. Ficaram felizes quando ao longe avistaram uma casa. Foram muito bem acolhidos por um casal idoso. Viram o estado de Maria, pálida, mas muito sã e lhes ofereceram comida quente. Seguindo adiante, dormiram a segunda noite num pequeno abrigo, pagando o alojamento.

24 de dezembro: pelas seis da manhã, a viagem prosseguiu. Pelo meio-dia o jumento, cansado, andava com dificuldade e numa pequena propriedade receberam pasto para ele. O tempo continuava chuvoso e frio. Ao anoitecer estavam às portas de Belém, que tinha então aproximadamente 1.100 habitantes. Já estavam acesas fogueiras pela estrada. Grandes pedras serviam de calçamento, e eram escorregadias. José entrou numa casa e Maria ficou segurando o jumento. José logo saiu, comunicando a Maria que não havia alojamento. Na próxima casa, a mesma resposta. José foi adiante e chegou à casa onde tinha nascido e na qual deveria se recensear. Muita gente, e por isso José deixou para o dia seguinte.

Maria pediu que José se apressasse pois sua hora estava chegando. Escureceu totalmente. A um homem gentil, José perguntou onde poderia se abrigar com Maria. Com pesar respondeu que não adiantaria procurar na cidade, mas disse-lhes para se dirigirem ao setor sul da cidade e, saindo dela, encontrariam uma estrebaria dele, onde consentiria que se instalassem. José acendeu o candeeiro para poderem caminhar e, finalmente, entraram na estrebaria, quando era oito da noite. Era construída junto a uma colina, junto a uma caverna que se abria na rocha. O teto era de madeira e igualmente as paredes laterais. Na parede direita, uma pequena janela. José amarrou o jumento num pau e mais tarde num outro pau perto do menino, para que o aquecesse. Pendurou a lâmpada no centro do teto. Em seguida preparou o leito para Maria e para si. Para Maria estendeu sobre a palha a tela da tenda e a coberta cinza de lã. Para si, uma coberta de lã e palha. Maria dormiria à direita do estábulo e ele à esquerda. O céu estava coberto de nuvens.

– 24-25 de dezembro: o nascimento de Jesus foi pela meia-noite do dia 24 para o dia 25. Pelas 23h Maria entra em êxtase. Permanece ajoelhada e com os braços cruzados sobre o peito. Pela meia-noite o Menino divino deixa o ventre materno que imediatamente se fecha. José tinha enchido uma manjedoura de palha: embaixo, palhas de trigo e encima juncos macios. Tinha um metro de comprimento e nela Maria colocou o neném, depois de enxugá-lo, envolvê-lo em paninhos, coberto com uma blusinha de manga comprida e de um coberta de lã. Depois rezaram, ajoelhados, cada um num lado. José com as mãos juntas e Maria com os braços em cruz. Quando Jesus nasceu o céu ficou limpo e cheio de estrelas”.

Um filho em Israel

Os judeus sempre consideraram os filhos como uma bênção: “Herança do Senhor são os filhos; o fruto do ventre sua recompensa”. O nascimento era o mais feliz de todos os acontecimentos. Toda a vizinhança era avisada e se preparava uma festa. O mais humilde dos casais sentia a alegria de proclamar com Isaías: “Um menino nos nasceu, um filho nos foi dado”. O primogênito era ainda mais motivo de festa pois seria o futuro da família e o herdeiro dos deveres e direitos, recebendo a herança em dobro.

As mulheres de Israel davam à luz com facilidade, rindo das egípcias que, para elas, faziam muita complicação. Havia parteiras, mas a mulher judia sabia se arranjar perfeitamente sem elas, como Maria o fez no estábulo. Maria deu à luz o menino, amarrou o cordão umbilical e o cortou.

O primogênito de Maria e José não teve a festa da vizinhança, dos parentes e amigos, das crianças de Nazaré. Estavam sozinhos, na noite de Belém, a mais luminosa de todas as noites. De jeito nenhum, o pai podia assistir ao parto. Ficava fora até que alguém lhe comunicasse a notícia. Então entrava e o colocava sobre os joelhos, reconhecendo oficialmente sua legitimidade.

Maria seguiu a tradição de seu povo: apenas a criança estava com o cordão umbilical amarrado e cortado, chamou a José que entrou, sentou-se e colocou o bebê em seus joelhos: o filho de Maria era também seu filho.

Transfigurada pelo momento que estava vivendo, emocionada ao ver José com aquela criaturinha indefesa, chorando, coberta pelos líquidos da placenta, Maria lhe fala: “José, meu Filho único, que será adorado por todos os anjos e por todos os homens, seria por todos desprezado como ilegítimo se não soubessem que tu és seu pai. Tu és meu esposo, tu és o pai de quem acabei de dar à luz. Nós viveremos seguros à sombra de tua proteção”.

Em seguida o menino foi lavado, esfregado com sal para endurecer a pele e enrolado em panos. Fazia frio em Belém.

O anúncio dos anjos aos pastores

“Havia nos arredores uns pastores, que vigiavam e guardavam o seu rebanho nos campos durante as vigílias da noite. Um anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor refulgiu ao redor deles, e tiveram grande temor. O anjo disse-lhes: ‘Não temais, eis que vos anuncio uma boa nova que será alegria para todo o povo: hoje vos nasceu na cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: achareis um recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura.’ E subitamente ao anjo se juntou uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus e dizia: ‘Glória a Deus no mais alto dos céus e na terra paz aos homens por ele amados!’

Depois que os anjos os deixaram e voltaram para o céu, falaram os pastores uns para os outros: ‘Vamos até Belém, e vejamos o que se realizou e o que o Senhor nos manifestou’. Foram com grande pressa e acharam Maria e José, e o Menino deitado na manjedoura. Vendo-o, contaram o que se lhes havia dito a respeito deste Menino. Todos os que os ouviam admiravam-se das coisas que lhes contavam os pastores” (Lc 2,8-18).

Nessa noite, num profundo silêncio, um menino nos foi dado, o Cristo Senhor. Quando o dia amanheceu, nova luz apagava as trevas, resplandecia o dia eterno.


Pe. José Artulino Besen

 

 

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DOM PIERRE CLAVERIE E OS 18 MÁRTIRES DA ARGÉLIA

Dom Pierre Claverie e os 18 Mártires da Argélia

No dia 8 de dezembro de 2018 a Igreja celebrará o martírio de 19 cristãos e os declarará bem-aventurados. A grande liturgia acontecerá na basílica de Santa Cruz em Oran, donde era bispo Dom Pierre Claverie. Pela primeira vez uma beatificação acontecerá num país 99% muçulmano, um grupo de mártires que incluirá Dom Claverie, os 7 monges trapistas de Tibhirine, 6 religiosas e 5 religiosos.

Na década da 1990, a Argélia foi mergulhada numa guerra com motivação religiosa: um movimento armado de islamitas se levantou contra o regime vigente para instaurar uma república islâmica, uma teocracia.  São contados 150.000 assassinatos entre os islâmicos e numerosos cristãos entre bispo, padres, religiosos e religiosas, que eram estrangeiros e tinham recebido ordens de deixar o país. Eram estrangeiros, sim, mas estavam bem integrados no mundo argelino.

Eram religiosas consagradas ao atendimento dos mais pobres, crianças, doentes inválidos, um trabalho de amor e dedicação sem nada pedir do que poder amá-los.

Durante os anos da guerra civil na Argélia, “o sangue cristão e o sangue muçulmano se misturaram, fazendo crescer a fraternidade”. Tornou-se um só sangue o dos adoradores de Deus/Alá.

Os grupos terroristas islâmicos lançaram campanha contra os estrangeiros residentes no país, especialmente contra os de nacionalidade francesa, e os lugares cristãos foram um dos seus principais alvos.

A comunidade monástica trapista da Ordem cisterciense de estrita observância

Apesar disso, os monges trapistas do mosteiro de Tibhirine decidiram permanecer devido ao forte vínculo de afeto que tinham com a população local. Na madrugada do dia 27 março de 1996, terroristas do Grupo Islâmico Armado (GIA) assaltaram o mosteiro e sequestraram 7 dos 9 monges que havia naquele momento, todos de nacionalidade francesa.

As negociações para trocar os monges pelos prisioneiros do GIA não funcionaram e, em 21 de maio de 1996, os terroristas anunciaram que tinham-nos decapitado. Suas cabeças foram localizadas em 30 de maio, mas seus corpos nunca foram encontrados.

Como surgiram esses monges? No ano de 1938 um grupo de monges trapistas franceses fundou a comunidade monástica de Nossa Senhora do Monte Atlas, em Tibhirine, Argélia. Situados num país muçulmano ocupado pela França, sem permissão de realizar conversões, esses homens de Deus tinham como sentido de sua presença estar junto dos muçulmanos, acolhê-los, conversar, colocar em comum os dons. E praticar a oração comunitária, tanto na intimidade monástica como com os irmãos que invocavam Alá.

Tudo isso não encontra explicações aos olhos do mundo, e nem de muitos cristãos. O martírio dos missionários, porém, é um dom, é uma experiência concreta do projeto de amor que Deus tem pela humanidade. O sangue que penetrou a terra argelina dela fará brotarem flores de paz. O sangue dos missionários é esperança de paz para o mundo.

Dois anos antes, em abril de 1994, o Irmão Lucas, monge médico, escrevera a um amigo, também médico, em Lyon: “É através da pobreza, do fracasso e da morte que caminhamos ao encontro de Deus”. O sete mártires do Monte Atlas, tão antigos e tão modernos, estavam disponíveis para condividir até a morte todas as alegrias e dores, angústias e esperanças, e a doar inteiramente a vida a Deus e aos irmãos da Argélia.

Dom Pierre Claverie, bispo de Oran

Dom Pierre Claverie, bispo de Oran

Em 1º de agosto de 1996, coube a Dom Pierre Claverie, bispo de Oran, também na Argélia, sofrer o martírio. Após celebrar missa pelos monges martirizados retornava à sua residência, no carro conduzido pelo motorista muçulmano Mohammed, quando uma bomba colocada na garagem explodiu, estraçalhando a tal ponto os dois corpos que tornou impossível distinguir-lhes o sangue. Entusiasta do diálogo cristão-muçulmano, Dom Pierre fecundou o amado solo argelino com sangue cristão e muçulmano, na demonstração de que o amor é forte, mais forte que a morte, que discussões religiosas.

As missões da Igreja obedecem à palavra do Senhor: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15). O Evangelho, como tão evidente era para Paulo, não é uma doutrina, uma estrutura, concentrações, organizações: o Evangelho é uma pessoa, Jesus. Jesus que nos trouxe a Boa Notícia de que seu Pai é nosso Pai, e é Pai dos humildes, dos doentes, dos pecadores, dos perseguidos e perseguidores. Jesus é o narrador do Pai, o missionário é outro Jesus narrando o Pai. Aqueles missionários frágeis e fragilizados pelo ambiente eram a narração viva do Evangelho para os muçulmanos: “Querem conhecer aquele em quem nós cremos? Olhem nossa vida!”. A um repórter que perguntou aos cristãos argelinos a razão de sua missão, foi respondido: somos simplesmente cristãos.

Jesus, o pobre da Galileia, não pode ser anunciado coerentemente com meios ricos. Sua vida que narra o Pai somente é compreendida através dos meios pobres que são marcados pela cruz: a dor, o joelho dobrado em adoração, o silêncio, a oração, a contemplação, o jejum, a obediência, o sofrimento. Não permitem medições estatísticas, não dão manchetes, são marcados pelo silêncio humilde; são os meios preferidos de Deus, são os meios que tocam o coração de Deus (cf. J. Maritain, Filosofia da História, 1957).

Há sete séculos, afirmava Santo Tomás de Aquino: “O fruto da vida ativa é proporcional à plenitude da vida contemplativa”. Em outras palavras: sem a retaguarda da oração, a mais pobre dos meios pobres, a ação pastoral e evangelizadora nos deixará felizes, com a sensação do dever cumprido, mas não implantará no mundo o Reino de Deus.

Se a missão da Igreja se apoiar nos meios ricos da persuasão, da palavra bem falada, da autoridade impositiva, como já foi em outros tempos, causará impressão, será motivo de congratulações aos olhos do mundo, mas estará ocultando o Pobre de Nazaré, estará ocultando o Pobre Deus. Será inútil.

Talvez o Senhor não nos tenha concedido a graça da missão, do testemunho em terras distantes, mas nos dá sempre uma graça imensa: viver o Evangelho, ser Jesus em meio aos estrangeiros, revelar a face do Pai aos que nos cercam, aceitar a violência do desprezo, do ódio, da concorrência do sucesso.

Testamento do Irmão Christian de Chergé

Irmão Christian de Chergé

Como cristãos e cidadãos, viver a missão da paz e da reconciliação. Retornando ao Mosteiro do Monte Atlas, uma palavra escrita pelo Irmão Lucas às vésperas do sequestro: “Não penso que a violência possa extirpar a violência. Não podemos existir como homens a não ser aceitando fazer-nos imagem do amor como foi manifestado no Cristo que, justo, quis sofrer a sorte do injusto. A morte injusta de Cristo rompe a espiral infernal do ódio e dá vida a uma nova humanidade, animada pelo sopro do Espírito”.

São páginas de intensa vida mística o Testamento espiritual do Irmão Christian de Chergé, prior do mosteiro de Tibhirine, escrito em dois momentos:  em Argel, no dia 1º de dezembro de 1993, e em Tibhirine, no dia 1º de janeiro de 1994. Transcrevemos dois momentos: a aceitação do martírio e a oração por aquele que lhe provocasse a morte, a quem chama “amigo do último instante”.

Se algum dia me acontecesse – e isso poderia acontecer hoje – ser vítima do terrorismo que parece querer abarcar agora todos os estrangeiros que vivem na Argélia, eu gostaria que a minha comunidade, a minha Igreja, a minha família, se lembrassem de que a minha vida estava ENTREGUE a Deus e a este país. Que eles soubessem que o Único Mestre de toda a vida não me abandonaria nesta brutal partida. (…)

“Como posso ser digno dessa oferenda? Eu desejaria, ao chegar esse momento da morte, ter um instante de lucidez tal, que me permitisse pedir o perdão de Deus e o dos meus irmãos os homens, e perdoar eu, ao mesmo tempo, de todo o coração, aos que me tiverem ferido.”…

Por essa minha vida perdida, totalmente minha e totalmente dele, dou graças a Deus que parece tê-la querido inteiramente para a alegria, apesar de tudo. Neste ‘obrigado’, em que tudo está dito, agora, da minha vida, eu certamente incluo os amigos de ontem e de hoje, e vocês, meus amigos daqui, do lado da minha mãe e do lado do meu pai, de minhas irmãs e meus irmãos e dos seus, o cêntuplo dado como foi prometido! E a ti também, meu amigo do último instante, que não sabias o que estavas fazendo. Sim, também para ti eu quero esse ‘obrigado’, e este ‘A-Deus’ cara a cara. E que possamos nos encontrar, ladrões felizes, no Paraíso, se for do agrado de Deus, o Pai de nós dois. Amém! Im Jallah!”.

Pe. José Artulino Besen

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CELEBRAÇÃO DOS SANTOS E RECORDAÇÃO DOS FIÉIS DEFUNTOS

Escada de Jacó, nossa ponte para Deus (G. Cordiano).

«As coisas santas são para os santos», diz o presbítero na liturgia bizantina, antes da comunhão. E o coro responde: «Um só é santo, Jesus Cristo…». Um só é santo, é verdade, mas todos aqueles que a Eucaristia integra no corpo de Cristo participam dessa santidade. Todo ser humano, criado à imagem de Deus, tudo, penetrados pelo Espírito participam da santidade da existência universal.

No cristianismo das origens, cada comunidade era chamada «igreja dos santos», uma comunhão de redimidos/redentores chamados a orar, testemunhar, servir a fim de que se manifeste em cada ser e em cada coisa a ressurreição. A santidade é a vida finalmente libertada da morte.

Pouco a pouco tomou-se consciência de que alguns cristãos eram testemunhas mais eloquentes, primeiramente os mártires, depois os confessores da fé. Seus túmulos se tornaram lugares de peregrinação, sobre muitos deles ergueram-se igrejas com o altar sobre o túmulo. A comunidade que ali celebrava a Eucaristia queria testemunhar a mesma fé pela qual viveram ou deram a vida. No Ocidente, no ano de 835 foi fixada a festa de Todos os Santos para o dia 1º de novembro. Depois, fixou-se para o dia seguinte o «dia dos Finados»: os mortos são arrastados pelos santos, que sabem não existir mais a morte no Ressuscitado; os mortos são mergulhados no imenso rio de vida da comunhão dos santos.

Numa sociedade secularizada, como a nossa, a morte muitas vezes é ocultada e grandes figuras de santidade são distorcidas e acabamos com o sentido profundo de Todos os Santos. Ainda vamos ao cemitério, limpamos os túmulos, acendemos uma vela, depositamos algumas flores. A maioria nem reza. Mas, precisamos retornar à festa de Todos os Santos, porque ela nos traz, em sua riqueza, a memória dos mortos. Disse Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida” e, para ele os santos abrem caminho, pois se identificaram com o único ser vivo e puderam dizer: «Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim» (Gl 2, 20).

Os santos fazem circular o amor no corpo de Cristo, e sem dúvida no mundo inteiro que misteriosamente se torna eucaristia. Às vezes, enquanto rezamos por alguém que há pouco nos deixou, lembramos também de pedir-lhe que reze por nós. A festa de Todos os Santos abre nossos olhos para a santidade escondida em cada pessoa ou mesmo sobre a santidade da terra (e é por isso que amamos o Cântico das Criaturas de Francisco de Assis).

O corpo de nossos mortos, recordação de uma vida

Em dois de novembro, Comemoração dos Fiéis Defuntos, nos dirigimos aos cemitérios e com carinho acendemos velas nos túmulos das pessoas queridas. Pais recordam filhos que partiram, filhos recordam pais, esposos lembram os mortos, amigos pranteiam amigos: todos agora igualados pela morte, na expectativa da feliz ressurreição. Ver um túmulo nos pode desafiar a fazer o bem que aquela pessoa ali recordada fez, ou evitar, sem julgamento, a violência que essa pessoa criou ao seu redor. Recordar os artífices da justiça, da paz e da beleza, nossos ancestrais ou contemporâneos. O cemitério é a casa da memória, da gratidão, da reconciliação. Oferece-nos uma visão da fragilidade humana e um desafio à santidade a que somos chamados por nossa imagem e semelhança de Deus.

Espalha-se a cremação de cadáveres, iniciada no século XIX no ardor do ateísmo/panteísmo/materialismo e hoje muito especialmente em países secularizados. Decide-se por túmulos sem nenhuma identificação ou por espalhar as cinzas ao vento. Iniciamos dizendo que o Código de Direito Canônico, o Catecismo da Igreja Católica (n. 2301) e o Diretório sobre a Piedade popular não opõem obstáculos à cremação em si, mas quanto à motivação e ao destino das cinzas.

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Antonio Canova – Carita’ elemosina (Dijon Museum)

Muitas pessoas têm dificuldade de encarar a morte de seus semelhantes, pois quebra o ritmo ordinário da vida com a imagem de alguém que se ausenta. Na sociedade secularizada a morte é muitas vezes ocultada. Melhor encerrar tudo entregando o cadáver a uma empresa, para evitar o incômodo de um “morto”, por mais querido que seja. A cremação surge como um caminho breve. Mas, será que a cremação respeita o desejo dos parentes e amigos que gostariam de visitar a sepultura? Não estaria subjacente a negação da dignidade do corpo, em vida comunicador de vida, de afeto, de trabalho, de alegria? Em outros tempos previa-se até uma Missa do Cadáver, celebrada nas Faculdades de Medicina: unia-se ali a oração pelos mortos ao respeito pelos cadáveres que seriam objeto de estudo dos acadêmicos. Era o respeito pelos restos mortais de pessoas nem conhecidas.

A face mais delicada é a possibilidade interrompida da memória dos que nos precederam, negando aos descendentes a memória dos antepassados. Por que hoje se dá tanta importância à busca dos restos mortais das vítimas das guerras, dos genocídios, das vítimas da violência e das ditaduras? É o desejo sagrado de dar-lhes uma sepultura, um lugar de descanso. Veja-se a dor dos parentes das vítimas de acidentes aéreos: como dói não poder contemplar e sepultar os restos mortais de pessoas queridas!

Após o ato da cremação – geralmente feito com grande respeito – espera-se em casa a urna com as cinzas. Alguns as dispersam no mar, outros em um jardim, outros as guardam em casa. Psicólogos e sociólogos advertem: o rito da cremação quebra o rito do luto com a entrega dos restos mortais a uma empresa. Guardar as cinzas em casa cria um ambiente onde não se faz a distinção do lugar dos vivos e dos mortos, com um clima doentio de luto sem fim. A urna com as cinzas, guardada em casa, pode ser respeitada pelos parentes atuais. E no caso da venda do imóvel, anos depois, não haveria o perigo de se jogar tudo no lixo?

Talvez o lado mais grave do dispersar as cinzas ou conservá-las em casa seria o negar a memória pública dos que nos precederam. Uma sociedade caminha olhando os caminhos traçados pelos antepassados. O corpo de nossos mortos é relíquia venerável ou incômoda? Uma solução apresentada é haver nas igrejas, capelas de cemitérios, espaços onde colocá-las por algum tempo, até a superação natural do rito da saudade. E depois depositá-las nos locais públicos onde são inumados muitos falecidos.

Outro perigo é a transferência do rito do sepultamento para empresas que lucram com ofertas de cerimônias sofisticadas, mas que tiram o envolvimento dos familiares. Já existe mercado de luxo para velório, cremação de pessoas (e de animais de estimação). Aqui e ali se denunciam abusos: cremação de diversos corpos ao mesmo tempo, revenda das vestes, ornamentos e da própria urna. Se o morto é parte de um negócio, nada impede o mergulho no mundo da esperteza.

Nas orações diante de um morto lembramos a alegria trazida por aquele corpo, sua purificação pela água batismal, sua unção com o óleo do Crisma, sua alimentação pelo Pão eucarístico, agradecemos a Deus pelo instrumento de amor que foi e pedimos perdão se foi instrumento de ódio, violência, ou se foi maltratado pela fome, pelas misérias de nosso egoísmo.

É bom que aprendamos a lembrar, com a filósofa Simone Weil, que a maior graça que nos é dada é saber que os outros existiram. E que continuam a existir. A festa de Todos os Santos, iluminando a memória dos mortos, nos lembra que Cristo continua incessantemente a vencer a morte e o inferno. Um santo monge do Monte Athos afirmava: enquanto uma alma morar no inferno, aprisionada pelos muros da própria rejeição, Cristo estará com ela no abismo da morte, e com ela estarão todos os redimidos, a suplicar que também ela se abra à eterna festa de TODOS os Santos.


Pe. José Artulino Besen

 

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SÃO PAULO VI E SANTO OSCAR ROMERO: SANTOS PERIGOSOS PARA TEMPOS DESAFIADORES

Santos Paulo VI e Oscar Romero

A canonização do Arcebispo Oscar Romero é a ponte que o Papa Francisco necessita para conduzir uma igreja universal presa no passado em direção a um futuro que irá purificá-la e alinhá-la com os pobres do mundo. E a união de Romero e do papa Paulo VI não é uma jogada de relações públicas para equilibrar um radical com um tradicionalista. Esses dois santos compartilharam um martírio que construiu a ponte que sustenta uma única trajetória, inspirada pelo Espírito Santo, que renovará a igreja e revelará novamente o mistério de Jesus como o motor da história. É uma história emocionante, e algumas figuras-chave ajudaram a acontecer.

Quando Romero foi assassinado em 1980, o jesuíta americano pe. James Brockman viu a necessidade urgente de uma biografia objetiva do arcebispo morto de El Salvador. Brockman, ex-editor da revista América, sabia que Romero tinha sido o foco de intensa controvérsia durante seu breve tempo como arcebispo. Ele também sabia que, apesar da aclamação quase unânime em toda a América Latina de que Romero era um santo, os revisionistas já estavam trabalhando para conter seu impacto. Seus críticos argumentaram que esse piedoso prelado conservador havia sido enganado por radicais de esquerda durante uma perigosa tendência ao marxismo que varreu a América Latina. Seu assassinato foi o resultado trágico mas previsível de sua intromissão na política e a abdicação de seu papel espiritual primário como bispo.

Atualizado em 1989, o livro foi complementado por diários pessoais em que Romero se angustiava com a crescente violência em El Salvador provocada por forças de segurança estatais, esquadrões da morte e grupos de oposição que tiraram centenas de vidas inocentes antes dos 12 anos brutais de guerra civil (1980-92).

Santo Oscar Romero

Dom Romero sofreu constante difamação na mídia e calúnias de quatro dos bispos do país alinhados com o governo e as elites ricas do país. O núncio papal alimentou um fluxo constante de relatórios negativos a Roma, acusando Romero de promover a chamada “teologia da libertação” e apoiar a revolução violenta.

Romero defendeu sua ação pastoral citando o Concílio Vaticano II e a aplicação de seus princípios à realidade vivida na América Latina por seus bispos, que se encontraram com o Papa Paulo VI em Medellín, Colômbia, em 1968, onde proclamaram a “opção pelos pobres” “e desafiaram as injustiças estruturais arraigadas que estavam causando pobreza e violência generalizadas na região.

Romero encontrou o apoio adicional da exortação de Paulo VI sobre evangelização,  Evangelii Nuntiandi , de 1975 , que pregava fortemente a libertação da opressão como parte integrante da missão da igreja. Apesar das ameaças de morte, da pressão de Roma e do fluxo de armas dos Estados Unidos para apoiar as forças armadas contra uma insurgência comunista, Romero permaneceu fiel pastor de seu rebanho até a sua morte em 24 de março de 1980, enquanto celebrava a missa num hospital em San Salvador.

A canonização sustenta heróis da fé que nos confronta com o que o teólogo Johann Baptist Metz chamou de “memória perigosa” do Cristo crucificado e ressuscitado, que interrompe a história em todas as gerações para convocar discípulos para ouvir a Palavra de Deus e mantê-la.

Outra testemunha crucial chegou a San Salvador em 1990, o jesuíta americano Dean Brackley, que permaneceu no corpo docente da Universidade Centro-americana pelo resto de sua vida, recebendo milhares de peregrinos e universitários norte-americanos, ousando lembrá-los da responsabilidade dos EUA por grande parte da violência na América Central, e pelo desesperado surto de violência, pelos refugiados fugindo para o norte.

Antes de morrer de câncer no pâncreas em 2010, Brackley mediu profeticamente a importância da canonização de Oscar Romero:

“É preciso suspeitar que, se Romero não fosse um bispo, ele poderia ter um caminho mais fácil para a canonização, porque nem todos na hierarquia católica se sentiam à vontade para apresentá-lo como um bispo a ser imitado. …

Romero modelou a “igreja dos pobres” que João XXIII pediu no início do Concílio Vaticano II. As conferências de Medellín e Puebla revelaram como essa igreja deveria se parecer na América Latina. Romero seguiu esse exemplo”.

A mensagem, no entanto, é universalmente válida: a igreja só será portadora de esperança credível para a humanidade se estiver com os pobres, com todos os que são vítimas do pecado, da injustiça e da violência. Se andarmos com eles, como fez Romero, incorporaremos as boas novas pelas quais o mundo tanto almeja. Não precisamos de uma igreja que nos convide a nos esconder dos horrores de hoje, a escapar dos problemas deste mundo, mas a suportar seus fardos.

Foi isso que Romero fez, inspirando inúmeros outros a colaborar com ele. Isto irá convidar a perseguição e incompreensão, mas essa é a marca da verdadeira igreja. Romero não procurou o que era melhor para a instituição como tal, mas o que era melhor para o povo. A longo prazo, isso é o que é melhor para a igreja também. A instituição que se esforça para salvar a si mesma se perderá mas, se se perder em serviço amoroso, se salvará.

Os 75.000 mártires da guerra civil em El Salvador, não viveram para ver Francisco, nosso papa latino-americano. Mas nas primeiras horas após sua eleição, Francisco invocou o sonho do papa João XXIII de uma “igreja dos pobres”, dizendo que gostaria de “uma igreja que é pobre e que seja para os pobres”. Agora é sua vez de sonhar com tal igreja, pastoreada por bispos com cheiro de ovelha, pastores servos e vibrantes paróquias cheias de discípulos que compartilham as “alegrias e esperanças, as aflições e ansiedades” do mundo moderno, especialmente jovens ardendo em chamas para viver uma vida autêntica.

São Paulo VI

Mas tudo isso seria apenas uma ideia se Romero não a tivesse vivido e um cauteloso Paulo VI não tivesse sofrido seu próprio martírio de difamação de progressistas e tradicionalistas, por insistir que a unidade da igreja era mais importante do que vencedores e perdedores depois do concílio.

A canonização sustenta heróis da fé que nos confrontam com o que o teólogo Johann Baptist Metz chamou de “memória perigosa” do Cristo crucificado e ressuscitado, que irrompe na história em todas as gerações para convocar discípulos para ouvir a Palavra de Deus e mantê-la.

Os  Santos Oscar Romero e Paulo VI fizeram isso em seu tempo. Seu testemunho não foi apenas cruzar a ponte do mistério pascal para um futuro diferente e necessário, mas que estão convidando a todos a segui-los.

Paulo VI abriu a missão da igreja para o mundo, para o mundo dos pobres; abriu o coração da igreja para a África, a Ásia, que viviam grande e até doloroso processo de descolonização. É quase impossível falar de evangelização sem citar Paulo VI na Populorum Progressio e Evangelii Nuntiandi, bússolas que indicaram o caminho de Santo Oscar Romero, Santo Oscar da América.

Hoje, 14 de outubro de 2018, a igreja apresenta ao mundo o que ela tem de mais precioso: seus santos. Sem eles, ela se reduz a uma instituição de muita ação ou de muitas cerimônias, mas sem apresentar ao mundo seu retrato que é o rosto de Jesus, multiplicado nos milhões de rostos de cristãos que testemunham sua fé, o sentido de sua vida como doação incondicional aos pobres.

Perante bispos de todo o mundo, Francisco destacou necessidade de deixar seguranças e riquezas para seguir Jesus Cristo. O Papa desafiou hoje a Igreja Católica a cruzar “novas fronteiras”, à imagem dos novos santos Paulo VI e Óscar Romero, canonizados hoje, deixando para trás riquezas e ilusões de segurança.


Pe. José Artulino Besen

 

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MONSENHOR AGOSTINHO STAEHELIN

Mons. Agostinho Staehelin em seus últimos anos

Neste ano de 2018, a Comunidade de São Pedro de Alcântara se prepara para as comemorações dos 190 anos de fundação, com a chegada dos primeiros imigrantes alemães a Santa Catarina, em 1829. Mons. Agostinho Staehelin amava seu torrão natal, vibrava com tudo o que acontecia em São Pedro, sua terrinha, “tão pequena no mapa e tão grande no amor” e na sua história.

Em nosso pequeno estudo biográfico devemos incluir uma referência fundamental no desenvolvimento humano e cristão de São Pedro: a presença, na primeira metade do século XX, de grandes sacerdotes, gigantes na fé, no trabalho, na dedicação às comunidades. Dedicados e incansáveis não mediam sacrifícios para a visita aos doentes, espalhados pelo extenso território de São Pedro e Alto Biguaçu. É com gratidão que transcrevo os nomes: Mons. Francisco Xavier Giesberts, Mons. Huberto Rohden, Pe. Jacó Luiz Nebel, Pe. Nicolau Schaan, Côn. Bernardo Blaesing, Côn. Roberto Wyrobek, Côn. Rodolfo Machado.

Agostinho é natural de São Pedro de Alcântara, SC, onde nasceu em 9 de setembro de 1924, filho de João Staehelin e Cecília Schappo Staehelin. A família se estendeu, chegando a 16 irmãos.

Ao nascer um filho, os pais consultavam uma folhinha onde constava o Santo do dia e era Agostinho, e esse foi o nome que lhe deram. Na cultura alemã era bem celebrado o onomástico e a data do batismo. Sua mãe gostava de repetir: “Das Kalb in Stall macht auch Geburstag, aber nicht Namenstag” (o bezerro na estrebaria também faz aniversário, mas não onomástico).

Foi batizado em 12 de setembro de 1924. Anos depois, sua mãe contou que no dia do batismo sua madrinha Maria Reinert Cunha pediu a Deus: “Faça desta criança um padre”.

Agostinho muito admirava seu pároco, Pe. Nicolau Schaan, seu modo de celebrar, sua vibração nos sermões festivos. Quando Pe. Nicolau passou por cirurgia no joelho, ele e seus colegas coroinhas sentiam-se honrados por ele se apoiar no ombro de um deles para subir os degraus do altar. Certo dia, em 1937, após uma missa de que participou como coroinha, o Pe. Nicolau o chamou até a casa paroquial e em pé na porta de entrada, lhe perguntou: “Você não quer ser padre?”. Ele respondeu que gostaria muito e já tinha pedido aos pais para ingressar no Seminário, mas responderam que não tinham como pagar os estudos, pois eram lavradores e muito pobres e 16 irmãos para sustentar.

Pe. Nicolau pediu que os pais fossem falar com ele e depois, tudo ficou acertado e em fevereiro de 1938 ingressou no Seminário de Azambuja. Sentiu-se órfão quando em 4 de fevereiro de 1939 veio a triste notícia da morte de Pe. Nicolau. Ele voltava da visita a um doente, entrou no quarto, sentiu-se mal e antes de morrer foi ungido por um colega que o visitava. No testamento deixou o que possuía para a paróquia. Os cinco mil cruzeiros que guardava foram entregues ao reitor do Seminário Pe. Bernardo Peters, que formou uma bolsa de estudos chamada “Pe. Nicolau Schaan”.

Os estudos de Seminário Menor foram em Azambuja, de 1938 a 1944, e os filosóficos e teológicos em São Leopoldo, RS de 1946 a 1952.

Dom Joaquim Domingues de Oliveira ordenou-o diácono em Azambuja, em 9 de dezembro de 1951. A ordenação sacerdotal foi em 25 de novembro de 1952, na Catedral de Florianópolis. Junto com ele foram ordenados Pe. Albano José Koehler e Pe. Huberto Waterkemper.

Catedral Nossa Senhora do Desterro, Florianópolis, SC

Sua primeira nomeação foi em 12 de janeiro de 1953, para Coadjutor de Nossa Senhora do Desterro, Catedral de Florianópolis. Revelou-se dinâmico e incansável padre, com forte liderança. Fundou o Coral Santa Cecília, ainda hoje atuante, e que deu novo brilho às liturgias da Catedral.

Seu entusiasmo pela música coral levou-o a fundar o Coral Universitário da Universidade Federal de SC – UFSC, com a primeira apresentação em janeiro de 1963. Contou com o apoio decidido do magnífico reitor João Ferreira Lima.

Em 9 de fevereiro do mesmo ano, Dom Joaquim nomeou-o Capelão do Hospital de Caridade.

Sensível aos problemas sociais, agravados pelo êxodo rural que povoava os morros no entorno da paróquia, logo buscou atender às famílias, oferecer catequese às numerosas crianças. Foi iniciativa sua a construção da capela de Nossa Senhora do Mont Serrat, no Morro da Caixa, onde promovia o treinamento social e litúrgico de lideranças. Essa população lhe era conhecida e o conhecia, pois em bom número era constituída por negros que tinham emigrado de São Pedro de Alcântara e Alto Biguaçu.

Para implantar mais o espírito comunitário e que os moradores tivessem à mesa verduras sem agrotóxicos, resolveram limpar o terreno da capela, adquirir mais terra, e fazer uma horta comunitária. Durante uma semana levou cinco voluntários para o Centro da ACARESC, em Itacorubi, onde receberam aulas práticas de plantação de hortaliças. Foi ofertada a Dom Joaquim a primeira hortaliça colhida. A comunidade se servia como e quando queria, e quem quisesse deixava um oferta para a compra de sementes e adubo.

Semanalmente promovia encontros de formação, seguindo o método da ação católica, o ver-julgar-agir. Para tomar conhecimento melhor da Ação Católica, de 21 a 26 de agosto de 1957 participou do Congresso Internacional da Juventude Operária Católica – JOC, em Roma. Essas iniciativas de seu primeiro sacerdócio foram importantes para seu ministério paroquial.

Também assumiu a disciplina de Educação religiosa no Instituto Estadual de Educação, importante centro educacional no período. Ali entrou em contato com a juventude, exercendo influência positiva sobre tantos que nos anos posteriores foram seus companheiros no trabalho pastoral e comunitário. Importante recordar o clima de renovação na Igreja, as iniciativas positivas brotadas nos anos de preparação para o Concílio Vaticano II. Pe. Agostinho não era dado a cultivar saudades do passado, mas sim, assumir positivamente as indicações que vinham de Roma.

Ao serem informados de sua possível transferência, os que mais sentiram foram os moradores do Mont Serrat. Quase todos assinam o abaixo-assinado endereçado a Dom Afonso Niehues. Entre outras motivações, escrevem: “Há 14 anos a Comunidade de Mont Serrat vem sendo despertada, num trabalho silencioso, mas frutificador. Olhamos à nossa volta e vemos, com satisfação, nossa horta comunitária, a nossa rua sendo calçada, constatamos a presença de casas melhoradas, a juventude antes ociosa e hoje unida contribuir para o desenvolvimento da comunidade, uma casa para servir a comunidade com cursos, reuniões, recreação… Tudo isso é fruto do abnegado e incansável sacerdote Pe. Agostinho que agora poderia começar a gozar o resultado de tantos esforços, e a comunidade progredir cada vez mais”.

Concluem, lembrando que “sabedores que somos da generosidade de vosso coração, humildemente pedimos que não nos tire este sacerdote, permita-nos continuar orientados, ensinados e evangelizados por ele; não nos deixe desamparados e entregues à angústia da dúvida”. Dom Afonso aguardou um ano para a transferência (abaixo-assinado é de 1966).

Paróquia São João Batista, Itajaí, SC

Pe. Agostinho Staehelin – Empossado em São João Batista, Itajaí por Dom Afonso Niehues

Em 25 de fevereiro de 1968, veio sua primeira nomeação de pároco e de primeiro pároco de São João Batista, bairro São João de Itajaí. Dom Afonso Niehues, prevendo o crescimento da cidade, decidiu dividi-la em mais paróquias, adquirindo terrenos para as estruturas pastorais, que agora supunham a igreja matriz, o centro paroquial e catequético. Assim, neste mesmo ano de 1968 foram criadas as paróquias de São João, Cordeiros, Dom Bosco e Fazenda.

Pe. Agostinho arregaçou as mangas, entusiasmou o povo e em tempo relativamente breve construiu a paróquia do ponto de vista pastoral e material. Firmou-se como liderança inconteste na cidade de Itajaí, reunindo em torno de si as principais autoridades do município. Isso foi tão evidente que muita gente gostaria que ele se candidatasse a prefeito municipal. Formalizando esse convite, esteve na paróquia, em 24 de novembro de 1975, o Governador do Estado Antônio Carlos Konder Reis. Respondendo ao convite, dois dias depois escreveu a resposta: “Eu sempre ensinei que o padre deve desempenhar seu ministério e o leigo assumir a sua missão de cristão no mundo. E no mundo administrativo, político, técnico, etc. existem homens verdadeiramente carismáticos e não devo roubar-lhes estas lideranças”. Também escreveu a Dom Afonso, afirmando não ser essa sua intenção: queria, isso sim, formar lideranças leigas ativas e bem preparadas, queria estar à disposição dos pobres.

A paróquia de São João foi estruturada no espírito conciliar com a formação de catequistas e líderes renovados. Crianças, jovens e casais sentiam-se em casa na sede paroquial, e viviam a alegria de ter um pároco entusiasmado, com muitas iniciativas.

Inaugurou moderna igreja matriz em 8 de setembro de 1975. À sua fama de construtor e capacidade de trabalhar deveu-se o convite feito pelo episcopado catarinense em 1978: levantar as estruturas do Seminário Filosófico Catarinense – SEFISC que acolheria os seminaristas estudantes de filosofia das dioceses catarinenses. Cada diocese recebeu um pavilhão, e numa construção maior funcionava a casa central para as atividades comunitárias. Aceitou o compromisso e a cada semana dedicava dois dias à construção.

Sentia-se a falta de um movimento paroquial que congregasse os casais, oferecendo formação cristã e encontros de lazer. Para isso veio em boa hora a notícia da fundação, em Curitiba, de um movimento que se chamava de Irmãos. Monsenhor Bernardo José Krasinski, pároco de Nossa Senhora de Guadalupe, queria ter um grupo de casais para animar a vida paroquial. Para isso, propôs um fim de semana, de sexta a domingo, com formação espiritual e humana. A iniciativa teve tal sucesso, que todos os participantes continuaram a se encontrar e promoveram outros finais de semana. A paróquia adquiriu nova vida.

Alguns padres da arquidiocese de Florianópolis, sabendo disso, foram a Curitiba participar de um encontro e retornaram animados para introduzir o Movimento de Irmãos em suas paróquias. Entre eles se encontrava Pe. Agostinho, feliz por ter uma organização familiar em sua paróquia. A fundação na paróquia de São João foi em 1970 e, pouco a pouco atingiu quase toda a arquidiocese, revelando-se um instrumento útil na pastoral familiar e na vida paroquial.

Sua identificação com o bairro São João deu-lhe o título de “Cidadão Honorário de Itajaí”, aprovado pela Câmara Municipal em 27 de agosto de 1981, pelo grande trabalho que vem desenvolvendo junto à comunidade, participando ativamente de todas as iniciativas, discutindo periodicamente os problemas locais, tanto sociais quanto econômicos e religiosos da população. O vereador Nereu Tibúrcio Sestrem, orador, ressaltou “o largo alcance dos atos executados, que de há muito ultrapassaram as fronteiras do município e têm servido de referência a outros que se propõem a realizar tarefa semelhante”. Seu interesse estava voltado mais às causas da população mais carente ou socialmente marginalizada.

O afeto pelo bairro causou inclusive ciumeiras na comarca, onde os párocos reclamavam de suposto bairrismo e pediam que se integrasse mais no conjunto das outras paróquias.

Paróquia Nossa Senhora de Fátima e Santa Teresinha do Menino Jesus, Estreito, SC

Após 12 anos de frutuoso ministério paroquial, fortalecido pelo afeto do povo, Pe. Agostinho foi transferido para o Estreito, Paróquia de Nossa Senhora de Fátima e Santa Teresinha do Menino Jesus, em 14 de fevereiro de 1982. Como Dom Afonso estava em Itaici, na Assembleia Geral da CNBB, a posse dada presidida por Dom Gregório Warmeling, bispo de Joinville e grande amigo. Sucedia a Pe. Quinto Davide Baldessar, vigário colado e que aceitou ser pároco de Nossa Senhora da Glória, no Balneário do Estreito, criada em 7 de fevereiro do mesmo ano. Pe. Agostinho detinha as qualidades para agir num ambiente conflitivo e dividido por alguns desencontros entre os sacerdotes que ali trabalhavam.

Desde a criação da Paróquia em 1944, em diversas ocasiões, encontra-se no Livro de Tombo a denominação de Santuário, ao referir-se à igreja matriz. Esta aspiração da Comunidade foi concretizada ao se comemorar o 70º aniversário das aparições de Nossa Senhora, em Fátima, Portugal. Atendendo a um pedido expresso, devidamente fundamentado, feito pelos Padres da Comarca do Estreito, no dia 12 de outubro de 1987, em solene Missa Campal presidida pelo Sr. Arcebispo Metropolitano Dom Afonso Niehues, foi solenemente assinado o Decreto que conferia à Igreja Matriz de Nossa Senhora de Fátima a dignidade de Santuário. Segundo o mesmo Decreto, permanecia inalterado o título da Paróquia: Nossa Senhora de Fátima e Santa Teresinha do Menino Jesus e o seu Pároco exerceria, cumulativamente, as funções de Reitor do dito Santuário.

Mons. Agostinho foi sempre um apaixonado pelos Meios de Comunicação Social. Achava que a Igreja tinha perdido muito, se preocupando mais com construções do que em investir em Jornal, rádio e TV.

No início de seu ministério na Paróquia da Catedral de Florianópolis, mantinha um programa diário na Rádio Anita Garibaldi. Numa ocasião alguém lhe falou que a rádio estava à venda. Começou a preocupar-se com o assunto e deixou avisado: “Sou o primeiro pretendente em caso de venda”. E elaborou um projeto de como angariar fundos para a aquisição. Para surpresa sua, numa ausência de oito dias, participando de um encontro, leu no jornal que a rádio tinha mudado de proprietário. Alguém chegou primeiro.

Na década de 50, entrou com processo no Ministérios das Comunicações para adquirir um canal que estava lacrado em Florianópolis. Apesar dos apoios que tinha, um deputado conseguiu a emissora. O mesmo sucedeu em outra ocasião. Vibrou quando foi nomeado para a Paróquia do Estreito, em 1982, pois essa era proprietária da Rádio Jornal a Verdade. Mas, já fora vendida.

Nunca arrefeceu nesse entusiasmo. Participou de congressos, cursos e encontros, inclusive promovendo cursos no Regional da Sul-IV, quando representava o Clero na Comissão Nacional do Clero – CNC.

Com o apoio do Serra Clube, dirigiu “A Voz do Estreito”, jornal paroquial mensal com tiragem de 4.000 exemplares.

Para garantir o financiamento dos programas de Comunicação, em 1987 fundou a Associação Mensageiros do Evangelho – AME, constituída por benfeitores que colaboravam mensalmente através de carnê. A AME manteve financeiramente a Missa na TV, que ele coordenou por 29 anos, a cada domingo redigindo o script e preparando o cenário da celebração. Esteve presente na fundação do Jornal da Arquidiocese, em 1996, encarregando-se da procura de patrocinadores.

Tudo isso foi realizado com muita alegria, não obstante a idade que avançava. Monsenhor acreditava nos MCS. Comentário no A VOZ DO ESTREITO: “Dotado de impressionante capacidade física, trabalha desde as primeiras horas do dia até altas horas da noite, sempre disposto e alegre”.

Em 1987 acumulou os trabalhos com a nomeação para administrador paroquial de São Judas Tadeu, em Barreiros, por terem deixado a paróquia os Padres dos Sagrados Corações.

Paróquia dos Sagrados Corações, Barreiros, São José

A paróquia dos Sagrados Corações de Barreiros, São José foi criada em 1960 e confiada aos padres da Congregação dos Sagrados Corações de Jesus e Maria, na maioria holandeses. Apostólicos, realizaram um imenso trabalho social e religioso, cujos frutos mais visíveis são a nova igreja matriz e a dinâmica Ação Social, sem contar os cursos profissionalizantes e o acréscimo do patrimônio material. Pe. Justino Corstjens SS.CC. foi a alma dinâmica que transformou um bairro desorganizado com pouca fama e muita pobreza, num exemplo de organização humana, religiosa e social.

Após 28 anos de generoso ministério, Pe. Justino teve de seguir adiante, pois sua Congregação religiosa carecia de padres.

Assim, em 8 de janeiro de 1989, Pe. Agostinho aceitou a transferência para essa paróquia, conservando o dinamismo revelado em Itajaí, claro que num novo ambiente humano e urbano. Percebendo o crescimento do bairro, sentindo a pouca atenção dada pelo poder municipal de São José, encabeçou um movimento para a criação de novo município, mas que não vingou.

Recordando o tempo em que trabalhava com farinha no engenho de seu pai que um dia lhe disse que “a farinha de Barreiros era melhor” do que a produzida por ele, introduziu a Festa da Farinha de Barreiros que foi bem recebida até o dia em que uma briga provocou morte, e foi suspensa.

Numa área apropriada, os padres holandeses tinham erguido um prédio para servir de Seminário, com o nome de Instituto São José. Pela reduzida procura de seminaristas, passou a funcionar como centro paroquial e, em seguida, casa de formação. Carente de um centro de formação, a arquidiocese se interessou em utilisá-lo. Deste modo, em 1993 Dom Eusébio Oscar Scheid, SCJ instalou nele o Seminário Propedêutico fundado em 27 de dezembro de 1993, nomeando Pe. Agostinho seu primeiro Reitor. Mesmo com sua dedicação e bondade com os seminaristas não conseguiu levar a obra adiante, e em 1995 foi transferido para Azambuja. O Instituto São José continuou ocupado pela Arquidiocese, especialmente para os encontros do Movimento de Irmãos. O edifício foi devolvido à Congregação.

Em 1993, Pe. Agostinho sofreu muito da coluna e submeteu-se a delicada cirurgia no Hospital de Caridade.

Em 28 de dezembro de 1995, foi nomeado pároco da Paróquia São Judas Tadeu, Barreiros, São José , SC, também fundação dos padres holandeses. Em 22 de dezembro de 1997, passou a Vigário paroquial da mesma Paróquia.

Associação Padre Augusto Zucco – APAZ

Em 7 de julho de 1998 passou a vigário paroquial do Santuário do Estreito e ao mesmo tempo foi nomeado Auxiliar na Formação do Seminário Propedêutico, instalado nessa paróquia.

No âmbito arquidiocesano foi membro do Colégio dos Consultores e do Conselho Presbiteral.

Padre Agostinho Staehelin

Pe. Agostinho foi entusiasta na promoção da unidade dos padres e no apoio a instituições que a alimentassem.  Não faltava a reuniões e encontros. Assim, na reunião da Diretoria da Comissão Regional do Clero, em Rio do Sul, foi eleito seu presidente. Presidiu a Comissão Regional do Clero por 10 anos, representando o Regional Sul IV da CNBB na Comissão Nacional do Clero. Como presidente desta Comissão ajudou a organizar o primeiro encontro nacional do clero do Brasil, e promoveu o primeiro encontro de padres de SC em Lages.

Era um tema que muito lhe tocava o coração, sentindo dolorosamente a desistência e desânimo de sacerdotes. Sofrera a experiência da desistência do ministério de seu sobrinho Pe. José Ênio Triervailer (1945-2014).

Outro tema que o ocupava era o sustento e o acompanhamento do padre idoso. Além disso, não seria oportuno adquirir um terreno e casa para encontros de lazer, especialmente às segundas-feiras?

Um grupo de padres, liderados por Pe. Agostinho (e Pes. Sérgio Maykot, Francisco de Assis Wloch, Luiz Carlos Rodrigues), fundou a “Associação Padre Augusto Zucco – APAZ”. Foi adquirida área significativa de terreno, na qual se construiu um galpão para jogos. Os padres interessados ali se reúnem às segundas-feiras para confraternização. Ali, na casa dos antigos proprietários, fixaram residência Dom Vito Schlickmann, bispo auxiliar emérito, Pe. Huberto Waterkemper e Mons. Agostinho.

Em 24 de janeiro de 1995, por solicitação de Dom Eusébio O. Scheid, SCJ recebeu do papa São João Paulo II o título de Monsenhor Camareiro Secreto. Com ele foram agraciados também Pe. Afonso Emmendoerfer e Pe. Francisco de Sales Bianchini.

Fundação da ACJ – Associação Cecília e João

Em 18 de dezembro de 1990, seu irmão Pe. Valdir Staehelin festejava os 25 anos de sacerdócio. Mons. Agostinho assumiu os preparos e as despesas. Enviou convite personalizado a todos os descendentes de seus pais, que responderam positivamente, comparecendo 345 pessoas. Depois da Missa, no salão de festas da paróquia de São Pedro, percebeu que os sobrinhos não se conheciam, e alguns, nem aos tios. Após o almoço, chamou pela idade os 15 irmãos, e pediu que fossem ao palco e se apresentassem.

Ao final, propôs a formação de uma Associação, ideia aplaudida e logo executada com a eleição do sobrinho Luiz Roque Schmitt como presidente. Foi o nascimento da ACJ, Associação Cecília e João. Concretizava seu amor pela família e o declarou numa mensagem aos paroquianos durante internação no Hospital de Caridade: “Sou um Padre feliz!”, e sou ainda muito mais por pertencer a esta família”.

Rumo ao encontro final

Chega o dia em que as forças físicas mostram o preço e Monsenhor decidiu retirar-se do trabalho paroquial. Era o ano 2001, e passou a residir na Associação Padre Augusto Zucco – APAZ. Recebia com alegria a todos os sacerdotes que ali passavam às segundas-feiras. Em 03 de outubro foi nomeado Vigário paroquial da Paróquia Santa Cruz, no bairro Areias, São José, SC e Coordenador da AME – SC.

Dedicou-se a arquivar alguns de seus sermões, palestras, discursos. Com esse material, em fevereiro de 2009 editou e publicou HISTÓRIAS DE MINHA VIDA.  Também publicou MOMENTOS DE INSPIRAÇÃO, HISTÓRIA DA FAMÍLIA STAEHELIN, COMENTÁRIOS DA MISSA DA TV.

Em 20 de dezembro de 2016 recebeu diagnóstico médico de tratamento por D. de Alzheimer, forma avançada. Sofria severas perdas cognitivas, com prejuízo da crítica, com riscos para si e para terceiros. O médico solicitou que recebesse atendimento individualizado.

Devido à necessidade de um acompanhamento maior e mais qualificado, em fevereiro de 2018 foi transferido para o Centro geriátrico Lar São Francisco de Assis, na Varginha, Santo Amaro da Imperatriz.

Faleceu no domingo em 20 de maio de 2018, na Clínica Saint Patrick, em Florianópolis. O velório foi mesmo dia, na casa de sua irmã Mônica, em Boa Parada, São Pedro de Alcântara. A Missa de Exéquias foi celebrada na igreja Matriz de São Pedro, onde tinha sido batizado, feito a primeira Eucaristia e servido de coroinha.

O arcebispo Dom Wilson Tadeu Jönck, SCJ comunicou o falecimento ao clero e ao povo: “Rendemos nossa gratidão à Trindade Santa, pela vida e ministério do Reverendíssimo Mons. Agostinho Staehelin, e suplicamos ao Pai, pelo Filho, no Espírito Santo, que receba este sacerdote honroso na eternidade feliz, onde a Igreja, Esposa do Cordeiro, eternamente celebrará a vitória sobre a morte.”

Mons. Agostinho Staehelin foi sepultado no túmulo de seus pais, conforme pedira. De sua família de 16 irmãos, foi precedido por 6 irmãos e 4 irmãs.


Bibliografia

  • Pasta de documentos pessoais no Arquivo Histórico Eclesiástico de Florianópolis.
  • Staehelin, Monsenhor Agostinho.  HISTÓRIAS DE MINHA VIDA. São José, 400 páginas.
  • Livro de Tombo das paróquias onde trabalhou.
  • Arquivo da APAZ.
  • Encontros pessoais e memórias.

Pe. José Artulino Besen

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