Arquivo para categoria Vida Cristã

 I DIA MUNDIAL DOS POBRES

Crianças com fome

 “Não amemos com palavras, mas com obras”

“Meus filhinhos, não amemos com palavras nem com a boca, mas com obras e com verdade” (1 Jo 3, 18). Esse mandamento de Jesus transmitido ao Discípulo Amado foi escolhido por Francisco como palavra orientadora para o I DIA MUNDIAL DOS POBRES, neste ano em 19 de novembro. Um convite a deixarmos as palavras vazias, fáceis de serem proferidas e substitui-las pelas obras concretas, únicas que podem medir o que valemos, únicas que indicam nossa capacidade de responder ao amor de Deus que nos deu seu Filho. A Mensagem papal foi entregue em 13 de junho, dia de Santo Antônio, o Santo dos Pobres. Através dela, de sua riqueza, oferecemos alguns pontos de vivência e reflexão.

Quando Pedro pediu que se escolhessem sete homens “cheios de Espírito e sabedoria” (At 6, 3) que assumissem o serviço aos pobres, temos um dos primeiros sinais com que a comunidade cristã se apresentou no palco do mundo: o serviço aos mais pobres. Os discípulos de Jesus expressavam o ensinamento principal do Mestre que tinha proclamado os pobres bem-aventurados e herdeiros do Reino dos céus (cf. Mt 5, 3). «Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um» (At 2, 45). Isto mostra como os cristãos tinham claro que a misericórdia não era retórica, mas necessidade concreta de partilha na primeira comunidade. Leia o resto deste post »

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O POBRE NÃO É NOSSO LIXEIRO

De graça recebestes, de graça dai (Mt 10,8)

Setembro é chamado de “mês da Bíblia”, da Sagrada Escritura, da Palavra de Deus. Para não complicarmos o que Deus nos fala, talvez baste dizer que a Bíblia é o livro da Caridade, manual da misericórdia.

É triste o que se constata em muitas campanhas em benefício de pessoas carentes: alguns oferecem aquilo que não tem mais nenhuma utilidade: roupas sujas e descosidas, sapato sem o par, chinelos gastos, brinquedos quebrados, comida vencida, dinheiro que não compra nem uma bala e assim por diante. Há quem se serve de campanhas de solidariedade para fazer faxina em guarda-roupa, dispensa e casa. Numa palavra, o pobre torna-se nosso lixeiro!

Na mão estendida do pobre ou na coleta de nossa igreja, depositamos a nota de menor valor ou, pior ainda, até moeda já sem validade. O momento da generosidade é transformado na declaração da sovinice, no desprezo pelo necessitado. Não é colaboração, solidariedade, mas atestado de desumanidade. Há um princípio da sabedoria bíblica que nos pede não fazermos aos outros o que não queremos que nos façam (Mt 7,12). Se algo não me serve, também não serve para meu próximo. Leia o resto deste post »

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NÃO ADIANTA QUERER SER OUTRO 

Criança em plantação de chá - Ruanda - Sebastião Salgado - 1991

Criança em plantação de chá – Ruanda – Sebastião Salgado – 1991

Tu és meu filho, eu hoje te gerei (Sl 2,7).

Contou um monge do deserto do Egito, no século 4º, que um noviço chamado Cirilo se entregava a muitas penitências, vida de oração contínua que a cada dia ia alterando sua personalidade, a ponto de seus companheiros quase não o reconhecerem mais. Seu mestre espiritual o chamou e perguntou-lhe o porquê de tanta mudança. Cirilo respondeu satisfeito: “Meu pai espiritual, tudo o que estou fazendo, os sacrifícios que aceito e a mudança que estão observando em mim prova que estou no caminho certo: quero ser igual a Santo Antão”. Cheio de experiência e de sabedoria, o velho mestre o repreendeu: “Meu filho, Deus não quer que você seja Santo Antão. Deus quer apenas que você seja Cirilo!”.

O ser humano é único e irrepetível. Não há nem haverá alguém igual a nós, somos originais. Isso também significa que não somos reencarnação de alguém que em outra época teve outra cara, outra personalidade e outro nome. Diz a Sagrada Escritura: “Tu és meu filho, eu hoje te gerei” (Sl 2,7), e não “Tu és meu filho, eu hoje te reencarnei”… A reencarnação nega a nossa individualidade e a nossa liberdade, pois supõe que tenhamos sido outro em outra encarnação e que estejamos pagando pelos erros desse outro, como um karma. Deus criou nosso ser no momento de nossa concepção, quando soprou um sopro de vida novo.

Quando o mestre espiritual na história contada há pouco diz que “Deus quer apenas que sejamos nós mesmos”, nos coloca diante de duas realidades fundamentais: nossa originalidade e nossa missão única no mundo.

Somos únicos e necessários

Deus nos criou de modo único. No meio dos bilhões de habitantes da terra e dos bilhões de antes e do futuro, ninguém foi ou será igual a nós, nem na aparência nem na personalidade. A Bíblia diz que fomos tecidos no ventre de nossa mãe, cada um de nós é uma obra-prima da sabedoria e do amor de Deus (cf. Sl 138,13-14).

Copiar é obra da limitação humana, incompatível com a inteligência divina: Deus cria, não copia. Somos únicos no mundo. A consequência é que devemos nos estimar e valorizar. Não somos qualquer coisa, nem qualquer um. Deus não cometeu erros quando nos criou: somos obra de seu amor. Por que, então, estar reclamando de si mesmo, da inteligência, do aspecto externo, das limitações naturais? Seremos felizes não nos comparando com os outros, querendo ser outro, mas valorizando cada vez mais a maravilha que somos nós, alimentando uma visão positiva a respeito de nossa individualidade.

Outro ponto fundamental: nossa vida é única e necessária. Deus não cria pessoas descartáveis ou supérfluas. Cada um de nós tem uma missão a cumprir na história do mundo. Se não a cumprirmos, a história humana ficará incompleta. Isso mostra a importância de nossa vida. Nossas omissões deixarão a história humana imperfeita. Veja a responsabilidade que Deus colocou em nossas mãos: completar ou deixar incompleta a criação!

Então, tudo o que realizamos adquire uma importância decisiva no plano de Deus. Se não temos isso bem claro, fazemos as coisas mais ou menos, reclamando e até deixando de fazê-las porque nos julgamos uns pobres coitados, inúteis, incapazes.

Resumindo: eu me chamo José, Maria. Sou necessário ao mundo. Deus quer apenas que eu seja José ou Maria. Nada de complexos ou comparações. Eu me basto para ser feliz.

Pe. José Artulino Besen

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SÍNODO DOS BISPOS – MATRIMÔNIO E MISERICÓRDIA

papa-preside-casamentos

Na Festa da Exaltação da Santa Cruz, 14 de setembro, papa Francisco presidiu a Missa na Basílica de São Pedro e abençoou o casamento de 20 casais, alguns jovens, outros mais vividos, alguns já acompanhados de filhos. Esses últimos são o lado vistoso de nossa vida paroquial, cuja celebração chamamos de “legalização do matrimônio”. Papa Francisco, que deve ter presidido a centenas dessas “legalizações” nas periferias de Buenos Aires, festejou a todos. Mais um sinal de que o Papa quer a Igreja católica mais aberta e inclusiva.

Podemos ligar essa Celebração à 3ª. Assembléia Geral Extraordinária dos Bispos sobre a Família, a realizar-se no Vaticano de 5 a 19 de outubro. O 253 participantes, provenientes dos cinco Continentes, incluindo cardeais, bispos, casais, especialistas, religiosos refletirão sobre “Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização”.

O tema família é central na vida humana, na vida da Igreja, e a família cristã é uma das mais atingidas pela revolução de costumes das últimas três décadas. Hoje, a família é desafiada por outras vivências humanas, como casais sem filhos, casais separados, casais em segunda, terceira união, crianças somente com pai, ou somente com mãe, casais homossexuais, alguns adotando filhos, casamentos provisórios etc., numa diversidade que pode nos assustar, mas nos obriga ao acolhimento misericordioso. Vetos e condenações facilitam a ação pastoral e nos deixam com a consciência do dever comprido, mesmo ao preço de afastar muita gente da Igreja. Lembro de um padre, zeloso, bem intencionado, que declarou a uma senhora em segunda união: “A senhora está em pecado mortal, porque vive em situação de prostituição”. O padre apenas esqueceu de olhar a criança que ela carregava no colo, e outro já andando: ela era mãe!

Voltemos ao Sínodo: está sendo a oportunidade de revelar uma realidade desagradável: a oposição ao Papa Francisco e à sua vivência como Bispo de Roma desde que fixou residência na Casa Santa Marta, símbolo da Igreja acessível, pobre, que sai dos seus palácios, dos âmbitos psicológicos tradicionais: para católicos e bispos tradicionais, isso foge do mundo eclesiástico europeu e italiano, arquivado pela eleição de um bispo argentino. Francisco não é eurocêntrico, e nenhuma doutrina coloca a Europa como modelo para a Igreja. Em particular, algum cardeal já afirma que “o modelo latino-americano não funciona aqui na Europa”, esquecendo que a recíproca é justa: “o modelo europeu também não funciona no Terceiro Mundo”. Não é esse o problema verdadeiro, e sim, a palavra que Francisco propõe: uma Igreja pobre, com os pobres, acolhedora, misericordiosa. Esse é o caminho pastoral dele: lavar os pés de todos, acolher os migrantes, ter cheiro de pobre. Suas viagens não foram para a Europa rica, e sim, para os que estão longe: América latina-Brasil, Lampedusa-migrantes, Ásia-Coréia do Sul, Europa-Albânia.

É compreensível que haja descontentamento com as escolhas de Francisco, pois o fato de morar na Casa Santa Marta permite que tenha contato direto com pessoas sem a intermediação da poderosa Cúria no Palácio Apostólico; atacando o carreirismo como câncer da Igreja, rejeita uma elite que passa a vida em Roma; abandonando os rituais principescos, estimula que padres e bispos façam o mesmo; a bela e despojada Liturgia dele contrasta com os enfeites e suntuosidades de certos padres e bispos; tratando cada diocese como Igreja apostólica, desconsidera as tradicionais sedes cardinalícias que envenenaram a vida pastoral de bispos em busca de sedes “importantes”. A reforma corajosa das finanças do Vaticano dá credibilidade à Santa Sé, o rigor no tratamento dos casos de abuso de menores revela a face de uma Igreja que pede perdão, e a reforma da Cúria romana, em andamento, significará um novo tempo na condução da vida da Igreja. Enfim, Bergoglio foi eleito pelos cardeais porque nele enxergaram a pessoa para orientar uma Igreja voltada para si mesma numa Igreja missionária, voltada para o serviço do mundo, conforme pediu o Vaticano II.

Permanecer na verdade e na misericórdia

Causou espécie no mundo católico a publicação do livro “Permanecer na verdade de Cristo: Matrimônio e comunhão na Igreja católica”, assinado por 5 cardeais e claramente dirigido a atacar o cardeal Walter Kasper, cujas posições sobre o Matrimônio são bem consideradas pelo Papa. É um muro conservador que se ergue, claramente atingindo o Papa através do Cardeal, e se situa na hostilidade às propostas de renovação pastoral a serem discutidas no Sínodo. Como compreender a atitude de purpurados opondo-se a um caminho que Francisco iniciou consultando todos os bispos do mundo, que será proposto na Assembléia sinodal de outubro e, depois de um ano, em novo Sínodo em outubro de 2015? A convite do Papa, o cardeal Kasper falou sobre a família no Consistório de fevereiro último e, na última parte de sua colocação, elogiada pelo Papa que a definiu “teologia de joelhos” que revela o “amor pela Igreja”, sugeriu como hipótese – caso por caso, em determinadas condições e depois de um caminho penitencial – a possibilidade de readmitir os divorciados recasados à comunhão.

A publicação do livro não foi elegante, nem eclesial, pois os cardeais signatários primeiro o apresentaram à imprensa e não a W. Kasper, e bem sabem da posição de Francisco e de seu respeito pelo cardeal alemão. O confronto está definido: de um lado, uma visão pastoral que não admite adequar a doutrina aos sinais dos tempos, como sempre foi feito e, de outro, Francisco: sem negar a doutrina da indissolubilidade matrimonial, considera decisiva a mensagem da misericórdia e continua a convidar a Igreja a sair de si mesma e ir ao encontro dos homens e mulheres nas condições em que vivem. Os 5 veneráveis cardeais estão receosos de que Francisco caia no erro, pois ouvindo todos os bispos pode ser “enrolado” na doutrina. O livro, assim, é uma espécie de convite a que o Papa tenha cuidado.

O sacramento do matrimônio é uma graça de Deus, falou o cardeal Kasper, e faz dos esposos um sinal de sua graça e de seu amor definitivo. Mas, também um cristão pode fracassar e, infelizmente, muitos matrimônios fracassam. Na sua fidelidade, Deus não deixa ninguém caído e, na sua misericórdia, oferece a cada um que deseja converter-se, uma nova chance. Por isso, a Igreja que é o sacramento, o sinal e instrumento da misericórdia divina, deve estar próxima, ajudar, aconselhar, encorajar. Não se podem conceder segundas núpcias, mas, segundo os Pais da Igreja, depois do naufrágio, se lança um bote salva-vidas. Não um segundo matrimônio sacramental, mas os meios sacramentais necessários na sua situação. Assim como não duvidamos que a Igreja católica é a realização mais completa do plano de Jesus, mas enxergamos nas outras Igrejas sinais de salvação, não poderíamos ver o mesmo no casamento civil em que, na fidelidade e na piedade o casal vive sua fé?

Podemos continuar com os vetos do passado, ignorando as novas situações, ficando insensíveis à realidade concreta de tantos que sofrem. Certamente, a atitude misericordiosa de tantos padres e bispos aproxima-os do sofrimento do rebanho e do exemplo de Jesus, o Bom Pastor. Importante expor a doutrina com fidelidade, mas não esquecer que a misericórdia triunfa no julgamento.

 Pe. José Artulino Besen

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VII – A FÉ – E A PALAVRA SE FEZ CARNE – A EUCARISTIA

«O Senhor da Humildade» (ícone russo)

«O Senhor da Humildade» (ícone russo)

A fé cristã afirma Deus como Pai, Filho e Espírito Santo, e afirma o Filho como verdadeiro Deus e verdadeiro Homem: Trindade e Encarnação. São esses os mistérios que fundam e fundamentam a fé cristã. O Filho recebe o nome de Jesus (Deus salva) e Cristo (o Ungido de Deus) e é nosso único Senhor.

Em sua Carta aos Filipenses (2, 5-11) São Paulo transcreve um Hino que era memorizado pelos cristãos e que narra dois mistérios do Filho:o mistério da descida (sendo Deus, Jesus renunciou à condição divina, fez-se homem assumindo a condição humana, descendo até o abismo da morte) e o mistério da subida (Deus o ressuscitou e o exaltou, dando-lhe um Nome acima de todo nome, para que todos proclamemos que ele é o Senhor). Tudo isso, para a glória de Deus Pai, no Espírito Santo.

O mistério da descida – a Palavra se fez Carne

Nós proclamamos no Credo: “Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, Nosso Senhor, que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria”.

O Filho eterno, Deus eterno com o Pai, se fez carne, isto é, se fez humano e habitou entre nós (João 1, 1-14). Desde toda a eternidade, antes da criação do mundo e do homem e da mulher, foi esse o projeto de Deus: o Filho vir habitar na natureza humana e no meio de nós. Muito importante: Deus entrou na história, no tempo. Numa época, o ano I de nossa era, e num lugar, a Palestina. A história humana é agora história divina, a vida humana é também vida divina.

O Pai decidiu seguir os meios que estabeleceu para nós: o Filho se encarna em Maria de Nazaré da Galiléia, seu sangue é nosso sangue, sua carne é nossa carne. Podemos afirmar com todo o direito: somos da linhagem divina, e Deus é da linhagem humana (Atos, 17, 29). Concebendo por obra do Espírito Santo, Maria é chamada Mãe de Deus, pois não podemos separar em Jesus o que é divino e o que é humano: Jesus é Deus e homem verdadeiro, em unidade perfeita e sem confusão.

A palavra “carne” significa a pessoa humana em todas as dimensões: física, psicológica, emocional, espiritual. Tudo isso o Filho assumiu ao se encarnar em Maria: Deus decidiu passar pelas experiências humanas em toda a sua riqueza e fraqueza, menos no pecado. Paulo afirma que Jesus assumiu a condição de escravo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz.

O mistério da subida – ressurreição e Eucaristia

A descida de Jesus está incluída na sua obediência radical e livre ao Pai, que não o deixa abandonado ao poder da morte. Pelo contrário: Deus o exaltou e deu-lhe um Nome pelo qual podemos ser salvos. E a exaltação se conclui: em Nome de Jesus todo joelho se dobre e toda língua proclame “Jesus Cristo é o Senhor”, para a glória de Deus Pai. Na obediência, o Senhor desceu o máximo e, na subida, o Pai lhe dá o título máximo de Senhor. Devemos recordar, contudo, que o Senhor que subiu na glória se encontra presente em nossa humildade, pois Deus decidiu estar conosco para sempre.

Em cada Eucaristia celebramos a vida do Filho, sua encarnação, nascimento, morte, ressurreição e ascensão ao Pai. A Eucaristia é a presença plena do Senhor em nós e de nós nele. Assim como pela digestão o pão e o vinho são transformados, do mesmo modo, na Eucaristia são transformados porque digeridos e, desse modo, nós somos transformados em Corpo de Cristo. São João Crisóstomo assim fala: uma vez que como o pão e o vinho, Corpo e Sangue de Cristo, sou transformado no Corpo e no Sangue de Cristo a tal ponto que “não sou mais eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). E Santo Agostinho: se quisermos ver a Eucaristia e compreendê-la, olhemos o que está no altar: nós estamos no altar onde está Cristo e na união com ele nós nos tornamos Corpo e Sangue de Cristo.

A Liturgia russa nos comove com um belo título para Jesus: o Senhor da Humildade. Tão cheio de poder e glória, e tão cheio de simplicidade e bondade. Na língua grega do Novo Testamento, o Filho é denominado “Kyrios”, o “Senhor”, nome que indica não somente respeito, mas, em Jesus, significa que não há nenhum poder fora dele, tudo está submetido à sua autoridade. Nele, Deus Pai quer ser glorificado. O nome “Senhor” era de tal modo profundo que a Liturgia romana manteve no grego a prece “Kyrie eleison”, Senhor, tende piedade de nós, no ato penitencial, que era repetida três vezes. Somente mais tarde incluiu outro nome, o “Christe eleison”. Isso porque somente ele tem direito ao nome Senhor, somente ele merece a nossa humilde submissão, sempre confortadora. E somente ele, o Senhor, tem a autoridade de nos reconciliar com o Pai, o mundo, a humanidade. E, na sua humildade, pela Eucaristia nos torna seu Corpo e Sangue.

Pe. José Artulino Besen

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V – A FÉ CRISTÃ, REVELAÇÃO DIVINA

Palavra e Encarnação - Capela do Centro Aletti em Olomouc - Tchékia

Palavra e Encarnação – Capela do Centro Aletti em Olomouc – Tchékia

Tudo o que cremos a respeito de Deus nós o recebemos por dom e graça, e dentro da comunidade. Não há fé cristã verdadeira senão vivendo numa comunidade eclesial e tendo a capacidade de escutar e amar.

Tantas vezes se diz que “Deus é um só, não se deve brigar por religião porque são todas iguais”. Além de são ser verdade, é uma afirmação que simplifica tudo, e é perigosa, pois torna inútil a revelação bíblica e a vinda de Jesus ao mundo.

Deus é um só, é evidente. Mas o conhecimento de Deus se dá dentro da história através do que o Espírito de Deus revela e isso, pouco a pouco, respeitando a capacidade de aprendizado dos seres humanos. São Paulo afirma que todos os povos têm a fé em Deus inscrita em seus corações e também conhecem a Deus através da criação (Romanos 1, 19-21). Deus nunca deixou de agir entre os povos, por isso, quando um missionário chega à terra de missão deve primeiro buscar conhecer o que Deus já realizou nela, pois não adentra no campo missionário como se Deus nunca tivesse acompanhado sua história.

A última revelação, definitiva, Deus ofereceu através de seu Filho que por nós se encarnou. Jesus, eternamente junto do Pai, conhece-o e pode revelá-lo. Desse modo, nós cristãos temos o conhecimento da fé, e da vida de fé, através do próprio Deus. Isso não diminui os outros povos, não cristãos, mas aumenta nossa alegria por termos sido dignos de conhecer a Deus e de nos empenharmos dia e noite para realizar o mandamento do Senhor: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura”. Recebemos o dom da fé cristã e queremos que todos os povos dele partilhem.

O fundamento da fé cristã

Por divina revelação atestada na Sagrada Escritura, são dois os fundamentos inseparáveis da fé cristã e que, renegando-os, estaremos excluídos da comunidade cristã: Deus Pai, nosso Senhor Jesus o Salvador, o Espírito Santo enviado Filho,  o mistério da Trindade Una e Santa e o mistério da Encarnação do Filho. É aceitando firmemente esses mistérios que somos recebidos na Igreja pelo batismo: somos batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e, pelo batismo, participamos da salvação que nos é oferecida por Jesus Cristo.

Quando falamos em “mistério” não estamos nos referindo a coisas absurdas, incompreensíveis: nos referimos, isto sim, à grandeza de Deus que é tudo, mas que vem ao nosso encontro, se envolve em nossa vida. Mistério é algo tão profundo que, quanto mais conhecemos, mais falta conhecer, e esse conhecimento não vem de nossos estudos, mas da graça de Deus. Se cada pessoa é um mistério, nunca a conhecemos totalmente, quanto mais o nosso Deus!

Sabemos que Deus é Uno e Trino, é Santíssima Trindade porque assim o Espírito nos revela pela Palavra: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós” (2 Coríntios 13, 13). É muito belo quando iniciamos os sacramentos com essa saudação de Paulo. Mas, antes, fazemos o Sinal da Cruz professando nossa fé nos dois mistérios: o mistério de Deus com as palavras “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, e o mistério da encarnação e redenção traçando a cruz [+].

Cada dia que é iniciado e concluído com o Sinal da Cruz, cada ação, trabalho, viagem  com o mesmo sinal é a afirmação de que cremos no Deus Trindade e na Salvação em Jesus. Um gesto devocional tão simples e tão profundo que nos leva à intimidade de Deus nosso Pai e de Jesus nosso Salvador na força do Espírito Santo.

Quando os pais e padrinhos abençoam com esse sinal na fronte da criança estão invocando para ela proteção, salvação e fé cristã. É uma bênção generosa e poderosa, tão fácil, tão significativa e, deste modo, rezamos o que cremos e cremos o que rezamos.

Toda a revelação cristã nasce e se desenvolve numa palavra: Amor. Por amor Deus se revela, por amor nós cremos. Deus é amor, o amor é divino.

José Artulino Besen

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IV – A FÉ – ATO PESSOAL E ATO ECLESIAL

pentecostes

Se todos os cristãos, por questão de lógica, creem em Deus e em Jesus Cristo seu Filho, por que falta a unidade entre os crentes, por que a competição entre os que vivem a mesma fé? Damos ao mundo o espetáculo da divisão, da competição, e até do ódio, o que se constitui num grande obstáculo para que o mundo creia. Jesus, em sua oração sacerdotal, pede ao Pai que os discípulos creiam e se amem, para que sejam um como ele o é com o Pai (Jo 17,21). Todo o problema do ecumenismo tem origem nessa dor: a divisão dos cristãos em grupos que se combatem, ou não se aceitam, ou querem o monopólio de Cristo.

A Carta apostólica PORTA FIDEI, que convocou o Ano da Fé, afirma: “O cristão não pode jamais pensar que o ato de crer seja um fato privado. A fé é decidir estar com o Senhor, para viver com Ele. E este ‘estar com Ele’ introduz na compreensão das razões pelas quais se acredita” (nr. 10). Cristo que nos fala é o conteúdo de nossa fé e não podemos fazer seleções de aspectos da fé, para não dividirmos Cristo em porções a la carte.

A fé é pessoal, não somos um rebanho levado pela onda: necessito dizer “eu creio” ao outro, que também me diz “eu creio”. Mas, o “eu creio” encontra sua realização plena ao confirmarmos “nós cremos”. Na Liturgia, proclamamos isso com bastante força após ouvirmos a Palavra de Deus e professarmos nossa fé dizendo “Creio em Deus Pai” como comunidade de fé.

A fé, dom divino a nós concedido, impele-nos necessariamente a uma comunidade/comunhão de fé: cremos na Igreja e com a Igreja. A própria profissão da fé é um ato simultaneamente pessoal e comunitário. É na fé da comunidade cristã que cada um recebe o Batismo, sinal eficaz da entrada no povo de Deus que busca a salvação. É da Igreja e na Igreja que recebemos o anúncio de Cristo e, deste modo, podemos afirmar o que de modo tão belo e claro afirma o nosso Catecismo: “Eu creio”: é a fé da Igreja, professada pessoalmente por cada crente, “Nós cremos”: é a fé da Igreja, confessada pela assembléia litúrgica dos fiéis. “Eu creio”: é também a Igreja, nossa Mãe, que responde a Deus pela sua fé e nos ensina a dizer: “Eu creio”, “Nós cremos”.” (Catecismo, nr. 167). Estando reunidos para ouvir a Palavra e partilhar o Pão, nosso ato de fé é pessoal (eu creio) e comunitário, todos a uma só voz proclamando “eu creio”. 

Crer com a Igreja – Povo de Deus

É pelo Espírito Santo que somos capazes de crer, e é pelo Espírito Santo que a Igreja nos transmite o conteúdo da fé. Temos, hoje, bastante dificuldade de admitir que haja um “conteúdo da fé”, porque gostamos de fazer a experiência individual da aceitação do Senhor morto e ressuscitado. É a dificuldade de sermos discípulos à escuta. Há o primeiro passo, a que se segue o “no que eu creio”, que não depende mais de mim, mas da Igreja que recebeu do Senhor a missão de nos transmitir a Sagrada Escritura de modo verdadeiro e fiel, e numa comunidade, como em Pentecostes. Pelo fato de no decorrer da história tantos acharem ter descoberto uma novidade na Bíblia é que surgiram e surgem novas comunidades e seitas religiosas.

A fé adquire todo seu sentido quando somos capazes de colocar nossa inteligência e nossas convicções pessoais a serviço dela, na certeza de que é mais verdadeiro o que a comunidade me oferece para a vivência cristã do que a pobreza do “eu acho que”.

Continuando com a Carta de Bento XVI: “O conhecimento da fé introduz na totalidade do mistério salvífico revelado por Deus. Por isso, o assentimento prestado implica que, quando se acredita, se aceita livremente todo o mistério da fé, porque o garantidor da sua verdade é o próprio Deus, que Se revela e permite conhecer o seu mistério de amor” (nr. 10). Nada mais belo para nosso serviço missionário e de caridade do que a unidade de fé que se expressa no amor de irmãos.

José Artulino Besen

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III – A FÉ – O ENCONTRO COM DEUS E INÍCIO DA MISSÃO

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Nós conhecemos a Deus não porque somos mais ou menos inteligentes, porque estudamos pouco ou muito. Conhecemos a Deus porque ele se nos revela, toma a iniciativa de vir ao nosso encontro. E só podemos conhecê-lo na medida em que se deixa conhecer. Toda a Bíblia é história de encontros de Deus com pessoas, com comunidades, com um povo. Noé, Abraão, Jacó, Moisés, os profetas, João Batista, os judeus, os apóstolos iniciaram a missão junto ao povo após terem sentido a presença viva e real de Deus em suas vidas. Tudo foi conseqüência de um encontro, do amor primeiro de Deus. É desse encontro que nasce a fé que gera o amor e se prolonga na missão.

A primeira reação da pessoa que sente Deus em sua vida é a consciência de ser pecador. Ai de mim, estou perdido! Sou um homem de lábios impuros! (Is 6,4). Afasta-te de mim, Senhor, pois sou um homem pecador! (Lc 5,8). O ser humano percebe a distância entre ele e Deus mas, ao mesmo tempo, percebe que é Deus quem lhe vem ao encontro. Sem estardalhaço, o Senhor se manifesta pela Palavra, sacramentos, pela comunidade, pelos rostos sofredores, pelos pequenos acontecimentos diários. Muita gente diz que tem visões, conversas com Deus, Nossa Senhora e os Santos e por isso se sente santa, digna, privilegiada. É um sinal de que apenas se encontrou com sua vaidade pessoal ou com seus desequilíbrios.

Ninguém se aproxima de Deus sem ter a dolorosa consciência de sua condição pecadora. O pecado, porém, não afasta Deus de nós. Certa catequese nos criou uma imagem de Deus semelhante a um quarto de hospital, esterilizado, onde só entra quem está desinfetado. Então, há pessoas que se acham indignas de rezar, de entrar numa igreja, porque Deus as rejeitará, são pecadoras, perderam a fé. Não é assim: Deus vem ao encontro do pecador para tirar-lhe o pecado. Deus ama os que erram, para que sejam libertos do erro. Deus busca os fracos, para torná-los fortes. Muitos judeus se escandalizaram que Jesus vivesse com pecadores como Zaqueu, a adúltera. Achavam que a verdadeira fé criava distância com relação aos mau-comportados. Tinham-se esquecido de que Deus sempre viera ao seu encontro nos momentos de derrota, de pecado, de idolatria, para que retornasse à Aliança. O amor de Deus por nós é o início e o alimento da fé bíblica e cristã, e não nossa suposta dignidade.

A fé conduz à missão

Após o encontro com Deus, na consciência de ser pecador amado por Deus, a pessoa se torna anunciadora do Evangelho. Quem foi amado, luta para que mais pessoas tenham a mesma alegria. Quem foi salvo, quer que todos se salvem. Torna-se propagandista, anunciador, missionário da Salvação. São Paulo, Santo Agostinho, São Francisco consagraram-se à missão após terem sentido em sua vida as maravilhas operadas pelo amor divino.

Cristão envergonhado, acomodado é cristão que não experimentou concretamente a graça em sua existência. Quem, nos caminhos de sua vida, teve a experiência do amor de Cristo, assume para si o chamado feito a Simão Pedro: Não tenhas medo! Doravante serás pescador de homens! (Lc 5,11). Antes, o mesmo Pedro declarara ao Senhor que perguntava aos discípulos se não queriam abandoná-lo: A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna! (Jo 6,68).

Como evangelizar? Em primeiro lugar pelo nosso testemunho de vida alegre, fraterna e santa. Não se pode evangelizar vivendo no pessimismo, na amargura, na falta de união. Em segundo lugar, pela palavra propriamente dita: não perder oportunidades de levar Jesus e o Evangelho àqueles com os quais nos encontramos. Viver e anunciar o Evangelho, essa é a grande missão. Ser missionário é necessidade de todos aqueles que amam a Jesus, pois foram tocados pela graça. Fé, conversão, testemunho, anúncio, obras de justiça e caridade, são esses os mais belos frutos do amor de Deus em nós.

Pe. José Artulino Besen

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II – A FÉ – DOM OFERECIDO AO DISCÍPULO

A FÉ - 2 - DOM OFERECIDO AO DISCÍPULO (imagem)

O pecado dos primeiros pais foi a negação da presença e da autoridade de Deus. Quiseram ser “como Deus” e caíram na solidão e na vergonha. Decidido a não perdê-los, Deus foi-lhes ao encontro: “Adão, onde estás?” (Gênesis 3,9). Essa mesma pergunta é feita a cada um de nós a cada dia. Deus nos procura para nos falar e oferecer-nos a salvação, a vida plena. Ao escutarmos a voz de Deus e ao acolhê-la permitimos que nasça e crie espaço em nós o dom da fé. Sim, a fé é sempre dom, graça, nunca merecimento. E a fé se alimenta da fé, da voz de Deus por todo o arco da existência. Ninguém pode dizer “já tenho fé que chega”, pois isso significaria que não tem mais fé, não escuta mais Deus.

Para reforçar a maior importância do escutar do que do falar, o povo diz que Deus nos deu duas orelhas e uma boca. Isso é verdade humanamente, pois amamos quando nos dispomos a escutar nosso próximo. No nascimento e crescimento da fé, porém, podemos dizer que os dois ouvidos são fundamentais, cada um com uma finalidade: um ouvido escuta a voz de Deus em nossa consciência, em sua Palavra revelada, a Sagrada Escritura e o outro, escuta a voz da vida, do mundo, da realidade. As duas vozes crescem juntas e juntas produzem frutos: Deus me fala para que eu ouça a voz do mundo e a vida me fala para que eu a transforme escutando a voz divina.

A fé nasce da audição, diz São Paulo aos Romanos (10,17). Quem não sabe ouvir é incapaz de captar a voz de Deus. A grande crise de fé é, em parte, produto de um mundo e vida egoístas onde temos ouvidos apenas para nós. O mundo do egoísmo é também mundo de descrença. Muitas pessoas até parecem estar buscando a Deus mas, na verdade, estão apenas buscando a si próprias. A fé nos leva à abertura a Deus e à vida e mata em nós todo o egoísmo que herdamos de Adão e Eva.

O Antigo e o Novo Testamentos são um contínuo falar divino: Deus chama Noé, chama Abraão, chama Moisés, chama os reis, chama os profetas. Deus chama o povo continuamente e o chama com infinito amor: Deus fala ao povo como o marido fala à esposa, como o amado chama a amada (veja e beleza amorosa do Cântico dos Cânticos, onde um Deus apaixonado procura o motivo de sua paixão, cada um de nós), Deus chama mesmo que estejamos na prostituição, trocando-o por outros amores, como na história de Oséias. Deus nos chama para falar-nos.

Jesus, Palavra que releva o Pai

E, por fim e para sempre, Deus nos fala por seu próprio Filho, Jesus Cristo. Lemos no Catecismo Católico: “Podemos crer em Jesus Cristo, porque Ele próprio é Deus, o Verbo feito carne: «A Deus, nunca ninguém O viu. O Filho Unigênito, que está no seio do Pai, é que O deu a conhecer» (João1, 18). Porque «viu o Pai» (João6, 46), Ele é o único que O conhece e O pode revelar” (CIC 151). Jesus é a Palavra de Deus, o narrador de Deus. Quem o escuta e contempla nos Evangelhos escuta e contempla o próprio Deus, o Pai.

Quando o povo está admirado com a sabedoria de Jesus, alguém grita: “feliz aquela que te gerou” e Jesus corrige: “Antes feliz quem escuta a Palavra de Deus e a põe em prática” (Lucas 8,21), porque esse recebeu e acolheu o dom da fé. Podemos, aqui, lembrar Isabel falando com Maria: “Bem-aventurada és tu, Maria, porque acreditaste” (Lucas 1,45). Quem tem a capacidade de ouvir e crer herdará uma bem-aventurança.

Tendo cumprido sua missão de nos revelar o Pai e de nos oferecer o dom da salvação, Jesus volta ao Pai, confiando-nos a missão de continuar o anúncio e a vivência do Evangelho. Mas, não nos deixa sós, como órfãos, e nos envia o seu Espírito: “O Espírito penetra todas as coisas, até o que há de mais profundo em Deus […]. Ninguém conhece o que há em Deus senão o Espírito de Deus” (1 Coríntios 2, 10-11; CIC 152). E o Espírito nos revela todas as coisas.

Crer é fruto de um encontro, crer é fruto da escuta, do discipulado. Somos discípulos ouvindo nosso Mestre, necessitamos continuamente de invocar a graça de termos o ouvido de um discípulo.

Pe. José Artulino Besen

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I – A FÉ – ATITUDE HUMANA E DIVINA

fe-uma-atitude-humana

Às vezes, nós complicamos a palavra , achamos que ter fé é difícil, ter fé é para quem não estuda, estamos sempre em crise de fé. Colocamos em contraposição as duas palavras: fé e razão, ter fé e compreender, como se elas fossem inimigas. Isso se explica porque preferimos complicar as coisas, pois, ter fé é uma atitude extremamente freqüente em nossa vida. Sem fé nem podemos viver em comunidade. É porque tenho fé que consigo estabelecer relações de amizade, de trabalho e de lazer com as pessoas.

O que é a fé? É crer na palavra de quem me falou porque creio nessa pessoa, digna de minha confiança. Ter fé é ter confiança em alguém e em sua mensagem. Creio no que meus pais me falam porque creio neles, são dignos de meu crédito. Creio numa notícia que meu amigo me transmite porque tenho certeza de que ele me fala a verdade.

A fé tem a ver com confiança, pois a história de quem me falou é uma história verdadeira. Não creio no mentiroso porque sua história tem-se revelado inimiga da verdade.

Também creio na natureza, em seus efeitos, creio num medicamento porque confio no médico, creio no vendedor porque é honesto. Com isso percebemos que toda a nossa existência, para ser pacífica e feliz, necessita de um contínuo crer. Se desconfiar de tudo e de todos, acabo me isolando e ninguém terá fé em mim. Isso é importante: os outros têm fé em mim porque mereço sua confiança, sou leal, tenho sido verdadeiro nas palavras e atitudes. Mão e contramão: creio no outro, o outro crê em mim. Entre nós há uma ligação anterior chamada confiança. É uma atitude humana que brota de nossa vida interior. O ser humano ou é verdadeiro e quer ser verdadeiro, ou não é humano. O diabo é o pai da mentira.

Ter fé, atitude divino-humana

Você poderá dizer: mas, crer em alguém é evidente, pois eu o conheço e o vejo. Fé religiosa é outra coisa, pois entramos no mundo do invisível, daquilo que não se pode comprovar, é um mistério! Mistério é claro que sim, pois tudo o que se refere a Deus é mistério, sai do mundo das coisas e pessoas e entra no mundo da eternidade, mais verdadeiro ainda.

Eu creio em Deus porque Deus é digno de fé. Deus é não só verdadeiro, ele é a Verdade. O Catecismo da Igreja Católica (n. 142) nos oferece uma palavra iluminadora: “Pela sua revelação, ‘Deus invisível, na riqueza do seu amor, fala aos homens como amigos e convive com eles, para os convidar e admitir à comunhão com Ele’. A resposta adequada a este convite é a fé”. Deus nos falou primeiro, foi dele a iniciativa de vir ao nosso encontro como amigo a amigos. Ele veio nos dizer quem ele é, quem nós somos e o que quer nos oferecer para termos vida verdadeira. Isso é a revelação, tirar o véu, tornar clara uma notícia que somente Deus poderia nos dar.

Mas, por que termos fé em Deus se não podemos comprovar nem sua existência nem a veracidade de suas palavras? Aqui entramos na confortadora linguagem da fé: eu creio em Deus porque quem me falou dele é digno de fé. De pessoa a pessoa, a Palavra de Deus chegou até mim. E indo de pessoa a pessoa, chego até Jesus Cristo, o Filho de Deus. Ele falou de Deus, ele me fala de Deus porque o conhece face a face, desde toda a eternidade. De Jesus nos falaram os Apóstolos, de Jesus nos falam as Escrituras.

É Jesus é verdadeiro por uma razão clara: ele morreu e ressuscitou. Foi pela fé na sua vitória sobre a morte que os discípulos passaram a anunciá-lo. Foi porque o tocaram, viram suas chagas gloriosas, com ele comeram e falaram após a ressurreição que acreditaram nele e em suas palavras sobre Deus. Após a ressurreição os discípulos de Emaús caminharam com ele, ouviram-no explicando as Escrituras e creram nele.

E assim, Jesus é digno de confiança e quem nos fala dele também o é. Cremos nele em sua palavra.

Pe. José Artulino Besen

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O BOM COMBATE DA FÉ

Escada de Jacó, nossa ponte para Deus (G. Cordiano).

Escada de Jacó, nossa ponte para Deus (G. Cordiano).

Se nosso tempo é marcado pelo “eclipse de sentido do sagrado”, nas palavras de Bento XVI, nós cristãos somos marcado pelo eclipse do sentido da fé cristã. Em outras palavras, a sociedade secularista quer retirar a autoridade de Deus da vida civil e muitos cristãos, espantados com o fenômeno, buscam esterilizar o poder transformador da fé num mórbido sentimentalismo. Compreende-se que a voz do mundo secular se incomode com qualquer referência religiosa, pois tem como ideal final a satisfação de todas as necessidades, a paz que vem do abandono de um ideal de vida humana, substituída pelo ideal puramente hedonista do cada um por si e para si.

Mas, não se compreende que os cristãos, especificamente os freqüentadores das igrejas, busquem a mesma coisa ao preço da castração da fé redentora trocada pela fé “a baixo preço” vivida na planície, sem obstáculos, sem a subida ao monte onde se contempla a majestade e o amor divinos.

Quando Paulo escreve “combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé” (2Timóteo 4,7), ele sabe que apenas terminou uma corrida, pois lhe estava reservado outro combate, em Roma, o martírio. Então sim, poderá se apresentar diante do Senhor e ainda ter de dizer “nada sou, recebe-me”, sabendo que no esvaziamento total Deus pode nos encher completamente.

Albert Camus, autor de A PESTE, diante da impossibilidade de aceitar o sofrimento de uma criança inocente, o que lhe parece negar a possibilidade de um Deus justo, vive ainda o dilema de não ser possível viver sem procurá-lo, mesmo sabendo que não existe, e exclama: “Como ser santos sem Deus? É este o único problema concreto que eu conheço”.  Podemos empobrecer nossa humanidade pela autosatisfação, mas, encarando-a com seriedade não conseguimos suprimir a tensão à transcendência: Deus nos deixa inquietos, sempre. Abdicando de “ser santos” desmorona o edifício construído a partir da fé.

Por que a dificuldade de crer como cristãos, de levar a sério a fé cristã? É importante lembrar que a fé cristã não se reduz à aceitação de doutrina, dogmas, sacramentos, Bíblia, tudo relativamente fácil. Ter fé cristã é aceitar uma pessoa, o Filho de Deus, a Ponte entre nós e Deus, entre o mundo e os céus, inseparáveis: Jesus se oferece como caminho até Deus e Deus se oferece a Jesus como caminho até nós. No individualismo não é possível o encontro com o Outro, pois pretendemos apenas nos encontrarmos conosco mesmos e, deste modo, torna-se impossível a fé. O individualismo produz o sentimentalismo religioso, a eterna adolescência de quem acha que tudo começa e termina em si. Fazemos perguntas sem buscar repostas, rezamos sem encetar um diálogo de amigos.

A fé será sempre fruto do diálogo e da comunhão e, quem ama o próximo, também ama a Deus, e quem ama a Deus, também ama o próximo. Viveremos o bom combate da fé se, ao mesmo tempo, formos amantes de Deus e do próximo, o que torna realidade a comunhão/comunidade: na proporção com que nos damos as mãos, sentimos o Deus vizinho e, na proporção com que amamos a Deus, sentimos o próximo vizinho.  No distante século VI, em pleno deserto de Gaza, o santo monge Doroteu afirmava isso quando, traçando na areia um círculo com raios que se dirigiam a seu centro, explicava: “o círculo é o mundo, o centro dele é Deus. Os raios são os caminhos dos homens: quanto mais eles avançam, tanto mais se aproximam de Deus e quanto mais Deus avança, mais se aproxima de nós”.

O Espírito Santo, causa e artista da vida de fé

O bom combate inclui o árduo caminho do êxodo, ingressar no deserto em busca do horizonte sem saber quando encontrá-lo. O peregrino da fé sabe que o deserto é extremamente quente durante o dia, e extremamente frio à noite. Não desanima, pois está acompanhado do artista da santidade, escultor de cristãos, o Espírito Santo que aquece o frio, refresca o calor, rega o seco, lava o sujo, cura o doente, dobra o que é duro, guia no escuro, porque é nosso hóspede e nós nos hospedamos nele (cf. Seqüência de Pentecostes).

Na busca de Deus é significativa a imagem do poço onde buscamos água e quanto mais a tiramos, mais precisamos tirar. Uma jovem holandesa, enquanto viajava com os pais e um irmão no trem que os levaria à morte no campo de concentração de Auschwitz, não se deixou levar pelo desespero de Camus. Tinha consciência de que tudo é um milagre, em tudo há força e fraqueza, mas em tudo pode ser descoberto o bem, mesmo no trem que a conduzia à tragédia final. Etty Hillesum, esse era seu nome, que morreria em 30 de novembro de 1943, assim escreveu: “Existe dentro de mim um poço muito profundo. E Deus está nesse poço. Às vezes me acontece de encontrá-lo, porém, as mais das vezes pedra e areia o cobrem: nesta hora Deus está sepultado. É necessário que novamente eu o desenterre”.

O poço é nossa interioridade, é o abismo profundo donde gritamos “a vós eu clamo, Senhor, ouvi a minha prece” (Salmo 129, 1-2). Sem avançarmos em águas mais profundas, permanecermos nas planícies, não combateremos o bom combate, o único combate verdadeiro. Teremos os ouvidos fechados ao Espírito que geme dentro de nós e não faremos experiência da comunhão total com Deus e com o próximo. Querendo ou não, nas ruas e nos templos, nas casas e nos shoppings, no silêncio e no barulho, o Senhor está gritando: “Se alguém tem sede, venha a mim, e beba. Aquele que crê em mim, conforme diz a Escritura, rios de água viva jorrarão do seu interior” (Jo 7, 37-38).

Pe. José Artulino Besen

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