2. O esquecimento e a negligência

Que dizer do demônio que torna a alma insensível? Receio escrever sobre ele, a escrever de que modo a alma, à sua chegada, sai do estado que lhe é próprio e se despoja do temor do Senhor e do espírito de fé; então não considera mais pecado o pecado e não tem a transgressão como transgressão; recorda-se do castigo e do juízo eterno como uma simples palavra e de verdade ri do terremoto de fogo (Jó 41,21). Certamente proclama Deus, mas não compreende seu comando. Bates no peito porque tua alma se orienta ao pecado e ela não toma consciência disso. Falas das Escrituras e ela é completamente insensível e não escuta. Pões diante dela uma repreensão que vem dos homens e ela não se importa; a vergonha da parte dos homens e não entende, como um porco que fecha os olhos e abre um valo no recinto. Esse demônio lhe traz pensamentos persistentes de vanglória. Dele se disse que se aqueles dias não fossem abreviados, ninguém se salvaria (Mt 24,22).

Evágrio Monge,
Sobre o discernimento 10

Um acontecimento doloroso desperta no homem sábio a recordação de Deus; analogamente, aflige quem esquece Deus.

Todo sofrimento involuntário se torne para ti mestre de recordação e não te faltará a oportunidade de te converteres.

Em si mesmo, o esquecimento não tem nenhum poder, mas arranca força de nossas negligências e em proporção a elas.

Não dizer: “O que faço? [O esquecimento] vem mesmo se não quero”. Isso acontece porque, também quando te recordavas, negligenciaste teus deveres.

Faz o bem de que te recordas e também aquele que não recordas te será revelado. Não entregues teus pensamentos a um esquecimento privado de discernimento.

Do amor ao prazer nasce a negligência e da negligência, o esquecimento. Deus deu a todos o conhecimento daquilo que é bom para nós.

Marcos, o Asceta,
A lei espiritual 56-60; 77

Naturalmente o esquecimento dos pensamentos úteis e que dão vida, a irmã deste, a negligência, e a ignorância com que ele colabora e lhe é semelhante – paixões particularmente pesadas e interiores, difíceis de encontrar e de corrigir, que cobrem e obscurecem a alma com uma curiosidade funesta – preparam as restantes paixões do mal a  agir e a nela aninhar-se, porque geram falta de temor e negligência dos bens e oferecem fácil acesso e liberdade de ação a cada paixão. Quando a alma foi coberta pelo péssimo esquecimento, pela deletéria negligência e pela ignorância, mãe e nutriz de todos os males, a mente infeliz e tornada cega facilmente é arrastada por tudo aquilo que vê, pensa ou escuta.

Marcos, o Asceta,
Carta ao monge Nicolau, vol. I, p. 136

É necessário fugir da excessiva confidência como veneno de víbora e evitar as muitas conversas como serpentes e raça de víboras (cf. Mt 3,7), porque essas coisas podem velozmente levar ao esquecimento total do combate interior e fazer a alma cair da alegria do alto, que provém da pureza do coração. O maldito esquecimento se opõe à atenção como a água ao fogo e com força a combate a todo o momento. Realmente, do esquecimento se cai na negligência, da negligência no desprezo, na preguiça e nos desejos inconvenientes. E assim, de novo, retrocedemos como o cão ao próprio vômito (cf. 2Pd 2,22). Fujamos, portanto, do excesso de familiaridade como de um veneno mortal. Ora, o mal que o esquecimento traz consigo e o que deriva dele cura-se com uma rigorosa custódia da mente e uma invocação contínua do Senhor nosso Jesus Cristo. Sem ele, nada podemos fazer (cf. Jo 15,5).

Eusíquio Presbítero,
A Teódulo 32

Retornar ao índice →

  1. Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: