PADRE HENRIQUE ERNESTO CERVI

PADRE HENRIQUE ERNESTO CERVI

PADRE HENRIQUE ERNESTO CERVI

Henrique Ernesto nasceu em Brusque em 29 de outubro de 1942, filho único de Hercílio Henrique Cervi e de Ismênia Arruda Cervi. Pelo motivo do pai ser delegado de polícia, a família fixou residência em Lages.

Frequentou o curso ginasial e científico em Lages onde, pela participação na vida paroquial, sentiu os sinais de vocação sacerdotal. À época, Dom Daniel Hostin, OFM, bispo diocesano, o encaminhou para o Seminário Maior de Viamão, cursando filosofia e teologia.

Em 17 de novembro de 1973, falecia Dom Daniel, por quem Henrique nutria especial afeto e admiração. O sucessor, Dom Honorato Piazzera, SCJ, teve alguns contratempos com Henrique, sempre de opinião forte e decisões sem retorno. Como seus pais tinham se mudado para São José, Dom Honorato deu cartas de recomendação a Dom Afonso Niehues, arcebispo de Florianópolis. Aceito, por um ano, 1974, lecionou no Seminário de Azambuja, em Brusque. Henrique era professor nato, espirituoso, claro e afável.

Com louvor nos escrutínios, em 15 de fevereiro de 1975 foi ordenado padre em Lages, por Dom Afonso Niehues. Em Lages, porque ali residia a maioria de seus amigos e alguns parentes de sua mãe. No mesmo dia, saiu a provisão que o nomeava professor no Seminário de Azambuja.

Em 10 de janeiro de 1976, foi provisionado vigário paroquial da Catedral de Florianópolis. Sentiu-se desconfortável numa casa movimentada, trânsito de muitas pessoas, atendimento e improvisos normais para uma paróquia, mas não para sua sensibilidade. Dom Afonso percebeu essa incompatibilidade e, em 1977, convidou-o a residir no Palácio arquiepiscopal, onde permaneceu até 1994. Em 1995, pelo falecimento de seu pai, assumiu o cuidado da mãe, e a arquidiocese providenciou-lhes um apartamento na Avenida Mauro Ramos.

A vida pastoral de Pe. Henrique Cervi transcorreu em Florianópolis como professor, canonista e capelão. De 1976 a 1997 lecionou Direito Canônico e História da Igreja antiga no Instituto Teológico de Santa Catarina. Apreciado pelos alunos, enriquecia cada capítulo com fatos pitorescos. Pe. Henrique era dotado de ótima memória enciclopédica. Não era dado a profundezas intelectuais, mas guardava nomes, datas e fatos com muita facilidade e os transmitia aos alunos com bom humor. Durante todo o tempo de magistério exerceu a função de secretário-arquivista do ITESC.

Fruto de seu gosto pelos fatos e personagens da Igreja foi a publicação de brochura sobre os Santos Padroeiros das Profissões.

A Conferência dos Bispos – CNBB, estimulava as dioceses a constituírem Tribunais eclesiásticos. Dom Afonso buscou no Pe. Henrique o organizador do Tribunal e, em 22 de abril de 1976, provisionou-o Juiz do Tribunal Eclesiástico Regional de SC seguindo-se em 1º de março de 1978, a nomeação de Presidente do Tribunal Eclesiástico Regional de SC e Vigário Judicial de Florianópolis. Era apaixonado pela legislação canônica, aceitando um trabalho para o qual não se tinha preparado, mas que aprendeu no ofício.

Pe. Henrique não era dado ao trabalho administrativo, preferia trabalhar em Capelanias, onde celebrava, pregava, conversava muito e voltava para casa. Tudo com muito carinho, conquistando a simpatia dos freqüentadores por seu bom humor e pela inteligência e brevidade de suas homilias. Deste modo, de 1982 a 1997 foi Capelão da Igreja e da Irmandade do Divino Espírito Santo, na Praça Getúlio Vargas, ao mesmo tempo Capelão auxiliar do Hospital de Caridade de Florianópolis e Capelão da Irmandade de Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos, em São José.

Um homem e um personagem

Pe. Henrique era um personagem humano característico, extremamente característico. Descendente da família judia por parte de mãe – Arruda, guardava a pertença ao povo judeu com muito zelo, observando algumas práticas, como não escrever o nome de IAWÉ, não comer crustáceos ou peixes com escamas, nenhuma iguaria misturada com leite; no seu apartamento lia o Antigo Testamento tendo coberta a cabeça com o quipá. Um católico até conservador numa mente judia.

Tendo sido bom cantor lírico em sua juventude, guardou o gosto pela ópera e pelas cantatas. Todos os dias, passava uma ou duas horas, antes do almoço escutando seus cantores e cantoras preferidos do repertório operístico especialmente italiano, deixando de lado os alemães. No fim da tarde e à noite repetia o programa. Não apreciava o canto coral e menos ainda corais de vozes brancas, isto é, corais de crianças e adolescentes. Aliás, sua paciência com crianças e adolescentes era bastante limitada. Para ser seu amigo, ser adulto era condição.

Pe. Henrique era generoso na doação do tempo para os outros: recebia visitas com toda a disponibilidade possível. A amizade ou não-amizade era outra característica: era fiel aos amigos, atencioso, gentil, mas, se alguém caísse em seu desgosto, era nó cego: dizia que rezava a Missa de sétimo dia e apagava a memória da pessoa, mesmo que ocupasse um lugar à sua frente à mesa. Atribuía a atitude ao sangue judeu.

Pe. Vitor Galdino Feller, diretor do Instituto Teológico de Santa Catarina, recorda que “no leito de morte contava piadas, sobretudo de judeus. Ao visitá-lo algumas vezes, no hospital, saíamos rindo. Chamava-me por “senhor” quando tratava comigo como diretor do ITESC, mas terminado o assunto, às vezes na mesma conversa,  mudava para “você”, quando eu não era mais o diretor e me tornava um padre como ele. Certa vez me dei conta dessa mudança de tratamento e perguntei-lhe o porquê. Respondeu-me que sempre me tratara de “senhor” por respeito à autoridade e de “você” pela igual condição de padre”.

Não participava dos encontros do Clero e dos Retiros, o que não o impedia de ensinar que o Direito canônico prescrevia o Retiro anual. A estima por ele era geral: uma figura característica, andando com passos rápidos, sempre carregando sua pasta, despertava simpatia.

Em 1995, faleceu em São José Hercílio Henrique, seu pai. Extremamente apegado à mãe – e sabemos que mãe judia é superprotetora – trouxe-a para residir no Arcebispado, o que não foi muito prático. Dom Eusébio Scheid, novo arcebispo, providenciou-lhes uma outra residência.

Para surpresa de todos, em julho de 1997 Pe. Henrique teve uma rápida e estranha perda de peso. Nenhum exame indicava qualquer doença. Meses depois, para tirar qualquer dúvida, as Irmãs da Divina Providência levaram-no para o Hospital de Tubarão a fim de submetê-lo a todos os exames possíveis. Novamente, nada. Lembro-me de levá-lo ao ITESC em meados de outubro e ele, tranqüilo, relatou seu bom estado de saúde. Num desses imprevistos, na quinta-feira da mesma semana foi internado no Hospital dos Servidores onde foi diagnosticado câncer maligno, já com metástase. Não voltou mais para casa.

Um mal oculto e galopante o prostrou e, não consciente da doença, faleceu em Florianópolis em 19 de dezembro de 1997. O velório foi na Igreja da Imaculada Conceição, com o sentimento pesaroso de muitos dos seus amigos. Foi sepultado no Cemitério da Irmandade de Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos, em São José, onde repousava seu pai. Dona Ismênia, sua mãe, foi residir em Lages, falecendo em 2004. Seus restos mortais foram depositados no mesmo túmulo do filho.

Pe. Henrique foi chamado por Deus após ter vivido 55 anos, dos quais 22 como fiel sacerdote da Igreja.

Pe. José Artulino Besen

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