1. A hora da provação

Aqueles que conhecem Deus estão revestidos de todo bom sentimento e, desejosos das coisas celestes, desprezam as realidades dessa vida. Eles não agradam a muitos, nem a muitos procuram agradar e, desse modo, não só são odiados como também são ridicularizados por muitos insensatos. Esses, na sua pobreza, aceitam a tudo suportar, sabendo que aquilo que à maioria é visto como um mal, para eles é um bem. Quem compreende as coisas celestes, crê em Deus e reconhece que todas as criaturas são obra da sua vontade. Quem, ao contrário, não compreende, não acredita que o mundo é obra de Deus e foi feito para a salvação do homem.

Antônio o Grande,
Exortações 53

Aquele que crê em Cristo no que se refere à retribuição, suporta toda injustiça com boa disposição, na medida da própria fé.

Marcos o Asceta,
A lei espiritual 44

Reza, para que a tentação não te alcance (cf. Mt 6,13). Mas, se vier, acolhe-a como tua, e não como estranha.

Marcos o Asceta,
A lei espiritual 164

Quem diz que conhece todas as artimanhas do demônio, nelas cai inteiro sem nem saber como.

Marcos o Asceta,
A lei espiritual 166

No tempo da tribulação estejas atento ao assalto da atração pelo prazer; o acolhemos de boa vontade, porque adoça a tribulação.

Marcos o Asceta,
A lei espiritual 175

Quem quiser vencer as tentações sem a oração e a paciência, não as afastará, mas elas, pelo contrário, o dominarão ainda mais.

Marcos o Asceta,
A lei espiritual 189

O verdadeiro conhecimento é o suportar aquilo que nos aflige e o não acusar os homens por aquilo que nos acontece.

Marcos o Asceta,
Sobre aqueles que se crêem justificados 56

Quando a tentação chega, não buscar o porquê ou por causa de quem ela veio, mas como suportá-la dando graças, sem tristeza e sem rancor.

Marcos o Asceta,
Sobre aqueles que se crêem justificados 198

Assim como a cera que não foi aquecida e amaciada não pode receber o sigilo que nela é impresso, assim também o homem, se não foi provado pelas fadigas e fraquezas, não pode receber o sigilo da virtude de Deus. Por isso, o Senhor disse ao divino Paulo: Basta-te a minha graça, pois o meu poder se mostra na fraqueza (2Cor 12,9a). O mesmo Apóstolo se gloria, dizendo: De boa vontade me gloriarei das minhas fraquezas, para que em mim habite a potência de Cristo (2Cor 12, 9b). Também nos Provérbios está escrito: O Senhor corrige aquele que ama, açoita todo filho que acolhe (Pr 3,12). E o Apóstolo chama de fraquezas os assaltos dos inimigos da cruz (cf. Fl 3,18) que lhe atacavam continuamente e a todos os santos de então, para que não se exaltassem, como ele mesmo diz, pela superabundância das revelações (cf. 2Cor 12,7). E eles perseveravam ainda mais na perfeição através da humilhação, santamente guardando o dom divino em meio a um contínuo desprezo. Então, de fato, como os corpos dos santos que lutavam contra o pecado eram entregues a suplícios mortais e a outras tribulações, estavam eles muito acima das paixões que assaltaram a natureza humana depois do pecado; mas agora, como abunda a paz nas igrejas, graças ao Senhor, o corpo deve ser provado por males contínuos e a alma de quem luta no combate espiritual, por maus pensamentos.

Diadoco de Foticéia,
Discurso ascético 94a.

Quando as paixões nos tiranizam e nos fazem prisioneiros, muitas vezes, desanimados, nos perguntamos por que sofremos essas coisas. É necessário saber que tais estados de prisão nos alcançam pelo fato de que nos distraímos da contemplação de Deus. Mas, se um fixa as profundidades de seu coração, sem distrações, no Senhor nosso Deus, o Salvador de todos, que é fiel, libertará essa alma de toda prisão da paixão, como diz o profeta: Sempre contemplava o Senhor diante de mim, pois ele está à minha direita para que eu não vacile (Sl 15,8). Que coisa existe de mais doce ou mais segura do que ter sempre o Senhor à direita que nos protege, nos guarda e não nos deixa vacilar? Depende de nós que isso aconteça.

Teodoro, bispo de Edessa,
Capítulos 90

Toda tentação é concedida por Deus como remédio para curar a alma do doente. Ela dá o perdão das culpas passadas, presentes e futuras. Mas, não se deve louvar nem o diabo, nem quem tenta, nem aquele que é tentado. O diabo merece ódio enquanto faz o mal, e isso não lhe desagrada. Quem tenta, merece misericórdia da parte de quem é tentado não porque age por amor, mas porque existe quem cai no jogo dele e fica oprimido. Quem é tentado, suporta as aflições por causa das próprias culpas e não pelas dos outros, de modo a merecer louvor; de fato, não é sem pecado. E mesmo que o fosse, o que é impossível, suporta pela esperança da recompensa e pelo temor dos castigos. Assim acontece com eles. Mas Deus, porque não tem necessidade de nada, é digno de receber gratidão porque suporta o diabo e a maldade humana com paciência, em troca dando todo bem, antes do pecado e depois do pecado, àqueles que se arrependem.

Pedro Damasceno,
Livro I, vol. III, p. 22b.

Não abandones o teu mosteiro no tempo da tentação, mas suporta valentemente os vagalhões dos pensamentos e, sobretudo, os da tristeza e da acídia. Desse modo, providencialmente posto à prova mediante as aflições, terás preservada a esperança em Deus. Mas, se vais embora, serás considerado imaturo, fraco e inconstante.

Máximo o Confessor,
Sobre a caridade 1,52

Os demônios, ou nos tentam por si mesmos, ou armam contra nós aqueles que não temem o Senhor: por si mesmos, quando vivemos isolados dos homens, como fizeram também com o Senhor no deserto (cf. Mt 4,1); através dos homens, quando vivemos com eles, como fizeram com o Senhor através dos fariseus (cf. Mt 16,1). Nós, porém, imitando o nosso modelo, afastaremos um e outro.

Máximo o Confessor,
Sobre a caridade 2,13

A correção através das tentações é um bastão espiritual; ela ensina a humilhar-se quem se exaltou na sua estultice.

Talássio Líbico,
Sobre a caridade 4,37

Mesmo no tempo da provocação, quem é manso não se perturba, pelo contrário, se alegra como aquele que encontrou uma ocasião para ganhar e amar a sabedoria, considerando que a tentação não lhe veio sem motivo: talvez tenha entristecido Deus ou um irmão, ou algum outro, consciente ou inconscientemente. Mas, nisso, encontra uma ocasião para fazer-se perdoar de modo que, através de sua paciência, receba o perdão de seus muitos pecados. Pois, se não paga as dívidas a seu devedor, nem mesmo o Pai lhe perdoará suas culpas (cf. Mt 6,15) e não há caminho mais breve dessa virtude, desse mandamento, para obter o perdão dos pecados. De fato, diz: “Perdoai e sereis perdoados” (cf. 6,14) e se alguém tornou-se manso pela graça do mandamento, é feito digno de conhecer e realizar obras como imitação de Cristo. Entristece-se pelo irmão que o inimigo comum tentou por causa dos seus pecados; mas, esse inimigo, tornou-se um remédio para curar sua fraqueza.

Pedro Damasceno,
Livro I, vol. III, p. 22a.

Quem quiser tornar-se imitador de Cristo para que também seja chamado filho de Deus, gerado pelo Espírito Santo, é bom que antes de qualquer outra coisa suporte com bom ânimo e com paciência as tribulações que lhe vêm, como as doenças do corpo, as ofensas da parte dos homens e as ciladas dos seres invisíveis. Deus, de fato, em seu desígnio, consente que as almas sejam provadas por diversas tribulações para que se revelem com certeza aqueles que amam sinceramente o Senhor. O sinal dado pelos patriarcas e pelos profetas, pelos apóstolos, pelos mártires de todo o tempo, outro não foi que entrar pelo caminho estreito das tentações e das tribulações e, assim, serem agradáveis a Deus. Diz a Escritura: Filho, se te aproximas do Senhor, prepara a tua alma para a tentação, conserva reto o teu coração e sê forte (Sir 2,1-2). E noutra passagem: “Tudo aquilo que te é oferecido acolhe como coisa boa, sabendo que nada acontece sem o Senhor” (cit. não identificada). A alma que quiser agradar o Senhor, portanto, deve agarrar-se à paciência e à esperança mais do que a qualquer outra coisa, pois a arte do mal é uma só: revestir-nos de acídia no tempo da tribulação, para afastar-nos da esperança no Senhor. Mas, Deus nunca permitiu que a alma que nele espera seja vencida pelas tentações até o desespero, porque Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além de vossas forças, mas, junto com as tentações oferecerá também o caminho de saída para poder suportá-las (1Cor 10,13), diz o Apóstolo. E o malvado aflige a alma não quando quer, mas quando o Senhor lhe permite. Se os homens, de fato, não ignoram qual é o peso que uma mula, um burro, um camelo podem suportar, mas impõem a cada um o peso que podem carregar; se o ceramista sabe com exatidão por quanto tempo os vasos devem ser deixados no fogo para que não aconteça que fiquem tempo demais e se quebrem, ou, pelo contrário, se tirados antes do tempo fiquem inutilizados; se a inteligência do homem é tamanha, quanto mais, e infinitamente mais, a inteligência de Deus conhece a medida de tentação que cada alma deve carregar para ser provada e adaptada ao reino dos céus.

Macário o Egípcio,
Paráfrases 129

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