5. A inabitação de Deus no ser humano

É maravilhoso, extremamente maravilhoso que o Pai no Espírito e por meio do Verbo divino de Deus tenha criado através dele as coisas sensíveis e inteligíveis (cf. Cl 1,16) e que essa Trindade possa habitar junto, caminhar e colocar sua morada na mente do homem. É uma grande maravilha que em todo fiel verdadeiro a divindade em três pessoas envie um anjo, mas que a própria Trindade, infinitamente poderosa e vivificante, queira o bem do homem, comunique-lhe a força e a energia espiritual de Deus ultrapassa qualquer maravilha.

É verdadeiramente um milagre fora de medida que a alma possa, por graça, ser o trono, o leito, o carro de Deus infinitamente sábio e potente que tem o céu por trono; mas que a alma seja assim amada por ele a ponto de ser animada por um único sopro com ele, ter sido feita partícipe de riquezas maiores do que os céus e ver serem entregues grandes mistérios a quem poderá dignamente admirá-lo?

É coisa maravilhosa, sumamente maravilhosa que o coração possa levar o santo raio do Deus Altíssimo que domina o universo e continuamente se confie a ele! Que Deus, do externo, através das santas Escrituras, ilumine as profundidades do coração, é algo doce, muito útil, sinal de amor pelo homem e admirável, mas que ele doe-se a si em verdade, realmente, como luz ao crente, e isso dentro do coração, não fora, e sempre, não de forma passageira, isso ultrapassa toda possível maravilha e todo pensamento.

É maravilhoso, altamente maravilhoso como aquele que o serafim e todas as potências dos céus juntas carreguem com alegria e estupor, carregue-o também o coração do crente! Isso é verdadeiramente maravilhoso! Que depois não somente o coração o carregue, mas a ele se uma, forme corpo com ele, não ultrapassa todo o estupor?

Calixto Catafugiota,
Capítulos sobre a Oração 66-69

Se um, sozinho, com atenção medita sobre Deus e por assim dizer nele mora e vê claramente no Espírito que Deus caminha e mora somente nele, esse sim realizou claramente o mandamento divino do Senhor Jesus Cristo que disse: Permanecei em mim e eu em vós (Jo 15,4). Ele está unido a Deus de modo extraordinário, está admiravelmente e com muita felicidade unido à sua morte e cumpre assim com plena certeza todos os mandamentos para o Salvador. Quem permanece em mim e eu nele– disse o Salvador – esse produz muito fruto (Jo 15,5b), isso é, as virtudes.

Aquele que por amor de Deus quer progredir nas virtudes, apresse-se através da contemplação, da oração e da meditação divina, para permanecer e perseverar em Deus com todas as suas forças, de tal forma que Deus, vendo o santo combate da alma, dobre os céus – ó, maravilha! – contra toda expectativa, caminhe e more nessa alma para conceder a quem o acolhe de fruir de todo gênero de coisas boas e belas e encontrar satisfação nos santos mandamentos. É ele que disse: Sem mim nada podeis fazer(Jo 15,5c), mesmo que se pareça fazer.

Calixto Catafugiota,
Capítulos sobre a Oração 78

Desde que Cristo, a primeira e natural bondade, enviou aos divinos discípulos o dom do Espírito Santo, desde então a divina potência cobriu com sua sombra todos os crentes, veio habitar em suas mentes, e se pôs a curá-los do pecado das paixões e a libertá-los da treva e da morte. De fato, até agora a alma estava ferida, prisioneira, dominada pelas trevas do pecado. De certo modo, também agora a alma que não foi feita digna para acolher o Senhor para que more com ela, nem de ter a potência do Espirilo Santo que venha morar eficazmente nela com força e plena certeza, está ainda na treva; mas para aqueles que a graça do Espírito divino visitou e nos quais pôs sua morada – nas profundidades do seu coração -, para esses o Senhor se torna como uma alma. “Quem se une ao Senhor, diz o divino Apóstolo, é um só com ele” (cf. 1Cor 6,17); e o Senhor mesmo diz: “Como eu e tu somos uma coisa só, também eles sejam uma coisa só em nós” (cf. Jo 17,22). Quanta satisfação e quanta bondade foi dada à natureza humana assim humilhada pelo pecado!

Mas, como a alma coabitava com a perversidade das paixões, era uma coisa só com ela e mesmo que tivesse uma vontade própria, não podia fazer aquilo que acreditava, o que diz também Paulo: “Não faço aquilo que quero” (cf. Rm 7,15). Quanto mais a potência de Deus se une a uma alma santificada e digna dele, sua vontade será uma coisa só com ele. Então a alma se torna verdadeiramente como uma alma do Senhor para aquele que voluntariamente e por seu desejo é governado pela potência do Espírito bom e não vai além de sua vontade. De fato, diz a Escritura: Quem nos separará do amor de Cristo? (Rm 8,35). Isso vale para a alma unida ao Espírito Santo.

Macário o Egípcio,
Paráfrases 128

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