PE. HERMENEGILDO BORTOLATO

Pe. Hermenegildo Bortolato

SOLDADO DA PÁTRIA, SOLDADO DA IGREJA

Pe. Hermenegildo Bortolato nasceu em Veneza, Itália, em 28 de janeiro de 1904, filho de Guglielmo Bortolato e Ida Bruneta Bortolato. Foi ordenado presbítero na Ordem dos Frades Menores Capuchinhos em 19 de dezembro de 1928, com o nome religioso de Frei Apolônio de Noale. Veio para o Brasil como padre diocesano em 02 de agosto de 1952, sendo incardinado na diocese de Lages e, a partir de 1968, de Caçador.

De 1928 a 1932 esteve a serviço da edição das Obras de São Lourenço de Brindisi, em Pádua, em preparação para a declaração de Doutor da Igreja ao Santo. De 1936 a 1941 foi vigário coadjutor na Vila del Nevoso em Pirinska Bistriza, à época pertencente à Itália e hoje à Eslovênia.

Entusiasta do regime fascista de Benito Mussolini, mas, acima de tudo, um italiano da gema, apresentou-se para servir de Capelão militar na Grande Guerra de 1939-1945. De 1941 a 1943 serviu como capelão na Campanha militar na África. Sediado na Tunísia, ajudou os soldados compatriotas que lutavam junto ao Áfrika Korps, lendário batalhão alemão sob o comando do General Rommel, um dos maiores comandantes militares do século XX, apelidado de “Raposa do Deserto”. Por diversas vezes Pe. Hermenegildo esteve com ele face a face. Mas, a sorte militar coube às Tropas aliadas (Inglaterra e França) e os italianos e alemães foram derrotados, capitulando em 13 de maio de 1943.

Contrariando os Tratados internacionais, os chefes ingleses e franceses não respeitaram nem os capelães, nem os hospitais militares nem os feridos. Tudo foi bombardeado.

Apesar de Oficial, Pe. Hermenegildo foi mantido preso junto com os outros soldados, em acampamentos sem cama, sob o sol inclemente do dia e o frio intenso da noite, com escassos alimentos e pouca água. Apesar disso, Pe. Hermenegildo não desanimou: visitava os doentes ao ser-lhe permitido, celebrava a Missa nos diferentes pavilhões de doentes e soldados, pois via em cada soldado um compatriota, um italiano traído pelos acordos do Rei Humberto de Savóia e do General Badoglio, rompendo com Mussolini e aderindo aos Aliados. Doía-lhe imaginar a Pátria italiana rifada para os Aliados. À noite rezava o rosário com os soldados e puxava cantos populares italianos para reanimá-los.

Numa noite tentou a fuga, com coragem de enfrentar a pé mil quilômetros até o Saara espanhol: foi recapturado pelos ingleses e depois transferido para outro acampamento, na Argélia.

No dia 31 de julho de 1943, com oficiais e soldados foi embarcado no navio holandês Vollendam, e transferido para os campos de prisioneiros ingleses, primeiro em Londres e depois em regiões centrais da Inglaterra. Nesse mundo adverso, cheio de carências, Pe. Hermenegildo faz de tudo para que a nenhum soldado falte o conforto espiritual.

Após longo sofrimento, em 29 de julho de 1946, após três anos e dois meses de prisão, no porto de Liverpool embarca no navio militar Worchestershire rumo à Itália. Igualmente na viagem se prodigalizou no atendimento a todos. Após sete dias de viagem, em 05 de agosto de 1946 desembarcou em Nápoles, com o coração transido de dor, pois sua gloriosa pátria era terra derrotada e conquistada. Ainda era prisioneiro, e teve de aguardar o resultado de uma sindicância no Tribunal de Lecce, dando-lhe certificado de isenção de crimes militares. A carta chegou-lhe em 13 de setembro, libertando-o incondicionalmente.

Seu primeiro gesto foi ir em peregrinação ao Santuário de Pompéia e lá celebrar Missa de Ação de Graças. De 1946 a 1952 foi pároco em Leppania (hoje na Eslovênia). Passou uns meses em Mestre, perto de Veneza, para escrever seu Diário de Prisão, encerrado em 27 de agosto de 1947, afirmando que o povo inglês “é o mais pérfido, o mais brutal, o mais hipócrita que conheceu na face da terra”. Não contente com isso, escreve numa folha adicional: “A Inglaterra é verdadeiramente a inimiga capital de toda a humanidade”.

O santo vigário de Ipoméia

Vindo para o Brasil, por não suportar viver na Itália derrotada e com terras entregues ao inimigo, foi recebido na diocese de Lages. Nunca mais retornou à Itália.

De 23 de agosto de 1952 a 18 de janeiro de 1976 foi pároco de Santa Isabel, Ipoméia.

Ali, nessa pequena paróquia que hoje possui 1.900 pessoas, santificou-se e santificou um povo.

Segundo me informa o pároco atual, Pe. Fábio Farias, inicialmente visitava as comunidades a pé: algumas com a distância de 17-20 km da igreja matriz. Mais tarde adquiriu uma lambreta e depois uma Picape.

Após a Páscoa, na preparação para a Ascensão, incentivava a Procissão das Rogações, com uma comunidade visitando outra a pé e rezando as Ladainhas. A devoção ainda continua. Nela se abençoam as colheitas e expulsam as pragas. Por iniciativa do Pe. Hermenegildo, outras comunidades promoviam a Procissão de Santa Bárbara, contra as tempestades: como fruto, há mais de quarenta anos não acontece granizo, ventos ou intempéries do gênero pela região.

Sempre usando batina e grossas alpargatas, Pe. Hermenegildo não comia carne vermelha: somente peixe, ovo cru, saladas amargas, feijão e polenta já mofados. Relapso consigo, era zeloso com as coisas de Deus. Dotou a paróquia de belos objetos litúrgicos.

Sua atividade pastoral: bênção de casas, visita às famílias, aconselhamento. Na época se caçava muito, então pela madrugada celebrava a Missa com os caçadores e mais tarde com a comunidade. Conhecedor de teoria musical, organizou um grupo coral que se apresentava até nas comunidades vizinhas: entoavam a Missa IV de Jaspers, uma de Perosi, Missas de Requiem. Até hoje, no dia de sua Romaria, se entoa o Ave Maris Stella.

Preocupado com o progresso da comunidade e tendo bom conhecimento de engenharia, projetou e executou peque hidrelétricas, instalando uma no Rio do Peixe e outra no Rio Preto. Também ensinou o uso da energia hidráulica, com as rodas d’água.

Em 1975 afastou-se da Paróquia de Ipoméia por problemas de saúde, trabalhando por alguns meses na Paróquia Cristo Redentor em Caçador, e em Treze Tílias.

Faleceu no dia 28 de fevereiro de 1977, no Hospital de Rio das Antas. Deixou marcas indeléveis, sobretudo na Paróquia Santa Isabel de Ipoméia, em cuja Igreja Matriz, descansam seus restos mortais.

Quando despediu-se de Ipoméia, por motivo de doença, falou: “A minha despedida será real, mas não de coração: eu ficarei aqui”. E ali continua.

Hoje está sepultado no interior da igreja matriz. Por ocasião dos 50 anos da Paróquia em 1999, iniciou-se a sua Romaria: a pé, como o Pe. Hermenegildo gostava de fazer, o povo vem visitar seu túmulo e rezar por sua canonização. Muitas graças são alcançadas. A maior de todas, sem dúvida, é recordar um Padre apostólico, santo, amante de seu povo e de sua Igreja.

PS.: Recebi, por gentileza do Pe. Fábio Farias, pároco de Ipoméia, cópia do Diário da Prisão (Tre anni di prigionia sotto gli inglesi), escrito no calor da libertação, em 1947. É um calhamaço de 299 páginas, datilografadas em espaço 01. Oportunamente oferecerei a tradução desse precioso documento).

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  1. #1 por Francesco em 14 de outubro de 2010 - 17:29

    Sono un nipote di padre Hermenegildo e scrivo dall’italia. Grazie per quello che Lei ha scritto. Volevo sapere dove trovare altri scritti sulla vita di Hermenegildo. Grazie e buona sera.

  2. #2 por Pe. José Artulino Besen em 14 de outubro de 2010 - 23:04

    Francesco,
    è`una gioia imensa la tua nota. Grazie.
    Non ci sono scritti sulla vita di Pe. Hermenegildo.
    Soltando abbiamo il suo Diario della Guerra, dove raconta la sua sperienza della prigione in Inghilterra.
    È in italiano, 399 pagine. Lavoro nella traduzione.
    Se vuoi, puoi contatarmi nel jabesen@terra.com.br Att.
    Pe. José

  3. #3 por Francesco em 9 de janeiro de 2011 - 18:59

    Buona sera sera sono Francesco volevo sapere se aveva tradotto qualcosa sul diario di padre Hermenegildo

  4. #4 por Waldir Pedro Riedi em 15 de fevereiro de 2011 - 14:35

    Pe. Besen, conheci o Pe. Hermenegildo de Ipoméia, e fiquei muito feliz em saber que há gente se interessando pela hstória de vida deste santo Padre; e lhe digo: não vejo a hora de poder adquirir a obra sobre a vida dele, a qualquer preço. Meu pai (falecido em 2009) foi o mestre construtor da Igreja de Ipoméia, a atual. Resido em Curitiba desde 1972, nasci em Caçador, nunca mais tive a oportunidade de passar por Ipoméia, mas desejo ir na Romaria do Pe. Hermenegildo algum dia e rezar no túmulo dele. Um grande abraço ao senhor. Waldir Pedro Riedi

  5. #5 por mabel pizzichini em 4 de outubro de 2011 - 11:42

    Soy de Argentina y me encantaria conseguir la obra sobre la vida de este Presbitero, cuyo apellido es igual al de mi esposo. Agradeceria me informan si hay libro en español y como puedo conseguirlos.Gracias

    • #6 por José Artulino Besen em 8 de outubro de 2011 - 07:40

      Mabel,
      estou traduzindo o diário de prisão do Pe. Hermenegildo. Não há livros sobre ele, infelizmente.
      Grato pela leitura.
      Pe. José

  6. #7 por ronaldo_lemos2004@yahoo.com.br em 4 de fevereiro de 2014 - 12:55

    Boa tarde José Artulino Besen

    A família da minhã mãe foi criada em Ipoméia e tenho muito interesse em conhecer a experiência de vida do Pe Hermenegildo, principalmente sua experiência de Guerra. Seria possível enviar uma cópia do diário de Guerra?Tenho um amigo que pode me ajudar a traduzi-lo.Caso positivo, por favor, me envie para o e-mail ronaldoal@sanepar.com.br.

    Grato

  7. #8 por julio bragalia em 21 de agosto de 2014 - 00:12

    Fantástico trabalho!! meus parabéns

  8. #9 por Pe. José de Freitas,msfs em 28 de dezembro de 2016 - 14:38

    PadreJosé, boa tarde. Que maravilha Deus fez através desse homem honesto consigo mesmo; e o senhor está dando continuidade à obra do Senhor. Muito obrigado e parabéns. A comunidade de Ipomeia e eu ficaríamos felizes com a sua participação por ocasião da festa,às 10h, no dia 26 de fevereiro de 2017. Unidos pela Eucaristia, Pe. Jose de Freitas,msfs

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