4. Os santos

Sem a incessante recordação do Senhor e sem a pureza do coração e das suas profundidades de todo mal dele derivados, é impossível dar fruto. Sem mim nada podeis fazer (Jo 15,5c). E ainda: “Quem permanece em mim, esse produz muito fruto” (cf. Jo 15,5bc). Disso concluo que não há outra causa pela qual faltam homens que resplandeçam pela santidade na vida e depois da morte, e que sejam tão poucos os que se salvam (cf. Lc 13,23) no dia de hoje que não seja essa: que tenhamos abandonado essa obra que conduz à deificação. “Se as profundezas do coração não são deificadas, disse alguém, não é possível ao homem não só santificar-se, mas nem mesmo salvar-se”. E isso é terrível só de ouvir-se, porque é a mesma coisa ser salvos e ser deificados, segundo o que dizem os sábios segundo Deus.

Nicodemos Aguiorita,
Prólogo, vol. I, p. XXII

O amor a Deus convence quem o possui a desprezar todo prazer passageiro e toda fadiga e tristeza. Convençam-te todos os santos, que tanto sofreram por Cristo.

Máximo o Confessor,
Sobre a caridade 2,58

Se o Verbo de Deus, Filho de Deus e Pai, fez-se filho do homem e homem para fazer os homens deuses e filhos de Deus, devemos crer que nos encontraremos lá onde agora está Cristo qual cabeça de todo o corpo (cf. Col 1,18), feito por nós precursor junto ao Pai (cf. Hb 6,20) daquilo que será a nossa condição. Na reunião dos deuses, isto é, daqueles que se salvam, ele será Deus; estará no meio e distribuirá as recompensas da felicidade lá de cima, e não haverá nenhuma distância entre ele e aqueles que são dignos.

Máximo o Confessor,
Sobre a teologia 2,25

Por causa da caridade, todos os santos se opuseram ao pecado sem levar nada em conta a vida presente, e foram submetidos a diversas formas de morte para que, livres do mundo, fossem unidos a si mesmos e a Deus, e em si mesmos unificassem a natureza dividida. Essa é a verdadeira e imaculada divina sabedoria dos crentes; seu fim será o bem e a verdade, pois os sinais da caridade são o bem, isto é, o amor pelo homem, e a verdade, que é o amor de Deus na fé. A divina sabedoria une os homens a Deus e entre si e por isso traz consigo a permanência dos bens.

Máximo o Confessor,
Sobre a teologia 3,35

Todas as boas obras feitas pelos santos eram claramente dons de Deus; ninguém possui absolutamente nada a não ser o bem que lhe foi dado pelo Senhor Deus, proporcionado pela gratidão e pelo sentimento de reconhecimento, e possui somente aquilo que oferece ao Senhor de quem o recebeu.

Máximo o Confessor,
Sobre a teologia 5,29

Os santos foram bons, amigos dos homens, misericordiosos e compassivos. Estavam convencidos de dever possuir uma única disposição de ânimo nos confrontos de todo o gênero humano. Por isso, por toda sua vida conservaram firme o mais excelente de todos os bens, pretendo dizer a humildade, que guarda todos os bens e destrói o seu contrário. Não se deixaram aprisionar por nenhuma das tentações que os molestavam, quer as voluntárias e dependentes de nós, quer as involuntárias e não dependentes de nós, acalmando com o domínio de si as primeiras e afastando com a paciência os assaltos das outras.

Máximo o Confessor,
Sobre a teologia 7,92

Quanto mais alguém com seu empenho e sua fé comunicou a glória do celeste Espírito Santo e adornou sua alma com boas obras, tanto mais também seu corpo tornar-se-á digno de ser com ele glorificado naquele dia. Aquilo que agora um repôs no tesouro interior, então sairá do mesmo modo como o fruto que no inverno está dentro das árvores, na primavera sai fora, como antes se demonstrou. Nos santos, portanto, a divina imagem do Espírito, que está como que interiormente impressa já agora, torna divino e celeste também o corpo, externamente; nos ímpios e nos pecadores, pelo contrário, infelizmente o véu opaco do espírito do mundo, que envolveu a alma e tornou tenebrosa e disforme a mente com as horrendas paixões, mostrará externamente tenebroso e vergonhoso também o corpo.

Macário o Egípcio,
Paráfrases 141

 Assim são as almas dos santos: amam os inimigos mais do que a si mesmos, de tal modo que no tempo presente e no futuro em tudo preferem o próximo, mesmo que seja um inimigo com más intenções. Não procuram recompensas daqueles que a que amam, mas, como se a recebessem se alegram em dar aos outros todas as suas coisas, de modo a agradar ao Benfeitor e imitar o quanto seja possível o seu amor pelos homens, porque ele é bom com os ingratos e pecadores (cf. Lc 6,35). Quanto mais, porém, alguém foi feito digno de possuir semelhantes dons, tanto mais deve se considerar devedor em relação a Deus que o elevou da terra e fez digna a poeira de imitar o Deus que a plasmou. Suportar as injustiças com alegria, fazer o bem aos inimigos com alegria e sem malícia, dar a própria vida pelo próximo e coisas semelhantes são dons de Deus, dados àqueles que quiseram recebê-los mediante o esforço no trabalhar e no guardar (cf. Gn 2,15), como se disse de Adão, porque os dons permanecem através da gratidão para com o Benfeitor. Nós jamais possuímos nada de bom, mas todo bem nos foi dado por Deus por graça, como o ser do não ser. Diz o Apóstolo: De fato, o que tens que não tenhas recebido? – isto é, gratuitamente de Deus – e se recebeste, por que te vanglorias como se não o tivesses recebido? (1Cor 4,7) mas como se tu mesmo o tivesses feito? Isso é impossível, porque o Senhor diz: Sem mim nada podeis fazer (Jo 15,5).

Pedro Damasceno,
Livro I, vol. III, p. 85-86

Em nosso meio também hoje há homens livres das paixões e santos, cheios da luz divina, que a tal ponto libertaram os membros pertencentes à terra (cf. Col 3,5) de toda impureza e desejo passional que não só não pensam nem fazem por si mesmos algo de mal, mas nem mesmo levados a isso pelos outros, e estão submetidos à alguma mudança em seu estado de liberdade das paixões. Aqueles que os acusam de indiferença e duvidam que eles ensinam na sabedoria do Espírito as coisas de Deus, podê-los-iam reconhecer se compreendessem as palavras divinas por eles lidas e cantadas todo dia. Se tivessem recebido um conhecimento pleno da divina Escritura, acreditariam nos bens anunciados e doados por Deus. Mas, como não participam de tais bens por causa de sua presunção e negligência, não crêem naqueles que deles participam e a respeito deles ensinam.

Simeão o Novo Teólogo,
Capítulos práticos e teológicos 106

Disse o grande Basílio: “As energias de Deus descem a nós, mas sua essência permanece inacessível” (Cartas 234,I), e o divino Máximo diz que tudo quando é Deus será também aquele que é deificado pela graça, exceto a identidade de essência. Não é possível participar da essência divina nem àqueles que foram deificados pela graça divina. Mas é possível participar da energia divina: “A isso me leva o frágil raio da verdade: ver e perceber o esplendor de Deus”, diz Gregório o Teólogo (Discursos 38,2). E o esplendor de nosso Deus está sobre nós (cf. Sl 89,17), como afirma o salmista, profetizando. E que uma seja a energia de Deus e dos santos escreve-o claramente Máximo, que neles está incluído, e também diz que são imagens viventes de Cristo, ou melhor, mais do que sua imagem, a mesma coisa que ele, por graça.

Gregório Pálamas,
Cento e cinqüenta capítulos III

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