DOM WILSON LAUS SCHMIDT – MINISTRO DA CRUZ

Dom Wilson Laus Schmidt

Dom Wilson Laus Schmidt nasceu em Florianópolis SC, ilhéu da Rua dos Ilhéus, em 13 de maio de 1916, filho de Euclides Euclério Schmidt e Adelaide Laus Schmidt. Tendo perdido a mãe na primeira infância, sempre sentiu muita gratidão para com as Irmãs da Divina Providência, do Colégio Coração de Jesus. Foram suas mães na educação e na instrução. Também enorme gratidão por seu pai que, pela fé e perseverança, educou os filhos para a vida e para a fé. Expressando essa gratidão, quis ser sepultado na mesma sepultura do pai.

Wilson integrou a primeira turma que iniciou o Seminário de Azambuja em 1927, conduzida pela severidade amorosa de Pe. Jaime de Barros Câmara. Foi ordenado padre na Catedral de Florianópolis em 31 de dezembro de 1939, sendo seus colegas de curso os Padres Augusto Zucco, João Philippi e Gregório Locks.

Em 1940 foi vigário paroquial da Catedral, escrivão da Cúria Metropolitana e Capelão do Abrigo de Menores.

Padre formador nos Seminários

No ano seguinte foi transferido para o Seminário Menor de Azambuja assumindo como professor e Prefeito de Estudos. Era um homem inteligente, de especial clareza mental e intelectual, o que até se revelava por sua belíssima caligrafia, conservada por toda a vida. Em 6 de julho de 1943 recebeu a provisão de vice-reitor do Seminário de Azambuja. A partir de 1944 Dom Joaquim o quis como Mestre de Cerimônias na Catedral para as grandes solenidades.

Pe. Wilson tinha idéia de formação bastante tradicional e rigorosa, no que era secundado pelo reitor Pe. Bernardo Peters e Pe. Antônio Waterkemper, Gregório Warmeling e José Locks, diretor espiritual. Criou-se divisão entre os padres e formadores e o reitor, Pe. Afonso Niehues, favorável a uma formação mais aberta, o que foi confirmado pela Exortação Apostólica Menti Nostrae de Pio XII em 1950. Dom Joaquim transferiu todo o corpo diretivo do Seminário, optando pelas linhas do novo Reitor Pe. Afonso Niehues. Foi uma transição dolorosa, mas fecunda.

Em 18 de janeiro de 1947 Pe. Wilson foi nomeado Reitor do Seminário Mínimo (Preparatório) de São Ludgero. Ali o trabalho deixou-o exausto, pois contava para todos os trabalhos apenas com o Pe. Amílcar Gabriel e o pároco Pe. José Kunz.  E eram 85 seminaristas! Ciente de seus deveres, maltratava-se pela responsabilidade administrativa, direção espiritual, magistério e auxílio paroquial. Tudo isso levou Padre Wilson a um estado de grande desgaste, ficando constantemente adoentado. Tal situação acaba atrapalhando até Irmã Leonilla, que atuava no Seminário, uma vez que ela tinha que ajudar no tratamento da saúde do padre reitor. Irmã Leonilla, uma das irmãs pioneiras provenientes da Alemanha, trabalhava há décadasem São Ludgeroe antes atuara no Hospital de Azambuja, no tempo em que ele dividia espaço com o recém-criado Seminário. Irmã Leonilla enviou uma carta ao Arcebispo, onde expôs o grave problema de falta de padres para o atendimento no Seminário.

O Arcebispo buscou atender a este apelo. Escreveu pouco tempo depois ao Padre Wilson, apresentando o nome de um padre para integrar o corpo docente do Seminário. Padre Wilson sugere outro nome, alegando que, apesar não ter problemas com o referido sacerdote, não seria ele o mais indicado para a função proposta. Para resolver a questão, no ano seguinte, 1949, seguindo seu costume Dom Joaquim transfere Padre Wilson para a paróquia de Criciúma e Padre Amílcar para a paróquia da Trindade, em Florianópolis, que na época abrangia a maior parte da Ilha. Para o cargo de reitor é nomeado Cônego Antônio Waterkemper, filho de São Ludgero, ecônomo do Seminário de Azambuja.

A provisão para Criciúma saiu em 10 de janeiro de 1949. Dedicou-se ao povo, sendo querido e respeitado pela dedicação e severidade.

Pe. Wilson gostava de trabalhar com eletricidade, melhorias e consertos de aparelhos. E foi essa a causa de um acidente que marcou-lhe a vida, fazendo-o ingressar no ministério de Cruz até seus últimos dias. Em 13 de abril de 1952, um violento choque elétrico no microfone o precipitou do púlpito contra os bancos. Inconsciente, foi internado em estado gravíssimo. A multidão se reunia ao redor do Hospital de Criciúma para saudá-lo, rezar por ele, manifestar-lhe o afeto. Recuperou-se e continuou o trabalho paroquial.

O múnus episcopal no Rio de Janeiro e Chapecó

Em 4 de fevereiro de 1956 foi nomeado pároco de Nossa Senhora de Fátima, no Estreito. Foram menos de dois anos de trabalho, pois, em 15 de setembro de 1957, foi publicada sua eleição para bispo titular de Rodosto e auxiliar do Arcebispo do Rio de Janeiro, seu antigo mestre e reitor o Cardeal Câmara.

A ordenação episcopal aconteceu em 8 de dezembro, sendo ordenando principal o Cardeal Dom Jaime de Barros Câmara e co-ordenantes Dom Joaquim Domingues de Oliveira e Dom Frei Felício César da Cunha Vasconcellos.

Dom Wilson escolheu como lema episcopal “Me oportet operari” – A mim cabe o trabalho. Humilde servidor da Igreja e de seu povo. Dom Jaime era um homem de atividade incansável, centralizador em extremo e Dom Wilson convivia ainda com outro bispo de dinamismo extraordinário, Dom Hélder Câmara. Executou com dedicação o que lhe foi confiado, especialmente como Vigário geral. O Rio de Janeiro, porém, não era o lugar mais indicado para ele, homem de saúde precária.

Para surpresa geral, em 19 maio de 1962 foi eleito 2º bispo diocesano de Chapecó, onde assumiu em 7 de setembro. A diocese era imensa: fora criada em 14 de janeiro de 1958, desmembrada das dioceses de Lages e de Palmas, PR. Tudo ali era novo: as cidades nasciam e cresciam rapidamente pela expansão das Companhias Colonizadoras que traziam numerosos colonos gaúchos. O Governo Celso Ramos buscou integrar o Oeste no Estado Catarinense criando a Secretaria do Oeste.

Até ali o povo era gaúcho e a Igreja era paranaense, de Palmas. Sentiu-se bem recebido pelo clero e não percebeu ali os “espírito novidadeiro” de outros lugares. Vivia-se uma realidade borbulhante: em outubro foi inaugurado o Concílio Ecumênico do Vaticano II, que gerava expectativas especialmente nos padres.

Em 8 de agosto de 1963 escreveu a Dom Joaquim: “Além das muitas falhas que se introduziram e se vão introduzindo na educação de nossos futuros padres, esta da DESOBEDIÊNCIA, que se apelidou de “dialogal” parece que constituirá o maior entrave ao apostolado sacerdotal futuro. Com tal denominação nada mais se pretende do que a simples e pura insubmissão”.

Foi um tempo difícil, especialmente para homens como Dom Wilson e Dom Joaquim que tinham tendência inata à conservação da tradição. Os seminaristas maiores estudavam em Viamão RS, onde as novidades se multiplicavam. Pouco depois, foram transferidos para o Rainha dos Apóstolos de Curitiba.

O humilde serviço de um bispo carregando a Cruz

O grande problema de Dom Wilson era sua saúde: como palmilhar aqueles sertões do Oeste, atender às comunidades? E como aplicar – e ao mesmo tempo disciplinar – as decisões do Concílio? Achou-se impotente para o desafio. Em 21 de janeiro de 1968 Dom Wilson enviou a Roma sua carta de renúncia, aceita em 2 de março com sua nomeação para bispo titular de Sínada da Mauritânia. Dom Wilson escolheu residir em Joinville junto ao amigo Dom Gregório Warmeling, bispo diocesano. Ao Núncio escreveu “comprometendo-se, na medida de suas forças, a realizar o verdadeiro pensamento renovador do Vaticano II”. Dom Gregório tinha mudado muito e era um empolgado homem de renovação, criatividade, entusiasmo. Não deu para Dom Wilson, que sabia se situar como hóspede.

A partir de 7 de maio de 1971 veio morar na Ilha onde nascera, residindo no Arcebispado de Florianópolis com o amigo Dom Afonso Niehues. Eram dois grandes bispos, semelhantes no caráter, na piedade, no zelo pela Igreja, e diferentes na maleabilidade frente às situações.

Na Residência episcopal Dom Wilson prestou um enorme serviço à História da Igreja: nomeado Arquivista do Arquivo histórico-eclesiástico de SC, ali, com o auxílio do Pe. Theodoro Huckelmann  empenhou-se na seleção, catalogação, datação, separação por pessoas e instituições de todos os documentos históricos. Ao mesmo tempo, outra equipe restaurou todos os Livros de Registro eclesiásticos. A partir de 1974 foi nomeado Juiz do Tribunal Eclesiástico Regional de SC.

A partir de 1973 teve início a série de cirurgias que o debilitaram progressivamente. Seu Testamento de 1º de julho de 1973 declara não possuir bens nem dívidas e o que tiver será da arquidiocese. Na mesma data, seu Testamento espiritual que é um hino de louvor à bondade Divina, declaração de fidelidade à Igreja católica, apostólica e romana. Da misericórdia divina aceita todos os acidentes e conseqüências, que ofereceu e oferece ao Corpo Místico de Cristo. Cita suas devoções: Nossa Senhora, São José e São Paulo. “Pai, em tuas mãos entrego minha vida”.

Com força iam chegando as conseqüências do acidente em Criciúma e, mais do que antes, seu ministério foi acompanhado pela CRUZ de uma saúde precária. Submeteu-se a 22 grandes cirurgias, além de inúmeros outros tratamentos por vezes muito incômodos. Nada o fez desanimar.

Seu ministério sacerdotal e o múnus episcopal sempre foram marcados por um profundo amor à Liturgia, uma fidelidade firme e incondicional à Igreja católica, por uma obediência constante ao Magistério.

Dom Wilson, de caráter forte, foi um homem fiel à Igreja. Grande amigo dos doentes, aos quais visitava diariamente quando sabia estarem em final de vida, especialmente se fossem religiosos. Mesmo passando por tantas cirurgias, nunca perdeu o gosto pelo trabalho e pelo apostolado. Se fosse informado de um doente “revoltado”, lá ia Dom Wilson, ao volante de seu fusquinha, dia por dia, consolar a pessoa, manifestar-lhe o amor de Deus.

Muito ajudou Pe. Francisco Bianchini no Movimento Emaús e Pe. Pedro Martendal no Movimento Pólen. Era conservador, mas não saudosista, aceitando por obediência determinadas expressões pós-conciliares, pois tendia para a ordem e a obediência. Usou sempre singela batina, mas nenhum sinal de sua dignidade episcopal.

Por 36 anos (1947-1982) foi rádio amador: PP5RU, OPERADOR WILSON, QRT, muito amado e querido pelos companheiros.

Cirurgia após cirurgia, a Irmã Morte foi se aproximando e o colheu em Florianópolis, em 8 de maio de 1982 (na semana seguinte a arquidiocese perdia o Pe. Paulo Bratti, jovem de 46 anos!). Foi sepultado junto a seu pai, no Itacorubi. Há poucos anos Dom Manoel João Francisco transportou seus restos mortais para a Catedral de Chapecó. Dom Wilson Laus Schmidt viveu 66 anos, dos quais 18 como presbítero e 25 como bispo. Aceitou o Me Oportet operari, seu lema, carregando a Cruz e ajudando tantos a carregarem a sua.

Pe. José Artulino Besen

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  1. #1 por Ademar Arcângelo Cirimbelli em 15 de maio de 2016 - 09:29

    Padre José, tomamos a liberdade de compartilhar a matéria com amigos de facebook! Obrigado pelo expressivo artigo sobre este ilhéu, Dom Wilson Laus Schmidt.

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