PADRE ALFREDO JUNKES

Discípulo do Bom Pastor

Padre Alfredo Junkes

Padre Alfredo Junkes

No dia 18 de dezembro de 1936 na igreja de Forquilhinha celebrava-se a Missa exequial do Pe. Félix Mrugalla. Originário de Dresden, onde nascera em 1900, tinha chegado em Forquilhinha dois meses antes, acompanhando uma leva de imigrantes. Pequeno ferimento provocou tétano e ceifou esse homem, esperança dos colonos católicos para o atendimento religioso. Em meio à consternação, o padre perguntou às crianças e jovens presentes à Missa: “E agora, quem de vocês vai ocupar o lugar do Pe. Mrugalla?”. Em silêncio, um jovem respondeu para si mesmo: “Eu!”.

Era Alfredo Junkes, nascido ali mesmo em 18 de janeiro de 1923, filho de David Wendelino Junkes e Hedwiges Borgert . Doze anos depois foi ordenado presbítero em Forquilhinha, em 23 de janeiro de 1949. Teve mais dois irmãos padres: Bernardo e Silvestre.

Primeiros anos de ministério: professor e prefeito de estudos em Azambuja (1949-1952); de 1953-1954, vigário paroquial em Criciúma; em 1955 foi nomeado reitor do Pré-seminário de São Ludgero, onde viveu uma experiência trágica: em 10 de agosto de 1956, em plena noite, um incêndio iniciado na capela destruiu o seminário. Somente com os pijamas, os alunos saltaram pelas janelas. Grande tristeza para toda a comunidade a visão daqueles meninos espantados e sem nada.

Em 19 de março de 1957 foi nomeado reitor e professor do Seminário diocesano de Tubarão, onde permaneceu até o ano seguinte.

Com a criação da diocese de Tubarão em 1954, Dom Joaquim conseguiu que Pe. Alfredo se incardinasse em Florianópolis, carente de padres. Em 1959 começou a funcionar em Antônio Carlos o Pré-Seminário, tendo como reitor o Pe. Vito Schlickmann. A paróquia fora criada em 19 de março do ano anterior. Dom Joaquim nomeou Pe. Alfredo Junkes para a paróquia do Sagrado Coração de Jesus em 16 de fevereiro de 1959.

O início foi desalentador: numa colina, a pequena igreja matriz. Um pouco abaixo uma velha casa adquirida da família Salum, e ranchos. Materialmente quase tudo por fazer, mas com uma área de terras privilegiada. Inteligência aguda, saído de “cargos” mais elevados, Pe. Alfredo foi tomado pela decepção, indecisão. Valeu-lhe o desafio do Pe. Vito com o pedido de “mãos à obra”. E assim foi. Em breves meses Pe. Alfredo descobriu o tesouro de fé e de generosidade operosa escondidos naquele bom povo à espera de quem o chamasse ao trabalho.

Em Antônio Carlos e nas capelas do Rachadel, Santa Maria e Louro todas as famílias eram de católicos praticantes. Não havia um só casal separado ou amasiado. A catequese era muito viva em cada capela, cada uma com coral cantando em português e alemão.

Até 1965 Dom Joaquim quis tê-lo como Mestre de Cerimônias da Catedral, razão pela qual durante a Semana Santa era substituído por padres do Seminário de Azambuja.

Nas décadas de 60 e 70 Pe. Alfredo foi o grande construtor: liderando um povo bom ergueu a imponente igreja matriz sob planta de Simão Gramlich; foram construídos casa e centro paroquiais. Rachadel, Louro e Egito ergueram novas capelas. Foram fundadas as comunidades de Vila Doze e Rio Farias.

Deve-se dizer, a bem da verdade, que Pe. Alfredo não primou muito pelo bom gosto artístico nas capelas: bastava que fossem funcionais. Gostava de ler, era assinante do l’Osservatore Romano e da Revista Eclesiástica Brasileira. Acompanhando a renovação do Vaticano II, instituiu o Diaconato permanente na paróquia.

Os colonos sentiam fortemente a necessidade do padre em dois momentos: na doença grave e no falecimento. Pe. Alfredo foi incansável nesse atendimento: a pé, a cavalo, de carroça, de Jeep, de dia ou de noite, com tempo bom ou com chuva, imediatamente atendia ao chamado. Na véspera do enterro, celebrava na residência do falecido. Para todos os mortos, Missa de Corpo presente.

Conhecia cada ovelha do rebanho pelo nome e origem familiar. No final da Quaresma podia dizer: tantas pessoas não se confessaram. Ricos ou remediados, todos recebiam o mesmo tratamento.

Quando se permanece décadas numa localidade e se conhece todos, é evidente que surjam conflitos de ordem política, de liderança. Pe. Alfredo não percebera que Antônio Carlos deixara de ser distrito, passara a município e muitos de seus filhos receberam diploma universitário. Homem culto, inteligente, atualizado, não conseguiu ser moderno na atuação pastoral e comunitária. Afirmava que ninguém nunca soube em quem votava, porém se sabia claramente em quem não votava. Mas, e isso é o importante, sempre foi pastor, zeloso pastor.

Nos últimos anos de vida foi colhido pelo sofrimento: coração, rins, depressão, a um só tempo. Em 1993 deixou o ofício de pároco. Permanecia ligado à vida paroquial e interessado nas notícias. Após longo sofrimento, suportado com fé, faleceu em 29 de outubro de 2002, estando sepultado na terra que adotou como sua por 44 anos.

  1. #1 por Jorge Daros em 28 de março de 2010 - 11:26

    Pe. José, estou lendo suas biografias de padres de Santa Catarina. Muito bonitas e um resgate histórico importante.
    Como nada é perfeito, apenas quero lhe fazer uma observação quando fala do Pe. Alfredo Junkes. Chegarei ao ponto, mas antes quero lhe dizer que ele foi vizinho de meus avós paternos, foi para a escola com meu pai. Ele e os irmãos padres. Quando fui para o Seminário de São Ludgero em 1955 ele era o reitor. Lembro bem que papai me disse: “Quando chegares no Seminário diz para o Pe. Alfredo que tu és filho do Antônio Daros”. Fiquei lá um ano sem ver um parente sequer. Padre Alfredo mostrou que o conhecia de quando pequeno, na escola, o filho do Domingos Daros, seu vizinho. (ainda que vizinho, naquele tempo, ficava a dois quilômetros de distância…). No ano seguinte 1956 – 10 de agosto – 22:00h – incêndio no Seminário. Eu estava lá, dormindo como todos os outros. Fomos acordados pelo Júlio Wesler, sobrinho do Pe. Alfredo, hoje um belo leigo católico e empresário de Criciúma. Descemos correndo pelas escadarias de madeira. Enquanto aterrorizados olhávamos, do pátio, as chamas saindo pelas janelas e a noite escura sendo iluminada, disse ao Júlio: Será que não ficou ninguém no dormitório? Sem mais, subimos nós dois, correndo, já no meio da fumaça. Um menino dormia a sono solto. Era o Otávio Crozetta de Orleans. Acordamo-lo aos gritos e corremos quase sufocados. Salvamos um colega de se transformar em carvão, como nossos livros, camas, sapatos, cadernos, roupas, lápis etc… Só gostaria de dizer que ninguém pulou as janelas, até porque era impossível, foi pela escada mesmo e saimos pela porta do lado dos campos, por onde normalmente saíamos para o recreio, trabalhos etc. Um fato pela janela: Na sala de visitas estava um enorme quadro do arcebispo D. Joaquim. Um policial, não sei de onde veio, pulou a janela cujo parapeito era alto quase dois metros, retirou o quadro e o salvou pulando de volta. Quase sobre-humano.
    Aquela noite está na minha memória com todos os detalhes. Coisa incrível, padre José. Bem, mas a história é longa.
    Não é das cinzas que surgem muitas coisas boas?
    Um grande abraço e muitas felicidades.
    Jorge Daros.

  2. #2 por AVELINO JUNKES em 27 de março de 2013 - 20:24

    Sou Avelino Junkes filho de Louro. Quero agradecer o querido Padre Alfredo por ter cuidado tão bem do nosso povo. Que ele agora descanse na luz e na paz do Criador. Amém.

  3. #3 por Maria Rosa Fonseca Rodrigues em 20 de maio de 2015 - 09:16

    Que historia bonita!
    Que sua alma descansa em paz. Amem.

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