PADRE NEY BRASIL PEREIRA (1930-2017)

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Tempo atrás, Pe. Ney me perguntou quando escreveria sobre ele. Respondi: quando o senhor morrer!

Infelizmente esse dia chegou, em 4 de janeiro de 2017, quando ele tinha completado 86 anos. Uma vida longa, sem dúvida, mas que ainda poderia oferecer muito. Neste ano, convidou-me a fazer a homilia de seus 60 anos de Sacerdócio, o que entendi como honra e como retribuição ao convite que lhe fizera para pregar em minha Primeira Missa, há 40 anos. Devo muito ao Pe. Ney: ele perpassou minha formação humana, intelectual e sacerdotal. Foi sempre a presença positiva e compreensiva em que me espelhava. Hoje, como despedida, ofereço esse breve e pobre texto para que mais pessoas possam conhecer o Pe. Ney Brasil Pereira e agradecer a Deus por esse sacerdote que honrou o clero brasileiro e, especialmente, o clero da Arquidiocese de Florianópolis. 

A terra e a família

Ney Brasil Pereira nasceu em São Francisco do Sul, ilha, porto, aos 04 de dezembro de 1930, numa rua frente ao mar, à baía Babitonga. Não gostava do seu nome, de um desconhecido herói militar francês da era napoleônica, o Marechal Ney, até o dia em que descobriu que “ney” é a forma dialetal do alemão “neu”, “novo”: então gostou. E o “Brasil”, que as pessoas pensam ser nome de família, é um segundo nome próprio. Talvez pelo motivo de ter nascido no final de 1930, pouco depois da revolução que levou Getúlio Vargas ao poder: seu pai teria querido com isso, talvez, demonstrar seu patriotismo.

Uma família de seis irmãos, sendo Ney Brasil o quarto da escadinha: Hélio Milton Pereira, Jarbas Pedro Pereira, Hélcio Ivo Pereira, Ney Brasil, Ophelia Ivonne Pereira, Jocélia Marília Pereira. Como se pode ver, todos com dois nomes, provavelmente resultado do acerto entre pai e mãe.

Houve diversas mudanças de casa. Uma delas era bem perto da Matriz de Nossa Senhora da Graça, aonde gostava de ir, ajoelhando-se na ponta do primeiro banco à direita, frente à imagem do Coração de Jesus. Gostava das novenas à noite, do canto das filhas de Maria ao som do harmônio, da voz sonora do vigário, Frei Patrício. À boca pequena comentava-se que ele cantava também, e bem.

A escola que freqüentou foi o Colégio “Stella Matutina”, das Irmãs da Divina Providência, onde cursou o primeiro e segundo ano primários, aí alfabetizando-se com a Irmã Bernadeta. Apreciava os puxa-puxas gostosos que a Irmã da cozinha fazia e lhes vendia. Em casa, muito cedo, perdeu a companhia da mãe, que, doente, teve de internar-se, pouco depois da sexta gravidez, uma filha. Seu pai valeu-se da ajuda de uma de suas irmãs, a tia Lulu, para a educação dos seis filhos. A última residência em São Francisco foi o andar térreo do casarão dos Görresen, na “praia do Mota”, junto ao mar. Ali moravam com essa tia. Foram marcantes a catequese na Matriz com o Frei Patrício, as “projeções” com figuras da “História Sagrada”, a primeira comunhão nos seus 7 anos e meio de idade, as procissões, as novenas… fascinava-o tudo o que era da Igreja.

Uma palavra sobre os pais de Ney Brasil: Antônio Pedro Pereira, filho de pescador, funcionário da Alfândega do porto de São Francisco do Sul, e Maria da Graça Parreira Pereira, do lar, com o nome da Padroeira da cidade, Nossa Senhora da Graça, a quem ela chamava de “minha madrinha”.

O pai deixou-lhe a imagem do homem forte, retilíneo, de honestidade a toda prova, falante, ativo, líder por natureza, homem de fé, provado nos últimos três anos de vida por um câncer que o foi derrubando e destruindo fisicamente devagar, de modo cruel, e que ele suportou com paciência heróica. Já acamado, deixou o filho padre partir para especialização nos Estudos Unidos em agosto de 1962 e esperou pela sua volta. Reviu-o ainda com vida e o assistiu em seu leito de morte, no Hospital de Caridade, aos 29 de julho de 1963. Ele tinha 65 anos de idade.

Sua mãe, Maria da Graça Parreira, foi uma mulher sofredora, que passou quase a metade da vida em hospitais, afastada dos filhos, de quem sentia muita falta. Pelo menos seus últimos anos foram mais tranqüilos, tendo ela vindo para a casa de um dos filhos, onde veio a falecer repentinamente, em 7 de dezembro de 1971, aos 71 anos de idade. Ney Brasil se encontrava ausente, em Roma, cursando o Pontifício Instituto Bíblico. Guarda com carinho as palavras – da sabedoria e piedade popular – que ela, apesar de tudo o que sofreu, escrevera num bilhete: Deus tem mais para dar do que tem dado.

De São Francisco a Florianópolis

Em agosto de 1939, antes de completar seus 9 anos, o pai Antônio Pedro decidiu mudar-se para a capital. Conseguiu ser nomeado para a mesma repartição federal: a guarda-moria da Alfândega. Veio para dar oportunidade de estudo aos filhos, dos quais o mais velho, Hélio Milton, chegara antes e já estava matriculado no Colégio Catarinense. Vieram, com a mudança, de navio, só o pai e os quatro irmãos: as duas irmãs, ainda muito pequenas, ficaram com a tia. O navio era o transporte melhor e “mais rápido”, naquele tempo: a distância que hoje se perfaz em pouco mais de três horas de carro, naquele tempo foram três dias. Na lembrança da chegada em Florianópolis, ficou a imagem do navio passando por baixo da ponte Hercílio Luz, para atracar no trapiche da “Rita Maria”.

Moraram primeiro na rua “Uruguai”, hoje “Herrmann Blumenau”, mudando-se depois para a rua “Joinville”, hoje “Dom Jaime Câmara”. Logo Ney começou a freqüentar a Catedral, e a participar da catequese de perseverança. Foi matriculado no Grupo Escolar Lauro Müller, onde teve excelentes professoras, entre as quais recordava Dona Emília Boos. Aí completou o curso primário e recebeu também seu primeiro prêmio: um livro, “Infâncias Célebres”, doado por um ex-aluno, agora Oficial da Marinha, que desejava premiar o “melhor aluno” do terceiro ano primário. Aí também participou, com entusiasmo, dos ensaios de “canto orfeônico”, ministrados, se não lhe enganava a memória, por Heitor Villa Lobos, que naquela época reunia centenas de escolares nas praças, para cantar. Lembrava-se do embevecimento com que via o Maestro, tocando o piano com a mão direita, enquanto com a esquerda os regia. Dessa época recorda também das visitas à Biblioteca Pública, onde se encantou com a leitura da “História maravilhosa de Joana d’Arc”, de Érico Veríssimo, sua Santa do coração.

Na Catedral, além da catequese, logo que pôde ingressou no grupo dos coroinhas. Sua voz de soprano chamou a atenção do Cura, Mons. Harry Bauer, que pessoalmente começou a ensaiar com ele, no novo piano Essenfelder do salão paroquial – o mesmo que lá ainda se encontra, e ainda em uso – o solo “O Saboiano”. Este solo, cujos ensaios foram depois ultimados pelo organista da Catedral, Giovanni Faraco, foi por ele apresentado em público mais vezes.

Nesse meio tempo, as coisas foram-se encaminhando para o Seminário, sonho da infância. Em 1941, seu pai levou-o a acompanhá-lo na peregrinação a Azambuja, na festa de 15 de agosto. Ficou encantado com o canto do coro dos seminaristas, que se ouvia nas abóbadas recém-levantadas do novo Santuário, ainda encobrindo as paredes do antigo.

Vem e segue-me! Ingresso no Seminário

Desde que se conheceu por gente, Ney Brasil quis ser padre. Nascido numa paróquia de franciscanos, em São Francisco do Sul, nunca se imaginou frade, e sim padre. Em Florianópolis, a participação no grupo dos coroinhas certamente facilitou a ida para o Seminário em Azambuja. Também a “Obra das Vocações Sacerdotais”, que naquele tempo angariava fundos para o Seminário, encarregando-se de pagar a pensão, possibilitou a matrícula em 1942. Seu pai assumiu as outras despesas.

Tendo feito um bom curso primário, foi matriculado logo no 1º ano ginasial, não precisando cursar o “preliminar”. Eram cerca de 40 alunos no primeiro ano, entre os quais, já com seus 20 anos, o Pe. Raul de Souza. Do mesmo curso, Vito (bispo auxiliar emérito de Florianópolis) e Bertolino Schlickmann (+), Gilberto Gonzaga (deixou o ministério), Antônio Guglielmi (arqueólogo e biblista, falecido). Reitor, na época, o Cônego Bernardo Peters. Prefeito de disciplina, Pe. Afonso Niehues. Regente do Coral, Pe. Luiz Cordiolli, que logo descobriu sua boa voz de soprano e lhe confiava os solos. Mas só no final do 1º ano é que teve a oportunidade de começar a estudar harmônio, com a ajuda do organista Hercílio Cappeller. Escusado é dizer que o Coral e o harmônio foram suas atividades prediletas, embora o acesso ao harmônio fosse bastante restrito, pela disciplina de então.

O Seminário de Azambuja, fundado em 1927, respirava o espírito de Dom Jaime Câmara, seu primeiro Reitor. Era uma instituição séria, disciplinada, de grande vitalidade. Amoldou-se sem dificuldade ao estilo das prescrições detalhadas, das atividades contadas em minutos. Exemplo disso era o horário de cada manhã: levantando-se às 5.00h nos dormitórios comuns, 15 minutos depois estavam todos nas salas de estudo para a “leitura espiritual” enquanto se ia aos banheiros, e já às 5.30 estavam na Capela para a oração da manhã em comum e, logo, a “meditação” (durante a qual, claro, vinha o sono nos meninos e adolescentes mal acostumados a pensar e muito menos a “meditar”!), seguindo-se a Missa às 6.00h, ginástica ou solfejo às 6.45, às 7.00h café… e assim por diante, as atividades todas cronometradas. Muita atividade para duas horas.

Diariamente se fazia o exame de consciência, se rezava o terço, seguido de leitura da Imitação de Cristo, confissão semanal etc. As festas dos padroeiros, São Luiz (21 de junho), São João Vianney (4 de agosto), Santa Teresinha (1º de outubro), eram celebradas com fervor, sem falar do clima mariano que se respirava em todo o Vale de Azambuja. Como muitos seminaristas da antiga Azambuja, leu praticamente a cada ano a grossa biografia de São João Batista Maria Vianney, o “Cura de Ars”, do Cônego Francis Trochu, da Academia Francesa, impressionando-se com o espírito de penitência desse Santo.

Os meses de maio, junho e outubro, eram marcados pelas novenas, com Bênção do Santíssimo todas as noites. Belo o Novenário de visita ao Cemitério (localizado onde hoje se situa o estacionamento), à tardinha, depois do jantar, com cantos folclóricos, alguns a vozes, ecoando no vale após a oração. Além das colinas circundantes, eram ouvidos pelos doentes e alienados do Hospital, pelas asiladas.

Quanto aos estudos, eram também marcados pela disciplina: “temas” escritos e provinhas constantes, mesmo diárias. Esportes, no começo eram as corridas nos pátios internos, nos vários “recreios”, e o futebol no campo em cima da colina. Em 1946 escavou-se o primeiro campo de vôlei, seguindo-se outros depois. Ainda quanto à disciplina, momento semanal esperado eram os avisos e observações do Reitor, cada sábado à noite, com a declaração pública dos “pontos” perdidos em comportamento, aplicação, civilidade.

Uma instituição educacional faz-se com disciplina, sim, mas essa só tem efeito com bons formadores e professores. Deles, Pe. Ney Brasil recorda Cônego Bernardo Peters, que tinha excelente método para o ensino do latim e, a seguir, do grego. Pe. Gregório Warmeling, depois Bispo de Joinville, entusiasmava para o estudo da história e, igualmente, da música. Promovia, nas tardes de sábado, as audições musicais dos clássicos, na época em discos de vinil-78 rotações, audições comentadas, introduzindo os seminaristas nas sinfonias de Beethoven e no “Tannhäuser” de Wagner. Como professor, anos depois, Pe. Ney promovia as mesmas audições também aos sábados à tarde, pois em Azambuja o que dava certo não se mudava nas décadas seguintes.

Pe. Wilson Laus Schmidt, depois Bispo, entusiasmava-os para o teatro, a retórica, o cultivo da escrita. No último ano do Seminário Menor, ainda, outros excelentes professores: Pe. Raulino Reitz, botânico, o “padre dos gravatás”; Mons. José Locks, latinista e helenista; Pe. Afonso Niehues, depois Arcebispo; Pe. Valentim Loch, límpido nas suas aulas de álgebra e trigonometria.

Em 1951, com a promessa de cursar a Teologia em Roma, Ney Brasil voltou de São Leopoldo a Azambuja, para lecionar. Nas mesmas condições veio o Gilberto Gonzaga. Na época, já se encontravam em Roma, estudando, Osni Rosenbrock, Antônio Guglielmi, e Osmar Müller, da Arquidiocese.

Em Azambuja, foram quase dois anos de intenso trabalho: aulas de línguas, história, e música, além de coordenar o coral (junto com Pe. Valentim Loch), o teatro e outras atividades internas. Em 1952, a preparação e realização dos festejos do Jubileu de Prata do Seminário, festejos que incluíram uma Missa solene a 5 vozes, “em honra de N.Sra. de Azambuja”, que compôs para a oportunidade. Ensaiou e apresentou também a opereta “Sonho Lindo”, com texto do Pe. Tarcísio Marchiori, sintetizando a história do Vale. O Jubileu, celebrado em maio, contou com a presença dos ex-alunos ordenados, já em bom número.

Pe. Ney Brasil – poliglota

Além de seu reconhecido domínio da língua portuguesa, Pe. Ney dominava ou conhecia outras. Fundamentalmente, o aprendizado foi no Seminário Menor de Azambuja. Naquele tempo, terminavam o Seminário Menor com excelente conhecimento do latim, que era uma disciplina diária, durante seis anos, bom conhecimento do grego, que os habilitava à leitura do texto do Novo Testamento, bom conhecimento do francês, que os habilitava à leitura e à escrita nessa língua, além de boa introdução ao inglês e ao italiano, e uma rápida introdução ao alemão.

Quanto ao alemão, ela antes fazia parte do currículo, tendo sido supressa em 1942, ano em que o Brasil entrou na guerra, ano também do seu ingresso no Seminário. Indo duas vezes estudar na Europa, foi normal o aperfeiçoamento no italiano, no inglês e francês e, depois, no alemão. Nesta língua, conseguiu certa habilitação para a leitura, tendo dificuldade na escrita e na conversação. Quanto ao hebraico, foi aprendido com muito esforço no período em que cursou o Instituto Bíblico de Roma. Ainda quanto às línguas, muito contribuiu o fato de tê-las ensinado nos anos em que foi professor em Azambuja. E no que se refere ao inglês, evidentemente ajudou-o o período que passou nos Estados Unidos, entre 1962 e 63. Pe. Siro Manoel de Oliveira escutou um padre francês comentar que o francês do Pe. Ney Brasil era “presque parfait”, quase perfeito, coisa rara nos autossuficientes franceses!

Musicista e compositor

¨0 anos de música do Maestro Pe. Ney Brasil (01 de março de 2016)

60 anos de música do Maestro Pe. Ney Brasil (01 de março de 2016)

Destacando-se entre os mais bem preparados compositores sacros do Brasil, Ney Brasil não se considerava precoce. Lembrava que, pequeno ainda, em São Francisco do Sul, gostava de cantar e gostava de ouvir cantar, especialmente os cantos de Igreja. Lembra que, ao passar pelas ruas e ao ouvir alguém tocando piano, nalguma casa, sonhava em tocar também.

Este sonho só veio a realizar-se no Seminário, quando começou a aprender harmônio no final do seu primeiro ano em Azambuja, perto dos 12 anos de idade. Tinham uma aula semanal de teoria musical, além dos ensaios do coro e dos ensaios de canto gregoriano. Marcou-o como mestre e regente do coro o Pe. Gregório Warmeling, cuja voz poderosa de barítono admirava. Lembra-se que um dia, em 1944, pelos seus 13 anos, rascunhando uma melodia, um “Juravit”, e anotando que era “minha composição”, Pe. Gregório viu e observou-lhe que aquela melodia ele já conhecia havia tempo… .

Em 1945, devendo assumir como organista ainda sem qualificação suficiente, num ensaio, Pe. Gregório mandou-o, de repente, tocar em quatro sustenidos uma partitura escrita em três bemóis… Foi um teste difícil (a que mais tarde ele próprio submeteu outros organistas do Seminário, com martírio maior, exigindo o toque um tom acima!), mas que o fez deslanchar.

A “primeira” composição, parece ter sido o “Hino da Academia”, que depois tornou-se “Hino do GEMCO” (Grêmio Estudantil Monsenhor Cordiolli), com letra de Tarcísio Marchiori, de 1947, último ano no Seminário Menor.

Filosofia em São Leopoldo

Seguindo o itinerário normal da formação sacerdotal, concluídos os estudos em Azambuja, seguiu para a gaúcha São Leopoldo. Foram três anos, cursando a Filosofia, em latim, com os jesuítas do então Seminário Maior Imaculada Conceição. Eram duas comunidades lado a lado, a Filosofia e a Teologia, separadas por uma rua, no centro da cidade, perto da margem do rio dos Sinos. Ao todo, cerca de 300 seminaristas, de todas as dioceses do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, com alguns até do Nordeste. Era o “Seminário Central” da época.

Na Filosofia eram uns 150. Aulas, testes e exames, tudo em latim. Recorda o elogio do Pe. Rüppel, professor de Lógica, ao seu exame escrito nessa matéria: Laudo rem et latinitatem (“Louvo o conteúdo e o latim”). A disciplina, adaptada aos “filósofos”, e a espiritualidade, eram como em Azambuja. Lembrava ainda os “pontos de meditação” dados cada noite, na Capela, pelo “Espiritual”, Pe. Oscar Müller. Bonitos os “serões marianos” no pátio, e espetaculares, musicalmente falando, as Missas solenes nas grandes festas, com grande Coro e órgão. As peças de teatro, as apresentações de Coro e Banda, eram de alto nível.

Ney Brasil lembrava-se do entusiasmo da celebração da proclamação do dogma da Assunção, em 1º de novembro do Ano Santo de 1950. Antes, em 1948, a participação no 5º Congresso Eucarístico Nacional em Porto Alegre. Um detalhe interessante: a única saída do Seminário durante a semana era a saída recreativa das quintas-feiras à tarde, quando, todos embatinados, atravessavam a cidade para dirigir-se à chácara dos Jesuítas, para cerca de duas horas de lazer. Era a ocasião em que os catarinenses do litoral aprendiam a tomar chimarrão com os gaúchos.

Ainda quanto à vida interna, era interessante a organização da “Academia”, com seus diversos setores. Candidatou-se, sem sucesso, a Presidente, devendo contentar-se com a condição de Secretário… o que já tinha acontecido, aliás, em Azambuja e que aconteceria daí em diante (só no ITESC, 33 anos!).

Na Cidade Eterna – a Roma dos Papas

A Arquidiocese de Florianópolis sempre levou a peito a manutenção de um ou mais seminaristas estudando em Roma, conforme pedido expresso da Santa Sé. Eram escolhidos dentre os que mais se destacavam nos estudos e, é claro, demonstravam interesse. Ney Brasil foi um deles.

A viagem, por mar, foi em setembro de 1952. Com ele foram, de Santa Catarina, Gilberto Gonzaga, da Arquidiocese, e Leo Orth, de Lages. Viajaram também outros seminaristas, de outros Estados, a maioria embarcando no Rio, e alguns, do Nordeste, em Salvador e no Recife. Após, a travessia do Oceano, paradas em Las Palmas (Canárias) e Barcelona, até o desembarque em Nápoles 15 dias depois. Daí, em ônibus, até Roma, no Pontifício Colégio Pio Brasileiro.

A oportunidade de cursar a Teologia em Roma foi mais uma dessas graças, privilégios, que recebeu em sua vida. Foi de setembro de 1952 até julho de 1956, prolongando-se a permanência na Europa até outubro. No Pio Brasileiro eram pouco mais de 100 seminaristas cursando a graduação, uns poucos ordenados fazendo doutoramento. A característica do Pio é a dos outros colégios nacionais que existem em Roma: dentro é Brasil, a língua e costumes pátrios, e fora se está na capital da Itália, junto ao Vaticano, em ambiente cosmopolita.

Dirigido então por Jesuítas, o Pio Brasileiro apresentava as características de disciplina e espiritualidade que vigoravam, por exemplo, em São Leopoldo. Assim, os “pontos de meditação” à noite, as conferências espirituais, a direção espiritual. Naquela época a capela interna era relativamente acanhada, ocupando um dos andares do prédio. Mas a liturgia em latim, por exemplo, na noite de Natal, com Matinas antes da Missa da meia-noite e Laudes depois, tudo cantado em latim, era uma beleza! Isto, sem falar da possibilidade de participar das cerimônias na basílica de São Pedro ou em outras basílicas.

Quanto aos colegas, além dos do Pio Brasileiro, de vários Estados do país, entabulavam amizade com colegas de outros países, inclusive com o intuito interesseiro de treinar na língua deles. Assim foi que se encontrava regularmente com dois colegas americanos (um deles o hoje emérito Cardeal William H. Keeler, de Baltimore, um inglês, um irlandês, e dois franceses, com os quais manteve correspondência anual.

Da Gregoriana, a lembrança de uma universidade cosmopolita, com aquela sede solene, as aulas ministradas em estilo conferência, em grandes auditórios, professores lendo e/ou comentando suas teses em latim, um latim às vezes afrancesado, espanholado, americanizado, conforme o professor. Deles, guardou a melhor lembrança do professor de História da Igreja Antiga, Ludwig Hertling, um alemão que sabia esculpir, com traços indeléveis, as figuras dos grandes vultos do passado.

No Vaticano, atraía-o a Basílica, especialmente no dia de São Pedro. Permanecia horas absorvendo aquele ambiente, e gostava de ajoelhar-se junto ao altar da Confissão de Pedro, para recitar o Credo apostólico. O Papa na época, Pio XII, hierático nas suas aparições em público, dando a bênção com os braços amplamente levantados, era uma das três devoções brancas dos católicos: a Hóstia, Maria, o Papa.

Quanto à música, Roma não ajudou muito. A atenção estava voltada para a Teologia e o horário, na época, não permitia sair para Concertos, muito menos à Ópera. Mas continuou atuando como organista e lembrava-se de que, nas Ordenações, compunha trios a vozes iguais que cantava com Narbal Stencel, do Rio, tenor, e Olavo Moesch, gaúcho, barítono. Cantavam muito gregoriano. Participou com entusiasmo, certa vez, de um Congresso de Meninos Cantores, cantando com eles na Basílica de São Pedro, sob a regência de Mons. Maillet. Era fantástico cantar aquele repertório de Bach, Haendel, Josquin des Prés, Perosi, sob as arcadas e a cúpula da Basílica!

Os estudantes catarinenses em Roma mantinham um contato epistolar maior com o Arcebispo Dom Joaquim Domingues de Oliveira, que gostava de fazer perguntas de arqueologia e história, sugerir visitas e leituras. Ney Brasil vivia um relacionamento muito respeitoso, e Dom Joaquim correspondia com afeto paterno. Dom Joaquim foi daqueles bispos que marcaram a primeira metade do século XX: cioso da sua autoridade, ele se impunha pela dignidade com que revestia seus gestos. Os padres da época eram formados na obediência, a qual se manifestava nos momentos de transferência e, mesmo, nas datas das ordenações, comunicadas tantas vezes por correspondência, sem muito diálogo. Dom Joaquim, aliás, sagrado bispo muito jovem, veio para Florianópolis em 1914, aqui tornando-se Arcebispo em 1927, e falecendo como Arcebispo Metropolitano em 1967, após 53 anos de episcopado, todo passado aqui. Dois anos antes, em 1965, ele entregara a administração da Arquidiocese a Dom Afonso Niehues, a quem tinha ordenado presbítero em 1938. Um detalhe interessante o aproximava de Dom Joaquim: a data de aniversário era a mesma, 4 de dezembro. Ney Brasil recordava que, na carta a ele pouco antes de sua ordenação, comprometia-se a ser, como dizia o Ritual, um dos cooperatores Ordinis nostri

Subindo os degraus do altar

Antes ainda das “ordens menores”, grande importância dava-se, na época, à vestição da batina. Era a cerimônia que coroava o Seminário Menor, e era preparada como se fosse uma ordenação, com retiro espiritual de três dias e tudo. A partir daí o seminarista Ney Brasil, com seus 17 anos, começava a usar a batina de manhã à noite, em casa ou na rua, no trabalho e na viagem… por toda parte! Quanto à Tonsura, que era a admissão ao estado clerical, recebeu-a em São Pedro de Alcântara, aos 28 de janeiro de 1951. As ordens menores foram recebidas em Roma, nos dois primeiros anos de Teologia: Ostiariato, Leitorato, Exorcistato, Acolitato.

O Subdiaconato, no fim do terceiro ano de Teologia, em 10 de julho de 1955, era a primeira “ordem maior”, marcada pela promessa do celibato; o Diaconato, no início do quarto ano de Teologia, em 30 de outubro de 1955.

O Presbiterato, enfim, no início do segundo semestre do quarto ano de Teologia, em 25 de fevereiro de 1956. A ordenação presbiteral aconteceu na Basílica de São Paulo fora dos muros, numa fria manhã de inverno e de neve, presidindo-a o Cardeal Aloisi Masella, ex-núncio apostólico no Brasil. Foi uma ordenação coletiva, sem a presença dos familiares, que estavam no Brasil. Além dos que receberam outras ordens, menores e maiores, eram 21 os novos presbíteros. Desses, 4 eram de Santa Catarina: ele, Pe. Gilberto Luiz Gonzaga, Pe. Osmar Pedro Müller, da Arquidiocese, e Pe. Leo Nicolau Orth, da diocese de Lages.

O padre – homem de Igreja

O que significava, naquele tempo, ser padre? Quais os ideais acalentados?

A teologia, naturalmente, era a dos concílios Tridentino (1545-1563) e Vaticano I (1869-1870), embora naquela fase borbulhante que eclodiu no Vaticano II. Havia, nos seminários, muito fervor, muita piedade, muita disciplina, muita centralização no ideal de ser padre, no privilégio e na honra de celebrar a Eucaristia.

O ideal do Padre era a figura de São João Vianney, o Cura de Ars, um pároco humilde totalmente dedicado aos sacramentos: a Missa, a devoção ao Santíssimo, o confessionário, a pregação e a catequese. Havia livros de espiritualidade que cultivavam esse ideal, como “O guia do seminarista e do jovem padre”, do autor francês, jesuíta, Raoul Plus. Para as ordenações, meditavam os textos do Ritual, em edições comentadas.

Típica foi a conferência, em inglês, do famoso pregador americano Fulton Sheen, mais tarde bispo, no Colégio da Propaganda Fide, falando de forma arrebatadora sobre Cristo,  “Sacerdote e Vítima”, ideal do padre. Igualmente, o belga, depois Cardeal, Monsenhor Cardijn, fundador da JOC, a Juventude Operária Católica, falando em francês na Gregoriana, e motivando para o envolvimento do padre com os leigos, suscitando a santidade entre eles. Naquele tempo vivia-se na Itália o “Movimento por um mundo melhor” (MMM), do jesuíta Riccardo Lombardi, com grande acento na repercussão social do Evangelho e do sacerdócio. O Mundo Melhor ofereceu ao Brasil uma preciosa leva de bispos comprometidos com a causa da justiça.

Caroneiro pela Europa

Pe. Ney Brasil retornou ao Brasil quatro anos e um mês após a ida à Europa. Foi em outubro de 1956, viajando de navio como na ida, e desembarcando no Rio de Janeiro.

No exame final “de Universa”, prestado em junho na Gregoriana, não se saiu tão brilhantemente assim: foi aprovado “cum Laude”, isto é, com média 8, quando no primeiro ano da Teologia a aprovação fora praticamente “summa cum Laude”, isto é, com média 10. O exame final, oral, eram muitas teses em latim sobre toda a Teologia, exame realmente exigente. Em todo caso foi aprovado para o grau de “Licenciado”, equivalente ao de “Mestre”.

Após o exame, teve a permissão de Dom Joaquim de viajar três meses pela Europa. Como tinha pouco dinheiro, fez quase toda a viagem pedindo carona: pagou a passagem de trem até Viena e, depois, com a cara e a coragem, meteu-se na estrada, vestindo o “clergyman”. Percorreu a Áustria, sul da Alemanha, Suíça, entrou na França por Genebra, depois Grenoble, Ars, e foi até Marselha, onde incorporou-se à peregrinação dos universitários católicos de Paris até a Terra Santa. Esta peregrinação foi paga, naturalmente. Foram de navio, de Marselha até Beirute, retornando pelos mesmos portos.

Depois, novamente de carona pelo sul da França, até Lourdes, depois Bordeaux, vários pontos da França (não poderia morrer sem conhecer Rouen e Orléans, terras de Joana d’Arc), sul da Inglaterra, depois Bélgica, Holanda, novamente Alemanha, entrando por Münster, Köln, descendo para a Suíça, norte da Itália, para só então pagar a viagem de trem de Milão a Roma. Foi uma aventura bem sucedida, pedindo carona sozinho… e foi a maneira que encontrou para realizar o sonho de conhecer um pouco dos países mencionados.

O primeiro ministério presbiteral no Brasil

pe-ney-brasil3Retornando a Florianópolis em outubro de 1956, celebrou sua primeira Missa na Catedral no dia 4 de novembro, e no dia 11 do mesmo mês foi a “primeira Missa” na terra natal, São Francisco do Sul. Seu pai o acompanhava, visivelmente satisfeito, nessas primeiras atividades. Sua primeira designação pastoral foi a de coadjutor da paróquia da Trindade, que naquele tempo abrangia toda a Ilha. Ainda recorda que, numa das primeiras “missões”, talvez na Costa da Lagoa, batizou, num domingo, 44 crianças, tanto tempo fazia que não aparecia padre por lá.

As locomoções pela Ilha eram penosas: más estradas, escassos meios de transporte… Isto por três meses, de novembro a janeiro, até a designação para Azambuja, como professor no Seminário Menor, em inícios de fevereiro de 1957.

Os anos intensos de trabalho em Azambuja (1957-1970)

Pe. Ney Brasil dedicou-se integralmente, de corpo e alma, às tarefas de professor, regente do coral e diretor de teatro dos seminaristas. As disciplinas foram as mesmas que no primeiro período em Azambuja (1951-52): línguas, especialmente português, latim, grego e francês; história: antiga, medieval, moderna, contemporânea; e música, quer teórica, quer prática, vocal e instrumental.

Foi sempre detalhista nas disciplinas que lecionou: muitas datas nas aulas de história (colorindo os manuais de História de José Segalla com uma data a cada nome ou fato). Muitos testes, diários, muitos “temas” escritos, todos corrigidos. Por economia dava-se ao trabalho de cortar as beiradas das folhas dos testes para serem utilizadas em outros. Para o coral e, quando ocorria, para os instrumentos musicais, muitas partituras escritas e copiadas, às vezes, uma por uma – horas e horas de trabalho, até alta noite – naquele tempo em que não havia xerox, e a reprodução policopiada primeiro era sobre gelatina, depois a álcool, depois a mimeógrafo.

Quantos ensaios particulares e coletivos de instrumentos musicais, quantos ensaios particulares e coletivos de teatro e declamação! Assim, praticamente não exercia atividade pastoral fora, dedicando-se totalmente ao Seminário.

A partir de 1965, uma vez que não havia mais seminaristas sopranos, pelo fato de que entravam em Azambuja após cursarem o “preliminar” e/ou o primeiro ano em Antônio Carlos, começou a trabalhar musicalmente com os meninos da vizinhança. Isto significava um ensaio diário, à tarde, só com eles, para a vocalização e musicalização, além do contacto direto com suas famílias, para onde se dirigia com popular bicicleta. Esses “meninos cantores”, de 10 a 15, realmente deram conta do recado de cantar, no coral dos seminaristas, partituras de média dificuldade.

Outra atividade externa que o envolveu no penúltimo ano em Azambuja, embora não se recorde bem dos detalhes, foram grupos ou um grupo de alfabetização de adultos.

Mesmo não sendo um modelo de orador, Pe. Ney Brasil ocupou a cadeira de professor de retórica. A cada quinze dias os seminaristas eram obrigados a decorar um texto à escolha e declamá-lo diante dos colegas, recebendo, depois, as observações do mestre.

Gostando de escrever, e para não se expor, adotou um pseudônimo Brasílio Pereira, com que assinava crônicas semanais, publicadas geralmente na primeira página do jornal da cidade, “O Município”. Foram vários anos de presença constante, apreciada: o Diretor do Jornal, Jaime Mendes, fazia questão de esperar por esta colaboração. Levava em mãos, o texto datilografado em cima da hora. Fazia-o com prazer, embora com dificuldade. Mais de uma vez foi alertado, também por seus familiares, sobre o tom possivelmente “subversivo” de suas crônicas, naqueles tempos do AI-5, final da década de 60. Talvez em algum dia alguém recolha e publique algumas delas, como retrato de uma época.

Um ano de estudos nos Estados Unidos

Tendo bebido da fonte de uma especialização no exterior, ficou o gostinho para aproveitar uma nova oportunidade. E esta veio em 1961, quando foi informado de que o Governo americano estava oferecendo Bolsas da “Fulbright Foundation” para latino-americanos com menos de 35 anos, que, tendo proficiência em inglês, se candidatassem para uma especialização: era uma bolsa integral, com passagem, curso, estadia, por um ano, podendo ser prorrogada.

Em Azambuja, Pe. Raulino Reitz, botânico de renome internacional, havia ganho uma bolsa assim e incentivou-o. Decidiu especializar-se em música, uma das suas principais atividades no Seminário, uma vez que sua formação nesse campo era praticamente a de autodidata. Com a permissão do Arcebispo, Dom Joaquim, e a colaboração dos colegas de magistério em Azambuja, candidatou-se, e recebeu a Bolsa. Seu pai estava com câncer, mas incentivou-o.

Partiu para os Estados Unidos em inícios de agosto de 1962, devendo participar, durante um mês, de um “curso de orientação” para os bolsistas estrangeiros, na Universidade do Texas, em Austin. Foi sua primeira viagem de avião, e o primeiro contacto com a vida americana. Do Texas, dirigiu-se a Pittsburgh, na Pensilvânia, onde fora matriculado na Faculdade de Música da Universidade de Duquesne. Sua residência foi numa paróquia de bairro, onde foi aceito como coadjutor de um pároco que já tinha dois coadjutores. Celebrava diariamente, naquela época em latim, atendia confissões em dois horários pela manhã e à tarde de sábado, e devia fazer o sermão – naturalmente preparado por escrito, em inglês – em uma das missas de domingo.

Na Faculdade, impressionou-o a competência, dedicação, seriedade dos professores. Com a aprovação do Decano, fez todos os cursos da graduação e da pós-graduação que pôde fazer em dois semestres, pois tal era o tempo que lhe fora concedido pela Arquidiocese. Cursos de: harmonia, contraponto, composição, arranjo orquestral, regência coral, impostação vocal, história da música nos vários períodos, estudo prático de cada grupo dos instrumentos da orquestra (cordas, sopros, metais, percussão), piano, órgão…

Foram dois semestres intensos, além dos concertos e óperas a que pôde assistir, tanto em Pittsburgh como em Nova York. Impressionou-o a vitalidade do cultivo da música em todos os setores da vida americana. No seu caso, procurou assimilar tudo aquilo em vista de um melhor trabalho no retorno ao Brasil, em Azambuja.

Por coincidência, na volta ao Brasil surgiu, por causa da abertura da Liturgia ao vernáculo, a necessidade de criar todo um novo repertório litúrgico pastoral e coral, e nisso empenhou-se de corpo e alma, entre 1963 e 1970. Entre tantas outras impressões dos Estados Unidos, guarda o entusiasmo com que foi recebido, no Auditório de Duquesne, o então jovem teólogo suíço Hans Küng, um dos peritos do Concílio, que ali e em outras universidades católicas americanas falou sobre “a liberdade na Igreja”, Freedom in the Church

Recordações do ministério em Azambuja

Foi marcante em seu trabalho no Seminário a reitoria e liderança de Dom Afonso, Pe.Afonso Niehues, que logo, em inícios de 1959, foi nomeado bispo coadjutor de Lages. Era o terceiro dos primeiros ex-alunos de Azambuja chamados ao episcopado: antes dele, Dom Gregório Warmeling, eleito bispo de Joinville em 1957, e Dom Wilson Laus Schmidt, eleito bispo-auxiliar do Rio de Janeiro também em 1957 e depois transferido para Chapecó.

Dom Afonso era um “gentleman”: educadíssimo, grande capacidade de escutar, liderança firme sem estardalhaços. Mons. Valentim Loch, reitor nomeado em 1959, formado na mesma escola, conseguiu manter o ritmo que Dom Afonso imprimira em Azambuja, exercendo a reitoria na década mais brilhante do Seminário, a década de 50/60. Foi um período em que o Seminário contava com quase 200 alunos e um corpo docente de uns 10 padres, e ocupava integralmente as vastas instalações do novo edifício, inaugurado oficialmente em 7 de setembro de 1964, por ocasião dos festejos do áureo jubileu episcopal de Dom Joaquim.

Tendo vivido em Azambuja intensamente os seis anos de Seminário Menor, tendo aí feito sua primeira experiência de professor por quase dois anos, aos 20 anos de idade, tendo aí passado os primeiros 14 anos de sua vida presbiteral, guardava muito, em afeto, gratidão, saudade, desse lugar.

Para cultivar os laços com o Seminário, foi um dos que criaram a AESA, Associação dos Ex-Alunos do Seminário de Azambuja, em 1974, tendo sempre prestigiado seus Encontros. Compôs o “Hino do Seminário”, por ocasião dos festejos jubilares de 1952, na mesma oportunidade também compondo o “Senhora de Azambuja”, hino do Santuário.

Redigiu, ainda, o primeiro opúsculo que se escreveu sobre a “História de Azambuja”. Mais tarde compôs também o “Canto dos peregrinos” e, em 2005, o “Canto do Centenário”, procurando nele sintetizar a história destes 100 anos desde o Decreto de criação do “Santuário Episcopal de Nossa Senhora de Azambuja” (1905). Apesar de todo esse apego, fica valendo a palavra de Dom Jaime, exatamente sobre Azambuja: “Não se pode ter o coração amarrado a um lugar”. Isto é, quando a vida nos chama para outros lugares, outras frentes de trabalho, é preciso deixar tudo e partir, como Abraão.

O Concílio do Vaticano II – novo Pentecostes

Absorveu, gota a gota, aquele mutirão de aggiornamento vivido pela Igreja nos anos imediatamente posteriores ao Concílio (1962-1965). Pe. Ney lembrava que é preciso não esquecer, porém, que o Vaticano II, com todo o fator-surpresa representado pela sua convocação por João XXIII, não foi um fruto surgido de repente: houve toda uma sementeira, cultivo, floração, amadurecimento, ocorridos na primeira metade do século XX. Lembra-se do empolgamento dos 10 dias de curso sobre os documentos conciliares realizado pelo clero de Florianópolis, como deve ter ocorrido em todo o Brasil, com a assessoria do Pe. Ivo Lorscheiter, depois bispo, secretário e presidente da CNBB.

Teve a impressão de que foi muito rápida a transição do latim para o português, tendo a Comissão de Liturgia da CNBB atuado de maneira eficiente, sob a liderança de Dom Clemente Isnard, OSB e Côn. Amaro Cavalcanti.

Rapidamente também mudou-se a indumentária clerical: da batina preta, que usou desde os 17 anos, ao concluir o Seminário Menor, passando um pouco pela batina cinza, passou-se logo para os trajes civis. (Recorda o autor destas linhas a rapidez das mudanças com um fato: no dia 8 de setembro de 1964 o Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Jaime de Barros Câmara, proferiu-nos uma palestra sobre a necessidade da batina para a “normal” validade os sacramentos e do latim, indiscutivelmente, para a eficácia da consagração eucarística. No ano seguinte, pouca batina e pouco latim e, depois, quase desapareceram).

Um exemplo da mudança teológica e eclesiológica foi a estranheza que sentiu ao ouvir pela primeira vez Dom Afonso falar em “nossa” Igreja, referindo-se à Igreja Católica, quando até então só existia para ele, para nós, católicos, “a” Igreja! Ingressava-se no espírito ecumênico.

Não teve dificuldade em aceitar e assimilar as mudanças, embora sem renunciar, é claro, ao seu lastro pessoal.

Novamente em Roma – Pe. Ney Brasil, biblista

Pelo final da década de 60 tornava-se cada vez mais claro que Santa Catarina precisava ter o seu Instituto Teológico, formando aqui mesmo o seu clero. Era preciso, portanto, preparar professores. Foi então cogitado seu nome para a Exegese, uma vez que não se tinha ninguém formado nessa área. Era, aliás, um antigo sonho: ao terminar a Licença em Teologia, em 1956, desejara continuar em Roma cursando o Instituto Bíblico, que naquele tempo, com o grego que já conhecia, possibilitaria o Mestrado em dois anos. Surgindo agora a oportunidade, ficou para trás o apego a Azambuja, e aceitou o desafio de começar esta nova especialização aos 40 anos de idade.

Agarrou a oportunidade com as duas mãos, pelo fato de a Exegese, melhor dizendo, a Bíblia, ser “a alma da Teologia”. Dois obstáculos deviam ser superados: primeiro, o hebraico, cujo aprendizado é realmente difícil e exige muita dedicação e esforço diário, de meses e anos a fio (desafio também enfrentado pelo Pe. Siro Manuel de Oliveira e, agora, pelo Pe. Gilso Meurer); depois, seu conhecimento das questões introdutórias à Exegese, ao começar o curso no Bíblico, era muito limitado, pelo fato de em Azambuja ter-se dedicado totalmente à música e às outras disciplinas e atividades do Seminário Menor, praticamente sem contacto com a ebulição da Teologia e da própria Exegese no imediato pós-Concílio. Lembra-se de um telegrama do Pe. Antônio Guglielmi, exegeta e arqueólogo, ex-colega de curso, cumprimentando-o pela matrícula no Pontifício Instituto Bíblico e fazendo votos para que voltasse “menos conservador”…

Foram pouco menos de três anos (setembro de 1970 a julho de 1973) de estudo intenso, no ambiente propício do Pio Brasileiro, agora não mais seminarístico como na década de 50, mas com a maioria dos alunos, já padres, em cursos de mestrado e doutorado, com poucas atividades comuns. Cada um dispunha do seu horário para o estudo e a espiritualidade pessoal. Recorda os sábados e domingos passados em cima dos livros, no hebraico e/ou nas monografias. Fez duas delas, uma como exigência do curso, com o Pe. Ignace De la Potterie (exegese de Mt 5,6) e outra como forma alternativa de exame final, com o Pe. Alonso Schökel (análise do Salmo 105).

Nesse período, procurou passar as férias de Natal e Páscoa na Alemanha, em Münster, onde, além de aperfeiçoar o alemão, necessário para entender pelo menos os títulos e sínteses da imensa literatura exegética nessa língua, gostava do ambiente litúrgico do provincialado das Irmãs da Divina Providência (Friedrichsburg) e da Catedral, o “Dom”. Fez também um curso de férias do Goethe Institut, em Kassel.

Nas férias de verão de 1972 realizou uma longa viagem pela Grécia, Turquia e Israel, com um professor do Instituto Bíblico, permanecendo depois mais um mês em Jerusalém, na casa dos Padres de Sion, a Ratisbonne. Em julho de 1973, antes de retornar ao Brasil, esteve ainda no Egito e no Sinai. Em Roma, procurou acompanhar a temporada da Ópera e dos concertos sinfônicos da Academia de Santa Cecília, para não perder o contacto com a música. Terminou com sucesso o mestrado no Bíblico, “magna cum Laude”.

Antes de retornar ao Brasil, Pe. Ney Brasil foi visitar as Basílicas de Santa Cecília no Trastevere, pois, afirmava, nunca mais retornaria à Cidade Eterna… na verdade já refez o caminho mais de uma dezena de vezes!

Em Florianópolis – ITESC, Catedral

Retornando ao Brasil em fins de julho, o ITESC já era uma realidade, fundado que fora em 10 de janeiro, e tendo sido iniciado o primeiro semestre em março, sob a direção do Pe. Paulo Bratti. Hospedou-se “provisoriamente” na residência episcopal, com Dom Afonso, mas o “provisório” continuou por seis anos, até 1979. Foi um privilégio residir com ele, concelebrar com ele, fazer as refeições com ele, sempre afável, discreto, acessível.

Além das aulas de Introdução à Bíblia, no curso do ITESC, ministrou aulas também no curso de teologia para leigos à noite. Custava-lhe um bocado a preparação dessas aulas: tinha grande dificuldade em “trocar em miúdos” o grande cabedal adquirido no Instituto Bíblico. Mas perseverou, e foi levando a tarefa em frente.

Já em setembro, menos de dois meses após a chegada, veio o convite para assumir a regência do Coral Santa Cecília da Catedral, cujos veteranos já conhecia de outros tempos. Após a transferência do regente Pe. Agostinho Staehelin, o Coral tinha quase acabado, mas o seminarista Raul Kestring (hoje padre em Blumenau) conseguiu reunir bom grupo de antigos e novos cantores e, quando chegou, foi só começar a ensaiar a “Missa de Gruber” e o grupo se reafirmou. Dali em diante, é uma história que já dura 43 anos, com a promoção anual dos Concertos de Páscoa e Concertos de Natal, além da gravação de vários CDs.

Uma vida pelo Instituto Teológico de Santa Catarina – ITESC (1973-2015)

pe-ney-brasil2Após décadas enviando os seminaristas maiores para o Rio Grande do Sul ou Paraná, a fundação do ITESC, em 1973, formando no Estado o presbitério catarinense, foi uma obra de Deus, bem começada graças à persistência de Dom Afonso, liderando o episcopado catarinense, e graças à capacidade e ao bom preparo teológico do Pe. Paulo Bratti, seu primeiro Diretor e Reitor.

Foi um começo modesto, humilde, mas que evoluiu com segurança, apesar da oposição de setores do Regional Sul IV da CNBB, que tinham imaginado um Instituto em outros moldes, segundo o método da “Criatividade Comunitária”. Internamente, porém, nas aulas, não se notava essa dificuldade. Crescendo o número de alunos, foram surgindo outras residências na Rua Deputado Antônio Edu Vieira, 476, bairro Pantanal, além do “Convívio Emaús”, que naquela época acolhia só uma dezena de seminaristas. Em 1975 construiu-se o prédio que hoje abriga o Regional Sul IV, com capacidade para 25 seminaristas. Nova residência pequena, para 10 seminaristas (pela cor denominado de “Dragão Verde”), no ano seguinte. E finalmente, em 1979, ano da Conferência de Puebla, inaugurava-se o edifício central, para 40 seminaristas e 4 padres assistentes.

A partir desse ano Pe. Ney deixou a residência do Arcebispo e foi partilhar a vida dos seminaristas, residindo no novo prédio, primeiro como “residente”, mas, logo, como assistente dos 10 que residiam na mesma ala.

Sua experiência como professor, formador e membro da Direção do ITESC, Pe Ney divide em três períodos:

1) até 1979, quando seu contacto com os seminaristas era apenas durante as aulas na UFSC; 2) de 1979 até 1992, quando convivia com seminaristas de várias dioceses no prédio central, continuando as aulas na Universidade; 3) finalmente, de 1992 até hoje, quando o contacto com os seminaristas passou a ser novamente só durante as aulas, agora dadas na sede do ITESC, tendo os seminaristas passado a residir em casas diocesanas.

O período mais sofrido, mas por isso mesmo não menos interessante, foi o segundo, quando participou da vida interna, dos problemas, das inquietações, de uma comunidade ao mesmo tempo seminarística e acadêmica. Certas reuniões comunitárias eram pesadas… mas tudo passou, as dificuldades foram superadas, bons padres se formaram naqueles anos. Pessoalmente, sentiu demais o falecimento prematuro do Pe. Paulo Bratti, em 15 de maio de 1982, aos 46 anos de idade incompletos, e cuja memória guarda com carinho.

Aquele segundo período coincidiu, no país, com a passagem da ditadura para a democracia e, na América Latina, com o florescimento da Teologia da Libertação, com seu forte e necessário apelo social. Nos últimos anos o ITESC tem-se firmado como instituição acadêmica de prestígio, havendo certa tranqüilidade no corpo discente, tranqüilidade que Pe. Ney esperava não seja acomodação.

Rememorando o ano de 1942, quando entrou no Seminário, e hoje, Pe. Ney via o seminarista, por um lado, hoje como ontem, hoje como em 1942, como quem entrava no Seminário porque se sentia vocacionado para ser padre e, por isso, deve autoanalisar-se e, ajudado pelos formadores, discernir se é este o caminho que deve seguir. Por outro lado, houve enormes mudanças na Igreja e no mundo, ao longo destes mais de 60 anos. Apesar de tudo, o seminarista de hoje, como o de ontem, deveria levar a sério todas as dimensões da sua formação, aproveitar o tempo, rezar muito, evitar absolutamente a preguiça e a acomodação, correspondendo, por uma dedicação intensa, ao privilégio da bolsa praticamente integral que recebe, de cama e mesa etc.

Pessoalmente, apesar de outros pensarem que seria bom para o seminarista trabalhar, batendo o ponto, mesmo durante a teologia, para sentir na carne a dureza da vida, pensou que, se ele dedicar-se integralmente como definiu acima, então o seu trabalho “batendo o ponto”, a sua “dureza” seria exatamente essa dedicação integral ao estudo e à formação.

Costumava perguntar, no curso sobre os Profetas, qual é o “lugar social” deles, os profetas, e qual é o nosso “lugar social”. E responde, para surpresa da turma, “que o nosso lugar social, sociologicamente falando, pelo ambiente em que vivemos, é o da classe média ou, para falar mais claro, o da burguesia. E o único jeito de “redimir” esse lugar social é uma vida sóbria, disciplinada, e uma constante lembrança, efetiva, dos pobres”. Achava que também o estilo de vida deve ser e parecer modesto, o mais simples possível.

As Irmãs da Divina Providência

Pe. Ney mantém com elas uma ligação que começou com o curso primário, com as Irmãs do Colégio Stella Matutina, em São Francisco do Sul. Lembrava que seu pai, que costumava dizer-lhe que a vida de padre “é de sacrifício”, sempre se referia às Irmãs como “Irmãs de Caridade”. Em Azambuja voltou a estabelecer-se essa ligação, sendo numerosas as Irmãs trabalhando no Hospital, Seminário, Asilo, Santuário. Em 1956, padre novo, andando de carona pela Alemanha, foi recebido com carinho por Madre Egídia, em Münster, carinho que se repetiu mais tarde, da parte de Madre Dorotéia.

Desde fevereiro de 1974 foi o “capelão” do Provincialado, tendo ao longo desses quase 42 anos celebrado quase diariamente com as Irmãs. Acompanhou, embora com discrição, a crise que se estabeleceu entre elas em fins da década de 70, quando houve intervenção de um Visitador Apostólico e certo número de Irmãs desligou-se da Congregação, inserindo-se nos meios populares e formando a “Fraternidade Esperança”. Percebia, e as Irmãs percebiam também, que a Congregação, como outras Congregações tradicionais, também masculinas, estava envelhecendo, e as vocações diminuindo. Como ler este “sinal do tempo”? Lembrava-se de uma conversa, bastante tempo atrás, com Irmã Cléa Fuck, quando, falando já sobre o assunto, comentavam as novas formas de consagração que estão acontecendo, surgindo, no meio do mundo… Problema não seria o fim de uma Congregação: problema seria se não surgissem novas fundações, que são sempre sinal de vitalidade da Igreja.

Dedicação à Pastoral Carcerária

Como explicou num artigo na revista do ITESC (Encontros Teológicos n. 7 [1989/2], pp. 10-15), seu chamado à Pastoral Carcerária veio inesperadamente. Tinha na lembrança que seu saudoso pai, em São Francisco do Sul, visitava os presos na cadeia. Em Brusque, nos 14 anos que lecionou em Azambuja, lembrava ter várias vezes passado pela cadeia local, sem deixar-se tocar pelo pensamento de que poderia visitá-la.

Em Florianópolis, em fevereiro de 1974, de repente, recebeu a visita de Irmã Maria Uliano, da Divina Providência, e do então Juiz da Vara de Execução Penal, Dr. Ernani Palma Ribeiro, que vieram convidá-lo para assumir a “capelania”, como então se dizia, da Penitenciária. Como tinha disponibilidade de tempo, residindo no Arcebispado, aceitou a missão, oficializada por Dom Afonso com uma provisão.

E aí começou esse “caso de amor”, que durou até a morte. Na época, o trabalho era relativamente fácil: quase não havia grades e algemas, e os presos vinham numerosos às Capelas. “Capelas”, porque havia duas: uma dentro da Penitenciária, desativada em 2005, e outra anexa ao Presídio Masculino, fechada ao Presídio em 1986, mas ainda servindo aos presos internos do Hospital de Custódia, ex-Manicômio Judiciário. Esta Capela do Presídio foi construída pela iniciativa e o empenho de Irmã Maria, que batia a todas as portas para conseguir fundos. Visitavam também, cada domingo à tarde, a Colônia Penal, então em Canasvieiras.

Três vezes ao ano havia missas especiais, com a presença do Arcebispo Dom Afonso: Natal, Páscoa, e 1º de agosto, que era o “Dia do Presidiário”.  Dias antes do Natal e Páscoa, confissões, precedidas de palestra por algum padre convidado. Pouco a pouco foi-se organizando uma equipe de voluntários, que constituiu a Pastoral Carcerária, uma das “pastorais sociais” da CNBB. Pe. Ney sentie que se poderia, deveria, fazer muito mais do que se faz, ao menos para cumprir a palavra do Senhor: Eu estava preso, e vocês vieram visitar-me (Mt 25,36). Porque não se trata apenas dos presos, mas também dos egressos, tantas vezes reincidentes, e também de suas famílias, e também dos agentes penitenciários e técnicos do Sistema, da polícia civil, de toda a questão da violência e criminalidade, das drogas e do tráfico… enfim, é um campo de trabalho imenso que está aí, desafiando a Igreja.

Foi vítima de um seqüestro, na véspera do Natal de 2000, o ano do Grande Jubileu e que, graças a Deus não deixou seqüelas. Durou relativamente pouco, das 8.30 às 14.30h, e às 18.00h já estava presidindo à Missa na Capela São João e, depois, às 21.00h, regia normalmente a Missa e os cantos natalinos do Coral da Catedral. Sem pretender dar uma de herói, respondeu naturalmente ao repórter que lhe perguntava, após o seqüestro, se ia continuar: “Apesar do susto, continuarei!”.

Renovação da Música litúrgica após o Concílio do Vaticano II

Antes do Concílio, mesmo havendo espaço para novas composições, a maior parte do repertório era fixo, em latim. Por exemplo, em cada missa solene, mesmo cantada pelo coral, era obrigatório cantar em gregoriano as antífonas de entrada, ofertório e comunhão, além do “gradual”, que equivalia ao salmo responsorial de hoje. No Seminário, boa parte do tempo de ensaios era dedicado ao canto gregoriano, cujas partes mais difíceis ficavam para uma “Schola”, ou seja, um grupo seleto.

Após o Concílio, houve a mudança radical da passagem do latim para o português, com a preocupação da participação da assembléia no canto, o chamado “canto pastoral”. Pe. Ney recordava que, no imediato pós-concílio, em Florianópolis houve a atividade do maestro José Acácio Santana, seu ex-aluno em Azambuja, que compôs toda uma coleção de “canto pastoral” de fácil aprendizado. Pe. Ney, sendo regente de coral em Seminário, concentrou-se no canto coral, compondo Missas corais para quase todas as festas do ano, além de um grande “Ordinário”, a Missa “Mãe da Igreja”, para coral e canto da assembléia.

Em janeiro de 1965, a convite do Cônego Amaro Cavalcanti, que então coordenava a comissão de Liturgia e Música Sacra da CNBB, colaborou com a composição da Semana Santa em português, gravada imediatamente em LP, no Rio de janeiro. Desde então participou regularmente dos cursos de canto pastoral promovidos pelo Cônego Amaro no Rio de Janeiro, em julho (curso que continua até hoje), e pelo Pe. Luís Marques Barbosa, em São Paulo, em janeiro. Em Florianópolis tem participado, com suas composições, do curso de canto pastoral do Regional Sul IV, que começou em 1989 por iniciativa do Pe. Elias Della Giustina.

Atualmente fazia parte de um grupo de reflexão sobre Música Litúrgica, ligado à CNBB, com três reuniões anuais. Quanto aos desafios, via o de conciliar a beleza e a dignidade do canto litúrgico com a facilidade com que hoje se compõe e se executa qualquer coisa. De um lado, é sinal de florescimento e criatividade. De outro lado, é sinal também de superficialidade. Quanto aos corais e o órgão, duas das marcas registradas da música sacra tradicional, para não falar do canto gregoriano, estão de certo modo em extinção, por vários motivos, que valeria a pena analisar. Na Catedral de Florianópolis, que possui um excelente órgão alemão, e também um coral que ainda canta semanalmente, numa das missas aos domingos, mantém ainda as “duas marcas registradas”… Mas até quando?

Sua produção musical é vasta, como vasto é o tempo de trabalho. Não sabe quantas composições. Tempos atrás, um maestro amigo dispôs-se a fazer um levantamento, mas transferiu-se de Florianópolis e o trabalho ficou incompleto. De sua parte, ainda não teve tempo de pelo menos recolher em pastas separadas, em ordem cronológica, e distinguindo as composições corais e as de canto uníssono, as litúrgicas e outras, poucas, não litúrgicas. Considerava suas composições prediletas: 1) “Onde o amor e a caridade”, da Quinta-feira Santa; 2) Ite in vineam, o lema episcopal de Dom Afonso, composto em 1959; 3) “Vós sois abençoada”, um “gradual e aleluia” da Imaculada Conceição; 4) a Missa “Mãe da Igreja” e, nela, o “Creio” e o “Cordeiro”.

Pe. Ney nunca cedeu ao estilo popularesco. Suas músicas requerem diversas audições para serem devidamente apreciadas e, dali para frente, são sempre apreciadas.

Evangelizando através da escrita

Pe. Ney tem o dom da escrita clara, sucinta, objetiva, elegante. Como na música cada nota de um acorde, assim cada palavra num texto. Número de artigos, na sua vida já longa, também não sabia. Citava os artigos e recensões publicados quase em cada um dos 42 números da revista do ITESC, Encontros Teológicos.

Quanto aos livros, apenas dois comentários bíblicos, e três opúsculos: 1) Sirácida ou Eclesiástico, comentário ao livro do Eclesiástico, ed. Vozes, 1992, 260 p.; 2) Livro da Sabedoria – aos governantes, sobre a Justiça, comentário ao Livro da Sabedoria, ed. Vozes, 1999, 236 p.; 3) A Ceia Pascal Cristã, ed. Paulus, 50 p, 1ª ed. em 1982, atualmente na 7ª edição; 4) Santa Catarina de Alexandria, Padroeira da arquidiocese de Florianópolis, da Ilha e do Estado de Santa Catarina, ed. Imprensa Oficial do Estado, 2002, 51 p.; 5).

Seus trabalhos e contribuições como exegeta no Brasil restringem-se às traduções dos livros bíblicos e aos artigos publicados. Quanto às traduções, colaborou com a Bíblia de Jerusalém, da Paulus, traduzindo Macabeus, Daniel, Baruc, e Atos dos Apóstolos; com a Bíblia da LEB/Loyola, traduziu o livro do Êxodo; com a Bíblia da Vozes, traduziu os dêutero-canônicos; com a TEB, Tradução Ecumênica da Bíblia, traduziu o Sirácida, Judite, o evangelho e a primeira carta de João, e o Apocalipse; finalmente, na Bíblia da CNBB, contribuiu com Jó, Provérbios, Eclesiastes, Cântico, Sabedoria, Sirácida, Tobias, Judite, Ester, e Macabeus.

Não fez um trabalho pastoral de divulgação da Bíblia a nível popular, algo, por exemplo, que de longe se assemelhasse aos “círculos bíblicos” e, depois, ao CEBI do frei Carlos Mesters. Talvez pelo motivo de ter tido sempre compromissos fixos com o Coral e a Penitenciária nos finais de semana, que seriam o tempo propício para sair por aí dando cursos, e também porque não se sentia muito possuidor do dom de “trocar em miúdos” o conteúdo que possui, o fato é que não fez esse trabalho de divulgação. O mesmo se diga das suas composições litúrgicas: não as tem gravado nem divulgado em cursos como p.ex. Irmã Míria Kolling, que se dedica a essa atividade em tempo integral. Nesse sentido, seu “marketing” foi fraco…

Quanto à evolução na exegese, é sabido que houve grande mudança, em relação à situação de antes do Concílio. Novamente, como na Liturgia e na Eclesiologia, também na Exegese a mudança não veio de sopetão. Foi longamente preparada. A Dei Verbum, cujos 40 anos de promulgação celebramos no final de 2005, referendou a nova forma de fazer exegese: menos escolástica e menos eis-egese, e “mais bíblica”, no sentido de mais ex-egese, mais brotada do próprio texto, analisado segundo o método histórico-crítico e no seu contexto sócio-eclesial.

Nesse sentido, a América Latina contribuiu com uma visão mais sociológica, privilegiando os pobres como sujeito de leitura da Bíblia. O início do ITESC coincidiu com essa nova fase, e tem procurado – de sua parte, tem procurado – manter essa linha, atento aos sinais dos tempos.

Pontifícia Comissão Bíblica

Em 2001, João Paulo II o nomeou para integrar a Pontifícia Comissão Bíblica. Uma nomeação que o pegou de surpresa. E isto porque afirmava, sinceramente, não por falsa modéstia, que vários outros exegetas brasileiros estariam mais qualificados do que ele. “Mas, como não me candidatei, não procurei essa honra, aceitei-a evidentemente com alegria, inclusive pelo fato de essa nomeação proporcionar-me uma viagem anual a Roma, com o convívio, por uma semana, com outros 19 exegetas de vários países do mundo. É mais uma dessas graças, privilégios, com que o Senhor me tem cumulado ao longo da vida”. Bento XVI renovou a nomeação.

Catolicismo popular e aprofundamento da fé cristã

Pe. Ney Brasil conseguia conciliar o pensamento religioso moderno, a leitura bíblica segundo o método histórico-crítico com a vivência de uma piedade extremamente simples, tradicional. Acendia uma vela para Nossa Senhora da Graça e levava uma rosa para Santa Teresinha.

Lembrava o homem bíblico que tira de seu tesouro coisas novas e velhas.  Nutria a convicção de que é preciso “avançar”, estar aberto ao novo, às novas percepções que o Espírito faz ver à Igreja, e fará ainda, segundo a promessa do Senhor em Jo 16,13 (O Espírito conduzirá vocês à plenitude da Verdade) e, por outro lado, é preciso ter fidelidade ao “depósito”, ao que foi recebido, aos valores do passado. É claro que é preciso distinguir, como alerta Yves Congar, entre a Tradição, com T maiúsculo, e as tradições: estas, periféricas, mutáveis. Assim, por exemplo, na Mariologia: não concordava com o minimalismo mariológico de Hans Küng, a quem admira em tantos outros pontos. E exemplificava: se ele encontrou um “exagero” mariológico em Lourdes, segundo o que relata em sua autobiografia, “para mim – afirma Pe. Ney – Lourdes foi, e continua sendo, uma expressão autêntica da piedade católica, que através de Maria chega sempre a seu Filho divino, o Senhor Jesus. Por outro lado, não uso o escapulário, e dele não faço propaganda; não concordo com devoções inventadas como a de “Nossa Senhora desatadora dos nós”; não consigo entender essas aparições diárias de Medjugorie e as “locuções interiores” do Pe. Stefano Gobbi etc, etc.”.

Sempre que possível – não todos os dias! – rezava o terço, que carregava sempre consigo; sempre que visita Azambuja, vai à gruta e entra no Santuário; na Capela do Instituto Teológico, achava que se valoriza pouco a imagem (um biblista falar assim!) de “Nossa Senhora do ITESC”… Enfim, procura levar a sério a advertência da segunda carta de João, contra os “avançados” que não “permanecem”: Todo aquele que avança e não permanece na doutrina do Cristo, não possui a Deus (2Jo 9). É claro que há toda uma discussão e análise a ser feita do que seja esse “permanecer”, mas não é o caso aqui.

Pe. Ney – humildade, bondade e fidelidade

Pe. Ney, apesar de todos os seus méritos, trabalhos e títulos, é um homem que fez da simplicidade um estilo de vida. Em nenhum momento fez questão de ostentar conhecimento e obra: a humildade trouxe-lhe a paz para poder trabalhar mais.

Viveu pobremente. A mesma mala que levou seus pertences a Roma em 1952 levou-os em 1970 e trouxe-os de volta em 1973. Seu guarda-roupa foi imutável por anos.

Era conhecida entre os pobres e mendigos (muitos ex-presidiários) de Florianópolis a “lista do Pe. Ney” que, mensalmente, fazia distribuição de dinheiro. A fila chegou a causar transtornos no ITESC….

Metódico, Pe. Ney escreveu um Diário desde 1943 até o retorno de Roma após a ordenação e recomeçou-o quando esteve nos Estados Unidos e depois, durante o triênio do Instituto Bíblico. Também anotou rigorosamente em Livro Caixa todas as suas despesas, por menores que fossem. E, no mesmo método, o Caderno de Missas, onde constava a intenção, o horário, local e dia das Celebrações eucarísticas desde a Ordenação.

Sua escrivaninha é um depósito desordenado onde cada coisa está exatamente situada e encontrável a qualquer momento, por ele.

Mas, no coração sacerdotal de Pe. Ney podemos salientar a fidelidade à Igreja e suas instituições, o que não o impedia de manifestar pensamento crítico. Fidelidade à formação sacerdotal que o faz suportar com perseverança as dores de quem conviveu com estudantes de teologia por 43 anos e deles escutava a crítica, até pessoal, mas sem ceder a modismos ou rancores.

Também não foi um homem com ciúmes do próprio saber: era feliz em ver alunos crescerem no conhecimento e buscava promovê-los desinteressadamente. A inveja não encontrou hospedagem em sua vida.

No outono da existência, um testemunho pessoal

Perguntado sobre seus sentimentos no outono da existência, Pe. Ney assim respondeu:

pe-ney-brasil“São vários. Um deles, a íntima, profunda gratidão, por tantas oportunidades que tive em minha vida, tantos sonhos realizados, tantos favores recebidos. Gratidão, portanto, a Deus, fonte de todo bem, e a tantos instrumentos humanos da Sua providência: tantos amigos e amigas, também em outros países e continentes, tantos que já me precederam na Casa do Pai, e tantos que continuam a caminhada comigo. Mas também angústia: angústia por tanto sofrimento no mundo, perto e longe de mim, sofrimento que é tão difícil entender! Por isso mesmo, procurando respostas, encontro-as em alguns textos da Bíblia. A começar do primeiro versículo, a meu ver fundamental: No princípio, Deus criou o céu e a terra (Gn 1,1). É que aí encontro a cosmovisão fundamental, da qual depende todo o resto: crer, ou não crer. Admitida esta cosmovisão da fé, o resto é conseqüência. Este Deus criador é Amor, como proclama o Discípulo amado na sua primeira carta (1Jo 4.8.16), verdade sublime, porém, que só será crível na medida em que for traduzida, concretizada, feita carne, como o próprio Deus se fez, em seu Filho (cf Jo 1,14). Este Filho amou-nos até o fim (Jo 13,1). E antes de passar deste mundo ao Pai, deixou-nos dois gestos, dois ritos, característicos de seus discípulos: o lava-pés e a Eucaristia. Uma destas graças imerecidas da minha vida é este privilégio, sublime, de presidir o rito eucarístico. Se não me engano em minhas anotações, cheguei, hoje, (10 de novembro de 2005), ao total de 22.240 missas! E posso confessar, como tantos outros presbíteros antes de mim, que ainda não esgotei – e não esgotarei nunca – a  riqueza infinita do conteúdo de um gesto tão simples: Tomai… Comei… Terminando esta confidência, revelo o conteúdo de minha oração. Estando no ITESC, gosto de rezar a liturgia das Horas diante do Santíssimo, gosto de dar entradinhas rápidas na Capela, mas não tenho o hábito da contemplação. Acompanha-me, porém, constantemente, a oração do peregrino: Senhor, tem compaixão de mim!, um “mim”, aliás, que sempre inclui o “nós”.  Ou, quando penso na violência ou no perigo que nos rondam, a mim e aos outros, vem-me espontaneamente, freqüentemente, a invocação final do Pai-nosso: Livra-nos do mal! Constantemente, também, rezo pelos presos e pelos pobres… E assim, equilibrando-me entre a gratidão e a angústia, vou levando, lutando, trabalhando, esperando, na certeza de que Ele está comigo, melhor dizendo, está conosco, no meio de nós!”.

Pe. José Artulino Besen

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