Arquivo para categoria Orações e Poemas

UM CACHORRO A SÃO FRANCISCO

Polícia manda suspeitos deitarem no chão e cachorro acompanha dono.

Polícia manda suspeitos deitarem no chão e cachorro acompanha dono.

Meu senhor São Francisco,
amigo da natureza e da bicharada
de cima e debaixo da terra,
dos passarinhos e até de um lobo feroz em Gubbio,
por sinal, meu parente distante,
lembrei de fazer uma oração, uma reza de coração.
Me apresento: sou pobre e me chamam de cachorro. Sou devoto:
encontrando igreja aberta, costumo entrar para um descanso,
mas, tem gente que não abre a igreja “senão cachorro entra”.
Reclamam que dou umas sacudidas e espalho piolho e poeira,
Dou lambida na perna das vovozinhas. Alvoroço!
Cachorro não pode nem seguir seus costumes?
Sou melhor que muito cristão que chega atrasado pra Missa,
pois eu, podendo, entro no primeiro sinal, pode conferir.
São Francisco, sei que o senhor é compreensivo,
seu coração sempre tem mais de um lugar.
Anos atrás rezei a Deus pelo Duda, ainda menino, lembra?
ele e eu, nós dois, fazendo oração pra dormir.
Hoje me sirvo do senhor, estou envergonhado de falar com Deus.
Sou companheiro do Duda, amigo de sempre.
Ele cresceu, muito, e eu fiquei mais velho que ele,
mas o rapaz está difícil de ser companheiro.
O senhor olhe a fotografia acima: que vergonha!
Num lixeiro encontrei uma cópia, e era estrangeira.
Será que o Papa me viu? Nessa posição?
– É um cachorro de brasileiro, ele pode ter dito,
de certo falou pela cor da camisa que não é do Duda.
Pior se, olhando minha posição, disse: que cachorro fresco!
Vou direto: o Duda cresceu para trás.
Antes, andava só comigo e conhecia meus latidos
e agora, anda com quem ele quer,
nem sempre gente de confiança.
Meu ofício, o senhor sabe, é andar junto,
Também andar com um olho nessa gente esquisita,
os amigos do Duda, que são meus amigos.
É gente suja e fedida, isso até que eu aprecio.
Agora faço minha reza, que vale pro Duda:
uma tarde a turma da foto me acompanhava
e senti que estavam preocupados, andando devagar bem ligeiro.
Chegou a polícia, já cheia de brabeza, com arma na mão.
Eu encarei, pensando na segurança do pessoal
(Se eu fosse gato, tinha fugido pra longe!).
Mandou tudo se deitar de costas, para fazer perguntas.
Vi todos deitados, deitei, porque sou companheiro.
– De costas, gritaram, e eu deitei de frente.
E para tristeza nossa, tinha gente tirando fotografia.
Fiquei bem perto do Duda, olhando a cara dele para dar coragem,
e, que vergonha, fiquei em posição difícil, com tudo à vista.
O que não pensaram lá fora? – Um cachorro sem modos!
O pior chegou em seguida: foram revistar todos, dentro e fora.
De mim nada pediram, por ser velho ou por ser pobre.
Só sei que recolheram tudo, e todos foram de camburão.
Eu fiquei sozinho, na rua, triste, eu não sei andar sozinho.
Ó meu São Francisco, é essa minha reza:
Traga todos de volta, e inteiros, por favor.
E recolha do mundo essa fotografia triste
que acaba com minha honra. Amém.

Pe. José Artulino Besen

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NOSSO DEUS, O PAI DE JESUS CRISTO

Na criação resplandece o amor do Pai

Na criação resplandece o amor do Pai

AS SAUDADES DE DEUS

Deus não esperava a atitude de Adão e Eva. Queriam ser como ele e, até mais, queriam negá-lo. Os dois eram crescidos, mas tinham coração de criança. Pela inexperiência e ingenuidade foram logo enganados pela serpente.

Inicialmente, fez que não viu nada, quem sabe, retornariam pedindo perdão e nova chance. Nada acontecia. O dia estava acabando e eles estavam lá, nus, envergonhados. Chegando a noite, lamentou Deus, passariam frio.

Entristecido, pensou em conversar com eles, mas percebeu que preferiam ficar escondidos, não desejavam mais sua companhia.

Deus tomou uns pedaços de pele de animais, uma agulha, e costurou uma roupa para Adão e outra para Eva. Achegou-se deles e os vestiu carinhosamente, como se fosse uma mãe. Da parte deles, nenhuma palavra.

Respeitando sua decisão, abriu a porta do paraíso e deixou que saíssem. Antes de partirem, deu mais uma ajeitada nas vestes e tomou coragem para dizer: “Olhem, essa roupa fui eu que fiz para vocês. Cada vez que se despirem ou vestirem, não se esqueçam: eu costurei cada pedaço de acordo com seu tamanho. Se ficar apertada voltem, eu arrumo”.

Adão e Eva foram caminhando, caminhando. Dois anjos se colocaram à porta do paraíso, para evitar que Deus também fosse embora com os dois (do Livro do Gênesis – 3,20).

 DEUS INVENTOU O PERDÃO

Antes de fazer definitivamente o mundo, prevenindo complicações futuras, Deus fabricou um protótipo da criação. Queria analisar-lhe o funcionamento.

Realizou muitas experiências, mas não ia bem. Os planetas encontravam a teimosia das estrelas, os cometas, vaidosos, não aceitavam caminhos definidos, o riacho reclamava da água da chuva que lhe manchava a pureza, o urubu achava o beija-flor muito irrequieto para seu gosto, e também as flores reclamavam dessa avezinha gulosa e sem sossego. Para complicar, o homem reclamava da mulher, que reclamava das crianças, que reclamavam da comida… Nada parecia bom, pois cada um queria viver por si e não perdia ocasião de uma vingança.

E Deus concedeu-se um tempo para responder ao enigma: por que nada funciona, nada permanece de pé, se tudo está muito bom?

Talvez a alternativa fosse criar tudo perfeito. Mas isso não seria mais criatura e sim, cópia dele mesmo.

E na sua sabedoria e amor, tirou de seu peito a receita para deixar a criação em pé: inventou o perdão. E assim tudo foi feito.

Milhares de anos depois, a criação andava de cabeça para baixo. Percebendo a inutilidade de seus esforços, Deus tomou a decisão de a tudo destruir para realizar outra obra. Ia proferir sua palavra final de justiça, quando escutou um grito saído do profundo da história: “Pai, perdoai-lhes! Eles não sabem o que fazem!”

Olhou para baixo e viu seu Filho, nu, coroado de espinhos, se esvaindo em dor e sangue, pregado numa cruz, em Jerusalém. Deus, cheio de ternura, atendeu a seu amado Filho Jesus, pois viu que ele tinha praticado o perdão (da sabedoria hassídica).

À PROCURA DO FILHO

Enquanto os bons trabalham, escondidos nas igrejas,
religiosos e religiosas se protegem com suas vestes,
cristãos se defendem contra os maus,
excelências reverendíssimas discernem os males do mundo,
mestres de cerimônia discutem a qualidade do incenso,
reverendíssimos reprovam os que fogem de sua cartilha,
os perfeitos se orgulham de não errar,
teólogos suam para penetrar nos mistérios,
filósofos procuram a essência das coisas,
Deus sobe a mais alta montanha,
esperando, preocupado,
o retorno de um filho perdido.

A OVELHINHA PERDIDA

O Bom Pastor

O pastor percebeu a falta da ovelhinha. Para seu conforto, 99 ovelhas, gordas, bonitas, cheias de lã, estavam ali. Mas, a ovelhinha fazia falta: logo se percebia sua ausência: o sossego e o bom comportamento se instalavam, pois acabava a graça de suas aventuras. Na verdade, muita ovelha gorda gostaria de aprontar, mas tinha um nome a zelar.

O pastor, para cansaço das 99, resolveu ir procurá-la, correndo até o risco de uma revolta enquanto durasse a ausência.

Subiu e desceu colinas, saltou pedras e obstáculos, atravessou areais. Finalmente encontrou a ovelhinha: estava à beira de um riacho, bebendo água. Olhou-o com o rabinho do olho, cheia de alegria, fingindo que não era com ela.

O pastor suspirou aliviado, correu-lhe ao encontro e tomou-a ao colo. Sentiu seu coração saltando forte no peito. Estava emocionada e cansada. Feliz, encostou cabecinha em seu peito e falou-lhe cheio de ternura, enquanto ela lhe lambia o rosto: “Pobrezinha! Você está tão cansada. Ninguém me disse que você foi para longe porque estava com sede e com fome!”.

E decidiu carregá-la ao pescoço.

Chegando ao curral, deu ordens para que, a partir daquele momento, as ovelhas mais jovens caminhassem sempre à frente, para poderem pastar as ervas mais tenrinhas.

(Shemot Rabbã, II,2).

Pe. José Artulino Besen

 

 

 

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UM CACHORRO E SEU MENINO

Meu Senhor, criador e amigo de todos,
quero te agradecer por ser o “melhor amigo do homem”.
Sei que o título é uma distinção e um perigo,
eu não consigo amar quem não conheço
e acabo fazendo besteira sem pensar.
Sentir e amar, foi o que me ensinaste.
Penso até que tenho dentes em excesso,
e uso sem muito cuidado.
Quero te agradecer, nesse fim de dia,
pelo Duda, aqui ao meu lado.
Eu estou rezando, não sei se ele está…
Ele reza de olhos fechados, pois não tem medo:
afinal, estou aqui para cuidar dele.
Senhor, o Duda é muito bonito,
Está bem cheiroso (eu prefiro sujinho,
aliás, coisa suja tem muito mais cheiro bom).
Está de mãozinhas postas,
As unhas, roídas que dá pena. Isso eu não faço,
Pois as unhas me ajudam a defendê-lo.
Estou aqui de joelhos, mas enxergo tudo:
o telefone para algum socorro, um beijo à distância,
o mouse para brincar no computador,
um palhaço pintado num quadro,
uma garrafinha com água, pois a noite é comprida,
e a mãe e o pai estão cansados,
fita adesiva, que o Duda usa para me provocar
colando em minhas costas e puxando com força.
Perdôo tudo, afinal, amigo é também pra sofrer.
Meu Senhor, a cama é boa,
o cobertor é tão macio
que acabo rasgando em nossas brincadeiras.
Já estou meio velho,
não é o primeiro menino que acompanho,
e, devo dizer, há muita coisinha nesse quarto,
até um tapete para eu dormir,
mas, de gente, só eu.
Ele fala em Menino Jesus, Anjinho da Guarda,
papai, mamãe, vovô e vovó.
E onde está esse povo todo?
O Duda vive muito sozinho, meu Senhor.
Eu te agradeço por poder cuidar dele.
Quando ele dorme, eu fecho um olho e abro o outro.
O telefone toca? Eu o acordo.
Pena que faço muito barulho e acordo todos.
Se não fosse eu, Senhor, que seria do Duda?
Espero que ele reze por mim, por minha saúde:
ainda falta muito para ele tomar juízo.
Não te preocupes: eu sei cuidar dele.
Estou cansado dessa posição de rezar: Boa noite!
Boa noite para o Senhor, para o Duda.
Podem dormir: eu estou aqui.

Pe. José Artulino Besen

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IREI AO TEU ENCONTRO

Oração ao encontro da morte

Creio, sim, eu creio que num dia,
o teu dia, ó meu Deus,
me dirigirei ao teu encontro com meus passos titubeantes,
com todas as minhas lágrimas na palma da mão,
e com esse coração maravilhoso que tu nos deste,
esse coração grande demais para nós
porque foi feito para ti…

Um dia te encontrarei, e tu lerás em minha face
todo o desconforto, todas as lutas
todo o lixo dos caminhos da liberdade.
E verás todo o meu pecado.
Mas eu sei, meu Deus,
que o pecado não é grave,
quando se está na tua presença.
É diante dos homens que somos humilhados.
Mas, diante de ti, é maravilhoso sermos assim tão pobres,
a tal ponto somos amados!

Um dia, no teu dia, meu Deus, eu irei ao teu encontro.
E na autêntica explosão da minha ressurreição,
saberei então que és tu, a ternura,
que és tu, a minha liberdade.
Irei ao teu encontro, meu Deus,
E tu me darás a tua face.
Irei ao teu encontro com o meu sonho mais louco:
Entregar-te o mundo em meus braços.

Irei ao teu encontro, e gritarei a plenos pulmões
toda a verdade da vida sobre a terra.
Te gritarei o meu grito que vem da profundeza dos séculos:
“Pai! Tentei ser um homem,
E sou teu filho”.

JACQUES LECLERCQ
Collectif, Ecoute, Seigneur, ma prière,
Paris 1988, p. 490
tradução: Pe. José A. Besen
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