5. O exame de si e o discernimento

Examina-te a ti mesmo a cada dia, irmão, observando o teu coração: há algo de passional nele diante de Deus? Retira-o do teu coração a fim de que nenhuma sentença negativa caia sobre ti.

Isaías Anacoreta,
A vigilância da mente 20

É necessário que, com o socorro de Deus, extirpemos das profundezas da alma esse veneno mortífero [da ira], porque ele se estabelece em nosso coração e cega os olhos de nosso coração com turbações tenebrosas, e assim nós não podemos adquirir o discernimento daquilo que nos é útil, nem alcançar conquistar o conhecimento espiritual, nem possuir uma vontade boa e perfeita, nem tornar-nos participantes da verdadeira vida.

Cassiano,
Ao bispo Castor, p. 70

Recordo que uma vez, nos anos de minha juventude, andei pelos lados da Tebaida, onde vivia o beato Antônio (obs.: fundador da vida eremítica), e aconteceu que os anciãos se reunissem junto dele e com ele discutiam a respeito da perfeição da virtude, qual delas poderia ser a maior e estivesse em condições de proteger o monge contra as ciladas do diabo e de seus enganos. Cada um expressava seu parecer, segundo a compreensão que tinha do assunto. Alguns diziam que as maiores virtudes eram o jejum e a vigília, porque, através deles, se aproxima mais facilmente de Deus enquanto a mente se refina e se torna pura. Outros, diziam que eram a pobreza e o desprezo das próprias coisas, porque isso torna mais fácil a aproximação de Deus enquanto a mente é libertada dos múltiplos laços das preocupações mundanas. Outros preferiam a virtude da esmola, pois o Senhor disse nos evangelhos: Vinde, benditos de meu Pai, recebei como herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo, porque tive fome e me destes de comer (Mt 25,34-35). E, desse modo, cada um dizia com quais das diversas virtudes, a seu ver, o homem pode de modo melhor aproximar-se de Deus, e grande parte da noite transcorreu nessas busca.

Por último, tomou a palavra o bem-aventurado Antônio. “Tudo o que dissestes é necessário e útil para aqueles que buscam a Deus e querem chegar até ele, mas, não nos é consentido conceder a primazia a essas virtudes, porque muitos de nós se consumiram em jejuns e vigílias; nos retiramos no deserto, praticamos a pobreza a ponto de não nos conceder nem mesmo o alimento cotidiano, distribuímos esmolas a ponto de nada mais ter para dar e, depois de tudo isso, decaímos miseravelmente da virtude e caímos no mal. O que fez desviar do reto caminho? Segundo minha regra de conduta e o meu parecer, nada além do fato de não ter tido o carisma do discernimento. É o discernimento que ensina ao homem a caminhar pela via régia, evitando todo excesso de uma ou de outra parte (cf. Nm 20,17); ele não permite que sejamos tomados pelo engano à direita por uma continência excessiva, nem de ser arrastados à esquerda para a indiferença e o nada querer. O discernimento, de fato, é uma espécie de olho e de lâmpada da alma, segundo a palavra do evangelho que diz: ‘A lâmpada do teu corpo é o olho: se teu olho for simples, todo o teu corpo será luminoso, mas se teu olho for tenebroso, todo o teu olho é trevas’ (cf. Mt 6, 22-23). Na verdade é assim porque o discernimento, perscrutando todos os sentimentos e as ações do homem, distingue e divide aquilo que é mal e não agradável a Deus e afasta o homem do engano”.

Cassiano o Romano,
A Leôncio higúmeno, vol. I, pp. 85-86

Somos feitos dignos do carisma do verdadeiro discernimento quando não nos entregamos ao critério de nossa mente, mas ao ensinamento e à regra dos pais. Não há outro defeito a que mais o diabo recorra para arrastar o monge a seus precipícios do que a confiança em si mesmos, o desprezo das admoestações dos pais, o seguir o próprio julgamento e a própria vontade.

Cassiano o Romano,
A Leôncio higúmeno, vol. I, p. 90

Aquele que tudo examina e reserva o que é bom (cf. 1Ts 5,21), se livrará de todo mal.

Marcos o Asceta,
A Lei espiritual 145

Acontece, filhinho, que quem quiser carregar a cruz e seguir [o Senhor] cuide antes de tudo de ter conhecimento e inteligência perscrutando incessantemente seus pensamentos, preocupando-se pela salvação com inteligência e grande solicitude por Deus, interrogando os servos de Deus que são uma ‘só alma’ (cf. At  4,32) com ele, condividem de seu sentir e conduzem a mesma batalha, a fim de que não aconteça que, ignorando para onde vai e como caminha, avance nas trevas sem a luz de uma lâmpada.

Marcos o Asceta,
Carta ao monge Nicolau, vol. I, p. 131ab

Aquele que, por graça de Deus, com grande humildade recebeu o dom do discernimento deve proteger esse dom com todas as suas forças, para nada fazer sem discernimento, para que não lhe aconteça de se enganar atraindo para si uma grande condenação. Quem, pelo contrário, não recebeu esse dom não deve pensar, nem dizer, nem fazer nada sem interrogar, sem fé firme e oração pura; em verdade, sem eles não consegue chegar ao discernimento. Ele nasce da humildade; naquele que o possui gera clarividência, com dizem Moisés (obs.: pai do deserto) e o Clímaco (cf.: João, mestre espiritual). Quem possui o discernimento vê antecipadamente os enganos ocultos do inimigo e previne as ocasiões, como disse Davi: Pude ver meus inimigos derrotados (Sl 53,9). São sinais do discernimento: conhecer o bem sem enganar-se e o seu contrário, saber qual é a vontade divina em tudo aquilo que empreende. Os sinais da clarividência são: conhecer as próprias culpas antes ainda de praticá-las e aquilo que ocultamente é feito pelos demônios, conhecer os mistérios escondidos nas divinas Escrituras e nas criaturas sensíveis.

Pedro Damasceno,
Livro I, vol. III, pp. 71-71

O discernimento tem origem no interrogar com humildade e no desprezar-se a si mesmo, aquilo que se faz e aquilo que se pensa. O diabo assume os semblantes de um anjo de luz (cf. 2Cor 11,14); e não é de se admirar porque também os pensamentos gerados por ele aparecem a quem está privado de experiência como pensamentos de justiça.

Pedro Damasceno,
Livro II, vol. III, p. 134

O discernimento conhece o tempo oportuno, a utilidade, o estado do homem, a medida, a força, o conhecimento de quem interroga, as suas escolhas, o desígnio de Deus e o sentido de cada palavra da divina Escritura, e muitas outras coisas. Quem não possui o discernimento talvez enfrente grandes esforços, mas nada consegue levar a termo. Mas, se encontra alguém que possui o discernimento, esse é guia dos cegos e luz daqueles que estão nas trevas (cf. Rm 2,19); a esse devemos tudo submeter e aceitar aquilo que nos diz mesmo que, talvez por inexperiência, não vejamos como nos agradaria. Se reconhece aquele que tem o discernimento, contudo, pelo fato que consegue conduzir à compreensão também aqueles que se negam e não querem.

Pedro Damasceno,
Livro II, vol. III, p. 138

A boca de Cristo, a coluna da Igreja, o nosso grande pai Basílio diz que um grande bem para não pecar e não cair nos mesmos pecados no dia seguinte é examinar-nos a nós mesmos na nossa consciência no fim do dia, e nos perguntarmos o que fizemos, em que coisa erramos, o que fizemos de injusto. Também Jó fazia isso por si e por seus filhos (cf. Jó 1,5). A cada dia prestar contas das próprias ações ilumina o prestar contas a cada momento,

Hesíquio Presbítero,
A Teódulo 65

Se não sabemos o que Deus fez de nós, não teremos consciência do que o pecado fez de nós.

Gregório o Sinaíta,
Capítulos utilíssimos 50

O que fazer quando o demônio se transforma em anjo de luz (cf. 2Cor 11,14) e engana o homem? Para isso o homem tem necessidade de muito discernimento para conhecer a diferença entre o bem e o mal. Não te confies logo, por leviandade, àquilo que te aparece, mas permanece firme e, após longo exame, guarda o que é bom e rejeita o mal (cf. 1Ts 21,-22). Deves submeter à prova e discernir, e somente então crer. Saibas que os frutos produzidos pela graça são manifestos e o demônio, mesmo se se transforma, não os pode produzir. Não pode produzir a mansidão, a modéstia, a humildade, o ódio do mundo, não pode colocar fim aos prazeres e às paixões; todas essas coisas são produzidas pela graça. Ele, pelo contrário, produz orgulho, vileza e toda espécie de malícia. Pelos frutos, então, podes conhecer qual luz brilhou na tua alma, se a de Deus ou a de Satanás. O alface, olhando-se, é semelhante à salada amarga e o vinagre é na aparência semelhante ao vinho, mas o paladar os reconhece, e discerne a diferença ao prová-los (cf. Sir 36,18-19). Assim também a alma: se tem discernimento, reconhece com a percepção espiritual os dons do Espírito Santo e os fantasmas de Satanás.

Gregório o Sinaíta,
Como o hesicasta…, vol. IV, p. 88

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