PADRE RAFAEL FARACO

Padre Rafael Faraco

Padre Rafael Faraco

Rafael nasceu em 30 de novembro de 1832 na aldeia de Acqua Fredda, cidade de Maratéia, Província de Basilicata, então situada no Reino de Nápoles. No mesmo dia foi batizado na igreja sucursal de Santa Maria, na cidade de Maratéia.

Dom Miguel Bombini, bispo de Cassano, ordenou-o presbítero em 1º de setembro de 1856. Seguindo um caminho trilhado à época por muitos padres do Mezzogionro (Sul) italiano, veio para o Brasil, desembarcando na Bahia em 1º de agosto de 1861.

Apresentando-se ao bispo do Rio de Janeiro, foi-lhe indicada a paróquia de São Joaquim de Garopaba. Sua posse como vigário encomendado aconteceu em 14 de julho de 1864: uma paróquia em completo abandono.

A primeira correspondência, antes mesmo da posse, é um desabafo sobre a situação da Matriz: “Do Altar até a parte de Templo, não há coisa que preste”. A Igreja pre­cisava ser retelhada, porque chovia em diversos lugares, não tinha forro nem assoalho. Um abaixo-assinado de 11 de janeiro de 1865 pedia auxílio urgente ao Governo, na época responsável pela administração da Igreja. Com idas e vindas, e muita paciência, a reforma estava pronta em 1877, e as ruínas de novo ameaçavam a igreja.

Após carta de recomendação de Dom Pedro II, em 26 de junho de 1867 Pe. Faraco é nomeado vigário colado, isto é, vitalício, de Garopaba. Pe. Faraco atendia também a capela de Nossa Senhora dos Navegantes e, 1902, deu início à construção de uma capela no Arraial de Paulo Lopes.

Em 21 de janeiro de 1900, seguindo determinação de Leão XIII, consagrou a paróquia ao Sagrado Coração de Jesus. O velhinho emocionou-se, pelo que escreveu no Livro do Tombo: “O que se passou em tão solene conjuntura não é dado em minha vida pensar em esboçar. Apenas posso constatar que doce emoção se apossou de todos os corações, deslizando-se pelas faces de muitas lágrimas de alegria e contentamento, sinal sem dúvida evidente dos sentimentos que lhes iam na alma”.

Num pastoreio que se estende de 1862 a 1917, não se pode ignorar a marca que deixa um Vigário no coração dos pa­roquianos e na vida da terra. Pe. Faraco, além de seu trabalho espiritual, exerceu forte liderança política, nem sempre nos moldes a serem desejados em um cura d’almas. Candidato à Assembléia Legislativa, venceu 4 eleições, sendo Deputado Provincial nas Legislaturas de 1874-1875; 1876-1877; 1877-1878 e Deputado Estadual de 1898-1900.

Em pesquisa que fiz em 1980, ainda se encontrava viva em Garopaba a recordação da pessoa do Pe. Faraco. Os mais velhos se lembram daquele homem alto, enérgico, forte, decidido, que ao pedido de “bênção” de muitos meninos, respondia, resumindo: “Está todo mundo abençoa­do!”. Lembram-se do velho cura podando suas videiras que, além de fornecerem o vinho para a Missa e para a mesa paroquial, davam uvas para a molecada em geral. Pe. Faraco, com seus vinhos, recebeu medalha de prata na Exposição Nacional do Rio de Janeiro de 1908. O vinho era tão bom que o vigário o apreciava, talvez em excesso, pelo que se depreende de carta que Dom José de Camargo Barros lhe dirigiu em 24 de março de 1903, com outras repreensões: “Realmente, desde muito tempo têm chegado aos meus ouvidos alguns boatos, que V. Revma. costuma beber demais a ponto de embriagar-se, que V. Revma. não reza diariamente o Breviário, que V. Revma. não anda sempre de batina, mas que usa dela só na Igreja. Eu não dei créditos a esses boatos e deixo para verificá-los quando for aí passar na santa Visita Pastoral”.

Também lembravam, com certa amargura, o pastor que ad­miravam e o político que detestavam. Pe. Rafael era exigente e vin­gativo nas lides políticas. Tomando posição decidida pelo Go­verno do Marechal Floriano na Revolução Federalista de 1893. Aceitou colaborar com Moreira César, o Governador que com terror e crueldade sufocou a resistência legalista. Teria o Pe. Faraco – dizemos “teria” – aceito o papel de denunciar os no­mes dos federalistas, o que significava denunciar os que seriam mortos ou presos. Muitos se esconderam nas matas vizinhas, outros se humilharam, de joelhos pedindo perdão, e houve quem brutalmente fosse assassinado, sob o olhar complacente do Vi­gário. Sobre este aspecto sombrio não se encontram documen­tos, sendo talvez o maior testemunho a existência de parentes das vítimas, que ainda hoje narram – compreendendo a época e o destino fatal dos perdedores – os tristes acontecimentos. Cha­ma a atenção o fato de o Pe. Rafael Faraco ter recebido apenas 9 votos nas eleições de 1892.

Igreja matriz de Garopaba no tempo do Pe. Rafael Faraco, ainda sem a torre. Ao lado, a casa de dois andares que foi sua residência.

Igreja matriz de Garopaba no tempo do Pe. Rafael Faraco, ainda sem a torre. Ao lado, a casa de dois andares que foi sua residência.

O vigário e sua família

Pe. Faraco constrói sua própria residência na colina da igreja matriz, cujas ruínas ainda hoje se avistam, mas tomadas por outros, que do terreno fizeram usucapião. Casa grande, de dois andares, onde abriga­va o serviço paroquial e sua família. Sim, o Pe. Rafael Faraco gerou 8 filhos, todos recebendo esmerada edu­cação, e ainda na vida do pai ocupando postos de destaque na vida religiosa, social e econômica.

Sabemos apenas que o jovem padre tornou-se amigo de uma viúva, com cuja filha Arminda (nos seus 14 ou 16 anos) ia apanhar laranjas no pomar. Um dia a viúva traz-lhe à porta a mocinha grávida. Ele a acolhe. Passam a viver juntos. No casarão de dois andares que mais tarde construiu, abrigou a todos. Oficialmente, no primeiro andar vivia o padre e, no andar térreo, Arminda e a numerosa família que resultou desta união, não muito rara na época: Miguel, Teophilo, Francisco, Paulino, Daniel, Maria, Rosa e Gabriel.

Apesar de reiteradas ameaças episco­pais, não abandonou o convívio com a mãe de seus filhos. Eram outros os tempos, e as pessoas que o conheceram falam apenas que era bom Vigário e bom pai de família. Aquela gente sim­ples mal sabia que por obrigação o padre deveria guardar o celibato. Valia o princípio: “é nosso Vigário e a nós importa que seja bom Vigário!”.

Cansado pelo trabalho, adiantado em anos, pediu que fosse aceita sua renúncia. A 2 de janeiro de 1913, o Administrador Apostólico, D. João Becker, já Arcebispo de Porto Alegre após 4 anos como 1º bispo de Florianópolis, aceitou a renúncia do Pe. Faraco, que alegava as cau­sas canônicas de debilidade física e velhice. Pe. Rafael receberia, da Diocese, a pensão anual de 1:000$000 réis, continuando com o direito de receber a côngrua paga pelo Governo Federal, mas renunciando ao título de Vigário Colado e a todos os outros direi­tos.

Em 2 de janeiro de 1913, saiu Provisão nomeando Pe. João Casale, italiano, pelo prazo de um ano, Vigário da Paróquia, assumindo a 19 de janeiro. Pe. João Casale não foi muito feliz na Paróquia. Logo de início entrou em con­flito aberto com a Irmandade e com o povo. A crise se acentuou e, apenas dois meses depois, a 24 de abril, Monsenhor Francisco Topp escreveu ao Pe. Faraco pedindo-lhe que reassumisse a paróquia. Pe. Casale recebe o prazo de um mês para fazer as malas e deixar o País… O Pe. Faraco acede ao pedido e a 10 de maio reassume como vigário encarregado. Não podia fazer muito pela sua Paróquia. Vez por outra celebrava a Missa, mas aos domin­gos sempre, mesmo que lhe custasse muitos sacrifícios.

A 16 de março de 1917 assumiu a Paróquia o Vigário de Mirim, Pe. João Antônio Fidalgo, português. Dias antes estivera em Garopaba para visitar o velho Vigário ao anoitecer da existên­cia. Chegou em Garopaba no dia 11 de março e,  no dia 15  fale­cia, aos 85 anos de idade e 61 de sacerdócio, o  Pe. Rafael Faraco. São do Pe. Fidalgo as linhas sobre seus últimos dias: “Estive em Garopaba por 5 dias. Saí daqui no dia 11 e o Vigário faleceu no dia 15. Deitou-se bom de saúde no dia 9 e no dia 10, de manhã, foram dar com ele na cama, sem fala, sem sentidos e sem movi­mentos. Durante os 6 dias a inconsciência foi completa. Nada mais pude fazer do que executar fielmente o Ritual. Ele havia se confessado a mim, há pouco tempo. A sua vida, presentemente, era a de um homem que co­nheceu o seu erro e vive emendado. Tomei conta de tudo. A Irmandade ficou encarregada de cuidar de tudo e pôr tudo em ordem até eu aí voltar, para celebrar a Missa de Réquiem com alguma solenidade. O Povo quer associar-se a esse ato religioso fazendo, nesse dia, uma comunhão geral, sufragando a alma de seu Vigário”.

Foi sepultado ao lado da Matriz. Seus restos mortais fo­ram, no dia 07 de julho de 1977, transladados para o interior da igreja matriz, sede de sua consagração sacerdotal.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Joao Carlos Faraco em 17 de julho de 2013 - 11:13

    Sacro, per noi tutti.

  2. #2 por Paulo César Faraco em 5 de abril de 2015 - 10:05

    Ancora vivo nei nostri cuori

  3. #3 por Aline da Fonseca Andrade em 11 de setembro de 2015 - 10:41

    Sono molto orgogliosa di cio que ha fatto questo mio parente.
    Aline

  4. #4 por eliane guimarães da silva em 2 de novembro de 2015 - 21:36

    Eliane Guimarães da Silva sou tataraneta do padre Rafael Faraco

  5. #5 por Teresinha Faraco Corrêa em 1 de fevereiro de 2016 - 16:17

    Teresinha Faraco Corrêa sou bisneta do padre Rafael Faraco

  6. #6 por Teresinha Corrêa da Rocha em 1 de fevereiro de 2016 - 16:21

    Teresinha Faraco Corrêa sou bisneta do padre Rafael Faraco

  7. #7 por Geraldo Laudelino de Senna Filho em 22 de agosto de 2016 - 19:09

    Alguém pode me informar se Maria, a sétima filha de Raphael, tinha a quarta filha, Francisca, além de Enéas, José e Olga? Sou Geraldo Laudelino de Senna Filho, trineto de Raphael Faraco.

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