3. Positividade e limites da ascese

O Antigo Testamento é imagem da ascese do corpo, externa e sensível, mas o santo Evangelho, o Novo Testamento, é imagem da atenção, ou melhor, da pureza do coração. O Antigo Testamento não tornava perfeito nem levava à realização o homem interior no culto a Deus – pois, diz o Apóstolo, jamais a lei tornou alguém perfeito (Hb 7,19) – e proibia somente os pecados mais graves porque, livrar o coração dos pensamentos e dos sentimentos malvados, como ordena o Evangelho, é algo maior, em vista da pureza do coração, que proíbe arrancar o olho e o dente do próximo. É assim também com a justiça e a ascese do corpo – quero falar do jejum, da continência, do dormir por terra, do permanecer firme em pé, da vigília e de todas as outras coisas que se relacionam ao corpo e aplacam sua parte passional mantendo-a longe de cometer o pecado -. Conforme disse, para o Antigo Testamento também essas coisas são boas, pois educam o homem exterior e o livram de praticar as paixões, mas certamente não livram do pecar com os pensamentos, como acontece quando, com a ajuda de Deus, nos afastamos da inveja, da ira, e do resto.

Esíquio Presbítero,
A Teódulo 112

Alguns irmãos, que estavam continuamente doentes e não podiam praticar o jejum, me diziam: “Como podemos, sem o jejum, libertar-nos do diabo e de suas paixões?”. Deve-se dizer-lhes: “Não é somente com a abstinência dos alimentos, mas também com o grito do coração que podeis extirpar e expulsar as maldades e o que elas sugerem. De fato, foi dito: Na sua aflição gritaram ao Senhor e ele os libertou (Sl 106,6). Também está escrito: Do ventre do Hades escutaste o grito da minha voz (Gn 2,3), e: ‘Livra da corrupção a minha vida’ (cf. Gn 2,7). Por isso, enquanto não passar a iniqüidade, a perturbação provocada pelo pecado, gritarei ao Deus altíssimo (cf. Sl 56,3), para que nos conceda esse imenso dom em nosso benefício, faça desaparecer o estímulo do pecado com o seu poder, cancele os ídolos do ânimo vencido pelas paixões, liberte dos ídolos a nossa Atenas cheia de ídolos (cf. At 17,16). Se, portanto, não recebeste o carisma do domínio de ti, saibas que o Senhor quer que os teus pedidos sejam ouvidos através da oração e da esperança. Se, portanto, conheces o juízo do Senhor, não te desencorajes pela fragilidade de tua ascese; antes, procura libertar-te do inimigo através da oração e de um paciente suportar. Se os pensamentos de fraqueza e de miséria te expulsam da cidade do jejum, foge para uma outra (cf. Mt 10,23), isto é, para a oração e a ação de graças.

João Carpácio,
Aos monges da Índia 68

Nenhum de nós, com as próprias forças, pode levar a melhor sobre as insídias e as artes do inimigo; consegue-se com a invencível potência do Cristo. Portanto, inutilmente se enganam aqueles que em seu orgulho afirmam poder eliminar com a ascese por eles praticada e com a sua vontade o pecado, que é eliminado somente pela graça de Deus, porque posto à morte no mistério da cruz. Por isso, também o astro da Igreja que é João Crisóstomo diz que não basta o empenho do homem se não se recebe também um impulso do alto. E, igualmente, que também não ganhamos nada recebendo um impulso do alto sem o nosso empenho. Judas e Pedro nos mostram ambas as coisas. O primeiro, mesmo tendo recebido um grande socorro, dele não extraiu nenhum proveito (cf. Mt 27,3-5), porque nem quis nem deu a sua contribuição. Pedro, ao contrário, mesmo sendo cheio de boa vontade, não tendo recebido nenhum socorro, caiu (cf. Mt 26,70-74); a virtude é tecida com essas duas coisas. “Por isso vos peço, diz Crisóstomo, não dormir deixando tudo para Deus, nem pensar que, empenhando-nos, podemos tudo realizar com nossas fadigas” (cit. não encontrada).

Teodoro, bispo de Edessa,
Capítulos 68

Aquele que faz sofrer a flor da carne mediante a ascese e quebra toda sua vontade traz os estigmas de Cristo na sua carne mortal (cf. Gl 6,17).

As fadigas da ascese terminam no repouso da libertação das paixões; a superficialidade termina nas paixões vergonhosas (cf. Rm 1,26).

Teodoro, bispo de Edessa,
Capítulos 76-77

A ascese requer o suportar e paciência. Um prolongado amor pela fadiga afasta o amor pelo prazer.

Conserva idêntica a medida da ascese e não transgredir a regra a não ser em caso de necessidade.

As fadigas da ascese, como o jejum, a vigília, o suportar e a paciência tornam pura a consciência.

Talássio Líbico,
Sobre a caridade 3,10.12.14

Bela é a ascese, se praticada com reta intenção, e isso devemo-lo considerar não como uma obra, mas como preparação de uma obra, não como fruto, mas como a terra que, com o tempo, a fadiga e o socorro de Deus pode nutrir plantas que produzem fruto, isto é, a purificação da mente e a união com Deus.

Pedro Damasceno,
Livro II, vol. III, p. 135

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