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CREIO NA RESSURREIÇÃO DA CARNE

Creio na ressurreição da carne!, afirmamos com alegria no 11º. artigo do Credo, nossa Profissão de Fé. “A confiança dos cristãos é a ressurreição dos mortos; crendo nela, somos cristãos”, se afirma desde o início do Cristianismo. A cada ano, no dia 2 de novembro, com a Comemoração dos Fiéis defuntos celebramos nossa fé em nossa ressurreição pessoal e na de nossos irmãos..

Em nossa sociedade hedonista, que reduz a perspectiva de felicidade para o aqui e o agora, crer na ressurreição parece desnecessário, porque se prefere afirmar que não há ressurreição e nossa sepultura é o último endereço. Se assim é, aproveitemos a vida e não percamos tempo com suposições, preferem muitos afirmar.

Nós cristãos, porém, cremos na ressurreição da carne, esperamos ardentemente o encontro final com o Criador. Essa esperança nos faz viver bem, porque cada dia é precioso, não podemos perder tempo, investimos a vida naquilo que é bom e justo. A fé na ressurreição faz de nossa vida uma escola de amor para o encontro com o Amor, uma escola de fraternidade para o encontro com o Pai. Com tão firme esperança, a morte não nos amedronta, pois sabemos que ela foi derrotada na Cruz. Existe a morte natural, afinal, nosso corpo segue os limites da natureza, mas não existe mais a morte metafísica, esse poder maligno que nos quer destruir.

Mas, o que é a ressurreição da carne? Primeiro, temos de responder a uma outra pergunta: o que entendemos por carne? Consideremos a Eucaristia: quando Jesus diz “quem come minha carne e bebe meu sangue” (Jo 6,56), está afirmando: “Quem me receber como alimento”. Carne e sangue significam a mesma realidade: a pessoa. Tanto isso é claro que comemos o Pão e estamos recebendo o Senhor em sua Carne transfigurada. Permanecem as espécies do pão e do vinho, mas agora transfiguradas no Corpo e Sangue do Senhor ressuscitado.

Somos espírito encarnado

Desse modo, quando professamos “creio na ressurreição da carne” estamos dizendo “creio na ressurreição da pessoa”. Na linguagem bíblica o termo “carne” significa pessoa na sua integridade. Nós não fomos criados corpo e alma, como duas realidades separadas: Deus soprou o espírito de vida num corpo que se tornou, desse modo, ser vivente, pessoa humana (Gn 2,7).

Por influência do dualismo grego, do platonismo (que dizia que a alma é prisioneira do corpo) somos levados a pensar o homem como composto de duas partes separáveis: o espírito e o corpo. Hoje somos convidados a superar essa dualidade, pois assumimos a linguagem bíblica: nós, carne, somos um espírito encarnado. Os anjos são espírito puro. Nós, porém, não somos anjos, somos homens e mulheres, somos alma na carne, de modo inseparável.

O Espírito que ressuscitou Jesus dentre os mortos dará vida a nossos corpos mortais mediante o Espírito que habita em nós (cf. Rm 8,11): “corpo”, aqui, é a pessoa humana cuja morte foi vencida por Cristo no Espírito.

E como fica nosso corpo que vai para a sepultura e se decompõe? Nós não sepultamos uma pessoa, sepultamos um cadáver. Não há ninguém enterrado nos cemitérios e sim, cadáveres que retornam ao pó. A morte foi vencida: nós morremos, sim, mas logo somos ressuscitados pelo poder do Espírito.

Há uma outra conseqüência: como não somos anjos, mas espírito encarnado, no momento da morte recebemos um corpo transfigurado, pois continuamos a ser humanos. A linguagem dualista diz que o corpo vai para a sepultura e a alma para o julgamento e, no final dos tempos, os dois se reunirão. Podemos crer assim, pois a tradição catequética da Igreja, inclusive o atual Catecismo, ainda se servem da linguagem dualista: corpo e alma. Mas, devemos superar o dualismo corpo e alma como fruto do aprofundamento da Palavra de Deus que nos afirma que o Criador criou anjos (puros espíritos) e o homem e a mulher (espírito encarnado). Aqui entra igualmente a antropologia, o estudo do ser humano: somos pessoas humanas porque somos espírito encarnado. Não somos divisíveis.

A eternidade, superação do tempo e do espaço

Surge muito a pergunta: e depois, o que acontece? Para onde se vai? No momento da morte nós deixamos a condição humana que vive no tempo (quando?) e no espaço (onde?). Então, não faz sentido perguntar nem o onde nem o quando. Houve época em que se falava em 10 anos de purgatório, cinco meses de purgatório e os artistas até desenhavam ou descreviam a situação do Purgatório. Não faz muito tempo, ainda se pintava o Purgatório como um lugar de fogo, sede, sofrimentos, mas, isso é contraditório, pois na eternidade não há tempo nem espaço. O Purgatório é um estado de purificação diante do Deus Amor e não um lugar.

Se é assim, qual o sentido de rezar por alguém que morreu anos atrás? Por que somos convidados a rezar pelos mortos? É muito importante essa oração, pois, no momento de nosso julgamento, Deus tem diante de si todas as orações feitas e que se farão por nós, como tem diante de si toda a nossa vida. Deus é o eterno presente: todas as nossas orações, Missas celebradas pelos falecidos no presente e no futuro estão diante de Deus.

Nesse instante sentiremos a dor de nosso amor imperfeito (purgatório), sentiremos a alegria de entrar na vida divina (céu) e podemos optar pelo desespero eterno (inferno). Tudo isso já acontece fora do tempo. Alguém perguntaria: e como fica o corpo se não há espaço nem tempo? A pessoa humana – corpo encarnado – é transfigurada pelo poder do Espírito. Veja o que aconteceu com Jesus: ressuscitado, continuou sendo Verbo feito Carne, mas entrava por portas fechadas, pois estava transfigurado. Assim seremos nós. E o que acontecerá com nossas cinzas no cemitério? Tanto João Paulo II como Bento XVI ensinam que a nossa ressurreição não supõe nossa natureza física atual: Deus nos dará um corpo glorioso.

Graças damos a Deus que nos oferece tão feliz herança: habitar entre os santos e anjos pela eternidade. E tudo isso, porque Cristo ressuscitou: “Se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação e vazia é também a vossa fé. Mas não! Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que adormeceram” (1Cor 15,12-14-.20).

Acima de tudo, tenhamos firme o olhar que contempla o Deus da misericórdia:

Um dia te encontrarei, e tu lerás em minha face
todo o desconforto, todas as lutas
todo o lixo dos caminhos da liberdade.
E verás todo o meu pecado.

Mas eu sei, meu Deus,
que o pecado não é grave,
quando se está na tua presença.
É diante dos homens que somos humilhados.
Mas, diante de ti, é maravilhoso sermos assim tão pobres,
a tal ponto somos amados!”
(Jacques Leclercq).

Pe. José Artulino Besen

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A MORTE, PLENITUDE DE VIDA

Cristo Ressuscitado na Igreja, penhor de nossa ressurreição (Centro Aletti)

Cristo Ressuscitado na Igreja, penhor de nossa ressurreição (Centro Aletti)

As almas dos justos estão nas mãos de Deus
e nenhum tormento as atingirá.
Eles estão em paz” (Sb 3,1-7).

Diante de um túmulo, onde acabamos de depositar os restos mortais de um familiar, de um amigo querido, de um jovem, uma criança, o silêncio é o discurso mais forte e convincente. O silêncio da morte se confraternizando com o silêncio da dor, da solidariedade. E, talvez, achemos que tudo foi um absurdo, que a vida não passou de uma grande ilusão, que o amor de Deus por nós foi uma brincadeira de mau gosto.

Pensamos que a morte seja o fim, que não valeu tanto esforço. Para um cristão, porém, não é assim. Ao descrente, a morte pode ser irmã da desesperança, mas para quem crê, a morte é apenas um passo que nos leva da esperança da eternidade feliz à posse da felicidade eterna.

A morte é a plenitude da vida. É o momento mais significativo da existência humana. Naquele momento em que os olhos se fecham para a vida terrena, a vida atingiu seu momento mais pleno: naquele instante colocamos nas mãos tudo o que fomos e fizemos em nossa vida. Como que, dizemos ao mundo e a Deus: “Eis o que consegui fazer com minha vida!”. Ali se encerra a etapa do crescer e fazer, do construir, do realizar o bem e o mal. O momento do nascimento foi o início de um projeto: o instante da morte é o balanço final deste mesmo projeto.

Não é importante viver muitos anos: o importante é nascer. Quando a criança vem à luz, inicia seu caminho para a eternidade. Um caminho longo ou breve, fácil ou difícil, levado com seriedade ou na brincadeira, mas um caminho que desemboca irreversivelmente na existência sem fim. No instante da morte fechamos os olhos à luz do mundo para, em seguida, os abrirmos às portas do Reino da Luz, onde existiremos no amor em plenitude, em Deus.

Não tememos esse momento, pois o Deus do amor e da misericórdia “que nos carregou ao colo e nos acariciou no regaço” (Is 66,12) é o motivo de nossa confiança. “Ainda que eu atravesse o vale escuro, nada temerei, pois estás comigo” (Sl 22,4).

A morte nos ensina como a vida é importante, decisiva. Ensina-nos, igualmente, como as pessoas são importantes. Tão importantes que fazem falta ao morrerem, deixam-nos um vazio impossível de ser preenchido, por que cada pessoa é única. Não será repetida. Sua vida foi uma missão dada por Deus. O que ela não fizer, ninguém mais o fará. Deus não nos fez criaturas descartáveis, mas necessárias para seu plano de amor. E mais: Deus não nos jogou no mundo como brinquedos nas mãos do destino. Criou-nos para sermos seus filhos, num primeiro momento vivendo a existência terrena e depois, junto dele, eternamente.

A partida de alguém nos faz mergulhar na saudade. Recordando as palavras do grande intelectual cristão: “Passamos a vida dizendo adeus: adeus aos anos, adeus à saúde, adeus aos projetos pessoais, adeus aos amigos. E num dia diremos A DEUS – vou para Deus”. Mas essa mesma partida do mundo é a chegada a Deus, que também tem saudades de seus filhos e os quer junto de si. Deus nos leva quando estamos maduros, “como um feixe de trigo que se recolhe a seu tempo” (Jó 5,26).E toda a despedida é um “até logo”, pois logo mais também chegaremos à plenitude de nossa vida, também nós abriremos nossos olhos à Luz eterna. E será o reencontro final na casa do Pai, na nossa casa: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Depois de ir e vos preparar um lugar, voltarei e vos tomarei comigo, para que, onde eu estou, também vós estejais” (Jo 14,2-3).

Pe. José Artulino Besen

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A ASSUNÇÃO DE MARIA AO CÉU

Assunção de Maria aos Céus (Rubens)

A Virgem Maria recebe tem duas celebrações no calendário católico: em 8 de dezembro, a Imaculada Conceição (Maria foi concebida sem pecado no ventre de sua mãe Ana) e, em 15 de agosto, a sua assunção ao céu.

A assunção de Maria significa que, ao terminar sua existência terrena, Maria foi levada ao céu em corpo e alma. Não há sepultura com os restos mortais da Mãe de Jesus: imediatamente após a morte ela foi glorificada. Certamente os Apóstolos que naquele dia estavam em Jerusalém ficaram desolados ao ver morta a Mãe amada do Senhor e que na cruz lhes fora entregue como mãe. Podemos meditar o carinho que os discípulos tinham por essa mulher cheia de graça, de bondade, exemplo de fé total. A tristeza, porém, converteu-se em festa quando viram Maria ser glorificada e ressuscitada.

A morte é conseqüência do pecado e inclui o retorno ao pó donde viemos. Com Maria isso não aconteceu porque ela foi concebida sem pecado e, em toda a sua vida, jamais pecou. Por isso não poderia pagar o preço por algo que não cometera.

Quando o arcanjo Gabriel a visitou para anunciar-lhe que fora escolhida para ser a mãe do Salvador, saudou-a como “cheia de graça”, “bendita entre as mulheres”. Maria era pura graça, pura obediência a Deus, nascera e vivera na total fidelidade à vontade de Deus: “eu sou a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a sua vontade”, respondeu ela a Gabriel. Maria entregara a Deus sua vontade: a vontade de Deus era a vontade dela.

Por causa dessa sua obediência total e por ter gerado o Salvador do mundo, Maria foi a primeira criatura a receber de seu Filho a vida eterna em plenitude, em corpo e alma.

Nossa esperança é a ressurreição

Ao contemplarmos a glória de Maria, devemos nos encher de alegria: também nós queremos e podemos ser glorificados; basta que declaremos a vontade de Deus como nossa vontade, basta que aceitemos ser tocados pela graça do Espírito Santo, ser lavados pela Água viva que jorra do trono de Deus.

Nosso destino não é a tragédia de uma sepultura onde se diz: aqui descansa fulano de tal. Nosso destino é a Casa de Deus na eternidade, nossa casa paterna. O que Maria recebeu logo após a morte, nós também receberemos se seguirmos o mesmo caminho de fidelidade.

A sociedade consumista nos faz pensar que é impossível haver coisa melhor do que a vida terrena e, deste modo, muitos duvidam da eternidade, julgando que nosso endereço final é a sepultura. Chegamos a duvidar da criatividade de Deus, pensando que a vida eterna não pode ser melhor do que essa vidinha que levamos. Deus nos oferece muito mais: oferece a vida divina, a posse dos bens celestes, a libertação dos desejos, do egoísmo, da angústia.

Não é difícil o caminho de Deus: ele mesmo vai à nossa frente. Basta segui-lo com generosidade, e sabendo que não podemos ir sozinhos: nossos irmãos devem ter nossas mãos para conduzi-los. A fraternidade terrestre é condição para a fraternidade celeste.

Festejemos a assunção da Mãe de Deus. E, com Maria, sigamos o caminho de Jesus, aceitemos sua verdade e teremos sua vida.

Pe. José Artulino Besen

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AS MULHERES, APÓSTOLAS DOS APÓSTOLOS

As Mulheres Miróforas (Siena)

Na Liturgia romana, elas inauguram o Evangelho da Vigília pascal e, na Liturgia ortodoxa, são comemoradas no 2º. Domingo da Páscoa. São mulheres que amavam o Senhor e foram ungir seu corpo. Os Evangelhos citam o nome de algumas mulheres que acompanharam Jesus até aos pés da cruz: Maria de Mágdala, Maria mãe de Tiago menor e de Joses, Salomé, mãe dos filhos de Zebedeu, Joana e Suzana. Um laço as unia: todas tinham sido curadas de doenças e libertas de espíritos imundos. E, claro, Maria, a Mãe do Senhor.

A liturgia lembra a delicadeza das Mirróforas, mulheres que saem de casa nas primeiras horas da madrugada de domingo para ungir o corpo do Senhor. Ele fora sepultado às pressas, merecia muito mais: sem economizar, adquiriram os ungüentos e os melhores perfumes para ungi-lo. Um amor destemido era o delas: não pensaram na pesada pedra a ser retirada nem nas hostilidades de muitos judeus, dos quais tinham ouvido os gritos blasfemos. Amavam Jesus, a quem serviram em suas andanças apostólicas, permaneciam fiéis ao Mestre quando outros o haviam traído e dele lembravam a bondade, a misericórdia, a amizade demonstradas sempre.

A Liturgia ortodoxa descreve a cena com imensa delicadeza: “Ao amanhecer as Mirróforas, tomando consigo os aromas, foram ao sepulcro do Senhor e notando coisas que não esperavam, pasmas ao ver a pedra removida, diziam uma à outra: – Onde estão os lacres do túmulo? Onde estão os guardas que Pilatos enviou por precaução? Mas seus temores cessaram ao ver o anjo resplandecente dirigir-se a elas dizendo: – Por que buscais em pranto Aquele que está vivo e vivifica o gênero humano? Cristo, nosso Deus onipotente, ressurgiu dos mortos e doa a todos nós a vida imortal, a iluminação e a grande misericórdia”. Então as santas mulheres derramaram óleos perfumados e lágrimas no sepulcro, e sua boca encheu-se de júbilo ao proclamar: O Senhor ressuscitou!”. Outro Tropário bizantino resume o mistério: “Às piedosas Mirróforas junto ao túmulo, o Anjo disse: Os aromas convêm aos mortos! Cristo, porém, é incorruptível. Cantai antes: O Senhor ressuscitou, dando ao mundo a grande misericórdia”.

Apóstolas dos Apóstolos – evangelizadoras dos evangelizadores

Foram as primeiras a receber a ordem de anunciar a Ressurreição: apóstolas dos apóstolos. Até hoje são as que mais se solidarizam com Maria aos pés da cruz, e com os pobres nos quais vêem o retrato do Senhor dos Sofrimentos.

Uma Antífona da liturgia lembra o encontro de Jesus com aquela que “Tendo ido com fé até o poço, a samaritana contemplou a ti, água da sabedoria. Dessedentada por ti com abundância, obteve o reino do céu por toda a eternidade, e sua memória é gloriosa”.

Mas, fiquemos nas mulheres Mirróforas, as que levaram ungüentos e perfumes para embalsamar o Senhor. Não foi somente esse o seu gesto de carinho. Os Evangelhos tecem o louvor dessas mulheres transformadas pela misericórdia de Jesus. Nenhuma mulher condenou Jesus, nem a pagã mulher de Pilatos. O ódio veio dos homens que se julgavam senhores da Lei de Deus. Foram as únicas que acompanharam o Senhor, correndo o risco, pois estavam do lado de um condenado, o que não as recomendava. Nós lhes somos gratos porque, ao longo da subida do Calvário, o choro das mulheres foi o único som amigo que chegou aos ouvidos do Salvador. Foram, com os do jovem João, os últimos olhares compassivos contemplados por Jesus antes de morrer, e seus olhares foram os únicos olhares de amor e compaixão que ele contemplou. Foram as últimas que viram o olhar amoroso do Senhor, devastado pela dor, mas com força para dizer: “Pai, perdoai-lhes, pois não sabem o que fazem”.

Passada a tragédia do Calvário, de madrugada vão ungir o corpo do Senhor e são as primeiras que viram o Ressuscitado porque foram as últimas que o acompanharam. Recebem a missão de serem Apóstolas dos Apóstolos, evangelizadoras dos evangelizadores.

Em nenhum momento da vida pública se escandalizaram de Jesus ou o evitaram: “Bem-aventurado quem não se escandalizar de mim”. Não se deixaram contaminar pela linguagem da inteligência, mas se alimentaram da linguagem do amor: Deus é amor. Foram as únicas, depois de Maria, que tinham compreendido o espírito do Evangelho.

É de Maria Madalena o grande anúncio, para todo o tempo princípio da experiência religiosa cristã: “Eu vi o Senhor!” (Jo 20,18). Quem não teve esse encontro pessoal desconhece a transformação que acontece somente naquele que também pode dizer, na fé: “Eu vi o Senhor!”. Por primeiro, essas mulheres tiveram a graça de anunciar: “Eu vi o Senhor!”

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NÓS CREMOS NA VIDA ETERNA

“Se cremos que Jesus morreu e ressuscitou,
assim também os que morreram em Jesus,
Deus há de levá‑los em sua companhia”
(1Tes 4,14).

Finados 2São Paulo divide os homens em duas categorias: os que vivem tristes porque não têm esperança, e os que vivem felizes, porque têm esperança (cf. 1Tes 4, 13ss).

Tem esperança o que sabe que a vida começa em Deus, ultrapassa os poucos anos passados na terra, e em Deus continuará para sempre. O pensamento da morte, então, consola e não desespera, pois sabe que tudo tem sentido, que tudo está orientado para o encontro final da criatura com o Criador. Nada do que realiza é sem importância, pois tudo está orientado para a posse de uma eternidade feliz.

A certeza da ressurreição faz com que o idoso não desanime ao ver que suas forças definham, que serão sempre menos os anos de sua vida. Faz com que o doente irrecuperável tenha um horizonte de vida, além do sofrimento e da morte certa. Faz com que não se desespere diante da morte de uma criança inocente, de um jovem no vigor da mocidade. Porque a figura deste mundo passa, mas a vida permanece para sempre.

O cristão não perde a cabeça diante dos desafios da vida, não perde a alegria de viver, mesmo carregando cruzes pesadas, porque diante de si tem um horizonte onde brilha a Luz que não tem fim. Ele não sabe quais serão seus próximos passos, mas sabe qual será o final: a festa sem fim no Reino de Deus. A sua caminhada pode ser marcada por lutas difíceis, mas tem confiança na vitória final da vida sobre a morte. Tudo passa, somente a vida permanece.

Toda essa esperança, porém, não o faz fugir dos compromissos diante do mundo e da vida. Pelo contrário: o horizonte da ressurreição leva‑o a empenhar‑se com mais vigor para que, já aqui, sinta o gosto da eternidade. Ele sabe que todos ressuscitarão: por esse motivo se esforça para que mais gente caminhe, confortada pela esperança da eternidade. Tendo a certeza da comunhão final com Deus quer, já agora, reunir os filhos de Deus numa grande família.

A ressurreição mostra com clareza a importância da vida: conhecendo o final, não se desviará do caminho que a ele conduz, não empenhará sua existência naquilo que a traça destrói e a ferrugem corrói. Evitará fazer qualquer coisa que o impeça de ver a Luz final.

O homem passará pela experiência da morte, mas não pela experiência do abandono do Deus vivo que o gerou. O Deus que o chama carinhosamente de filho, não o destruirá para sempre. Quer tê‑lo para sempre junto de si; é o Criador buscando ansiosamente o encontro final e definitivo com a criatura.

Por isso conserva viva a esperança, e é feliz. Cristo ressuscitou. Nele a garantia de nossa ressurreição.

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NOSSOS MORTOS – MEMÓRIA E CINZA

Finados 3

Em dois de novembro, dia de Finados, Comemoração dos Fiéis Defuntos, nos dirigimos aos cemitérios e com carinho depositamos flores e acendemos velas nos túmulos das pessoas queridas. Pais recordam filhos que partiram, filhos recordam pais, esposos lembram os mortos, amigos pranteiam amigos: todos agora igualados pela morte, na expectativa da feliz ressurreição. Ver um túmulo nos pode desafiar a fazer o bem que aquela pessoa ali recordada fez, ou evitar, sem julgamento, a violência que essa pessoa criou ao seu redor. Recordar os artífices da justiça, da paz e da beleza nossos ancestrais ou contemporâneos.

É a casa da memória, da gratidão, da reconciliação. Geralmente visitamos o cemitério e ornamentamos os túmulos na véspera dos Finados, no dia de Todos os Santos. Uma visão da fragilidade humana e um desafio à santidade a que somos chamados por nossa imagem e semelhança de Deus.

Gostaria de apresentar uma breve reflexão sobre um costume que se impõe: a cremação de cadáveres, iniciada no século XIX no ardor do ateísmo/panteísmo/materialismo e hoje muito especialmente em países secularizados. Decide-se por túmulos sem nenhuma identificação ou por espalhar as cinzas ao vento. Iniciamos dizendo que o Código de Direito Canônico, o Catecismo da Igreja Católica (n. 2301) e o Diretório sobre a Piedade popular não opõem obstáculos à cremação em si, mas quanto à motivação e ao destino das cinzas.

Muitas pessoas têm dificuldade de encarar a morte de seus semelhantes, pois quebra o ritmo ordinário da vida com a imagem de alguém que se ausenta. Na sociedade secularizada a morte é muitas vezes ocultada. Melhor encerrar tudo entregando o cadáver a uma empresa, para evitar o incômodo de um “morto”, por mais querido que seja. A cremação surge como um caminho breve. Mas, será que a cremação respeita o desejo dos parentes e amigos que gostariam de visitar a sepultura? Não estaria subjacente a negação da dignidade do corpo, em vida comunicador de vida, de afeto, de trabalho, de alegria? Em outros tempos previa-se até uma Missa do Cadáver, celebrada nas Faculdades de Medicina: unia-se ali a oração pelos mortos ao respeito pelos cadáveres que seriam objeto de estudos dos estudantes. Era o respeito pelos restos mortais de pessoas nem conhecidas.

A face mais delicada é a possibilidade interrompida da memória dos que nos precederam, negando aos descendentes a memória dos antepassados. Por que hoje se dá tanta importância à busca dos restos mortais das vítimas das guerras, dos genocídios, das vítimas da violência da Ditadura do Brasil? É o desejo sagrado de dar-lhes uma sepultura, um lugar de descanso. Veja-se a dor dos parentes das vítimas de acidentes aéreos: como dói não poder contemplar e sepultar os restos mortais de pessoas queridas!

Após o ato da cremação – geralmente feito com grande respeito – espera-se em casa a urna com as cinzas. Alguns as dispersam no mar, outros em um jardim, outros as guardam em casa.

Psicólogos e sociólogos advertem: o rito da cremação quebra o rito do luto com a entrega dos restos mortais a uma empresa. Guardar as cinzas em casa cria um ambiente onde não se faz a distinção do lugar dos vivos e dos mortos, com um clima doentio de luto sem fim. A urna com as cinzas, guardada em casa, pode ser respeitada pelos parentes atuais. E no caso da venda do imóvel, anos depois, não haveria o perigo de se jogar tudo no lixo?

Talvez o lado mais grave do dispersar as cinzas ou conservá-las em casa seria o negar a memória pública dos que nos precederam. Uma sociedade caminha olhando os caminhos traçados pelos antepassados. O corpo de nossos mortos é relíquia venerável ou incômoda?

Uma solução apresentada é haver nas igrejas, capelas de cemitérios, espaços onde colocá-las por algum tempo, até a superação natural do rito da saudade. E depois depositá-las nos locais públicos onde são inumados muitos falecidos.

Outro perigo é a transferência do rito do sepultamento para empresas que lucram com ofertas de cerimônias sofisticadas, mas que tiram o envolvimento dos familiares. Já existe mercado de luxo para velório, cremação de pessoas (e de animais de estimação).

Aqui e ali se denunciam abusos: cremação de diversos corpos ao mesmo tempo, revenda das vestes, ornamentos e da própria urna. Se o morto é parte de um negócio, nada impede o mergulho no mundo da esperteza.

Nas orações diante de um morto lembramos a alegria trazida por aquele corpo, sua purificação pela água batismal, sua unção com o óleo do Crisma, sua alimentação pelo Pão eucarístico, agradecemos a Deus pelo instrumento de amor que foi e pedimos perdão se foi instrumento de ódio, violência, ou se foi maltratado pela fome, pelas misérias de nosso egoísmo.

Como é bom que aprendamos a lembrar, com Simone Weil, que a maior graça que nos é dada é saber que os outros existiram. E que continuam a existir.

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RESSUSCITADOS COM CRISTO E EM CRISTO

Anastasis

Anastasis

Um surdo não é autoridade para avaliar a afinação de uma orquestra, um analfabeto não pode ser crítico literário. Assim, para sentirmos e vivermos a realidade da Páscoa temos de buscar o testemunho dos que a viveram e vivem, dos que têm fé, foram tocados pelo poder do Ressuscitado, como Maria, Tomé, os discípulos de Emaús, Pedro, Paulo, os cristãos. Os descrentes não podem testemunhar o poder do Ressuscitado, pois não se deixam por ele tocar.

Aqueles que sentiram e sentem a presença viva do Senhor são tomados pelos frutos da Páscoa: a alegria, a luz, a vitória sobre a morte, a passagem para a verdadeira vida, a participação cósmica.

O Ressuscitado que ressuscita

O Novo Testamento não descreve o momento da ressurreição: descreve a descida ao túmulo e, em seguida, as aparições após o túmulo ser encontrado vazio. Escrevendo aos Corintios pelo ano 53, pouco mais de 20 anos após os acontecimentos, Paulo já se reporta a uma tradição e cita um texto que, pelas características literárias, era usado na catequese: «Eu vos transmiti o que eu mesmo recebi» (1Cor 15, 3-7): «Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado e, ao terceiro dia, ressuscitou, segundo as Escrituras; e apareceu a Cefas e, depois, aos Doze» (1Cor 15, 3-7).

E apareceu a Paulo: atingido por um amor irresistível, o perseguidor se torna Apóstolo e nunca mais esquece aquele que o tirou das trevas. E, nestes dias de 2006, apareceu ao afegão Abdul Rahman, um muçulmano que se converteu ao cristianismo: tocado pela Luz do ressuscitado não hesitou em responder ao juiz que lhe propôs retornar à fé muçulmana para escapar da forca: «Não! Sou cristão!». Continua a tradição dos mártires, dos que sentiram a alegria da ressurreição e perderam o medo da morte.

Revelação eterna do amor do Pai pela humanidade, Cristo é amor sem limites, não está separado de nada, de nenhum de nós, do início ao fim da história: carrega em si toda a humanidade: «(…) nele vivemos, nos movemos e somos (…) Somos de sua raça» (At 17,28). «Deus nos ressuscitou com Cristo e nos fez sentar nos céus em virtude de nossa união com Cristo Jesus» (Ef 2, 6). «Considerai-vos mortos para o pecado e vivos para Deus, em Cristo Jesus» (Rm 6,11). «Vós todos que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo» (Gl 3, 27). O que é de Cristo é também nosso: o que ele venceu é também nossa vitória.

Com facilidade afirmamos que Cristo está em tudo mas, é com dificuldade que aceitamos a conseqüência mais importante: tudo está em Cristo, porque o Pai tudo lhe entregou. Estamos de tal modo nele e dele somos, que Pedro pertencermos à mesma raça (At 17,28). Ele é tão familiar a nós que, na eternidade, no primeiro encontro diremos maravilhados: «Já o conhecia!».

Cristo Luz, fogo que purifica

«Cristo ressuscitou dos mortos, com a morte destruiu a morte e aos mortos, nos túmulos, devolveu-lhes a vida!», celebra a da Liturgia bizantina. Mas, por que a ressurreição permanece secreta, o sofrimento continua? Somos rodeados por experiências de morte, de destruição ambiental, e como explicar que tudo está em Cristo?

O Senhor respeita a nossa liberdade, não se impõe. Não é a ressurreição que suscita a fé, mas a fé é que leva à ressurreição. Se aceitarmos ser recebidos por ele, as cruzes podem ser caminhos de ressurreição. É preciso querer ser tocados pelo corpo do Ressuscitado, nas palavras tão fortes de São Cirilo de Alexandria: «Como o ferro, ao contato com o fogo, assume a cor do fogo, assim a carne, tendo recebido em si mesma o Verbo deificante, é libertada da corrupção. Por isso Cristo se revestiu de nossa carne, para libertá-la da morte» (Homilias sobre o Evangelho de Lucas 5, 19). No corpo glorioso do Senhor arde o fogo do Espírito: se nos toca o medo de termos a vida plena, ficaremos nas sombras da morte, na paz dos túmulos. Se buscamos a vida nova, o Fogo consumirá nossa corrupção e nos deixará novos e, como o ferro incandescente muitas vezes martelado, assumiremos a forma de Cristo.

Podemos também nos servir de uma comparação da química: o carvão e o diamante têm a mesma estrutura química. A diferença está em que o carvão assimila o calor, oferecendo calor, permanecendo carvão, e o diamante deixa-o passar, tornando-se luz, luminosidade. Assim, o Espírito Santo é a luz que revela o Senhor onde habitamos e o Senhor que nos habita.

Festejando a Páscoa do Senhor e a nossa páscoa, cantemos nos servindo de um Hino dos cristãos do século V-VI:

«Páscoa esplendorosa, Páscoa do Senhor, Páscoa!
Uma Páscoa puríssima sobre nós brilhou! Páscoa!
Com alegria abracemo-nos uns aos outros!
Ó Páscoa, que destrói a tristeza!
Dia da ressurreição!
Resplandeçamos de alegria por esta festa,
abracemo-nos uns aos outros,
chamemos “irmãos” também aos inimigos,
perdoemos tudo e todos pela ressurreição, e assim cantemos:
Cristo ressuscitou dos mortos»!

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