MONSENHOR AFONSO EMMERDOERFER

Mons  Afonso Emmendoerfer - 2007

Mons. Afonso Emmendoerfer – 2007

Na manhã de 12 de dezembro de 2013, na igreja matriz de Tijucas foi celebrada Missa de Exéquias de Mons. Affonso Emmerdoerfer, falecido no dia 11. O arcebispo Dom Wilson Tadeu Jönck, SCJ, dezenas de padres e diáconos concelebraram essa liturgia de encomendação e despedida de um sacerdote que por 56 anos trabalhou na arquidiocese de Florianópolis. Em seguida, o corpo foi sepultado no Cemitério da Fazenda, em Itajaí, junto ao túmulo de seus pais.

Affonso Emmerdoerfer nasceu em Itajaí em 11 de junho de 1933, filho de segundas núpcias de Alois Emmendoerfer com Alvina Cordeiro. Era irmão do falecido Pe. Carlos Emmendoerfer. O Sr. Alois era proprietário de reconhecida fábrica de móveis na Rua Tijucas e foi entre o balcão e a oficina que Afonso foi criado. Família católica, de intensa participação na vida eclesial, e que muito ajudou na construção da igreja matriz do Santíssimo Sacramento. Sua educação foi no Colégio São José, tradicional estabelecimento católico.

Sentindo-se vocacionado ao sacerdócio, dirigiu-se ao Seminário Menor de Azambuja, em Brusque, ali completando o estudo ginasial e colegial. Continuação normal para um seminarista, foi para São Leopoldo, RS onde cursou filosofia e teologia.

Dom Joaquim Domingues de Oliveira ordenou-o padre em 1º de dezembro de 1957, na primeira ordenação sacerdotal na recém-inaugurada igreja matriz do Santíssimo. Uma homenagem à cidade de Itajaí e à família Emmendoerfer.

Padre Afonso não trabalhou em muitos lugares. Por quase 50 anos podemos dizer que seu ministério paroquial foi exercido no Vale do Rio Tijucas. Assim, em 1958 foi provisionado vigário paroquial de São João Batista, com residência em Canelinha, encarregado de preparar a futura paróquia de Sant’Ana. A casa paroquial era a sacristia da simpática igreja de Sant’Ana, ao lado do cemitério, numa colina longe de qualquer morador. Conhecendo-se a timidez de Pe. Afonso, pode-se imaginar que, ao lado de grandes alegrias das primícias sacerdotais, passou pelos sustos de um local isolado e silencioso. Sempre recordou com satisfação suas visitas às comunidades de São Sebastião e Imaculada Conceição do Moura, situadas num vale fértil e de povo católico.

Dois anos depois, em 5 de janeiro de 1960, foi transferido para sua terra natal como vigário paroquial do Santíssimo Sacramento, paróquia imensa, que abrangia Itajaí, Navegantes, Penha, sob a autoridade rígida de Mons. Vendelino Hobold, que vivia as glórias de ter concluído a igreja matriz do Santíssimo Sacramento e era respeitado sem contestações visíveis.

À época, o Seminário de Azambuja vivia um boom de vocações, com mais de 150 seminaristas. Necessitava de professores e formadores de qualidade. E assim, em 24 de janeiro de 1962 foi nomeado professor do Seminário e prefeito de disciplina da turma dos menores. Então o conheci e aprendi a entende-lo e admira-lo.

Pe. Afonso era personalidade característica, já sendo notado pela batina e faixa na cor bege, enquanto que os outros padres a usavam ou preta ou cinza clara. Ali já percebíamos uma preocupação acentuada no correr dos anos e que era o cuidado com a saúde, ou o medo de doenças. Mais do que a maioria dos médicos, conhecia quase todas as doenças e seus sintomas e o local certo para trata-las. Afirmava. anos atrás, que para corte, unha encravada um hospital catarinense era apropriado. Dali para cima, só no eixo Rio-São Paulo. Dava sempre a impressão de ter saído do banho, cheirando a alfazema enquanto os outros padres cheiravam a suor antigo.

Lecionava latim, francês, português, geografia, história e música. Lembro bem as aulas de latim no primeiro ano ginasial: numa imensa sala, com quase 60 alunos, para não forçar a voz Pe. Afonsinho instalou microfone e caixa de som. Um aluno lia os textos e ele os explicava, de novo para cuidar da voz. As declinações latinas eram um caso-teatro à parte: gesticulando como maestro proclamava “Nominativo” e nós respondíamos “Terra”, “Genitivo”, “Terrae” e assim por diante. Na sua originalidade, tinha estabelecido diferentes graus de castigo: de pé, de joelhos no corredor, de joelhos à frente, de joelhos fora da sala e, último grau, de joelhos à porta do quarto do Padre Reitor, Cônego Valentim Loch. Essa variedade era de certo modo engraçada e, percebendo que alguém ria, recebia o mesmo castigo e aconteceu estarmos todos de joelhos. Era ótimo e aprendíamos.

Rigoroso no silêncio e na disciplina, quando o castigo maior era ficar um, dois, três dias de silêncio. Era um bom padre, companheiro, lidando com crianças apenas desmamadas, com saudades dos pais e submetidas à disciplina germânica num regime com poucos recursos pedagógicos. Era estimado por todos e gostávamos quando semanalmente nos reunia para o canto orfeônico, onde aprendíamos o cancioneiro popular brasileiro: Luar do Sertão, Asa Branca, Rancho Alegre….

Em Florianópolis – renovação conciliar

O ano de 1965 foi marcante para a arquidiocese de Florianópolis: o bispo coadjutor de Lages, Dom Afonso Niehues foi nomeado arcebispo coadjutor de Florianópolis e administrador apostólico “sede plena”. Nomeado em 14 de agosto, nessa condição Dom Afonso participou da última sessão do Concílio do Vaticano II e assumiu em 30 de dezembro. Num gesto de fineza e amizade, Dom Afonso procurou não dar a Dom Joaquim Domingues de Oliveira a imagem das mudanças que se operavam na pastoral, mudanças esperadas e necessárias. Desse modo, a parte da administração pastoral estava sediada no Estreito e o atendimento dele, num edifício na Avenida Rio Branco.

Com o falecimento de Dom Joaquim, em maio de 1967, em 1968 a organização pastoral foi transferida para a residência episcopal à Rua Esteves Júnior, que passou por grande reforma.

Dom Afonso tinha necessidade de um padre organizado e capaz para coordenar a pastoral. Foi busca-lo em Azambuja: a partir de 1966 Pe. Afonso foi nomeado vigário paroquial do Estreito e, de 1968 a 1995 residiu com o Arcebispo.

Extremamente organizado, Pe. Afonsinho foi o primeiro Coordenador arquidiocesano de Pastoral, numa época em que se multiplicavam os cursos de atualização pastoral, catequética e litúrgica e era necessária a contínua produção de materiais para as paróquias e comissões.

Para estabelecer a comunicação entre as paróquias, foi criada a Revista de Pastoral de Conjunto, editada mensalmente, sem interrupção, de 1966 a 1992. Pe. Afonsinho revisou todas as páginas, publicava as notícias, necrológios, agendas, aniversários, provisões, artigos formativos, uma preciosidade que retrata de forma objetiva o caminho da renovação conciliar em Florianópolis. Nessa missão esteve empenhado de 01 de maio de 1966 a julho de 1970.

Dom Afonso e Pe. Afonso agiram em unidade e fidelidade de propósitos. Fruto de seu trabalho e da equipe contratada foi criado o Arquivo Histórico e Eclesiástico de Santa Catarina, restaurando centenas de Livros de Batizados, Óbitos e Casamentos, deteriorados pela ação do cupim; determinou a classificação e sistematização, em arquivos de aço, de inúmeros documentos, deixados por Dom Joaquim, tendo a colaboração paciente e competente do Pe. Theodoro Huckelmann e Dom Wilson Laus Schmidt. Pe. Afonso foi seu Diretor de 14 de novembro de 1973 a 1994.

Foi também diretor da Ação Social Arquidiocesana-ASA, criada por Dom Joaquim, de 17 de novembro de 1966 a 1994.

Com o falecimento prematuro de Mons. Frederico Hobold, Vigário Geral e Procurador, de 1º de setembro de 1971 a 28 de dezembro de 1994 exerceu a função de Procurador da Mitra Metropolitana e Chanceler do Arcebispado de Florianópolis.

Auxiliou na instalação do Regional Sul-IV da CNBB, construindo sede própria em 1975, na Rua Arno Hoeschel.

De 1973 a 1994 foi Gerente Administrativo da Fundação Dom Jaime de Barros Câmara, entidade mantenedora do Instituto Teológico de SC. Nessa condição foi o responsável pela edificação dos três edifícios para os seminaristas, num deles hoje funcionando o Regional Sul IV e o Tribunal Eclesiástico, e noutro o Convívio Emaús. Igualmente a sede acadêmica do ITESC-FACASC, todos na Rua Deputado Antônio Edu Vieira.

Evidente que era muito trabalho, muitas decisões a serem tomadas e executadas. Por seu temperamento, nas horas de contrariedade Pe. Afonsinho se fechava e era difícil restabelecer o bom humor. Isso também era acentuado com suas doenças e “quase-doenças”. Aqui devo citar duas pessoas que, por competência e honestidade, souberam superar essas horas ou dias e foram determinantes para a competente administração econômico-financeira: Irmã Alzira Hoepers, Franciscana de São José, e Ênio de Oliveira Mattos. O hoje Dr. Ênio, delegado de polícia, soube conduzi-lo e, mais importante ainda, acompanha-lo como pai, filho, irmão e amigo nos últimos anos de vida de Mons. Afonso.

Pe  Afonso Emmendoerfer - neo-sacerdote

Pe. Afonso Emmendoerfer – neo-sacerdote

Um caminho de dedicação e renúncia

Um dos programas de Pe. Afonso era a participação nos Congressos Eucarísticos Internacionais: intensa preparação e, no retorno, as notícias exatas de tudo o que vira e ouvira. Não participou mais a partir do ano 2000.

Em 1991, a chegada de novo arcebispo na pessoa de Dom Eusébio Oscar Scheid, SCJ, trouxe o desejo de criar nova equipe administrativa, o que aconteceu no final de 1994.

Pe. Afonsinho foi substituído pelo Pe. Valdir Bernardo Prim. Dom Eusébio tinha receio de não oferecer um posto conveniente a quem tantos serviços prestara à Igreja mas, para surpresa sua, Pe. Afonsinho pediu para ser vigário paroquial de São Sebastião de Tijucas. Ali recebeu o título de Monsenhor e ali passou seus últimos anos de vida. Dedicado, obediente, um gentleman, Mons. Afonso não invadia ambientes: executava o que lhe era ordenado.

Na sua privacidade, continuava a fazer as mesmas coisas, nos mesmos horários: leitura, treinar numa pianola eletrônica, rever fotos, papéis e, cuidar da saúde. Uma característica sua: não criar vínculos de intimidade, visitar padres. Cumpria o dever.

Zeloso, por toda a vida escreveu as homilias, hoje fonte preciosa de aprendizado e pesquisa. Não improvisava, aliás, obriga-lo a improvisar era leva-lo ao mau humor certo. Gostava de fazer bem.

Voltemos no tempo: durante todo o período em Florianópolis foi vigário paroquial de Tijucas nos fins de semana. No Vale do Tijucas iniciou e concluiu a vida ministerial.

Em 1º de dezembro de 2007 celebrou com muita felicidade o Áureo Jubileu Sacerdotal e o festejou em Itajaí, oferecendo farta recepção a todo o povo. Estava muito feliz.

A Irmã Dor lembrou-se de visita-lo a partir de 2011, quando sofreu isquemia e começou a apresentar sinais do Mal de Alzheimer. Foi internado diversas vezes no Hospital de Azambuja e passou a residir no Lar dos Idosos de Tijucas, tendo a seu lado as Irmãs dos Anciãos Desamparados. Era um paciente complicado, pois queria acompanhar tudo: estudar cada medicamento, ver como a comida era preparada, sempre desconfiado. Foi decisiva, nessa fase de sua vida, a presença amiga do Dr. Ênio de Oliveira Mattos, a quem ouvia e obedecia. Até que a doença lhe trouxe a paz, a triste ausência do Alzheimer, e a Paz definitiva no dia 11 de dezembro de 2013: 80 anos de vida, 57 de sacerdócio.

Entrevistei-o para o JORNAL DA ARQUIDIOCESE por ocasião do Jubileu em 2007 e assim se expressou:

«Olhando para trás sinto-me feliz e realizado como Padre. Combati o bom combate e guardei com fidelidade o meu Sacerdócio, graças a Deus, à proteção de Maria, à amizade, à colaboração e compreensão de muitíssimas pessoas que conheci e que muito me ajudaram. Procurei desempenhar da melhor forma possível os encargos e as  tarefas pastorais que me foram confiadas. Peço a Deus que me dê condições de continuar exercendo com frutuosidade o meu Ministério».

Monsenhor Afonso guardava e conservava com carinho os objetos significativos de sua vida. E guardou a vela recebida na Primeira Comunhão e a vela que à época se recebia na Primeira Missa e era entregue pela mãe. Ao iniciar a Missa de Exéquias os dois círios finalmente foram acesos juntos e, ao final da celebração, tinham-se consumido. A luz sacramental da existência terrena dava lugar à Luz na qual mergulhou para sempre.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Aluizio Brand em 16 de dezembro de 2013 - 13:42

    Padre Afonsinho, um grande batalhador em semear a Boa-Nova, na divulgação do evangelho e dos ensinamentos de Cristo. Também envolvido com as mudanças da Igreja adotadas no Concilio Vaticano II, mudanças muito rápidas que deixaram a classe de idosos numa situação desconfortável, tudo novo, até parece que fomos excluídos. Tantos hinos cantados pelo povo com vozes fortes e entusiasmadas, sem esses poderosos aparelhos de som. Vejamos que em certas datas, como na festa de Corpus Christi, na procissão, só um pequeno grupo canta, os outros todos são simples acompanhantes. Lindas letras e melodias, tudo foi de água abaixo, nem a linda oração pela Igreja, nem esta é rezada mais, na qual todas as necessidades da igreja eram mencionadas. Isso me deixa triste e muitas pessoas nesta minha idade se manifestam descontentes sentindo-se rejeitadas. No Domingo de Ramos, durante a procissão, aqueles lindos hinos, todos esquecidos, e nós ficamos na saudade. Por que não dar espaço para este povo recordar o passado, ao menos uma vez por mês, num sábado à noite ou num domingo de manhã ou à noite. Não se tem mais os livros ou folhetos tudo é eletrônico e nada fica pra marcar estas datas e costumes .

  2. #2 por José Artulino Besen em 16 de dezembro de 2013 - 14:31

    Aluizio, entendo perfeitamente sua saudade, especialmente de tesouros de arte e liturgia que foram, contra a vontade da Igreja, marginalizados. Por outro lado, nas grandes mudanças muitas belezas se adquirem e muitas são postas de lado, mas, disso tenho certeza, o que é valor universal retorna. O importante é que o senhor tenha feito a experiência dessa realidade e pode meditá-la na memória e no coração.

  3. #3 por Flávio em 23 de fevereiro de 2014 - 23:17

    Parabéns padre José, o senhor conseguiu retratar a personalidade do monsenhor Affonso. Sou de Canelinha e ele foi o preparador da nossa paróquia Sant’Ana. Ali viveu de fato seus primeiros dois anos de sacerdócio e preparou o necessário para o início da atual Igreja Matriz. Pe. Flávio.

  4. #4 por valmor jose correa em 6 de outubro de 2015 - 15:01

    Pe. Besen. Que rica matéria…..só agora tomei conhecimento. Conheci de perto o Pe. Afonsinho…passava boas partes das férias na casa da mãe dele, em Itajaí, minha terra natal. Era uma ótima pessoa…..Abraço. Valmôr.

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