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10 – MAS LIVRAI-NOS DO MAL. AMÉM

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A primeira parte da Oração do Senhor é concluída com o pedido ao Pai: seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu. E a conclusão de todos os pedidos é a súplica de cada um e de todos nós: mas livrai-nos do Mal.

Se fizermos a vontade de Deus, o Mal será vencido. O Mal, pai da mentira, sedutor, assassino, fez a morte ingressar na história ao conseguir seduzir Adão e Eva de que viver sem Deus seria viver sem o medo da morte. Com o mistério da encarnação e da redenção operadas pelo Filho, a morte foi vencida, sim, mas Satanás está no mundo querendo nos subtrair do amor de Deus e sujeitando-nos a seu poder mortal.

Na hora da agonia, Jesus pediu por cada um de nós: “Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno” (Jo 17, 15). Nascemos de Deus, fomos purificados do pecado pela graça, o que não quer dizer que estamos livres da tentação. Pelo contrário, ser filho de Deus é uma decisão contínua e o tentador quer destruir nossa filiação.

O Mal, que gera todos os males do mundo, não é uma figura poética: é uma pessoa, um anjo decaído cuja essência é o ódio. Deus é o Amor, o diabo é o Mal, um anjo sumamente perfeito no mal, combatente contra Deus.

A Igreja toda, unida à criação, suplica continuamente que sejamos livres do mal que a tudo destrói, querendo destruir toda a bondade. O papa Francisco nos alerta para a ilusão perversa de guerras religiosas: matar em nome de Deus, fazer guerra em nome de Deus parece zelo apostólico, e na verdade é apenas decisão diabólica, pois constrói um mundo de dor e destruição, um mundo de morte. Ele declarou, em Tirana: “O segredo duma vida bem sucedida é amar e dar-se por amor. Nela encontra-se a força de ‘sacrificar-se com alegria’ e o serviço mais exigente torna-se fonte duma alegria maior. Então as opções definitivas de vida deixam de meter medo, mas aparecem na sua verdadeira luz, como uma forma de realizar plenamente a própria liberdade”. Diferentemente dos enganos satânicos, aqueles que vencem as tentações vivem dessa alegria de doar-se, experimentam a verdadeira liberdade: amar, amar sem medida.

Vem, Senhor Jesus – liberta o mundo do mal

Recorda-nos Paulo: “O Senhor, que tirou o vosso pecado e perdoou as vossas faltas, tem poder para vos proteger e guardar contra as insídias do Diabo que vos combate, para que não vos surpreenda o inimigo que tem o hábito de engendrar a culpa. Mas quem a Deus se entrega não tem medo do Diabo. Porque “se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8, 31). A oração é contínua no suplicar “vem, Senhor Jesus” (Apoc 22, 20), que ele venha agora e sempre, pois somente sua vinda nos liberta do Maligno.

No pedido para a libertação do Mal igualmente pedimos para sermos livres de todos os males, presentes, passados e futuros do qual ele é o instigador. Nesse pedido, a Igreja leva até o Pai toda a desolação do mundo, implora o dom da paz e a graça de perseverar até a vinda final do Senhor que tem as chaves da morte e da morada dos mortos. Então a vida triunfará para sempre e o reino de Satanás será destruído em definitivo (cf. CIC 2854).

A Oração do Senhor é proclamada no início do rito da comunhão na Eucaristia. Para que sejamos livres de todo o mal, trocamos o abraço da paz e, mesmo indignos, recebemos o Corpo e o Sangue do Senhor. A redenção oferecida no Calvário se faz presente no Pão eucarístico, alimento de vida verdadeira.

O Senhor nos ensina o caminho do bem, fortalece-nos em nossa guerra contra Satanás, e vem ao nosso encontro com o Pão da Vida e da unidade, para que sejamos livres do pecado e de toda a perturbação enquanto aguardamos a vinda gloriosa de nosso Salvador.

Ele já veio, vem sempre que é suplicado, mas sempre necessitamos repetir: “Mas livrai-nos do Mal”. E assim poderemos dizer “Amém”, pois o Senhor é nossa vitória.

Pe. José Artulino Besen

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09 – NÃO NOS DEIXEIS CAIR EM TENTAÇÃO

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A história humana é construída pela resposta que damos à pergunta: a quem queremos servir, a Deus ou ao demônio? Queremos percorrer o caminho do Bem ou o caminho do Mal? Desde o Paraíso, quando nossos pais rejeitaram obedecer a Deus e preferiram ser como Deus, ocupando-lhe o lugar com a conseqüência do início a história da Vida e a história da Morte, a situação se repete em nossa vida pessoal, e a cada dia da vida: por quem decido apostar minha existência?

Nós andamos empenhados no combate “entre a carne e o Espírito”. Necessitamos que o Pai nos dê o Espírito Santo para não cairmos em tentação e ele, o Espírito, dá-nos o discernimento para julgar o que é bom ou mal, e a fortaleza para perseverarmos no bem.

O Pai, evidente, não nos quer no caminho da morte, ele nos quer no bem que é fruto da vida. Temos diante de nossos passos os dois caminhos, e a tentação pode nos seduzir para trilharmos o caminho do mal. Por isso, pedimos na Oração do Senhor: não nos deixeis cair em tentação, e a tentação é o impulso para mudar de caminho.

O Espírito Santo ensina-nos a discernir entre a provação que dá vida e a tentação que conduz ao pecado e à morte. Devemos também distinguir entre “ser tentado” e “consentir” na tentação: ser tentado é ser seduzido pela promessa de que podemos ser mais do que Deus, retirá-lo de nossa vida; consentir na tentação é agir na crença de que é melhor agir por conta própria, sem Deus, na ilusão de que o fruto proibido é “bom, agradável à vista, desejável”: por que não comê-lo? (Gn 3,6). No desejo de nunca morrer, aceitamos a opção da morte.

Jesus foi tentado no início e no fim de sua vida terrena: no deserto, o demônio ofereceu-lhe pão, sucesso, adoração (Mt 4, 1-11) e, no Getsêmani, o afastamento do Cálice da cruz (Mt 26, 36-46). No deserto, Jesus destrói a tentação com a Palavra de Deus e, na agonia do Horto, com a decisão de que se faça a vontade do Pai.

Viver no Espírito – um só é nosso Senhor

Somos humanos, e a fragilidade é parte de nossa condição, mas Deus vem em nosso socorro com o Espírito que nos fortalece. Assim como a massa de trigo é sovada, amassada para que dê um gostoso pão, também a tentação aumenta nossa resistência ao mal, dá-nos fortaleza à medida que aprendemos a vencê-la. Isso é um exercício da liberdade que o Senhor nos deu, e que ajuda em nosso autoconhecimento e em descobrir quem nós somos, nossa miséria. Deus não impõe o bem, quer seres livres.

É claro que cairemos em tentação se nosso coração tiver apetite pelo mal, enquanto que o não cair em tentação é decisão do coração: “onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração […] Ninguém pode servir a dois senhores” (Mt 6, 21, 24).

Jesus venceu a tentação porque tinha jejuado, estava vigilante e de coração vigilante. A vida distraída é casa para assaltante. Pedimos ao Pai que guarde nosso coração para que o Espírito desperte-nos a viver em vigilância.

Pedir ao Pai para não cairmos em tentação é pedir a perseverança final: “Olhai que vou chegar como um ladrão: feliz de quem estiver vigilante! (Apoc 16, 15). Até nos últimos instantes da vida somos tentados pelo desespero: “e se tudo foi engano? Vivi sem viver, desperdicei os poucos anos”. É o Tentador com a última tentação: renegue a Deus que enganou você, berre um grito de protesto, blasfeme como desforra.

Pedir a perseverança final é fortalecer a esperança que derrota o Tentador, é nos entregarmos ao Pai a quem pedimos que não nos deixe cair em tentação.

Pe. José Artulino Besen

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08 – PERDOAI-NOS AS NOSSAS OFENSAS

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ASSIM COMO NÓS PERDOAMOS A QUEM NOS TEM OFENDIDO

Jesus Cristo se encarnou, morreu e ressuscitou pela remissão de nossos pecados. O perdão é garantido porque, no Filho, “nós temos a redenção, a remissão dos nossos pecados” (Cl 1, 14),  mas nos coloca uma condição: que perdoemos aos que nos ofenderam. A intensidade do perdão divino é proporcional à nossa reconciliação com todos, ao nosso pequeno perdão corresponde a imensidão misericordiosa do Pai.

Ao rezarmos “perdoai” estamos declarando nossa confiança no perdão divino, somos sempre o filho pródigo que retorna ao Pai, e o Pai sempre nos espera para revestir-nos do amor e da graça. Os sacramentos derramam sobre nós a água da misericórdia, mas não suprimem em nós a terrível liberdade de tornar a pecar, e Deus, em seu Filho, pode não nos perdoar, porque podemos não querer o perdão.

Na multiplicação de nossos erros, não desanimemos, mas lembremos as palavras consoladoras do papa Francisco: “Deus não se cansa de perdoar, nós é que nos cansamos de pedir perdão”.

Então, por que Jesus coloca uma condição nesse mar de misericórdia? O que tem entre nosso pequeno perdão, a pequena ofensa que nos foi infligida e a bondade divina? Por que perdoarmos? O amor é indivisível e formamos o corpo de Cristo, também indivisível. Como podemos amar a Deus, a quem não vemos, se não amarmos os irmãos a quem vemos? Recusando perdoar, nosso coração se fecha, endurece tanto que impede chegar a nós e ao próximo o amor do Pai. Quando perdoamos, a porta de nosso coração se abre e o Pai entre em nossa vida.

Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido

Somente Deus, que é amor, pode descer à nossa condição e dizer: “eu faço assim como vocês fazem”. Se eu perdôo, Deus perdoa. Diversas vezes o Evangelho nos coloca diante do “como”: sede perfeitos como o vosso Pai é perfeito (Mt 5, 48); sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso ((Lc 6, 36); amai-vos uns aos outros como eu vos amei (Jo 13, 34); perdoando-nos mutuamente como Deus nos perdoou em Cristo (Ef 4, 32).

Assim o Pai vai agir se cada um perdoar o irmão do fundo coração. Deus nos eleva ao aceitar nossas atitudes com nossos irmãos como condição para as ações dele. Claro, não é fácil perdoar e Deus sabe que não conseguimos deixar de sentir ou esquecer a ofensa, mas, se nos entregarmos ao Espírito Santo, ele purifica nossa memória e transforma a ferida em compaixão e muda as ofensas recebidas em intercessão por quem nos ofendeu.

A oração cristã vai até ao perdão dos inimigos e nos faz semelhantes ao Mestre que perdoou-nos todas as ofensas que recebeu. Deus quer que tenhamos somente uma dívida: a do amor de uns para com os outros. O perdão nos reconcilia, revela-nos a bondade de cada pessoa, e que todos necessitam de nossa misericórdia. Quem é perdoado adquire forças para organizar melhor sua vida.

A Eucaristia, onde todos comemos do mesmo Pão, é grande alimento de reconciliação e de unidade. Nela podemos fazer as pazes com Deus ao fazermos as pazes com os irmãos. A maior oferta para Deus é a nossa paz, a concórdia fraterna e um povo reunido na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

Pe. José Artulino Besen

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07 – O PÃO NOSSO DE CADA DIA DAI-NOS HOJE

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Na primeira parte da Oração, Jesus nos ensina a pedir ao Pai que saibamos glorifica-lo e fazer a vontade dele. Na segunda, nos dirigimos confiantes ao Pai pedindo que esteja conosco em todas as situações da vida. O “dai-nos” é um pedido confiante de filhos que tudo esperam do Pai que dá o sol e a chuva para justos e injustos (cf. Mt 5,45). Sabemos que, acima de tudo, ele é bom e sua bondade não exclui ninguém. Temos uma Aliança com ele: nós somos dele e ele é nosso, é Pai de toda a humanidade, e então pedimos por nós e por todos, também solidários com a humanidade.

Pedimos o “pão nosso” porque sabemos que ele deu-nos a vida e não deixará faltar o que for necessário para que a vida permaneça. Nós pedimos o pão nosso no abandono filial: o Pai quer que não vivamos ansiosos e preocupados, ao mesmo tempo conservando o compromisso com o pão. Tudo pertence a Deus, nada faltará àquele que possui a Deus. Nossa súplica não é egoísta, intercedendo apenas para mim ou para os meus, porque pedimos para nós todos, comprometidos em nossa vida com a solidariedade efetiva com os que passam fome. Um cristão sente-se membro da família humana e, pedindo o pão nosso, lembra a parábola do Pobre Lázaro e do Juízo final, quando o julgamento será pela partilha do pão (cf. Lc 16, 19ss; Mt 25, 31ss). O cristão sabe que não há mundo justo sem homens e mulheres que queiram ser justos: pedimos o pão para repartirmos o pão.

Não só de pão vive o homem

O pão nosso de cada dia é o pão do hoje que o Pai hoje nos dá: queremos que todos sejam felizes e fraternos hoje, não acumulando para repartir depois. O dia de hoje é o dia de nossa vida, nossa vida é cada dia. Ao pedir o pão que dá a vida física temos presente outro pão, cuja falta causa a morte a muitos: o pão da Palavra que sai da boca de Deus (cf. Mt 4,4). Há uma grande fome na terra que “não é fome de pão nem sede de água, mas de ouvir a Palavra do Senhor” (Am 8,11). A súplica do pão de cada dia não pode ser separada do Pão da Vida que é a Palavra de Deus e o Corpo de Cristo recebido na Eucaristia. Quem comer desse Pão não terá mais fome nem conhecerá a morte, porque estaremos recebendo o Senhor ressuscitado.

Comendo o pão que brota da terra e do trabalho humano sustentamos a vida e, participando da Eucaristia, criamos a vida em comunhão gerada pela unidade no Corpo de Cristo. O Senhor conhece a nossa fome de vida em plenitude e nos oferece o Pão vivo e verdadeiro que devemos pedir ao Pai a cada dia, para nós todos.

Somos peregrinos que buscam a casa do Pai e, em nosso alforje, carregamos o pão e o Pão, a mesa do alimento e o banquete da Eucaristia. Sabemos que o Pai nos dá tudo para vivermos com alegria o caminho por onde não vamos sozinhos, mas acompanhados de todos os filhos e filhas de Deus.

Pe. José Artulino Besen

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06 – SEJA FEITA A VOSSA VONTADE

ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU

014Muitas vezes São João XXIII repetia que “a vontade de Deus é minha alegria”, “a vontade de Deus é a nossa paz”. O Senhor incluiu a vontade do Pai ao final da primeira parte do Pai Nosso, o pedido da vontade do Pai na terra e no céu, na Igreja celeste e na Igreja terrestre. Todos nós levamos a sério fazer a vontade de Deus, viver em feliz obediência de filhos, mas enfrentamos o risco da derrota porque tentamos faze-la sozinhos, o que é impossível em nossa fragilidade pecadora.

A vontade de Deus não é regra de comportamento, é mais bela: a vontade do nosso Pai é “que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2, 3-4). A verdade suprema de Deus a nosso respeito é que nenhum de nós se perca e isso será realizado quando vivermos o seu mandamento: que nos amemos uns aos outros assim como ele nos amou. O mandamento do amor faz novas todas as coisas e restaura tudo em Cristo. O amor se estenderá pelo céu e pela terra, de Jesus desce até nós e de nós se propaga por todas as criaturas e por toda a criação.

Suplicar ao Pai que sua vontade seja feita é suplicar que seu plano de amor seja realidade, para que o amor que há no céu se complete também na terra: a imagem de Deus será refletida em cada um de nós e tudo cantará a glória do Senhor.

A Carta aos Hebreus afirma que a missão de Jesus na terra foi realizar a vontade de Deus: “Eu venho, … ó Deus, para fazer a tua vontade” (Hb 10,7). Fazer a vontade do Pai foi seu compromisso e, no Getsêmani, reafirmou que sua vontade era a vontade do Pai. Sua oração pediu que o Pai afastasse o cálice da amargura, mas, que a vontade do Pai fosse a sua vontade (Lc 22,42). Ele se colocou nas mãos do Pai porque, em unidade com ele, queria ser o redentor do mundo e dos homens e, naquela hora, fazer a vontade do Pai era oferecer-se totalmente por nós. 

Orar unidos com Jesus

Cada vez que Jesus rezou a sua Oração aprofundava a decisão de assumir a vontade de Deus. Ele experimentou também que obedecer supõe sofrimento, pois deixar a própria vontade para cumprir a vontade divina somente é possível carregando diariamente a renúncia a si mesmo, não olhar para trás, assumir a cruz.

Cristo obedeceu por ser Filho, e nossa vocação é também sermos filhos para que depois sejamos irmãos. Ao nos ensinar a rezar como ele rezava quis que, unidos totalmente a ele, sejamos também filhos: ser filho no Filho, numa unidade misteriosa, obra da graça. Quando rezo para que a vontade de Deus seja feita na terra e no céu eu estou unido a Jesus na mesma prece e nossas orações unem-se totalmente: Cristo reza em nós, e nós rezamos em Cristo. Sem essa unidade, somos impotentes para colaborar com Deus Pai na transformação de nossa vida e da história do mundo.

É o Espírito Santo que torna possível a oração verdadeira, pois também ele reza dentro de nós. De modo todo especial, o Espírito nos livra de ilusões piedosas e de confusões: somente ele nos ilumina para reconhecermos de verdade a vontade do Pai.

Nossa oração é universal, inclui todo o mundo, a terra e o céu. O povo unido a Cristo na oração é o céu e a terra unidos no mesmo pedido, para que a vontade do Pai encontre o campo aberto para a chegada de seu Reino. E, na Eucaristia, essa oração produz comunhão plena: comungamos o Filho, Pão que o Pai nos oferece para fazermos sua vontade.

Pe. José Artulino Besen

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05 – VENHA A NÓS O VOSSO REINO

006Ao pedirmos ao Pai que “venha a nós o vosso Reino”, incluímos três realidades: o Reino de Deus, Jesus Cristo, a vinda final do Reino de Deus.

Os evangelhos insistem que o Reino de Deus está próximo e que a nossa resposta é a conversão e a fé. Por Reino de Deus entendemos a vida e o cosmos, toda a realidade vivida e respeitada segundo o plano divino, na recuperação do “tudo era muito bom” quando o Senhor terminou a obra da criação. A conversão ao Reino inclui nossa resposta vital à palavra de Jesus.

O Reino de Deus está próximo de nós através do Verbo encarnado, veio na morte e ressurreição de Cristo, vem na Eucaristia e, desse modo, está no meio de nós, e virá na glória quando Cristo entregar tudo ao Pai. Assim, ao mesmo tempo que pedimos que venha o Reino, nós o sentimos próximo, sabemos que já veio e esperamos a vinda final.

Devemos ter presente em nossa vida e oração que o próprio Cristo é o Reino de Deus, pois nele se realiza todo o plano do Pai. Caminhando pela Palestina, anunciando o Ano da Graça, Cristo é o Reino de Deus anunciado e vivido e assim, quando ele se refere ao Reino de Deus próximo está afirmando: ‘crede em mim, eu sou o Reino de Deus, minha Palavra é a palavra do Reino, minha obra é o Reino tornado visível na cura física, no pecador acolhido, no pobre alimentado, na paz obtida pela reconciliação, na morte vencida pela sua ressurreição e na ressurreição oferecida’.

Vem, Senhor Jesus

A mais antiga oração cristã é o “Marana Tha”: o Cordeiro declara “Sim, eu venho em breve”, e o Espírito e a esposa suplicam: “Marana Tha – Vem, Senhor Jesus!” (Apoc 22, 20). Nossa vida é alimentada pela esperança da vinda do Senhor. São tantos os problemas, tanta a dor e a divisão que ardemos pelo desejo da vinda do Senhor, tendo a alegria de que cada Eucaristia já é vinda e súplica: Cristo está em nosso meio no Pão e no Vinho, mas pedimos “Vinde, Senhor Jesus!” para que o mundo seja transformado e nossa santificação se realize plenamente.

Não somos alienados e acomodados, pedindo que Deus realize por nós o que nós devemos fazer: a graça é dada, a colaboração humana é necessária. Pelo empenho cristão a justiça, paz e alegria no Espírito Santo já se fazem presentes no mundo (cf. Rom 14,17) e combatemos o bom combate para “que o pecado deixe de reinar em nosso corpo mortal” (Rm 6, 12). O esforço por uma vida pura e santa nos torna capazes de pedir ao Pai: “Venha a nós o vosso Reino!”. E o Espírito Santo não permite cairmos no engano de julgar que o progresso material e cultural já é o Reino realizado, porque ele vai muito além, nossa vocação é a vida eterna.

Ao rezarmos o Pai-nosso antes da Comunhão eucarística temos atendida essa súplica, porque Cristo vem e, no Espírito, produz em nós frutos de vida nova.

Pe. José Artulino Besen

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04 – SANTIFICADO SEJA O VOSSO NOME

022Para vivermos esse pedido com mais intensidade é importante rezarmos com Jesus sua Oração sacerdotal: “Pai santo, guarda-os em teu nome, o nome que me deste, para que eles sejam um, como nós somos um” (João 17, 1-11).

O Nome de Deus é santo, em Deus tem origem toda santidade: pedimos ao Pai que seu nome nos santifique no amor para que nós sejamos santos, perfeitos. Há um compromisso: santificar o nome em nós e santificarmos seu nome no mundo. A santidade não se esgota em nosso ser, mas deve se expandir por toda a criação.

O que vem de Deus é santo e, desse modo, todas as criaturas participam da glória de Deus: plantas e animais, seres vivos e inanimados, tudo canta a glória e o esplendor de Deus. De modo único, o homem e a mulher, feitos à imagem e semelhança de Deus, têm a vocação de santificar tudo e todos. Com o Salmista, maravilhados por tanta beleza, nós proclamamos: “Ó Senhor, nosso Deus, como é glorioso vosso nome em todo o universo!” (Salmo 8, 1) e perguntamos: diante de tanta beleza, por que, Senhor, coroastes o ser humano de honra e glória, confiando-lhe todas as coisas?

Pelo pecado, a morte fez ingresso no mundo e fomos privados da glória de Deus, que não se esqueceu de nós: num grande plano de salvação através da história, continua a revelar seu nome, para restaurar o homem à imagem de seu Criador (cf. Cl 3, 10).

Toda a Escritura é revelação do nome de Deus, que permanece fiel a seu plano de salvação. O patriarca Abraão recebeu de Deus um juramento de fidelidade; no cativeiro do Egito, Deus revela seu nome a Moisés: “Eu sou”, isto é, vocês me conhecerão através de minha manifestação em sua história. “Eu sou” é eterno presente e, com esse nome, Deus estabeleceu a Aliança do Sinai: o povo será seu povo, constituirá uma nação santa, porque Deus habita nela.

Todos juraram fidelidade, mas o único fiel é Deus, porque a história humana é história de infidelidade. Um pequeno povo, o resto de Israel, permaneceu fiel, um povo de pobres que arderam de paixão pelo Nome. Através da ação do Espírito, Deus colocou em cada um a espera de um Salvador, que revelaria em plenitude seu nome. Em meio a sofrimentos, pecados, infidelidades, os Profetas continuamente animam o povo a reerguer-se, denunciam os pecados e, ao mesmo tempo, anunciam o Messias.

Jesus revela o nome de Deus: o Pai

No tempo previsto, Deus enviou o Salvador: muito menos do que esperavam, pois não era rei nem chefe, e infinitamente mais do que podiam esperar: era o Filho de Deus, feito carne em Maria e que nos manifestou o nome de Deus: o Pai.

Jesus nos regenera, restaura, na água do Batismo: somos “purificados, santificados, justificados pelo nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito do nosso Deus” (1Cor 6, 11). O Pai nos chama à santidade, que nos é comunicada por Cristo, de modo que nossa vocação é santificar seu nome em nós e por nós.

Escutamos o Pai que nos diz: “sede santos, porque Eu sou santo”. Santificados no Batismo, todos os dias temos de pedir a perseverança em nossa filiação divina; incorrendo em faltas, renovamos o pedido para que sejamos purificados e a santidade permaneça em nós.

Ensinando-nos a rezar, Jesus mostra que depende da nossa vida e da nossa oração que o nome de Deus seja santificado entre as nações. Pela santidade, Deus salva e santifica toda a criação e conta com nossa atuação: se agimos bem, o nome de Deus é bendito; mas é blasfemado se agimos mal: “O nome de Deus é blasfemado entre as nações, por causa de vós” (Rm 2, 24).

“Santificado seja o vosso nome” é o pedido que inclui todos os outros pedidos: se Deus é santificado em nós, seu nome é santificado em todos. Fazemos esse pedido “em nome” de Jesus, isto é, rezamos com ele e nele para a glória do Pai e a salvação da criação.

Pe. José Artulino Besen

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03 – PAI NOSSO, QUE ESTAIS NO CÉU

013Chamar Deus de “Pai” é fruto de relação de confiança entre Deus e a criatura, entre mim e Deus. Ele é Pai nosso, não como nossa posse, pois não somos seus proprietários, mas, numa atitude totalmente nova na história religiosa: nós somos o seu povo e ele é o nosso Deus, ele é nosso Pai e nós somos seus filhos, nós nos pertencemos no amor e na fidelidade, em graça e verdade.

Oramos em comunhão. É Jesus, o Filho, que faz essa ligação confiante ser verdadeira pois, vindo a nós pela encarnação, trouxe o Pai até nós e levou-nos até o Pai. Por nós mesmos seríamos incapazes de chegar ao Pai pela oração. O Pai de Jesus Cristo é o nosso Pai e, juntamente com o Filho – somos filhos no Filho – estabelecemos a relação pessoal.

O “nosso” retrata, do mesmo modo, um relacionamento comunitário, inclui outros além de mim, e cada pessoa batizada participa dessa comunhão: nossa oração é sempre povoada por toda a Igreja e mesmo na solidão carregamos conosco o povo de Deus e somos incluídos na sua oração. A cada vez que invocamos nosso Pai incluímos a comunhão com todos os que abraçaram a fé e agora se esforçam para ter um só coração e uma só alma (cfr. Atos 4, 32).

Ensina o Catecismo da Igreja Católica (CIC 2792-2793) que, ao rezarmos o Pai nosso, deixamos de lado o individualismo, pois o Amor que nós dele acolhemos nos liberta: “O ‘nosso’ do princípio da oração do Senhor, tal como o ‘nos’ das quatro últimas petições, não é exclusivo de ninguém: comunhão com o Pai, nas tentações, nas desavenças. Para que seja dito em verdade, as nossas divisões e oposições têm de ser superadas”.

A oração da unidade universal

Invoco o Pai nas minhas intenções, sim, mas sempre incluindo as “nossas” intenções, pois não há crescimento pessoal se não houver crescimento comunitário. Em outras palavras, no “nosso” eu incluo todos aqueles por quem o Pai entregou seu Filho amado. Não há fronteiras no amor, não há fronteiras na oração, não há exclusividades no coração de Deus.

Assim como Jesus deu a vida por todos, no Pai nosso eu intercedo por todos, também por aqueles que ainda não o conhecem, para reunir a humanidade na unidade. Ao rezarmos o Pai nosso incluindo todos os povos promovemos o anúncio do Nome de Deus: Pai. Ninguém se sinta excluído de sua mesa e todos abandonem imagens de medo, domínio e vingança ao recordar Deus.

Sempre que se promove um encontro ecumênico, oração pela unidade dos cristãos, encontro de líderes de diferentes igrejas, o Pai nosso é parte constitutiva. Podemos nos desentender na compreensão da fé cristã, mas nunca nos desentenderemos a respeito do Pai de Jesus Cristo. Assim, a celebração ecumênica é ato de louvor e ato penitencial: louvor por invocarmos o Pai, penitência por não termos comunhão plena.

A invocação de “nosso” Pai é patrimônio e estímulo a todos os batizados a fim de que, dando-se as mãos, os cristãos sintam a dor de terem o Pai comum e ainda não viverem a riqueza de serem plenamente irmãos: os irmãos “separados” são desafiados a se tornarem, o quanto antes, irmãos. Unidos pelo mesmo Batismo, participam da oração de Jesus pela unidade de todos os discípulos.

Um só é nosso Pai que está nos céus, um só devem ser os salvos por seu Filho, um só coração deve ser o gênero humano.

Pe. José Artulino Besen

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01 – A ORAÇÃO DO SENHOR: O PAI NOSSO

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O cristianismo conserva um tesouro simples, de poucas palavras, acessível a todos: a Oração do Senhor, o Pai nosso. É oração do Senhor porque foi ensinada pelo Senhor Jesus a seus discípulos. Alguns a recitam no trabalho, no silêncio do quarto ou do lar, com os braços erguidos ao céu, ou de joelhos, na certeza de estarem invocando o Pai que nos faz seus filhos e, através da filiação divina, irmãos uns dos outros. É a grande oração que, em cada Liturgia, abre o rito da Comunhão: antes de comungarmos o Pão da Vida, o Filho, comungamos com nosso Pai.

Grande escritor, Tertuliano afirma que “a oração do Senhor é verdadeiramente o resumo de todo o Evangelho”. Tudo o que Jesus fez e ensinou nós pedimos no Pai nosso para que aprendamos a vivê-lo.

A Bíblia contém muitos hinos e orações, nela incluído um livro com 150 orações, os Salmos, o alimento principal da oração cristã, donde conclui Santo Agostinho: “Percorrei todas as orações que existem na Sagrada Escritura: não creio que possais encontrar uma só que não esteja incluída e compendiada nesta oração dominical”.

Guardando essa oração no coração e na memória, doutores e analfabetos, crianças e teólogos guardam o tesouro das Escrituras. O Pai nosso não é criação humana: foi dado por Jesus.

Quando orardes, dizei

O Novo Testamento transmite a Oração do Senhor no evangelho de Lucas com cinco petições, e em Mateus, com sete.

No evangelho de Mateus, Jesus é apresentado como o Mestre que introduz o Reino com o Sermão da Montanha (Mt 5-7), iniciado com a proclamação das Bem-aventuranças. É o evangelho que mais acentua Deus como Pai, cuja vontade é o programa de vida de seu Filho e dos “filhos” que ele congrega, para que a vida de Jesus seja a nossa vida.

No evangelho de Lucas, Jesus é apresentado como modelo de oração, e os discípulos com ele querem aprendê-la: “Um dia, Jesus estava orando num certo lugar. Quando terminou, um de seus discípulos pediu-lhe: ‘Senhor, ensina-nos a orar, como também João ensinou a seus discípulos’. Ele respondeu: ‘Quando orardes, dizei: Pai, santificado seja teu nome; venha o teu Reino; dá-nos, a cada dia, o pão de que precisamos, e perdoa-nos os nossos pecados, pois nós também perdoamos a todo aquele que nos deve; e não nos deixes cair em tentação” (Lc 11, 2-4).

Mateus nos transmite que o Senhor repreendia os que achavam ser a oração boa quando comprida, complicada: “Quando orardes, não useis de muitas palavras, como fazem os pagãos. Vosso Pai sabe do que precisais. Vós, portanto, orai assim: Pai Nosso que estais nos céus, santificado seja o vosso Nome, venha a nós o vosso Reino, seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido, e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do Mal (Mt 6, 9-13).

Pe. José Artulino Besen

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