2. Os meios para a luta

Abbá Moisés (Pai do deserto egípcio) disse: “Que a mente não seja incomodada pelos pensamentos é impossível; porém, é possível a quem quer que se empenhe ou acolhê-los e ruminar a respeito deles ou afastá-los. Mas, se não depende de nós o fato que cheguem é, porém, nosso dever afastá-los, e corrigir o nosso pensar depende da nossa decisão e do nosso empenho. Na realidade, quando meditamos com inteligência, incessantemente, a lei de Deus, recitamos cânticos e hinos, nos dedicamos a jejuns e vigílias e nos recordamos continuamente das realidades futuras, do reino dos céus, da geena de fogo e de todas as obras de Deus, os maus pensamentos diminuem e não encontram espaço. Quando, ao contrário, nos ocupamos de coisas mundanas e carnais, e nos entregamos a conversações vãs e ociosas, multiplicam-se em nós os pensamentos maus. Assim como é impossível parar uma pedra do moinho movido a água – mas quem se ocupa do moinho pode moer trigo ou joio – assim o nosso pensar está sempre em movimento, não pode retrair-se dos pensamentos, mas depende de nós dar-lhe uma meditação espiritual ou uma atividade carnal”.

Cassiano o Romano,
A Leôncio higúmeno, vol. I, p. 84

Assim como na falta de um grande navio não se pode atravessar as profundezas do mar, também é impossível afastar o assalto do pensamento mau sem a invocação de Jesus Cristo.

Esíquio Presbítero,
A Teódulo 142

Com relação aos pensamentos, um dos anciãos disse uma palavra muito inteligente e fácil de se compreender: “Julga os pensamentos no tribunal do coração, para ver quais são nossos e quais são dos adversários. Os nossos e bons, repõe-nos na cela interior da alma, guarda-os num depósito inacessível. Os adversos, depois de tê-los punido com o açoite do pensamento espiritual, expulsa-os, não lhes concedas nem posto, nem habitação no interior dos confins de tua alma ou, para falar com mais propriedade, mata-os com a espada da oração e da diviníssima meditação de modo que, eliminados os assaltantes, seu chefe seja tomado pelo temor. Pois foi dito: “Quem examina escrupulosamente os pensamentos é alguém que ama verdadeiramente os mandamentos”.

Teodoro, bispo de Edessa,
Capítulos 70

Há coisas que seguram as paixões em vias de se acordarem e não permitem que aumentem, e existem outras que as reduzem e fazem diminuir: por exemplo, o jejum, a fadiga, a vigília não consentem à concupiscência de crescer; a solidão, a contemplação, a oração e o amor apaixonado por Deus fazem-na diminuir até desaparecer. Acontece a mesma coisa com a cólera: paciência, ausência de rancor e mansidão a seguram e não permitem que cresça; caridade, esmola, bondade e amor pelos homens fazem com que diminua.

Máximo o Confessor,
Sobre a caridade 2,47

Alguém que esteja iniciando a vida espiritual jamais expulsará um pensamento se Deus não o expulsa. Pois pertence aos fortes combater e expulsar os pensamentos; mas também os fortes não os expulsam por si mesmos, mas movem-lhes guerra com o auxílio de Deus, revestidos de sua armadura (cf. Ef 6,11). Tu, quando vêm os pensamentos, invoca continua e insistentemente o Senhor Jesus, e eles fugirão porque não suportam o calor do coração gerado pela oração e, por isso, fogem como que queimados pelo fogo. “Com o nome de Jesus, disse João Clímaco, fustiga os adversários” (Escada do Paraíso 21 – PG 88,945C) porque o nosso Deus é fogo que devora (cf. Dt 4,24) a maldade. O Senhor, que é rápido no vir em socorro, logo fará vingança para aqueles que lhe gritam dia e noite (cf. Lc 18,7) com toda a alma. Quem, pelo contrário, não possui a potência da oração operante nele, afugenta os adversários de outro modo, imitando Moisés (cf. Ex 17,11). Quando ele se levanta e estende as mãos e o olhar ao céu, Deus os afugenta; depois novamente se assenta, começa a rezar insistentemente. E desse método se serve quem ainda não conquistou a potência da oração, e também quem possui a ação da oração usa-o durante o agir das paixões do corpo, isto é, a acídia, a fornicação, as paixões mais duras e pesadas; então, muitas vezes, se levanta e estende as mãos para pedir socorro contra elas. Mas o faz raramente para evitar a ilusão, e de novo se senta; não aconteça que o inimigo do alto sugira fantasias ao profundo do coração mostrando-lhe falsas imagens de verdade. Mas, ter as profundidades do coração seguras para o alto, para baixo, no coração e em toda parte, e guardá-lo livre é próprio somente dos puros e dos perfeitos.

Gregório o Sinaíta,
Como o exicasta…, vol. IV, p. 81-82

Os que enfrentam a luta espiritual devem, com todas as forças, extrair das divinas Escrituras algumas práticas espirituais e aplicá-las como cataplasmas salutares nas profundezas do coração. Desde o amanhecer, diz o Crisóstomo (cit. não encontrada), com a perfeita recordação de Deus e a incessante oração de Jesus Cristo na alma, é necessário estar com coragem e decisão à porta do coração, matar com a custódia espiritual todos os pecadores da terra (cf. Sl 100,8) e no êxtase e na tensão da fiel recordação de Deus cortar, graças ao Senhor, as cabeças dos poderosos, isto é, o surgir dos pensamentos inimigos. De fato, nós sabemos que também nos suores espirituais existem uma ação e uma ordem divinas. E, desse modo, é necessário que façam aqueles que sofrem a violência de tal luta até que chegue o momento do banquete. Depois, tendo dado graças ao Senhor que, somente por amor aos homens, nos sacia de alimento duplamente, no espírito e no corpo, é necessário dedicar-se à recordação da morte e à meditação sobre ela e, com o que segue, dedicar-se firmemente ao ofício  da manhã. Se assim fizermos todo dia, com esforço conseguiremos afugentar as tramas do inimigo espiritual refugiando-nos no Senhor. Se perseverarmos nessas coisas, elas em nós geram a fé, esperança e caridade. A fé nos dispõe a temer verdadeiramente a Deus; a esperança, superando o temor servil, une o homem à caridade de Deus, se é verdade que a esperança não engana (cf. Rm 5,5), pois sabe gerar o duplo amor ao qual estão ligados a Lei e os profetas (cf. Mt 22,40). Segue o amor que nunca desaparece (cf. 1Cor 13,8), após ter provocado em quem dele participa o cumprimento da lei divina tanto neste mundo quanto no futuro.

Filoteu o Sinaíta,
Capítulos népticos 2

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