1. À imagem de Deus

Todos nós, homens e mulheres, somos à imagem de Deus; o ser à semelhança (cf. Gn 1,26-27) pertence àqueles que com muito amor entregaram a Deus a sua liberdade. Quando não pertencemos a nós mesmos (cf. 1Cor 6,19), somos semelhantes àquele que nos reconciliou consigo mediante o amor (cf. 2Cor 5,18). Não se alcança isso a não convencendo a própria alma a não apaixonar-se pela glória de uma vida fácil.

Diádoco de Foticéia,
Discurso ascético 4

Através do batismo de regeneração a santa graça nos concede dois bens, dos quais um supera o outro infinitamente. Um logo nos é dado, pois nos renova com a água e faz resplandecer todas as características da alma, isto é, a imagem de Deus (cf. Gn 1,26-27) cancelando toda a mancha do pecado; o outro, a semelhança, espera por nós para realizá-lo. Quando a mente inicia a saborear com grande percepção a bondade do Espírito santíssimo, então devemos saber que a graça começa a esculpir a semelhança na imagem. Do mesmo modo que os pintores primeiro pintam a figura humana com uma única cor, e depois fazem florescer cor sobre cor, e conservando até nos cabelos o aspecto do modelo que pintam, assim também a santa graça de Deus, através do batismo, primeiro concede a imagem àquilo que era quando o homem foi criado, mas, quando percebe  que desejamos com todo nosso ser a beleza da imagem e permanecemos firmes, nus e imperturbáveis onde ela trabalha, então, fazendo florescer a virtude com a virtude e elevando de glória em glória o aspecto da alma, dá-lhe a marca da semelhança. Portanto, assim o sentido mostra-nos que em nós está-se formando a semelhança, mas a perfeição da semelhança reconheceremos pela iluminação. A mente, de fato, progredindo segundo uma medida e um ritmo indizíveis, recebe todas as virtudes através do sentido; mas não se pode adquirir o amor espiritual a não ser sendo iluminados com plena certeza pelo Espírito Santo. De fato, se a mente não recebe perfeitamente a semelhança através da luz divina, bem pode receber quase todas as outras virtudes, mas ainda não é partícipe do verdadeiro amor. Quando é feito semelhante à virtude de Deus – com isso quero dizer na medida em que o homem pode ser semelhante a Deus – então carrega consigo também a semelhança com o amor divino. Assim como nos retratos todos os pormenores realçados pelas cores acrescentadas à imagem até o próprio sorriso conservam a semelhança do modelo, assim também naqueles que a graça divina desenha a semelhança de Deus, a iluminação da caridade, acrescentando-se, mostra que a imagem atingiu totalmente a beleza da semelhança. Nenhuma outra virtude pode conceder à alma a libertação das paixões, a não ser somente a caridade, porque plenitude da Lei é a caridade (Rm 13,10). Assim o nosso interior se renova dia por dia (2Cor 4,16), saboreando a caridade, e encontra sua plenitude na perfeição da caridade.

Diádoco de Foticéia,
Discurso ascético 89

 Animal dotado de espírito e razão, entre todos somente o homem é a imagem e semelhança (Gn 1,26-27) de Deus. Todo homem é a imagem em razão da dignidade da sua mente e da sua alma, por causa daquilo que tem de intocável, de invisível, de imortal, de seu poder de decidir, mas também pelo poder de dominar, de gerar, de edificar. Diz-se à semelhança por causa de sua virtude e das ações cujo nome vem de Deus e a Deus imitam, por causa de um agir pleno de amor nas relações com nossos semelhantes, de sermos misericordiosos e compassivos e de amar nossos companheiros de trabalho, de demonstrar toda misericórdia e compaixão. Diz Cristo Deus: “Sede misericordiosos como também o vosso Pai celeste é misericordioso” (cf. Lc 6,36). O ser a imagem, todo homem possui, porque os dons de Deus são irrevogáveis (cf. Rm 11,29); mas o ser à semelhança são poucos a possuir e somente os virtuosos, os santos e aqueles que imitam a bondade de Deus no tanto que é possível ao homem. Graças ao imenso amor de Deus pelo homem podemos também nós ser feitos dignos disso, sendo-lhe agradecidos pelas nossas obras boas e tornando-nos imitadores daqueles que desde a eternidade foram agradecidos a Cristo.

João Damasceno,
Discurso útil, vol. II, p. 238

A natureza da alma dotada de espírito e de razão, a única que possui a mente, a razão e o espírito vivificante, a única maior até do que os anjos incorpóreos, foi criada à imagem de Deus (cf. Gn 1,26-27) e possui esta imagem de modo imutável, mesmo que não conheça a própria dignidade e não alimenta o conhecimento, nem se comporta de modo digno daquele que a criou à sua imagem. Também depois da desobediência dos primeiros pais no paraíso, por meio da árvore (cf. Gn 3,6), pela qual estamos submetidos antes à morte da alma que a do corpo, isto é, à separação de Deus, mesmo tendo rejeitado o ser à semelhança de Deus, não perdemos o ser à imagem. Portanto, se a alma se desliga do pior e se liga ao melhor através do amor e se lhe submete com as obras e os modos das virtudes, dele recebe luz e beleza tornando-se melhor e obedecendo a seus conselhos e exortações, das quais recebe também a verdadeira vida, a vida eterna. Graças a esta, a alma torna imortal também o corpo que lhe está unido, o qual, a seu tempo, receberá a ressurreição e participará da glória eterna.

Gregório Pálamas,
Cento e cinqüenta capítulos 39

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