MONSENHOR JOSÉ SUNDRUP

Apóstolo do ensino e da caridade

Pe. José Sundrup - 1907

Pe. José Sundrup – 1907

Poucos presbíteros catarinenses podem ser comparados ao Pe. José Sundrup: sua atuação pastoral, educacional, administrativa e caritativa fizeram dele uma figura ímpar. Muito trabalhou, muito sofreu, mas nunca desistiu de amar o povo e a Igreja.

José Sundrup nasceu em Greven, Alemanha, em 9 de julho de 1871 e foi ordenado presbítero da diocese de Münster em 3 de abril de 1897. Tomado pelo ardor missionário, a convite de Pe. Francisco Xavier Topp chegou a Florianópolis em setembro de 1899. Após breve passagem por Curitiba, seu primeiro campo de apostolado foi a paróquia São Luís Gonzaga de Brusque, na qual era coadjutor de outro grande presbítero, o Pe. Antônio Eising: atendiam Brusque, São João Batista, Tijucas e Porto Belo.

A igreja de Azambuja, dedicada a Nossa Senhora do Caravaggio, e cada vez mais atraía romeiros que ali deixavam boas esmolas. Os dois padres antevêem, no local, a ação da Providência e decidiram aplicar as esmolas numa grande obra caritativa. Pe. Sundrup é a alma dessa iniciativa.

O Pe. José Sundrup era jovem – 28 anos – dinâmico e, especialmente, entusiasmado por obras sociais. Foi o homem certo num momento certo de reflexão pastoral a respeito de Azambuja.

Pe. Eising, auxiliado e animado por ele, projetava para Azambuja três finalidades:

  • incentivar a devoção à Mãe de Deus;
  • fazer esta devoção tornar-se concreta através da prática da caridade;
  • através da prática desinteressada das obras de misericórdia, despertar vocações religiosas.

O projeto era grandioso, necessitavam de Irmãs. Felizmente receberam esse presente da Divina Providência. Em 29 de junho de 1902, três Irmãs da Divina  Providência, Godeharda, Bárnaba e Friedburga, precedidas pelo Pe. Vicente Wienken, Diretor, foram introduzidas processionalmente na igreja e na sua morada e, com isso, na sua esfera de atividade.

Era um pequeno hospital iniciado em 1901 e agora, em 29 de junho de 1902, com a chegada das Irmãs da Divina Providência, inaugurou-se a Santa Casa de Misericórdia Nossa Senhora de Azambuja: o nome abrangia o hospital, asilo para idosos, asilo para órfãos, escola paroquial e escola catequética. Pe. Sundrup foi nomeado administrador, com residência em Azambuja. Adquiriu terrenos vizinhos, para que o Vale não se tornasse um centro de exploração comercial.

Foi uma visão profética do que seria Azambuja trinta anos depois: um Santuário, um Hospital com Asilo, Hospício para doentes mentais e um Seminário. Obra de Deus.

Mas, não faltou logo a provação: em 1904, Pe. Antônio Eising retirou-se para a vida franciscana, assumindo o nome de Frei Capistrano. Pe. Sundrup, sozinho, não daria conta da Santa Casa de Misericórdia e da paróquia de Brusque. Foram assumidas pelos Padres dehonianos, e Azambuja foi confiada ao Pe. Gabriel Lux, grande figura de sacerdote.

Em São Francisco Xavier de Joinville

Com dor no coração deixou a querida Azambuja, transferido para Joinville, onde exerceu o ministério de 1905 a 1917, pároco em 1908. Não descansou: o coração sacerdotal o arrastava para a missão.

Em 1907, ainda como vigário paroquial de São Francisco Xavier de Joinville, Pe. José Sundrup percebia nova realidade: o antigo pároco desde 1853, o venerável Pe. Carlos Boegershausen, havia falecido um ano antes, e a escola que ele havia fundado na segunda metade do século 19 foi municipalizada. Com isso, criou-se um vácuo no ensino católico de Joinville, pois a escola pública não podia ministrar o ensino religioso. Padre Sundrup, então, decidiu criar uma nova escola para suprir esta carência e, em 1º de agosto daquele ano, tiveram início as atividades da Escola Paroquial. No início, eram apenas 32 alunos e as aulas eram ministradas na própria sacristia da igreja. A iniciativa progrediu ao longo do tempo, ganhou mais alunos, e incluía escola gratuita e asilo.

Em 1908, o número de alunos passou para 85. A sacristia já não comportava mais a escola, que precisou recorrer a salas alugadas e buscar mais professores. Elly Herkenhoff, ex-aluna, conta que o padre instalou “as diversas classes em salas ou saletas alugadas por falta de prédio adequado”. Pe. Sundrup lecionava e administrava a nova escola, e contava com dois professores leigos que davam aulas para as crianças durante o dia e “uma aula noturna para aprendizes grandes em uma outra casa”, segundo carta enviada por ele a Dom João Becker, bispo de Florianópolis.

Nesta carta, datada de 1º de dezembro de 1908, solicitava a presença das freiras da Congregação das Irmãs da Divina Providência para administrar e dar continuidade à Escola Paroquial. Ele listava os poucos recursos que tinha a oferecer e delineava como seriam os trabalhos: “A sociedade ‘Deutscher Katholikenverein’ que existe aqui dá às Irmãs uma casa com duas salas grandes e uma pequena para instituir-se escola alemã e brasileira, especialmente de meninas, ou também de meninos pequenos. A mesma casa será também residência das freiras”.

As Irmãs da Divina Providência chegaram em janeiro de 1909 e o número de alunos deu mais um salto, passando a 153. Eram somente quatro religiosas: Fidelis Holtforth, Leonilla Frey, Evangelista Holthaus e Lintrudis. No ano seguinte, o número de estudantes chegou a 203 e mais duas Irmãs se somaram ao grupo. A casa designada para elas ficava na esquina das atuais rua Padre Carlos com avenida Juscelino Kubitschek, bem perto da escola pública que anos antes havia sido criada pelo Pe. Carlos, mas as aulas continuavam espalhadas por salas

Pe. José Sundrup e as Irmãs sentiam a necessidade de seu trabalho e não desanimaram. O local adequado para as aulas foi conseguido em 1914, com a inauguração do prédio da escola. O terreno escolhido foi o morro pertencente à Comunidade Católica, que ia até a Travessa São José e onde ficava o Cemitério Católico. “Mandou o Pe. Sundrup desaterrar boa área, nas proximidades da tradicional igreja ali existente, para a construção da ‘Escola das Irmãs’, conforme geralmente era chamada”, escreveu Elly Herkenhoff (Blumenau em Cadernos, Tomo XX, 1979, p. 333s)..

Além da escassez de recursos, a construção esbarrou em outros obstáculos. “Na Câmara este empreendimento tinha muitos opositores e mal havíamos iniciado a construção quando nos obrigaram a paralisar os trabalhos por tempo indeterminado. Para nossa sorte, contávamos com o apoio de dois senhores de grande influência, que defendiam energicamente a nossa causa: eram os senhores Oscar Schneider, que nos adiantou o capital a 5%, e o dr. Cesar Pereira de Souza. Eles conseguiram que após alguns dias os trabalhos pudessem ter continuidade”, escreveram as Irmãs em suas Crônicas anuais. O prédio foi inaugurado em 5 de julho de 1914.

Alegra-te se te pesa a cruz

Naquele ano, tragicamente, começou também a Primeira Guerra Mundial, o que abalou a escola, assim como toda a cidade que ainda vivia forte germanidade, decorrente das características de sua formação. Tudo piorou em 1917, quando o Brasil entrou na Guerra: o uso do idioma alemão foi proibido.

Em suas “Reminiscências”, escreveu Helena Theis Rauch: “O ensino era em alemão, mas duas vezes por semana a Irmã Renilda dava para nós duas horas em português. Quando ela entrava na classe, a primeira coisa que ela dizia era esta:”agora só se fala em português”. Logo mais a Irmã Evangelista também já lecionava em português, e assim pudemos aprender duas línguas”.

Outra ex-aluna: “Proibido o uso da língua alemã nas igrejas e nas escolas, o Vigário Sundrup, embora falasse, ele próprio, o português, viu-se em situação das mais melindrosas, impedido de pregar a Palavra de Deus a boa parte dos fiéis, católicos imigrantes ou filhos de imigrantes oriundos, não só dos países de língua alemã – Alemanha, Áustria e Suíça – mas também dos países do Norte e do Leste europeu, católicos conhecedores do alemão, mas ainda sem condições de entender uma prédica em português”.

A Escola foi fechada. Explodiu o movimento nacionalista de 1917. Alemão, Pe. José Sundrup teve de fugir em novembro, sendo acolhido pelos franciscanos em Rodeio: estava pobre, sem rendas, sem roupas dignas. Tentou retornar em 1918, mas foi expulso como “elemento perigoso à integridade nacional”, “elemento nocivo à pátria”. Dom Joaquim Domingues de Oliveira, deixou-se impressionar com o ambiente de calúnias e intrigas. Destituiu todos os diretores e diretoras alemãs das escolas paroquiais. Recebia cartas de todas as instâncias políticas e militares para que não desse colocação nem em Joinville nem em lugar nenhum a esse “famigerado padre alemão, lugar tenente de Hindenburg, filho dileto do prussianismo”. Em 4 de abril, Dom Joaquim baniu-o da cidade e lhe concedeu apenas Uso de Ordens. Buscou abrigo em Laguna, donde também foi expulso. Encontrou acolhida em São Ludgero, junto ao Pe. Frederico Tombrock e ali permaneceu de 1919 a 1921, contribuindo para a fundação de um Seminário Diocesano, de pouca duração. Em fins de 1921, foi provisionado para atender às comunidades da Ilha de SC: Trindade, Santo Antônio, Canasvieiras e Rio Vermelho, onde não encontraria ninguém que entendesse alemão.

Para ser reaberta, a Escola das Irmãs precisou encaminhar uma petição ao governo se dispondo a atender às novas exigências – principalmente a que dizia respeito ao ensino em língua portuguesa, já que o alemão ainda era um idioma corrente na escola e na comunidade. E em 1918 chegava o novo vigário, o Pe. Gercino Santana de Oliveira, que determinou:  “Na escola e igreja, a língua alemã está agora proibida, e na primeira, somente o estritamente necessário à explicação podia ser dito em alemão”. Não havia mais turmas separadas de crianças brasileiras e alemãs, pelo contrário, todos tinham aula na mesma classe, em língua brasileira, porque a mistura favorecia o aprendizado da língua pátria..

Pe. José Sundrup, o incansável

Monsenhor José Sundrup

Monsenhor José Sundrup

Voltemos no tempo: além da Escola paroquial, devemos dizer que Pe. Sundrup não esqueceu as crianças do interior da grande paróquia: em união com a Câmara municipal criou 9 escolas, com centenas de alunos, mantidas às suas custas. Gastou seu patrimônio pessoal nessas obras das quais não separava sua missão e alegria: pregar, catequizar, socorrer, ensinar.

Adquiriu terrenos ao redor da matriz, preparou a criação da paróquia de Jaraguá do Sul, em 1912 e do Sagrado Coração de Jesus em Joinville, em 1916. Fora isso, todas as preocupações e ocupações de uma grande paróquia.

Deixando São Ludgero, passou o ano de 1922 em Recklinghausen, mas decidiu retornar ao Brasil: a Alemanha não era mais aquela que conhecera, e a saudade do Brasil era mais forte. Foi acolhido no Rio de Janeiro, sendo vigário paroquial de Nossa Senhora de Copacabana, onde trabalhou de março de 1923 a março de 1926. Ali também sentiu o preconceito contra os alemães, mas não desanimou.

Em 1926, a convite de Dom Guilherme Müller, gaúcho e seu amigo, foi acolhido por esse que era o primeiro bispo da recém-criada diocese de Barra do Piraí, RJ. Nesse ano foi nomeado vigário paroquial e depois Cura da paróquia São José em Campo Belo (hoje Itatiaia). A história da paróquia assim se refere ao Pe. Sundrupo: “Figura que se elevou na simpatia do povo, um verdadeiro “Bom Pastor”, percorria a cavalo, em estradas inacessíveis, semeando a caridade entre ricos e pobres. Sua lembrança permanece na nossa História.

Em 1930, Dom Guilherme nomeou-o pároco de Nossa Senhora da Conceição, em Resende. Instala e custeia, na sacristia da capela do Senhor dos Passos, na cidade, uma escola gratuita para o ensino primário de crianças pobres.

Em suas visitas pastorais à zona rural, que fazia a cavalo em estradas muitas intransitáveis. Visitou todos os distritos de Resende, semeando a caridade entre ricos e pobres. Nomeado Monsenhor em 1934, ali permaneceu 15 anos. Quis a fatalidade que, no ano em que deixou a paróquia, um incêndio praticamente destruiu a bela igreja matriz. A reconstrução não era mais tarefa para ele.

Amado e respeitado, tinha o afeto e a confiança do povo. Nenhuma autoridade tinha mais prestígio do que ele. Se o prefeito municipal mandasse homens trabalharem no domingo, ele chegava perto e, sorrindo, dizia: “Não precisa. Podem ir para casa descansar. Eu garanto!”. E iam, pois a última palavra era dele. Tanto Resende como Joinville têm ruas honradas com seu nome.

Mas, para encerrar, como era Monsenhor na palavra de quem o conheceu?

Uma ex-aluna assim o descreve: “Parece que ainda estou vendo diante de mim a figura do Padre – alto, magro, olhos fundos, rosto de quem nunca se alimenta suficientemente, a batina surrada, remendada, larga demais para a magreza do corpo. Era o Padre dos passos firmes nos calçados recondicionados, o Padre dos gestos decididos e das mãos generosas que nunca, nunca deixaram de ajudar a qualquer que implorasse sua ajuda”.

Amado pelo rebanho, foi chamado por Deus em 9 de setembro de 1951. Vivera 80 anos, dos quais 57 como padre e 52 como generoso missionário no Brasil.

“Alegra-te se te pesa a cruz, pensa então que te ama Jesus!”, escreveu o Pe. Sundrup na Crônica de 1902, em Azambuja. Viveu sempre essa alegria. Recordá-lo também é motivo de alegria.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Maria augusta Damião em 14 de agosto de 2012 - 08:12

    Bom padre José Sundrup, no Céu deve ser o lugar onde ele está. Para Jesus ele é um santo. No mundo ninguêm lhe deu valor. Que falta de humanidade e que falta de espiritualidade. Que DEUS ilumine e dê Fé, muita Fé ao ser humano que pareçe cada vez mais perdido do PAI e da Mãe SANTÍSSIMA.

  2. #2 por Lívia Packness da Silva em 19 de junho de 2015 - 20:14

    Moro em Resende, na rua em que leva o seu nome. Eu e minha avó ficamos muito muito felizes de saber quem ele foi.

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