MONSENHOR VALENTIM LOCH

Monsenhor Valentim Loch – Pai da Igreja

Mons. Valentim Loch, em 15 de dezembro de 1945

Mons. Valentim Loch, em 15 de dezembro de 1945

No decorrer de sua história, a Igreja deu a alguns de seus homens e mulheres o título de “pai” ou “mãe” ou, na linguagem mais conhecida, padre ou madre.

Sem dúvida podemos dar esse título a Valentim Loch: em poucos, como nele, fica tão bem o título : Padre Valentim Loch. Durante 60 anos acompanhou a vida de nossa Igreja arquidiocesana, nela ocupando os mais importantes ministérios, sem nunca se sentir importante ou cair nos arrulhos dos elogios.

Nascido em São Ludgero em 10 de outubro de 1921, ainda na infância perdeu o pai, Joaquim Loch. Ingressando no Seminário de Azambuja em 1933, lá teve o apoio do tio Pe. Bernardo Peters. Sem outros filhos, a mãe Clara Peters Loch foi residir no Asilo de Azambuja, com seu trabalho custeando os estudos do filho. Quis Deus que Clara falecesse mal chegada nos 40 anos. E assim Valentim Loch viveu privado de pais, irmãos, sobrinhos, solidão ocupada pela dedicação integral à vocação presbiteral. Entre 1939-1945 estudou Filosofia e Teologia com os Jesuítas de São Leopoldo, RS e foi ordenado presbítero no Santuário de Azambuja em 2 de dezembro de 1945.

Professor e formador no Seminário de Azambuja

Pe. Valentim dedicou 45 anos de seu ministério à formação presbiteral. Em 1946 foi nomeado professor e prefeito de disciplina em Azambuja; em 1950, professor e diretor espiritual; em 1959, quarto reitor do Seminário, com a eleição de Mons. Afonso Niehues a bispo coadjutor de Lages. Continuando a obra do antecessor, levou a instituição a seu mais brilhante período de formação intelectual.

Homem de rara memória e inteligência, Pe. Valentim podia lecionar qualquer disciplina, todas com a mesma competência: português, francês, alemão, grego, matemática, astronomia, latim, geografia, etc.

Mesmo com diversas e exigentes ocupações, nunca parecia ocupado, agitado, com trabalhos por fazer. Tudo nele era sereno, organizado, bem feito. No atendimento aos seminaristas conseguia dar aparência de impassibilidade/neutralidade tanto diante de um pequeno que ia pedir um conselho quanto de um veterano em dúvidas vocacionais. Ouvia serenamente e com o mínimo de palavras indicava o caminho. Era tradicional seu costume de escutar nossas catilinárias enquanto lia tranqüilamente o jornal O Estado de São Paulo. Acabávamos de falar, ele permanecia em silêncio e depois uma pequena frase encerrava a questão. Às vezes o colóquio se resumia, de sua parte, em dizer “tudo bem, pode deixar o outro entrar”. Os problemas podiam chegar-lhe grandes, mas sempre saíam menores e pacificados.

Num período difícil para a vida do Instituto Teológico de Santa Catarina-ITESC, marcado pela insatisfação geral, apatia, em 1983 foi nomeado Reitor, como última reserva moral do clero para o cargo. Após um ano percebeu que seus valores disciplinares eram outros e não podia banhá-los na bacia da transigência. Deixou o trabalho sem mágoas, sem comentários.

A serviço da Igreja em Florianópolis

Com a morte repentina de Mons. Frederico Hobold, em 1970, Pe. Valentim foi para Florianópolis, com a missão de Vigário Geral (1970-1986) e Coordenador de Pastoral (1970-1977). Não tinha sido pároco, mas seu trabalho silencioso, organizado, unido ao respeito que despertava no Presbitério facilitaram-lhe a missão acrescida, em 1971: primeiro Diretor da Escola Diaconal São Francisco de Assis, ocasião em que fez crescer em profundidade e número o diaconato permanente.

De 1978 a 1982 foi Subsecretário do Regional Sul-IV da CNBB, enfrentando as inúmeras reuniões e viagens pelo território catarinense. Vivenciando a eclesiologia da Comunhão e Participação, evitou tanto o democratismo assembleísta como o autoritarismo. Certamente sofria com certas teses pastorais, mas acatava as decisões da maioria. Nesses compromissos de coordenação pastoral teve sempre a seu lado religiosas competentes, valorizando e respeitando a sensibilidade feminina.

Teve ocasião de praticar experiências pastorais assumindo por três anos a Paróquia de Nossa Senhora da Glória, no Balneário do Estreito (1984-1986). Sua preocupação: formar líderes e equipes para crescer na comunhão eclesial.

Novamente em Azambuja

Aos 66 anos de idade, em 1987 iniciou um novo período ministerial, novamente no Seminário de Azambuja. Foi professor e Assistente dos Estudantes de Filosofia. A partir de 1991 acumulou as funções de professor, Vice-Reitor, Vigário Geral para a região norte e Defensor do Vínculo do Tribunal Eclesiástico de SC.

A comunidade e os doentes de Azambuja estimavam a figura já histórica do “Monsenhor”. Desde o início de seu ministério, em 1946, aproveitava os domingos à tarde para caminhar pelas ruas de Azambuja, cumprimentando as pessoas e seguindo o caminho. Diariamente visitava os doentes no Hospital. Era uma missão que brotava do coração sacerdotal, não uma obrigação. Podemos dizer que em Pe. Valentim o ministério foi  sempre vivido prazerosamente e não como ascese.

Pelo ano de 2004 o mal de Alzheimer começou a dar sinais. No ano seguinte já era perceptível o estrago físico operado pela doença: atacou a Pe. Valentim naquilo que tinha de mais precioso: a memória, a inteligência. Foi com tristeza que em 2006 se percebia seu alheamento da realidade. Sempre compassivo com os sofredores, encontrou a mesma compaixão na equipe do Seminário.

E Deus foi muito bondoso, chamando-o a si em 2 de junho de 2006, primeira sexta-feira do mês. No dia seguinte, véspera de Pentecostes, acompanhado de muitos presbíteros e diáconos e de emocionado povo, seu corpo foi depositado ao lado do túmulo de sua mãe, no Jardim da Paz em Azambuja.

Presidindo a Liturgia exequial no Santuário, no momento da homilia Dom Murilo Krieger, arcebispo metropolitano, acentuou dois aspectos da vida de Pe. Valentim: dele, tudo o que se dissesse seria pouco, e tudo também excessivo. Pe. Valentim era tão discreto, nobre, claro, sucinto que qualquer ponto a mais ou a menos desequilibraria a narração de sua vida, tecida no equilíbrio que a fidelidade amadurecida produz num ideal. Em segundo lugar, a vida de Pe. Valentim foi uma busca contínua e consciente da santidade: desde os tempos de seminário queria ser santo, confidenciou aos estudantes do ITESC por ocasião de seu áureo jubileu presbiteral em 1995.

Padre Valentim, uma personalidade

Nas exéquias, Dom Murilo também definiu Pe. Valentim como uma personalidade: era alguém claro, sem dolo ou diplomacia, agia segundo a consciência, nunca buscou o elogio e a fama, a ambas fazendo jus. O presbitério de Florianópolis não tinha dúvidas estando diante dele: era o Pe. Valentim de sempre, praticamente formador, professor ou reitor de todos. Sentia-se nele o senso de justiça sempre imparcial, o sensus ecclesiae, fidelidade sem esmorecimentos à Igreja, a nobreza sem concessões à vulgaridade, o humor sutil, imperceptível aos distraídos, o riso contido, a palavra verdadeira. Pode-se não amá-lo, mas nunca deixar de admirá-lo.

Homem do silêncio, levava a sério a palavra: homilias breves, claras, objetivas, sempre preparadas, num estilo escorreito, belo, palavras e frases encadeadas harmoniosamente. Desde os tempos de Seminário tinha no “combate à moleza” a grande bandeira pedagógica. Foi seu programa pessoal na busca da santidade. Sua espiritualidade foi muito simples: a Missa e o Terço diários, o Ofício divino e a oração contínua e silenciosa. Um Padre cuja imagem está impressa na memória e na retina de quem aprendeu a conhecê-lo e amá-lo.

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  1. #1 por Carlos Pamplona em 4 de maio de 2010 - 19:01

    Como é gratificante fazer a experiência da volta no tempo, quando nos deparamos com um artigo cujo sujeito mencionado foi alguém com quem convivemos. De fato, as palavras de Dom Murilo nas exéquias foram certeiras, descrever alguma coisa sobre Mons. Valentim seria pouco ou excessivo. Por esse motivo, também eu não o farei. Só deixo aqui a minha gratidão e o meu louvor a Deus, Nosso Senhor, por ter dado à Igreja e a nós um “pastor segundo o seu coração”, um “Padre da Igreja”.

    Carlos Pamplona

  2. #2 por Otávio Zanella em 17 de fevereiro de 2016 - 21:51

    Mons Valentim. Foi com prazer que li sua biografia, bela, singela, culta. Exatamente como era. Sério, de fé, no amor de Deus.

  3. #3 por ilse wiederkehr em 19 de fevereiro de 2016 - 20:08

    Foi um padre que eu aprendi a amar desde criança onde tive toda minha formação religiosa desde meu batismo até meu casamento no Santuário de Azambuja,na época das doutrinas para preparação da primeira comunhão Padre Valentim na época era assim que nós chamávamos,sempre atencioso com todos.que ele esteja com sua mãe junto a Nossa Senhora do Caravagio padroeira de Azambuja.

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