PADRE TARCÍSIO MARCHIORI – PALAVRA E SILÊNCIO

Pe. Tarcísio Marchiori

Tarcísio Marchiori nasceu em Nova Trento em 30 de janeiro de 1920, filho de José Marchiori e de Maria Boratti, e foi batizado pelo santo missionário jesuíta Pe. João Maria Cybeo. Transcorreu sua infância e juventude numa família religiosa, numa comunidade marcada ainda pela lembrança e mensagem de Santa Paulina, que ali tinha residido até 1909, antes de se mudar para São Paulo. Essa lembrança era muito visível nas numerosas jovens que seguiram o ideal religioso de Madre Paulina na Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição. Cinco irmãs de Tarcísio se consagraram à vida religiosa: Irmã Apolônia do Divino Coração (nome civil Ignez), Irmã Clementina Maria de Jesus Crucificado (Luísa), Irmã Aloysia Maria de Jesus Eucarístico (Edviges), Irmã Élia da Virgem Dolorosa (Clara), Irmã Dionísia Maria do Bom Conselho (Clementina).

Madre Paulina quis criar um ramo masculino de sua Congregação e deu-lhe início em Nova Trento, tendo como primeiro vocacionado Roberto Fachini, que orientou até numeroso número de meninos que também desejavam imitar as meninas e jovens religiosas. Devido a ele, o novo Instituto recebeu o nome de Irmãos Robertinos. O então arcebispo de São Paulo, Dom Duarte Leopoldo e Silva, julgou que já havia congregações suficientes e ordenou encerrar a obra, sendo Roberto Fachini enviado para ser Irmão Jesuíta. O sonho de Madre Paulina, porém, permaneceu e, de São Paulo, se esforçou para encontrar jovens que desejassem esse ideal e a Congregação pagou os estudos de alguns deles, e um foi Tarcísio Marchiori.

Com receio dos jesuítas, entrou em contato com os Irmãos Maristas. Assim, a partir dos 9 anos Tarcísio foi internado no Juvenato deles em Curitiba. Aos 13, foi para a Casa Provincial em Mendes, RJ, onde ficou um ano no juvenato, um no postulantado e 6 meses de noviciado. O Mestre de Noviços mandou-o para casa, pois achava que não tinha vocação. Dessa experiência Tarcísio recebeu ótima formação humana, espiritual e intelectual, especialmente português, matemática e francês. Sempre lamentou não conhecer bem o latim.

Viveu quatro anos com os pais, em Nova Trento, e depois foi trabalhar no Hospital Santa Beatriz, em Itajaí, por 7 meses. Era vocacionado, mas para o sacerdócio. Assim, com 20 anos matriculou-se no Seminário de Azambuja em 16 de setembro de 1940 e passou os inícios de 1943 no Seminário Central de São Leopoldo, RS. Teve dificuldades de conviver com a disciplina germânica dos jesuítas, a língua alemã e pesava nele o passado marista. Compreensivo e intuitivo nessas situações, no mesmo ano Dom Joaquim Domingues de Oliveira permitiu que estudasse filosofia e teologia no Seminário Imaculada Conceição, Ipiranga, São Paulo, marcado ainda pela herança formativa dos capuchinhos franceses.

Primeiros anos de ministério sacerdotal

Com grande alegria sua e da família, foi ordenado padre em 4 de dezembro de 1949.

Sua primeira provisão foi para Professor e Prefeito de Disciplina no Seminário de Azambuja. Não era seu carisma, conforme veremos depois.

Em 25 de janeiro de 1951 foi nomeado Capelão do Imperial Hospital de Caridade de Florianópolis. Preocupado com a situação dos enfermeiros e funcionários, passou a conscientizá-los sobre seus direitos, gerando conflitos. Dom Joaquim procurou demovê-lo de se interessar pela sindicalização dos funcionários do Hospital. Em 1º de outubro de 1951 Pe. Tarcísio escreveu-lhe que organizou a Associação Profissional em nome dos 100 empregados, muitos passando por injustiça. Sabe que será demitido do Hospital mas tem a consciência tranqüila. Em 2 de outubro, o Vigário Geral Mons. Frederico Hobold ordena, em nome do Arcebispo, que não registre a Associação e que tudo volte como era antes. Em 8 de outubro, o Desembargador Medeiros Filho, Provedor da Irmandade do Senhor dos Passos encaminha ao Arcebispo a carta “revolucionária” do Pe. Tarcísio aos funcionários, assinada em 6 de outubro. Convicto de seu trabalho, Pe. Tarcísio não cedeu e recebeu o pagamento: em 24 de outubro foi comunicado que cessaram suas funções de Capelão do Hospital e que poderia gozar de 20 dias de férias. Talvez achassem que era o que precisava para retornar ao “bom senso”.

Em 31 de outubro de 1951 foi provisionado como vigário paroquial de São Sebastião, em Tijucas, onde paroquiava o enérgico Pe. Augusto Zucco. Paróquia extensa, incluindo o município de Porto Belo, trouxe-lhe muita dispersão. No final de 1952 pediu outro trabalho e transcorreu breve tempo em Lauro Müller. Em 12 de janeiro de 1953 foi nomeado vigário paroquial de São João Batista, paroquiada pelo enérgico Mons. José Locks. No mês seguinte escreveu a Dom Joaquim com muita franqueza: Mons. Locks falou-lhe que não pedira sua ida a São João, nem solicitara um padre de experiência, mas quisera, expressamente, um dos cinco padres novos para seu coadjutor; e lhe dissera que sua remoção de Lauro Müller fora castigo duma falta grave por ele cometida, mas, ele não sabia do que se tratava.

E denuncia, na mesma carta de 8 de fevereiro: “… cumpro o dever de consciência de levar ao conhecimento de V. Excia, em vista de oportuno remédio, que anda pela Arquidiocese uma epidemia de maledicência. Monsenhores e padres de prestígio e responsabilidade contam com a maior leviandade, sem nenhuma consciência da gravidade do pecado que cometem e do escândalo irreparável que dão, a padres novos e seminaristas, cousas gravíssimas que nunca deveram, por razão nenhuma, ser contadas debaixo do céu!!”. A resposta do Arcebispo foi evasiva: nada constava dessas ocorrências em seus arquivos.

Aqui vale um parêntesis: os padres Augusto Zucco e José Locks foram homens zelosos, pastores bons e severos, teimosos, enérgicos com os padres coadjutores cujo eventual sucesso criticavam como vaidade; ficaram conhecidos como “domadores de padres” pelos seguidos padres novos que passaram por suas mãos e ordens. E, no caso, Pe. Tarcísio não cedia em suas convicções e sinceridade.

Secretário particular do Arcebispo metropolitano

Dom Joaquim, já conhecendo as qualidades morais e intelectuais de Pe. Tarcísio, teve-o como Secretário particular entre 1953 e 1957. A nomeação, porém, sofreu percalços. Em 16 de fevereiro de 1953, Dom Joaquim lhe sugere esse cargo e, na carta em que o convida indica-lhe a organização do Arquivo e acrescenta: “…não há necessidade de movimentar, por enquanto, todos os seus livros, pois que aqui também dispõe de alguns, e muitos estarão a seu dispor. Não há necessidade de ajudar à nossa Missa, e à mesa, as refeições, para evitar palestras inúteis, as refeições poderão ser condimentadas com piedosas leituras”. E pede que reze pelos Monsenhores de que escreveu na carta. Agradecido, Pe. Tarcísio responde em 20 de fevereiro de 1953, ressalvando: “Sofro de miopia muito acentuada e sou distraído mais do que convém”. Em 25 de fevereiro Dom Joaquim o desconvida, pois o cargo seria desempenhado por Pe. Quinto Davide Baldessar, para grande amargura de Pe. Tarcísio: “Ir trabalhar em Florianópolis significava por um termo àquela triste questão do Hospital que Mons. Hobold tem como um espinho no coração e não me quer perdoar nunca. Tudo desmoronou deixando-me apenas o gosto amargo dum sonho desfeito”. Lamenta que fazem dele um cigano com tantas mudanças, não podendo realizar nenhum trabalho melhor… E comenta o medo que tem de Mons. Locks, o prussiano.

Sensível a esse medo, em 7 de março de 1953 Dom Joaquim escreve a Mons. Locks, pedindo que tenha paciência: “Entanto, saberá V. Rev.ma usar de toda sua armazenada dose de paciência e caridade. Padre T. é poeta. Terá alma sensível. Experimente, caro Monsenhor, levá-lo pelo coração. Mesmo que custe um bocado. Mas aí é que está, a nossa vitória e o nosso prêmio. E sei que saberá fazê-lo e o fará. Porque a esse argumento, ele (como qualquer um de nós) se deixará render”. Esperar essa “armazenada dose de paciência” era quase recorrer ao impossível!

Padre Tarcísio adoece, pois tem de atender semanalmente a duas capelas, nelas pernoitando, com numerosas confissões, batizados, visitas a doentes e tudo o mais. E assim, em 13 de abril de 1953, Dom Joaquim comunica-lhe que será seu Secretário.

Pe. Tarcísio se alegrou no novo ministério. Ao mesmo tempo ministrava aulas de religião no Colégio Coração de Jesus e era Capelão do Hospital Nereu Ramos, Florianópolis. Por sua inteligência e conhecimento de Filosofia, no período de 1953-1957 foi um dos fundadores e professores da Faculdade Catarinense de Filosofia, embrião da Universidade Federal de Santa Catarina-UFSC.

Daria um livro de Fioretti as passagens pitorescas da convivência entre duas personalidades tão originais e íntegras. Diariamente Dom Joaquim decorava um poema em francês e Pe. Tarcísio devia ouvir-lhe a declamação. Depois, foi a vez de Pe. Tarcísio também declamar um poema para Sua Excelência. Num dia andaram se desentendendo e o Arcebispo ficou amuado. À mesa, por diversos dias, de cabeça baixa e voz aflita, repetia, para tristeza de Pe. Tarcísio: “Ele come do meu feijão e é contra mim!”.

Professor e formador de seminaristas

Concluída sua missão junto a Dom Joaquim, em 27 de fevereiro de 1958 foi nomeado vigário paroquial de Nossa Senhora de Fátima, no Estreito.

Pe. Tarcísio privava da amizade do bispo de Joinville, Dom Gregório Warmeling, que o compreendia em sua personalidade poética, filosófica, e distraída. Foi por ele acolhido em fevereiro de 1960, com duas missões: professor e diretor espiritual no Seminário Diocesano de Joinville, em Salete e vigário paroquial de Nossa Senhora da Salete. Transferido o Seminário para Taió no ano seguinte, segue para lá, sendo professor no Seminário Nossa Senhora de Fátima e vigário paroquial.

Até 1968 os seminaristas diocesanos de Joinville cursavam o Curso Clássico (Ensino Médio) em Azambuja e a condição era ceder um padre para lecionar e ajudar no Seminário. Desse modo, entre 1963-1965 Pe Tarcísio Marchiori foi professor em Azambuja. A disciplina que ministrava com maior prazer era na área da matemática e língua portuguesa.  Uma vez por mês dava-se o direito de passar um dia de descanso com outro matemático, Alexandre Merico: transcorriam a jornada resolvendo problemas de alta geometria e trigonometria. E, descansados, retornavam ao trabalho!

Suas aulas eram monótonas, pois a fala de Pe. Tarcísio era também monótona. Havia outro problema, também: ele não gostava de explicar porque, dizia, “se explico vocês não precisam mais pensar”. Era sucinto na direção espiritual: se algum lhe propusesse o problema da gula, aconselhava “coma menos”; se fosse a dificuldade na oração, “peça a Nosso Senhor a graça de não se distrair”.

Suas distrações eram proverbiais: mencionar o Papa Pio XII quando já tinha falecido João XXIII e pontificava Paulo VI, perguntar ao coroinha em que parte da Missa estava – pois tinha se perdido – e ficar nervoso que o pobrezinho não soubesse, amanhecer caminhando pensando que ainda não anoitecera, colocar a cinta por cima da batina e, o que mais os alunos apreciavam, pegar no sono e roncar durante a aula… Fatos pitorescos da vida de um verdadeiro pensador.

Retornando à Diocese de Joinville, de 23 de julho de 1965 a 6 de novembro de 1976 foi pároco de São João Batista, em Garuva. Uma paróquia então pobre, plantada entre as belezas do mar e dos bananais, com algumas capelas cujo único acesso era por lancha. Estando em casa, ao meio-dia fazia a caminhada até à beira de BR 101, almoçando num restaurante cujo dono nada lhe cobrava. Não havendo matemáticos em Garuva, e para ajudar na manutenção pessoal, ocupou-se no cultivo de maracujás, tendo sua horta merecida fama, o que rendeu-lhe um assalto à noite, sendo espancado e deixado amarrado, fruto da raiva de quem o julgou rico agricultor. Foram 11 anos de trabalho e alegria, edificando o povo com sua piedade. Famosa sua declaração, anos depois: “o maior milagre de Nosso Senhor foi transformar pescadores em Apóstolos”.

Artista da palavra e da sabedoria

Já referimos o magistério exercido por Pe. Tarcísio na recém fundada Faculdade Catarinense de Filosofia (1953-1957). Era um filósofo no sentido pleno da palavra, jamais cedendo na exigência lógica, o que contribuiu para que escrevesse relativamente pouco: não largava uma frase ou parágrafo enquanto não estivessem formalmente claros. Em 1953 participou, com seu amigo filósofo Evaldo Pauli (padre entre 1950-1967) do Congresso Nacional de Filosofia em Curitiba, PR e, ao final, decidiram pela fundação da seção catarinense do Instituto Brasileiro de Filosofia-IBF, dos qual foram os dois primeiros Sócios.

A poesia e a filosofia foram suas grandes paixões. Cultivou sempre e somente a filosofia escolástica, fascinado pelo pensamento lógico. Tendo pobre o dom da palavra falada, era rico no dom da escrita: cada frase, cada verso era estudado, trabalhado, limado até atingir a perfeição, isso significando, às vezes, alguns anos ou a entrega ao lixo.

Em 1964, em Azambuja, publicou o primeiro livro de poesias: VERGOT. Alegrou-se com os elogios de Dom Joaquim em 22 de setembro de 1964: “… onde os versos deslizam mansos, tranqüilos, na pureza de água da fonte. Poesia autêntica, e cuja leitura seduz, justamente pela aparente simplicidade em que são vasadas. Há que fazer esforço para interromper a leitura. Não estará justamente aí um dos motivos de seu intrínseco mérito?). Por que o nome VERGOT? Pe. Ney Brasil Pereira, em crônica da época referiu-se a VERY GOOD, Muito Bom. Em todos os casos, são poemas sem métrica ou rima, profundamente densos na beleza formal e espiritual.

Foram 12 os livros publicados entre 1964 e 2004 enfocando poesia, espiritualidade, filosofia e romance histórico: Vergot – 1964; Terra dos Carijós – s/d; O infinito sabor da liberdade – 1977; Salmos dos que vencem a prova – 1987; Esboços – 1987; Maravilhas que Deus revelou 1 – 1988; Caminhos da Filosofia 1 – 1988; Sofismas de fim de Milênio – 2000; O infinito sabor da liberdade e os amigos das fadas – 2000; Problemas de Filosofia – 2001; Crer até o fim no amor infinito de Deus – 2001; Sobre a Eucaristia e Sacerdócio – 2003; Nossa Senhora, Mãe de Jesus – 2004.

Todos esses livros foram impressos em edição do autor, a suas custas, praticamente sem publicidade. Podem ser encontrados, felizmente, via internet, na estante virtual.

Últimos anos – silêncio e piedade

Em outubro de 1976 tem início nova etapa em sua vida sacerdotal: foi nomeado vigário paroquial de Nossa Senhora da Glória, bairro Garcia, em Blumenau. A diocese de Joinville estava praticamente sem Seminário desde 1969, pois, no ano anterior, o Papa Paulo VI criou a Diocese de Rio do Sul, onde se localizava o Seminário de Taió, e o Seminário de Campo Alegre revelara-se inadequado.

O pároco Pe. Vertolino José da Silveira resolve reunir, na casa paroquial, jovens que sentissem o chamado vocacional. Deu à iniciativa o nome de Seminário São José. Pe. Tarcísio foi indicado para ajudar nos estudos e na formação desses jovens, ali permanecendo até 1979 quando foi transferido para Joinville. Dom Gregório, com o auxílio de dois padres italianos, dava início ao Seminário Diocesano Divino Espírito Santo. Em 1º de janeiro de 1980, Pe. Tarcísio foi provisionado auxiliar e residente nesse Seminário. Profundamente humilde, desapegado de tudo, vivia no silêncio sua riqueza espiritual e intelectual, para exemplo dos seminaristas joinvillenses. Professor e diretor espiritual, edificava a todos e era estimulante exemplo de fidelidade e piedade aos jovens vocacionados que aprenderam a amá-lo e dele cuidar quando a doença o deixou enfraquecido. Podiam vê-lo constantemente rezando o rosário na sua especial devoção a Virgem Santíssima, no grande apreço pelo sacramento da Reconciliação, que buscava constantemente. Padre Tarcísio, mesmo doente, com seus 86 anos celebrava a Missa todos os dias com duas ou três pessoas em seu quarto particular, dizendo que “tinha sido padre para rezar Missa”.

Sempre que podia fazia-se presente na comunidade de vida Arca da Aliança, e entre os enfermos do Hospital Regional Hans Dieter Schmidt.

Deus o chamou no dia 26 de outubro de 2007, aos 87 anos de vida e 57 de presbiterato. Seus restos mortais estão depositados em sua terra natal, Nova Trento.

Pe. José Artulino Besen

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