3. A vigilância e a sobriedade

Nosso Mestre Jesus Cristo, conhecendo a grande crueldade dos demônios e cheio de misericórdia pela raça humana, com coração firme ordenou: “Estejais prontos a qualquer hora porque não sabeis em qual o ladrão virá (cf. Mt 24,42-43), pelo temor de que ele venha e vos encontre dormindo” (cf. Mc 13,36). E ainda: “Cuidai para que vossos corações não se sobrecarreguem na trapaça, na embriagues e nas ocupações da vida, e a hora chegue a vós de improviso” (cf. Lc 21-34). Domina teu coração, vigia teus sentidos e viverá em paz contigo a recordação de Deus, prenderás os ladrões que te roubam dele, porque aquele que examina atentamente os seus pensamentos reconhece aqueles que estão para entrar a fim de emporcalhá-lo. Eles perturbam o profundo do coração para torná-lo dissipado e preguiçoso, mas aqueles que conhecem sua maldade permanecem imperturbáveis rezando ao Senhor.

Isaías Anacoreta,
A custódia da mente 12

Suplico-te, enquanto estás no corpo, não afrouxar  a vigilância do teu coração, porque assim como o camponês não pode fazer as contas de algum fruto que cresce em seu campo antes de tê-lo guardado em seus celeiros, porque não sabe o que acontecerá, assim o homem não pode afrouxar a vigilância do coração enquanto houver respiração em suas narinas (cf. Tg 27,3). E como o homem desconhece até o último suspiro qual paixão o tentará, assim é-lhe impossível afrouxar a vigilância de seu coração enquanto respira, mas deve sempre gritar a Deus para dele receber socorro e misericórdia.

Isaías Anacoreta,
A custódia da mente 15

Presta atenção ao teu coração, irmão, e fica atento a teus inimigos, porque são espertos em sua malícia. E disso convence-te em teu coração: que é impossível para o homem fazer o bem enquanto faz o mal. Por isso o nosso Salvador nos ensinou a vigiar, dizendo: Estreita é a porta e apertado é o caminho que leva à vida e são poucos os que a encontram (Mt 7,14).

Isaías Anacoreta,
A custódia da mente 21

Vigilância, oração e paciência no que nos acontece partem o coração sem feri-lo e lhe fazem bem. Mas, na condição de que a ganância não quebre a harmonia entre essas coisas. Quem nelas persevera, no restante também receberá socorro. Quem as relaxa e as divide, padecerá grande sofrimento ao deixar esse mundo.

Marcos o Asceta,
A lei espiritual 19

A atenção é uma paz do coração que nunca falha, estranha a todo pensamento, paz que sempre e ininterruptamente respira e invoca Cristo Jesus, Filho de Deus e Deus, somente ele. Ela forma com ele para combater valorosamente os inimigos; confessa os seus pecados somente a ele, único que tem o poder de perdoá-los; abraçando continuamente com a sua invocação o Cristo, único que conhece os corações no íntimo, a alma procura esconder de toda maneira aos homens a doçura que ela sente e a luta interior pelo temor de que o maligno nela faça entrar secretamente a malícia e destrua uma obra assim bela.

Esíquio Presbítero,
A Teódulo 5

A vigilância é o concentrar-se contínuo do pensamento e o seu permanecer à porta do coração. Os pensamentos, que chegam como ladrões, ela os vê, e escuta o que dizem e fazem esses assassinos, e que forma os demônios neles imprimiram e ergueram como se fosse um monumento; de fato, com essas fantasias procuram enganar o profundo do coração. Essas ações próprias da vigilância, conduzidas com diligência, fazem-nos ter plena experiência, se o quisermos, do combate espiritual.

Esíquio Presbítero,
A Teódulo 6

Um primeiro modo da vigilância está no controlar freqüentemente a fantasia, o assalto, pois Satanás não pode, sem a fantasia, criar pensamentos, nem apresentá-los ao profundo do coração servindo-se do engano.

Um outro modo é ter o coração sempre profundamente silencioso, em estado de repouso, estranho a todo pensamento, e de oração.

Outro modo é suplicar, na humildade, o socorro do Senhor Jesus Cristo.

Outro modo, trazer na alma a incessante memória da morte.

Todas essas ações, caríssimo, impedem, como porteiros, o acesso dos maus pensamentos.

Esíquio Presbítero,
A Teódulo 14-18

O esquecimento sabe apagar a vigilância do profundo do coração. A oração contínua de Jesus, unida a uma vigilância constante, acaba por expulsá-lo totalmente do coração. De fato, a oração tem necessidade da vigilância do mesmo modo que a chama tem necessidade da lamparina para dar luz.

Esíquio Presbítero,
A Teódulo 102

Não são um mal os alimentos, mas a gula; nem a geração de filhos, mas a fornicação; nem a riqueza, mas o amor do dinheiro; nem a glória, mas a vanglória; se é assim, nada é mal nas coisas, mas sim o abuso delas, que se manifesta por causa da negligência do profundo do coração no cultivar a própria natureza.

Máximo o Confessor,
Sobre a caridade 3,4

Vigiemos com toda atenção nosso coração (cf. Pr 4,23) a todo momento, mesmo o mais breve, os pensamentos que vêm ofuscar o espelho da alma no qual está impresso e luminosamente figurado Jesus Cristo, sabedoria e potência de Deus Pai (cf. 1Cor 1,24); procuremos sem parar dentro do coração o reino dos céus (cf. Mt 6,33), o grão (cf. Lc 13,19), a pérola (cf. Mt 13,45), o fermento (cf. Mt 13,3), e os encontraremos misticamente dentro de nós, se purificarmos o olho de nossa mente. Por isso, disse o Senhor nosso Jesus Cristo: “O reino dos céus está dentro de nós” (cf. Lc 17,21), mostrando que a divindade habita dentro do coração.

Filoteu o Sinaíta,
Capítulos népticos 23

Vigia as profundidades de teu coração com extrema atenção. Quando tomas consciência de um pensamento, deves logo contradizê-lo e imediatamente, com pressa, chama Cristo em tua defesa. Mas o doce Jesus, enquanto ainda falas, dirá: Eis, estou aqui (Is 58,9) em teu socorro. Tu, porém, depois que todos esses inimigos, por causa da oração, se afastaram, fica novamente atento às profundidades de teu coração. Eis, novamente, ondas mais numerosas que as anteriores, uma depois da outra, sobre as quais a alma nada, mas eis Jesus, ainda, despertado pelo discípulo (cf. Mt 8,23-26) que, como Deus, repreende os ventos. Recebido o alívio, mesmo que por apenas uma hora, ou por um momento, dá glória àquele que te salvou e pensa na morte.

Filoteu o Sinaíta,
Capítulos népticos 26

É possível, a todo cristão que crê retamente em Deus, longe de ser privado de solicitações, esperar sempre a tentação e estar pronto para acolhê-la, para não se admirar quando chega e nem se espantar, mas suportar com ação de graças a fadiga da tribulação e compreender o que está dizendo quando recita com o profeta: Sondai-me, Senhor, e provai-me (cf. Sl 25,2). Não diz: “A tua correção me abateu”, mas: Vós me dais o escudo que me salva (Sl 17, 36).

Elias o Presbítero,
Florilégio I

Feliz a alma que, esperando hoje a vinda do Senhor, não leva em conta toda a fadiga do dia e a fadiga da noite, pensando que está para chegar o alvorecer.

Elias o Presbítero,
Capítulos gnósticos 102

Alguns santos disseram que a atenção é a guarda da mente; outros, a guarda do coração; outros, sobriedade; outros, repouso da mente; outros, outras coisas. Mas, todas essas definições constituem uma só e mesma coisa. É como se dissesse “pão” ou “pedaço de pão” ou “bocada de pão”. Aqui é a mesma coisa. Aprende com exatidão que coisa é a atenção e quais são suas características próprias. A atenção é sinal claro de conversão; a atenção é chamamento da alma, ódio do mundo e ascensão a Deus; a atenção é rejeição dos pecados e redescoberta da virtude; a atenção é indubitável certeza do perdão dos pecados; a atenção é o início da contemplação ou, melhor ainda, o fundamento da contemplação, pois lhe transmite Deus que se voltou para ela, manifesta-se à mente; a atenção é imperturbabilidade da mente, ou, melhor ainda, sua imobilidade concedida como prêmio à alma por misericórdia de Deus; a atenção é purificação dos pensamentos, templo da recordação de Deus, guarda da paciência frente aos acontecimentos; a atenção solicita a fé, a esperança, o amor. Se não se crê, não se poderão suportar as aflições que vêm de fora e, se não se suportam as aflições com alegria, não se poderá dizer ao Senhor: Tu és meu sustento e meu refúgio (Sl 90,2) e, se não se faz do Altíssimo o próprio refúgio (cf. Sl 90,9), não se abraça o seu amor.

Nicéforo Monge,
Discurso sobre a sobriedade, vol. IV, p. 26)

Cuida de ti mesmo (Dt 15,9), disse Moisés, cuida de tudo em ti, não de uma parte e relaxando outra. Com o que? Certamente através da mente. Com nenhuma outra coisa é possível estar atento a ti, em tudo. Vigia sobre tua alma e sobre teu corpo; graças a essa vigilância serás libertado facilmente das más paixões da alma e do corpo. Portanto, fica atento a ti, vigia sobre ti, examina a ti mesmo, ou então, protege-te, examina-te e te perscruta. E assim submeterás a carne rebelde ao espírito e não haverá no teu coração uma palavra escondida (cf. Dt 15,9). Se o espírito de um poderoso, espíritos maus ou más paixões, te assalta, não abandones teu posto (cf. Qo 10,4), isto é, não deixes desguarnecida uma parte da alma ou do corpo. Assim, portanto, estarás acima dos espíritos que de baixo te ameaçam e estarás na sinceridade diante daquele que perscruta os corações e os rins (cf. Sl 7,9) sem ser examinado porque tu mesmo os examinaste por primeiro. De fato se nos julgamos a nós mesmos, não seremos julgados (cf. 1Cor 11,31). É Paulo quem disse isso.

Gregório Pálamas,
Em defesa dos santos exicastas, vol. IV, pp. 128-129

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