CÔNEGO MIGUEL GIACCA  E NOVA VENEZA

Cônego Miguel Giacca

Cônego Miguel Giacca

Miguel Giacca nasceu em Busca, diocese de Saluzzo, Itália, em 13 de julho de 1878. Ordenado presbítero em 28 de dezembro de 1902, a convite do Pe. João Canônico, vigário de Criciúma, da mesma diocese, chegou ao Brasil em 1908. Seu objetivo: atender aos imigrantes italianos.

Devido à “febre de padres sicilianos”, padres fugidos de censuras da Igreja na Itália e que vinham ao Brasil “fazer a América”, Roma passou a selecionar de modo bastante rigoroso os padres que desejassem partir em missão. Para vir ao Brasil era necessário um Rescrito da Santa Sé através da Sagrada Congregação do Concílio para os Bispos e Ordinários da Itália, da América e das Filipinas. No caso de Pe. Giacca, a solicitação foi feita por Dom Giovanni Oberti, bispo de Saluzzo, em 26 de outubro de 1908. A validade era trienal, depois qüinqüenal. Ao retornar à Itália, o padre deveria levar uma Recomendação do bispo onde trabalhara. Fruto disso foi a grande qualidade pastoral e espiritual dos padres italianos chegados em Santa Catarina.

A vida de Pe. Miguel Giacca foi dedicada ao crescimento humano e espiritual de Nova Veneza (Colônia fundada em 1891). De fevereiro de 1909 a 31 de julho de 1912 foi Capelão-Cura de Nova Veneza e, de 31 de julho de 1912 a 5 de março de 1945 pároco de São Marcos Evangelista, Nova Veneza.

Obrigatórios para todos os estrangeiros, em 15 de dezembro de 1910, Pe. Giacca teve de prestar os exames de Dogma, Moral e Direito Canônico, língua e gramática portuguesas. Dom João Becker nomeou como examinadores o Pe. Frederico Tombrock e Pe. José Francisco Bertero. Saiu-se bem na prova oral e escrita. A prova escrita teve duas perguntas: sobre Cristo Sacerdote e sobre a Eucaristia.

Dedicação contínua ao rebanho

Foi o primeiro vigário que contribuiu para o crescimento espiritual e social da comunidade de Nova Veneza. A primeira escola foi organizada por ele já em 1908; ele mesmo lecionava quando faltavam professores.

Aqui deveríamos citar as muitas capelas que ajudou a construir, a catequese que ministrava, o cuidado com as crianças através de escolas paroquiais, com os doentes na fundação de um hospital, as contínuas viagens pelas distantes colônias, montado ou em charrete, que lhe minariam a saúde. Criou a Sociedade São Marcos que tinha, além de biblioteca, instrução, oficio religioso e escotismo. Foi iniciativa de o Hospital São Marcos, que surgiu em 1933.

Em 1916 inaugurou a nova igreja matriz de Nova Veneza. Em 1936 sugeriu a Dom Joaquim criar um Grupo Escolar paroquial de ensino médio. Motivo: após o primário na Escola paroquial que fundara em 1908, as crianças da roça têm trabalho, mas as da cidade ficam ao léu, aprendendo o mau caminho. Sem esperar autorização, deu início à construção, concluída em 1937.

Promoveu o primeiro Congresso Eucarístico catarinense em 1938, e um Congresso Catequístico em 1941. Como se pode ver, uniu sua vida humana e sacerdotal aos destinos de Nova Veneza.

Missionários em terra catarinense - da esquerda para a direita, o italiano Pe.Luiz Gilli, o polonês Pe. Francisco Chylinski, o alemão Pe. Frederico Tombrock e Pe. Miguel Giacca.

Missionários em terra catarinense – da esquerda para a direita, o italiano Pe.Luiz Gilli, o polonês Pe. Francisco Chylinski, o alemão Pe. Frederico Tombrock e Pe. Miguel Giacca.

Fascismo e anti-fascismo

A política italiana, com o triunfo de Benito Mussolini, repercutia nas colônias do Sul catarinense. Elementos ocultos acusaram o Pe. Giacca e um Tibaldeschi de terem organizado uma campanha antifascista. Em agosto de 1932, temeroso, Pe. Giacca pediu ao arcebispo Dom Joaquim Domingues de Oliveira que falasse com o Cônsul italiano de Curitiba ou com o Vice-Cônsul em Florianópolis. Dom Joaquim encarregou Frei Evaristo da missão de contatar o Vice-Cônsul de Florianópolis Esse comunica que Pe. Giacca estaria por trás da oposição em fundar uma célula fascista. Frei Evaristo concluiu no relatório: Pe. Giacca não foi acusado de inimigo do fascismo. Era apenas desconfiança. Mas tinha tomado o partido de Tibaldelschi contra as autoridades consulares (11 de agosto de 1932).

Isso machucou o vigário, que via seu rebanho dividir-se. Na verdade, Pe. Miguel Giacca não caiu na tentação fascista, que depois fez a Itália mergulhar na tragédia da guerra.

Em 26 de julho de 1932, Luiz Lazzarin, intendente distrital e Presidente da Comissão do Hospital de Caridade escreveu a Dom Joaquim que permitisse ao Pe. Giacca descansar uns três meses, mas não abandonar Nova Veneza, pela qual deu a vida, como estaria planejando.

Mas, Pe. Giacca pediu para ser transferido à diocese de Lages, e despediu-se “para sempre” de Nova Veneza em 19 de agosto de 1932. Foi nomeado vigário interino de São Joaquim da Costa da Serra, no Planalto. Em abaixo-assinado, seus paroquianos pedem o retorno dele. A saudade do mundo italiano, de seu rebanho, logo o prostra e pediu a Dom Joaquim para retornar. E assim, aquele que se despedira “para sempre”, quatro meses depois, em dezembro, voltava a seu ninho…

Com a saúde não recuperada, em novembro de 1933 pediu licença para banhos em Águas Mornas e anunciou a chegada de Irmãs para o Hospital e, para isso, pedia licença de Capela para guardar o Santíssimo Sacramento e celebrar. As Irmãs não vieram. Dom Joaquim entrou em contato com as Irmãzinhas de Madre Paulina, mas essas não puderam aceitar a missão. Em 3 de março de 1934 sugeriu ao Pe. Giacca que procurasse boas jovens com vocação para enfermeiras, às quais se daria determinado hábito e um pequeno e apropriado regulamento. Uma delas se especializaria em Hospital da Capital. Boas vocações não faltariam. Seria a fundação de uma congregação paroquial, mas que não vingou.

Histórias de Forquilhinha

Cônego Miguel Giacca

Cônego Miguel Giacca

Um dos espinhos de sua vida foi a bem-amada Forquilhinha, a 18 km da sede paroquial. Devido ao incremento da imigração alemã, seus moradores passaram a desejar autonomia em relação a Nova Veneza. Em 1915 foi bento um cemitério em Forquilhinha para enterrar alemães. Pe. Giacca ofendeu-se, pois havia cemitério a curta distância. Vê maquinação do Pe. Geraldo Spettmann, SCJ e do “curialista alemão” (Frei Evaristo Schürmann), como desprezo aos brasileiros, italianos e polacos: “Ninguém vale quanto um alemão”, escreveu.

Em 1935, teve início o movimento para a criação da paróquia de Forquilhinha, encabeçado pelos franciscanos e dehonianos de Tubarão. Pe. Giacca ficou irritado, pois não queria perder uma parte “boa” da paróquia. E diz que os moradores de Forquilhinha não são alemães (motivo para ser Paróquia), mas teuto-brasileiros. Entra a questão nacional. Em março de 1937, passando por Forquilhinha Pe. Giacca recebeu a apresentação de coadjutor com residência lá, nomeado por Dom Joaquim, sem lhe comunicar. Pe. Giacca não gostou: “Ainda mais que o coadjutor é franciscano e com regulares (religiosos) a cousa não é fácil; muitas vezes até os Snrs. Bispos e Arcebispos são obrigados, tratando com regulares, a comer a folha” (capim) (carta de 7 de março de 1937).

Dom Joaquim confirma a nomeação e diz que o frade não residirá em Nova Veneza, pois o jovem Pe. Felix Mrugalla, chegado e morto em 1936, com idêntica provisão, nunca morou em Nova Veneza.

Em 1940, Dom Joaquim decidiu criar a paróquia de Forquilhinha com nove capelas de Nova Veneza, que como compensação receberia Belluno. Em outubro, Pe. Miguel escreve que isso tornaria Nova Veneza inviável. Sugere quatro: Forquilhinha, Santa Rosa, Santa Ana e Santa Bárbara. Em 19 de outubro, Dom Joaquim expõe que seu projeto é fazer de Forquilhinha, com os Franciscanos, um grande centro missionário para a irradiação das Missões populares. Pe. Giacca se resigna e em 19 de novembro expõe sua dor da perda de um povo que educou e evangelizou, e também pela queda de receita. Em seguida elaborou os limites da paróquia de Forquilhinha. Sabia obedecer. Forquilhinha tornou-se importante centro pastoral e vocacional franciscano, ali tendo nascido o Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns e Dra. Zilda Arns, apóstola das crianças. 

Na paz do Senhor

Em abril de 1939, Pe. Giacca fraturou uma perna. Convalesceu em Orleans. Após seis meses, não estava recuperado e pediu um coadjutor permanente ou um sucessor. Recebeu o socorro dos padres de Forquilhinhas e Criciúma. Sua saúde enfraquecia, mas não seu zelo pastoral. Não era idoso, mas o trabalho o tinha consumido. Em fevereiro de 1945, adoeceu gravemente. Não resiste, e Deus o chama em 6 de março: 67 anos incompletos, 43 de padre, 36 no Brasil, em Nova Veneza.

Cônego Honorário do Cabido Metropolitano de Florianópolis (21 de dezembro de 1940) pelos serviços prestados, Pe. Miguel Giacca formou um povo verdadeiramente católico, e de sua Nova Veneza surgiram outros municípios e paróquias que conservaram seu espírito e mensagem.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Giliard Cesconeto Gava em 28 de novembro de 2013 - 17:38

    Gostaria de obter maiores informações sobre o padre Antônio Manno, que passou por Nova Veneza, sem termos muita material sobre ele!

    Grato

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