CÔNEGO LUIZ GILLI E URUSSANGA

Pe. Luiz Gilli

Pe. Luiz Gilli

Luiz (Luigi) Gilli nasceu em Moncalieri, Itália, em 19 de novembro de 1872 e foi ordenado presbítero em 30 de maio de 1896. Após o Rescrito da Sagrada Congregação do Concílio, o Cardeal Agostinho Richelmy, de Turim, lhe concedeu a autorização para vir ao Brasil, em 13 de novembro de 1903. Acompanha-o o Pe. Domingos Bonavero, e depois, em 1909, chegou o Pe. Caetano Coccilovo para auxiliar em Azambuja do Sul. Os três da arquidiocese de Turim, que tinha assumido o cuidado pastoral dos imigrantes italianos do Sul catarinense..

Desembarcou no campo missionário em 1904, vocacionado para o atendimento aos colonos italianos. Seu campo de apostolado: a Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, de Urussanga, fundada em 8 de dezembro de 1896 e que, de 1899 a 1908 foi atendida por outro missionário italiano, o Pe. Luiz Marzano, que retornou à Itália.

Até 1908, Pe. Gilli foi vigário paroquial, em seguida assumindo como pároco, ali e ali permaneceu até a morte. Acumulando o campo apostólico, como vigário encarregado, assumiu Jaguaruna em 1909, Criciúma em 1919, e Cocal em 1938.

Capela – escola – hospital

Igreja, escola e hospital eram inseparáveis do trabalho paroquial e, juntamente com a língua italiana e a valorização da família, permitiram que as numerosas capelas, povoadas em pouco tempo por pessoas estranhas entre si, pudessem constituir verdadeiras comunidades de fé e de solidariedade. Cada comunidade construía sua capela, e os colonos gostavam de ter o mesmo patrono que tinham na Itália.

Pe. Gilli construiu nova igreja matriz, aproveitando o campanário da anterior, fruto do trabalho do Pe. Cipriano Buonocore. Quando o antigo sino rachou, Pe. Gilli foi a Turim para encomendar não um sino, mas carrilhão de sinos de bronze. Chegaram em 1927 e foi trabalho árduo erguê-los na torre. Padre, religiosas e povo passaram o dia em oração afim de que o técnico Ernesto Bettiol fizesse bem o trabalho. São 4 sinos e Pe. Gilli,seguindo a tradição, deu a cada um regra para o uso: o maior deles pesa 800 quilos e é o sino dos ritos solenes. Era tocado nas datas festivas, como Natal, Páscoa, dia da Padroeira (8 de dezembro) e quando algum papa falecesse. O segundo pesa 600 quilos e é o sino mais tocado: quando morre um adulto ou durante as missas. Quando o falecimento é de uma mulher, o sino bate por um tempo, pára e depois volta a ser batido. Já quando morre um homem, a batida prolongada se repete por três vezes. O terceiro pesa 400 quilos e é o sino das tempestades. Quando o tempo está feio e ameaça fortes chuvas e trovoadas ou então, quando uma tempestade já se alastra pela cidade, o sino é tocado, para afastá-la. O quarto e último é o sino dos anjos: pesa 200 quilos e só é tocado quando morre uma criança. Nas solenidades, toca-se o carrilhão. Assim, além da função litúrgica, o sino é um meio de comunicação para o povo espalhado pela redondeza.

Hospital Nossa Senhora da Conceição foi iniciativa do Pe. Luiz Marzano, com planta desenhada na Itália pelo engenheiro Molli e executada pelos colonos, que ergueram um prédio de dois pavimentos, um destinado a acolher a escola e as Imãs Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus. Dada à inconveniência de englobar na mesma casa as religiosas, a escola paroquial e a casa de saúde, logo os primeiros médicos instalaram o hospital em prédio próprio na Praça da Bandeira, onde permaneceu por longo tempo, acolhendo os enfermos e procedendo às primeiras cirurgias.

Pe. Luiz Gilli dedicava seu tempo à paróquia, à escola e ao hospital. A partir de 1942, doente, assumiu apenas a capelania hospitalar.

As alegrias e incômodos de um padre missionário

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Cônego Luiz Gilli

Apenas tinham algum desenvolvimento e as comunidades queriam ver-se constituídas em paróquia, como na Itália, onde o clero era abundante e não era conhecido o costume de matriz e capelas. Assim aconteceu com Nova Treviso. Sendo contra sua elevação a paróquia, em 18 de janeiro de 1916 Pe. Gilli escreveu a Dom Joaquim Domingues de Oliveira afirmando que ela é muito pobre para ser paróquia, que era mais interesse dos comerciantes do que do povo. Anos depois, em 20 de janeiro de 1934, Lucas Batti, prefeito provisório de Urussanga escreveu ao Arcebispo renovando o pedido do povo: afirma que há uma padre no Rio Grande que, de bom grado, aceitaria o encargo. De fato, em 18 de janeiro se hospedara em Hotel de Urussanga, procedente de Pelotas, o Pe. Pasquale Limirdosso. Foi procurado por gente de Treviso e disse que aceitaria ficaria de bom grado, mas com licença do Arcebispo. Para frustração do povo, desistiu da proposta.

As Sagradas Congregações romanas acompanhavam os padres e, na falta de notícias, reclamavam da situação irregular, ou seja, estarem em missão sem licença de Roma. Pediam informações ao bispo diocesano, demonstrando o cuidado pela ação missionária após as experiências negativas de padres avulsos que deixavam a Itália para “fazer a América” (enriquecer). Desse modo, em 1917, Pe. Luiz Gilli sofreu, porque Roma reclama de sua situação desconhecida e o suspende do ministério. Assina a carta o Cardeal De Lai, da Sagrada Congregação Consistorial que, primeiro, pediu informações em Turim. Dom Joaquim, em 7 de janeiro de 1918, escreveu que Pe. Gilli é de vida boa e ilibada, pároco bravo e zeloso. O Card. De Lai então concede seis meses de licença, mas com retiro penitencial de uma semana, estendida ao Pe. Caetano Coccilovo. Deste modo, terminou a suspensão do Pe. Gilli da parte de Roma. As licenças são trienais, depois quinquenais e Roma pede que a cada ano o bispo relate como vive o padre seu ministério. O acontecido demonstra o cuidado romano com a missão católica junto ao imigrante.

Em junho de 1939, Pe. Gilli submeteu-se, em Florianópolis, a uma cirurgia de catarata. Não tendo mais a mesma saúde, em 28 de outubro a Cúria o consulta se aceitaria ser capelão do Hospital de Caridade, resolvendo, assim, o problema da Paróquia e do Hospital de Urussanga.

Em 13 de dezembro Pe. Gilli responde que lhe é difícil deixar Urussanga após 36 anos de dedicação. Era sua casa e seu povo. Além disso, prosseguem as obras da igreja matriz: já foram gastos 38 contos, mas sobravam em caixa 88 contos, e gostaria de gastá-los.

Estamos na segunda Grande Guerra e o nacionalismo ferve. Em algumas colônias do sul catarinense as crianças ainda aprendiam o Hino da Itália e davam vivas ao Rei. O Jornal TUBARÃO (ano VII, 31 de agosto de 1940) atacou o Pe. Luiz Gilli por pregar em italiano e pedir ao povo que rezasse pela vitória final da Itália. O articulista ataca a falta de nacionalidade, o desrespeito pela lei e sugere que, se ele é italiano, patriota e fascista, que volte para a Itália. Em 12 de setembro de 1940, o Vigário Geral Mons. Harry Bauer lhe escreveu impondo o português, língua nacional. Falar em italiano, além de desnecessário, é inútil, com exceção, talvez, do confessionário. Em 19 de setembro, Pe. Gilli respondeu, conformando-se totalmente às normas.

Em 11 de novembro de 1940, Pe. João Dominoni, de Cocal, escreveu ao Vigário Geral que Pe. Gilli está doente, acamado com apendicite aguda, esperando resolver o caso com aplicações de gelo, pois a diabete não recomenda cirurgia. Também solicita um coadjutor para as capelas. Em 1941 foi nomeado coadjutor o Pe. Valmor de Castro, brasileiro castiço em meio a italianos. Surgem desentendimentos entre os dois a ponto de, em julho de 1943, Pe. Gilli ficar dois meses junto ao Pe. Miguel Giacca, em Nova Veneza, pois necessitava de descanso e sentia-se desprestigiado pelo Coadjutor. Dom Joaquim apresentou como solução nomear o Pe. Valmor para as capelas e Pe. Gilli ficando com a Matriz. Como conclusão, Pe. Valmor não perdeu ocasião de fazer o velho pároco sofrer, e foi para o Rio de Janeiro em início de 1945. Lá era arcebispo e cardeal Dom Jaime de Barros Câmara, seu ex-reitor no Seminário de Azambuja.

Os últimos anos de um velho pároco

Cônego Luiz Gilli (Foto: Jornal Panorama SC)

Cônego Luiz Gilli – 1953 (Jornal Panorama SC)

Pe. Gilli adoeceu. Em 27 de fevereiro de 1947, Cônego Dominoni escreveu à Cúria que ele está gravemente doente de diabetes e em estado pré-comatoso. Felizmente se recupera e, em 18 de agosto de 1947, a Cúria lhe prometeu um coadjutor. Em 20 de agosto Cônego Luiz Gilli escreveu que pensava em voltar à Itália. Sua saúde não lhe permitia mais trabalhar como deveria. Em 23 de agosto, Dom Joaquim lhe escreve delicadamente, mas pergunta se seria o caso de retornar à Itália. Não resolveria uma Capelania no Hospital de Caridade, o Abrigo de Órfãos, Colônia Santa Teresa, Hospital de Tijucas? Cônego Dominoni assumiria provisoriamente Urussanga e Pe. Carlos Sorger provisoriamente Cocal.

Em fevereiro de 1948, Cônego Gilli pediu demissão de Cônego Catedrático do Capítulo da Catedral (com nomeação de 1931) e de pároco, após 38 anos de pastoreio. Em 10 de fevereiro Dom Joaquim aceita, mas o nomeia Cônego Honorário em 19 de março. Sucedeu-o na paróquia, com nomeação em 1º de abril de 1948, o Pe. Agenor Neves Marques, que ali trabalhará por mais de 50 anos. Em 11 de março de 1948, Urussanga promove grande homenagem de despedida a Cônego Gilli, dedicando-lhe placa e busto na praça. Pe. Luiz retorna à Itália.

Felizmente, aconteceu que os ares italianos lhe fizeram bem à saúde e já em dezembro e 1948 solicita retornar a Urussanga e, se possível, como pároco. Em 3 de janeiro de 1949, a Cúria responde que fica feliz com a saúde, mas que é impossível retornar ao paroquiato, já preenchido. Como ele não recebeu essa carta, em 7 de janeiro de 49 escreveu de Moncalieri, novamente, pedindo voltar para acabar a igreja matriz e construir nova casa paroquial.

Em 19 de janeiro o Vigário geral Cúria lhe propõe alguma Capelania, ou Imaruí, coadjutor de Biguaçu, Tijucas, etc. Em 5 de março de 1949, concretamente propõe o paroquiato de Imaruí, substituindo o Cônego Bernardo Blaesing, o que não deixava de ser um pouco cruel pois ficava afastado de tudo o que tinha amado no Brasil.

Cônego Gilli retornou, porque sentia muita saudade de seu povo, junto do qual quer morrer. Do Rio de Janeiro, escreveu em 29 de março de 1949 que gostaria de ser capelão do Hospital de Urussanga, prometendo em nada se intrometer na paróquia. Em 9 de abril, a Cúria lhe telegrafa desaconselhando Urussanga e negando provisão.

Descoberto no Rio pelo Pe. Valmor de Castro, foi denunciado à Nunciatura. Acionado, em 21 de abril de 1949 Dom Joaquim escreveu ao Núncio Dom Carlos Chiarlo,falando da chegada do Cônego Gilli sem nenhuma autorização de Roma. Mas não o deixa ao desabrigo e propõe que possa ser capelão, auxiliar como confessor e pede orientação.

Em 22 de abril de 1949, Cônego Gilli é encaminhado a Tijucas, residindo com o Pe. Augusto Zucco, enquanto não se regularizasse a situação. Em 8 de maio, o Núncio comunica que Cônego Gilli e o Pe. Pedro Baldoncini, de Criciúma, devem logo recorrer à S. Congregação Consistorial, pois a situação irregular traz consigo a suspensão a divinis. Dom Joaquim escreveu ao Pe. Zucco em 12 de maio de 1949, comunicando a suspensão e autorizando-o apenas a comungar e distribuir a Comunhão. Pobrezinho.

Sofrendo tamanha humilhação após décadas de serviço dedicado, Côn. Gilli escreveu ao Vigário Geral, Frederico Hobold, que a suspensão o deixou inconsolável. Pede que Dom Joaquim logo regularize sua situação, na caridade e na bondade. Em 18 de maio é-lhe respondido que a arquidiocese não tem culpa que ele esteja inconsolável, pois foi ele que desobedeceu. Mas, procurará remediar. O pedido a Roma é feito em 17 de maio de 1949. Em 18 de junho o Núncio apostólico permitiu ao Arcebispo absolvê-lo ad cautelam da suspensão a divinis, com a condição prévia de um breve curso de exercícios espirituais ou na Capital ou em Nova Trento. Pe. Gilli obedece, feliz, e em 13 de junho comunica ter feito o Retiro, com confirmação do Pe. Afonso Kurzo, SJ, pároco de Nova Trento.

Um irmão de Cônego Gilli, o também Cônego Pietro Gilli, da Catedral de Pergola, Pésaro, gostaria de trabalhar em Santa Catarina, mas cometeu a imprudência antipatriótica de perguntar se aqui existem mosquitos. Em 18 de maio, o Vigário geral escreve a Pe. Gilli que, se seu irmão quiser vier, que venha sem condições, trabalhar onde mandar o Arcebispo, e sem esse negócio de mosquito… Cônego Pietro não veio…

Retorno a Urussanga e descanso final

Pe. Gilli está em Tijucas, bem tratado, mas com saudades de Urussanga, e vice-versa. Em 28 de julho de 1951, Dionísio Pilotto, prefeito municipal, telegrafou a Dom Joaquim em nome da Comissão e Diretoria do Hospital, para que ele seja Capelão do Hospital. Em 30 de julho o Vigário Geral telegrafa dizendo que Dom Joaquim está de acordo. Foi grande a alegria para ele que, feliz, retornava à sua terra adotiva.

Suas condições de trabalho não mais são favoráveis, pois se impõem os achaques da velhice. Em 24 de julho de 1952, Pe. Agenor Neves Marques telegrafa à Cúria se queixando que Cônego Gilli, celebrava mesmo em precário estado de saúde e omitia constantemente partes essenciais da Missa, mas insistia em celebrar todo dia. Cônego Hobold, padre sem dramas, respondeu aconselhando que ele celebre sempre com a presença de outro padre ou de uma Irmã inteligente e competente.

Em 14 de março de 1954, Pe. Agenor, atento à decadência mental mais do que física de Cônego Gilli, escreveu ao Vigário Geral a respeito de um Testamento que ele teria feito. Há muita gente interessada e enganando-o. Em 25 de março é respondido que se Gilli não quer tocar no assunto, nada feito e nem as Irmãs se interponham no assunto. Mas, em 23 de abril de 1955, Pe. Agenor conseguiu receber dele 38 mil cruzeiros e os deposita no Banco INCO em nome da Cúria. Ele pediu a celebração de 1000 Missas (a mil cruzeiros cada), e os 8.000 restantes dariam para a sepultura.

E, novamente, problemas com Roma pois, em 8 de abril de 1954 a Nunciatura escreve a respeito da não renovação da permissão. Dom Joaquim responde: não seria o caso de usar a misericórdia com um ancião doente, à beira do desenlace final!?

Em 16 de julho o Vigário Geral, após receber queixas de que Pe. Gilli se esquece tanto da absolvição como de partes da Missa, decide que não pode mais confessar nem celebrar sem a presença de um padre, suspendendo o indulto da Irmã inteligente e competente.

Claro, o cuidado pastoral era necessário, mas o velhinho já caminhava noutra direção. Em dois de julho de 1956, confortado pelos Sacramentos, enriquecido por 60 anos de vida sacerdotal, Padre Luiz Gilli despediu-se. Entregou a alma a Deus na sua Urussanga, onde feliz trabalhara por 52 anos e onde aguarda, com tantos paroquianos, a ressurreição final.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por sergio roberto maestrelli em 27 de abril de 2010 - 16:09

    Pe José A. Besen:
    Como urussanguense desejo parabenízá-lo pela compilação da rica biografia do nosso 2º pároco, Cônego Luiz Gilli, que deixou saudades entre seus contemporâneos e deixou sua marca para a posteridade.
    Com o objetivo único de ajudá-lo, apenas solicitaria que fosse feita uma retificação em sua biografia.
    Padre Gilli falecu em 02 de Julho de 1956 e não 20 de Julho como consta.
    Um abraço e obrigado por ter registrado a biografia deste padre que alavancou muitas conquistas para o povo de Urussanga.
    Um abraço

    Sérgio R. Maestrelli

  2. #2 por Maristela Gilli em 1 de dezembro de 2013 - 22:20

    Fico muito feliz em saber que em meu DNA corre o sangue de uma pessoa que foi tao importante pra Urussanga, pois moro em Criciúma e nunca soube certo como era a historia de um ante-passado meu. Parabens a quem fez essa biografia.
    Maristela Gilli

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