PADRE LUIZ CARLOS RODRIGUES

Padre Luiz Carlos Rodrigues

Na década de 60 do século passado, especialmente após o Vaticano II, falou-se bastante de vocações “adultas”, isto é, receber no seminário jovens já saídos da adolescência, com maior maturidade afetiva, que tivessem completado o 2º. Grau. A tradição formativa preferia receber vocacionados crianças e adolescentes, e os estudos seminarísticos pediam um percurso de sete anos antes de iniciar o Seminário maior, o que facilitaria o trabalho da formação integral da personalidade. A multiplicação de colégios e ginásios em municípios do interior sinalizava a possibilidade de ingressar no seminário diretamente nos estudos filosóficos, favorecendo a formação no âmbito da família e da comunidade.

Dom Afonso Niehues, arcebispo de Florianópolis, foi favorável a esse novo caminho ainda como experiência, e recebeu vocacionados encaminhados para Curitiba, diretamente para os estudos filosóficos e teológicos. Isso acarretou novas exigências, especialmente na formação humana e religiosa: era desafiante acompanhar um seminarista vindo do seminário menor ou do colégio público. Incluído nos primeiros que trilharam o novo caminho está Luiz Carlos Rodrigues.

Luiz Carlos Rodrigues nasceu em Serraria, Barreiros, São José, SC em 22 de novembro de 1946, filho de Jorge Turíbio e Benta Paulina Farias, numa numerosa família de 10 irmãos. Seu pai era pescador, embarcado, passando tempos fora de casa. Uma família pobre alicerçada na coragem e perseverança da mãe. Sua formação escolar aconteceu em colégios públicos até a conclusão do 2º Grau: estudos primários em Barreiros, ensino fundamental na Escola Industrial de Florianópolis (1960-1963) e o ensino médio no Instituto Estadual de Educação (1964-1967).

Fruto da participação em grupos de jovens e de liturgia, nele brotou e firmou-se  a vocação sacerdotal. Teve o apoio do pároco, Pe. Justino Cortjens, que o orientou e apresentou a Dom Afonso. Bem recebido, em 1968 internou-se no PAULINUM, Seminário catarinense em Curitiba, onde completou a faculdade de Filosofia na Universidade Federal do Paraná. De 1970 a 1973, completou os estudos teológicos no ITC – Instituto de Teologia de Curitiba. Para auxiliá-lo nas despesas com faculdade e pensão contou com a generosidade de Dom Afonso e do Sr. Zioni Berkenbrock.

Preparou-se espiritualmente para as próximas ordenações participando de retiro inaciano de 30 dias, em janeiro-fevereiro de 1973.

Em 18 de fevereiro de 1973 foi ordenado diácono na igreja matriz de Barreiros. E também ali, sua paróquia natal, foi ordenado padre em 7 e julho de 1973, por Dom Afonso Niehues. Para lema de ordenação escolheu: Deus me enviou para trazer aos pobres a Boa-nova (Lc 4,18). Tendo passado pela experiência da pobreza em sua história pessoal, quis que os pobres tivessem lugar especial em sua vida ministerial.

Ministério sacerdotal

Foi nomeado vigário paroquial da Catedral de Nossa Senhora do Desterro, em Florianópolis em 1º de agosto de 1973, permanecendo até fevereiro de 1976.  Muito atraiam suas homilias claras, formulação agradável e linguagem popular. Seu estilo brincalhão aproximava-o dos humildes, deixando lembrança afetuosa de modo especial nos residentes do Morro da Caixa e do Mocotó.

Pe. Luiz Carlos Rodrigues – posse em Biguaçu – 8-02-1976, acompanhado de Côn. Rodolfo Machado

Em 8 de fevereiro de 1976 foi provisionado pároco da grande e tradicional paróquia de  São João Evangelista de Biguaçu, que incluía o município de Governador Celso Ramos. Continuou residindo em Biguaçu Cônego Rodolfo Pereira Machado, venerável pároco que ali tinha chegado em 1943. Evidente que muitos continuavam a ter como padre vigário o Padre Rodolfo, o que levou a desentendimentos entre ele e o novo pároco. Na verdade, Pe. Luiz não se esforçou para estimular uma convivência fraterna, esquecendo que Cônego Rodolfo gozava de grande estima após 33 anos de trabalho. Também não contribuiu para o trabalho pastoral certa intransigência e autoritarismo na tomada de posições em questões de menor importância.  Surgiu, inclusive um abaixo-assinado na capela de Canto dos Ganchos e na sede. Essas contrariedades na vida de um padre jovem, levaram-no a uma estafa em 1977 curada com 30 dias de repouso em Curitiba. Por esse e outros motivos, em 17 de agosto de 1979 Dom Afonso passou-lhe provisão para vigário paroquial de Nossa Senhora de Fátima e Santa Teresinha, no Estreito, Florianópolis.

Pe. Luiz Carlos tinha grande capacidade de organização pastoral e administrativa, gozando do afeto do povo. Sua dificuldade maior era o relacionamento com as lideranças paroquiais às quais valorizava e oferecia ótima formação, mas, ao preço de exigir obediência sem contestação. Ele combatia e criticava a centralização clerical, mas na prática a reproduzia. Ficou lembrada uma declaração ao Conselho de Pastoral: “Na Igreja manda o Papa, na arquidiocese manda o Arcebispo, na paróquia manda o pároco, que sou eu!”.

Atento à sua capacidade de organização pastoral e dons pessoais, Dom Afonso Niehues quis tê-lo junto a si, nomeando-o Coordenador Arquidiocesano de Pastoral em 1º fevereiro de 1984. Também foi nomeado membro do Colégio de Consultores, para assessoria administrativa na organização arquidiocesana. Era uma vida de muitas reuniões, planejamentos, viagens. Por cansaço, sofreu grave acidente de automóvel na Baía Sul, em 22 de fevereiro de 1986, com muitas fraturas. Internado no Hospital de Caridade, passou por cirurgia. Em 29 de abril nova internação, em São Paulo, para correções da cirurgia.

No período da coordenação de Pe. Luiz, estava em alta o método participativo na pastoral, que supõe a valorização efetiva das lideranças leigas, desafiando os padres ao trabalho em equipe com leigos. Mas, na prática, Pe. Luiz contradizia o método participativo sendo ele próprio autoritário e centralizador e crítico dos padres a que acusava de clericais.

O clima entre os padres tornou-se negativo, especialmente entre seus melhores amigos e colegas de seminário, que não aceitavam suas imposições. Infelizmente, na Assembleia arquidiocesana de Pastoral de 1988, um grupo desses padres dirigiu-se a Dom Afonso quase que exigindo a renúncia de Pe. Luiz. Constrangido, Dom Afonso narrou a situação ao padre, que preferiu ele mesmo renunciar.

Na Carta de renúncia de 7 de novembro de 1988, dirigida ao clero e aos leigos, explicava que não quis prejudicar ninguém e “reafirmo minha convicção de que acredito numa Igreja que seja de todos e para todos e não, como querem alguns, um sistema econômico, um partido político, ou coisa parecida, criando sectarismos entre o Povo de Deus. Saio com mágoas, não posso dizer o contrário. Contudo, com o compromisso de, dentro de minhas limitações, rezar para que todos se encontrem verdadeiramente com a Verdade de Jesus Cristo e a vivam na sinceridade e nobreza cristã. Que não usem subterfúgios para impingir cargas demasiadas a outrem, enquanto ficam flauteando, cantando o canto da vitória (?) sobre os despedaçados por suas malícias e neuroses de poder”. São afirmações muito duras, inspiradas por um coração generoso, porém magoado. Fruto negativo disso tudo foi o isolamento de Pe. Luiz Carlos, cortando a amizade com padres amigos e sinceros que poderiam ajuda-lo. A mágoa é extremamente prejudicial na vida de uma pessoa, isolando-a do círculo tradicional de amizade.

Deixando a Coordenação de Pastoral, retornou à vida paroquial, nomeado pároco de Nossa Senhora de Fátima e Santa Teresinha, no Estreito, Florianópolis de 1º de janeiro de 1989, onde trabalhou até julho de 1993, acumulando como administrador paroquial de São Judas Tadeu, Barreiros, São José, a partir de 26 de março de 1990. No campo administrativo, promoveu a colocação de imagem de Nossa Senhora de Fátima na torre do Santuário e fez construir escadaria na lateral direita.

Cursos e assessorias

Pe. Luiz Carlos não teve base escolar sólida e desconhecia as tradições da vida católica e clerical, não tendo jogo de cintura no meio dos conflitos. Ele não chegou a perceber que isso o distanciava dos padres mais velhos e dos colegas. Mas, verdade seja dita, procurou remediar algumas carências.

Na década de 1980, frequentou um Curso sobre a realidade brasileira, promovido pelo CERIS (Centro de Estatística Religiosa e Investigação Social), vinculado a CNBB.

E outro Curso sobre a Conferência de Puebla, em Medellín, Colômbia, acompanhado de Pe. Francisco de Sales Bianchini. Em carta a Dom Afonso Niehues, escrita em La Ceja, motivava sua participação: “É um oportunidade de abrir horizontes no meu sacerdócio. .É talvez um meio de eu mesmo me orientar mais fortemente no anseio de servir a Deus e a diocese por meio de meu sacerdócio, que pode crer, amo profundamente”.

Seu projeto pessoal era ser nomeado conferencista de Puebla na Igreja catarinense. Mas, sentiu frustração ao não ser valorizado pelo ITESC – Instituto Teológico de SC, que promoveu um curso sobre o tema, não o tendo incluído entre os ministrantes.

Teve muita alegria em prestar assessoria religiosa a diversos movimentos leigos: Equipes de Nossa Senhora, Movimento Familiar Cristão – MFC (como assessor eclesiástica da Presidência), Movimento de Cursilhos de Cristandade, Renovação Carismática Católica, Legião de Maria e ADCE – Associação de Dirigentes Cristãos de Empresas.

Organizou encontros estaduais do Movimento de Cursilhos de Cristandade e do Movimento Familiar Cristão. Os grupos leigos apreciavam suas conferências por seu conteúdo direto, claro e bem humorado. Era um hábil comunicador.

Desde os primeiros anos de padre desejou poder estudar na Europa, não tendo recebido apoio quando seu grande desejo foi cursar Catequese na Bélgica. Mas, permaneceu com o projeto pessoal e foi para Roma em 13 de setembro de 1993, destinado a cursar Direito Canônico. Surgiram alguns empecilhos, especialmente no campo linguístico, pois não estudara latim, imprescindível para um canonista. Deste modo, a alegria de novos estudos converteu-se em preocupação quando já estava em Roma, pois necessitava recuperar essa e outras disciplinas fundamentais. As saudades, o sentimento de frustração foram agravados pela triste notícia do falecimento de sua querida mãe Dona Benta em 31 de outubro de 1993. A isso tudo acrescentou-se crise de saúde, o que obrigou-o a retornar ao Brasil em maio seguinte.

Em 27 de maio de 1994 foi nomeado vigário paroquial da Catedral onde permaneceu até 28 de dezembro, quando foi provisionado pároco de São Judas Tadeu, Barreiros, São José. Na verdade, Pe. Luiz Carlos Rodrigues não era mais o padre animado, feliz e amigo. Nele se confundiam doença de fundo nervoso/emocional e problemas cardíacos.

Em 28 de dezembro de 1995 fixou residência como coadjutor de Santo Antônio, Campinas, São José. Sentindo-se recuperado, foi provisionado pároco do Santíssimo Sacramento, Itajaí em 20 de dezembro de 1996, onde pode colocar em prática sua visão de pastoral paroquial. Infelizmente, sua permanência foi breve, pouco mais de um ano. Itajaí era uma paróquia de grande tradição católica e sentiu-se podado em seus projetos de trabalho.

Recordando esse tempo, eu percebia que seu grande sonho era coordenar movimentos pastorais em nível diocesano e regional. Foi nomeado vigário paroquial dos Sagrados Corações, em Barreiros, em 11 de fevereiro de 1998, pedindo que fosse liberado para prestar assessorias, o que aconteceu ao ser nomeado Assistente Espiritual do Conselho Regional de Pastoral da CNBB – setor Pastoral Familiar.

De 1999 a 2004 assumiu a Coordenação arquidiocesana dos Ministros da distribuição da Comunhão Eucarística, prestando ótimo serviço misturado com suas intransigências. Mas, desejava um contato direto com o povo, e foi-lhe confiada a Capelania de Nossa Senhora do Rosário, no bairro Bela Vista, com o nome de Capelão permanente de Capela Provisionada, em 20 de dezembro de 1999, ali permanecendo até 30 de janeiro de 2005, quando foi criada a paróquia Nossa Senhora do Rosário.

Foi sua última messe. Em 2006, por problemas de saúde, diabetes e circulação, passou a morar na residência particular de Cecília Schutz, no mesmo bairro Bela Vista. Dona Cecília Schutz foi sua amiga e confidente por longos anos, desde a paróquia de Biguaçu.

Pela opção de residência, adoentado, Pe. Luiz Carlos Rodrigues pouco participava da vida arquidiocesana. Não se deve excluir, nessa fase, o aprofundamento das mágoas não curadas, que o deixaram deprimido. Quem o tinha conhecido em outros períodos sentia fala de sua presença alegre, brincalhona. Faleceu em 10 de janeiro de 2009.

Permanecendo fiel a seu sacerdócio, a seus ideais de vida, faleceu em 10 de janeiro de 2009, jovem nos seus 63 anos de vida e 36 de ministério sacerdotal.


Pe. José Artulino Besen

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