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A TRINDADE SANTÍSSIMA – NOSSO DEUS

Domínio Público, via Wikipédia*

“É absurdo e impróprio pintar em ícones a Deus Pai com barba cinza e o Filho Unigênito em seu seio com uma pomba entre ambos, posto que ninguém viu o Pai segundo a Sua Divindade, que o Pai não tem carne […] e que o Espírito Santo não é, em essência, uma pomba, mas, em essência, Deus” (Grande Sínodo de Moscou, 1667).

Esta decisão da Igreja Ortodoxa Russa condenou a tendência de artistas russos que, de certo modo, estavam imitando a arte ocidental, deixando de lado os princípios canônicos que determinavam a forma e o conteúdo dos ícones. E, a Rússia já tinha oferecido à Igreja o ícone da Trindade Santíssima por obra do monge Andrei Rublev (1360-1430), e que se tornou modelo para os outros ícones. Rublev, canonizado pela Igreja russa em 1988, para sua obra prima teve seus dias de pura inspiração e, quando apresentou aos monges o ícone da Trindade, provocou um puro assombro: estavam diante de algo divino, jamais concebido por artista humano, e prorromperam num hino de louvor ao Deus Trindade, cuja beleza ninguém podia imaginar, mas que se revelara ao monge Rublev, na igreja do Mosteiro da Santíssima Trindade de Moscou.

A Trindade é um mistério – e sempre o será nesta terra. Às vezes, porém, nos são concedidos vislumbres da vida divina, e o ícone de Rublev nos permite espreitar brevemente por trás do véu que oculta o mistério.

Após prolongado jejum e oração, encontrou a inspiração no texto sagrado, em Abraão junto ao carvalho de Mambré e recebendo a visita de três homens: Leia o resto deste post »

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VIVER NO ESPÍRITO, O EVANGELHO DA ALEGRIA

No Espírito, a alegria é sempre criativa

A Páscoa da Ressurreição é integrante da Páscoa de Pentecostes. Uma segue a outra e são inseparáveis, manifestam seu poder e beleza na Eucaristia. A unidade dos cristãos na celebração da Eucaristia manifesta a alegria que brota do Cristo vencedor da morte e que derrama o Espírito Santo para que a vida seja sempre renovada pela comunhão, libertada de estruturas caducas que aprisionam em recintos fechados. Não vive na sedução do passado, mas se projeta sempre no futuro, conduzido pela coragem derramada pelo Espírito.

Para aprofundar esse espírito, o Conselho Regional Missionário (COMIRE) promove dos dias 09 a 11 de junho de 2017na Paróquia São Francisco de Assis, em Palhoça, o VI Congresso Missionário Regional, abrangendo todas as dioceses catarinenses.

O encontro está em sintonia com a realização do 5º Congresso Missionário Americano (CAM 5), o Congresso Missionário Latino Americano (COMLA 10) e o 4º Congresso Missionário Nacional, em Recife, Pernambuco.

Com o tema – “A alegria do Evangelho, coração da missão profética, fonte de reconciliação e comunhão” – e o lema – “Santa Catarina em Missão. O Evangelho é Alegria” –, o encontro tem o objetivo geral de assumir a natureza missionária da Igreja, guiada pelo Espírito, a serviço do Reino, vivendo e testemunhando a alegria do Evangelho.

Alimentado por Cristo e tocado pela potência do Espírito, o cristão é impelido ao anúncio da  alegria do Evangelho: para a glória do Pai anuncia a renovação da comunidade, da criação, da vida. É súplica nossa que o Filho envie seu Espírito para que a terra seja renovada, o Evangelho seja boa nova, feliz notícia que nos faz experimentar a força da graça, o amor divino. Leia o resto deste post »

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NOSSA SENHORA DE CARAVAGGIO

vitral

Joanita, diante do imperador de Constantinopla João VIII Paleólogo – vitral em Azambuja

O peregrino ou devoto que entra no Santuário de Azambuja, em Brusque, tem a graça de contemplar, no alto do altar-mor, o belíssimo conjunto com as imagens de Nossa Senhora e Joanita, retratando a aparição ocorrida em 1432 na cidade italiana de Caravaggio. Foi essa a devoção que os primeiros habitantes de Azambuja trouxeram da Itália: a companhia de sua “Madonna” foi o melhor consolo para as peripécias de uma longa viagem e a saudade na nova terra. Nossa Senhora de Caravaggio fazia-os recordar sua terra, suas devoções, os amigos lá deixados.

Transcrevemos, a seguir, a mais antiga narração dessa aparição mariana que é, ao mesmo tempo, a narração oficial:

“Deus, rico de misericórdia e todo-poderoso, que tudo dispõe suavemente com sua providência, com aquela piedade que nunca deixa nenhum fiel realmente privado de seu celeste socorro, num dia aprouve-lhe olhar, socorrer e inclusive honrar o povo de Caravaggio com a aparição da Virgem Mãe de Deus.

No ano de 1432 do nascimento do Senhor, no dia 26 de maio às 5 horas da tarde, aconteceu que uma mulher de nome Joanita, oriunda do povoado de Caravaggio, com 32 anos de idade, filha de um certo Pietro Vacchi e esposa de Francesco Varoli, conhecida de todos por causa de seus costumes virtuosíssimos, sua piedade cristã, sua vida sinceramente honesta, tendo cortado o capim para seus animais fora de Caravaggio ao longo da estrada que dá para Milão, estava totalmente preocupada em como levar para casa aqueles feixes de capim. [Como o marido era muito violento e costumava espancá-la, tinha receio de atrasar-se e, com isso, ser castigada].

Foi então que viu uma Senhora belíssima e admirável, de estatura majestosa, rosto gracioso, aparência veneranda e de indizível e nunca vista beleza física, vestida com hábito azul e tendo a cabeça coberta com um véu branco, vinda do alto e parar exatamente vizinha a ela. Tocada pelo aspecto de tal modo venerável da nobre Senhora, estupefata, Joanita exclamou: Leia o resto deste post »

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OS PROTOMÁRTIRES DO BRASIL – SERÃO CANONIZADOS

Prot – Forte dos Reis Magos, onde se refugiaram os Mártires de Uruaçu

São estes os sentimentos que invadem o nosso coração, ao evocarmos a significativa lembrança da celebração dos 500 Anos da Evangelização do Brasil, que acontece neste ano. Naquele imenso País, não foram poucas as dificuldades de implantação do Evangelho. A presença da Igreja foi-se afirmando lentamente, mediante a obra missionária de várias Ordens e Congregações religiosas e de Sacerdotes do clero diocesano. Os mártires que hoje são beatificados saíram, no fim do século XVII, das comunidades de Cunhaú e Uruaçu, no Rio Grande do Norte. André de Soveral, Ambrósio Francisco Ferro, Presbíteros, e 28 Companheiros leigos pertencem a essa geração de mártires que regou o solo pátrio, tornando-o fértil para a geração dos novos cristãos. Eles são as primícias do trabalho missionário, os Protomártires do Brasil. A um deles, Mateus Moreira, estando ainda vivo, foi-lhe arrancado o coração pelas costas, mas ele ainda teve forças para proclamar a sua fé na Eucaristia, dizendo: “Louvado seja o Santíssimo Sacramento”.

Hoje, uma vez mais, ressoam aquelas palavras de Cristo, evocadas no Evangelho: “Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma” (Mt 10, 28). O sangue de católicos indefesos, muitos deles anônimos crianças, velhos e famílias inteiras servirá de estímulo para fortalecer a fé das novas gerações de brasileiros, lembrando sobretudo o valor da família como autêntica e insubstituível formadora da fé e geradora de valores morais. (HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II – NA MISSA DE BEATIFICAÇÃO DOS PROTOMÁRTIRES DO BRASIL – Domingo, 5 de Março de 2000).

OS MÁRTIRES DE CUNHAÚ E URUAÇU

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QUARESMA – PRIMAVERA DO ESPÍRITO

O fim do inverno oferece um retrato amortecido da natureza, poucas cores, pouca vida. Já a primavera nos surpreende com a natureza viva, alegre, os troncos quase secos brotando. Pouco a pouco as flores se abrem revelando segredos escondidos no inverno. Insetos, aves, carregam o pólen que fecunda as flores. Tudo revela a força e a beleza da vida.

Assim podemos comparar a Quaresma: as rotinas, o amortecimento espiritual, os resíduos do pecado cedem lugar à primavera. O jejum, a esmola e a oração despertam o espírito, fazem a vida brotar e sentimos o crescimento da felicidade, a vida de fé fortalecida pela vitória sobre as tentações. Vamos crescendo até a explosão do Aleluia da Páscoa.

Gostaria de oferecer a você, leitor, três pequenas reflexões, cujo conteúdo é oferecido pelo papa Francisco em suas homilias matinais na Casa Santa Marta. Propõe gestos muito simples, mas importantes. Nossa vida é construída sobre o fundamento da humildade, do silêncio, da oração silenciosa, de encontros simples com pessoas simples. Tudo na mansidão e na humildade.

Com todos, ser o bom pastor             

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A MENINA QUE EXPLICOU A MORTE

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Esperávamos a paz, e construímos uma década de violência, de guerras. Países em guerras fratricidas no mundo árabe da Síria, do Iraque, do Oriente médio. Nações africanas em guerras internas, cujo único objetivo é a garantia do poder e do domínio sobre riquezas e populações. Em nosso mundo latino-americano sofremos a guerra pelo tráfico e pelos pontos de drogas. Nos países ricos assistimos a outra guerra, a da rejeição dos migrantes, dos fugitivos do mundo conflagrado que diariamente tentam encontrar novo chão, nova pátria, e encontram a expulsão, o desprezo a deportação.

Milhares de famílias abandonam sua terra e seus bens e atravessam fronteiras esperando alguma acolhida, mas são acolhidas pela ordem de retorno ao lugar nenhum, pela deportação. São consideradas peso morto, ameaça ao conforto dos países ricos. As famílias deixam de ser famílias: são mães abandonadas, crianças fugindo pelas estradas e ruínas, homens tentando salvar algum coisa, jovens deserdados da esperança. As imagens geradas por esses dramas quase não comovem, pois  a violência continua e as ruínas aumentam com destruições sempre maiores.

Mas, sem dúvida, o que mais nos fere são as imagens das crianças, das quais se rouba a infância e que são marcadas a ferro pelo vírus da violência, a ponto de não conhecer outro tipo de vida. Apesar disso, as crianças brincam, jogam bola, as meninas se fazem de professoras, realizando o milagre da  vida mas injetando no coração o sentimento da violência, pois foi isso que sempre viram e sentiram. Leia o resto deste post »

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PADRE NEY BRASIL PEREIRA (1930-2017)

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Padre, professor, músico e biblista

Tempo atrás, Pe. Ney me perguntou quando escreveria sobre ele. Respondi: quando o senhor morrer!

Infelizmente esse dia chegou, em 04 de janeiro de 2017, às 8:30, no Hospital de Caridade. Tinha completado 86 anos em 4 de dezembro passado. Uma vida longa, sem dúvida, mas que ainda poderia oferecer muito. Neste ano, convidou-me a fazer a homilia de seus 60 anos de Sacerdócio, o que entendi como honra e como retribuição ao convite que lhe fizera para pregar em minha Primeira Missa, há 40 anos. Devo muito ao Pe. Ney: ele perpassou minha formação humana, intelectual e sacerdotal. Foi sempre a presença positiva e compreensiva em que me espelhava. Hoje, como despedida, ofereço esse breve e pobre texto para que mais pessoas possam conhecer o Pe. Ney Brasil Pereira e agradecer a Deus por esse sacerdote que honrou o clero brasileiro e, especialmente, o clero da Arquidiocese de Florianópolis. Leia o resto deste post »

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PADRE PEDRO LUIZ AZEVEDO

Padre Pedro Luiz Azevedo

Padre Pedro Luiz Azevedo

Fiquei feliz ao receber do Pe. Flávio Feler um exemplar do livro “Homilias do Pe. Pedro Luiz Azevedo”, publicado em 2013. Foi um gesto de gratidão de Pe. Flávio, ao sacerdote que era seu pároco em Canelinha à época de sua ordenação presbiteral. O livro contém homilias breves, bem preparadas e destinadas a celebrações de jubileus, casamentos, sepultamentos. Entre as muitas que algum distraído jogou no lixo, foram as poucas que sobraram, felizmente, e permitem penetrar na alma sacerdotal de Pe. Pedro.

Somos gratos ao Pe. Flávio por esse gesto amigo e que nos dá acesso à alma pastoral do Pe. Pedro.

O chamado de Deus

Padre Pedro Luiz Azevedo nasceu em Brusque em 5 de fevereiro de 1955, último filho de Marcelino Azevedo e de Guilhermina Ramos Azevedo. Era morador da Rua Nova Trento, que liga Azambuja à Rua 1º de Maio. Pela vizinhança com o Seminário Menor, conhecia quase todos os seminaristas, especialmente os estudantes de filosofia. Foi sempre amigo humilde de todos.

Importante para sua formação cristã foi o casal Hilário e Raquel Bernardo, que muito o incentivaram a participar do grupo jovem do Santuário, o COJA – Companhia de Jovens de Azambuja, que frequentou de 1973 a 1978. Foi atuante na pastoral litúrgica e da juventude brusquense.

Como operário, trabalhou no setor de recursos humanos do SENAI e, ao mesmo tempo, cursou a faculdade de Estudos Sociais na Fundação Educacional de Brusque – FEBE. Pe. Alvino Milani, formador no seminário menor, foi importante no seu encaminhamento cristão e vocacional. Nesse período eu era assistente dos estudantes de filosofia residentes no Seminário de Azambuja e escutei que Pedro pensava em ser padre, mas não queria entrar no Seminário porque precisava trabalhar e gostava da liberdade. De certa forma isso era um problema, pois a norma previa o ingresso no Seminário para aprofundamento da fé e da vida comunitária.Teimoso, decidiu arriscar para ver. Lembro que num dia lhe falei que o caminho não era esse e que se o arcebispo me pedisse recomendação, não daria.

Mas, a vida é melhor do que as normas e no final de 1978, Pedro pediu para falar comigo e veio exatamente para solicitar a Carta de recomendação. Ele sentiu-se grato, porque logo o atendi e escrevi a Dom Afonso Niehues recomendando-o e falando de suas qualidades para o ministério. Eram palavras verdadeiras.

Os próximos quatro anos Pedro estudou Teologia no Instituto Teológico de Santa Catarina – ITESC em Florianópolis. Os finais de semana de 1979-1980 fez estágio pastoral em Canelinha, acompanhado pelo Pe. Sérgio Giacomelli e nos anos de 1981-1982 trabalhou em Tijucas, com Monsenhor Augusto Zucco, homem enérgico e afamado por disciplinar quem trabalhasse com ele. Por onde passava, Pedro Azevedo se empenhava nos grupos jovens, de coroinhas e nas equipes de Liturgia. Seu espírito alegre, bem humorado, conquistou muitos amigos. Mesmo irritado, às vezes desbocado, era incapaz de ofender alguém. Era seu dom.

A alegria do ministério sacerdotal

Padre Pedro Luiz Azevedo

Padre Pedro Luiz Azevedo

Concluídos os estudos, em 31 de julho de 1982 foi ordenado Diácono na igreja matriz de Tijucas. Seu lema, muito verdadeiro: “Tu me amas? Senhor, tu sabes que eu te amo” (Jo 21, 17). E, no dia 05 de dezembro de 1982, a ordenação Sacerdotal no Santuário de Azambuja, onde iniciou e alimentou sua fé. Bispo ordenante, Dom Afonso Niehues. Juntamente com ele outro brusquense foi ordenado padre, Gilberto Mafra (+ 1996). Seu lema: “Chamei-te pelo nome: és meu. És caro aos meus olhos, digno de estima, te amo” (Is 43, 1-5).

Seu primeiro campo de apostolado foi em Tijucas mesmo, até fevereiro de 1983, nas férias de Mons. Zucco. Em 11 de fevereiro de 1983 recebeu a provisão de vigário paroquial da paróquia Senhor Bom Jesus de Nazaré, em Palhoça. Ali, muito trabalhou e aprendeu com o zeloso Pe. Alvino Introvini Milani, numa grande paróquia hoje dividida em seis comunidades paroquiais. Sua alegria e bom humor contagiavam a todos e até estimulou a construção de uma capela na localidade de Pachecos, cujo padroeiro ficou sendo São Pedro, em homenagem ao Pe. Pedro e aos muitos Pedros do lugar.

Com a morte repentina de Monsenhor Augusto Zucco, em 1987, foi provisionado pároco de Tijucas em 28 de maio. Já amava e muito amou essa Paróquia onde trabalhara como estudante e neo-sacerdote e onde tinha grande número de amigos. Pe. Pedro gostaria de permanecer muitos anos em Tijucas mas, em 28 de dezembro de 1994 o novo arcebispo Dom Eusébio Oscar Scheid, SCJ, o transferiu para Anitápolis, grande paróquia, mas na serra, isolada do mundo onde vivera. Eram 15 capelas, com poucos habitantes, a 85 km. de Florianópolis.

Obediente, Pe. Pedro assumiu o trabalho. Sofreu muito a solidão, a distância dos amigos. Quem o conhecia percebeu que a melancolia tomava conta de sua vida, ia perdendo o ânimo, o bom humor. E, talvez isso fosse mais grave, espantava a tristeza com a crescente dependência do álcool. Às vezes,  a vida da Igreja, em nome da presumida sabedoria das autoridades, se impõem serviços cujo maior serviço é afugentar o gosto pela vida. Nós sentíamos o isolamento de Pe. Pedro, o silêncio que o rodeava. Ali viveu e trabalhou até 20 de dezembro de 2002, data de sua nomeação para pároco de Sant’Ana de Canelinha, onde trabalhara e aprendera como seminarista, e perto de Tijucas. Conseguiu reanimar a paróquia, cujo pároco tinha saído da casa paroquial para o casamento.

O leito de dor é o altar de Pe. Pedro

Pe. Pedro Luiz Azevedo estava doente, tomado por crescente tristeza e pela doença que se insinuava em seu corpo. Mesmo sofrendo, marcava seu apostolado com a bondade, dedicação, seriedade e cultivando amizades. Em 07 de dezembro de 1993 sentiu o baque da perda da mãe Guilhermina, a quem estava muito ligado. Doente, de certo modo impondo-se o isolamento, não partilhava suas dores, e posso pensar o quanto foi valente e generoso em meio a tantos trabalhos, compromissos, capelas, enterros, casamentos, celebrações.

Não aceitou festejar seu jubileu de prata sacerdotal em 2007. Era avesso a qualquer tipo de festa, e escreveu: “todos os dias são dias de festa, basta saber vivê-los. Agradeço a Deus por esses 25 anos de ministério e a todos os que me ajudaram ao longo dessa caminhada”. Também não quis celebrar o cinquentenário da criação da paróquia de Sant’Ana, em 17 de janeiro de 2009.

Pe. Pedro não aceitava submeter-se a um tratamento mais prolongado, que lhe foi oferecido, e assim o câncer no fígado foi dominando seu organismo. Quem o via sozinho, sentado na calçada da casa paroquial, em silêncio, não percebia que Pe. Pedro se preparava para morrer e, o que é mais doloroso, Pe. Pedro queria morrer.

Finalmente, em 10 de agosto de 2010 foi internado no Hospital de Tijucas, depois no Caridade de Florianópolis e, em busca de especialização, no Hospital Evangélico de Brusque. Foi longo e doloroso seu calvário de 47 dias. O arcebispo Dom Murilo Krieger assim falou na homilia exequial: “A morte de nosso irmão sacerdote Pe. Pedro Luiz Azevedo não foi uma surpresa para nós: surpresa foi sua resistência e a longa duração de seu Calvário. Como pude lhe dizer por ocasião da última visita que lhe fiz, na UTI do Hospital Evangélico, em Brusque: Hoje, sua cama é seu altar; seus sofrimentos se unem aos sofrimentos de Cristo; mais do que nunca, você está vivendo seu sacerdócio”.

Na última visita que Dom Murilo lhe fez, ele não podia mais falar mas, ao chegar perto de sua cama, viu que uma lágrima descia pelo canto de seus olhos: “Aquela lágrima era uma palavra, uma grande palavra, ainda mais partindo dele, que sempre procurava disfarçar seus sentimentos. Que esta sua lágrima, expressão de tudo o que viveu nas últimas semanas de sua vida, seja fonte de vida para muitos e de novas vocações sacerdotais para a Igreja”.

Após 57 anos de existência e 28 dedicados ao sacerdócio, às 21 horas de 07 de outubro de 2010, Pe. Pedro nos deixou. No dia seguinte, dia 08, seu corpo foi velado na igreja matriz de Sant’Ana de Canelinha, com a sentida presença do povo. Às 15 horas, Dom Murilo presidiu a Missa de Exéquias e, em seguida, seus restos mortais foram sepultados no cemitério Parque da Saudade em Brusque, na área reservada aos padres diocesanos de Florianópolis.

Pe. Pedro, na sua simplicidade pessoal e seriedade no trabalho,  deixou-nos a recordação um homem digno do nome sacerdotal.


Pe. José Artulino Besen

 

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PADRE EVARISTO DEBIASI

Pe. Evaristo - Homilia na Santa Missa em 25-02-2014

Pe. Evaristo – Homilia na Santa Missa em 25-02-2014

Normalmente escrevo sobre pessoas que já encerraram o caminho terreno, pois a distância possibilita o olhar mais objetivo, liberto dos condicionamentos da proximidade. Hoje faço uma exceção: desde janeiro, Pe. Evaristo Debiasi vive prisioneiro de seu corpo  no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. Graves complicações, surgidas no momento da anestesia, nos privaram desse grande sacerdote e amigo. Seus amigos esperam que retornará a comunicar-se com o nosso mundo e o seu mundo. Vive, mas somente como presença, sem a palavra, sem os gestos. Por esse motivo, escrevo essas páginas a respeito do sacerdote que não viveu para si, mas que fez-se entrega a tantos que o procuraram como diretor espiritual, conselheiro, amigo. Não reservou tempo para si, para sofrimentos pessoais, porque sua vida foi a dos outros, suas dores, as dos que o procuraram.

Evaristo Debiasi nasceu em Barracão, Orleans em 19 de dezembro de 1939, filho de Sílvio Debiasi e Dorvalina Mazon Debiasi.

Estudou no Pré-seminário de São Ludgero e no Seminário Menor Metropolitano de Azambuja, Brusque, onde cursou o Ginásio e o Clássico. Caracterizou-se pela amizade fácil e verdadeira com todos e foi hábil tocador de violino na orquestra que acompanhava o coral do Seminário.

Os cursos de Filosofia e o de Teologia foram completados no Seminário Nossa Senhora da Assunção, em Viamão, RS. Foi ordenado padre por Dom Frei Anselmo Pietrulla, bispo de Tubarão, em 23 de julho de 1967. O segundo semestre desse ano, suas primícias sacerdotais foram vividas na catedral diocesana de Tubarão. Desde Viamão, como seminarista e agora, como padre, característica marcante foi a capacidade de comunicação: a bela voz grave, o porte físico imponente, atraía todas as pessoas que se encontravam com ele e dele recebiam uma palavra clara, amorosa.

Devido à capacidade de comunicação e de orientar com discernimento, em 12 de janeiro de 1968 foi nomeado Assistente espiritual no Instituto Provincial Catarinense em Curitiba, o PAULINUM, onde estudavam os seminaristas maiores de Santa Catarina. Era um ambiente complexo e multiforme, pois devia atender os candidatos ao ministério sacerdotal de todas as dioceses catarinenses, o que significava harmonizar mentalidades diversificadas, numa época de crise marcada pelas incertezas na formação. No mundo, o ano de 1968 simbolizou a ruptura com os valores tradicionais da autoridade, da família, da Igreja. Tudo era contestado sob o slogan “é proibido proibir”. “Sejamos realistas; peçamos o impossível”, foi a divisa do Maio de 68.

O Concílio do Vaticano II terminara em 1965 e sua abertura a uma eclesiologia de comunhão colocava novas perguntas para as quais ainda não se tinha resposta clara, especialmente a “qual é a imagem do padre?”. Discutia-se o exercício do ministério e até se esperava a abertura ao celibato opcional. Numa Igreja ministerial, o que sobraria para o padre? Um tempo rico, mas difícil para os padres orientadores do período: Pe. Afonso Paulo Guimarães, Pe. Osmar Pedro Müller, Pe. Paulo Bratti e Pe. Evaristo.

Devido a seu temperamento conciliador, seu acolhimento de cada seminarista, capacidade de animar e diminuir os dramas pessoais, foi o padre certo na hora certa. Bom número de decisões vocacionais pelo sacerdócio tiveram origem na sua capacidade de aconselhar. Com Pe. Evaristo, ninguém se sentia inútil, nenhum problema era um problemão.

O PAULINUM viveu uma experiência dolorosa em 1970, com a saída para o casamento de seu padre Reitor. Fato inesperado, sem dúvida. Nesse momento, o nome que sanaria o drama e recolocaria o clima de confiança era um: Padre Evaristo Debiasi. E assim, em 17 de abril de 1971 os bispos catarinenses nomearam-no Reitor do PAULINUM. Em 24 de abril de 1971 foi nomeado professor no Instituto Teológico de Curitiba, o ITC. Pe. Evaristo não era somente professor, era o professor. Nesse período, sua alegria de ser padre, a sabedoria nos momentos de conflito, a incapacidade de tratar alguém de modo ríspido foram fundamentais. No atendimento pessoal, problemas e defeitos eram apenas desafios colocados por Deus e vencidos no amor divino.

Havia uma nova situação: o episcopado catarinense decidira, finalmente, sediar em Santa Catarina os estudos filosóficos e teológicos, de modo que, a partir de 1970, não mais foram encaminhados seminaristas para Curitiba, cada diocese procurando um meio de garantir os estudos humanísticos no próprio seu território, enquanto se providenciava a transferência da Faculdade de Teologia para Florianópolis, o que  aconteceu em 1973, com a criação do Instituto Teológico de Santa Catarina-ITESC. Os últimos seminaristas do PAULINUM foram ordenados em 1973.

Devido à capacidade comunicativa e espiritualidade pessoal de Pe. Evaristo, os bispos catarinenses indicaram-no para aprofundar em Roma os estudos teológicos, o que ele fez de 1973 a 1975, obtendo o mestrado em Teologia dogmática pela Universidade Gregoriana. Sua presença em Roma, no Pio Brasileiro e na Universidade Gregoriana foi um “sucesso”, no sentido que era procurado por padres e religiosas da cidade para retiros, conferências e aconselhamento. Sua encantadora humildade e palavras de vida eram extraordinárias para as religiosas romanas. Pe. Evaristo não era nenhum mestre na língua italiana, que aprendera no dialeto vêneto mas, por incrível que pareça, fazia-se entender porque, acima de tudo, era um rosto e uma voz a serviço da palavra “amor”. Com uma dúzia de palavras também ministrava palestras em alemão. Magnetizava pela presença humana e espiritual. Essa foi sempre sua arte e virtude.

Ao retornar ao Brasil, em 1976, recebeu duas missões importantes: ser orientador espiritual no Seminário Nossa Senhora de Fátima, em Tubarão, e professor no Instituto Teológico de Santa Catarina, ITESC, em Florianópolis. Ali fez companhia ao reitor Pe. Paulo Bratti e a seu antigo professor, Pe. Ney Brasil Pereira e ao ex-aluno Pe. Orlando Brandes.

Pe. Evaristo na AIS

Pe. Evaristo na AIS

Orientou o Seminário Nossa Senhora de Fátima com dois anos de residência, depois viajando semanalmente para oferecer o atendimento. Foi um tempo muito difícil pelas mudanças bruscas introduzidas e que alteraram profundamente o modelo pedagógico do seminário. Apesar disso, foi um tempo de muitas vocações e ordenações, garantindo sempre um razoável número de seminaristas e, depois, teólogos e sacerdotes.

Em 1978 veio residir em Florianópolis, como auxiliar direto do Pe. Paulo Bratti, que preferiu ser diretor do ITESC e ter Pe. Evaristo como Reitor do Seminário Maior em 1979, cargo em que permaneceu até 1982. A partir de 1983, Pe. Evaristo foi diretor espiritual do Seminário e, de modo especial, do Seminário Teológico da Diocese de Tubarão, em Florianópolis, missão que assumiu até os últimos dias.

No final da década de 90 deixou de lecionar, por não lhe sobrar tempo. Ministrava o curso de Escatologia, sobre as realidades últimas da vida humana: morte, juízo, inferno e paraíso. Deixou o magistério também porque sua bondade parecia excessiva, dizia-se, e que ninguém mais iria para o inferno… Pe. Evaristo tinha certeza, pois a última palavra é do amor misericordioso.

A partir de sua chegada à Capital catarinense, seu nome circulou velozmente nas camadas médias e ricas da população. A procura por um atendimento era tamanha que não lhe foi mais possível residir no Seminário, indo ocupar um apartamento no Centro. Falar com Pe. Evaristo dava status, certo extrato feminino chegava a mentir dizendo ter recebido um abraço, um beijo do pobre padre. Era tamanha a confiança nele que lhe foi entregue, pela Casa Civil do Governo estadual, um talão de cheques – sempre renovado, para usar em suas obras comunitárias e de caridade. Pe. Evaristo não quis se comprometer com esse tipo de confiança e entregava o talão a algum estudante de Teologia.

De todo lado surgiam pedidos para conferências, retiros, palestras em colégios, encontros familiares, sempre atendidos. Qual era o segredo desse padre, que não era um intelectual? Era o amor que comunicava, eram palavras certeiras para cicatrizar corações feridos, quase mergulhados no desespero, unindo psicologia profunda e fé. Nenhum coração atribulado saía “impune” de um atendimento. Fazia iniciar um processo de reconstrução pessoal.

Presidente do Movimento Porta Aberta

A ideia do Centro de Interação e Integração Humana de Santa Catarina – Movimento Porta Aberta, partiu do Pe. Paulo Bratti, então diretor do Instituto Teológico de Santa Catarina. Para ele, o pobre ou necessitado deveria encontrar uma porta aberta, alguém que lhe ouvisse as angústias nos momentos mais intensos de sofrimento. Assim, em 31 de julho de 1980 o centro foi fundado, também com o apoio do Pe. Evaristo Debiasi e de Bruno Rodolfo Schlemper (+ 1999).

No início oferecia apenas aconselhamento. A partir do ano de 1985, passou a profissionalizar os atendimentos. Hoje trabalham 40 psicólogos que se revezam de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 14h às 18h. Há profissionais voluntários que atuam há mais de 30 anos. Por ano, são atendidas acima de cinco mil pessoas, apenas de Florianópolis. Mas também passam pela Clínica do Porta Aberta crianças, adolescentes, adultos e idosos de Palhoça, São José, Biguaçu, Antônio Carlos e Santo Amaro da Imperatriz. O Centro funciona em Florianópolis, na Rua Álvaro de Carvalho, 155.

Pe. Evaristo e Bruno Schlemper entregaram-se de corpo e alma ao atendimento gratuito de tantos sofredores. Era bela a comunhão entre o Padre e o luterano Bruno. Diante de corações angustiados, cessam as divergências religiosas e brilha a unidade na caridade.

Assistente eclesiástico nacional da AIS Brasil

Fundada em 1947 pelo Padre Werenfried van Straaten, a Ajuda à Igreja que Sofre (Kirche in Not – AIS) hoje é uma Fundação Pontifícia cuja missão é apoiar projetos de cunho pastoral em países onde a Igreja Católica está em dificuldades, quer pela perseguição religiosa por causa de guerras e revoluções, quer pela miséria. Mais de 60 milhões de pessoas são beneficiadas todos os anos por meio dos mais de 5 mil projetos apoiados pela Ajuda à Igreja que Sofre – AIS em cerca de 140 países, incluindo o Brasil. Tudo isso graças aos seus mais de 600 mil benfeitores.

Ao ser convidado,  Pe. Evaristo Debiasi não relutou em assumir o ministério de Assistente Eclesiástico da AIS no Brasil. Fez sua casa a ponte aérea Florianópolis-São Paulo. Por sua facilidade de comunicação assumiu programa na TV Canção Nova, também retransmitido por outras emissoras. O programa visa tornar conhecido o trabalho da Fundação “Ajuda à Igreja que Sofre” apresentando suas obras sociais, projetos e carisma, relata os desafios enfrentados pelos cristãos e pela Igreja Católica em todo o mundo, principalmente nos países em desenvolvimento e onde há perseguição religiosa aos cristãos. O programa vai ao ar toda quarta-feira a partir das 12:30h.

Através dos meios de comunicação, Pe. Evaristo também realiza apreciado trabalho de evangelização, salientando sempre o amor de Deus por cada um de nós. É o anunciador do amor.

Com apresentação dele, mensalmente é editada a revista ECO DO AMOR, enviada aos colaboradores e prestando conta da ação caritativa da AIS.

A visita da dor e da cruz

Nos últimos anos sua saúde não foi a mesma, especialmente após sofrer uma queda e apresentar sinais de tumor nos rins. Nada que impedisse seu trabalho, porém. Mas, em 19 de janeiro de 2016 foi internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo e, infelizmente, apresentou dificuldades na fase pré-operatória e seu organismo entrou em pane no momento da anestesia. Aquilo que parecia até simples, tirou de Pe. Evaristo a saúde, de modo irreversível.

Seu lema de ordenação presbiteral, impresso no santinho de recordação, foi: “Sacerdote a serviço do Povo de Deus”. E seu pedido: “Tuas orações são a garantia de minha missão sacerdotal”. Tenho certeza das muitas milhares de pessoas que nesse momento rezam por ele, pelo seu sacerdócio, agora fecundo no silêncio da solidão e do sofrimento de um leito hospitalar.

Pe. José Artulino Besen

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MISSÃO E CUIDADO DA CASA COMUM

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A natureza – um hino à vida

Em outras épocas, tanto a Missão católica quanto a de outras confissões cristãs tinha como foco o anúncio confessional, era mais propaganda religiosa, oferecimento de salvação, garantia da posse da verdade. Era o proselitismo, hoje não mais aceito como método para o anúncio do Evangelho de Jesus. Tanto na América, como na África e na Ásia, o missionário acompanhava expedições conquistadoras, unindo a cruz à espada.

Admirar a coragem e a generosidade missionária não significa apreciar a pedagogia que implicava na destruição de culturas e de religiões ancestrais. A missão é o anúncio vivido do Senhor que deu a vida por todos os povos, o que não pode admitir que se mate em nome dele. A ação missionária com a espada foi fruto da dominação dos povos europeus que buscavam riquezas, matérias primas, na suposição e convicção de que em troca ofereciam o melhor para esses povos considerados atrasados e que deveriam agradecer o dom da civilização e, especialmente, o dom da salvação.

Encima de tudo isso foi edificada uma civilização que negava a riqueza pessoal do outro, negava a cultura e a religiosidade de povos até então desconhecidos, negava mesmo sua dignidade inviolável, reduzindo-os a coisas, a escravos. No Brasil, a missão deixou um rastro de 400 anos da escravidão negra, de julgamento do valor das pessoas pela cor da pele, mesmo sendo batizadas.

Evidente que não podemos desconhecer a generosa e heroica ação de homens e mulheres que deram a vida, criaram obras de misericórdia para o socorro de doentes, de leprosos, com eles dividindo a doença, as privações, amando como Jesus ama. Levaram o estilo de vida dos discípulos de Jesus, sem a preocupação de aumentar suas fileiras religiosas.

Graças à ação do Espírito, somos hoje capazes de reconhecer a dignidade de todos, de sentir as sementes da verdade por toda a terra. Não há nenhum povo abandonado por Deus. O Superior Geral dos Jesuítas, Pe. Adolfo Nicolás, afirmou que o primeiro ato de um missionário é descobrir a ação do Espírito Santo na cultura aonde é enviado, ver o que Deus já fez ali no decorrer de sua história. Assim, a ação missionária é comunhão fraterna com quem é diferente, mas tem conosco a ação divina que nos chama a todos de filhos.

A missão não pode se expressar na competição, nas acusações doutrinais cuja virulência oculta o rosto do Pai: “Deus-Amor se anuncia amando”, tuitou Francisco em 6/10/16.

Cuidar da Casa Comum – obra de misericórdia

agua-fonte-da-vida-m-sokalA Igreja não conhece um tempo de acomodação, como se bastasse conservar o que já se alcançou, sem novos desafios. O papa Francisco tem claro que a missão da Igreja, das igrejas e das religiões está sujeita à contínua reforma, porque a vida não para, há um dinamismo interno em toda a criação e que não permite conservarmos a linguagem apenas religiosa e doutrinal. O ser humano está situado no mundo, não nas alturas. Francisco acentuou a misericórdia como centro da existência cristã e nela, como tema de seu pontificado, a crise da humanidade inserida na economia global e que gera milhões de migrantes, expatriados, frutos da guerra, da miséria. Sua primeira viagem fora de Roma foi a Lampedusa, onde aportam diariamente barcaças trazendo milhares de pobres africanos e árabes. Outro tema, a crise da humanidade que explora egoisticamente as riquezas naturais, profanando a beleza da criação e deixando como rastro a poluição, a desertificação, comprometendo o presente e o futuro da família humana. A encíclica “Laudato si” sobre o cuidado da casa comum (18/06/2015) testemunha para o mundo a preocupação com o destino da criação; foi fruto da escuta de cientistas interessados no meio ambiente e de seu contato com a paisagem desoladora de tantos países devastados pela economia de regiões ricas que buscam seu conforto sem se deter no destino de miséria e violência em que mergulham nações pobres.

“Cuidar da Casa Comum é a nossa missão”, é o tema da Campanha Missionária de 2016 e o lema, “E Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1, 31). Somos desafiados a preservar a obra divina confiada ao homem e à mulher, num caminho que vincula indissoluvelmente a todos os povos, regimes, religiões e Igrejas, caso queiramos garantir para nós e as gerações futuras um planeta habitável.

O Papa Francisco mostrou-nos a associação íntima que existe entre a vida dos pobres e as fragilidades do Planeta. A Campanha Missionária oferece material específico para as comunidades refletirem sobre o tema com o objetivo de chamar a atenção a respeito do compromisso de todos – especialmente dos cristãos – para o cuidado em relação ao planeta, à “Casa Comum”.

missao-e-ecologiaÉ preciso considerar o sentido humano da Ecologia e buscar um novo estilo de vida que olhe a integração de tudo. Como salienta a ecologia integral, os seres humanos estão profundamente ligados entre si e à criação na sua totalidade. Quando maltratamos a natureza, maltratamos também os seres humanos. Ao mesmo tempo, cada criatura tem o seu próprio valor intrínseco que deve ser respeitado. Escutemos ‘tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres’ e procuremos atentamente ver como se pode garantir uma resposta adequada”, destaca Francisco. Da sua parte, como uma resposta concreta, o Papa tomou a iniciativa de propor no elenco das conhecidas sete obras de misericórdia materiais e espirituais a inclusão de uma oitava, a saber: o cuidado da casa comum.

Na espiritualidade do Ano Santo da Misericórdia poderemos receber a indulgência plenária vivenciando o cuidado com a casa comum. Preservar o meio ambiente é abrir a Porta Santa do louvor ao Criador, amar as criaturas, defender a vida em todos os seus aspectos, permitir que declaremos, com o autor bíblico, “e Deus vê que tudo é muito bom”. E também devemos nos penitenciar pela ação missionária que acompanhou e apoiou o secular processo de colonialismo econômico e cultural que saqueou a riqueza de povos e deixou-lhes como herança a miséria, a briga pelo poder e guerras sem fim. Promover a reconstrução da casa comum é assumir como nosso o plano do Criador que deu tudo a todos e o que deu era muito bom.

Pe. José Artulino Besen

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TERESINHA – A PEQUENA GRANDE MISSIONÁRIA

Santa Teresinha e seus pais São Luís e Santa Zélia

Santa Teresinha e seus pais São Luís e Santa Zélia

Teresa pertencia a uma família de classe média-alta da época. Morava numa mansão, tinha escola e até professora particular. Uma menina mimada e apaixonada pelo pai, o senhor Martin, que a chamava de “minha rainhazinha”. Teresa tinha tudo para se tornar uma dama rica da sociedade francesa do fim do século XIX.

No entanto, seu coração humilde bem cedo sente o desejo de se entregar única e exclusivamente a Deus. Teresa está convencida que o “Deus vingador” que lhe é apresentado na catequese não corresponde à imagem de Pai misericordioso que tem no coração. Partindo dessa convicção, ela sente a necessidade de buscar outros caminhos. Quer ser “santa, grande santa”, mas não como certos santos antigos…

Teresa oferece ao futuro um novo estilo de santidade, uma nova forma de amar: o pequeno caminho.  O único caminho para o amor é a confiança, a perseverança, a aceitação: “Agora compreendo que a caridade perfeita consiste em suportar os defeitos dos outros, em não estranhar suas fraquezas, em edificar-se com os menores atos de virtude que a gente vê praticar.”

Naquela época já havia elevador nas casas ricas, fato que levou Teresinha a fazer esta comparação: “Nas casas muito altas, as pessoas se esforçam por chegar até em cima usando o elevador. Eu encontrei o meu elevador, ele me leva até o Pai… são os braços de Jesus.”

Na vida comunitária do Carmelo, Teresinha não quer ficar perdendo tempo com as mesquinharias do dia-a-dia. Ela intui que o que conta é o amor, só o amor.  Entende que amar é acolher o outro; é saber dar ao outro a liberdade de amá-la ou mesmo de não amá-la; é contemplar no outro a pessoa de Jesus: “É a Santa Face de Cristo que amamos, impressa em cada pessoa.”

Teresinha sente-se missionária, como os que tinham a coragem de partir rumo às terras distantes. Mas, como sê-lo ficando parada, enclausurada? Teresinha supera essa dificuldade: “Sinto em mim todas as vocações: de apóstolo, de missionário, de sacerdote, de mártir, de doutor… Considerando, porém, que não posso vivê-las todas, na Igreja eu serei o amor”.

Assim Teresa nos ensina que todos, mesmo permanecendo onde estamos, poderemos chegar lá onde o coração quer ir. A missionariedade não é questão de geografia, é questão de amor.

Santa Teresinha é uma santa para nossos dias, para todos os dias, para a eternidade: “Sinto que minha missão vai começar, minha missão de fazer amar o Bom Deus, como eu o amo; de indicar às almas meu pequeno caminho. Se o Bom Deus atender meus desejos, meu céu se passará na terra…, até  o fim do mundo. Sim, quero passar meu céu fazendo o bem sobre a terra.”

Breves informações:

Santa Teresinha aos 8 anos

Santa Teresinha aos 8 anos

1873 – Teresinha nasceu em Alençon, pequena cidade da França. Era a última de 5 irmãs. Em 1877, Teresinha ficou órfã de sua mamãe, morta por um câncer no seio. Toda a família se transferiu a Lisieux para estar mais perto dos tios.

Paulina, que, para Teresinha, ocupava o lugar da mãe, entra no Convento das Carmelitas de Lisieux em 1882.

Em 1886, Maria, outra irmã, também se tornou Carmelita em Lisieux. Teresinha vive um momento de tremenda solidão e crise. Mas, na noite de Natal, encontrou forças para reagir a suas fraquezas de criança.

Teresinha confidencia a seu pai que quer ser carmelita. Viaja a Roma para pedir ao Papa Leão XIII a licença para entrar no Carmelo com 15 anos, e ingressou em 1888.

1890 – Com a Profissão religiosa, tornou-se carmelita. Papai, o seu “rei”, está junto dela, feliz. Em 1894, morreu Luís, o querido papai. Celina junta-se à irmã no Carmelo.

Teresinha descobriu estar gravemente doente de tuberculose, em 1896. Naquele tempo a doença era incurável.

Em 30 de setembro de 1897, morreu Teresinha aos 24 anos e 8 meses dizendo, ao contemplar o Crucifixo: “Oh, meu Deus, eu vos amo”.

O Papa Pio XI a proclama Santa em 1925, e mais de 500 mil peregrinos estavam em Roma para aclamá-la. Em 1997, o mundo inteiro celebrou o Centenário de sua morte e o Papa João Paulo II a declara  Doutora da Igreja”.

Em 18 de outubro de 2015, Francisco celebra a canonização dos pais: São Luís e Santa Zélia.

RECORDAÇÕES DE MAMÃE ZÉLIA

“Minha filha caçula, Teresinha, logo me impressionou pela sua inteligência, caráter decidido e por sua vontade de ser boa. Eu a apelidava de meu “pequeno furacão” e, desde quando a amamentava, sentia sua força e determinação. Quando pequenina, gostava sempre de dizer “não” e, mesmo que a prendesse o dia inteiro num quarto, passaria também a noite, mas não diria um “sim”.

Percebi que era orgulhosa quando, num dia, por brincadeira, lhe disse: – Teresinha, se beijas o chão, eu te dou uma moeda. Para uma criança, uma moeda era muito dinheiro e, abaixar-se para beijar o chão, era muito fácil para ela, que tinha uma estatura pequena. Com determinação, a pequerrucha respondeu: “Obrigada, mamãe, prefiro não ganhar a moeda”.

Quando pequena, Teresinha tinha um costume muito especial: ao subir a escada, parava a cada degrau e gritava “mamãe!”. Se eu não respondesse logo: “Oi, minha pequena”, parava no degrau, sem subir e nem descer.

Teresinha gostava muito que eu lhe falasse sempre do céu e, uma vez, me disse: “Mamãe, se fosse para eu ir para o inferno, fugiria para junto de ti no paraíso, então tu me esconderias juntinho de ti e Deus não iria separar a mamãe de sua filhinha, não é verdade?”

O   EVANGELHO DE TERESINHA

“Tenho sede!” Escreveu: “Este trecho do Evangelho de João (19,28) começou a martelar-me no mês de março de 1887 quando, na França, o único assunto era Pranzini, um delinqüente perigoso que tinha assassinado três pessoas com a finalidade de roubar.

Pranzini foi condenado à guilhotina. Nunca o tinha visto, mas, diante deste fato, recordei-me das palavras de Jesus na Cruz: “Tenho sede”.  Tinham me ensinado na catequese que Jesus tem sede de almas. Esta alma tinha abandonado o amor de Deus e eu deveria trazê-la de volta a qualquer custo. Pranzini não era somente um criminoso: era também uma alma para ser salva.

Naquele tempo eu tinha apenas 14 anos e decidi assumir a responsabilidade espiritual por aquele homem. Somente com a oração e a penitência poderia impedir que fosse para o inferno. De vez em quando dava uma olhadela nas notícias do jornal de papai: Pranzini continuava arrogante, endurecido em seu pecado. Não desanimei. Continuei a rezar, até encomendei uma Missa por ele e pedi a Celina que me ajudasse a salvar aquela criatura de Deus. Queria entregá-la nas mãos do Pai, que lava todo o pecado com o sangue de seu Filho Jesus.

No dia 13 de julho foi decidida a condenação à morte de Pranzini, com execução marcada para o dia 31 de agosto. Eu escutava os comentários da redondeza. Impressionavam-me a raiva do povo e os julgamentos inflexíveis das pessoas. Se tivessem oportunidade, o matariam dez vezes. Estavam esquecidos de que aquela alma custara a morte de Jesus na Cruz.

Intensifiquei minhas orações e, no dia 1º de setembro, dei uma olhada no jornal La Croix; Pranzini tinha subido à guilhotina sem se confessar mas, no último momento pediu um crucifixo e beijou as chagas de Jesus. Meu Deus! Estava salvo! Venceu tua misericórdia!” 

O   PEQUENO CAMINHO

Santa Teresinha com suas irmãs

Santa Teresinha com suas irmãs

No Carmelo, Teresinha adoeceu gravemente e viveu a doença com a serenidade que lhe era própria. O extraordinário em Teresinha foi ter realizado coisas normais com tanto amor.

Rezou, serviu, calou, pintou, escreveu, sofreu: somente por amor.

Num dia em que sentia a vontade de salvar o mundo e se via prisioneira numa pequena cela, exclamou: “A minha vocação é o amor. No coração da Igreja, minha Mãe, eu serei o amor, e assim serei tudo”. Neste amor estendido ao mundo e oferecido a Deus pelo mundo, Teresinha partiu em 30 de setembro de 1897.

O Pequeno Caminho de Teresinha compõe-se de dois valores:

a misericórdia do Pai,

– a necessidade de permanecer criança para sempre permanecer em seu amor.

É um caminho que todos podem percorrer sem medo, sem angústia, porque Ele faz tudo: “Quero ir para o céu através de um pequeno caminho, bem reto, muito curto, um pequeno caminho bem novo.

Estamos num século de invenções. Nas casas dos ricos um elevador tira o cansaço das escadas. Eu também quero encontrar um elevador que me leve a Jesus, porque sou pequena demais para subir a dura escada da perfeição”. “O elevador que me deve levar até ao céu são os vossos braços, Jesus, por isso não preciso ficar grande, pelo contrário, devo permanecer pequena”. Andei lendo: “Se alguém é pequeníssimo, venha a mim”. Então, Senhor, penso ter encontrado aquilo que procurava: “Como uma mãe acaricia o filho, assim eu vos consolarei, vos carregarei no meu coração e vos apoiarei nos meus joelhos” (Is 66,12-13). 

A   GRANDE MISSIONÁRIA

Santa Teresinha, padroeira das Missões

Santa Teresinha, padroeira das Missões

Teresinha nasceu missionária. Desde pequena, pegava suas economias e oferecia uma moeda para as Missões. Foi uma missionária infatigável entre as quatro paredes de sua cela. Sua oração, seu sacrifício, o amor que punha em todas as pequenas coisas do dia-a-dia, eram oferecidos pelos sacerdotes e para a missão deles. Era a força que impelia os apóstolos.

O anúncio do Evangelho no mundo inteiro não deixava de preocupá-la a ponto de desejar partir em missão para a Indochina, onde havia sido fundado um Carmelo, mas a saúde frágil não lhe permitiria. Santa Teresinha, já em seus últimos dias de vida terrena, profetizará que seria missionária sempre ao dizer que “passaria o seu tempo no céu fazendo o bem sobre a terra”.

Em 1927, o Papa Pio XI a declarou “Padroeira Universal das Missões e dos missionários, como São Francisco Xavier.” Suas intervenções em favor dos missionários se fizeram sentir em todo o mundo. Em 1917, o missionário Pe. Charlebois, que há cinco anos lutava pela evangelização dos esquimós na baía de Hudson, sem qualquer resultado, certo dia jogou sobre eles um pouco de terra que havia sido recolhida do túmulo de Teresa. Os esquimós, sentindo-se tocados interiormente, pediram o batismo. Teresa ensinou que evangelizar não é só pregar, ensinar… mas sim, como Cristo fez, amar e doar a própria vida. O amor é sempre um meio de evangelização mais eficaz e mais eloqüente que as palavras.

PENSAMENTOS

“Para mim, a oração é um impulso do coração, um simples olhar, dirigido aos céus, um grito de gratidão ou de amor em meio a provações ou alegrias. É algo, enfim, muito grande, sobrenatural que me dilata a alma e une a Jesus”.

“Eu fiz a experiência: quando não sinto nada, quando não sou capaz de rezar, é então o momento de procurar as pequeninas ocasiões, os nadas que dão prazer…

Quando não tenho ocasião, quero pelo menos dizer muitas vezes a Jesus que eu O amo…”

“Tudo o que fiz –  até apanhar uma agulha – era para dar prazer a Deus, para salvar almas.

Caminho em lugar de um missionário. Penso, que muito longe, um deles se encontra cansado, em suas andanças apostólicas. E, para diminuir suas fadigas, ofereço as minhas a Deus”.

Sua última oração, escrita com mão trêmula: “Ó Maria, se eu fosse a Rainha do Céu e vós fôsseis Teresinha, eu queria ser Teresinha a fim de que fôsseis a Rainha do Céu”.

Pe. José Artulino Besen

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