Arquivo para categoria Diversos

SÃO SEBASTIÃO, SOLDADO DO IMPÉRIO

São Sebastião – Gerrit Van Honthorst

O lugar de nascimento de Sebastião foi Narbonne ou, como seus pais, a cidade de Milão, onde já era venerado no tempo de Santo Ambrósio, no século IV. Esta veneração, menos de um século após seu martírio, é a grande prova de sua existência, martírio e importância nas comunidades cristãs. Ambrósio, antes de ser bispo de Milão, tinha sido prefeito: venera em Sebastião um representante do Império ao qual tinha servido como soldado: Sebastião no tempo da perseguição, Ambrósio, no tempo da liberdade.

No Império romano, uma das carreiras mais importantes era a militar e isso tanto do ponto de vista econômico como de prestígio. Ganhava-se o sustento e a fama da coragem. Sebastião iniciou o serviço militar na Gália, importante província do Império. Ali havia uma pequena, mas corajosa comunidade cristã e nela o jovem soldado foi instruído e batizado.

Roma era o sonho de todo o cidadão do Império, era a Capital, quase divina, onde residiam os deuses, a cultura, o Senado e o Imperador. A cidade imperial foi o destino do soldado Sebastião, por volta do ano 283.

Aproveita a residência em Roma para confortar os cristãos duramente perseguidos e animar a perseverarem na fé aqueles que, sendo interrogados e ameaçados, estavam por fraquejar.

Marcos e Marceliano

Sebastião assistiu ao interrogatório e à condenação dos irmãos Marcelino e Marcos. Os dois jovens, diante dos apelos dos amigos e parentes, estavam por ceder ao culto aos ídolos. Sua fraqueza aumentou quando ouve os gritos de sua mãe e de seu pai. A pobre mãe, não entendendo a atitude dos filhos que aceitam a morte, rasgando as vestes e desnudando os seios, gemia:

Ó queridos e doces filhos, sou presa de uma miséria inaudita e de uma dor intolerável. Ah, que desgraçada sou! Perco meus filhos, que correm por vontade própria para a morte! Se os inimigos os tomassem de mim, eu perseguiria esses raptores no meio de seus batalhões; se uma sentença os condenasse à masmorra, eu iria quebrar a prisão, ainda que morresse por isso. Mas hoje aparece uma nova maneira de perecer: eles mesmos rogam ao verdugo que vibre seu golpe, desejam a vida apenas para perdê-la, convidam a morte a vir. Novo luto, nova miséria! Filhos ainda jovens entregam-se à morte, e pais infortunados, já velhos, são forçados a tudo presenciar.

Falava ainda a mãe desesperada quando chega o velho pai, carregado pelos empregados e, gemendo, gritava:

Meus filhos entregam-se à morte; vim lhes dar adeus, e tudo que havia preparado para me sepultar, ó desgraçado que sou!, empregarei para a sepultura de meus filhos. Ó meus filhos! Bengala de minha velhice, dupla chama do meu coração, por que amar a morte assim? Jovens que vêem tudo isso, venham aqui chorar meus filhos. Pais que assistem a esta cena, aproximem-se, impeçam-nos, não aceitem semelhante perversidade! Olhos meus, chorem até se apagar, para que eu não veja meus filhos decepados pela espada[1].

Marcelino e Marcos estavam com o coração dividido: de um lado, o amor a Jesus Cristo a quem tinham entregado a vida e, de outro, a dor de seus pais e amigos. Não há cena mais dolorosa do que ver os pais entre lágrimas e gemidos suplicando um favor!

Neste momento interveio Sebastião. Sabia ele muito bem o quão forte era a tentação dos jovens. Mas sabia melhor ainda que não valia a pena uma vida traindo-se o Salvador e Deus. Aproxima-se deles, lembra-lhes o que aprenderam, a graça do batismo, o único sentido da vida que é caminhar para a Vida eterna.

Saindo do meio da multidão, falou aos pais:

Nada temam, vocês não serão separados; eles vão para o céu preparar para vocês moradas de deslumbrante beleza. Desde a origem do mundo esta vida não para de enganar os que esperam algo dela. Ela engana os que a buscam, ela ilude os que contam com ela, ela mente a todos. Esta vida ensina ao ladrão suas rapinas, ao colérico suas violências, ao mentiroso suas espertezas. É ela que comanda os crimes, que ordena as perversidades, que aconselha as injustiças. Mas os contratempos são efêmeros, e essa perseguição que agora sofremos, se é violenta hoje, amanhã terá desaparecido: uma hora a trouxe, uma hora vai levá-la. Mas as penas eternas renovam-se sem cessar, a vivacidade de suas chamas nunca diminui, para sempre punir. Estimulemos nosso amor ao martírio. Quando ele ocorre, o diabo acredita obter uma vitória, mas não: quando captura, ele próprio é capturado; quando prende, ele é atado; quando vence, é vencido; quando tortura, é torturado; quando degola, é morto; quando insulta, é maldito”.

Neste momento a graça começa a agir através das palavras de Sebastião: Zoé, esposa do arquivista-mor Nicóstrato, muda há seis anos, arrependida caiu aos pés de Sebastião e logo recuperou a fala (também os mudos que Jesus curava recebiam, com a fé, a capacidade de falar). A força da palavra de um cristão desencadeia uma corrente de graças: o carcereiro Cláudio e 16 outros prisioneiros, entre os quais os pais de Marcelino e Marcos, manifestaram o interesse de conhecer o motivo da fé e da coragem de Sebastião.

Os dois irmãos não queriam a liberdade, pois desejavam antes a libertação total do martírio, irem logo contemplar a Deus face a face. Mas foram libertados e todos foram acolhidos na casa de Nicóstrato e ali foram instruídos e batizados pelo sacerdote Policarpo.

O triunfo da graça de Deus

Afligido por grandes enfermidades, Cromácio, governador de Roma quis pessoalmente conhecer o soldado Sebastião. Sebastião pediu-lhe para quebrar os ídolos, ao que Cromácio respondeu: Não faça isso. Deixe esse trabalho para meus escravos!. Sebastião discordou, pois via nisso uma possível tentação e disse: As pessoas tímidas temem quebrar seus deuses, e se o fizerem e forem feridas pelo diabo, dirão que é castigo porque quebravam seus deuses. Deste modo, ele mesmo quebrou as dezenas de ídolos.

Mas Sebastião percebeu que a conversão não era ainda sincera e que alguns ídolos estavam escondidos, o que foi confirmado por Cromácio. Tocado por suas palavras, converteu-se à fé cristã e, com a cura espiritual, recebeu também a graça da cura física. Para viver sua fé, renunciou ao importante posto de prefeito de Roma.

Fabiano, o novo prefeito da capital imperial, enfureceu-se pelo modo como respeitáveis cidadãos estavam abandonando os deuses do Império e decretou uma nova perseguição. O filho de Cromácio, Tibúrcio, também tinha recebido o batismo e pouco tempo depois foi decapitado, dando sua vida para obter a Vida eterna.

A ira caiu sobre os irmãos Marcelino e Marcos, novamente levados ao tribunal. Fabiano mandou que fossem amarrados a uma estaca, mas os irmãos, em vez de perderem a coragem cantaram: “Vejam como é bom e agradável irmãos ficarem juntos!”. Sentiam-se mais irmãos do que nunca. O prefeito pediu-lhes que renunciassem às suas loucuras cristãs, ao que responderam: Nunca fomos mais bem tratados!. Então Fabiano ordenou que enfiassem lanças em seus flancos e assim consumaram seu martírio após um dia de grande sofrimento.

Sebastião, soldado de confiança

Sebastião – mosaico do século VII, São Pedro in vincolis

O que fazia Sebastião em Roma? Era catequista, encorajador dos cristãos em momentos de dificuldade, mas era também homem do glorioso e invencível exército romano.

No exército romano, a legião de infantaria era composta de 6 mil homens e estava dividida em 10 coortes. Sebastião recebera o comando da primeira coorte, que era a que ficava mais à direita na primeira linha. O posto significava um sinal de confiança da parte das autoridades romanas e, além disso, indicava que havia cristãos em todas as esferas da vida romana, não sendo mais verdade a afirmação de que o cristianismo era a religião de gente “sem eira nem beira”, na afirmação de um escritor inimigo da fé cristã.

Era imperador Diocleciano (284-305), homem de grande autoridade e capacidade administrativa. Foi no seu tempo que o Império romano mais estendeu as fronteiras e, ao mesmo tempo, anunciava um período de problemas internos e externos. Tentando segurar a inevitável crise do Império, Diocleciano encetara diversas reformas administrativas e econômicas. Queria também reformar as consciências restaurando o culto imperial e dos deuses romanos. Decidido a pôr fim ao crescimento do cristianismo, em 24 de fevereiro de 303 publicou o primeiro Edito de perseguição, ao qual seguiram-se outros. Foi o mais feroz ataque do Império ao cristianismo, e também o último. Em 313 o cristianismo ganharia a liberdade, sob o imperador Constantino.

Ignorando a fé cristã de Sebastião, nomeou-o centurião de uma companhia de guardas pretorianos, grande honra, pois significava guardar o palácio imperial e a própria pessoa do imperador. Ali Sebastião não foi considerado tão estranho, pois se sabe que dentro do palácio havia cristãos, inclusive a mulher de Diocleciano Prisca e a filha Valéria. Numa população de 50 milhões de habitantes, pode-se calcular que os cristãos somavam de 7 a 10 milhões, entre eles contando-se as melhores forças morais do Império.

Prevendo tempos tempestuosos, o convertido ex-prefeito de Roma, Cromácio, decidiu transferir-se para a região italiana da Campânia, levando consigo um grupo de cristãos. Sebastião e Policarpo discutiram qual dos dois acompanharia o grupo, a fim de completar-lhe a instrução na fé cristã. O papa Caio (ou Gaio) decidiu que era melhor para a Igreja que Sebastião permanecesse em Roma.

Continua a perseguição aos cristãos

Diocleciano sempre atribuiu aos cristãos a culpa pelos problemas do Império sendo assim hostil a essa fé religiosa à qual atribuía as crises no mundo romano. Vimos que desencadeou nova onda de perseguições, a mais terrível e geral. Tanto o papa Caio como Zoé e Tranqüilino, pai de Marcelino e Marcos, esconderam-se no palácio imperial, nos aposentos do oficial cristão Cástulo. Descobertos, foram condenados à morte. Zoé foi pendurada pelos calcanhares sobre o fogo, morrendo sufocada pela fumaça e Tranqüilino foi apedrejado até a morte. Os outros cristãos, após longa tortura, foram lançados ao mar. Cástulo foi enterrado vivo.

Sebastião – Marco Zoppo – século XV

Sebastião foi acusado diante do imperador, que se queixou amargamente por ter-se sentido traído na confiança depositada. Sempre quis que você ocupasse postos elevados no meu palácio, mas você agiu em segredo contra meus interesses e insulta os deuses, queixou-se o imperador, ao que lhe respondeu Sebastião: Foi para sua salvação que honrei Cristo, e é pela conservação do Império Romano que sempre adorei o Deus que está nos céus.

Foi Sebastião entregue a um grupo de arqueiros da Mauritânia, para que se divertissem atirando flechas mirando em seu corpo. Amarrado a um tronco foi crivado de flechas e depois abandonado como morto para ser devorado pelos abutres, conforme o costume. Uma cristã, Irene, em segredo foi retirar o corpo de Sebastião a fim de dar-lhe sepultura digna e, para surpresa sua, viu que estava vivo! Recolhido, teve as feridas tratadas.

Poderíamos pensar que o ex-centurião da guarda pretoriana fugisse para lugares mais seguros, mas não foi o que aconteceu. Sebastião, livre agora de outros trabalhos, pôs-se a confirmar os cristãos na coragem de viver em tempo difíceis e levar outros a crerem em Jesus. Tendo recebido notícia de que Sebastião estava vivo e continuando a provocar os deuses, Diocleciano ordenou que o aprisionassem e condenou-o a ser espancado até a morte, decapitado e seu corpo lançado numa fossa.

Sabendo do ocorrido através de uma visão, a cristã Lucina descobriu onde estava o corpo, foi buscá-lo e sepultou-o no lugar chamado de “ad catacumbas”, na Via Ápia. Nessas Catacumbas, fora dos muros da cidade de Roma, em 288 tinham sido exumadas as relíquias dos apóstolos Pedro e Paulo. E ali, o apóstolo dos mártires foi também sepultado. Corriam os primeiros anos do século IV, talvez o ano 303-304, quando São Sebastião deu a vida por Nosso Senhor e tornou-se definitivamente soldado de Cristo.

Seu túmulo tornou-se local de culto cristão e, em 367, o Papa Dâmaso fez construir sobre ele uma igreja, até hoje local de muitas peregrinações.

Pe. José Artulino Besen


[1] VARAZZE, JACOPO DE: Legenda Áurea. Tradução de Hilário Franco Júnior. Cia. das Letras, 2003, pp. 178-182.

Anúncios

Deixe um comentário

PADRE JOÃO CARDOSO

Padre João Cardoso – em 2009, Jubileu Áureo sacerdotal

João nasceu no Barracão, Brusque em 16 de maio de 1925, filho de Armindo João Cardoso e de Rosa Cândido de Jesus. Numerosa família de 11 irmãos. Em família assim, os filhos recebiam apelidos, e a João coube o de “Janga”.

O pai sustentou a família com o trabalho agrícola e com um engenho de farinha, no Barracão. Aos domingos gostava de tocar bailes, e João era muito dado a festas, especialmente a danças, as domingueiras de domingo à tarde.

Com 15 anos recebeu o primeiro emprego, de tecelão na Fábrica Renaux.

O tempo passou e, sendo um homem maduro nos seus 21 anos, começou a se questionar o que faria da vida: trabalhar, dançar, divertir-se, namorar?

E pensou em ser padre. Procurou o pároco de Brusque, um padre dehoniano. Este respondeu-lhe que já estava muito maduro para entrar no Seminário. Era ideia corrente que alguém adulto já estaria com convicções formadas e seria difícil passar-lhe novos valores, amoldá-lo para o sacerdócio.

João foi ao Seminário de Azambuja e lá encontrou o bondoso reitor Pe. Bernardo Peters, que logo o acolheu.

E assim, em 1947, com 22 anos ingressou no Pré-seminário em São Ludgero, para estudar o Preliminar, curso de admissão ao ginásio, tendo em vista que tinha cursado apenas o primário.

Os estudos em Azambuja foram de 1948 a 1952, um peso a ser carregado. Ali aprendeu a amar confiantemente Nossa Senhora do Caravaggio.

Cursou a Filosofia no Seminário de São Leopoldo/Viamão, de 1953 a 1955. A Teologia em Viamão, de 1956 a 1958. Podemos imaginar o sacrifício que era para João Cardoso estudar em latim, mas, ele queria ser padre e a dificuldade estava incluída no caminho.

A ordenação diaconal foi em 21 de dezembro de 1958, na catedral de Florianópolis.

Finalmente, em 6 de dezembro de 1959, o arcebispo Dom Joaquim Domingues de Oliveira ordenou-o padre, também na catedral de Florianópolis. Estava com 34 anos de idade, com toda a força para viver o ministério sacerdotal.

Ministério sacerdotal

Os muitos anos de presbítero, 58 anos, foram vividos numa área relativamente pequena sempre no município de Florianópolis, na baía sul na Ilha e no Estreito, continente. E, para sua alegria, sempre sob o patrocínio de Nossa Senhora a quem dedicava todo o seu afeto.

Padre João Cardoso – em 1959, neo-sacerdote

Em 6 de dezembro de 1959 foi nomeado vigário paroquial de Nossa Senhora de Fátima e Santa Teresinha, no Estreito, Florianópolis. Ali teve início seu “roteiro” pastoral: missa, confissões, visitar e benzer casas e difundir o Rosário.

Em 17 de janeiro de 1962, foi transferido como vigário paroquial de Nossa Senhora do Desterro, catedral de Florianópolis, onde era pároco Pe. Francisco Bianchini, atendendo mais a comunidade da Prainha, cuja Padroeira escolheu: sua querida Santa Teresinha do Menino Jesus. Num ano ergueu e inaugurou nova igreja. Foi incansável sua dedicação aos pobres, organizando a distribuição de cestas básicas doadas pelo serviço americano Aliança para o Progresso. Vivia-se o medo do comunismo, da influência soviética e ele pessoalmente estava atento a denunciar qualquer liderança que difundisse convicções políticas de esquerda. Para ele, o regime militar foi uma bênção de Nossa Senhora de Fátima, livrando o Brasil do comunismo ateu. Pe. Cardoso apreciava a Missa dos Homens, na Catedral, onde insistia na fidelidade conjugal e na confissão.

Empenhou-se na organização do Movimento Familiar Cristão – MFC, em 1965, buscando padres que aceitassem a direção espiritual das equipes.

Para sua alegria, em 13 de junho de 1966 recebeu a transferência para 1º Pároco de Nossa Senhora da Boa Viagem, Saco dos Limões, Florianópolis. Terminou a construção da igreja matriz, construiu o salão paroquial e a capela da Costeira do Pirajubaé. Foi exemplar sua dedicação ao povo, aos pobres, a cada ano benzendo as casas. A bênção era dada de modo prático e rápido: no domingo comunicava as ruas pelas quais passaria na semana e pedia que se deixasse uma janela aberta. E assim, ia caminhando, chegava à janela, fazia uma saudação, aspergia água benta e seguia em frente. Se a dona estivesse em casa, uma breve saudação e o presente de um santinho ou de um terço do rosário. Isso me faz recordar a “técnica” de outro velho vigário, Mons. Agenor Neves Marques, em Urussanga: pedia que esticassem um lençol no telhado e depois, num avião teco-teco, sobrevoava jogando água benta.

Esse trabalho, possibilitou-lhe conhecer todas as famílias da paróquia, o nome de cada fiel, criando vínculos de amizade que atravessaram os anos de sua vida. Transformou seu ministério em grande família.

De 1968 a 1972, por necessidade da arquidiocese, acumulou o trabalho com o de vigário encarregado de Nossa Senhora da Lapa, Ribeirão da Ilha.

Em 1972 foi internado no Beneficência Portuguesa, em São Paulo, para cirurgia de revascularização miocárdica. A cirurgia revascularização do miocárdio, popularmente conhecida como ponte de safena, hoje é uma das cirurgias mais realizadas em todo mundo. Ela é indicada em situações onde existem obstruções (entupimentos) importantes nas artérias do coração, conhecidas como artérias coronárias. Pe. João Cardoso foi operado por Dr. Adib Jatene. Era uma cirurgia de risco e o médico deu-lhe 8 anos de vida, felizmente ultrapassados em muitos anos. Em agosto de 1979, nova internação, pois sofrera infarto por insuficiência coronária aguda. Novo calvário em São Paulo, novas vitórias, num caso de pouca esperança.

Dizem que os que passam por cirurgia do coração se tornam carentes e, no caso de Pe. Cardoso, era verdadeiro pois a cada ano os paroquianos cantavam os parabéns por ocasião do aniversário. Era um evento.

Pe. João era a costumado a viver com simplicidade e a ser obedecido prontamente. As discussões por contrariedade tinham palavras até duras, inclusive com ameaças de vias de fato. Um homem criado na roça e na fábrica até os 22 anos conservava certos costumes de valentia.

Após 21 anos em Saco dos Limões, em 26 de junho de 1987 foi provisionado pároco de Nossa Senhora da Glória, Balneário, Florianópolis, substituindo a Monsenhor Valentim Loch. Uma paróquia de pequeno território, criação recente, povo de classe média que conhecia em boa parte, pois eram fregueses do Estreito, seu primeiro campo de apostolado.

Pe. João Cardoso, um padre devoto

Organizou e dirigiu 9 peregrinações a Israel, Fátima e Medjugorie, criando seus grupos de devotos e devotas. Especial atenção para os lugares de Milagres Eucarísticos, como Lanciano. Ao retornar, aproveitava as homilias para narrar o que viu, os milagres acontecidos, as palavras de Nossa Senhora. Isso contribuiu para que algumas pessoas, especialmente senhoras, passassem a ter visões durante a Missa e que ele ajudava a confirmar: se a senhora viu, é porque viu.

Pe. João Cardoso era um homem piedoso e devoto. Viveu e difundiu as três devoções Brancas: à Eucaristia, a Maria e ao Papa.

Era uma grande alma mariana. No seu período, quatro fenômenos encontraram forte difusão: o 3º Milagre de Fátima, as aparições em Medjugorie, as locuções de Vassula Ryden, publicadas sob o título A Verdadeira Vida em Deus, e o Movimento Sacerdotal Mariano do Pe. Stefano Gobbi.

Nesse novo campo sentiu-se livre para cultivar o espírito mariano e suas devoções pessoais, falando intensamente das aparições de Medjugorie e da difusão do 3º segredo de Fátima. Levava a sério toda notícia de manifestações marianas, pois, afirmava, é melhor acreditar, porque pode ser verdade e a gente sai ganhando.

Característica desse fenômenos é a transmissão imediata das revelações, via internet ou livros. Tinha-se o sentimento da comunicação instantânea com o mundo divino.

A igreja matriz de Nossa Senhora da Glória era centro forte dessas devoções que se concretizavam na oração do Terço. Quando Dom Eusébio Oscar Scheid soube que Pe. Cardoso promoveria mais uma conferência de Vassula Ryden, ordenou que a suspendesse. Mas, como fazê-lo, se tudo já estava preparado e bem anunciado? Desobedecer não queria. Encontrou a solução: deixou tudo organizado, saiu de casa naquele dia… e tudo aconteceu sem problema! Com relação ao Pe. Gobbi, ao qual Nossa Senhora falava em locuções interiores, Pe. João teve uma decepção: em duas noites o padre esvaziara sua adega.

Essa tendência ao maravilhoso, ao anúncio do fim dos tempos, do retorno do Senhor contribuiu para isolá-lo do conjunto do clero e a estimular a leitura devocional em detrimento da Sagrada Escritura. Com o tempo acrescentou a devoção ao Padre Pio, o Santo homem do confessionário. É claro que agia por reta intenção: levar as pessoas a evitar o pecado e buscar o confessionário, pois Nossa Senhora o pedia. Sua preocupação fundamental: a salvação das almas, o medo do inferno.

Em Balneário, Pe. João mantinha um programa religioso às 18hs, de segunda a sexta, retransmitido através de cornetas instaladas na torre. Pelo alto volume, começaram as reclamações. Quando lhe pediram que diminuísse o volume, respondeu que então menos gente poderia ouvir. As queixas aumentaram: “na hora que ele começa a falar, ninguém consegue fazer mais nada”, protestou uma moradora. Subindo o tom das reclamações, Pe. João foi claro: “os que não quiserem escutar, podem fechar a casa toda”. Alguns falavam que ele tinha complexo de radialista (cf. DC 20/11/1995).

Pe. João gostava de sair de carro para visitar paroquianos, colegas padres e, principalmente, o cemitério Jardim da Paz, em Azambuja, aonde se dirigia às segundas-feiras, para a celebração da Missa. E manifestava seu desejo de ali ser sepultado, num dia chegando a pedir que o povo reunido jurasse que cumpriria essa promessa. E assim foi.

Não era consumista, mas gostava de dinheiro e de pedi-lo, para as obras de caridade: doar cestas básicas a famílias pobres, levar alimento para o Carmelo e, com muita alegria, para os seminários. E também para imprimir seus cartões e santinhos.

Os últimos dias

E, num dia, sua saúde baqueou: uma infecção urinária e bactéria levou-o a longa internação hospitalar no SOS Cárdio, da qual saiu com dificuldade de fala e de andar, obrigando-o a servir-se de bengala. Recuperou-se bem da fala e suas faculdades mentais nada sofreram. Mas, não seria possível continuar no ofício de pároco. Deste modo, em 11 de fevereiro de 2007, foi nomeado vigário paroquial de Nossa Senhora de Fátima e Santa Teresinha, Estreito, Florianópolis, onde iniciara sua vida de padre.

Sentado vizinho a uma janela, manifestava sua disposição para confissões e para o atendimento a quem o procurasse a partir da 7h. Os mais assíduos eram os moradores de rua em busca de uma esmola e que recebiam sempre um conselho, 2 reais e uma paçoca de amendoim. Com o tempo conhecia-os todos e também conhecia as histórias de que se serviam para pedir um auxílio.

Era característica sua: dar presentes, santinhos, cartões de aniversário, telefonar e reclamar que não lhe tinham telefonado. Gostava de imprimir nas numerosas fotografias que distribuiu: “Se eu não fosse padre, gostaria de ser padre”.

Pe. Cardoso gostava de festejar aniversário, pois sentia-se amado, e comemorou os 25, 50 anos de ministério sacerdotal. O presente desejado era a presença do povo, que o deixava como criança feliz. Neste 16 de maio celebrou o último aniversário, agora os 93 anos. Estava feliz, até suspeitando de ser sua última festa.

Em setembro de 2016 a saúde enfraqueceu e era difícil que morasse na casa paroquial, que não dispunha de equipamentos apropriados. Por esse motivo, em 11 de outubro de 2016, foi residir na Orionópolis Catarinense, São José, acolhido generosa e fraternalmente pelo diretor, o orionita Pe. José Manoel dos Santos, a quem devemos a gratidão pelo gesto fraterno. Ficava muito feliz com visitas e telefonava quando escasseavam.

Pe. João Cardoso vivia preocupado com sua salvação eterna: “tenho preocupação com a morte, com minha apresentação diante de Deus”. Semanalmente recorria ao Tribunal da Misericórdia, à Confissão.,

Grande devoto de Nossa Senhora, da Mãe de Deus e dos sacerdotes, após breve internação no Hospital de Caridade, foi chamado por Deus num dia muito mariano: às 11,30h do dia 15 de agosto, dia da Assunção de Maria ao Céu.

Às 16h seu corpo foi introduzido no Santuário de Nossa Senhora de Fátima, no Estreito, para que o povo pudesse velá-lo. Às 19,30, o bispo auxiliar emérito Dom Vito Schlickmann presidiu a Missa, concelebrada pelos padres que puderam se fazer presentes. E, no dia 16 de agosto de 2018, a viagem até Azambuja onde, no cemitério Parque da Saudade, foram celebradas as Exéquias, seguidas do sepultamento. Há muitos anos manifestara o desejo de ser sepultado em Azambuja, onde iniciara o caminho sacerdotal. Deus, que lhe concedeu longa existência e um longo sacerdócio, certamente o recebeu no Paraíso.


Pe. José Artulino Besen

 

1 comentário

O POBRE NÃO É NOSSO LIXEIRO

De graça recebestes, de graça dai (Mt 10,8)

Setembro é chamado de “mês da Bíblia”, da Sagrada Escritura, da Palavra de Deus. Para não complicarmos o que Deus nos fala, talvez baste dizer que a Bíblia é o livro da Caridade, manual da misericórdia.

É triste o que se constata em muitas campanhas em benefício de pessoas carentes: alguns oferecem aquilo que não tem mais nenhuma utilidade: roupas sujas e descosidas, sapato sem o par, chinelos gastos, brinquedos quebrados, comida vencida, dinheiro que não compra nem uma bala e assim por diante. Há quem se serve de campanhas de solidariedade para fazer faxina em guarda-roupa, dispensa e casa. Numa palavra, o pobre torna-se nosso lixeiro!

Na mão estendida do pobre ou na coleta de nossa igreja, depositamos a nota de menor valor ou, pior ainda, até moeda já sem validade. O momento da generosidade é transformado na declaração da sovinice, no desprezo pelo necessitado. Não é colaboração, solidariedade, mas atestado de desumanidade. Há um princípio da sabedoria bíblica que nos pede não fazermos aos outros o que não queremos que nos façam (Mt 7,12). Se algo não me serve, também não serve para meu próximo. Leia o resto deste post »

3 Comentários

PADRE LUIZ CARLOS RODRIGUES

Padre Luiz Carlos Rodrigues

Na década de 60 do século passado, especialmente após o Vaticano II, falou-se bastante de vocações “adultas”, isto é, receber no seminário jovens já saídos da adolescência, com maior maturidade afetiva, que tivessem completado o 2º. Grau. A tradição formativa preferia receber vocacionados crianças e adolescentes, e os estudos seminarísticos pediam um percurso de sete anos antes de iniciar o Seminário maior, o que facilitaria o trabalho da formação integral da personalidade. A multiplicação de colégios e ginásios em municípios do interior sinalizava a possibilidade de ingressar no seminário diretamente nos estudos filosóficos, favorecendo a formação no âmbito da família e da comunidade.

Dom Afonso Niehues, arcebispo de Florianópolis, foi favorável a esse novo caminho ainda como experiência, e recebeu vocacionados encaminhados para Curitiba, diretamente para os estudos filosóficos e teológicos. Isso acarretou novas exigências, especialmente na formação humana e religiosa: era desafiante acompanhar um seminarista vindo do seminário menor ou do colégio público. Incluído nos primeiros que trilharam o novo caminho está Luiz Carlos Rodrigues.

Luiz Carlos Rodrigues nasceu em Serraria, Barreiros, São José, SC em 22 de novembro de 1946, filho de Jorge Turíbio e Benta Paulina Farias, numa numerosa família de 10 irmãos. Seu pai era pescador, embarcado, passando tempos fora de casa. Uma família pobre alicerçada na coragem e perseverança da mãe. Sua formação escolar aconteceu em colégios públicos até a conclusão do 2º Grau: estudos primários em Barreiros, ensino fundamental na Escola Industrial de Florianópolis (1960-1963) e o ensino médio no Instituto Estadual de Educação (1964-1967). Leia o resto deste post »

3 Comentários

SANTA PAULINA OU O RETORNO À CANCEROSA

Santa Paulina, em 1940, nos 50 anos em que deixou a casa paterna. Devido à diabete, estava cega e tinha um braço amputado.

Às 5:50h de nove de julho de 1942, aos 77 anos, Madre Paulina do Coração Agonizante de Jesus ingressava na Pátria eterna. Suas últimas palavras: “Misericórdia! Misericórdia!”. Terminava uma aventura espiritual iniciada em Vígolo, Nova Trento no distante ano de 1890: naquele ano, Amábile Visintainer e Virgínia Nicolodi recolheram a cancerosa Ângela Lúcia Viviani e dela cuidaram até a morte.

Com o passar dos dias, meses e anos, mais jovens se juntaram ao ideal de Amábile para cuidar dos doentes, das crianças, dos pobres, dos índios, das missões. Surgia um novo instituto religioso no qual Amábile assumiu como nome e projeto de santificação Paulina do Coração Agonizante de Jesus. Unia, em seu nome, o ardor missionário do apóstolo Paulo e a sede de almas do Coração agonizante de Jesus. Como suas contemporâneas Teresinha de Lisieux, Gema Galgani e Elizabeth da Trindade ela escutava no mais profundo do seu ser o grito de Jesus crucificado: “Tenho sede!”. Estas mulheres santas entenderam que o Senhor não pedia água, pois a sede que sofria era a de almas, de salvar pessoas. No longo caminho de sua existência, de seu calvário físico e moral, Paulina não permitia que escorresse em vão o sangue do lado direito de Jesus: recolhia-o para reanimar as almas enfraquecidas pelo pecado, pela miséria social e religiosa, pelo abandono familiar. Leia o resto deste post »

1 comentário

A TRINDADE SANTÍSSIMA – NOSSO DEUS

Domínio Público, via Wikipédia*

“É absurdo e impróprio pintar em ícones a Deus Pai com barba cinza e o Filho Unigênito em seu seio com uma pomba entre ambos, posto que ninguém viu o Pai segundo a Sua Divindade, que o Pai não tem carne […] e que o Espírito Santo não é, em essência, uma pomba, mas, em essência, Deus” (Grande Sínodo de Moscou, 1667).

Esta decisão da Igreja Ortodoxa Russa condenou a tendência de artistas russos que, de certo modo, estavam imitando a arte ocidental, deixando de lado os princípios canônicos que determinavam a forma e o conteúdo dos ícones. E, a Rússia já tinha oferecido à Igreja o ícone da Trindade Santíssima por obra do monge Andrei Rublev (1360-1430), e que se tornou modelo para os outros ícones. Rublev, canonizado pela Igreja russa em 1988, para sua obra prima teve seus dias de pura inspiração e, quando apresentou aos monges o ícone da Trindade, provocou um puro assombro: estavam diante de algo divino, jamais concebido por artista humano, e prorromperam num hino de louvor ao Deus Trindade, cuja beleza ninguém podia imaginar, mas que se revelara ao monge Rublev, na igreja do Mosteiro da Santíssima Trindade de Moscou.

A Trindade é um mistério – e sempre o será nesta terra. Às vezes, porém, nos são concedidos vislumbres da vida divina, e o ícone de Rublev nos permite espreitar brevemente por trás do véu que oculta o mistério.

Após prolongado jejum e oração, encontrou a inspiração no texto sagrado, em Abraão junto ao carvalho de Mambré e recebendo a visita de três homens: Leia o resto deste post »

2 Comentários

VIVER NO ESPÍRITO, O EVANGELHO DA ALEGRIA

No Espírito, a alegria é sempre criativa

A Páscoa da Ressurreição é integrante da Páscoa de Pentecostes. Uma segue a outra e são inseparáveis, manifestam seu poder e beleza na Eucaristia. A unidade dos cristãos na celebração da Eucaristia manifesta a alegria que brota do Cristo vencedor da morte e que derrama o Espírito Santo para que a vida seja sempre renovada pela comunhão, libertada de estruturas caducas que aprisionam em recintos fechados. Não vive na sedução do passado, mas se projeta sempre no futuro, conduzido pela coragem derramada pelo Espírito.

Para aprofundar esse espírito, o Conselho Regional Missionário (COMIRE) promove dos dias 09 a 11 de junho de 2017na Paróquia São Francisco de Assis, em Palhoça, o VI Congresso Missionário Regional, abrangendo todas as dioceses catarinenses.

O encontro está em sintonia com a realização do 5º Congresso Missionário Americano (CAM 5), o Congresso Missionário Latino Americano (COMLA 10) e o 4º Congresso Missionário Nacional, em Recife, Pernambuco.

Com o tema – “A alegria do Evangelho, coração da missão profética, fonte de reconciliação e comunhão” – e o lema – “Santa Catarina em Missão. O Evangelho é Alegria” –, o encontro tem o objetivo geral de assumir a natureza missionária da Igreja, guiada pelo Espírito, a serviço do Reino, vivendo e testemunhando a alegria do Evangelho.

Alimentado por Cristo e tocado pela potência do Espírito, o cristão é impelido ao anúncio da  alegria do Evangelho: para a glória do Pai anuncia a renovação da comunidade, da criação, da vida. É súplica nossa que o Filho envie seu Espírito para que a terra seja renovada, o Evangelho seja boa nova, feliz notícia que nos faz experimentar a força da graça, o amor divino. Leia o resto deste post »

2 Comentários

NOSSA SENHORA DE CARAVAGGIO

vitral

Joanita, diante do imperador de Constantinopla João VIII Paleólogo – vitral em Azambuja

O peregrino ou devoto que entra no Santuário de Azambuja, em Brusque, tem a graça de contemplar, no alto do altar-mor, o belíssimo conjunto com as imagens de Nossa Senhora e Joanita, retratando a aparição ocorrida em 1432 na cidade italiana de Caravaggio. Foi essa a devoção que os primeiros habitantes de Azambuja trouxeram da Itália: a companhia de sua “Madonna” foi o melhor consolo para as peripécias de uma longa viagem e a saudade na nova terra. Nossa Senhora de Caravaggio fazia-os recordar sua terra, suas devoções, os amigos lá deixados.

Transcrevemos, a seguir, a mais antiga narração dessa aparição mariana que é, ao mesmo tempo, a narração oficial:

“Deus, rico de misericórdia e todo-poderoso, que tudo dispõe suavemente com sua providência, com aquela piedade que nunca deixa nenhum fiel realmente privado de seu celeste socorro, num dia aprouve-lhe olhar, socorrer e inclusive honrar o povo de Caravaggio com a aparição da Virgem Mãe de Deus.

No ano de 1432 do nascimento do Senhor, no dia 26 de maio às 5 horas da tarde, aconteceu que uma mulher de nome Joanita, oriunda do povoado de Caravaggio, com 32 anos de idade, filha de um certo Pietro Vacchi e esposa de Francesco Varoli, conhecida de todos por causa de seus costumes virtuosíssimos, sua piedade cristã, sua vida sinceramente honesta, tendo cortado o capim para seus animais fora de Caravaggio ao longo da estrada que dá para Milão, estava totalmente preocupada em como levar para casa aqueles feixes de capim. [Como o marido era muito violento e costumava espancá-la, tinha receio de atrasar-se e, com isso, ser castigada].

Foi então que viu uma Senhora belíssima e admirável, de estatura majestosa, rosto gracioso, aparência veneranda e de indizível e nunca vista beleza física, vestida com hábito azul e tendo a cabeça coberta com um véu branco, vinda do alto e parar exatamente vizinha a ela. Tocada pelo aspecto de tal modo venerável da nobre Senhora, estupefata, Joanita exclamou: Leia o resto deste post »

2 Comentários

OS PROTOMÁRTIRES DO BRASIL – SERÃO CANONIZADOS

Prot – Forte dos Reis Magos, onde se refugiaram os Mártires de Uruaçu

São estes os sentimentos que invadem o nosso coração, ao evocarmos a significativa lembrança da celebração dos 500 Anos da Evangelização do Brasil, que acontece neste ano. Naquele imenso País, não foram poucas as dificuldades de implantação do Evangelho. A presença da Igreja foi-se afirmando lentamente, mediante a obra missionária de várias Ordens e Congregações religiosas e de Sacerdotes do clero diocesano. Os mártires que hoje são beatificados saíram, no fim do século XVII, das comunidades de Cunhaú e Uruaçu, no Rio Grande do Norte. André de Soveral, Ambrósio Francisco Ferro, Presbíteros, e 28 Companheiros leigos pertencem a essa geração de mártires que regou o solo pátrio, tornando-o fértil para a geração dos novos cristãos. Eles são as primícias do trabalho missionário, os Protomártires do Brasil. A um deles, Mateus Moreira, estando ainda vivo, foi-lhe arrancado o coração pelas costas, mas ele ainda teve forças para proclamar a sua fé na Eucaristia, dizendo: “Louvado seja o Santíssimo Sacramento”.

Hoje, uma vez mais, ressoam aquelas palavras de Cristo, evocadas no Evangelho: “Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma” (Mt 10, 28). O sangue de católicos indefesos, muitos deles anônimos crianças, velhos e famílias inteiras servirá de estímulo para fortalecer a fé das novas gerações de brasileiros, lembrando sobretudo o valor da família como autêntica e insubstituível formadora da fé e geradora de valores morais. (HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II – NA MISSA DE BEATIFICAÇÃO DOS PROTOMÁRTIRES DO BRASIL – Domingo, 5 de Março de 2000).

OS MÁRTIRES DE CUNHAÚ E URUAÇU

Leia o resto deste post »

Deixe um comentário

QUARESMA – PRIMAVERA DO ESPÍRITO

O fim do inverno oferece um retrato amortecido da natureza, poucas cores, pouca vida. Já a primavera nos surpreende com a natureza viva, alegre, os troncos quase secos brotando. Pouco a pouco as flores se abrem revelando segredos escondidos no inverno. Insetos, aves, carregam o pólen que fecunda as flores. Tudo revela a força e a beleza da vida.

Assim podemos comparar a Quaresma: as rotinas, o amortecimento espiritual, os resíduos do pecado cedem lugar à primavera. O jejum, a esmola e a oração despertam o espírito, fazem a vida brotar e sentimos o crescimento da felicidade, a vida de fé fortalecida pela vitória sobre as tentações. Vamos crescendo até a explosão do Aleluia da Páscoa.

Gostaria de oferecer a você, leitor, três pequenas reflexões, cujo conteúdo é oferecido pelo papa Francisco em suas homilias matinais na Casa Santa Marta. Propõe gestos muito simples, mas importantes. Nossa vida é construída sobre o fundamento da humildade, do silêncio, da oração silenciosa, de encontros simples com pessoas simples. Tudo na mansidão e na humildade.

Com todos, ser o bom pastor             

Leia o resto deste post »

2 Comentários

A MENINA QUE EXPLICOU A MORTE

menina-com-cancer

Esperávamos a paz, e construímos uma década de violência, de guerras. Países em guerras fratricidas no mundo árabe da Síria, do Iraque, do Oriente médio. Nações africanas em guerras internas, cujo único objetivo é a garantia do poder e do domínio sobre riquezas e populações. Em nosso mundo latino-americano sofremos a guerra pelo tráfico e pelos pontos de drogas. Nos países ricos assistimos a outra guerra, a da rejeição dos migrantes, dos fugitivos do mundo conflagrado que diariamente tentam encontrar novo chão, nova pátria, e encontram a expulsão, o desprezo a deportação.

Milhares de famílias abandonam sua terra e seus bens e atravessam fronteiras esperando alguma acolhida, mas são acolhidas pela ordem de retorno ao lugar nenhum, pela deportação. São consideradas peso morto, ameaça ao conforto dos países ricos. As famílias deixam de ser famílias: são mães abandonadas, crianças fugindo pelas estradas e ruínas, homens tentando salvar algum coisa, jovens deserdados da esperança. As imagens geradas por esses dramas quase não comovem, pois  a violência continua e as ruínas aumentam com destruições sempre maiores.

Mas, sem dúvida, o que mais nos fere são as imagens das crianças, das quais se rouba a infância e que são marcadas a ferro pelo vírus da violência, a ponto de não conhecer outro tipo de vida. Apesar disso, as crianças brincam, jogam bola, as meninas se fazem de professoras, realizando o milagre da  vida mas injetando no coração o sentimento da violência, pois foi isso que sempre viram e sentiram. Leia o resto deste post »

2 Comentários

%d blogueiros gostam disto: