PADRE JOÃO BATISTA SPESSATO – FRAQUEZA E FORÇA

Padre João Batista Spessato

Padre João Batista Spessato

Em 1980, ao iniciar as pesquisas sobre o Clero catarinense em Santa Catarina, deparei com o nome do Pe. João Batista Spessato e fiquei surpreendido com sua movimentada história de fé, desequilíbrios, dor e busca de superação. Parecia-me estar diante de uma vida distante, apagada da história. Para minha supresa, 30 anos depois descobri que o Pe. Spessato tinha falecido em 1978 e, mais ainda, que seu túmulo é meta de devoção, promessas e agradecimentos. Através de texto do jornalista Paulo James no jornal Folha de Estância (SP), descobri que a Rua Padre Muciano, em Oscar Bressane, é um de seus nomes. E, graças a Deus, pude reconstituir parte de uma vida sacerdotal humanamente dolorosa, mergulhada num mundo sem saída, onde um erro teve de ser purgado durante 50 anos.

Reeleborando minhas antigas anotações, pude escrever esse texto e posso rezar por ele, colega de ministério na arquidiocese de Florianópolis.

João Batista Spessato, filho de Frederico Spessato e Rosa Cherubin, nasceu em Cittadella, diocese de Pádua, Itália, em 17 de outubro de 1891, neto paterno de João B. Spessato e Antônia Fabbris, e neto materno de João B. Cherubin e Anna Battistella. Pela aventura de sua vida, escondeu-se sob outros dois nomes: João Baptista Spessato Cherubin (ou Querubin) e Muciano Maria Carbini.

Como era seminarista em Pádua, necessitava de atestados: de Pádua, o atestado de “livre” para receber ordens sacras em 9 de dezembro de 1914 e, em 15 de dezembro de 1914, do Vicariato de Roma, o atestado de ter estudado dois anos em Roma e nada constar contra ele.

O motivo de sua vinda ao Brasil foi o mesmo de tantos italianos: fugir da pobreza, o que fizeram dois tios seus, vindo residir em Alfredo Chaves, RS. Em Roma, encontrou recomendação de um padre jesuíta que trabalhava no Colégio Catarinense e assim desembarcou em Florianópolis, imensa diocese com pouquíssimos sacerdotes.

Em 1915, no Brasil, foi encaminhado ao Seminário de São Leopoldo, ES, pois em 1913 o Ginásio Conceição passou a ser o Seminário da Arquidiocese de Porto Alegre, de todo o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Ali João Batista Spessato foi matriculado no curso de teologia. Num ambiente de padres alemães, e de seminaristas descendentes de alemães, não lhe era fácil ambientar-se, jovem pobre e italiano, na solidão de outro país. Em 3 de março de 1915, o reitor Pe. João Lutgen, SJ (1868-1923), escreveu a Dom Joaquim Domingues de Oliveira que João Batista não estava se sentindo bem, desambientado e, com isso, doente. Aconselhava Dom Joaquim a chamá-lo de volta a Florianópolis, pois “ele não tem energia para lutar, para se adaptar. Parece um moço muito sério e piedoso, com pouco preparo intelectual”. Em 31 de março, é o jovem que escreve ao bispo desejando-lhe Feliz Páscoa e afirma que está doente, a cada dia pior, sem vontade de nada, tudo lhe é cansativo, mas tudo oferece a Jesus Redentor. Pergunta se é melhor permanecer em São Leopoldo ou retornar a Florianópolis.

Em telegrama ao Reitor (12 de abril), Dom Joaquim escreveu que “condição para ele continuar na Diocese é a sujeição absoluta ao regulamento do Seminário”. Sem outro caminho, o seminarista se adaptou. Esperava as Cartas Demissórias do bispo de Pádua para receber as ordens menores e elas chegaram em fim de dezembro. Passou as férias com os tios em Alfredo Chaves e com Freis capuchinhos que conhecia da Itália.

Em 15 de janeiro de 1916, foi incardinado na diocese de Florianópolis, em 19 de março prestou o juramento de permanecer na diocese de Florianópolis e, em 27 de março, a autorização para receber as Ordens menores das mãos do Arcebispo de Porto Alegre, Dom João Becker.

Aproximando-se a ordenação, recebeu de Dom Joaquim a dispensa de constituir patrimônio por cinco anos, findos os quais ou o constituiria ou se inscreveria na Irmandade de São Pedro, segundo ordenavam as “Constituições” de 1915, sob o no. 342. Era uma exigência da época, normalmente assinada e depois esquecida. Pe. João Lutgen, Reitor, passou atestado de que o clérigo “teve uma conduta moral boa, digna de um candidato ao sacerdócio e deu mostras de sincera piedade. Certifico, outrossim, que o candidato satisfez nos exames de teologia que prestou neste estabelecimento”.

E assim, em 8 de abril de 1917, João Batista Spessato foi ordenado sacerdote na catedral de Florianópolis, juntamente com Thomás Fontes. Em 27 de junho, os neo-sacerdotes prestaram, com aprovação, o exame de Teologia moral para ouvirem Confissões perante a Banca examinadora de Mons. Francisco Topp, Pe. Luiz Huber, SJ e Pe. Gustavo Locher, SJ.

Ministério sacerdotal

Padre João Batista  Spessato em Oscar Bressane SP

Padre João Batista Spessato em Oscar Bressane SP

Seu primeiro campo de apostolado foi o de administrador temporário da paróquia do Puríssimo Coração de Maria, São Bento do Sul, em fins de 1917. Em 14 de dezembro pediu e recebeu a faculdade reservada ao bispo de “Benedictio deprecatória contra mures, locustas et alia animalia nociva” (benção contra ratos, caramujos/lagartas e outros animais nocivos). Por toda a vida ele teve o dom e a fama de benzer e defender lavouras contra insetos e pragas. Em 20 de dezembro de 1917, escreveu a Dom Joaquim narrando que a viagem a São Bento foi muito boa. Apenas não encontrou nada na Casa paroquial e precisou de 100$000 para equipá-la, e também a igreja estava muito em desordem. Logo chegaram três Irmãs da Divina Providência, provenientes de Joinville, grande ajuda no trabalho.

Pe. Spessato andou estranhando a nomeação de um vigário para Lençol, pois Dom Joaquim projetava o Curato de Campo Alegre, o que subtraía rendas da paróquia de São Bento e, mais ainda, ter nomeado um padre alemão, o Pe. Bernardo Blaesing. Dom Joaquim pouco ligou e em 31 de março de 1918 enviou-lhe o Pe. Laureano Garcia como coadjutor.

Deve-se lembrar que as reações do Pe. Spessato são de um jovem com 27 anos, de origem pobre, com medo de passar necessidade. Agora vê-se diante de mais dois padres, sente-se inseguro e se ressente quando o bispo pede a outra pessoa informações sobre um terreno em Avenquinhas (Campo Alegre). Em 31 de novembro escreveu, magoado: “Superei dificuldades da paróquia, agora vou bem, mas Vossa Excelência não quer que viva tranqüilo, assim enviou-me outra grave cruz. Peço especialmente favor tirar-me o quanto antes, pois é alemão fanático, suspeito espião” e depois desabafa: “ou Blaesing ou sozinho”.

Não sendo atendido, em 1º de fevereiro de 1919 pediu um ano de licença para visitar seus parentes na Itália e Rio Grande do Sul. Mas foi nomeado coadjutor de Itajaí, onde se deparou com outro “problema”: o Pe. Fernando Garcez, dominicano espanhol, ex-confessor da Casa real espanhola. Já no primeiro domingo, em público, o vigário chamou três vezes a atenção dele. Pe. Garcez enchera a casa paroquial: um padre idoso seu irmão, dois mocinhos (de Itajaí e estudam na Escola paroquial), um moço (que veio da Espanha com o padre) e duas moças (uma é a Vicentina irmã do moço e a outra o padre trouxe da Espanha). Vicentina tinha domínio total sobre o padre que, segundo Pe. Spessato, afirmou que ela era “um verdadeiro demônio saído do inferno”. É claro que a Casa paroquial de Itajaí tornou-se um centro de intrigas, brigas e fofocas. Pe. Garcez não tinha autoridade de governo. Pe. João sentia-se mal à mesa, e ficou magoado quando o Pe. Garcez telegrafou ao bispo: “Spessato foi no Mar sem avisar” (foi à praia).

O clima ficou difícil e, em junho, Dom Joaquim nomeou Pe. Spessato Capelão do Imperial Hospital de Caridade de Florianópolis. E surgem os protestos: em 16 de junho um abaixo-assinado a Dom Joaquim pede a remoção do Pe. Garcez e o retorno do Pe. Spessato, assinado por todos os diretores do Apostolado da Oração, da Irmandade, das Conferências Vicentinas e Fabriqueiros: “Caso nosso pedido não seja aceito, devemos comunicar a V. Exa. que as associações católicas desta paróquia abandonarão por completo as suas funções”. Dom Joaquim, que nunca aceitou ser desafiado, anotou no cabeçalho: “Não teve resposta: nem influiu em nossas resoluções”. No dia seguinte, a Irmã Superiora de Itajaí escreveu a Dom Joaquim uma carta dramática a respeito das resoluções do Pe. Garcez: proibiu as crianças de comungarem, excomungou diversas pessoas; as Irmãs não têm coragem de se confessar com ele, mas continuam comungando. Pede que reenvie Pe. Spessato e o nomeie seu confessor. Dom Joaquim, compreendendo a situação, mas, não querendo agir sob pressão, atende indiretamente esse pedido enviando para coadjutor de Itajaí o português Pe. Antônio Ferreira Martins, pároco de Camboriú.

Quanto ao Pe. Garcez, em julho retirou-se para a Argentina, e depois para o Chile.

Capelão não satisfeito, em 26 de outubro de 1920, Pe. João escreveu a Dom Joaquim pedindo licença para visitar seus pais na Itália, e um capelão durante sua ausência. Quanto ao capelão, foi nomeado o Pe. Jaime de Barros Câmara (futuro Cardeal do Rio). E, no mesmo ano, Pe. João Batista retornou à Itália, à diocese de Pádua, onde foi provisionado para uma paróquia. À época, Roma não piscava os olhos com padres idos e retornados, cuja situação canônica o bispo deveria comunicar. E assim, em 28 de maio de 1921, o Cardeal De Lai, da Sagrada Congregação Consistorial, escreveu a Dom Joaquim comunicando: Pe. Spessato pediu para ficar na Itália a fim de cuidar de seus pais: como Dom Joaquim vê isso? Em 29 de agosto, Dom Joaquim respondeu que concede a licença e declara que Pe. Spessato é de bom comportamento, bons costumes, sem censura. Aproveitando o Correio, Dom Joaquim cita a carência de padres e pede que se encontre nos Colégios romanos 2 ou 3 padres, especialmente para o atendimento aos imigrantes.

Lembro que Pe. Spessato estava incardinado em Florianópolis, razão porque as correspondências são enviadas a Dom Joaquim.

Tem início um drama

Foram anos de trabalho os anos que Pe. João Batista transcorreu em Farra di Soligo, Treviso. Alguma coisa não andou do modo certo e sofreu as penas canônicas, perdendo o trabalho paroquial devido a séria punição. E se lembrou de Dom Joaquim e lhe escreveu em 18 de outubro de 1927 narrando o estado miserável em que se encontrava, “suspenso por tempo indeterminado das Confissões, etc. pelo Santo Ofício”. Queria reabilitar-se e, por isso, pedia ao agora arcebispo que o recebesse com caridade e depois solicitasse sua reabilitação.

As coisas se complicam em gravidade: em 7 de março de 1928, por Decreto da Sagrada Congregação do Santo Ofício foi reduzido ao estado laical, com obrigação de celibato. Claro que Pe. Spessato não foi punido por ser santo, e até haveria caminho de retorno, não fossem suas apelações de perdão e juras de inocência que o deixaram sempre mais mergulhado na confusão, enredado no Santo Ofício, na Nunciatura e na Arquidiocese.

Dom Joaquim usa de muita misericórdia, não dando margem a maus entendidos e, ao mesmo tempo, não piora as coisas. Em 9 de abril de 1928, escreveu ao poderoso, intransigente e santo Secretário do Santo Ofício, o Cardeal Merry del Val, respondendo a duas perguntas: 1) Nada consta na Arquidiocese de Florianópolis a respeito de “crimine pessimo” a respeito do Pe. Spessato; 2) sobre a excardinação, pede que consulte  ao Cardeal De Lai, a respeito da carta do Pe. Spessato em que pede para ficar na Itália. Dom Joaquim supõe ter havido excardinação.

Observando os passos de nosso padre, percebe-se a dificuldade de enxergar a realidade dos fatos e a busca de soluções comprometedoras. Sem função na Itália, retornou ao Brasil, para local não informado, mas era Alfredo Chaves. O bispo de Pádua, Elia Dalla Costa, denuncia o fato ao Arcebispo e adverte que Pe. Spessato foi suspenso in perpetuum do ministério sacerdotal, reduzido ao estado leigo com obrigação de celibato e proibido de usar vestes clericais.

Qual foi o crimen pessimum do padre? É difícil a resposta, porque inclui duas situações cuja afirmação dependem de duas pessoas apenas, o acusador e o acusado: violação do segredo da confissão ou solicitação ao pecado. Inocente ou culpado, o sofrimento foi longo e doloroso.

Em 5 de dezembro de 1929, advertido por Dom Elia, o Cardeal Merry del Val escreveu a Dom Joaquim pedindo que não intercedesse pela reabilitação do padre e observasse o cumprimento da punição, e que o recebesse somente em veste laical. Dom Joaquim, fiel ao princípio de somente responder ao que fosse perguntado, declara-se ciente das penas impostas e que ignorava que Pe. Spessato tivesse retornado a América ou a Arquidiocese. Isso em duas cartas, em dezembro de 29 e março de 30.

(Aqui gostaria de lembrar que Dom Elia Dalla Costa morreu como Cardeal arcebispo de Florença, paupérrimo, mergulhado na contemplação. Foi aberto seu processo de canonização. Também candidato aos altares, o Servo de Deus Cardeal Merry del Val, que foi assessor pessoal de Bento XV e Pio XI).

Padre João é padre Muciano

Em 1936, Pe. Spessato deu sinal de vida, em Caxias do Sul. Em 23 de maio escreveu a Dom Joaquim, dizendo que seus pais já morreram e agora estava em Alfredo Chaves com seus tios: “foi reconhecida a minha inocência pela retratação dos meus acusadores, um dos quais a fez antes de morrer”. Pediu a Dom Joaquim permissão para exercitar o ministério na diocese de Caxias do Sul. Apenas esqueceu de dizer que o bispo de Caxias não o queria, pois apareceu na diocese sem as devidas licenças e causando intrigas no seio da população de algumas paróquias, razão pela qual teve negada permissão para celebrar. Tem como resposta telegrama assinado pelo Vigário Geral, comunicando que “o referido sacerdote provavelmente não pertence à arquidiocese e certamente não tem faculdades, que foram cassadas pela Santa Sé”. Seguiu cópia ao Pe. Spessato.

O que faz nosso padre? Uma bruta confusão que se estendeu por quase 40 anos e que também vai purificá-lo humana e espiritualmente, a demonstrar que a graça de Deus tem a última palavra, sempre. Suas decisões não são prudentes e devem ser entendidas como brotadas de um padre sozinho e que fica desorientado frente aos problemas, piorando-os.

Foi residir na diocese de Assis, SP onde foi nomeado pároco de Nossa Senhora do Carmo em Oscar Bressane, numa área desbravada para a plantação de café, com diversos italianos e espanhóis fixados no núcleo urbano.

Ali o Pe. Muciano Maria Carbini (novo nome) serviu no período de 14 de agosto de 1936 até 23 de agosto de 1943. Em sua Chácara de Nossa Senhora do Refúgio, o Padre Muciano Carbini manteve e dirigiu, de 1937 a 1943, o Colégio da Congregação da Companhia de Maria, dedicando-se à instrução regular e religiosa de jovens e crianças. A Companhia de Maria, fundação espanhola, chegou ao Brasil em 1936, fugindo da Guerra civil na Espanha. Alguns jovens habitavam a casa paroquial na qualidade de seminaristas.

Em 23 de outubro de 1943, o Núncio apostólico no Brasil, Dom Bento Aloisi Masella, escreveu a Dom Joaquim pedindo informações a respeito do Pe. João Batista Spessato Cherubim que ultimamente esteve na diocese de Assis, e pedindo que não lhe dê as faculdades, pois cometeu graves irregularidades na diocese de Assis. Como resposta, Dom Joaquim informou que o padre é, sem dúvida, João Batista Spessato e cita a condenação recebida e que somente poderia ser reabilitado pela Santa Sé.

Achando que tudo tinha sido lavado pelo tempo, ou pela pouca noção de tempo, em 30 de julho de 1949, Pe. Spessato escreveu a Dom Joaquim pedindo um Atestado de boa conduta do tempo em que trabalhou em Florianópolis, pois dele precisava para levar a Roma, junto com recomendações de outros padres e bispos amigos. Pedia que fosse endereçado à Caixa Postal 665, São Paulo. Pela estratégica “ausência” do Arcebispo, em 10 de agosto de 1949 o Vigário Geral respondeu que não poderia dar o Atestado, pois foi excardinado e, se Roma pedir, com certeza daria. Lembra que deve pedir o Atestado nos ulteriores e atuais campos de ação.

Em 12 de janeiro de 1951, Dom Antônio José dos Santos, bispo de Assis, escreveu a Dom Joaquim pedindo informações, pois deveria repassá-las ao Santo Ofício para que fosse reintegrado nas Ordens sacras. Por ter falsificado papéis para a ordenação de um candidato por ele indicado, foi suspenso de ordens e suspenso da diocese de Assis, que não pode mais recebê-lo. E lembra que se apresentou com o nome de Pe. Muciano Carbini. Dom Joaquim escreveu ao bispo de Assis dizendo que pouco podia acrescentar ao que ele sabe, pois esteve na diocese há muitos anos, foi excardinado e sabe que seu caso está no foro da Santa Sé. Na verdade, Pe. Spessato não foi excardinado.

E aqui termina a história do Pe. João Batista Spessato complicado, desequilibrado, e tem início uma outra história, a do Padre Santo e Milagroso de Oscar Bressane, figura lendária cuja história poucos conhecem, mas cuja santidade recordam. Muito anos depois, em 13 de abril de 1978, faleceu o Pe. João Batista Spessato. Até como representação de suas confusões, a rua que o homenageia em Oscar Bressane é “Rua Padre Muciano”.

Aqui passo a me valer do jornalista Paulo James, em reportagens na Folha de Estância, de Paraguaçu Paulista.

O Padre milagroso

Túmulo de Padre João Batista Spessato em Oscar Bressane

Túmulo de Padre João Batista Spessato em Oscar Bressane

Visitando o cemitério de Nova Bressane por ocasião de Finados, Paulo James notou uma sepultura muito visitada e enfeitada. Percebendo sua admiração, um grupo de senhoras dele se acercou e tiveram início as narrativas. Uma senhora contou que seu marido estava internado com um tumor na cabeça. Ela invocou a intercessão do Pe. Muciano e a partir desse momento, a doença começou a desaparecer. Ficou curado.

A vida do Pe. Muciano (João Batista) emociona os que dele recordam. Poucos sabem de sua vida, mas muitos sabem de seus milagres e bênçãos.

Uma das pessoas que conviveu com o padre foi seu José Reginato e dona Odila, que foram caseiros na chácara do padre Muciano por cinco anos: ele cuidava da chácara e ela zelava pela casa, alimentação e roupas do religioso. Seu José Reginato recorda do padre como sendo um homem enérgico, mas grandes milagres ele viu serem realizados diante de seus olhos; ele nunca se esqueceu de um dia em que estava limpando a porta da Igreja: eram oito horas da manhã quando, num jipe, chegou um pessoal vindo do Paraná; os ocupantes desceram desesperados  a procura do padre. José Reginato conta que quando  o padre veio atender, e eles  abriram a parte de trás  do jipe, apareceu uma pessoa amarrada. O padre ergueu o braço e gritou: “desamarrem-no”; as pessoas que estavam com ele – um irmão e um cunhado – disseram desesperadas: “padre, se o soltarmos, nunca mais o pegaremos, pois ele está totalmente louco”.

Padre Muciano retrucou com firmeza: “soltem-no” e, os rapazes disseram: “mas ele vai embora”. O padre disse “Ele vai, mas volta”.

Seu José Reginato conta que, ao soltar as cordas  do desequilibrado, ele desabou numa carreira em direção à porteira.  Começaram a gritar: “ele vai sumir”. O padre Muciano afirmou: “ele vai voltar aqui, vamos entrar na igreja”; foi conta deles ajoelharem em frente ao altar que o rapaz, tido como louco, entrou silenciosamente pela porta da Igreja, e ajoelhou-se junto do irmão e do cunhado. Tempos depois, os parentes contaram que aquele rapaz que tinha ficado louco depois de perder todos os bens, recuperou a sanidade após o encontro com o Padre Muciano. Sua família vinha de quinze em quinze dias a Oscar Bressane para agradecer ao padre a bênção conseguida.

De outra feita, quando plantava arroz e a lavoura estava muito bonita, um lavrador notou um tipo de lagarta que estava atacando a plantação e comendo a planta até o talo. O desespero tomou conta e, numa tarde, encontrou com o padre e disse-lhe: “Padre, a lagarta está comendo todo o meu arroz”; o padre respondeu-lhe: ”olha, hoje você não vai mais à roça; benzeu um punhado de sal colocou num saquinho  e completou: “amanhã, bem cedo, você vai lá, joga o sal em três cantos e deixa  um canto  aberto”, para as lagartas saírem. A partir daquele dia as lagartas sumiram e não comeram mais nenhum pé de sua plantação de arroz; todos que olhavam achavam que havia passado veneno.

Dona Deolinda Cardoso foi quem conviveu os últimos anos de vida cuidando do padre Muciano; contou que a chácara do padre vivia cheia de gente que vinha atrás dele na esperança de encontrar uma graça ou até um grande milagre; que ele era muito sistemático e, se ele visse alguém fazendo a comida ele não comia, e nunca dormia em cama, só dormia sentado em uma poltrona; na maioria das vezes ele trocava a comida por leite.

O padre Muciano era uma pessoa de pavio curto: era muito impaciente e se irritava fácil; dona Deolinda  conta que, um dia, ele queria amendoim e ela demorou em servi-lo; ele  começou a reclamar e ela conta que retrucou com  ele, mas teve que sair correndo: o padre correu atrás dela com a bengala e, se a tivesse alcançado, teria levado boas bengaladas.

Outro caso que o seu José Reginato relembra morrendo de rir, é que o pároco Padre Antônio e o padre Muciano eram muito amigos, até que o padre Antônio resolveu comprar um pedaço de terra vizinha à do padre; padre Muciano iniciou uma discussão entre os dois, porque ele não queria que o padre Antônio plantasse na divisa de sua chácara mudas de eucaliptos: quase chegaram às vias de fato: padre Muciano passou a mão em sua bengala e saiu numa desabalada carreira atrás do padre Antônio no meio do pasto; seu José Reginato disse que foi muito engraçado ver os dois padres de saias no meio do pasto.

Contam que o padre foi castigado pelo Papa, mas é tudo falso porque, “se fosse um picareta, Deus não lhe daria o dom de fazer milagres e ajudar as pessoas”.

Muitas vezes, para matar saudade, Pe. Spessato rezava a missa para as quatro paredes e pedia para ela, Deolinda, ficar vigiando com um sino na mão, na porta da igreja: se chegasse alguém, ela tocava o sino e ele interrompia sua reza.

É esquisito o fato de, mesmo com a proibição, ele continuar responsável pela paróquia e ter recebido a visita do Bispo em sua chácara.

O sacerdote preparou-se para morrer

Um ano antes, já se preparava para morrer: chamava a doméstica para explicar como queria ser colocado no caixão, o modo como seus cabelos deveriam ser penteados, as flores que ele queria enfeitando o velório, a batina e seu chapéu não deveriam ser esquecidos e, finalmente, o mais importante: pessoas estranhas não deveriam tocar o corpo dele.

Ao adoecer, diversas vezes o internaram, e ele achava um jeito de fugir do hospital.

No dia 13 de abril  de 1978, o padre João Batista Spessato, ou padre Muciano Carbini, como era chamado, encerrou sua missão aqui na terra. Seu falecimento causou grande comoção em Oscar Bressane e junto aos fiéis que o acompanhavam.

Nunca revelou o motivo de não rezar a missa, e muito sofreu porque era o que mais amava fazer: rezar missas. Antes de morrer ele recebeu o perdão do Santo Padre, mas não a autorização de rezar missas, contam.

Assim se expressou Guilherme Girotto Gazetta, de Oscar Bressane, em carta de 7 de outubro de 2013: “Minha família, graças a Deus, manteve estreita ligação com ele e foi testemunha da missão deste homem, presenciando, inclusive, vários dos prodígios que ele operou em nome de Deus, tanto antes quanto após sua morte.

Uma pena falecer sem obter sua reabilitação sacerdotal, mas a principal habilitação sem dúvida ele teve por toda sua vida: foi um ungido de Deus, escolhido por Ele para evangelizar, fazendo o bem, curando males.

Culto e dotado de extremíssima fé, foi incompreendido por alguns e, infelizmente, ainda o é.

Mas, sabiamente, o próprio Padre Muciano escreveu: “Paciência, paciência! Seja feita a vontade de Deus: beijo o santo pé que me pisa… beijo a santa mão que me bate… e, bendigo a língua que me fere… tudo perdoo… e tudo sofrirei pela glória de Deus e em penitência dos meus pecados pela salvação da minha alma”.

Intercessor nosso e integrante da assembléia celestial dos santos, receba as orações e súplicas deste povo que o ama! Padre Muciano, rogai por nós!”

A memória desse sacerdote, homem sofrido, confuso, perseverante, se resume numa frase dos que o conheceram: “era um santo homem, sempre pronto a ajudar o próximo”.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Pedro Francisco Bianchini Jr. em 22 de setembro de 2013 - 22:47

    Ótima narração que relembra uma vida com obstáculos frequentes, mas vencidos pela santidade e perseverança na fé.

  2. #2 por osnildo maçaneiro em 23 de setembro de 2013 - 17:44

    Muito boa a narração sobre o Padre João BAPTISTA. Como vimos, nos anos antigo as coisas eram difíceis, mas se vencia com fé e perseverança.

  3. #3 por José Artulino Besen em 26 de setembro de 2013 - 07:07

    Pedro Francisco, os obstáculos da vida, mesmo aqueles que nós criamos, são desafios à nossa busca da santidade, nunca motivo de derrota. Pretendi oferecer essa visão biografando um homem quase esquecido, mas que venceu pela fé.

    • #4 por Guilherme Girotto Gazetta em 7 de outubro de 2013 - 14:20

      Boa tarde Pe. Besen!
      Sua benção!!
      Quanta alegria ao constatar que nosso Pe. Muciano tem, pela dedicação do senhor e por suas tão bem elaboradas palavras, uma história inicial viva e resgatada!
      Jamais imaginaríamos que teríamos acesso a dados tão preciosos como os que apreciamos através da leitura do texto redigido pelo senhor.
      Pe. Besen, gostaríamos muito de manter contato com o senhor. Temos várias informações e materiais acerca do Pe. Muciano. Se puder, envie-me o e-mail do senhor.
      Pe. Muciano para nós foi um guerreiro, louvado, mas também condenado, um mártir incruento da fé católica. Perseguido e caluniado por muitos. Dedicou toda sua vida à edificação do reino de Deus em nossa comunidade. Foi nosso primeiro pároco quando este chão de Oscar Bressane ainda se denominava Villa Fortuna.
      Minha família, graças a Deus, manteve estreita ligação com ele e foi testemunha da missão deste homem, presenciando, inclusive, vários dos prodígios que ele operou em nome de Deus, tanto antes quanto após sua morte.
      Uma pena falecer sem obter sua reabilitação sacerdotal, mas a principal habilitação sem dúvida ele teve por toda sua vida: foi um ungido de Deus, escolhido por Ele para evangelizar, fazendo o bem, curando males…
      Culto e dotado de extremíssima fé, foi incompreendido por alguns e, infelizmente, ainda o é.
      Mas sabiamente o próprio Padre Muciano escreveu: “Paciência, paciência! Seja feita a vontade de Deus: beijo o santo pé que me pisa… beijo a santa mão que me bate… e, bendigo a língua que me fere… tudo perdoo… e tudo sofrirei pela glória de Deus e em penitência dos meus pecados pela salvação da minha alma”.
      Intercessor nosso e integrante da assembleia celestial dos santos, receba as orações e súplicas deste povo que o ama! Padre Muciano, rogai por nós!

      Pe. Besen, neste campo logo abaixo segue meu e-mail, se possível encaminhe resposta para que possamos nos falar.

      Atenciosamente, despeço-me no amor de Cristo Jesus e da Santíssima Virgem Maria.

      Guilherme Girotto Gazetta
      Oscar Bressane/SP

      • #5 por José Artulino Besen em 5 de setembro de 2014 - 17:27

        Guilherme, o senhor escreveu um texto tão belo, e me parece que nem agradeci. Não somente agradecer, mas também oferecer meu email para contato. Tudo o que tiver, me interessa.
        jabesen@terra.com.br

  1. Padre João Baptista Spessato | Pe. José Artulino Besen

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