PADRE LUIZ JOÃO BERTOTTI

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Pe. Luiz João Bertotti (01/01/1929 – 21/08/2016)

Pe. Luiz João Bertotti nasceu em Nova Trento em 1º de janeiro de 1929. Seus pais: Alberto Bertotti e Francisca Bottamedi. Percorreu sua formação seminarística nos Seminários de Azambuja, e de São Leopoldo. Foi sempre aluno e seminarista exemplar e, como estudante, caracterizou-se pela clareza do raciocínio. Madre Paulina tinha firme o plano de criar o ramo masculino de sua Congregação: era a Congregação dos Robertinos, iniciada por ela em Nova Trento, mas suprimida por Dom Duarte Leopoldo, sob o argumento que já havia fundações suficientes e que bastava escolher uma delas. Santa Paulina, radicalmente obediente à autoridade eclesiástica, conservou o sonho dessa fundação. As Irmãzinhas auxiliaram na formação de seminaristas de Nova Trento, esperando que, como padres, levassem adiante a bandeira. Foram esses os seminaristas: Tarcísio Marchiori, Cláudio Cadorim e Luiz João Bertotti, todos ordenados padres e já falecidos.

Foi ordenado presbítero por Dom Joaquim Domingues de Oliveira no Santuário de Azambuja em 8 de dezembro de 1956. Em 29 de dezembro de 1956 recebeu a provisão de vigário paroquial de São Sebastião de Tijucas, trabalhando com o rigoroso Mons. Augusto Zucco nesta grande paróquia que abrangia Tijucas, Canelinha, Porto Belo e Itapema, com suas distâncias e muitas capelas.

Em 21 de dezembro de 1961, foi nomeado pároco de Sant’Ana de Canelinha, onde iniciou a construção da igreja matriz sob projeto arquitetônico moderno e funcional. Não era de seu temperamento pedir dinheiro, organizar festas, mas não teve medo do trabalho. Dois anos depois, em 24 de dezembro de 1963, assumiu como vigário paroquial de Mons. José Locks em São João Batista.

Homem de consciência social, no espírito da ação católica, enfrentou a poderosa USATI, Usina de Açúcar de Tijucas, denunciando a dupla exploração daquele povo: no preço da cana e nos baixos salários. Foi muito criticado como comunista, mas não era homem de temer gente importante. No ano seguinte veio o Golpe militar de 31 de março e os problemas sociais tiveram de ser varridos para debaixo do pano. Além disso, sob as ordens do severo Mons. José Locks não havia muito espaço para pregação social. Mons. José enxergava os problemas e se indignava com eles, mas, receava o perigo vermelho nas denúncias deles, especialmente quando escutou que Pe. Luiz queria organizar uma greve dos trabalhadores da cana.

Em 1968, Pe. Luiz trabalhou no Seminário de Azambuja, como professor e na dura missão de assistente de meia centena de adolescentes que se aproveitavam de sua bondade e paciência e o provocavam com bagunça nos corredores e salas de estudo. Lecionava a disciplina de Concílio do Vaticano II, introduzindo nos seminaristas uma mentalidade aberta sobre a Igreja, Povo de Deus. Não era de seu temperamento gritar ou castigar, razão pela qual pediu transferência e, em 14 de fevereiro de 1969 foi provisionado pároco do Divino Espírito Santo de Camboriú.

Pe. Luiz era bom pregador e suas homilias, breves, partiam da Palavra de Deus. Quem o escutasse pela primeira vez poderia ter a impressão de estar diante de um revolucionário. Era consequente com o Evangelho. A linguagem clara e original era fruto de muito estudo, da capacidade de expressar com beleza o que ensinava. Que ele gostasse da filosofia, não se pode negar. Especialmente era um bom tomista, na lógica do raciocínio. Também era claro seu apreço pela eclesiologia do Concílio, seu desejo de uma Igreja a caminho, atuante na história. Sua espiritualidade e ação pastoral não eram muito dadas a devoções, manifestações da religiosidade popular. Preferia a Palavra.

Era um homem sério e que levava a realidade e as pessoas a sério. Não se pode imaginá-lo em brincadeiras ou manipulações. O interlocutor ganhava seu respeito e uma resposta objetiva aos problemas.

Dois irmãos e uma história

Aconteceu então um fato que mudou o exercício de seu ministério sacerdotal: seu irmão padre, Egídio Alberto Bertotti, ex-jesuíta, incardinado na diocese de Maringá, pediu para trabalhar na Arquidiocese de Florianópolis e, se possível, junto com seu irmão, que tinha dificuldade ao volante por não ter boa visão. Dom Afonso Niehues aquiesceu ao pedido e, em 26 de janeiro de 1970 nomeou Pe. Luiz vigário do Santíssimo Sacramento de Itajaí e Pe. Egídio pároco. O projeto pastoral de Dom Afonso era que Pe. Luiz cuidasse da capela da Vila Operária, preparando-a para futura sede paroquial, o que não aconteceu, pois era comunidade muito próxima da Matriz do Santíssimo e Pe. Luiz julgou que seria apenas multiplicar estruturas.

Em 10 de janeiro de 1980, os dois irmãos foram provisionados para São João Batista. Não havia mais o problema social da Usina de Açúcar, que tinha sido fechada e transformada na Cerâmica Porto Belo em Tijucas. Após décadas de exploração e de fuligem descarregada pela chaminé, poluindo o ambiente urbano, São João Batista viveu o drama do desemprego, suavizado depois pela indústria calçadista. Os tempos eram outros. Ali Pe. Luiz dedicou-se à pregação evangélica iluminada pela opção preferencial pelos pobres de Puebla, cuja Conferência fora realizada no ano de 1979.

Pe. Paulo Bratti, diretor do ITESC, julgou de bom propósito pedir a Pe. Luiz que lecionasse Doutrina Social da Igreja em Florianópolis. O pedido foi aceito e Pe. Luiz se empenhou no compromisso semanal mas, foi apenas um ano. Ele pensava numa análise teórica da Doutrina Social, num estudo exigente. Infelizmente os estudantes estavam mais entusiasmados pela pastoral de passeata, dos slogans, o que espantou o professor e a experiência ficou restrita ao ano de 1981.

Aqui é oportuno lembrar que Pe. Luiz Bertotti era um intelectual, homem de reflexão e de muita leitura, e isso sempre. Não apreciava sucesso fácil.

Em 29 de janeiro de 1993, recebeu a provisão de vigário paroquial de São Francisco Xavier de Saco Grande, uma grande e exigente paróquia cujos limites iam de Saco Grande até o Rio Vermelho, o Norte da Ilha de Santa Catarina. Seu irmão era o pároco e deu prosseguimento à construção da igreja matriz. Só Deus sabe o que significou levar adiante essa obra, num tempo de inflação galopante e sem referencial de moeda. Tiveram a alegria de inaugurá-la.

A partir dessa missão, os dois irmãos sentiram problemas de saúde, e Pe. Luiz sempre mais sofria, enxergando apenas com uma vista. Foram transferidos 1998 para a paróquia Nossa Senhora do Desterro, Catedral metropolitana, como vigários paroquiais. Ali se dedicaram ao atendimento espiritual, às confissões, com zelo e desprendimento, mesmo com a idade avançando e a saúde debilitada. Eram ótimos e sábios conselheiros.

Em 2010, Pe. Luiz percebeu que não era mais tempo de compromissos e, junto com Pe. Egídio, decidiram fixar residência em Nova Trento, no Salto. Terminavam onde iniciaram.

A saúde de Pe. Luiz, com sérios problemas cardíacos, foi se deteriorando. Sabia sofrer, sabia viver. Sua fé iluminava seus passos e lhe indicava o novo horizonte que se abria. Em agosto de 2016 esteve internado no Hospital de Azambuja. Retornou a Nova Trento, em cujo hospital passou os últimos dias de sua longa existência terrena e sacerdotal.

No dia 21 de agosto Deus o chamou, e na manhã do dia seguinte foi sepultado em Nova Trento. Pe. Luiz viveu uma bela vida de 87 anos de idade e, no dia 8 de dezembro festejaria o Jubileu de Diamante sacerdotal. Deixou-nos a imagem de um padre pastor, dedicado, perseverante, humilde. No silêncio viveu, no silêncio Deus o recolheu.

Deixou o comovente exemplo de vida fraterna, trabalhando junto com seu irmão Pe. Egídio por 46 anos. Eram dois irmãos no sentido mais belo: trabalhando, conversando, estudando, discutindo, na alegria da unidade segundo a palavra bíblica: “Oh, como é bom, como é agradável para irmãos unidos viverem juntos” (Salmo 133, 1).

Pe. José Artulino Besen

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A DESPEDIDA DE NOSSO IRMÃO SEBASTIÃO

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Sebastião Artulino Besen – em seu último ano

Recordo, na memória e no coração, o dia 30 de dezembro de 1958, um dia de muito calor e de muita alegria: de madrugada nossa vó materna Maria Gesser Pauli foi chamada para atender nossa mãe. Passado um tempo, ouvimos o choro de uma criança: era mais um bebê, mais um irmãozinho que acabava de chegar. Devido ao pudor que reinava em nossa casa, somente de manhã pudemos conhecer a novidade que já tinha recebido nome: Sebastião. Muita alegria lá em casa e o Sebastião já tinha o apelido de Tãozinho.

No meio da tarde, um susto: Tãozinho teve uma espécie de ataque, ficou vermelho e a mãe lamentava a morte iminente. Para garantir que fosse para o céu, mãe Lúcia o batizou e, dias depois, foi batizado na casa paroquial, sendo de nós o único que teve dois batismos. O bebê não morreu, cresceu uma criança muito linda, cabelos louros, cacheados. Para falar a verdade, nós guardávamos certa raivinha dele, inveja de criança, e porque todos queriam segurá-lo ao colo. Juvenila, nossa empregada, era a defensora de Tãozinho, a criança linda que podia fazer o que quisesse, que tinha sempre razão, ai de quem mexesse com ele. Às vezes, o beliscávamos para vê-lo chorar exageradamente e assim vingar as proteções de Juvenila. Ela perguntava ao Tão quem o tinha ofendido e ele sempre apontava um de nós, que recebíamos a correção devida.

Tãozinho era muito inteligente e tinha todas as atenções merecidas pelos caçulas.

Quando ele nem entendia muito da vida e da morte, lembro-me dele de mãozinhas no bolso, olhando para tanta gente reunida lá em casa, perguntando se mamãe iria se acordar logo. Não iria: era o 25 de novembro de 1964, e mãe Lúcia estava num caixão, tinha morrido naquela madrugada na Casa de Saúde São Sebastião. O sepultamento foi no dia seguinte, e o pai estava sério, cercado pelos oito filhos a quem deveria criar, educar, formar. O pai se consolava dizendo que perdera a esposa, mas tinham ficado os filhos. Mamãe tinha 47 anos e o Tãozinho estava para completar 6 e recebia o doloroso título de órfãozinho. Juvenila estava casada, minhas irmãs mais velhas, Maria e Nesir, eram internas no Colégio Coração de Jesus e eu estava no Seminário de Azambuja.

Aquele menino louro, vivo, acarinhado era uma criança meio solitária, agora privado das defesas que os caçulas costumam ter.

A palavra “mãe” não lhe trazia mais recordações. Como deve ter sofrido a solidão, o pobrezinho, aumentada porque nosso pai Artulino não era de dar proteção a algum filho. Todos foram criados como se fossem um só.

No tempo que foi passando, todos foram matriculados na escola das primeiras e segundas letras, na escola do catecismo, na escola do trabalho na roça.

Em 1971, ao chegar em casa para as férias, nosso pai deu-me a notícia: Sebastião queria ser padre, ia para o Seminário de Azambuja, onde eu agora lecionava e frequentava o curso de Filosofia. Por dever de ofício, tive de mostrar uma grande felicidade mas, intimamente sentia a nova solidão que meu irmão caçula iria viver: ser anônimo numa casa com mais de 100 crianças e jovens, sozinho e anônimo por aqueles grandes corredores, quentes no verão, frios no inverno. Recordo com muito sentimento a dor que sentia ao contemplá-lo passando pela experiência da saudade da casa, da família, dos amigos da infância, numa casa de formação tocada por homens sem muitos sentimentos, na qual eu já vivia há 12 anos e onde eu derramei todas as lágrimas que podia, pura saudade, mesmo carregando o peso de que era pecado ter saudade, pois Jesus e Nossa Senhora davam muito mais alegria. Assim foi, porque assim era.

Tãozinho era de personalidade forte, teimoso a ponto de não aceitar desafios. Lembro um dia, assim me contaram, em que Pe. Albano afirmara que ninguém colaria a prova com ele. Sebastião abriu o livro de latim e disse: “eu colo, e pronto!” Ganhou um zero, mas vencera o desafio, como muitas vezes enfrentou depois.

Em setembro de 1972 eu fui indicado para cursar Teologia em Roma. Deixei meu irmão sozinho. Lembro de cartas que me dirigiu, falando de algum formador que não “ia com a cara dele”, da saudade que sentia de tudo. Meu irmão deve ter sofrido muito.

Terminado o Ginásio, deixou o seminário e nosso pai permitiu que ele cursasse o Colegial em Florianópolis, residindo numa pensão. Ali Sebastião foi batizado numa outra vida, onde não faltava o álcool, a droga e as farras. Os sentimentos religiosos foram se apagando, o carinho pela família também. Era outro Sebastião e pouco lembrava o Tãozinho de nossa casa.

Retornei de Roma em 1975 e me preparei para a ordenação presbiteral no ano seguinte, sentindo a indiferença de meu irmão, que me afirmou ver em tudo “babaquice”. Fez o favor de participar mas, no último banco da Igreja à moda hippie, cabelos compridos, calça e camisa jeans, estilo dos rebeldes da época. Nossas veneráveis tias comentavam: “Como ele é diferente”… Lá no fundo da igreja, Sebastião ria… Conseguiu ser diferente.

Tãozinho, nossa irmã Maria e Pedrinho, em 4 de fevereiro de 1967

Tãozinho, nossa irmã Maria e Pedrinho, em 4 de fevereiro de 1967

Desejava partir para o mundo, e partiu. Parece que foi para Porto Alegre. Teve uma experiência não tão boa e depois de uma ou duas semanas voltou…. Mas, antes de ir, escreveu uma carta que Irmã Maria leu para o pai. O assunto era que ele ia partir. Agradecia a educação recebida, mas que este tipo de educação não servia para ele. Passou um tempo no Ribeirão da Ilha, sustentado por nossa irmã Cecília, indo sempre ia ter com ela. Ia também visitar Ir. Maria, no Saco dos Limões. Quando voltou para casa, já noite adentro, disse para o pai que estava voltando. O pai mandou imediatamente o Pedrinho ir para o Ribeirão buscar as coisas dele, antes que se arrependesse. Sebastião ficava no quarto, dormia bastante, levantava pelas 9hs, fazia ele mesmo o sua merenda e almoço, pois era vegetariano. Depois tomava banho no rio. Admirável nosso humilde pai: não chamava atenção, alegre por seu filho estar em casa.

Tempo depois, Sebastião quis realizar o velho sonho: ir para São Paulo, ser livre. Teimou, e meu pai teve de autorizar mas, diferente do pai do filho pródigo, não lhe deu herança, apenas um dinheiro para a viagem e primeiras despesas. Era o ano de 1977 quando Sebastião nos abandonou para viver a vida longe de casa, sozinho no meio urbano, integrado num mundo estranho, e esquecido de seu pai e irmãos, aos quais nem deu o endereço, nem telefonou. Pelo que foi possível pescar, andou no Nordeste, apanhou da polícia, esteve preso, foi internado em hospital devido a alimentos estragados, viajou de trem até a Bolívia, pois queria drogas e queria viver livre. O dinheiro para viver arrecadava vendendo artesanato de couro,.que produzia.

Após dois anos de ausência total, numa madrugada bateu à janela do quarto de nosso pai, dizendo: “pai, sou eu, estou de volta!” Nesse momento nosso pai teve a atitude do pai do filho pródigo e respondeu: “Está bem, Tãozinho, entra para descansar”. E mais não disse, nem mais perguntou. Sebastião entrou em casa como se nunca dela tivesse saído.

Começou nova fase da vida, trabalhando na roça, sendo amigo dos mais pobres e dos humildes, marca de sua personalidade. Recuperou a fé, participava dos sacramentos, mas sempre na liberdade, a ponto de interromper uma homilia do padre para dizer que estava tudo trocado. Sebastião não conseguiu crer por obrigação, nunca mais.

Em 1979 ele quis fazer a experiência de vida dos Irmãozinhos de Jesus, e passou o ano em João Pessoa, trabalhando como servente de pedreiro, muito apoiado pelo Irmão Chico, que nele trabalhou o caminho da conversão.

Retornou nele o desejo de ser padre. Achei que Azambuja não seria o lugar adequado e, graças ao bom Pe. Alcido Kunzler, foi aceito no Seminário de Chapecó, conhecido pelo compromisso social. Mais um ano e, em 1981 veio para Azambuja, cursar a Filosofia. Eu era o formador e não foi fácil tratar com meu irmão, que não admitia a mínima injustiça nem ser obrigado a obediências. Meu irmão continuava o mesmo, cioso da liberdade mesmo a troco de perder benefícios.

Líder nato, engajado nas questões sociais, assumiu o Diretório Acadêmico da Fundação Educacional de Brusque, onde desenvolveu ótimo trabalho. Era 1985 quando eu deixei Azambuja e em 1986 ele deixou o Seminário. Competente e responsável, foi empregado na Prefeitura Municipal de Brusque, por seus méritos chegando a ser nomeado Secretário da Cultura.

Esposo e pai, o adeus

Herança do tempo de Seminário, namorava uma funcionária do Hospital de Azambuja, Nilzete Dubiella. Uma mulher íntegra, paciente, talhada para suportar as liberdades de Sebastião e que o salvou libertou das drogas. Compraram um lote de terra e construíram uma boa casa em Tomás Coelho, onde residia Nilzete. O casamento foi celebrado em 17 de janeiro de 1987, e teve suas peculiaridades: Sebastião entrou na capela de São Roque de manga de camisa, com gravata azul, calça jeans e tênis. Como ele gostava, não como o aconselhavam.

Nilzete e Sebastião foram um casal abençoado pela seriedade, honestidade e inserção na comunidade. O trabalho na prefeitura era bom, trazia o pão de cada dia, mas dependia dos humores da política.

Recebeu e aceitou o convite de meu cunhado Mário César e minha irmã Ivone para montar uma empresa em Curitiba e para lá se transferiu. Foram bem sucedidos e anos depois Sebastião e Nilzete abriram empresa própria, também com muito sucesso. Fiéis a suas convicções, foram sempre justos e generosos na remuneração dos empregados. Ao mesmo tempo adotaram uma família numerosa e muito pobre a quem visitavam a cada sábado, cobrando as lições escolares e ajudando na alimentação e educação. Assumiu o culto na capela Santa Teresinha e preparava jovens para a Crisma. Pouco a pouco revivia em nosso irmão Sebastião a formação religiosa recebida em casa. Foram abençoados pelo nascimento de dois filhos, Daiare e Gabriel. Eles crescendo, não contava as horas para conversar com os filhos sobre Deus, sobre a vida.

Tudo ia muito bem para essa família abençoada em todos os sentidos. Mas, Deus que a visitava sempre, quis que fosse visitada pela cruz, uma pesada cruz que, improvisamente, desmontou aquela felicidade: em 28 de junho de 2006, enquanto Sebastião dirigia o veículo para ir ao trabalho, sentiu dores anormais num braço e decidiu visitar o médico, visitar por visitar. Ao entrar no consultório, foi vitimado por diversos ataques cardíacos que o deixaram inconsciente.Às pressas foi internado no Hospital Evangélico de Curitiba. Era segunda-feira. No sábado seguinte, de manhã, acordou-se e conversou normalmente sobre a família e o trabalho. Daiare falava com muita convicção: “o pai não vai morrer, porque Deus sabe que ele é tão bom e somente fazia o bem. Tenho certeza”. Daiare não conhecia as surpresas de Deus.

Depois, Sebastião apagou-se, mergulhando na agonia que somente terminou em 16 de agosto de 2006. No dia seguinte, foi sepultado no cemitério de Antônio Carlos. Marcada pela dor inesperada, Nilzete falou enquanto olhava o cadáver de seu esposo: “Sebastião, estou muito triste porque você nos deixou. Mas, tenho um consolo: não perdi você para a riqueza, para outra mulher: perdi você para Deus!” Foi sua última conversa, um ato de amor e de fé de quem deveria assumir os filhos Daiare e Gabriel, a casa e as empresas. Foi vitoriosa. A cada fim de tarde se retirava para conversar com Sebastião.

Ali não estava nossa irmã mais velha, Maria, que tanto cuidara de Tãozinho. Era missionária no Ceará. Viveu um luto mais doloroso, pois não se despedira de Tãozinho. Nossa família tinha-se reunido ali, nesse cemitério, em 2 de janeiro de 2002, para a despedida de nosso pai Artulino, abençoado por uma existência de 82 anos e com a graça de não ser provado pela perda de um filho.

Na despedida final de Tãozinho me veio à mente o 26 de novembro de 1964: nesse mesmo lugar nossa mãe se despediu de nós aos 47 anos. Ao lado de seu caixão estava uma criança de 6 anos, o caçulinha Sebastião, que agora também partia, aos 47 anos.

Pe. José Artulino Besen

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SANTA MARIA MADALENA – apóstola dos apóstolos – 22 de julho

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Não me segures – Jesus e Maria Madalena – Giotto

Assinado em 3 de junho de 2016 por decisão de Francisco, um decreto da Sagrada Congregação do Culto elevou a memória de Santa Maria Madalena ao grau de Festa, como a devida aos outros apóstolos. A decisão está inserida no novo contexto eclesial que pede profunda reflexão sobre a dignidade da mulher, a nova evangelização e a grandeza do mistério da misericórdia divina.

São João Paulo II já tinha se referido à missão peculiar de Maria de Mágdala como primeira testemunha que viu o Ressuscitado e primeira mensageira que anunciou aos apóstolos a ressurreição do Senhor.

Santa Maria Madalena é apresentada como um exemplo de “verdadeira e autêntica evangelizadora”, que anuncia a alegre mensagem central da Páscoa. Francisco tomou essa decisão para significar a importância desta mulher que demonstrou um grande amor a Cristo e que tão profundamente foi amada por ele.

O papa São Gregório Magno definiu-a como “a primeira testemunha da ressurreição”, e Santo Tomás de Aquino chamou-a de “apóstola dos apóstolos” porque foi ela que anunciou aos discípulos amedrontados e trancados no cenáculo o que eles deverão, por sua vez, anunciar a todo o mundo. João evangelista a descreve em lágrimas por não ter encontrado no túmulo o corpo do Senhor. Jesus teve compaixão dela fazendo-se reconhecer como Mestre e transformando suas lágrimas em alegria pascal. Tudo isso motivou a decisão papal de que sua festa litúrgica de 22 de julho tenha o mesmo grau das celebrações dos apóstolos no Calendário Romano Geral.

Segundo os biblistas, Santa Maria Madalena não foi a prostituta de que Lucas fala e que ungiu os pés do Senhor (Lc 7, 36-50), uma anônima pecadora conhecida na cidade. Também não é a outra Maria, irmã de Marta e Lázaro, a Maria de Betânia (Jo 12, 1-8). Esse engano deu origem a intensa devoção e inspirou grandes artistas.

Maria Madalena é o que diz seu nome: era de Mágdala, povoado de pescadores à margem do Lago de Tiberíades, mercado de peixes, cujas escavações nos anos 70 do século XX revelaram o desenho urbano da antiga vila. E escavações em 2009 possibilitaram a descoberta da antiga sinagoga, uma das mais antigas dentre as descobertas em Israel: sua posição na estrada que liga Nazaré a Cafarnaum indicaria como aquela frequentada por Jesus.

Maria Madalena aparece pela primeira vez no capítulo 7 de Lucas, quando se narra que Jesus passou por cidades e povoados proclamando a Boa-nova do Reino de Deus, e com ele estavam os Doze a algumas mulheres que tinham sido libertadas de espíritos malignos e de enfermidades e que lhe serviam com seus bens. Entre elas estava “Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios”. Como escreveu o cardeal Gianfranco Ravasi, “em si mesma, a expressão [sete demônios] pode indicar um grave mal (sete é o número de plenitude) físico ou moral que afligiu a mulher de que Jesus tinha libertado.

Sofrendo um mal grave, de natureza desconhecida, Maria Madalena pertencia, assim, ao povo de homens, mulheres e crianças feridas em muitos aspectos que Jesus liberta do desespero para devolvê-los à vida e aos seus entes queridos. Jesus, em nome de Deus, só faz gestos de libertação do mal e de resgate da esperança perdida. O desejo humano de uma vida boa e feliz pertence à intenção de Deus, que é o Deus da cura, nunca cúmplice do mal.

Maria Madalena reaparece nos Evangelhos na hora mais terrível e dramática da vida de Jesus: em seu fiel apego ao Mestre acompanha-o ao Calvário juntamente com outras mulheres, para observá-lo de longe. Em seguida, se apresenta quando José de Arimatéia deposita o corpo de Jesus no túmulo, que é fechado com uma pedra. Depois, no sábado, na manhã do primeiro dia da semana volta ao túmulo e descobre que a pedra fora retirada e corre para contar o fato a Pedro e João, que, por sua vez, correm ao sepulcro para conferir a ausência do corpo do Senhor.

O encontro com o Ressuscitado  

Enquanto os dois discípulos voltam para casa, ela permanece ali, chorando. Inclinando-se no túmulo vê dois anjos e lhes pergunta se não sabiam onde colocaram o corpo do Senhor. Então, olhando para trás, ela vê Jesus, mas não o reconhece, acha que é o jardineiro. Quando Ele pergunta a razão de suas lágrimas e o que procurava, ela respondeu: “Senhor, se tu o levaste, diz-me onde o puseste, e eu vou buscá-lo”.  Jesus disse-lhe, então: “Maria!” (Jo 20,15-16). Citando-lhe o nome, Jesus se revela como o seu Senhor, aquele que ela procura.

O diálogo continua e Maria Madalena diz em hebraico: “Rabuni”, o que significa “Mestre”. Jesus diz: “Não me segures, pois ainda não subi para o Pai; mas vai dizer a meus irmãos: “Eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus”. Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: “Eu vi o Senhor!”. E também narrou o que ele tinha dito “(Jo 20, 16-18).

Maria expressa a maternidade na fé e da fé. Com ela tem início a longa série das mães que, através dos séculos, se dedicam à geração de filhos e filhas de Deus. A decisão de Francisco é um dom belo, expressão de uma revolução antropológica que se refere à mulher e atinge toda a vida eclesial: entender que homem e mulher, numa dualidade encarnada, podem tornar-se anunciadores luminosos do Ressuscitado.

Pe. José Artulino Besen

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NÃO ADIANTA QUERER SER OUTRO 

Criança em plantação de chá - Ruanda - Sebastião Salgado - 1991

Criança em plantação de chá – Ruanda – Sebastião Salgado – 1991

Tu és meu filho, eu hoje te gerei (Sl 2,7).

Contou um monge do deserto do Egito, no século 4º, que um noviço chamado Cirilo se entregava a muitas penitências, vida de oração contínua que a cada dia ia alterando sua personalidade, a ponto de seus companheiros quase não o reconhecerem mais. Seu mestre espiritual o chamou e perguntou-lhe o porquê de tanta mudança. Cirilo respondeu satisfeito: “Meu pai espiritual, tudo o que estou fazendo, os sacrifícios que aceito e a mudança que estão observando em mim prova que estou no caminho certo: quero ser igual a Santo Antão”. Cheio de experiência e de sabedoria, o velho mestre o repreendeu: “Meu filho, Deus não quer que você seja Santo Antão. Deus quer apenas que você seja Cirilo!”.

O ser humano é único e irrepetível. Não há nem haverá alguém igual a nós, somos originais. Isso também significa que não somos reencarnação de alguém que em outra época teve outra cara, outra personalidade e outro nome. Diz a Sagrada Escritura: “Tu és meu filho, eu hoje te gerei” (Sl 2,7), e não “Tu és meu filho, eu hoje te reencarnei”… A reencarnação nega a nossa individualidade e a nossa liberdade, pois supõe que tenhamos sido outro em outra encarnação e que estejamos pagando pelos erros desse outro, como um karma. Deus criou nosso ser no momento de nossa concepção, quando soprou um sopro de vida novo.

Quando o mestre espiritual na história contada há pouco diz que “Deus quer apenas que sejamos nós mesmos”, nos coloca diante de duas realidades fundamentais: nossa originalidade e nossa missão única no mundo.

Somos únicos e necessários

Deus nos criou de modo único. No meio dos bilhões de habitantes da terra e dos bilhões de antes e do futuro, ninguém foi ou será igual a nós, nem na aparência nem na personalidade. A Bíblia diz que fomos tecidos no ventre de nossa mãe, cada um de nós é uma obra-prima da sabedoria e do amor de Deus (cf. Sl 138,13-14).

Copiar é obra da limitação humana, incompatível com a inteligência divina: Deus cria, não copia. Somos únicos no mundo. A consequência é que devemos nos estimar e valorizar. Não somos qualquer coisa, nem qualquer um. Deus não cometeu erros quando nos criou: somos obra de seu amor. Por que, então, estar reclamando de si mesmo, da inteligência, do aspecto externo, das limitações naturais? Seremos felizes não nos comparando com os outros, querendo ser outro, mas valorizando cada vez mais a maravilha que somos nós, alimentando uma visão positiva a respeito de nossa individualidade.

Outro ponto fundamental: nossa vida é única e necessária. Deus não cria pessoas descartáveis ou supérfluas. Cada um de nós tem uma missão a cumprir na história do mundo. Se não a cumprirmos, a história humana ficará incompleta. Isso mostra a importância de nossa vida. Nossas omissões deixarão a história humana imperfeita. Veja a responsabilidade que Deus colocou em nossas mãos: completar ou deixar incompleta a criação!

Então, tudo o que realizamos adquire uma importância decisiva no plano de Deus. Se não temos isso bem claro, fazemos as coisas mais ou menos, reclamando e até deixando de fazê-las porque nos julgamos uns pobres coitados, inúteis, incapazes.

Resumindo: eu me chamo José, Maria. Sou necessário ao mundo. Deus quer apenas que eu seja José ou Maria. Nada de complexos ou comparações. Eu me basto para ser feliz.

Pe. José Artulino Besen

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JESUS DÁ VIDA ÀS NOSSAS MÃOS

Mãos dos Apóstolos (Aleijadinho - Congonhas)

Mãos dos Apóstolos (Aleijadinho – Congonhas)

Estava na sinagoga um homem com a mão direita atrofiada.
Jesus lhe disse: Levanta-te e fica aqui no meio. Estende a mão!
Ele o fez e a mão voltou ao estado normal (cf. Lc 6,6-11)

Simples e significativa esta cena do Evangelho. Apresentam a Jesus um homem com a mão ressequida. Jesus não cura logo a mão. Primeiro ordena: Levanta-te e fica aqui no meio! E depois: Estende a mão!

As mãos são símbolo e instrumento de realização humana. Com elas pegamos e produzimos os alimentos. Com as mãos seguramos uma criança, um deficiente, um doente. Com as mãos acariciamos a quem amamos. Com as mãos o artista realiza uma obra de arte, o poeta compõe uma poesia, o músico toca um instrumento. Com as mãos o lavrador semeia e colhe, o operário transforma a matéria-prima. Com as mãos nos defendemos do perigo, garantimos nossa segurança.

Triste quando as mãos ficam ressequidas: deixamos de viver. Renunciamos ao trabalho, à arte, ao carinho, à vida plena. Mãos ressequidas significam que caímos por terra, não acreditamos em nós, na vida, na alegria de existir. Passamos a viver como derrotados, não acreditando em nós.

Mas, não adianta termos mãos perfeitas se não ficarmos de pé, não crermos em nós.

Por isso mesmo, a primeira atitude de Jesus é ordenar que nos levantemos, vençamos o desânimo, a covardia: Levanta-te e fica aqui no meio! Ordena olhar a vida e o mundo com confiança, coragem, não isolados, mas na companhia dos outros. Ter certeza de que somos capazes de quase tudo, ou então, que somos capazes de viver de verdade e não apenas ficar vivos. Existe muita gente que está viva, mas não vive. É o idoso que acha que já deu tudo e espera a morte. É o aposentado que renuncia às mãos, ficando satisfeito em sobreviver. É o jovem, o adulto que deixam os sentimentos ressecarem, renunciando ao amor, ao afeto, ao carinho, entregando-se ao lamento, ao choro, à decepção.

Muitas mãos perfeitas estão ressequidas, porque seus donos estão por terra, prostrados, desanimados, declarando-se derrotados. Conhecemos pessoas que perderam as mãos em acidentes, mas são exemplo de superação: treinam os pés para agirem em lugar das mãos. Admiramos cegos cheios de vida, caminhando com coragem, cuidando da casa, trabalhando como se os olhos não fizessem falta. Aqui recordo o maior escultor brasileiro, o Aleijadinho: com as mãos quase destruídas pela doença, pedia que nelas amarrassem o cinzel e assim cortava a pedra-sabão, dela extraindo imagens, flores, anjos, animais. E, por outro lado, conhecemos tantos, fisicamente perfeitos, mas que se declaram incapacitados, preferindo fazer do pessimismo a regra de vida. E esterilizam suas capacidades de viver bem e de fazer o bem.

Não vale cair na autojustificação de que, como não sei fazer bem, ou o melhor, deixo de fazer, pois a imperfeição é o grande dom da natureza que nos desafia a recriar, refazer. O combate da vida é o combate pela perfeição que não será alcançada e que sempre permanece combate. Essa expectativa sempre frustrada é o motor da vida e exercita nossas mãos para a arte da existência.

Jesus vem ao nosso encontro para trazer-nos salvação, restituir-nos o gosto pela vida, pela ação, pelo amor, pelo trabalho solidário. Ele oferece forças para que nós nos reergamos, confiemos em nós, valorizemos a vida, deixemos de lado qualquer sentimento de inutilidade, desânimo. Quer que nos levantemos e fiquemos de pé para olharmos a todos de frente.

Fazendo isso, estenderemos as mãos e elas recuperarão a vida, a agilidade, a capacidade de acolher, transformar, amar, viver. Nossa fé cristã não tem como finalidade que percamos o gosto pela vida, esperando a morte e a vida eterna. O contrário: sentindo-nos amados por Deus, amarmo-nos a nós mesmos, aos outros, ao mundo.

Pe. José Artulino Besen

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O AMOR ESCANDALOSO DE DEUS

Jubileu dos padres da Arquidiocese de Florianópolis
Santuário de Azambuja, 2 de junho de 2016.

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Neste Ano Santo da Misericórdia, Jubileu de graça e de reconciliação, recebemos a imerecida graça de podermos nos colocar diante do Deus Pai da Misericórdia que é o Senhor, e diante do homem e da mulher, filhos da Misericórdia gerados no Espírito Santo e regenerados pela Cruz do Senhor. O Ano da Graça não é um período de regeneração delimitado pelo começo e pelo fim de um ano na cronologia da história, mas sim, é um Ano mergulhado no Hoje de Deus, no mistério da salvação decidido por Deus desde toda a eternidade, pois o plano da criação inclui o plano da salvação (Rm 16,25; Ef 3,9; Cl 1,26). Ao proclamar  Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir, na sinagoga de Cafarnaum, Jesus une o Antigo Testamento (cf. Isaías 61,1ss) ao Novo (cf. Lucas 4,18-19), sem delimitar nem povo nem tempo. Assim, o Ano Santo é ocasião propícia para tomarmos consciência do Ano da Graça, e viver na alegria da misericórdia sempre oferecida a cada um de nós.

Gostaria de propor breve reflexão, confrontando o ato da criação com o ato da redenção: o homem e a mulher foram criados à imagem de Deus e segundo a sua semelhança (Gn 1,26). Nós somos à imagem e semelhança de Deus, e Deus é à nossa imagem e semelhança. A primeira semelhança se refere ao ato da criação e a segunda, ao ato da encarnação. É bastante difícil aceitarmos que o Deus encarnado seja à nossa imagem e semelhança, parecendo-nos uma afirmação blasfema ou jogo literário. Na realidade, o dogma cristão inclui essa verdade quando afirma que o Filho eterno se encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria e se fez homem, homem-Deus, igual a nós em tudo, exceto no pecado.

Em Cristo, Deus assume a condição humana, e nós recuperamos a semelhança divina. Deus vivencia os sentimentos humanos e, ao mesmo tempo, oferece-nos a graça de vivermos os sentimentos divinos: “haja entre vós o mesmo sentir e pensar que no Cristo Jesus” (Fl 2, 5). É o caminho da humanização divina e da divinização humana realizada de modo exemplar em Maria: quando o Verbo se fez carne o ventre de Nossa Senhora foi divinizado pela habitação, nele, da Trindade e a carne humana e a natureza divina foram unidas. Na Encarnação, o ventre de Maria é o Sacrário onde acontece a história da salvação.

Essa comunhão-comunicação dá-se no amor: ‘Sede misericordiosos como o Pai’ (cfr. Lc 6, 36), lema do Jubileu da Misericórdia: o Pai é o Misericordioso e nós recebemos o mandamento de vivermos a mesma misericórdia que Jesus revela nas parábolas da ovelha perdida e encontrada, da dracma perdida e encontrada, do filho perdido e encontrado (Lc 15), narrando quem é e como age o Pai. Com sua vida humano-divina, Cristo é o narrador do Pai que quer encontrar a humanidade plenificada em seu amor.

Mais do que pensarmos em indulgência, porta santa, o Jubileu nos propõe conhecermos nosso Deus, pois, antes de tudo o Jubileu é uma questão de Deus: dar a Deus o que é de Deus, e corrigir as distorções da imagem divina que nos foram transmitidas na educação religiosa e familiar.

O desafio é grande no Ocidente secularizado: reabrir, em termos existenciais, a questão de Deus, quem é Deus, seu rosto, num mundo que age como se Deus não existisse, e isso porque não reconhece mais aquele que é o Misericordioso. A secularização priva-nos da paternidade divina, nos abandona na aridez de uma vida sem espiritualidade que também nos deixa sem o calor da fraternidade, pois são irmãos os que possuem o mesmo pai, o Pai. Também a fé cristã se deforma na influência dessa secularização quando insiste na ética, na organização pastoral, na produtividade, atividades tão amadas em nosso tempo, mas que nos privam da alegria do improviso da graça, da inesperada ação divina. Deixamos de ser pastores para sermos agentes de pastoral. Deixamos de procurar e encontrar a ovelha, a dracma, o filho.

A Misericórdia se expressa no Encontro de Deus conosco, e se propaga noutro Encontro: com todos aqueles que vivem nas periferias existenciais. Misericórdia e Encontro são categorias fundamentais na antropologia de Papa Bergoglio e definem a ação pastoral e missionária da Igreja.

A misericórdia escandalosa de Deus

Há imensa dignidade em cada um de nós, sem nenhum merecimento: somos o centro aonde converge o amor divino e recebemos o dom inestimável de poder amar, de sermos divinos pelo ato de amar.

Deus é amor, o amor é divino: nós somos feitos à imagem e semelhança de Deus e recuperamos nossa semelhança pela conversão ao amor. E isso não é pesado, não é um mandamento duro: somos amados primeiro. Nosso amor é somente resposta. “O Senhor não olha tanto a grandeza das nossas obras. Olha mais o amor com que são feitas” (Santa Teresa d’Ávila).

Por diversas vezes, Francisco tem-se referido ao capuchinho Frei Luiz Dli, apreciado confessor em Buenos Aires. Escrupuloso, quando receia ter sido excessivamente indulgente com o pecador, põe-se diante do sacrário e diz: “Jesus, perdoa-me porque perdoei demais. Mas, foste tu quem deu o mau exemplo!”. Frei Luiz reconhece que alguns pecadores deveriam primeiro receber uma boa penitência, e depois a absolvição. Reconhece, contudo, que a misericórdia do Senhor é escandalosa mesmo, ilimitada. Dele provém o perdão sem condições, prazos, admoestações, também porque o confessionário não é uma “câmara de tortura”,  nas palavras de Francisco, mas um “hospital de campanha” onde são tratadas as vítimas da guerra decretada pelo mal: se fizermos muita exigência, acabarão morrendo. Recordo aqui o Cura d’Ars que, diante de penitentes mais graves, declarava que ele mesmo faria a penitência. Nossa penitência é aceitar o amor!

“A misericórdia é algo de escandaloso e até loucura”, escreveu Enzo Bianchi, prior da comunidade monástica de Bose, em 15 de maio de 2016 (cf. Enzo Bianchi: L’amore scandaloso di Dio – San Paolo – 2016).

Nas suas palavras, nem os homens religiosos entenderam de verdade a misericórdia de Deus. Na história da Igreja, a misericórdia foi interpretada exatamente ao contrário do que Jesus pôs em prática, e citamos como exemplo sua atitude diante da mulher adúltera que os escribas e fariseus queriam apedrejar, a quem Jesus primeiro perdoa e depois pede a conversão. E podemos contemplar ainda mais claramente o grande mistério deste amor dirigindo o olhar para Jesus crucificado. Enquanto, inocente, está para morrer por nós, pecadores, suplica ao Pai: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34). É na cruz que o pobrezinho Jesus, todo ferido pela violência, apresenta à misericórdia do Pai o pecado do mundo: e o pecado de todos, os meus, os teus, os nossos foram perdoados com antecedência.

A misericórdia é algo de escandaloso, e até loucura na lógica humana, repito. Sentido paradoxal da misericórdia: não é o arrependimento que cria o perdão, “mas o perdão que nos é dado provoca o arrependimento”. O perdão instaura o cenário do arrependimento e permite ao homem de recomeçar.

Para entendermos de verdade o sentido do perdão, devemos ir à Escritura e ler a afirmação revolucionária do profeta Oséias, que coloca na boca de Deus: “Eu quero misericórdia e não sacrifícios, o conhecimento de Deus mais do que holocaustos” (Os 6,6), e o próprio Filho de Deus declara: Quero misericórdia e não sacrifícios (Mt 9,13). É radicalmente novo colocar juntos misericórdia e conhecimento de Deus. Significa que podemos conhecer a Deus somente numa experiência passiva de misericórdia, de amor e de reconciliação. Caso contrário, Deus se torna um ídolo que fabricamos sob medida, o produto de nossas projeções autoritárias que fazem ameaçar com castigos o pobre pecador já fragilizado. O inferno, para o homem, para cada um de nós, é não sermos perdoados por ninguém.

A evolução do rito penitencial, com a imposição de largas e longas penitências antes de proclamar o perdão foi uma das causas da exigência de sacrifícios para ser declarado perdoado, mas isso foi causado pelo distanciamento da prática de Jesus, que veio para os pecadores e não para os justos: a inversão levou à convicção de que somente se participaria da comunhão eclesial após pagar pelos pecados, levando a crer que Jesus veio para os justos (cf. Mt 5,23).

Na verdade, o sacrifício de Jesus na cruz liberta o homem do sacrifício, afirma Bianchi. O Cristianismo inclui uma concepção antissacrifical: Jesus é uma possibilidade de libertação do sacrifício, da abnegação, da mortificação. Jesus liberta a lei da própria lei, com ele termina a concepção patibular, retributiva e justicialista da lei. A justiça de Deus que Jesus encarna implica a exceção, a possibilidade do perdão = a misericórdia.

O filho pródigo - Murillo

O filho pródigo – Murillo

Pode-se ver isso na história da adúltera ou do filho pródigo (Jo 8,1-11; Lc 15,11-32): o filho não retorna à casa porque estivesse arrependido, mas porque tinha fome, tanto que pede para ser tratado como um dos empregados. Mas, o pai não pede explicações, logo o veste e prepara a festa. O perdão do pai precede o arrependimento do filho. Este é o escândalo. A adúltera se refugia junto a Jesus para não ser apedrejada, e recebe o perdão sem pedir, e depois o convite à mudança de vida.

Escreve Enzo Bianchi: “o sacrifício é comum a todas as religiões e chega a gerar violência. Se o sacrifício é mortificação, não tem nada a fazer com a vida cristã. Se, ao contrário, é renunciar a algo pelo outro, então todos os dias fazemos sacrifícios”. A espiritualidade cristã oferece a unidade jejum-esmola-oração para nos libertar do sacrifício pelo sacrifício, fazendo com que o não consumido pelo jejum seja esmola para o próximo. Assim, o sacrifício cristão supõe uma privação pessoal de tempo, dinheiro e alimento doados ao pobre e ao doente. Evidente que não se deve confundir o sacrifício voluntário com os sacrifícios que nascem de nossa condição de fragilidade, como doenças e privações de coisas e pessoas.

“O sacrifício torna-se patológico quando gera um prazer no sujeito e se torna critério de superioridade moral em confronto com os outros: eu jejuo, eu me mortifico, eu faço penitência. Esse é o risco sempre presente na psicologia do homem religioso. Jesus Cristo morre na Cruz e completa o último, grande sacrifício que definitivamente liberta o homem do sacrifício” (Recalcati, psicanalista italiano). 

A reconciliação ou, Deus oferece o perdão

 Deus nunca deixou de oferecer o seu perdão aos homens: a sua misericórdia faz-se sentir de geração em geração (cf. Sl 100,5; 106). Muitas vezes pensamos que os nossos pecados afastam o Senhor de nós: na realidade, pecando, somos nós que nos afastamos dele que, ao ver-nos em perigo, vem-nos procurar ainda mais, como um bom pastor que não se contenta enquanto não encontra a ovelha perdida (cf. Lc 15,4-6). Ele reconstrói a ponte que nos une ao Pai e permite reencontrar a dignidade de filhos. Mas, por que é possível que nos escondamos do Senhor, a ponto dele precisar nos procurar?  Adão, onde estás?, uma pergunta tão atual! A resposta reside no ato criador de Deus, quando nos fez à sua imagem e semelhança. Ser à imagem e semelhança inclui, por analogia, a própria condição divina com a posse da liberdade: o pecado não nos privou da imagem divina e o mistério da salvação é recuperarmos a semelhança com Deus, segundo a doutrina de Irineu de Lyon (cf. Adversus Haereses), fonte da soteriologia patrística.

O pecado é deveras uma expressão de recusa do amor divino e tem como consequência nos fecharmos em nós mesmos, na ilusão de que encontramos mais liberdade e autonomia, conforme a tentação original, mas, longe de Deus, já não temos uma meta, e de peregrinos neste mundo tornamo-nos “errantes”.

“Reconciliai-vos com Deus!” (2Cor 5, 20): aceitemos o convite a deixar-nos reconciliar com Deus, para nos tornarmos novas criaturas e poder irradiar sua misericórdia entre os irmãos, no meio do povo.

Não necessitamos ficar abismados pelos santos que deram a vida pelo próximo, pelos jovens que se consagram à missão, por aqueles que empenham toda a vida no serviço ao próximo, à família: sentem-se amados e não conseguem se fechar em si, também se dilatam no amor.

Tudo se faz amor quando meditamos no amor pessoal de Deus por cada um de nós: “Tu és Trindade criadora e eu sou tua criatura. Tu estás enamorado de tua criatura”, declarava, cheia de encanto e maravilha, Santa Catarina de Siena (1347-1380). Ela, a analfabeta doutora da Igreja, sentia a paixão divina por ela, caso contrário, não a procuraria sem lhe dar sossego. É essa, igualmente, nossa história: Deus se enamora de nós, a cada dia com mais intensidade. Nunca esqueçamos: Jesus se deixa “contaminar” pelos pecadores, ele se contamina pelos nossos pecados.

O Evangelho é a boa nova da Misericórdia, e não o anúncio da lei esterilizante que sucumbe à tentação de nos julgarmos avalistas do amor de Deus. É o Evangelho da misericórdia que transforma, que faz entrar no coração de Deus, que nos torna capazes de perdoar e olhar para o mundo com mais bondade.

E qual é a resposta única que Deus nos pede? Papa Francisco nô-la oferece meditando a parábola do homem rico e do pobre Lázaro (Lc 16, 19-31): “Ignorar o pobre é desprezar Deus porque, se não abro a porta de meu coração ao pobre, ela permanece fechada também para Deus, e isso é terrível”. Quantas vezes disfarçamos nosso olhar e passos para darmos a impressão de que não vemos o pobre, que ele não existe: a misericórdia de Deus por nós está ligada à nossa misericórdia pelo próximo.

Pe. José Artulino Besen

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PADRE JOSÉ EDGARD DE OLIVEIRA – 1929-2016

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Padre José Edgard De Oliveira – 1929-2016

Padre José Edgard de Oliveira nasceu no bairro Cardoso, em São João Batista, pequena cidade catarinense no vale do rio Tijucas, em 31 de dezembro de 1929. Seus pais eram católicos fervorosos, Francisco Joaquim Leonardo de Oliveira e Nila Soares Pereira de Oliveira. O pai dirigia o culto dominical na capela do bairro, puxando o terço do rosário. Isso é o bastante para se dizer que os filhos beberam na mesma fonte religiosa.

Em 1943, o jovem José Edgard, depois sempre conhecido por Edgard, manifestou o desejo de ir para o Seminário para ser padre. Saiu de sua casa para o seminário de Pinheiral, instituição dos padres jesuítas que atendiam à paróquia de Nova Trento. Terminando o estudo preliminar, a família preferiu que fosse matriculado no Seminário Nossa de Lourdes, em Azambuja, onde já se encontravam colegas seus.

Pode-se dizer que a grande característica que o marcou por toda a vida foi a alegria espontânea, a peraltice, a capacidade de fazer amigos e “aprontar” surpresas que animavam os colegas. Um artista nato. Era inteligente para os estudos, especialmente para a língua portuguesa e a declamação.

Os primeiros anos em Azambuja coincidiram com a Guerra mundial (1939-1945) e a prevenção contra o comunismo ateu. Esse medo estava ligado à contínua oração contra o perigo vermelho, que os seminaristas temiam estar planejando a invasão do Seminário de Azambuja. Pe. Edgard gostava de lembrar a noite em que uma coruja entrou com barulho no dormitório e algum seminarista gritou “os comunistas!”. Foi o que bastou para se instalar um clima de pavor, a maioria fugindo para o pátio e rezando. Comoveu a todos o Raul de Souza (Pe.) ajoelhado e gritando: “Meu Deus, ofereço a minha vida pela conversão da Rússia!”. Outros mais se ofereceram pela salvação das almas, mas ficaram felizes ao descobrirem que tudo foi causado por uma desgovernada coruja. (Continue lendo…)

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A FELICIDADE NASCE DE DENTRO DE NÓS

 

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Ó Deus, vós me tecestes no seio de minha mãe (Sl 138,13).

O Pe. John Powell SJ, no seu livro “Felicidade: um trabalho interior”, conta que determinada pessoa encontrou uma solução prática para não ficar reclamando dos outros. Colocou no espelho de seu banheiro um cartaz com a frase: “Você está vendo a pessoa responsável pela sua felicidade”. Deste modo, cada vez que se dirigia ao banheiro sentia com clareza o impacto da frase: somente ele era o responsável pela sua felicidade!

Deus nos criou para sermos felizes. Tudo o que fazemos tem este objetivo: alcançar a felicidade. Se alguém não aspirasse mais a ser feliz, estaria doente, seria um caso clínico. Nada mais desanimadora do que uma pessoa que se conformasse em viver triste, sem ânimo, conformada com o própria derrota.

Por outro lado, a experiência nos demonstra que muita gente não é feliz, luta para sê-lo, mas não consegue. A causa maior disso é que espera que a felicidade venha dos outros, venha das coisas. Coloca a felicidade como algo que, de fora, corra ao seu encontro. A esposa aguarda que o marido a faça feliz. O namorado acha que a amada vai tirar dele a infelicidade. Os pais nutrem a esperança de que os filhos os farão felizes. O jovem pensa que o amigo vai fazê-lo feliz. E isto não acontecerá, pois a felicidade brota de dentro de nós.

Ninguém pode nos fazer felizes, porque nós somos responsáveis pela nossa felicidade! Por respeitar nossa maturidade pessoal, nossa liberdade de escolha, Deus também não nos faz felizes. O resto, é ilusão: buscamos a felicidade no dinheiro, no luxo, na beleza física, na fama, no sexo, na festa, na droga, e vamos querendo sempre mais, porque a infelicidade continua a ser nossa companheira.

Duas inimigas – competição e comparação

Há ainda duas outras atitudes que impedem deixar a felicidade brotar de dentro de nós: a competição e a comparação.

Achamos que o outro é feliz porque faz as coisas melhor do que nós, é sempre vitorioso, ganha mais, é o tal. Passamos então a competir para ser como ele, melhor do que ele. E assim continuamos, de competição em competição, e a frustração continua conosco.

Ou então, passamos a nos diminuir, a pensar mal de nós: ficamos nos comparando com os outros. Surge a inveja: gostaríamos de ter um nariz como o outro, os olhos da cor dos olhos de nossa amiga, nos achamos baixinhos diante de quem é alto, quereríamos ter a inteligência de nosso colega, achamos nossa voz sem graça porque a do outro é que é bonita, nossa casa seria melhor se fosse como a do vizinho. Numa palavra, pensamos mal de nós e de nossas coisas e vamos sendo roídos pela inveja. E somos infelizes.

Estamos perdendo tempo e pensando mal de Deus. Afinal, nenhum de nós foi mal feito, nenhum de nós foi jogado no mundo com a incapacidade de se realizar. Cada um possui tudo o que é necessário para ser feliz: Deus nos fez de um modo maravilhoso, mas bem diferentes uns dos outros. Quem tem fé exclama, feliz, como o salmista: “Sede bendito, ó Deus, por me terdes feito de um modo tão maravilhoso” (Sl 138,14).

Então, para que competir, para que ter inveja? Ninguém é incompleto. Basta que nos contemplemos com amor, com otimismo, desenvolvamos a estima pessoal. Para que machucar nossos sentimentos comparando-nos com os outros?

Depois, com certeza, sentiremos a felicidade transbordar de dentro do nosso coração. A receita é simples: se eu não me amo, não me valorizo, quem me amará, quem me valorizará?

Pe. José Artulino Besen

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ANO SANTO DA MISERICÓRDIA – ENXUGAR AS LÁGRIMAS

 

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Criança salva nos escombros de bombardeio em Aleppo – 28-04-2016

Dentro do Ano Santo da Misericórdia, Francisco preside no dia 5 se maio, quinta-feira, uma Vigília de oração para enxugar as lágrimas dos que sofrem. A imensa Basílica de São Pedro no Vaticano será casa de misericórdia, casa de compaixão, seu magnífico espaço não será olhado pela beleza da arte, da arquitetura, mas pela beleza de corações que choram, que derramam lágrimas tanto por si quanto pelos outros que padecem de dor física ou espiritual.

Consolar os aflitos é uma das sete obras da misericórdia espiritual, que leva-nos a enxugar os rostos regados pelas lágrimas de sofrimento e oferecer consolação e esperança.

Ao anunciar essa Vigília com a presença do Papa, a Rádio Vaticana assim descreveu a finalidade: “um anúncio visível da misericordiosa mão do Pai que busca enxugar as lágrimas: de uma mãe que perdeu um filho, de um filho que perdeu o pai, dos que padecem enfermidades, dos que perderam o emprego ou não o encontram, dos que vivem situações de desunião familiar, dos que fazem experiência da solidão e do abandono, dos que são vítimas da injustiça, daqueles que perderam o sentido da própria vida e não conseguem encontrá-lo. São numerosos e de toda espécie os sofrimentos que cada um carrega dentro de si, todos verdadeiros e que podem nos conduzir à falta de esperança e de confiança”.

O dia de enxugar as lágrimas será o Jubileu daquele que chora lágrimas de dor ou de felicidade, de desespero ou de emoção por um acontecimento inesperado. Francisco não faz diferença quanto à origem do choro, desde que nasça do coração.

A Igreja e, nela, cada um de nós deve aprender a consolar os aflitos e abrir a Porta Santa para todos aqueles que sabem chorar. Sem citá-lo, o Papa se refere ao “dom das lágrimas”, dom concedido pelo Espírito Santo e que nos faz chorar nos momentos pessoais de escuridão ou de claridade. Pergunta Francisco: “Sentimos o valor das lágrimas que lavam nossos olhos para contemplar, ver o Senhor? […] É uma graça. Chorar por tudo: pelo bem, por nossos pecados, pelas graças, também pela alegria”.

Tanto as lágrimas de alegria como as de dor nascem do mesmo ventre do amor: “são filhas de um coração que deseja e espera sempre o bem daquele a quem se ama. As mamães o sabem muito bem. Se uma mãe chora, é quase sempre por causa de seus filhos. São lágrimas inquietas, fruto do amor profundo que nutrem por seus filhos”.

As lágrimas são fruto de corações misericordiosos, e somente desses corações. A frieza de um comerciante de armas resseca seus olhos, a ânsia pelo poder não permite as lágrimas. A frieza dos fanáticos religiosos ou políticos que fazem guerra tornam-nas mais abundantes nas famílias destruídas, nas crianças que vagueiam sem escola, sem infância, nos jovens privados de sonhar o próprio futuro, nos anciãos desamparados de quem se roubou até o passado.

A justiça divina vai nos julgar não por nossas obras, por nosso sucesso, e sim, pelas lágrimas que enxugamos no sofredor, pelas lágrimas que soubemos derramar. A balança do julgamento pesará as lágrimas e gemidos que decidirão nossa eternidade.

Deus é solidário com nossas dores e alegrias

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Nossa Senhora das Lágrimas de Siracusa – foto da lacrimação de 29-08-1953

Nosso Deus chora por nós e conosco: o Filho Jesus chorou pela morte do amigo Lázaro e pelo sofrimento de suas irmãs Marta e Maria. Seremos também surpreendidos pelas lágrimas de Deus Pai, pois também ele chora: “Se não quiserdes obedecer, em segredo minha alma vai chorar: por causa do orgulho, estarão meus olhos chorando sem parar, derramando lágrimas” (Jeremias 13, 17). Quanta ternura contemplamos em nosso Abbá-Pai num cantinho, chorando, de esguelha olhando para nós, esperando que nos decidamos por ele!

“Contaste os passos da minha caminhada errante, minhas lágrimas recolhes no teu odre; acaso não estão escritas no teu livro?” (Salmo 56, 9). Nada justifica a omissão, nem o mais empenhativo compromisso religioso: “Quando estiveres extasiado junto de Deus, se um doente te pedir uma tigela de caldo, desce do sétimo céu e dá-lhe o que pede” (Ruysbroeck). Nada está acima da misericórdia, nada é mais importante do que enxugar lágrimas.

Não podemos ficar indiferentes diante das tragédias de nossa época, como o sofrimento dos migrantes, a dor de quem é escravizado para o serviço da riqueza ou do prazer dos poderosos, do desemprego que humilha, não permitamos nossos ouvidos tratarem as mortes no trânsito, nos bombardeios apenas como problemas estatísticos, porque a morte de uma pessoa já é excessiva.

Para a Vigília na Basílica de São Pedro, o Papa decidiu trazer e expor uma pequena imagem, Nossa Senhora das Lágrimas. Em 29 de agosto de 1953, em Siracusa um jovem casal corria o risco de interrupção da gravidez. A futura mãe chorava desconsolada quando levou um susto e gritou: “Olhem que a imagem chora!”. E era verdade: lágrimas escorriam pela face da imagem mariana e a lacrimação se prolongou por 4 dias aos olhos de todos, de devotos ou curiosos, de médicos, fotógrafos, filmadores. A ciência não conseguiu explicar o fenômeno, pois era inexplicável mas, quem enxuga lágrimas logo compreende: a Mãe de Jesus tem diante de seus olhos o Filho crucificado pelo qual chorou dolorosamente e sempre chora ao ver o sofrimento daqueles de quem ele falou: “Mulher, eis aí teu filho”.

Pe. José Artulino Besen

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DE LAMPEDUSA A LESBOS, MERGULHO NO SOFRIMENTO

Jovem refugiada em Lesbos - 2016

Jovem refugiada em Lesbos – 2016

Em julho de 2013, Papa Francisco visitou Lampedusa, pequena ilha mediterrânea localizada abaixo da Sicília, sendo o ponto geográfico italiano mais próximo da África. Ali são despejados os migrantes norte-africanos, ali perto chegam os corpos de tantos refugiados cujo transporte naufragou. Lampedusa é um lugar-testemunho da violência e da miséria humanas provocadas pela história econômica de nossa época, colocando em confronto a África explorada e a opulenta Europa.

Francisco fez dessa sua primeira viagem fora de Roma o símbolo indicativo de sua preocupação pastoral. Tanto escolhia o pobre como centro da ação cristã como mostrava ao mundo a incoerência de esconder no silêncio o grito de centenas de milhares de homens, mulheres, jovens e crianças fugitivos da miséria e da guerra que sufocam a vida nos países da África e do Oriente médio.

No dia 16 de abril de 2016, mais uma viagem simbólica de Francisco: a Lesbos, ilha grega que, como Lampedusa, funciona como depósito de migrantes e cemitério de esperanças. Viagem breve, com estadia de cinco horas, mas carregada de simbolismo: fez-se acompanhar dos ortodoxos Bartolomeus, Patriarca de Constantinopla e Hieronymos, arcebispo de Atenas. Além do ecumenismo de sangue, fundou o ecumenismo da caridade cristã indo ao encontro dos sofredores do mundo, dentre eles um significativo número de muçulmanos. O sangue da violência do martírio se une ao sangue da pobreza gerada pelas guerras sem fim (a guerra mundial em pedaços, definiu) filhas dos poderosos interesses do comércio internacional de armas, cujos interesses não levam em conta o inenarrável sofrimento dos povos.

O Papa Francisco visitou o campo de refugiados de Mória, na ilha de Lesbos, que acolhe cerca de 2.500 pessoas, refugiados excluídos da rica Europa e ali depositados enquanto esperam a devolução aos países de onde fugiram, segundo determinação legal dos países da comunidade européia. O Papa foi recebido ao som dos gritos de ‘freedom, freedom’ (liberdade, liberdade).

“Quero dizer-vos que não estais sozinhos”, declarou, depois de ter passado vários minutos a cumprimentar refugiados, muitos deles menores, de países como a Síria, Iraque, Iro, Paquistão ou Afeganistão, entre eles muçulmanos, yazidis e cristãos.

Acompanhado por um intérprete, conversou com várias das famílias presentes e recebeu desenhos de crianças como presente, prometendo guardá-los em sua mesa de trabalho. Era de cortar o coração homens e mulheres narrando suas histórias trágicas e caindo aos prantos. Testemunhavam plasticamente a maior tragédia humana desde a segunda grande Guerra.

Francisco tinha consciência do que o aguardava: “Esta é uma viagem um pouco diferente das outras, é marcada pela tristeza”, confessou aos jornalistas que o acompanharam desde Roma, no voo que aterrou em Mitilene, capital de Lesbos. Falou de um “cemitério no mar”, onde muitas pessoas se afogaram: “Vamos ver tanta gente que sofre, que é obrigada a fugir e não sabe para onde ir”.

O Papa foi acolhido em Lesbos pelo arcebispo ortodoxo de Atenas, Hieronymos II, pelo patriarca ecumênico de Constantinopla, Bartolomeus I, e pelo primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tsipras. Após a cerimônia oficial de boas-vindas, Francisco e Tsipras encontraram-se em privado, tendo o chefe do governo grego sublinhado o “peso” que a crise dos refugiados tem representado para o país. O Papa, por sua vez, explicou que a viagem visava “agradecer ao povo grego pela sua generosidade”, que tem sido oferecida “corajosamente”, mesmo em meio à crise econômica que vive, lembrando que a Grécia, estava oferecendo “exemplo de humanidade”.

Memória, oração e caridade

A visita humanitária e ecumênica a Lesbos, como foi definida pelo Vaticano, incluiu uma visita ao campo de refugiados de Mória e uma homenagem aos migrantes que morreram no mar, quando os três bispos lançaram ao mar coroas de louro, precedidas de oração de cada um, de que transcrevemos parte.

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Homenagem aos mortos no Mar Egeu.

FRANCISCO

Deus de misericórdia,
pedimo-vos por todos os homens, mulheres e crianças,
que morreram depois de ter deixado as suas terras
à procura duma vida melhor.

Embora muitos dos seus túmulos não tenham nome,
cada um é conhecido, amado e querido por Vós.
Que nunca sejam esquecidos por nós, mas possamos honrar
o seu sacrifício mais com as obras do que com as palavras.

Confiamo-vos todos aqueles que realizaram esta viagem,
suportando medos, incertezas e humilhações,
para chegar a um lugar seguro e esperançoso.

Como Vós não abandonastes o vosso Filho
quando foi levado para um lugar seguro por Maria e José,
assim agora mantende-vos perto destes vossos filhos e filhas
através da nossa ternura e proteção. (…).

Ajudai-nos a partilhar com eles as bênçãos
que recebemos das vossas mãos
e a reconhecer que juntos, como uma única família humana,
somos todos migrantes, viajantes de esperança rumo a Vós,
que sois a nossa verdadeira casa,
onde todas as lágrimas serão enxugadas,
onde estaremos na paz, seguros no vosso abraço
.

BARTOLOMEU I

Senhor de misericórdia, de compaixão e de toda consolação, te pedimos pelos nossos irmãos que vivem em situações difíceis e nos voltamos para a tua Bondade: nutre os recém-nascidos; instrui os jovens; aumenta as forças dos anciãos; infunde coragem nos fracos; reúne os que estão divididos; navega junto com os navegantes; viaja com os viajantes; defende as viúvas; protege os órfãos; liberta os prisioneiros; cura os enfermos.

Recorda-te, Senhor, dos que trabalham nas minas, estão exilados, exercem um trabalho pesado, todos aqueles que vivem todo tipo de aflição, de necessidade, de perigo; e de todos aqueles que imploram a tua amorosa bondade; de todos aqueles que nos amam e daqueles que nos odeiam; infunde em todos a tua infinita misericórdia, atendendo às suas invocações para obter salvação.

HIERONYMOS II

HOMENAGEM AOS MIGRANTES MORTOS NO MAR

HOMENAGEM AOS MIGRANTES MORTOS NO MAR

Ó Deus de todo espírito e de toda carne, que venceste a morte destruindo o poder do demônio, dando vida ao cosmo, às almas dos teus servos que partiram desta vida. Tu, Senhor, dá-lhes repouso num lugar de luz, num lugar de verdes pastagens, num lugar de descanso, do qual desapareceram a dor, a tristeza e o luto. Tu, nosso Deus bom e amoroso, perdoa todo pecado cometido por eles em pensamento, palavras e obras, pois não existe homem algum que possa viver sem pecar, porque somente Tu és sem pecado: a tua justiça e a tua lei é verdade.

Ao final da viagem, os líderes religiosos assinaram empenhativa DECLARAÇÃO CONJUNTA, reportando o drama da migração e o desafio que oferece às Igrejas e aos governos envolvidos, e que assim inicia:

Nós, Papa Francisco, Patriarca Ecumênico Bartolomeu e Arcebispo Hieronymos de Atenas e de toda a Grécia, reunimo-nos na Ilha grega de Lesbos para manifestar a nossa profunda preocupação pela situação trágica de numerosos refugiados, migrantes e requerentes asilo que têm chegado à Europa fugindo de situações de conflito e, em muitos casos, de ameaças diárias à sua sobrevivência. A opinião mundial não pode ignorar a crise humanitária colossal, criada pelo incremento de violência e conflitos armados, a perseguição e deslocamento de minorias religiosas e étnicas e o desenraizamento de famílias dos seus lares, violando a sua dignidade humana, os seus direitos humanos fundamentais e liberdades.

A tragédia da migração e deslocamento forçados afeta milhões de pessoas e é, fundamentalmente, uma crise da humanidade, clamando por uma resposta feita de solidariedade, compaixão, generosidade e um compromisso econômico imediato e prático. (…)

No momento da despedida, um emocionado Francisco expressou sua gratidão com essas palavras: A vós, eu digo obrigado, porque sois guardiões da humanidade, porque cuidais ternamente da carne de Cristo, que sofre no menor dos irmãos, faminto e forasteiro, que acolhestes (cf. Mt 25, 35).

No mesmo avião de retorno, o Papa levou consigo 12 pessoas de três famílias muçulmanas, que foram assumidas pelo Vaticano e acolhidas na Comunidade Santo Egídio. A velha Europa, pátria dos direitos humanos, é desafiada a acolher os pobres do mundo e a repartir do muito que recebeu desses mesmos povos deserdados da vida que chegam a suas fronteiras.

Pe. José Artulino Besen

 

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A BICICLETA, QUANTO MAIS ENFEITADA, MAIS PESADA

 

bicicleta

Olhai as aves do céu:
não semeiam nem ceifam, nem recolhem nos celeiros
e vosso Pai celeste as alimenta (Mt 6,25-34).

É uma história verdadeira, acontecida nas margens do rio São Francisco, e que ensina uma verdade muito simples, como simples é toda verdade.

Pessoa de certas posses e competência, pescava no Velho Chico. Prevenido, levava caixa de isopor onde depositava os surubins e dourados. Um pobre sertanejo aproximou-se e pediu-lhe o favor de emprestar o anzol por uns minutos. Pouco depois, segurando um belo peixe, veio devolver o anzol. O homem previdente, assustado, perguntou: “Vai pescar só um? Não acha bom aproveitar que está vindo bastante peixe?” “Para hoje basta esse, doutor. Amanhã Deus dá outro”, respondeu com simplicidade. E contente, foi para casa.

São dois modos distintos de se viver: no primeiro caso, garantir reservas de segurança, pensar no dia de amanhã; no outro, viver bem cada dia, deixando para cada tempo a sua preocupação. São estilos de vida, cada um com seu valor. Quem gosta de garantir o dia seguinte, pode acabar não vivendo sossegado, pois nunca achará que tem o suficiente. Quem pensa apenas no dia de hoje, poderá ser surpreendido com alguma doença, algum imprevisto, mas aproveita a vida. O caminho justo seria o meio termo: não pensar somente no amanhã, esquecendo-se do dia de hoje, nem pensar somente no dia de hoje, esquecendo-se do dia seguinte. Na verdade, o que temos garantido para viver é o dia de hoje, o tempo presente.

O ideal de vida cristã, proposto por Jesus, é o da simplicidade, do desapego. O Evangelho conta que ele e os Apóstolos tinham uma bolsa com economias (Jo 13,29), da qual Judas acabava roubando, mas dá a entender que viviam livre e alegremente, sem a preocupação de acumular reservas. Eram economias para as suas despesas e para ajudar os pobres. Jesus condena com força aqueles que vivem guardando para o dia de amanhã, para o futuro, fazendo do “amontoar riquezas” um projeto de vida, dele excluindo o necessitado que lhe bate à porta. Muitas vezes esta mentalidade sacrifica a pessoa, a família e, especialmente, os pobres. Vão guardando, guardando, sempre economizando, amontoando e, quando menos esperam, morrem. Não viveram: se preveniram para num dia viver, e este dia acabou não chegando.

A liberdade reside na simplicidade

O dinheiro é um “deus” muito exigente: nunca diz “basta!”, mas sempre “é pouco”. Quem é dominado por ele, se tem uma casa, quer duas; tem um carro, precisa de dois; tem duas TVs, falta outra, ganhou um milhão, estão faltando dois, e assim por diante, criando necessidades que nunca são satisfeitas, pois supõem também o último modelo. A casa vai-se enchendo, a despensa é pequena, os armários parecem vazios, o tempo é curto. Numa palavra, a pessoa não domina mais seus bens, é dominado por eles. O dinheiro que deveria estar a serviço da família, torna-se patrão do lar.

Quando vamos acumulando sem limites, sem sabedoria, terminamos por assumir uma carga muito pesada, que nos impede de viver com liberdade, simplicidade, partilhando alegrias com amigos e vizinhos. Corremos até o perigo de usar os outros para aumentar nossa riqueza, ficamos com dificuldades de ter amigos (“eles dão muita despesa”), passamos a ter raiva de pobre (“é tudo malandro, vão trabalhar como eu”), não descansamos mais (“tempo é dinheiro”), uma verdadeira escravidão.

De tanto querermos garantir uma vida tranquila, perdemos a tranquilidade da vida, a carga fica muito grande, a vida pesada.

Numa homilia sobre o consumismo e a acumulação, Dom Gregório Warmeling, bispo de Joinville e de linguagem criativa, falou: “A bicicleta, quando mais enfeitada, mais pesada”. Bicicleta com muito enfeite acaba pesando e cansando na corrida. O dono gosta de enfeitá-la, mas sabe que ficará mais pesada. Quem usa bicicleta para competir em corridas procura uma de material leve e apenas com as peças necessárias, pois o que importa é a leveza e a velocidade, e não a visão dos enfeites.

Existem residências com tanto enfeite, peças de decoração, que circular por eles é  desconfortável, sendo as crianças as primeiras vítimas do “cuidado para não quebrar”.

Assim também nossa vida: se a enchemos com muita coisa, muito luxo, supérfluo, fica difícil de ser vivida. Quanto mais simplicidade, mais alegria, liberdade. Teremos mais tempo para nós e para os outros.

Encanta-nos, sempre, a natureza: tudo tão bonito, equilibrado, na medida do belo, que é o simples, imagem da perfeição.

Pe. José Artulino Besen

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