QUARESMA – PRIMAVERA DO ESPÍRITO

O fim do inverno oferece um retrato amortecido da natureza, poucas cores, pouca vida. Já a primavera nos surpreende com a natureza viva, alegre, os troncos quase secos brotando. Pouco a pouco as flores se abrem revelando segredos escondidos no inverno. Insetos, aves, carregam o pólen que fecunda as flores. Tudo revela a força e a beleza da vida.

Assim podemos comparar a Quaresma: as rotinas, o amortecimento espiritual, os resíduos do pecado cedem lugar à primavera. O jejum, a esmola e a oração despertam o espírito, fazem a vida brotar e sentimos o crescimento da felicidade, a vida de fé fortalecida pela vitória sobre as tentações. Vamos crescendo até a explosão do Aleluia da Páscoa.

Gostaria de oferecer a você, leitor, três pequenas reflexões, cujo conteúdo é oferecido pelo papa Francisco em suas homilias matinais na Casa Santa Marta. Propõe gestos muito simples, mas importantes. Nossa vida é construída sobre o fundamento da humildade, do silêncio, da oração silenciosa, de encontros simples com pessoas simples. Tudo na mansidão e na humildade.

Com todos, ser o bom pastor             

Dentro e fora da Igreja há comentaristas julgando que Francisco esteja facilitando a vida dos casados e dos recasados mas, na verdade, ele quer matrimônios mais bem preparados, leigos mais conscientes de que o sacramento é símbolo da união de Cristo com sua Igreja. Uma visão intransigente da vida matrimonial terminará por reduzir a Igreja a uma ilha, separada do restante da sociedade. Todos devem ser objeto da ação misericordiosa da Igreja.

Num encontro com sacerdotes, pediu: “Fazei-vos próximos, com o estilo próprio do Evangelho, no encontro e na acolhida dos jovens que preferem conviver sem se casar. No plano espiritual e moral, eles estão entre os pobres e os pequenos aos quais a Igreja, nas pegadas de seu mestre e Senhor, quer ser mãe que não abandona, mas que se avizinha e cuida. Também essas pessoas são amadas pelo coração de Cristo. Dirijam-lhes um olhar de ternura e de compaixão. O cuidado por estes últimos, porque emana do Evangelho, é parte essencial da obra de promoção e defesa do sacramento do matrimônio. De fato, a paróquia é o lugar por antonomásia da ‘salus animarum’, da salvação das almas”.

O verdadeiro jejum

Em 3 de março, celebrando em Santa Marta, para motivar a conversão quaresmal, Francisco repreende a falsa religiosidade dos hipócritas que jejuam enquanto cuidam de seus negócios, oprimem os operários, de um lado fazem penitência e de outro, realizam negócios “sujos” praticando injustiças: “o Senhor pede um jejum verdadeiro, que leva em conta o próximo. O jejum hipócrita é para ser visto pelos outros, sentir-se um justo ao mesmo tempo que comete injustiças, explora o povo”.

“Não adianta dizer ‘mas eu sou generoso, darei à Igreja uma bela oferta’, prossegue o Papa: ‘responde-me, pagas o justo à tua doméstica?, pagas o que manda a lei sem sonegar direitos?’”

O verdadeiro jejum é “quebrar as cadeias iníquas, libertar os oprimidos e romper todo jugo. É dividir o pão com o faminto, introduzir em casa os miseráveis, sem teto, vestir aquele que encontras nu, ao mesmo tempo que cuidas de teus familiares”. Isso Deus quer, esse é o jejum que ele quer.

Dê sem preocupação

Nós moradores das cidades recebemos de Francisco uma lição  muito útil para lidar com os mendigos que diariamente estão diante de nós pedindo alguma esmola. E a resposta foi dada numa entrevista que concedeu a um jornalzinho de moradores de rua de Milão. O conselho: “dêem dinheiro, e não se preocupem com isso”. É isso: “dê-lhes a esmola, e não se preocupe com isso”.

Nossa primeira atitude é olhar o mendigo de alto a baixo, traçar um diagnóstico, avaliar sua saúde mental, antecedentes criminais. Num segundo ou dois, dominamos o pedinte com nosso olhar.

Talvez nos interroguemos: e se esse dinheiro for para comprar cachaça? Responde o Papa: “se um gole de cachaça é a única felicidade que ele tem na vida, por que não lhe dar essa felicidade?”

Dar algo a alguém em necessidade é sempre certo. Um bom modo de olhar para o mendigo, disse ele, é reconhecer como somos mais afortunados, com lar, esposa e filhos. Para não pensarmos que Francisco facilita tudo, apresenta-nos um desafio maior: o modo de dar é tão importante quanto o que se dá. Você não deve simplesmente deixar cair uma moeda em um copo e ir embora. Você deve parar, olhar a pessoa nos olhos e tocar suas mãos.

A razão é preservar a dignidade, ver a outra pessoa não como uma patologia ou condição social, mas como um ser humano, com uma vida cujo valor é igual ao seu.

Gestos e atitudes simples, mas que indicam o surgimento da primavera espiritual.

Pe. José Artulino Besen

 

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A MENINA QUE EXPLICOU A MORTE

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Esperávamos a paz, e construímos uma década de violência, de guerras. Países em guerras fratricidas no mundo árabe da Síria, do Iraque, do Oriente médio. Nações africanas em guerras internas, cujo único objetivo é a garantia do poder e do domínio sobre riquezas e populações. Em nosso mundo latino-americano sofremos a guerra pelo tráfico e pelos pontos de drogas. Nos países ricos assistimos a outra guerra, a da rejeição dos migrantes, dos fugitivos do mundo conflagrado que diariamente tentam encontrar novo chão, nova pátria, e encontram a expulsão, o desprezo a deportação.

Milhares de famílias abandonam sua terra e seus bens e atravessam fronteiras esperando alguma acolhida, mas são acolhidas pela ordem de retorno ao lugar nenhum, pela deportação. São consideradas peso morto, ameaça ao conforto dos países ricos. As famílias deixam de ser famílias: são mães abandonadas, crianças fugindo pelas estradas e ruínas, homens tentando salvar algum coisa, jovens deserdados da esperança. As imagens geradas por esses dramas quase não comovem, pois  a violência continua e as ruínas aumentam com destruições sempre maiores.

Mas, sem dúvida, o que mais nos fere são as imagens das crianças, das quais se rouba a infância e que são marcadas a ferro pelo vírus da violência, a ponto de não conhecer outro tipo de vida. Apesar disso, as crianças brincam, jogam bola, as meninas se fazem de professoras, realizando o milagre da  vida mas injetando no coração o sentimento da violência, pois foi isso que sempre viram e sentiram.

A saudade é o amor que permanece

Dr. Rogério Brandão, oncólogo brasileiro no Hospital de Câncer de Pernambuco onde atuou por 29 anos, narra a experiência que o marcou: uma criança com câncer, feliz apesar de tudo. Ao nascer sua primeira filha, começou a assustar-se ao ver o sofrimento das crianças, vítimas inocentes do câncer.

Ele narra que num dia um anjo passou por sua vida, um anjo em forma de uma menina de 11 anos de idade, provada pelos anos de tratamentos diverso, manipulações, injeções e todos os incômodos provocados pelas aplicações químicas e as radioterapias.

Dr. Rogério nunca viu esse pequeno anjo fraquejar. Viu-a chorar muitas vezes, viu o medo em seus pequenos olhos. Esse anjo era humano, afinal.

Num dia, chegou mais cedo ao hospital e encontrou o pequeno anjo sozinha, no quarto. Perguntou por sua mãe e recebeu uma resposta que o deixou profundamente emocionado:

Tio, disse ela, às vezes minha mãe sai do quarto para chorar às escondidas no corredor. Quando eu morrer, creio que ela vai sentir muita saudade. Mas, eu não tenho medo de morrer, tio. Eu não nasci para essa vida!.

E o  que é a morte para você, minha querida? – perguntou o doutor.

– Escuta, tio, quando a gente é pequena, às vezes vai dormir na cama de nosso pai e, na manhã seguinte, ao acordarmos estamos em nossa cama, não é verdade? Um dia eu dormirei e meu Pai virá buscar-me. Eu acordarei na casa d’Ele, em minha verdadeira vida.

O médico ficou estupefato, sem saber o que dizer. Estava impressionado pela maturidade com que o sofrimento tinha acelerado a visão e a espiritualidade daquela criança, que ainda acrescentou: – Então minha mãe se recordará de mim com saudade.

Emocionado, segurando uma lágrima e um soluço, perguntou-lhe:

– E o que significa a saudade para ti, minha querida?

– A saudade é o amor que permanece!

Muitos anos depois, aos 53 anos de idade, o médico desafia a quem quiser a dar uma definição melhor, mais direta e simples da palavra saudade: o amor que permanece.

O anjinho se foi há muitos anos. Mas deixou uma grande lição que ajudou a melhorar a vida de Dr. Rogério Brandão, a ser mais humano e carinhoso com seus pacientes, a rever seus valores.

Quando a noite chega, se o céu está limpo e vê uma estrela, para ele é o “meu anjo” que brilha e resplandece no céu.

Imagina que ela é uma estrela fulgurante em sua nova e eterna casa. E não esquece de agradecer ao pequeno anjo as lições que lhe e ensinou e pensa: – que bom que existe a saudade, o amor que permanece para sempre.

Pe. José Artulino Besen

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PADRE NEY BRASIL PEREIRA (1930-2017)

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Padre, professor, músico e biblista

Tempo atrás, Pe. Ney me perguntou quando escreveria sobre ele. Respondi: quando o senhor morrer!

Infelizmente esse dia chegou, em 04 de janeiro de 2017, às 8:30, no Hospital de Caridade. Tinha completado 86 anos em 4 de dezembro passado. Uma vida longa, sem dúvida, mas que ainda poderia oferecer muito. Neste ano, convidou-me a fazer a homilia de seus 60 anos de Sacerdócio, o que entendi como honra e como retribuição ao convite que lhe fizera para pregar em minha Primeira Missa, há 40 anos. Devo muito ao Pe. Ney: ele perpassou minha formação humana, intelectual e sacerdotal. Foi sempre a presença positiva e compreensiva em que me espelhava. Hoje, como despedida, ofereço esse breve e pobre texto para que mais pessoas possam conhecer o Pe. Ney Brasil Pereira e agradecer a Deus por esse sacerdote que honrou o clero brasileiro e, especialmente, o clero da Arquidiocese de Florianópolis.

A terra e a família

Ney Brasil Pereira nasceu em São Francisco do Sul, ilha, porto, aos 04 de dezembro de 1930, numa rua frente ao mar, à baía Babitonga. Não gostava do seu nome, de um desconhecido herói militar francês da era napoleônica, o Marechal Ney, até o dia em que descobriu que “ney” é a forma dialetal do alemão “neu”, “novo”: então gostou. E o “Brasil”, que as pessoas pensam ser nome de família, é um segundo nome próprio. Talvez pelo motivo de ter nascido no final de 1930, pouco depois da revolução que levou Getúlio Vargas ao poder: seu pai teria querido com isso, talvez, demonstrar seu patriotismo.

Uma família de 06 irmãos, sendo Ney Brasil o quarto da escadinha: Hélio Milton Pereira, Jarbas Pedro Pereira, Hélcio Ivo Pereira, Ney Brasil, Ophelia Ivonne Pereira, Jocélia Marília Pereira. Como se pode ver, todos com dois nomes, provavelmente resultado do acerto entre pai e mãe.

Houve diversas mudanças de casa. Uma delas era bem perto da Matriz de Nossa Senhora da Graça, aonde gostava de ir, ajoelhando-se na ponta do primeiro banco à direita, frente à imagem do Coração de Jesus. Gostava das novenas à noite, do canto das filhas de Maria ao som do harmônio, da voz sonora do vigário, Frei Patrício. À boca pequena comentava-se que ele cantava também, e bem.

A escola que freqüentou foi o Colégio “Stella Matutina”, das Irmãs da Divina Providência, onde cursou o primeiro e segundo ano primários, aí alfabetizando-se com a Irmã Bernadeta. Apreciava os puxa-puxas gostosos que a Irmã da cozinha fazia e lhes vendia. Em casa, muito cedo, perdeu a companhia da mãe, que, doente, teve de internar-se, pouco depois da sexta gravidez, uma filha. Seu pai valeu-se da ajuda de uma de suas irmãs, a tia Lulu, para a educação dos seis filhos. A última residência em São Francisco foi o andar térreo do casarão dos Görresen, na “praia do Mota”, junto ao mar. Ali moravam com essa tia. Foram marcantes a catequese na Matriz com o Frei Patrício, as “projeções” com figuras da “História Sagrada”, a primeira comunhão nos seus 7 anos e meio de idade, as procissões, as novenas… fascinava-o tudo o que era da Igreja.

Uma palavra sobre os pais de Ney Brasil: Antônio Pedro Pereira, filho de pescador, funcionário da Alfândega do porto de São Francisco do Sul, e Maria da Graça Parreira Pereira, do lar, com o nome da Padroeira da cidade, Nossa Senhora da Graça, a quem ela chamava de “minha madrinha”.

O pai deixou-lhe a imagem do homem forte, retilíneo, de honestidade a toda prova, falante, ativo, líder por natureza, homem de fé, provado nos últimos três anos de vida por um câncer que o foi derrubando e destruindo fisicamente devagar, de modo cruel, e que ele suportou com paciência heróica. Já acamado, deixou o filho padre partir para especialização nos Estudos Unidos em agosto de 1962 e esperou pela sua volta. Reviu-o ainda com vida e o assistiu em seu leito de morte, no Hospital de Caridade, aos 29 de julho de 1963. Ele tinha 65 anos de idade.

Sua mãe, Maria da Graça Parreira, foi uma mulher sofredora, que passou quase a metade da vida em hospitais, afastada dos filhos, de quem sentia muita falta. Pelo menos seus últimos anos foram mais tranqüilos, tendo ela vindo para a casa de um dos filhos, onde veio a falecer repentinamente, em 7 de dezembro de 1971, aos 71 anos de idade. Ney Brasil se encontrava ausente, em Roma, cursando o Pontifício Instituto Bíblico. Guarda com carinho as palavras – da sabedoria e piedade popular – que ela, apesar de tudo o que sofreu, escrevera num bilhete: Deus tem mais para dar do que tem dado.

De São Francisco a Florianópolis

Em agosto de 1939, antes de completar seus 9 anos, o pai Antônio Pedro decidiu mudar-se para a capital. Conseguiu ser nomeado para a mesma repartição federal: a guarda-moria da Alfândega. Veio para dar oportunidade de estudo aos filhos, dos quais o mais velho, Hélio Milton, chegara antes e já estava matriculado no Colégio Catarinense. Vieram, com a mudança, de navio, só o pai e os quatro irmãos: as duas irmãs, ainda muito pequenas, ficaram com a tia. O navio era o transporte melhor e “mais rápido”, naquele tempo: a distância que hoje se perfaz em pouco mais de três horas de carro, naquele tempo exigia três dias. Na lembrança da chegada em Florianópolis, ficou a imagem do navio passando por baixo da ponte Hercílio Luz, para atracar no trapiche da “Rita Maria”.

Moraram primeiro na rua “Uruguai”, hoje “Herrmann Blumenau”, mudando-se depois para a rua “Joinville”, hoje “Dom Jaime Câmara”. Logo Ney começou a freqüentar a Catedral, e a participar da catequese de perseverança. Foi matriculado no Grupo Escolar Lauro Müller, onde teve excelentes professoras, entre as quais recordava Dona Emília Boos. Aí completou o curso primário e recebeu também seu primeiro prêmio: um livro, “Infâncias Célebres”, doado por um ex-aluno, então Oficial da Marinha, que desejava premiar o “melhor aluno” do terceiro ano primário. Aí também participou, com entusiasmo, dos ensaios de “canto orfeônico”, ministrados, se não lhe enganava a memória, por Heitor Villa Lobos, que naquela época reunia centenas de escolares nas praças, para cantar. Lembrava-se do embevecimento com que via o Maestro, tocando o piano com a mão direita, enquanto com a esquerda os regia. Dessa época recorda também das visitas à Biblioteca Pública, onde se encantou com a leitura da “História maravilhosa de Joana d’Arc”, de Érico Veríssimo, sua Santa do coração.

Na Catedral, além da catequese, logo que pôde ingressou no grupo dos coroinhas. Sua voz de soprano chamou a atenção do Cura, Mons. Harry Bauer, que pessoalmente começou a ensaiar com ele, no novo piano Essenfelder do salão paroquial – o mesmo que lá ainda se encontra, e ainda em uso – o solo “O Saboiano”. Este solo, cujos ensaios foram depois ultimados pelo organista da Catedral, Giovanni Faraco, foi por ele apresentado em público mais vezes.

Nesse meio tempo, as coisas foram-se encaminhando para o Seminário, sonho da infância. Em 1941, seu pai levou-o a acompanhá-lo na peregrinação a Azambuja, na festa de 15 de agosto. Ficou encantado com o canto do coro dos seminaristas, que se ouvia nas abóbadas recém-levantadas do novo Santuário, ainda encobrindo as paredes do antigo.

Vem e segue-me! Ingresso no Seminário

Desde que se conheceu por gente, Ney Brasil quis ser padre. Nascido numa paróquia de franciscanos, em São Francisco do Sul, nunca se imaginou frade, e sim padre. Em Florianópolis, a participação no grupo dos coroinhas certamente facilitou a ida para o Seminário em Azambuja. Também a “Obra das Vocações Sacerdotais”, que naquele tempo angariava fundos para o Seminário, encarregando-se de pagar a pensão, possibilitou a matrícula em 1942. Seu pai assumiu as outras despesas.

Tendo feito um bom curso primário, foi matriculado logo no 1º ano ginasial, não precisando cursar o “preliminar”. Eram cerca de 40 alunos no primeiro ano, entre os quais, já com seus 20 anos, o Pe. Raul de Souza. Do mesmo curso, Vito (bispo auxiliar emérito de Florianópolis) e Bertolino Schlickmann (+), Gilberto Gonzaga (deixou o ministério), Antônio Guglielmi (arqueólogo e biblista, falecido). Reitor, na época, o Cônego Bernardo Peters. Prefeito de disciplina, Pe. Afonso Niehues. Regente do Coral, Pe. Luiz Cordiolli, que logo descobriu sua boa voz de soprano e lhe confiava os solos. Mas só no final do 1º ano é que teve a oportunidade de começar a estudar harmônio, com a ajuda do organista Hercílio Cappeller. Escusado é dizer que o Coral e o harmônio foram suas atividades prediletas, embora o acesso ao harmônio fosse bastante restrito, pela disciplina de então.

O Seminário de Azambuja, fundado em 1927, respirava o espírito de Dom Jaime Câmara, seu primeiro Reitor. Era uma instituição séria, disciplinada, de grande vitalidade. Amoldou-se sem dificuldade ao estilo das prescrições detalhadas, das atividades contadas em minutos. Exemplo disso era o horário de cada manhã: levantando-se às 5.00h nos dormitórios comuns, 15 minutos depois estavam todos nas salas de estudo para a “leitura espiritual” enquanto se ia aos banheiros, e já às 5.30 estavam na Capela para a oração da manhã em comum e, logo, a “meditação” (durante a qual, claro, vinha o sono nos meninos e adolescentes mal acostumados a pensar e muito menos a “meditar”!), seguindo-se a Missa às 6.00h, ginástica ou solfejo às 6.45, às 7.00h café… e assim por diante, as atividades todas cronometradas. Muita atividade para duas horas.

Diariamente se fazia o exame de consciência, se rezava o terço, seguido de leitura da Imitação de Cristo, confissão semanal etc. As festas dos padroeiros, São Luiz (21 de junho), São João Vianney (4 de agosto), Santa Teresinha (1º de outubro), eram celebradas com fervor, sem falar do clima mariano que se respirava em todo o Vale de Azambuja. Como muitos seminaristas da antiga Azambuja, leu praticamente a cada ano a grossa biografia de São João Batista Maria Vianney, o “Cura de Ars”, do Cônego Francis Trochu, da Academia Francesa, impressionando-se com o espírito de penitência desse Santo.

Os meses de maio, junho e outubro, eram marcados pelas novenas, com Bênção do Santíssimo todas as noites. Belo o Novenário de visita ao Cemitério (localizado onde hoje se situa o estacionamento), à tardinha, depois do jantar, com cantos folclóricos, alguns a vozes, ecoando no vale após a oração. Além das colinas circundantes, eram ouvidos pelos doentes e alienados do Hospital, pelas asiladas.

Quanto aos estudos, eram também marcados pela disciplina: “temas” escritos e provinhas constantes, mesmo diárias. Esportes, no começo eram as corridas nos pátios internos, nos vários “recreios”, e o futebol no campo em cima da colina. Em 1946 escavou-se o primeiro campo de vôlei, seguindo-se outros depois. Ainda quanto à disciplina, momento semanal esperado eram os avisos e observações do Reitor, cada sábado à noite, com a declaração pública dos “pontos” perdidos em comportamento, aplicação, civilidade.

Uma instituição educacional faz-se com disciplina, sim, mas essa só tem efeito com bons formadores e professores. Deles, Pe. Ney Brasil recorda Cônego Bernardo Peters, que tinha excelente método para o ensino do latim e, a seguir, do grego. Pe. Gregório Warmeling, depois Bispo de Joinville, entusiasmava para o estudo da história e, igualmente, da música. Promovia, nas tardes de sábado, as audições musicais dos clássicos, na época em discos de vinil-78 rotações, audições comentadas, introduzindo os seminaristas nas sinfonias de Beethoven e no “Tannhäuser” de Wagner. Como professor, anos depois, Pe. Ney promovia as mesmas audições também aos sábados à tarde, pois em Azambuja o que dava certo não se mudava nas décadas seguintes.

Pe. Wilson Laus Schmidt, depois Bispo, entusiasmava-os para o teatro, a retórica, o cultivo da escrita. No último ano do Seminário Menor, ainda, outros excelentes professores: Pe. Raulino Reitz, botânico, o “padre dos gravatás”; Mons. José Locks, latinista e helenista; Pe. Afonso Niehues, depois Arcebispo; Pe. Valentim Loch, límpido nas suas aulas de álgebra e trigonometria.

Em 1951, com a promessa de cursar a Teologia em Roma, Ney Brasil voltou de São Leopoldo a Azambuja, para lecionar. Nas mesmas condições veio o Gilberto Gonzaga. Na época, já se encontravam em Roma, estudando, Osni Rosenbrock, Antônio Guglielmi, e Osmar Müller, da Arquidiocese.

Em Azambuja, foram quase dois anos de intenso trabalho: aulas de línguas, história, e música, além de coordenar o coral (junto com Pe. Valentim Loch), o teatro e outras atividades internas. Em 1952, a preparação e realização dos festejos do Jubileu de Prata do Seminário, festejos que incluíram uma Missa solene a 5 vozes, “em honra de N.Sra. de Azambuja”, que compôs para a oportunidade. Ensaiou e apresentou também a opereta “Sonho Lindo”, com texto do Pe. Tarcísio Marchiori, sintetizando a história do Vale. O Jubileu, celebrado em maio, contou com a presença dos ex-alunos ordenados, já em bom número.

Pe. Ney Brasil – poliglota

Além de seu reconhecido domínio da língua portuguesa, Pe. Ney dominava ou conhecia outras. Fundamentalmente, o aprendizado foi no Seminário Menor de Azambuja. Naquele tempo, terminavam o Seminário Menor com excelente conhecimento do latim, que era uma disciplina diária, durante seis anos, bom conhecimento do grego, que os habilitava à leitura do texto do Novo Testamento, bom conhecimento do francês, que os habilitava à leitura e à escrita nessa língua, além de boa introdução ao inglês e ao italiano, e uma rápida introdução ao alemão.

Quanto ao alemão, ela antes fazia parte do currículo, tendo sido supressa em 1942, ano em que o Brasil entrou na guerra, ano também do seu ingresso no Seminário. Indo duas vezes estudar na Europa, foi normal o aperfeiçoamento no italiano, no inglês e francês e, depois, no alemão. Nesta língua, conseguiu certa habilitação para a leitura, tendo dificuldade na escrita e na conversação. Quanto ao hebraico, foi aprendido com muito esforço no período em que cursou o Instituto Bíblico de Roma. Ainda quanto às línguas, muito contribuiu o fato de tê-las ensinado nos anos em que foi professor em Azambuja. E no que se refere ao inglês, evidentemente ajudou-o o período que passou nos Estados Unidos, entre 1962 e 63. Pe. Siro Manoel de Oliveira escutou um padre francês comentar que o francês do Pe. Ney Brasil era “presque parfait”, quase perfeito, coisa rara nos autossuficientes franceses!

Musicista e compositor

¨0 anos de música do Maestro Pe. Ney Brasil (01 de março de 2016)

¨0 anos de música do Maestro Pe. Ney Brasil (01 de março de 2016)

Destacando-se entre os mais bem preparados compositores sacros do Brasil, Ney Brasil não se considerava precoce. Lembrava que, pequeno ainda, em São Francisco do Sul, gostava de cantar e gostava de ouvir cantar, especialmente os cantos de Igreja. Lembra que, ao passar pelas ruas e ao ouvir alguém tocando piano, nalguma casa, sonhava em tocar também.

Este sonho só veio a realizar-se no Seminário, quando começou a aprender harmônio no final do seu primeiro ano em Azambuja, perto dos 12 anos de idade. Tinham uma aula semanal de teoria musical, além dos ensaios do coro e dos ensaios de canto gregoriano. Marcou-o como mestre e regente do coro o Pe. Gregório Warmeling, cuja voz poderosa de barítono admirava. Lembra-se que um dia, em 1944, pelos seus 13 anos, rascunhando uma melodia, um “Juravit”, e anotando que era “minha composição”, Pe. Gregório viu e observou-lhe que aquela melodia ele já conhecia havia tempo… .

Em 1945, devendo assumir como organista ainda sem qualificação suficiente, num ensaio, Pe. Gregório mandou-o, de repente, tocar em quatro sustenidos uma partitura escrita em três bemóis… Foi um teste difícil (a que mais tarde ele próprio submeteu outros organistas do Seminário, com martírio maior, exigindo o toque um tom acima!), mas que o fez deslanchar.

A “primeira” composição, parece ter sido o “Hino da Academia”, que depois tornou-se “Hino do GEMCO” (Grêmio Estudantil Monsenhor Cordiolli), com letra de Tarcísio Marchiori, de 1947, último ano no Seminário Menor.

Filosofia em São Leopoldo

Seguindo o itinerário normal da formação sacerdotal, concluídos os estudos em Azambuja, seguiu para a gaúcha São Leopoldo. Foram três anos, cursando a Filosofia, em latim, com os jesuítas do então Seminário Maior Imaculada Conceição. Eram duas comunidades lado a lado, a Filosofia e a Teologia, separadas por uma rua, no centro da cidade, perto da margem do rio dos Sinos. Ao todo, cerca de 300 seminaristas, de todas as dioceses do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, com alguns até do Nordeste. Era o “Seminário Central” da época.

Na Filosofia eram uns 150. Aulas, testes e exames, tudo em latim. Recorda o elogio do Pe. Rüppel, professor de Lógica, ao seu exame escrito nessa matéria: Laudo rem et latinitatem (“Louvo o conteúdo e o latim”). A disciplina, adaptada aos “filósofos”, e a espiritualidade, eram como em Azambuja. Lembrava ainda os “pontos de meditação” dados cada noite, na Capela, pelo “Espiritual”, Pe. Oscar Müller. Bonitos os “serões marianos” no pátio, e espetaculares, musicalmente falando, as Missas solenes nas grandes festas, com grande Coro e órgão. As peças de teatro, as apresentações de Coro e Banda, eram de alto nível.

Ney Brasil lembrava-se do entusiasmo da celebração da proclamação do dogma da Assunção, em 1º de novembro do Ano Santo de 1950. Antes, em 1948, a participação no 5º Congresso Eucarístico Nacional em Porto Alegre. Um detalhe interessante: a única saída do Seminário durante a semana era a saída recreativa das quintas-feiras à tarde, quando, todos embatinados, atravessavam a cidade para dirigir-se à chácara dos Jesuítas, para cerca de duas horas de lazer. Era a ocasião em que os catarinenses do litoral aprendiam a tomar chimarrão com os gaúchos.

Ainda quanto à vida interna, era interessante a organização da “Academia”, com seus diversos setores. Candidatou-se, sem sucesso, a Presidente, devendo contentar-se com a condição de Secretário… o que já tinha acontecido, aliás, em Azambuja e que aconteceria daí em diante (só no ITESC, 33 anos!).

Na Cidade Eterna – a Roma dos Papas

A Arquidiocese de Florianópolis sempre levou a peito a manutenção de um ou mais seminaristas estudando em Roma, conforme pedido expresso da Santa Sé. Eram escolhidos dentre os que mais se destacavam nos estudos e, é claro, demonstravam interesse. Ney Brasil foi um deles.

A viagem, por mar, foi em setembro de 1952. Com ele foram, de Santa Catarina, Gilberto Gonzaga, da Arquidiocese, e Leo Orth, de Lages. Viajaram também outros seminaristas, de outros Estados, a maioria embarcando no Rio, e alguns, do Nordeste, em Salvador e no Recife. Após, a travessia do Oceano, paradas em Las Palmas (Canárias) e Barcelona, até o desembarque em Nápoles 15 dias depois. Daí, em ônibus, até Roma, no Pontifício Colégio Pio Brasileiro.

A oportunidade de cursar a Teologia em Roma foi mais uma dessas graças, privilégios, que recebeu em sua vida. Foi de setembro de 1952 até julho de 1956, prolongando-se a permanência na Europa até outubro. No Pio Brasileiro eram pouco mais de 100 seminaristas cursando a graduação, uns poucos ordenados fazendo doutoramento. A característica do Pio é a dos outros colégios nacionais que existem em Roma: dentro é Brasil, a língua e costumes pátrios, e fora se está na capital da Itália, junto ao Vaticano, em ambiente cosmopolita.

Dirigido então por Jesuítas, o Pio Brasileiro apresentava as características de disciplina e espiritualidade que vigoravam, por exemplo, em São Leopoldo. Assim, os “pontos de meditação” à noite, as conferências espirituais, a direção espiritual. Naquela época a capela interna era relativamente acanhada, ocupando um dos andares do prédio. Mas a liturgia em latim, por exemplo, na noite de Natal, com Matinas antes da Missa da meia-noite e Laudes depois, tudo cantado em latim, era uma beleza! Isto, sem falar da possibilidade de participar das cerimônias na basílica de São Pedro ou em outras basílicas.

Quanto aos colegas, além dos do Pio Brasileiro, de vários Estados do país, entabulavam amizade com colegas de outros países, inclusive com o intuito interesseiro de treinar na língua deles. Assim foi que se encontrava regularmente com dois colegas americanos (um deles o hoje emérito Cardeal William H. Keeler, de Baltimore, um inglês, um irlandês, e dois franceses, com os quais manteve correspondência anual.

Da Gregoriana, a lembrança de uma universidade cosmopolita, com aquela sede solene, as aulas ministradas em estilo conferência, em grandes auditórios, professores lendo e/ou comentando suas teses em latim, um latim às vezes afrancesado, espanholado, americanizado, conforme o professor. Deles, guardou a melhor lembrança do professor de História da Igreja Antiga, Ludwig Hertling, um alemão que sabia esculpir, com traços indeléveis, as figuras dos grandes vultos do passado.

No Vaticano, atraía-o a Basílica, especialmente no dia de São Pedro. Permanecia horas absorvendo aquele ambiente, e gostava de ajoelhar-se junto ao altar da Confissão de Pedro, para recitar o Credo apostólico. O Papa na época, Pio XII, hierático nas suas aparições em público, dando a bênção com os braços amplamente levantados, era uma das três devoções brancas dos católicos: a Hóstia, Maria, o Papa.

Quanto à música, Roma não ajudou muito. A atenção estava voltada para a Teologia e o horário, na época, não permitia sair para Concertos, muito menos à Ópera. Mas continuou atuando como organista e lembrava-se de que, nas Ordenações, compunha trios a vozes iguais que cantava com Narbal Stencel, do Rio, tenor, e Olavo Moesch, gaúcho, barítono. Cantavam muito gregoriano. Participou com entusiasmo, certa vez, de um Congresso de Meninos Cantores, cantando com eles na Basílica de São Pedro, sob a regência de Mons. Maillet. Era fantástico cantar aquele repertório de Bach, Haendel, Josquin des Prés, Perosi, sob as arcadas e a cúpula da Basílica!

Os estudantes catarinenses em Roma mantinham um contato epistolar maior com o Arcebispo Dom Joaquim Domingues de Oliveira, que gostava de fazer perguntas de arqueologia e história, sugerir visitas e leituras. Ney Brasil vivia um relacionamento muito respeitoso, e Dom Joaquim correspondia com afeto paterno. Dom Joaquim foi daqueles bispos que marcaram a primeira metade do século XX: cioso da sua autoridade, ele se impunha pela dignidade com que revestia seus gestos. Os padres da época eram formados na obediência, a qual se manifestava nos momentos de transferência e, mesmo, nas datas das ordenações, comunicadas tantas vezes por correspondência, sem muito diálogo. Dom Joaquim, aliás, sagrado bispo muito jovem, veio para Florianópolis em 1914, aqui tornando-se Arcebispo em 1927, e falecendo como Arcebispo Metropolitano em 1967, após 53 anos de episcopado, todo passado aqui. Dois anos antes, em 1965, ele entregara a administração da Arquidiocese a Dom Afonso Niehues, a quem tinha ordenado presbítero em 1938. Um detalhe interessante o aproximava de Dom Joaquim: a data de aniversário era a mesma, 4 de dezembro. Ney Brasil recordava que, na carta a ele pouco antes de sua ordenação, comprometia-se a ser, como dizia o Ritual, um dos cooperatores Ordinis nostri

Subindo os degraus do altar

Antes ainda das “ordens menores”, grande importância dava-se, na época, à vestição da batina. Era a cerimônia que coroava o Seminário Menor, e era preparada como se fosse uma ordenação, com retiro espiritual de três dias e tudo. A partir daí o seminarista Ney Brasil, com seus 17 anos, começava a usar a batina de manhã à noite, em casa ou na rua, no trabalho e na viagem… por toda parte! Quanto à Tonsura, que era a admissão ao estado clerical, recebeu-a em São Pedro de Alcântara, aos 28 de janeiro de 1951. As ordens menores foram recebidas em Roma, nos dois primeiros anos de Teologia: Ostiariato, Leitorato, Exorcistato, Acolitato.

O Subdiaconato, no fim do terceiro ano de Teologia, em 10 de julho de 1955, era a primeira “ordem maior”, marcada pela promessa do celibato; o Diaconato, no início do quarto ano de Teologia, em 30 de outubro de 1955.

O Presbiterato, enfim, no início do segundo semestre do quarto ano de Teologia, em 25 de fevereiro de 1956. A ordenação presbiteral aconteceu na Basílica de São Paulo fora dos muros, numa fria manhã de inverno e de neve, presidindo-a o Cardeal Aloisi Masella, ex-núncio apostólico no Brasil. Foi uma ordenação coletiva, sem a presença dos familiares, que estavam no Brasil. Além dos que receberam outras ordens, menores e maiores, eram 21 os novos presbíteros. Desses, 4 eram de Santa Catarina: ele, Pe. Gilberto Luiz Gonzaga, Pe. Osmar Pedro Müller, da Arquidiocese, e Pe. Leo Nicolau Orth, da diocese de Lages.

O padre – homem de Igreja

O que significava, naquele tempo, ser padre? Quais os ideais acalentados?

A teologia, naturalmente, era a dos concílios Tridentino (1545-1563) e Vaticano I (1869-1870), embora naquela fase borbulhante que eclodiu no Vaticano II. Havia, nos seminários, muito fervor, muita piedade, muita disciplina, muita centralização no ideal de ser padre, no privilégio e na honra de celebrar a Eucaristia.

O ideal do Padre era a figura de São João Vianney, o Cura de Ars, um pároco humilde totalmente dedicado aos sacramentos: a Missa, a devoção ao Santíssimo, o confessionário, a pregação e a catequese. Havia livros de espiritualidade que cultivavam esse ideal, como “O guia do seminarista e do jovem padre”, do autor francês, jesuíta, Raoul Plus. Para as ordenações, meditavam os textos do Ritual, em edições comentadas.

Típica foi a conferência, em inglês, do famoso pregador americano Fulton Sheen, mais tarde bispo, no Colégio da Propaganda Fide, falando de forma arrebatadora sobre Cristo,  “Sacerdote e Vítima”, ideal do padre. Igualmente, o belga, depois Cardeal, Monsenhor Cardijn, fundador da JOC, a Juventude Operária Católica, falando em francês na Gregoriana, e motivando para o envolvimento do padre com os leigos, suscitando a santidade entre eles. Naquele tempo vivia-se na Itália o “Movimento por um mundo melhor” (MMM), do jesuíta Riccardo Lombardi, com grande acento na repercussão social do Evangelho e do sacerdócio. O Mundo Melhor ofereceu ao Brasil uma preciosa leva de bispos comprometidos com a causa da justiça.

Caroneiro pela Europa

Pe. Ney Brasil retornou ao Brasil quatro anos e um mês após a ida à Europa. Foi em outubro de 1956, viajando de navio como na ida, e desembarcando no Rio de Janeiro.

No exame final “de Universa”, prestado em junho na Gregoriana, não se saiu tão brilhantemente assim: foi aprovado “cum Laude”, isto é, com média 8, quando no primeiro ano da Teologia a aprovação fora praticamente “summa cum Laude”, isto é, com média 10. O exame final, oral, eram muitas teses em latim sobre toda a Teologia, exame realmente exigente. Em todo caso foi aprovado para o grau de “Licenciado”, equivalente ao de “Mestre”.

Após o exame, teve a permissão de Dom Joaquim de viajar três meses pela Europa. Como tinha pouco dinheiro, fez quase toda a viagem pedindo carona: pagou a passagem de trem até Viena e, depois, com a cara e a coragem, meteu-se na estrada, vestindo o “clergyman”. Percorreu a Áustria, sul da Alemanha, Suíça, entrou na França por Genebra, depois Grenoble, Ars, e foi até Marselha, onde incorporou-se à peregrinação dos universitários católicos de Paris até a Terra Santa. Esta peregrinação foi paga, naturalmente. Foram de navio, de Marselha até Beirute, retornando pelos mesmos portos.

Depois, novamente de carona pelo sul da França, até Lourdes, depois Bordeaux, vários pontos da França (não poderia morrer sem conhecer Rouen e Orléans, terras de Joana d’Arc), sul da Inglaterra, depois Bélgica, Holanda, novamente Alemanha, entrando por Münster, Köln, descendo para a Suíça, norte da Itália, para só então pagar a viagem de trem de Milão a Roma. Foi uma aventura bem sucedida, pedindo carona sozinho… e foi a maneira que encontrou para realizar o sonho de conhecer um pouco dos países mencionados.

O primeiro ministério presbiteral no Brasil

pe-ney-brasil3Retornando a Florianópolis em outubro de 1956, celebrou sua primeira Missa na Catedral no dia 4 de novembro, e no dia 11 do mesmo mês foi a “primeira Missa” na terra natal, São Francisco do Sul. Seu pai o acompanhava, visivelmente satisfeito, nessas primeiras atividades. Sua primeira designação pastoral foi a de coadjutor da paróquia da Trindade, que naquele tempo abrangia toda a Ilha. Ainda recorda que, numa das primeiras “missões”, talvez na Costa da Lagoa, batizou, num domingo, 44 crianças, tanto tempo fazia que não aparecia padre por lá.

As locomoções pela Ilha eram penosas: más estradas, escassos meios de transporte… Isto por três meses, de novembro a janeiro, até a designação para Azambuja, como professor no Seminário Menor, em inícios de fevereiro de 1957.

Os anos intensos de trabalho em Azambuja (1957-1970)

Pe. Ney Brasil dedicou-se integralmente, de corpo e alma, às tarefas de professor, regente do coral e diretor de teatro dos seminaristas. As disciplinas foram as mesmas que no primeiro período em Azambuja (1951-52): línguas, especialmente português, latim, grego e francês; história: antiga, medieval, moderna, contemporânea; e música, quer teórica, quer prática, vocal e instrumental.

Foi sempre detalhista nas disciplinas que lecionou: muitas datas nas aulas de história (colorindo os manuais de História de José Segalla com uma data a cada nome ou fato). Muitos testes, diários, muitos “temas” escritos, todos corrigidos. Por economia dava-se ao trabalho de cortar as beiradas das folhas dos testes para serem utilizadas em outros. Para o coral e, quando ocorria, para os instrumentos musicais, muitas partituras escritas e copiadas, às vezes, uma por uma – horas e horas de trabalho, até alta noite – naquele tempo em que não havia xerox, e a reprodução policopiada primeiro era sobre gelatina, depois a álcool, depois a mimeógrafo.

Quantos ensaios particulares e coletivos de instrumentos musicais, quantos ensaios particulares e coletivos de teatro e declamação! Assim, praticamente não exercia atividade pastoral fora, dedicando-se totalmente ao Seminário.

A partir de 1965, uma vez que não havia mais seminaristas sopranos, pelo fato de que entravam em Azambuja após cursarem o “preliminar” e/ou o primeiro ano em Antônio Carlos, começou a trabalhar musicalmente com os meninos da vizinhança. Isto significava um ensaio diário, à tarde, só com eles, para a vocalização e musicalização, além do contacto direto com suas famílias, para onde se dirigia com popular bicicleta. Esses “meninos cantores”, de 10 a 15, realmente deram conta do recado de cantar, no coral dos seminaristas, partituras de média dificuldade.

Outra atividade externa que o envolveu no penúltimo ano em Azambuja, embora não se recorde bem dos detalhes, foram grupos ou um grupo de alfabetização de adultos.

Mesmo não sendo um modelo de orador, Pe. Ney Brasil ocupou a cadeira de professor de retórica. A cada quinze dias os seminaristas eram obrigados a decorar um texto à escolha e declamá-lo diante dos colegas, recebendo, depois, as observações do mestre.

Gostando de escrever, e para não se expor, adotou um pseudônimo Brasílio Pereira, com que assinava crônicas semanais, publicadas geralmente na primeira página do jornal da cidade, “O Município”. Foram vários anos de presença constante, apreciada: o Diretor do Jornal, Jaime Mendes, fazia questão de esperar por esta colaboração. Levava em mãos, o texto datilografado em cima da hora. Fazia-o com prazer, embora com dificuldade. Mais de uma vez foi alertado, também por seus familiares, sobre o tom possivelmente “subversivo” de suas crônicas, naqueles tempos do AI-5, final da década de 60. Talvez em algum dia alguém recolha e publique algumas delas, como retrato de uma época.

Um ano de estudos nos Estados Unidos

Tendo bebido da fonte de uma especialização no exterior, ficou o gostinho para aproveitar uma nova oportunidade. E esta veio em 1961, quando foi informado de que o Governo americano estava oferecendo Bolsas da “Fulbright Foundation” para latino-americanos com menos de 35 anos, que, tendo proficiência em inglês, se candidatassem para uma especialização: era uma bolsa integral, com passagem, curso, estadia, por um ano, podendo ser prorrogada.

Em Azambuja, Pe. Raulino Reitz, botânico de renome internacional, havia ganho uma bolsa assim e incentivou-o. Decidiu especializar-se em música, uma das suas principais atividades no Seminário, uma vez que sua formação nesse campo era praticamente a de autodidata. Com a permissão do Arcebispo, Dom Joaquim, e a colaboração dos colegas de magistério em Azambuja, candidatou-se, e recebeu a Bolsa. Seu pai estava com câncer, mas incentivou-o.

Partiu para os Estados Unidos em inícios de agosto de 1962, devendo participar, durante um mês, de um “curso de orientação” para os bolsistas estrangeiros, na Universidade do Texas, em Austin. Foi sua primeira viagem de avião, e o primeiro contacto com a vida americana. Do Texas, dirigiu-se a Pittsburgh, na Pensilvânia, onde fora matriculado na Faculdade de Música da Universidade de Duquesne. Sua residência foi numa paróquia de bairro, onde foi aceito como coadjutor de um pároco que já tinha dois coadjutores. Celebrava diariamente, naquela época em latim, atendia confissões em dois horários pela manhã e à tarde de sábado, e devia fazer o sermão – naturalmente preparado por escrito, em inglês – em uma das missas de domingo.

Na Faculdade, impressionou-o a competência, dedicação, seriedade dos professores. Com a aprovação do Decano, fez todos os cursos da graduação e da pós-graduação que pôde fazer em dois semestres, pois tal era o tempo que lhe fora concedido pela Arquidiocese. Cursos de: harmonia, contraponto, composição, arranjo orquestral, regência coral, impostação vocal, história da música nos vários períodos, estudo prático de cada grupo dos instrumentos da orquestra (cordas, sopros, metais, percussão), piano, órgão…

Foram dois semestres intensos, além dos concertos e óperas a que pôde assistir, tanto em Pittsburgh como em Nova York. Impressionou-o a vitalidade do cultivo da música em todos os setores da vida americana. No seu caso, procurou assimilar tudo aquilo em vista de um melhor trabalho no retorno ao Brasil, em Azambuja.

Por coincidência, na volta ao Brasil surgiu, por causa da abertura da Liturgia ao vernáculo, a necessidade de criar todo um novo repertório litúrgico pastoral e coral, e nisso empenhou-se de corpo e alma, entre 1963 e 1970. Entre tantas outras impressões dos Estados Unidos, guarda o entusiasmo com que foi recebido, no Auditório de Duquesne, o então jovem teólogo suíço Hans Küng, um dos peritos do Concílio, que ali e em outras universidades católicas americanas falou sobre “a liberdade na Igreja”, Freedom in the Church

Recordações do ministério em Azambuja

Foi marcante em seu trabalho no Seminário a reitoria e liderança de Dom Afonso, Pe.Afonso Niehues, que logo, em inícios de 1959, foi nomeado bispo coadjutor de Lages. Era o terceiro dos primeiros ex-alunos de Azambuja chamados ao episcopado: antes dele, Dom Gregório Warmeling, eleito bispo de Joinville em 1957, e Dom Wilson Laus Schmidt, eleito bispo-auxiliar do Rio de Janeiro também em 1957 e depois transferido para Chapecó.

Dom Afonso era um “gentleman”: educadíssimo, grande capacidade de escutar, liderança firme sem estardalhaços. Mons. Valentim Loch, reitor nomeado em 1959, formado na mesma escola, conseguiu manter o ritmo que Dom Afonso imprimira em Azambuja, exercendo a reitoria na década mais brilhante do Seminário, a década de 50/60. Foi um período em que o Seminário contava com quase 200 alunos e um corpo docente de uns 10 padres, e ocupava integralmente as vastas instalações do novo edifício, inaugurado oficialmente em 7 de setembro de 1964, por ocasião dos festejos do áureo jubileu episcopal de Dom Joaquim.

Tendo vivido em Azambuja intensamente os seis anos de Seminário Menor, tendo aí feito sua primeira experiência de professor por quase dois anos, aos 20 anos de idade, tendo aí passado os primeiros 14 anos de sua vida presbiteral, guardava muito, em afeto, gratidão, saudade, desse lugar.

Para cultivar os laços com o Seminário, foi um dos que criaram a AESA, Associação dos Ex-Alunos do Seminário de Azambuja, em 1974, tendo sempre prestigiado seus Encontros. Compôs o “Hino do Seminário”, por ocasião dos festejos jubilares de 1952, na mesma oportunidade também compondo o “Senhora de Azambuja”, hino do Santuário.

Redigiu, ainda, o primeiro opúsculo que se escreveu sobre a “História de Azambuja”. Mais tarde compôs também o “Canto dos peregrinos” e, em 2005, o “Canto do Centenário”, procurando nele sintetizar a história destes 100 anos desde o Decreto de criação do “Santuário Episcopal de Nossa Senhora de Azambuja” (1905). Apesar de todo esse apego, fica valendo a palavra de Dom Jaime, exatamente sobre Azambuja: “Não se pode ter o coração amarrado a um lugar”. Isto é, quando a vida nos chama para outros lugares, outras frentes de trabalho, é preciso deixar tudo e partir, como Abraão.

O Concílio do Vaticano II – novo Pentecostes

Absorveu, gota a gota, aquele mutirão de aggiornamento vivido pela Igreja nos anos imediatamente posteriores ao Concílio (1962-1965). Pe. Ney lembrava que é preciso não esquecer, porém, que o Vaticano II, com todo o fator-surpresa representado pela sua convocação por João XXIII, não foi um fruto surgido de repente: houve toda uma sementeira, cultivo, floração, amadurecimento, ocorridos na primeira metade do século XX. Lembra-se do empolgamento dos 10 dias de curso sobre os documentos conciliares realizado pelo clero de Florianópolis, como deve ter ocorrido em todo o Brasil, com a assessoria do Pe. Ivo Lorscheiter, depois bispo, secretário e presidente da CNBB.

Teve a impressão de que foi muito rápida a transição do latim para o português, tendo a Comissão de Liturgia da CNBB atuado de maneira eficiente, sob a liderança de Dom Clemente Isnard, OSB e Côn. Amaro Cavalcanti.

Rapidamente também mudou-se a indumentária clerical: da batina preta, que usou desde os 17 anos, ao concluir o Seminário Menor, passando um pouco pela batina cinza, passou-se logo para os trajes civis. (Recorda o autor destas linhas a rapidez das mudanças com um fato: no dia 8 de setembro de 1964 o Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Jaime de Barros Câmara, proferiu-nos uma palestra sobre a necessidade da batina para a “normal” validade os sacramentos e do latim, indiscutivelmente, para a eficácia da consagração eucarística. No ano seguinte, pouca batina e pouco latim e, depois, quase desapareceram).

Um exemplo da mudança teológica e eclesiológica foi a estranheza que sentiu ao ouvir pela primeira vez Dom Afonso falar em “nossa” Igreja, referindo-se à Igreja Católica, quando até então só existia para ele, para nós, católicos, “a” Igreja! Ingressava-se no espírito ecumênico.

Não teve dificuldade em aceitar e assimilar as mudanças, embora sem renunciar, é claro, ao seu lastro pessoal.

Novamente em Roma – Pe. Ney Brasil, biblista

Pelo final da década de 60 tornava-se cada vez mais claro que Santa Catarina precisava ter o seu Instituto Teológico, formando aqui mesmo o seu clero. Era preciso, portanto, preparar professores. Foi então cogitado seu nome para a Exegese, uma vez que não se tinha ninguém formado nessa área. Era, aliás, um antigo sonho: ao terminar a Licença em Teologia, em 1956, desejara continuar em Roma cursando o Instituto Bíblico, que naquele tempo, com o grego que já conhecia, possibilitaria o Mestrado em dois anos. Surgindo agora a oportunidade, ficou para trás o apego a Azambuja, e aceitou o desafio de começar esta nova especialização aos 40 anos de idade.

Agarrou a oportunidade com as duas mãos, pelo fato de a Exegese, melhor dizendo, a Bíblia, ser “a alma da Teologia”. Dois obstáculos deviam ser superados: primeiro, o hebraico, cujo aprendizado é realmente difícil e exige muita dedicação e esforço diário, de meses e anos a fio (desafio também enfrentado pelo Pe. Siro Manuel de Oliveira e, agora, pelo Pe. Gilso Meurer); depois, seu conhecimento das questões introdutórias à Exegese, ao começar o curso no Bíblico, era muito limitado, pelo fato de em Azambuja ter-se dedicado totalmente à música e às outras disciplinas e atividades do Seminário Menor, praticamente sem contacto com a ebulição da Teologia e da própria Exegese no imediato pós-Concílio. Lembra-se de um telegrama do Pe. Antônio Guglielmi, exegeta e arqueólogo, ex-colega de curso, cumprimentando-o pela matrícula no Pontifício Instituto Bíblico e fazendo votos para que voltasse “menos conservador”…

Foram pouco menos de três anos (setembro de 1970 a julho de 1973) de estudo intenso, no ambiente propício do Pio Brasileiro, agora não mais seminarístico como na década de 50, mas com a maioria dos alunos, já padres, em cursos de mestrado e doutorado, com poucas atividades comuns. Cada um dispunha do seu horário para o estudo e a espiritualidade pessoal. Recorda os sábados e domingos passados em cima dos livros, no hebraico e/ou nas monografias. Fez duas delas, uma como exigência do curso, com o Pe. Ignace De la Potterie (exegese de Mt 5,6) e outra como forma alternativa de exame final, com o Pe. Alonso Schökel (análise do Salmo 105).

Nesse período, procurou passar as férias de Natal e Páscoa na Alemanha, em Münster, onde, além de aperfeiçoar o alemão, necessário para entender pelo menos os títulos e sínteses da imensa literatura exegética nessa língua, gostava do ambiente litúrgico do provincialado das Irmãs da Divina Providência (Friedrichsburg) e da Catedral, o “Dom”. Fez também um curso de férias do Goethe Institut, em Kassel.

Nas férias de verão de 1972 realizou uma longa viagem pela Grécia, Turquia e Israel, com um professor do Instituto Bíblico, permanecendo depois mais um mês em Jerusalém, na casa dos Padres de Sion, a Ratisbonne. Em julho de 1973, antes de retornar ao Brasil, esteve ainda no Egito e no Sinai. Em Roma, procurou acompanhar a temporada da Ópera e dos concertos sinfônicos da Academia de Santa Cecília, para não perder o contacto com a música. Terminou com sucesso o mestrado no Bíblico, “magna cum Laude”.

Antes de retornar ao Brasil, Pe. Ney Brasil foi visitar as Basílicas de Santa Cecília no Trastevere, pois, afirmava, nunca mais retornaria à Cidade Eterna… na verdade já refez o caminho mais de uma dezena de vezes!

Em Florianópolis – ITESC, Catedral

Retornando ao Brasil em fins de julho, o ITESC já era uma realidade, fundado que fora em 10 de janeiro, e tendo sido iniciado o primeiro semestre em março, sob a direção do Pe. Paulo Bratti. Hospedou-se “provisoriamente” na residência episcopal, com Dom Afonso, mas o “provisório” continuou por seis anos, até 1979. Foi um privilégio residir com ele, concelebrar com ele, fazer as refeições com ele, sempre afável, discreto, acessível.

Além das aulas de Introdução à Bíblia, no curso do ITESC, ministrou aulas também no curso de teologia para leigos à noite. Custava-lhe um bocado a preparação dessas aulas: tinha grande dificuldade em “trocar em miúdos” o grande cabedal adquirido no Instituto Bíblico. Mas perseverou, e foi levando a tarefa em frente.

Já em setembro, menos de dois meses após a chegada, veio o convite para assumir a regência do Coral Santa Cecília da Catedral, cujos veteranos já conhecia de outros tempos. Após a transferência do regente Pe. Agostinho Staehelin, o Coral tinha quase acabado, mas o seminarista Raul Kestring (hoje padre em Blumenau) conseguiu reunir bom grupo de antigos e novos cantores e, quando chegou, foi só começar a ensaiar a “Missa de Gruber” e o grupo se reafirmou. Dali em diante, é uma história que já dura 43 anos, com a promoção anual dos Concertos de Páscoa e Concertos de Natal, além da gravação de vários CDs.

Uma vida pelo Instituto Teológico de Santa Catarina – ITESC (1973-2015)

pe-ney-brasil2Após décadas enviando os seminaristas maiores para o Rio Grande do Sul ou Paraná, a fundação do ITESC, em 1973, formando no Estado o presbitério catarinense, foi uma obra de Deus, bem começada graças à persistência de Dom Afonso, liderando o episcopado catarinense, e graças à capacidade e ao bom preparo teológico do Pe. Paulo Bratti, seu primeiro Diretor e Reitor.

Foi um começo modesto, humilde, mas que evoluiu com segurança, apesar da oposição de setores do Regional Sul IV da CNBB, que tinham imaginado um Instituto em outros moldes, segundo o método da “Criatividade Comunitária”. Internamente, porém, nas aulas, não se notava essa dificuldade. Crescendo o número de alunos, foram surgindo outras residências na Rua Deputado Antônio Edu Vieira, 476, bairro Pantanal, além do “Convívio Emaús”, que naquela época acolhia só uma dezena de seminaristas. Em 1975 construiu-se o prédio que hoje abriga o Regional Sul IV, com capacidade para 25 seminaristas. Nova residência pequena, para 10 seminaristas (pela cor denominado de “Dragão Verde”), no ano seguinte. E finalmente, em 1979, ano da Conferência de Puebla, inaugurava-se o edifício central, para 40 seminaristas e 4 padres assistentes.

A partir desse ano Pe. Ney deixou a residência do Arcebispo e foi partilhar a vida dos seminaristas, residindo no novo prédio, primeiro como “residente”, mas, logo, como assistente dos 10 que residiam na mesma ala.

Sua experiência como professor, formador e membro da Direção do ITESC, Pe Ney divide em três períodos:

1) até 1979, quando seu contacto com os seminaristas era apenas durante as aulas na UFSC; 2) de 1979 até 1992, quando convivia com seminaristas de várias dioceses no prédio central, continuando as aulas na Universidade; 3) finalmente, de 1992 até hoje, quando o contacto com os seminaristas passou a ser novamente só durante as aulas, agora dadas na sede do ITESC, tendo os seminaristas passado a residir em casas diocesanas.

O período mais sofrido, mas por isso mesmo não menos interessante, foi o segundo, quando participou da vida interna, dos problemas, das inquietações, de uma comunidade ao mesmo tempo seminarística e acadêmica. Certas reuniões comunitárias eram pesadas… mas tudo passou, as dificuldades foram superadas, bons padres se formaram naqueles anos. Pessoalmente, sentiu demais o falecimento prematuro do Pe. Paulo Bratti, em 15 de maio de 1982, aos 46 anos de idade incompletos, e cuja memória guarda com carinho.

Aquele segundo período coincidiu, no país, com a passagem da ditadura para a democracia e, na América Latina, com o florescimento da Teologia da Libertação, com seu forte e necessário apelo social. Nos últimos anos o ITESC tem-se firmado como instituição acadêmica de prestígio, havendo certa tranqüilidade no corpo discente, tranqüilidade que Pe. Ney esperava não seja acomodação.

Rememorando o ano de 1942, quando entrou no Seminário, e hoje, Pe. Ney via o seminarista, por um lado, hoje como ontem, hoje como em 1942, como quem entrava no Seminário porque se sentia vocacionado para ser padre e, por isso, deve autoanalisar-se e, ajudado pelos formadores, discernir se é este o caminho que deve seguir. Por outro lado, houve enormes mudanças na Igreja e no mundo, ao longo destes mais de 60 anos. Apesar de tudo, o seminarista de hoje, como o de ontem, deveria levar a sério todas as dimensões da sua formação, aproveitar o tempo, rezar muito, evitar absolutamente a preguiça e a acomodação, correspondendo, por uma dedicação intensa, ao privilégio da bolsa praticamente integral que recebe, de cama e mesa etc.

Pessoalmente, apesar de outros pensarem que seria bom para o seminarista trabalhar, batendo o ponto, mesmo durante a teologia, para sentir na carne a dureza da vida, pensou que, se ele dedicar-se integralmente como definiu acima, então o seu trabalho “batendo o ponto”, a sua “dureza” seria exatamente essa dedicação integral ao estudo e à formação.

Costumava perguntar, no curso sobre os Profetas, qual é o “lugar social” deles, os profetas, e qual é o nosso “lugar social”. E responde, para surpresa da turma, “que o nosso lugar social, sociologicamente falando, pelo ambiente em que vivemos, é o da classe média ou, para falar mais claro, o da burguesia. E o único jeito de “redimir” esse lugar social é uma vida sóbria, disciplinada, e uma constante lembrança, efetiva, dos pobres”. Achava que também o estilo de vida deve ser e parecer modesto, o mais simples possível.

As Irmãs da Divina Providência

Pe. Ney mantém com elas uma ligação que começou com o curso primário, com as Irmãs do Colégio Stella Matutina, em São Francisco do Sul. Lembrava que seu pai, que costumava dizer-lhe que a vida de padre “é de sacrifício”, sempre se referia às Irmãs como “Irmãs de Caridade”. Em Azambuja voltou a estabelecer-se essa ligação, sendo numerosas as Irmãs trabalhando no Hospital, Seminário, Asilo, Santuário. Em 1956, padre novo, andando de carona pela Alemanha, foi recebido com carinho por Madre Egídia, em Münster, carinho que se repetiu mais tarde, da parte de Madre Dorotéia.

Desde fevereiro de 1974 foi o “capelão” do Provincialado, tendo ao longo desses quase 42 anos celebrado quase diariamente com as Irmãs. Acompanhou, embora com discrição, a crise que se estabeleceu entre elas em fins da década de 70, quando houve intervenção de um Visitador Apostólico e certo número de Irmãs desligou-se da Congregação, inserindo-se nos meios populares e formando a “Fraternidade Esperança”. Percebia, e as Irmãs percebiam também, que a Congregação, como outras Congregações tradicionais, também masculinas, estava envelhecendo, e as vocações diminuindo. Como ler este “sinal do tempo”? Lembrava-se de uma conversa, bastante tempo atrás, com Irmã Cléa Fuck, quando, falando já sobre o assunto, comentavam as novas formas de consagração que estão acontecendo, surgindo, no meio do mundo… Problema não seria o fim de uma Congregação: problema seria se não surgissem novas fundações, que são sempre sinal de vitalidade da Igreja.

Dedicação à Pastoral Carcerária

Como explicou num artigo na revista do ITESC (Encontros Teológicos n. 7 [1989/2], pp. 10-15), seu chamado à Pastoral Carcerária veio inesperadamente. Tinha na lembrança que seu saudoso pai, em São Francisco do Sul, visitava os presos na cadeia. Em Brusque, nos 14 anos que lecionou em Azambuja, lembrava ter várias vezes passado pela cadeia local, sem deixar-se tocar pelo pensamento de que poderia visitá-la.

Em Florianópolis, em fevereiro de 1974, de repente, recebeu a visita de Irmã Maria Uliano, da Divina Providência, e do então Juiz da Vara de Execução Penal, Dr. Ernani Palma Ribeiro, que vieram convidá-lo para assumir a “capelania”, como então se dizia, da Penitenciária. Como tinha disponibilidade de tempo, residindo no Arcebispado, aceitou a missão, oficializada por Dom Afonso com uma provisão.

E aí começou esse “caso de amor”, que durou até a morte. Na época, o trabalho era relativamente fácil: quase não havia grades e algemas, e os presos vinham numerosos às Capelas. “Capelas”, porque havia duas: uma dentro da Penitenciária, desativada em 2005, e outra anexa ao Presídio Masculino, fechada ao Presídio em 1986, mas ainda servindo aos presos internos do Hospital de Custódia, ex-Manicômio Judiciário. Esta Capela do Presídio foi construída pela iniciativa e o empenho de Irmã Maria, que batia a todas as portas para conseguir fundos. Visitavam também, cada domingo à tarde, a Colônia Penal, então em Canasvieiras.

Três vezes ao ano havia missas especiais, com a presença do Arcebispo Dom Afonso: Natal, Páscoa, e 1º de agosto, que era o “Dia do Presidiário”.  Dias antes do Natal e Páscoa, confissões, precedidas de palestra por algum padre convidado. Pouco a pouco foi-se organizando uma equipe de voluntários, que constituiu a Pastoral Carcerária, uma das “pastorais sociais” da CNBB. Pe. Ney sentia que se poderia, deveria, fazer muito mais do que se faz, ao menos para cumprir a palavra do Senhor: Eu estava preso, e vocês vieram visitar-me (Mt 25,36). Porque não se trata apenas dos presos, mas também dos egressos, tantas vezes reincidentes, e também de suas famílias, e também dos agentes penitenciários e técnicos do Sistema, da polícia civil, de toda a questão da violência e criminalidade, das drogas e do tráfico… enfim, é um campo de trabalho imenso que está aí, desafiando a Igreja.

Foi vítima de um seqüestro, na véspera do Natal de 2000, o ano do Grande Jubileu e que, graças a Deus não deixou seqüelas. Durou relativamente pouco, das 8.30 às 14.30h, e às 18.00h já estava presidindo à Missa na Capela São João e, depois, às 21.00h, regia normalmente a Missa e os cantos natalinos do Coral da Catedral. Sem pretender dar uma de herói, respondeu naturalmente ao repórter que lhe perguntava, após o seqüestro, se ia continuar: “Apesar do susto, continuarei!”.

De 1974 a 2008 foi coordenador regional da Pastoral Carcerária e membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB/SC. Nos últimos anos assumiu como assistente espiritual dominical na “Fazenda Esperança”, de recuperação de drogadicção, em Florianópolis.

Renovação da Música litúrgica após o Concílio do Vaticano II

Antes do Concílio, mesmo havendo espaço para novas composições, a maior parte do repertório era fixo, em latim. Por exemplo, em cada missa solene, mesmo cantada pelo coral, era obrigatório cantar em gregoriano as antífonas de entrada, ofertório e comunhão, além do “gradual”, que equivalia ao salmo responsorial de hoje. No Seminário, boa parte do tempo de ensaios era dedicado ao canto gregoriano, cujas partes mais difíceis ficavam para uma “Schola”, ou seja, um grupo seleto.

Após o Concílio, houve a mudança radical da passagem do latim para o português, com a preocupação da participação da assembléia no canto, o chamado “canto pastoral”. Pe. Ney recordava que, no imediato pós-concílio, em Florianópolis houve a atividade do maestro José Acácio Santana, seu ex-aluno em Azambuja, que compôs toda uma coleção de “canto pastoral” de fácil aprendizado. Pe. Ney, sendo regente de coral em Seminário, concentrou-se no canto coral, compondo Missas corais para quase todas as festas do ano, além de um grande “Ordinário”, a Missa “Mãe da Igreja”, para coral e canto da assembléia.

Em janeiro de 1965, a convite do Cônego Amaro Cavalcanti, que então coordenava a comissão de Liturgia e Música Sacra da CNBB, colaborou com a composição da Semana Santa em português, gravada imediatamente em LP, no Rio de janeiro. Desde então participou regularmente dos cursos de canto pastoral promovidos pelo Cônego Amaro no Rio de Janeiro, em julho (curso que continua até hoje), e pelo Pe. Luís Marques Barbosa, em São Paulo, em janeiro. Em Florianópolis tem participado, com suas composições, do curso de canto pastoral do Regional Sul IV, que começou em 1989 por iniciativa do Pe. Elias Della Giustina.

Atualmente fazia parte de um grupo de reflexão sobre Música Litúrgica, ligado à CNBB, com três reuniões anuais. Quanto aos desafios, via o de conciliar a beleza e a dignidade do canto litúrgico com a facilidade com que hoje se compõe e se executa qualquer coisa. De um lado, é sinal de florescimento e criatividade. De outro lado, é sinal também de superficialidade. Quanto aos corais e o órgão, duas das marcas registradas da música sacra tradicional, para não falar do canto gregoriano, estão de certo modo em extinção, por vários motivos, que valeria a pena analisar. Na Catedral de Florianópolis, que possui um excelente órgão alemão, e também um coral que ainda canta semanalmente, numa das missas aos domingos, mantém ainda as “duas marcas registradas”… Mas até quando?

Sua produção musical é vasta, como vasto é o tempo de trabalho. Não sabe quantas composições. Tempos atrás, um maestro amigo dispôs-se a fazer um levantamento, mas transferiu-se de Florianópolis e o trabalho ficou incompleto. De sua parte, ainda não teve tempo de pelo menos recolher em pastas separadas, em ordem cronológica, e distinguindo as composições corais e as de canto uníssono, as litúrgicas e outras, poucas, não litúrgicas. Considerava suas composições prediletas: 1) “Onde o amor e a caridade”, da Quinta-feira Santa; 2) Ite in vineam, o lema episcopal de Dom Afonso, composto em 1959; 3) “Vós sois abençoada”, um “gradual e aleluia” da Imaculada Conceição; 4) a Missa “Mãe da Igreja” e, nela, o “Creio” e o “Cordeiro”.

Pe. Ney nunca cedeu ao estilo popularesco. Suas músicas requerem diversas audições para serem devidamente apreciadas e, dali para frente, são sempre apreciadas.

Evangelizando através da escrita

Pe. Ney tem o dom da escrita clara, sucinta, objetiva, elegante. Como na música cada nota de um acorde, assim cada palavra num texto. Número de artigos, na sua vida já longa, também não sabia. Citava os artigos e recensões publicados quase em cada um dos 42 números da revista do ITESC, Encontros Teológicos.

Quanto aos livros, apenas dois comentários bíblicos, e três opúsculos: 1) Sirácida ou Eclesiástico, comentário ao livro do Eclesiástico, ed. Vozes, 1992, 260 p.; 2) Livro da Sabedoria – aos governantes, sobre a Justiça, comentário ao Livro da Sabedoria, ed. Vozes, 1999, 236 p.; 3) A Ceia Pascal Cristã, ed. Paulus, 50 p, 1ª ed. em 1982, atualmente na 7ª edição; 4) Santa Catarina de Alexandria, Padroeira da arquidiocese de Florianópolis, da Ilha e do Estado de Santa Catarina, ed. Imprensa Oficial do Estado, 2002, 51 p.; reed. 2015).

Seus trabalhos e contribuições como exegeta no Brasil restringem-se às traduções dos livros bíblicos e aos artigos publicados. Quanto às traduções, colaborou com a Bíblia de Jerusalém, da Paulus, traduzindo Macabeus, Daniel, Baruc, e Atos dos Apóstolos; com a Bíblia da LEB/Loyola, traduziu o livro do Êxodo; com a Bíblia da Vozes, traduziu os dêutero-canônicos; com a TEB, Tradução Ecumênica da Bíblia, traduziu o Sirácida, Judite, o evangelho e a primeira carta de João, e o Apocalipse; finalmente, na Bíblia da CNBB, contribuiu com Jó, Provérbios, Eclesiastes, Cântico, Sabedoria, Sirácida, Tobias, Judite, Ester, e Macabeus.

Não fez um trabalho pastoral de divulgação da Bíblia a nível popular, algo, por exemplo, que de longe se assemelhasse aos “círculos bíblicos” e, depois, ao CEBI do frei Carlos Mesters. Talvez pelo motivo de ter tido sempre compromissos fixos com o Coral e a Penitenciária nos finais de semana, que seriam o tempo propício para sair por aí dando cursos, e também porque não se sentia muito possuidor do dom de “trocar em miúdos” o conteúdo que possui, o fato é que não fez esse trabalho de divulgação. O mesmo se diga das suas composições litúrgicas: não as tem gravado nem divulgado em cursos como p.ex. Irmã Míria Kolling, que se dedica a essa atividade em tempo integral. Nesse sentido, seu “marketing” foi fraco…

Quanto à evolução na exegese, é sabido que houve grande mudança, em relação à situação de antes do Concílio. Novamente, como na Liturgia e na Eclesiologia, também na Exegese a mudança não veio de sopetão. Foi longamente preparada. A Dei Verbum, cujos 40 anos de promulgação celebramos no final de 2005, referendou a nova forma de fazer exegese: menos escolástica e menos eis-egese, e “mais bíblica”, no sentido de mais ex-egese, mais brotada do próprio texto, analisado segundo o método histórico-crítico e no seu contexto sócio-eclesial.

Nesse sentido, a América Latina contribuiu com uma visão mais sociológica, privilegiando os pobres como sujeito de leitura da Bíblia. O início do ITESC coincidiu com essa nova fase, e tem procurado – de sua parte, tem procurado – manter essa linha, atento aos sinais dos tempos.

Generosamente ofereceu sua contribuição para a Revista do ITESC “Encontros Teológicos”, como redator e revisor desde 1987. Do mesmo modo, de 1999 a 2013 foi diretor, redator e revisor do jornal mensal “Jornal da Arquidiocese”, no qual publicou comentários mensais aos quatro Evangelhos e a um Salmo a cada mês.

Pontifícia Comissão Bíblica

Em 2001, João Paulo II o nomeou para integrar a Pontifícia Comissão Bíblica. Uma nomeação que o pegou de surpresa. E isto porque afirmava, sinceramente, não por falsa modéstia, que vários outros exegetas brasileiros estariam mais qualificados do que ele. “Mas, como não me candidatei, não procurei essa honra, aceitei-a evidentemente com alegria, inclusive pelo fato de essa nomeação proporcionar-me uma viagem anual a Roma, com o convívio, por uma semana, com outros 19 exegetas de vários países do mundo. É mais uma dessas graças, privilégios, com que o Senhor me tem cumulado ao longo da vida”. Bento XVI renovou a nomeação.

Catolicismo popular e aprofundamento da fé cristã

Pe. Ney Brasil conseguia conciliar o pensamento religioso moderno, a leitura bíblica segundo o método histórico-crítico com a vivência de uma piedade extremamente simples, tradicional. Acendia uma vela para Nossa Senhora da Graça e levava uma rosa para Santa Teresinha.

Lembrava o homem bíblico que tira de seu tesouro coisas novas e velhas.  Nutria a convicção de que é preciso “avançar”, estar aberto ao novo, às novas percepções que o Espírito faz ver à Igreja, e fará ainda, segundo a promessa do Senhor em Jo 16,13 (O Espírito conduzirá vocês à plenitude da Verdade) e, por outro lado, é preciso ter fidelidade ao “depósito”, ao que foi recebido, aos valores do passado. É claro que é preciso distinguir, como alerta Yves Congar, entre a Tradição, com T maiúsculo, e as tradições: estas, periféricas, mutáveis. Assim, por exemplo, na Mariologia: não concordava com o minimalismo mariológico de Hans Küng, a quem admira em tantos outros pontos. E exemplificava: se ele encontrou um “exagero” mariológico em Lourdes, segundo o que relata em sua autobiografia, “para mim – afirma Pe. Ney – Lourdes foi, e continua sendo, uma expressão autêntica da piedade católica, que através de Maria chega sempre a seu Filho divino, o Senhor Jesus. Por outro lado, não uso o escapulário, e dele não faço propaganda; não concordo com devoções inventadas como a de “Nossa Senhora desatadora dos nós”; não consigo entender essas aparições diárias de Medjugorie e as “locuções interiores” do Pe. Stefano Gobbi etc, etc.”.

Sempre que possível – não todos os dias! – rezava o terço, que carregava sempre consigo; sempre que visita Azambuja, vai à gruta e entra no Santuário; na Capela do Instituto Teológico, achava que se valoriza pouco a imagem (um biblista falar assim!) de “Nossa Senhora do ITESC”… Enfim, procura levar a sério a advertência da segunda carta de João, contra os “avançados” que não “permanecem”: Todo aquele que avança e não permanece na doutrina do Cristo, não possui a Deus (2Jo 9). É claro que há toda uma discussão e análise a ser feita do que seja esse “permanecer”, mas não é o caso aqui.

Pe. Ney – humildade, bondade e fidelidade

Pe. Ney, apesar de todos os seus méritos, trabalhos e títulos, é um homem que fez da simplicidade um estilo de vida. Em nenhum momento fez questão de ostentar conhecimento e obra: a humildade trouxe-lhe a paz para poder trabalhar mais.

Viveu pobremente. A mesma mala que levou seus pertences a Roma em 1952 levou-os em 1970 e trouxe-os de volta em 1973. Seu guarda-roupa foi imutável por anos.

Era conhecida entre os pobres e mendigos (muitos ex-presidiários) de Florianópolis a “lista do Pe. Ney” que, mensalmente, fazia distribuição de dinheiro. A fila chegou a causar transtornos no ITESC….

Metódico, Pe. Ney escreveu um Diário desde 1943 até o retorno de Roma após a ordenação e recomeçou-o quando esteve nos Estados Unidos e depois, durante o triênio do Instituto Bíblico. Também anotou rigorosamente em Livro Caixa todas as suas despesas, por menores que fossem. E, no mesmo método, o Caderno de Missas, onde constava a intenção, o horário, local e dia das Celebrações eucarísticas desde a Ordenação.

Sua escrivaninha é um depósito desordenado onde cada coisa está exatamente situada e encontrável a qualquer momento, por ele.

Mas, no coração sacerdotal de Pe. Ney podemos salientar a fidelidade à Igreja e suas instituições, o que não o impedia de manifestar pensamento crítico. Fidelidade à formação sacerdotal que o faz suportar com perseverança as dores de quem conviveu com estudantes de teologia por 43 anos e deles escutava a crítica, até pessoal, mas sem ceder a modismos ou rancores.

Também não foi um homem com ciúmes do próprio saber: era feliz em ver alunos crescerem no conhecimento e buscava promovê-los desinteressadamente. A inveja não encontrou hospedagem em sua vida.

No outono da existência, um testemunho pessoal

pe-ney-brasilPerguntado sobre seus sentimentos no outono da existência, Pe. Ney assim respondeu:

“São vários. Um deles, a íntima, profunda gratidão, por tantas oportunidades que tive em minha vida, tantos sonhos realizados, tantos favores recebidos. Gratidão, portanto, a Deus, fonte de todo bem, e a tantos instrumentos humanos da Sua providência: tantos amigos e amigas, também em outros países e continentes, tantos que já me precederam na Casa do Pai, e tantos que continuam a caminhada comigo. Mas também angústia: angústia por tanto sofrimento no mundo, perto e longe de mim, sofrimento que é tão difícil entender! Por isso mesmo, procurando respostas, encontro-as em alguns textos da Bíblia. A começar do primeiro versículo, a meu ver fundamental: No princípio, Deus criou o céu e a terra (Gn 1,1). É que aí encontro a cosmovisão fundamental, da qual depende todo o resto: crer, ou não crer. Admitida esta cosmovisão da fé, o resto é conseqüência. Este Deus criador é Amor, como proclama o Discípulo amado na sua primeira carta (1Jo 4.8.16), verdade sublime, porém, que só será crível na medida em que for traduzida, concretizada, feita carne, como o próprio Deus se fez, em seu Filho (cf Jo 1,14). Este Filho amou-nos até o fim (Jo 13,1). E antes de passar deste mundo ao Pai, deixou-nos dois gestos, dois ritos, característicos de seus discípulos: o lava-pés e a Eucaristia. Uma destas graças imerecidas da minha vida é este privilégio, sublime, de presidir o rito eucarístico. Se não me engano em minhas anotações, cheguei, hoje, (10 de novembro de 2005), ao total de 22.240 missas! E posso confessar, como tantos outros presbíteros antes de mim, que ainda não esgotei – e não esgotarei nunca – a  riqueza infinita do conteúdo de um gesto tão simples: Tomai… Comei… Terminando esta confidência, revelo o conteúdo de minha oração. Estando no ITESC, gosto de rezar a liturgia das Horas diante do Santíssimo, gosto de dar entradinhas rápidas na Capela, mas não tenho o hábito da contemplação. Acompanha-me, porém, constantemente, a oração do peregrino: Senhor, tem compaixão de mim!, um “mim”, aliás, que sempre inclui o “nós”.  Ou, quando penso na violência ou no perigo que nos rondam, a mim e aos outros, vem-me espontaneamente, freqüentemente, a invocação final do Pai-nosso: Livra-nos do mal! Constantemente, também, rezo pelos presos e pelos pobres… E assim, equilibrando-me entre a gratidão e a angústia, vou levando, lutando, trabalhando, esperando, na certeza de que Ele está comigo, melhor dizendo, está conosco, no meio de nós!”.

Pe. Ney Brasil Pereira foi incansável viajante. Sempre que as economias permitissem, embarcava para Congressos, Encontros, passeios. Não dava aviso prévio. Às vezes, era comentário, não se sabia se estava indo ou retornando. Sua última viagem não foi realizada: foi impedido pela internação hospitalar que o levou à morte. Pe. Vânio da Silva, reitor do “Convívio Emaús”, cancelou a reserva: Pe. Ney iria a Roma e, de lá, realizaria o sonho de conhecer a cidade de sua querida Santa Catarina, em Alexandria no Egito.

Pe. José Artulino Besen

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MISERICORDIA ET MÍSERA

Abraço de Francisco

Abraço de Francisco

No dia 13 de março de 2015, segundo aniversário de seu Pontificado, numa liturgia penitencial Francisco anunciou a celebração de “Um Jubileu extraordinário que tenha como centro a misericórdia de Deus. Será um Ano Santo da Misericórdia, para que vivamos à luz da palavra do Senhor: ‘Sede misericordiosos como o Pai’ (cfr. Lc 6, 36)”. Nesta celebração foi proclamado o Evangelho da mulher pecadora (Lc 7, 36-50), que colocou-nos diante da misericórdia e do julgamento. Uma mulher perdoada porque muito amou.

Mulheres, ícones da misericórdia

008-misericordiaHoje, 20 de novembro de 2016, papa Francisco fechou a Porta Santa da basílica de São Pedro, encerrando o Jubileu extraordinário do 29º Ano Santo da Misericórdia. No dia 21, Francisco publicou a Carta Apostólica “Misericordia et misera”, e coloca-nos diante de outra mulher, perdoada porque muito amou (cf. 8, 1-11). “MISERICÓRDIA E MÍSERA (misericordia et misera) são as duas palavras que Santo Agostinho utiliza para descrever o encontro de Jesus com a adúltera (cf. Jo 8, 1-11). Não podia encontrar expressão mais bela e coerente do que esta, para fazer compreender o mistério do amor de Deus quando vem ao encontro do pecador:  ´Ficaram apenas eles dois: a mísera e a misericórdia’”.

Objetivo do Jubileu foi agradecer a Deus Pai por sua eterna misericórdia e avivar sempre mais intensamente nossa fé/confiança na misericórdia divina. Francisco mergulhou o Ano Santo no despertar para o Concílio do Vaticano II (1962-1965) e sua mensagem de abertura eclesial para o mundo dos pobres, a Igreja servidora, Igreja missionária em saída, hospital de campanha, o diálogo ecumênico e inter-religioso.

 A partir da bula “Misericordiae Vultus” foi tocante e desafiador o compromisso papal com as obras da misericórdia corporal e espiritual, já um pouco esquecidas e agora reavivadas com a força do Espírito que impele a Igreja à misericórdia divina e à misericórdia com o próximo. A misericórdia foi orientada para os pobres, as vítimas da “guerra mundial em pedaços”, os 65 milhões de migrantes forçados, rejeitados como lixo pelas potências, a paz entre as nações, nela incluída a participação efetiva na pacificação interna da Venezuela, da Colômbia, de Cuba, de nações africanas em conflito. E, deve ser sempre mais recordado, o cuidado com a Casa Comum, o meio-ambiente, que mereceu a rica encíclica “Laudato si”. Francisco tornou-se a voz incômoda ao defender os pobres e a paz, defender a natureza violentada e que gera mais pobres. Com a “Amoris Laetitia” entoa um hino de louvor à família cristã e um hino de compreensão com os casais cuja primeira união fracassou. Ninguém está excluído do amor divino e do amor eclesial. Àqueles que preferem as certezas jurídicas admoesta: “certos rigorismos nascem de uma carência, de querer esconder dentro de uma armadura sua triste insatisfação pessoal”.

Peregrino da misericórdia

007-misericordiaNas Sextas-feiras da Misericórdia, Francisco realizou uma obra de misericórdia, dentro e fora de Roma, e podemos citar: o encontro amigo com prostitutas, travestis, transformers e gays, a visita às prisões, visita a doentes terminais, a jovens resgatadas da exploração sexual, aos tóxico-dependentes, recém-nascidos doentes, a favelas, celebração com presidiários e seus familiares na Basílica vaticana, a visita aos migrantes alojados na ilha grega de Lesbos que funciona como depósito de migrantes e cemitério de esperanças; visitou de improviso sete ex-padres e suas famílias, encontrou-se com os sem-teto, em outras palavras, colocou os excluídos e as periferias do mundo e da Igreja no centro da Igreja; e a canonização de Santa Teresa de Calcutá.

Viajou, e muito para um homem de 79 anos, para países das periferias geo-políticas, visitando católicos, ortodoxos, protestantes, judeus e muçulmanos, a ninguém rotulando de fieis ou hereges, revelando um coração completamente dominado pelo amor sem medida para os filhos de Deus. Não é dominado pelo instinto de conquista para as estatísticas católicas, inclusive rotulando de pecado o proselitismo, a pescaria de almas: “O proselitismo entre cristãos é um pecado grave. A Igreja não é um time de futebol à procura de torcedores” (Avvenire, 18/11/2016). Revelou profundo e respeitoso afeto e veneração por todas as autoridades religiosas que visitou ou recebeu em Roma.

Sem receio das críticas, foi a Lund, na Suécia, participar da inauguração do 5º Centenário da Reforma luterana. Francisco fala do caminho da Igreja para viver e testemunhar o Evangelho como caminho de misericórdia e não como ideologia. “A viagem foi mais um passo para fazer compreender o escândalo da divisão, e que deve ser superado com gestos de unidade e de fraternidade” (no no avião, de retorno de Lund, 01/11).

Foram muitos os passos dados no Ano Santo no caminho da reconciliação entre cristãos, mas os tempos da plena unidade são estabelecidos pelo Espírito Santo: “Para o ecumenismo é decisivo juntos servir os pobres, ‘a carne de Cristo’, sem contrapor doutrina e caridade pastoral’ (idem).

O Papa, além da caridade, inclui no ecumenismo os encontros e as viagens, que muito ajudam a fraternidade e fazem-na crescer. Entabular processos ao invés de ocupar espaços é a chave do caminho ecumênico. Para os que julgam o caminho ecumênico muito lento, iniciado há 50 anos, Francisco diz que “não podemos ser impacientes, desencorajados, ansiosos. O caminho exige paciência no preservar e melhorar o que já existe, que é muito mais do que o que divide”: a unidade não acontece porque nos colocamos de acordo entre nós, mas porque caminhamos seguindo Jesus (Avvenire 19-11). Para pedir a unidade entre nós cristãos somente basta contemplar Jesus e suplicar que o Espírito Santo opere em nós.

Francisco julga que a unidade dos cristãos é feita em três estradas: caminhando juntos, com as obras de caridade; rezando juntos e reconhecendo a confissão de fé comum que se expressa no martírio comum recebido no nome de Cristo, e no ecumenismo de sangue.

Cantar, sempre, a divina Misericórdia

O Jubileu foi um hino à misericórdia do Pai, ao Senhor, rosto da misericórdia. Foi o confronto entre o “amor louco” de Deus por seu povo e a nossa infidelidade. O amor de Deus “sem medidas” de um lado e, do outro, “a resposta do povo egoísta, duvidosa, adúltera, idolátrica”.

“O que faz sofrer o coração de Jesus Cristo é essa história de infidelidade, de não reconhecer as carícias de Deus, o amor de Deus, de um Deus enamorado que te procura, que deseja que também tu sejas feliz” (Santa Marta, 17/11/2016).

Francisco está convencido de que o câncer da Igreja é o dar-se glória um ao outro, buscar o prestígio, lógica da ambição do poder. A Igreja é o Evangelho, a autorreferencialidade é o câncer. É obra de Jesus Cristo, que cresce por atração. Quando prevalece a tentação de construir uma Igreja “autorreferencial” que em vez de olhar a Cristo olha a si mesma, surgem as contraposições e divisões: o câncer é um glorificar o outro. A Igreja não tem luz própria, somente “existe” como instrumento para comunicar aos homens o plano misericordioso de Deus.

Ser cristão é viver e anunciar a misericórdia

Conversa amiga com dois Cardeais

Conversa amiga com dois Cardeais

Com seu Consistório de 19 de novembro, o Papa ampliou as fronteiras do mundo, incluindo no Colégio cardinalício nações nunca representadas, com isso deslocando o eixo católico dos velhos centros europeus para as periferias onde moram os pobres. Os três Consistórios de Francisco premiaram pastores com “cheiro das ovelhas”, dioceses periféricas, continentes pouco representados. São 17 novos cardeais que na Igreja devem ser bem mais do que príncipes: são missionários nos pontos mais distantes e muitas vezes mais atribulados do mundo.

A coragem de ser pobre é outro tema em que Francisco insiste nos encontros jubilares com bispos, padres, religiosos, diplomatas: o povo de Deus tem imensa capacidade de perdoar as fraquezas e pecados dos padres, mas não consegue perdoar dois: o apego ao dinheiro e quando o padre maltrata os fieis (Santa Marta, 18/11/2016).

Como fruto principal do Ano Santo da Misericórdia o Papa espera que muitas pessoas tenham descoberto que são muito amadas pelo Senhor, recordando que o amor de Deus e do próximo são “inseparáveis”: servir os pobres significa servir Cristo, porque os pobres são a carne de Cristo (Avvenire, 19/11/2016).

Para encerrar, essas palavras de Francisco no Consistório (19/11/2016):

“O inimigo é alguém que devo amar. No coração de Deus não há inimigos, Deus tem somente filhos. Nós erguemos muros, construímos barreiras e classificamos as pessoas. Deus tem filhos, e não para afastá-los de sua companhia”.

“O nosso Pai não espera para amar o mundo quando formos bons, não espera para amar-nos quando seremos menos injustos ou perfeitos; ama-nos porque decidiu amar-nos, ama-nos porque nos deu o estatuto de filhos. Amou-nos quando éramos seus inimigos. O amor incondicionado do Pai por todos foi, e é, verdadeira exigência de conversão para o nosso pobre coração que tende a julgar, dividir, opor e condenar. Saber que Deus continua a amar também quem o rejeita é uma fonte ilimitada de confiança e estimulo para a missão”.


Pe. José Artulino Besen 

 

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PADRE PEDRO LUIZ AZEVEDO

Padre Pedro Luiz Azevedo

Padre Pedro Luiz Azevedo

Fiquei feliz ao receber do Pe. Flávio Feler um exemplar do livro “Homilias do Pe. Pedro Luiz Azevedo”, publicado em 2013. Foi um gesto de gratidão de Pe. Flávio, ao sacerdote que era seu pároco em Canelinha à época de sua ordenação presbiteral. O livro contém homilias breves, bem preparadas e destinadas a celebrações de jubileus, casamentos, sepultamentos. Entre as muitas que algum distraído jogou no lixo, foram as poucas que sobraram, felizmente, e permitem penetrar na alma sacerdotal de Pe. Pedro.

Somos gratos ao Pe. Flávio por esse gesto amigo e que nos dá acesso à alma pastoral do Pe. Pedro.

O chamado de Deus

Padre Pedro Luiz Azevedo nasceu em Brusque em 5 de fevereiro de 1955, último filho de Marcelino Azevedo e de Guilhermina Ramos Azevedo. Era morador da Rua Nova Trento, que liga Azambuja à Rua 1º de Maio. Pela vizinhança com o Seminário Menor, conhecia quase todos os seminaristas, especialmente os estudantes de filosofia. Foi sempre amigo humilde de todos.

Importante para sua formação cristã foi o casal Hilário e Raquel Bernardo, que muito o incentivaram a participar do grupo jovem do Santuário, o COJA – Companhia de Jovens de Azambuja, que frequentou de 1973 a 1978. Foi atuante na pastoral litúrgica e da juventude brusquense.

Como operário, trabalhou no setor de recursos humanos do SENAI e, ao mesmo tempo, cursou a faculdade de Estudos Sociais na Fundação Educacional de Brusque – FEBE. Pe. Alvino Milani, formador no seminário menor, foi importante no seu encaminhamento cristão e vocacional. Nesse período eu era assistente dos estudantes de filosofia residentes no Seminário de Azambuja e escutei que Pedro pensava em ser padre, mas não queria entrar no Seminário porque precisava trabalhar e gostava da liberdade. De certa forma isso era um problema, pois a norma previa o ingresso no Seminário para aprofundamento da fé e da vida comunitária.Teimoso, decidiu arriscar para ver. Lembro que num dia lhe falei que o caminho não era esse e que se o arcebispo me pedisse recomendação, não daria.

Mas, a vida é melhor do que as normas e no final de 1978, Pedro pediu para falar comigo e veio exatamente para solicitar a Carta de recomendação. Ele sentiu-se grato, porque logo o atendi e escrevi a Dom Afonso Niehues recomendando-o e falando de suas qualidades para o ministério. Eram palavras verdadeiras.

Os próximos quatro anos Pedro estudou Teologia no Instituto Teológico de Santa Catarina – ITESC em Florianópolis. Os finais de semana de 1979-1980 fez estágio pastoral em Canelinha, acompanhado pelo Pe. Sérgio Giacomelli e nos anos de 1981-1982 trabalhou em Tijucas, com Monsenhor Augusto Zucco, homem enérgico e afamado por disciplinar quem trabalhasse com ele. Por onde passava, Pedro Azevedo se empenhava nos grupos jovens, de coroinhas e nas equipes de Liturgia. Seu espírito alegre, bem humorado, conquistou muitos amigos. Mesmo irritado, às vezes desbocado, era incapaz de ofender alguém. Era seu dom.

A alegria do ministério sacerdotal

Padre Pedro Luiz Azevedo

Padre Pedro Luiz Azevedo

Concluídos os estudos, em 31 de julho de 1982 foi ordenado Diácono na igreja matriz de Tijucas. Seu lema, muito verdadeiro: “Tu me amas? Senhor, tu sabes que eu te amo” (Jo 21, 17). E, no dia 05 de dezembro de 1982, a ordenação Sacerdotal no Santuário de Azambuja, onde iniciou e alimentou sua fé. Bispo ordenante, Dom Afonso Niehues. Juntamente com ele outro brusquense foi ordenado padre, Gilberto Mafra (+ 1996). Seu lema: “Chamei-te pelo nome: és meu. És caro aos meus olhos, digno de estima, te amo” (Is 43, 1-5).

Seu primeiro campo de apostolado foi em Tijucas mesmo, até fevereiro de 1983, nas férias de Mons. Zucco. Em 11 de fevereiro de 1983 recebeu a provisão de vigário paroquial da paróquia Senhor Bom Jesus de Nazaré, em Palhoça. Ali, muito trabalhou e aprendeu com o zeloso Pe. Alvino Introvini Milani, numa grande paróquia hoje dividida em seis comunidades paroquiais. Sua alegria e bom humor contagiavam a todos e até estimulou a construção de uma capela na localidade de Pachecos, cujo padroeiro ficou sendo São Pedro, em homenagem ao Pe. Pedro e aos muitos Pedros do lugar.

Com a morte repentina de Monsenhor Augusto Zucco, em 1987, foi provisionado pároco de Tijucas em 28 de maio. Já amava e muito amou essa Paróquia onde trabalhara como estudante e neo-sacerdote e onde tinha grande número de amigos. Pe. Pedro gostaria de permanecer muitos anos em Tijucas mas, em 28 de dezembro de 1994 o novo arcebispo Dom Eusébio Oscar Scheid, SCJ, o transferiu para Anitápolis, grande paróquia, mas na serra, isolada do mundo onde vivera. Eram 15 capelas, com poucos habitantes, a 85 km. de Florianópolis.

Obediente, Pe. Pedro assumiu o trabalho. Sofreu muito a solidão, a distância dos amigos. Quem o conhecia percebeu que a melancolia tomava conta de sua vida, ia perdendo o ânimo, o bom humor. E, talvez isso fosse mais grave, espantava a tristeza com a crescente dependência do álcool. Às vezes,  a vida da Igreja, em nome da presumida sabedoria das autoridades, se impõem serviços cujo maior serviço é afugentar o gosto pela vida. Nós sentíamos o isolamento de Pe. Pedro, o silêncio que o rodeava. Ali viveu e trabalhou até 20 de dezembro de 2002, data de sua nomeação para pároco de Sant’Ana de Canelinha, onde trabalhara e aprendera como seminarista, e perto de Tijucas. Conseguiu reanimar a paróquia, cujo pároco tinha saído da casa paroquial para o casamento.

O leito de dor é o altar de Pe. Pedro

Pe. Pedro Luiz Azevedo estava doente, tomado por crescente tristeza e pela doença que se insinuava em seu corpo. Mesmo sofrendo, marcava seu apostolado com a bondade, dedicação, seriedade e cultivando amizades. Em 07 de dezembro de 1993 sentiu o baque da perda da mãe Guilhermina, a quem estava muito ligado. Doente, de certo modo impondo-se o isolamento, não partilhava suas dores, e posso pensar o quanto foi valente e generoso em meio a tantos trabalhos, compromissos, capelas, enterros, casamentos, celebrações.

Não aceitou festejar seu jubileu de prata sacerdotal em 2007. Era avesso a qualquer tipo de festa, e escreveu: “todos os dias são dias de festa, basta saber vivê-los. Agradeço a Deus por esses 25 anos de ministério e a todos os que me ajudaram ao longo dessa caminhada”. Também não quis celebrar o cinquentenário da criação da paróquia de Sant’Ana, em 17 de janeiro de 2009.

Pe. Pedro não aceitava submeter-se a um tratamento mais prolongado, que lhe foi oferecido, e assim o câncer no fígado foi dominando seu organismo. Quem o via sozinho, sentado na calçada da casa paroquial, em silêncio, não percebia que Pe. Pedro se preparava para morrer e, o que é mais doloroso, Pe. Pedro queria morrer.

Finalmente, em 10 de agosto de 2010 foi internado no Hospital de Tijucas, depois no Caridade de Florianópolis e, em busca de especialização, no Hospital Evangélico de Brusque. Foi longo e doloroso seu calvário de 47 dias. O arcebispo Dom Murilo Krieger assim falou na homilia exequial: “A morte de nosso irmão sacerdote Pe. Pedro Luiz Azevedo não foi uma surpresa para nós: surpresa foi sua resistência e a longa duração de seu Calvário. Como pude lhe dizer por ocasião da última visita que lhe fiz, na UTI do Hospital Evangélico, em Brusque: Hoje, sua cama é seu altar; seus sofrimentos se unem aos sofrimentos de Cristo; mais do que nunca, você está vivendo seu sacerdócio”.

Na última visita que Dom Murilo lhe fez, ele não podia mais falar mas, ao chegar perto de sua cama, viu que uma lágrima descia pelo canto de seus olhos: “Aquela lágrima era uma palavra, uma grande palavra, ainda mais partindo dele, que sempre procurava disfarçar seus sentimentos. Que esta sua lágrima, expressão de tudo o que viveu nas últimas semanas de sua vida, seja fonte de vida para muitos e de novas vocações sacerdotais para a Igreja”.

Após 57 anos de existência e 28 dedicados ao sacerdócio, às 21 horas de 07 de outubro de 2010, Pe. Pedro nos deixou. No dia seguinte, dia 08, seu corpo foi velado na igreja matriz de Sant’Ana de Canelinha, com a sentida presença do povo. Às 15 horas, Dom Murilo presidiu a Missa de Exéquias e, em seguida, seus restos mortais foram sepultados no cemitério Parque da Saudade em Brusque, na área reservada aos padres diocesanos de Florianópolis.

Pe. Pedro, na sua simplicidade pessoal e seriedade no trabalho,  deixou-nos a recordação um homem digno do nome sacerdotal.


Pe. José Artulino Besen

 

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PAPA FRANCISCO NOS 500 ANOS DA REFORMA

Francisco visita os luteranos na Suécia

Francisco visita os luteranos na Suécia

No dia 31 de outubro de 1517 Frei Martinho Lutero afixou suas 95 teses sobre as Indulgências na porta da igreja de Todos os Santos em Wittenberg. Foi o início não planejado da Reforma que levou à divisão da Igreja entre Católica e Luterana, levou às guerras religiosas, à fragmentação da Alemanha, à divisão da unidade européia que tinha como fundamento histórico a fé católica. Somente a Itália, Espanha e Portugal permaneceram católicos.

No dia 31 de outubro de 2016, o Papa Francisco e Igrejas luteranas celebrarão um Culto ecumênico pela passagem dos 500 anos do início da Reforma, com o tema da ação de graças, da penitência e do compromisso no testemunho comum. O objetivo é expressar os dons da Reforma e pedir perdão pela divisão perpetuada pelos cristãos das duas tradições. E, pela primeira vez, a celebração não será marcada pelos ataques teológicos, pela culpabilização, pela busca de quem estava/está certo ou errado. Afinal, quando se processa uma divisão entre irmãos na fé, com o ódio pelo outro, há culpa e acerto nos dois lados. Ecclesia semper reformanda é um mandamento que vale para o século XVI e o século XXI. Do mesmo modo que Francisco busca renovar a Igreja católica a partir da fidelidade ao Evangelho, os evangélicos também necessitam de uma renovação interior no confronto com as Sagradas Escrituras.

O encontro celebrativo dos 500 anos da Reforma será em Lund, cidade sueca onde em 1947 foi fundada a Federação Luterana Mundial, que hoje congrega 147 Igrejas protestantes.

Alguns dados biográficos do reformador alemão

Martinho Lutero (Martin Luther) nasceu em 1483 em Eisleben, de pais camponeses. Vencendo as limitações econômicas da família, entre 1501-1505 estudou na Universidade de Erfurt. Em 18 de julho de 1505, após muitas dúvidas e reflexões, entrou no Convento dos Eremitas Agostinianos de Erfurt, onde foi ordenado padre em 1507.

Em 1512, Lutero é superior do Convento Agostiniano de Wittenberg, doutor em teologia e em exegese bíblica, lecionando as Cartas paulinas aos Gálatas e ao Romanos.

Por uma formação religiosa deficiente, onde contava muito o peso e o medo da condenação eterna, Lutero sofria o pavor do inferno, e era escrupuloso. Alcançou a paz interior entre 1512-1513, na famosa Experiência da Torre (Turmerlebnis): após muita oração, Deus lhe permitiu descobrir que a salvação é dada ao homem somente pela fé em Cristo, como puro dom, e não como recompensa pelas obras: “O justo vive pela fé”  (Rm 1,17). Sentiu paz interior e nunca mais a perdeu, mesmo no ardor dos embates em que esteve envolvido.

Frei Martinho Lutero, um homem religioso

Martinho Lutero não era um monge corrupto, degenerado, psicopata, mentiroso, como durante séculos quis ensinar a apologética católica. Foi monge, viveu como monge e morreu casado; não foi anjo, nem demônio, mas testemunha de Cristo. O século XVI, século da Reforma, mostrou com clareza as deficiências da organização eclesiástica e, o que era mais grave, as deficiências na condução da espiritualidade e piedade cristãs.

Hoje, todos reconhecem em Lutero uma autêntica religiosidade. Teve uma experiência pessoal de Deus, um autêntico sentido do pecado e da própria nulidade, que vencia por uma entrega total a Cristo e uma confiança cega nele e em sua redenção. Possuía um sentido trágico da miséria humana, da qual deriva a escassa ou quase nula utilidade das muitas práticas religiosas. Grande apego à oração e uma imensa confiança na graça. A tudo isso, unia um grande amor pelos pobres.

Pela sua índole, pelos seus dotes de pregador, de chefe, de guia, pela vivíssima fantasia, rica em imagens, demonstrava estar convencido de ser enviado por Deus para anunciar uma experiência íntima e transformadora, único caminho de paz e salvação. Lutero tinha sido feito para inflamar as massas populares e convencer e agitar os ouvintes. O dom de comando, nele, se unia a uma irradiação interior e grande sensibilidade pelos outros.

Era dotado de caráter forte, unilateral, impulsivo, forte subjetivismo, com pouca disposição para aceitar mediadores entre Deus e os homens. Autêntica e profunda religiosidade, mas tendência ao autoritarismo e violência. Mesmo reconhecendo nele toda a seriedade religiosa, pode-se afirmar que faltou-lhe uma autêntica humildade, a capacidade de ouvir os outros, a Igreja.

O jesuíta alemão Ludwig Hertling, historiador da Igreja católica, reconhecendo a aventura espiritual de Lutero, afirma que por sua personalidade, força de comando, acentuou no caráter alemão algumas características que se impuseram nos séculos seguintes, até de modo trágico: a autossuficiência, arrogância, orgulho nacional, o sentido dos deveres cívicos.

É fácil e confortável apontar as deficiências de um homem, mas não se pode ignorar que Lutero foi um homem religioso, homem de oração. Sua vida não pode ser confundida com as turbulências da Reforma, onde o desejo de uma fé pura misturou-se com a ambição de príncipes ansiosos para tirar proveito das divisões e apossar-se dos bens da Igreja.

O papa João Paulo II [1], escreveu em 31 de outubro de 1983 : “Os esforços dos evangélicos e católicos que, em grande medida, coincidem nos resultados, permitiram delinear um quadro mais complexo e articulado da personalidade de Lutero e do complexo entrelaçamento das circunstâncias históricas, da sociedade, da vida política e da Igreja na primeira metade do século XVI. Resplandeceu evidente a profunda religiosidade de Lutero, com a sua problemática da salvação eterna vivida com ardente paixão”.

Os estudos do século XX revelaram com clareza a profunda religiosidade de Lutero, homem cujo impulso e paixão era a pergunta sobre a salvação eterna.

Tudo requer uma pesquisa sem preconceitos para se revelar uma imagem justa do reformador, e não somente dele, mas do período da Reforma e das pessoas nela envolvidas, reconhecendo a culpa de uma e de outra parte. Uma atitude de purificação através da verdade permite-nos encontrar uma comum interpretação do passado e, ao mesmo tempo, construir um novo ponto de partida para o diálogo hoje obtido pela clareza histórica.

O estudo dos escritos confessionais evangélico-luteranos encontram sua base sólida naquilo que nos une também depois da separação: a Palavra da Escritura, as Profissões de Fé e os Concílios da Igreja antiga.

João Paulo II, conclui: “Na humilde contemplação do Mistério da divina Providência e na devota escuta daquilo que o Espírito de Deus hoje nos ensina na recordação dos acontecimentos da época da Reforma, a Igreja tende a dilatar os limites de seu amor, para ir ao encontro da unidade de todos aqueles que, através do Batismo, carregam no nome de Jesus Cristo”.

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O drama de Martinho Lutero: como posso me salvar?

Lutero saiu da Igreja após séria luta e sem ter intenção de fazê-lo. Tornou-se reformador na luta contra uma interpretação do catolicismo que de fato era cheia de deficiências. Deixou a Igreja para descobrir aquilo que é o centro da própria Igreja: o primado da graça.

Por que houve a Reforma? Hoje podemos afirmar que ela foi provocada pelos católicos, pois Lutero era católico, monge sério e sincero, que nunca quis deixar de ser católico. Séculos de aversão a Roma, envolvida na política internacional, mergulhada no Humanismo renascentista, a decadência da própria vida católica alemã, com uma hierarquia não livre de máculas morais e corrupções (houve bispos que não celebraram três missas em longo episcopado!), mosteiros decadentes, fizeram com que boa parte da população alemã visse na pregação de Martinho Lutero o renascer do verdadeiro Cristianismo. Isso ajuda a entender porque tantos alemães, desde Carlos Magno fiéis e dóceis ao Papa, tenham aceitado romper a unidade católica.

Bento XVI analisou com empatia a questão central de Frei Lutero[2]: O que não lhe dava paz era a questão sobre Deus, que foi a paixão profunda e a mola mestra de sua vida e de seu caminho. “Como posso ter um Deus misericordioso?”: esta pergunta lhe penetrava no coração e estava por trás de toda sua pesquisa teológica e de toda a luta interior. Para Lutero, a teologia não era uma questão acadêmica, mas a luta interior consigo mesmo, na luta a respeito de Deus e com Deus. “Como posso ter um Deus misericordioso?”. Escreve Bento XVI: “que esta pergunta tenha sido a força motora de todo o seu caminho me toca sempre novamente o coração. De fato, quem hoje ainda se preocupa com isso, mesmo entre os cristãos? O que significa a questão sobre Deus em nossa vida?”.

 A pergunta “qual é a posição de Deus em relação a mim? Como eu me encontro diante de Deus?”, esta palpitante pergunta de Lutero deve novamente, e em forma nova, ser a nossa pergunta, não acadêmica, mas concreta.

O pensamento de Lutero, toda a sua espiritualidade era de todo cristocêntrica: “O que promove a causa de Cristo” era, para Lutero, o critério hermenêutico decisivo na interpretação da Sagrada Escritura. Isto pressupõe que Cristo seja o centro de nossa espiritualidade e que o amor por ele, o viver junto com ele oriente a nossa vida.

A coisa mais necessária para o ecumenismo é, antes de tudo que, sob a pressão da secularização, inadvertidamente não percamos as
grandes coisas que temos em comum, que nos tornam cristãos. O erro da época confessional foi ter visto mais o que separa, e não ter percebido em modo existencial aquilo que temos em comum nas grandes diretrizes da Sagrada Escritura e nas Profissões de fé do cristianismo antigo.

Em sua passagem por Lund, casa mundial do Luteranismo, Francisco nos ensinará a levar adiante, com decisão, o caminho do ecumenismo, da busca da unidade na diversidade.

Pe. José Artulino Besen


[1] Mensagem de João Paulo II ao Cardeal J. Willebrands, Presidente do Secretariado para a unidade dos Cristãos, em 31 de outubro de 1983, por ocasião do 5o centenário de nascimento de Lutero.

[2] Discurso de Bento XVI no encontro com representantes da Igreja Evangélica na Alemanha, em 23 de setembro d 2011, na Sala do Capítulo do ex-Convento dos Agostinianos de Erfurt.

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PADRE EVARISTO DEBIASI

Pe. Evaristo - Homilia na Santa Missa em 25-02-2014

Pe. Evaristo – Homilia na Santa Missa em 25-02-2014

Normalmente escrevo sobre pessoas que já encerraram o caminho terreno, pois a distância possibilita o olhar mais objetivo, liberto dos condicionamentos da proximidade. Hoje faço uma exceção: desde janeiro, Pe. Evaristo Debiasi vive prisioneiro de seu corpo  no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. Graves complicações, surgidas no momento da anestesia, nos privaram desse grande sacerdote e amigo. Seus amigos esperam que retornará a comunicar-se com o nosso mundo e o seu mundo. Vive, mas somente como presença, sem a palavra, sem os gestos. Por esse motivo, escrevo essas páginas a respeito do sacerdote que não viveu para si, mas que fez-se entrega a tantos que o procuraram como diretor espiritual, conselheiro, amigo. Não reservou tempo para si, para sofrimentos pessoais, porque sua vida foi a dos outros, suas dores, as dos que o procuraram.

Evaristo Debiasi nasceu em Barracão, Orleans em 19 de dezembro de 1939, filho de Sílvio Debiasi e Dorvalina Mazon Debiasi.

Estudou no Pré-seminário de São Ludgero e no Seminário Menor Metropolitano de Azambuja, Brusque, onde cursou o Ginásio e o Clássico. Caracterizou-se pela amizade fácil e verdadeira com todos e foi hábil tocador de violino na orquestra que acompanhava o coral do Seminário.

Os cursos de Filosofia e o de Teologia foram completados no Seminário Nossa Senhora da Assunção, em Viamão, RS. Foi ordenado padre por Dom Frei Anselmo Pietrulla, bispo de Tubarão, em 23 de julho de 1967. O segundo semestre desse ano, suas primícias sacerdotais foram vividas na catedral diocesana de Tubarão. Desde Viamão, como seminarista e agora, como padre, característica marcante foi a capacidade de comunicação: a bela voz grave, o porte físico imponente, atraía todas as pessoas que se encontravam com ele e dele recebiam uma palavra clara, amorosa.

Devido à capacidade de comunicação e de orientar com discernimento, em 12 de janeiro de 1968 foi nomeado Assistente espiritual no Instituto Provincial Catarinense em Curitiba, o PAULINUM, onde estudavam os seminaristas maiores de Santa Catarina. Era um ambiente complexo e multiforme, pois devia atender os candidatos ao ministério sacerdotal de todas as dioceses catarinenses, o que significava harmonizar mentalidades diversificadas, numa época de crise marcada pelas incertezas na formação. No mundo, o ano de 1968 simbolizou a ruptura com os valores tradicionais da autoridade, da família, da Igreja. Tudo era contestado sob o slogan “é proibido proibir”. “Sejamos realistas; peçamos o impossível”, foi a divisa do Maio de 68.

O Concílio do Vaticano II terminara em 1965 e sua abertura a uma eclesiologia de comunhão colocava novas perguntas para as quais ainda não se tinha resposta clara, especialmente a “qual é a imagem do padre?”. Discutia-se o exercício do ministério e até se esperava a abertura ao celibato opcional. Numa Igreja ministerial, o que sobraria para o padre? Um tempo rico, mas difícil para os padres orientadores do período: Pe. Afonso Paulo Guimarães, Pe. Osmar Pedro Müller, Pe. Paulo Bratti e Pe. Evaristo.

Devido a seu temperamento conciliador, seu acolhimento de cada seminarista, capacidade de animar e diminuir os dramas pessoais, foi o padre certo na hora certa. Bom número de decisões vocacionais pelo sacerdócio tiveram origem na sua capacidade de aconselhar. Com Pe. Evaristo, ninguém se sentia inútil, nenhum problema era um problemão.

O PAULINUM viveu uma experiência dolorosa em 1970, com a saída para o casamento de seu padre Reitor. Fato inesperado, sem dúvida. Nesse momento, o nome que sanaria o drama e recolocaria o clima de confiança era um: Padre Evaristo Debiasi. E assim, em 17 de abril de 1971 os bispos catarinenses nomearam-no Reitor do PAULINUM. Em 24 de abril de 1971 foi nomeado professor no Instituto Teológico de Curitiba, o ITC. Pe. Evaristo não era somente professor, era o professor. Nesse período, sua alegria de ser padre, a sabedoria nos momentos de conflito, a incapacidade de tratar alguém de modo ríspido foram fundamentais. No atendimento pessoal, problemas e defeitos eram apenas desafios colocados por Deus e vencidos no amor divino.

Havia uma nova situação: o episcopado catarinense decidira, finalmente, sediar em Santa Catarina os estudos filosóficos e teológicos, de modo que, a partir de 1970, não mais foram encaminhados seminaristas para Curitiba, cada diocese procurando um meio de garantir os estudos humanísticos no próprio seu território, enquanto se providenciava a transferência da Faculdade de Teologia para Florianópolis, o que  aconteceu em 1973, com a criação do Instituto Teológico de Santa Catarina-ITESC. Os últimos seminaristas do PAULINUM foram ordenados em 1973.

Devido à capacidade comunicativa e espiritualidade pessoal de Pe. Evaristo, os bispos catarinenses indicaram-no para aprofundar em Roma os estudos teológicos, o que ele fez de 1973 a 1975, obtendo o mestrado em Teologia dogmática pela Universidade Gregoriana. Sua presença em Roma, no Pio Brasileiro e na Universidade Gregoriana foi um “sucesso”, no sentido que era procurado por padres e religiosas da cidade para retiros, conferências e aconselhamento. Sua encantadora humildade e palavras de vida eram extraordinárias para as religiosas romanas. Pe. Evaristo não era nenhum mestre na língua italiana, que aprendera no dialeto vêneto mas, por incrível que pareça, fazia-se entender porque, acima de tudo, era um rosto e uma voz a serviço da palavra “amor”. Com uma dúzia de palavras também ministrava palestras em alemão. Magnetizava pela presença humana e espiritual. Essa foi sempre sua arte e virtude.

Ao retornar ao Brasil, em 1976, recebeu duas missões importantes: ser orientador espiritual no Seminário Nossa Senhora de Fátima, em Tubarão, e professor no Instituto Teológico de Santa Catarina, ITESC, em Florianópolis. Ali fez companhia ao reitor Pe. Paulo Bratti e a seu antigo professor, Pe. Ney Brasil Pereira e ao ex-aluno Pe. Orlando Brandes.

Pe. Evaristo na AIS

Pe. Evaristo na AIS

Orientou o Seminário Nossa Senhora de Fátima com dois anos de residência, depois viajando semanalmente para oferecer o atendimento. Foi um tempo muito difícil pelas mudanças bruscas introduzidas e que alteraram profundamente o modelo pedagógico do seminário. Apesar disso, foi um tempo de muitas vocações e ordenações, garantindo sempre um razoável número de seminaristas e, depois, teólogos e sacerdotes.

Em 1978 veio residir em Florianópolis, como auxiliar direto do Pe. Paulo Bratti, que preferiu ser diretor do ITESC e ter Pe. Evaristo como Reitor do Seminário Maior em 1979, cargo em que permaneceu até 1982. A partir de 1983, Pe. Evaristo foi diretor espiritual do Seminário e, de modo especial, do Seminário Teológico da Diocese de Tubarão, em Florianópolis, missão que assumiu até os últimos dias.

No final da década de 90 deixou de lecionar, por não lhe sobrar tempo. Ministrava o curso de Escatologia, sobre as realidades últimas da vida humana: morte, juízo, inferno e paraíso. Deixou o magistério também porque sua bondade parecia excessiva, dizia-se, e que ninguém mais iria para o inferno… Pe. Evaristo tinha certeza, pois a última palavra é do amor misericordioso.

A partir de sua chegada à Capital catarinense, seu nome circulou velozmente nas camadas médias e ricas da população. A procura por um atendimento era tamanha que não lhe foi mais possível residir no Seminário, indo ocupar um apartamento no Centro. Falar com Pe. Evaristo dava status, certo extrato feminino chegava a mentir dizendo ter recebido um abraço, um beijo do pobre padre. Era tamanha a confiança nele que lhe foi entregue, pela Casa Civil do Governo estadual, um talão de cheques – sempre renovado, para usar em suas obras comunitárias e de caridade. Pe. Evaristo não quis se comprometer com esse tipo de confiança e entregava o talão a algum estudante de Teologia.

De todo lado surgiam pedidos para conferências, retiros, palestras em colégios, encontros familiares, sempre atendidos. Qual era o segredo desse padre, que não era um intelectual? Era o amor que comunicava, eram palavras certeiras para cicatrizar corações feridos, quase mergulhados no desespero, unindo psicologia profunda e fé. Nenhum coração atribulado saía “impune” de um atendimento. Fazia iniciar um processo de reconstrução pessoal.

Presidente do Movimento Porta Aberta

A ideia do Centro de Interação e Integração Humana de Santa Catarina – Movimento Porta Aberta, partiu do Pe. Paulo Bratti, então diretor do Instituto Teológico de Santa Catarina. Para ele, o pobre ou necessitado deveria encontrar uma porta aberta, alguém que lhe ouvisse as angústias nos momentos mais intensos de sofrimento. Assim, em 31 de julho de 1980 o centro foi fundado, também com o apoio do Pe. Evaristo Debiasi e de Bruno Rodolfo Schlemper (+ 1999).

No início oferecia apenas aconselhamento. A partir do ano de 1985, passou a profissionalizar os atendimentos. Hoje trabalham 40 psicólogos que se revezam de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 14h às 18h. Há profissionais voluntários que atuam há mais de 30 anos. Por ano, são atendidas acima de cinco mil pessoas, apenas de Florianópolis. Mas também passam pela Clínica do Porta Aberta crianças, adolescentes, adultos e idosos de Palhoça, São José, Biguaçu, Antônio Carlos e Santo Amaro da Imperatriz. O Centro funciona em Florianópolis, na Rua Álvaro de Carvalho, 155.

Pe. Evaristo e Bruno Schlemper entregaram-se de corpo e alma ao atendimento gratuito de tantos sofredores. Era bela a comunhão entre o Padre e o luterano Bruno. Diante de corações angustiados, cessam as divergências religiosas e brilha a unidade na caridade.

Assistente eclesiástico nacional da AIS Brasil

Fundada em 1947 pelo Padre Werenfried van Straaten, a Ajuda à Igreja que Sofre (Kirche in Not – AIS) hoje é uma Fundação Pontifícia cuja missão é apoiar projetos de cunho pastoral em países onde a Igreja Católica está em dificuldades, quer pela perseguição religiosa por causa de guerras e revoluções, quer pela miséria. Mais de 60 milhões de pessoas são beneficiadas todos os anos por meio dos mais de 5 mil projetos apoiados pela Ajuda à Igreja que Sofre – AIS em cerca de 140 países, incluindo o Brasil. Tudo isso graças aos seus mais de 600 mil benfeitores.

Ao ser convidado,  Pe. Evaristo Debiasi não relutou em assumir o ministério de Assistente Eclesiástico da AIS no Brasil. Fez sua casa a ponte aérea Florianópolis-São Paulo. Por sua facilidade de comunicação assumiu programa na TV Canção Nova, também retransmitido por outras emissoras. O programa visa tornar conhecido o trabalho da Fundação “Ajuda à Igreja que Sofre” apresentando suas obras sociais, projetos e carisma, relata os desafios enfrentados pelos cristãos e pela Igreja Católica em todo o mundo, principalmente nos países em desenvolvimento e onde há perseguição religiosa aos cristãos. O programa vai ao ar toda quarta-feira a partir das 12:30h.

Através dos meios de comunicação, Pe. Evaristo também realiza apreciado trabalho de evangelização, salientando sempre o amor de Deus por cada um de nós. É o anunciador do amor.

Com apresentação dele, mensalmente é editada a revista ECO DO AMOR, enviada aos colaboradores e prestando conta da ação caritativa da AIS.

A visita da dor e da cruz

Nos últimos anos sua saúde não foi a mesma, especialmente após sofrer uma queda e apresentar sinais de tumor nos rins. Nada que impedisse seu trabalho, porém. Mas, em 19 de janeiro de 2016 foi internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo e, infelizmente, apresentou dificuldades na fase pré-operatória e seu organismo entrou em pane no momento da anestesia. Aquilo que parecia até simples, tirou de Pe. Evaristo a saúde, de modo irreversível.

Seu lema de ordenação presbiteral, impresso no santinho de recordação, foi: “Sacerdote a serviço do Povo de Deus”. E seu pedido: “Tuas orações são a garantia de minha missão sacerdotal”. Tenho certeza das muitas milhares de pessoas que nesse momento rezam por ele, pelo seu sacerdócio, agora fecundo no silêncio da solidão e do sofrimento de um leito hospitalar.

Pe. José Artulino Besen

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MISSÃO E CUIDADO DA CASA COMUM

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A natureza – um hino à vida

Em outras épocas, tanto a Missão católica quanto a de outras confissões cristãs tinha como foco o anúncio confessional, era mais propaganda religiosa, oferecimento de salvação, garantia da posse da verdade. Era o proselitismo, hoje não mais aceito como método para o anúncio do Evangelho de Jesus. Tanto na América, como na África e na Ásia, o missionário acompanhava expedições conquistadoras, unindo a cruz à espada.

Admirar a coragem e a generosidade missionária não significa apreciar a pedagogia que implicava na destruição de culturas e de religiões ancestrais. A missão é o anúncio vivido do Senhor que deu a vida por todos os povos, o que não pode admitir que se mate em nome dele. A ação missionária com a espada foi fruto da dominação dos povos europeus que buscavam riquezas, matérias primas, na suposição e convicção de que em troca ofereciam o melhor para esses povos considerados atrasados e que deveriam agradecer o dom da civilização e, especialmente, o dom da salvação.

Encima de tudo isso foi edificada uma civilização que negava a riqueza pessoal do outro, negava a cultura e a religiosidade de povos até então desconhecidos, negava mesmo sua dignidade inviolável, reduzindo-os a coisas, a escravos. No Brasil, a missão deixou um rastro de 400 anos da escravidão negra, de julgamento do valor das pessoas pela cor da pele, mesmo sendo batizadas.

Evidente que não podemos desconhecer a generosa e heroica ação de homens e mulheres que deram a vida, criaram obras de misericórdia para o socorro de doentes, de leprosos, com eles dividindo a doença, as privações, amando como Jesus ama. Levaram o estilo de vida dos discípulos de Jesus, sem a preocupação de aumentar suas fileiras religiosas.

Graças à ação do Espírito, somos hoje capazes de reconhecer a dignidade de todos, de sentir as sementes da verdade por toda a terra. Não há nenhum povo abandonado por Deus. O Superior Geral dos Jesuítas, Pe. Adolfo Nicolás, afirmou que o primeiro ato de um missionário é descobrir a ação do Espírito Santo na cultura aonde é enviado, ver o que Deus já fez ali no decorrer de sua história. Assim, a ação missionária é comunhão fraterna com quem é diferente, mas tem conosco a ação divina que nos chama a todos de filhos.

A missão não pode se expressar na competição, nas acusações doutrinais cuja virulência oculta o rosto do Pai: “Deus-Amor se anuncia amando”, tuitou Francisco em 6/10/16.

Cuidar da Casa Comum – obra de misericórdia

agua-fonte-da-vida-m-sokalA Igreja não conhece um tempo de acomodação, como se bastasse conservar o que já se alcançou, sem novos desafios. O papa Francisco tem claro que a missão da Igreja, das igrejas e das religiões está sujeita à contínua reforma, porque a vida não para, há um dinamismo interno em toda a criação e que não permite conservarmos a linguagem apenas religiosa e doutrinal. O ser humano está situado no mundo, não nas alturas. Francisco acentuou a misericórdia como centro da existência cristã e nela, como tema de seu pontificado, a crise da humanidade inserida na economia global e que gera milhões de migrantes, expatriados, frutos da guerra, da miséria. Sua primeira viagem fora de Roma foi a Lampedusa, onde aportam diariamente barcaças trazendo milhares de pobres africanos e árabes. Outro tema, a crise da humanidade que explora egoisticamente as riquezas naturais, profanando a beleza da criação e deixando como rastro a poluição, a desertificação, comprometendo o presente e o futuro da família humana. A encíclica “Laudato si” sobre o cuidado da casa comum (18/06/2015) testemunha para o mundo a preocupação com o destino da criação; foi fruto da escuta de cientistas interessados no meio ambiente e de seu contato com a paisagem desoladora de tantos países devastados pela economia de regiões ricas que buscam seu conforto sem se deter no destino de miséria e violência em que mergulham nações pobres.

“Cuidar da Casa Comum é a nossa missão”, é o tema da Campanha Missionária de 2016 e o lema, “E Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1, 31). Somos desafiados a preservar a obra divina confiada ao homem e à mulher, num caminho que vincula indissoluvelmente a todos os povos, regimes, religiões e Igrejas, caso queiramos garantir para nós e as gerações futuras um planeta habitável.

O Papa Francisco mostrou-nos a associação íntima que existe entre a vida dos pobres e as fragilidades do Planeta. A Campanha Missionária oferece material específico para as comunidades refletirem sobre o tema com o objetivo de chamar a atenção a respeito do compromisso de todos – especialmente dos cristãos – para o cuidado em relação ao planeta, à “Casa Comum”.

missao-e-ecologiaÉ preciso considerar o sentido humano da Ecologia e buscar um novo estilo de vida que olhe a integração de tudo. Como salienta a ecologia integral, os seres humanos estão profundamente ligados entre si e à criação na sua totalidade. Quando maltratamos a natureza, maltratamos também os seres humanos. Ao mesmo tempo, cada criatura tem o seu próprio valor intrínseco que deve ser respeitado. Escutemos ‘tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres’ e procuremos atentamente ver como se pode garantir uma resposta adequada”, destaca Francisco. Da sua parte, como uma resposta concreta, o Papa tomou a iniciativa de propor no elenco das conhecidas sete obras de misericórdia materiais e espirituais a inclusão de uma oitava, a saber: o cuidado da casa comum.

Na espiritualidade do Ano Santo da Misericórdia poderemos receber a indulgência plenária vivenciando o cuidado com a casa comum. Preservar o meio ambiente é abrir a Porta Santa do louvor ao Criador, amar as criaturas, defender a vida em todos os seus aspectos, permitir que declaremos, com o autor bíblico, “e Deus vê que tudo é muito bom”. E também devemos nos penitenciar pela ação missionária que acompanhou e apoiou o secular processo de colonialismo econômico e cultural que saqueou a riqueza de povos e deixou-lhes como herança a miséria, a briga pelo poder e guerras sem fim. Promover a reconstrução da casa comum é assumir como nosso o plano do Criador que deu tudo a todos e o que deu era muito bom.

Pe. José Artulino Besen

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TERESINHA – A PEQUENA GRANDE MISSIONÁRIA

Santa Teresinha e seus pais São Luís e Santa Zélia

Santa Teresinha e seus pais São Luís e Santa Zélia

Teresa pertencia a uma família de classe média-alta da época. Morava numa mansão, tinha escola e até professora particular. Uma menina mimada e apaixonada pelo pai, o senhor Martin, que a chamava de “minha rainhazinha”. Teresa tinha tudo para se tornar uma dama rica da sociedade francesa do fim do século XIX.

No entanto, seu coração humilde bem cedo sente o desejo de se entregar única e exclusivamente a Deus. Teresa está convencida que o “Deus vingador” que lhe é apresentado na catequese não corresponde à imagem de Pai misericordioso que tem no coração. Partindo dessa convicção, ela sente a necessidade de buscar outros caminhos. Quer ser “santa, grande santa”, mas não como certos santos antigos…

Teresa oferece ao futuro um novo estilo de santidade, uma nova forma de amar: o pequeno caminho.  O único caminho para o amor é a confiança, a perseverança, a aceitação: “Agora compreendo que a caridade perfeita consiste em suportar os defeitos dos outros, em não estranhar suas fraquezas, em edificar-se com os menores atos de virtude que a gente vê praticar.”

Naquela época já havia elevador nas casas ricas, fato que levou Teresinha a fazer esta comparação: “Nas casas muito altas, as pessoas se esforçam por chegar até em cima usando o elevador. Eu encontrei o meu elevador, ele me leva até o Pai… são os braços de Jesus.”

Na vida comunitária do Carmelo, Teresinha não quer ficar perdendo tempo com as mesquinharias do dia-a-dia. Ela intui que o que conta é o amor, só o amor.  Entende que amar é acolher o outro; é saber dar ao outro a liberdade de amá-la ou mesmo de não amá-la; é contemplar no outro a pessoa de Jesus: “É a Santa Face de Cristo que amamos, impressa em cada pessoa.”

Teresinha sente-se missionária, como os que tinham a coragem de partir rumo às terras distantes. Mas, como sê-lo ficando parada, enclausurada? Teresinha supera essa dificuldade: “Sinto em mim todas as vocações: de apóstolo, de missionário, de sacerdote, de mártir, de doutor… Considerando, porém, que não posso vivê-las todas, na Igreja eu serei o amor”.

Assim Teresa nos ensina que todos, mesmo permanecendo onde estamos, poderemos chegar lá onde o coração quer ir. A missionariedade não é questão de geografia, é questão de amor.

Santa Teresinha é uma santa para nossos dias, para todos os dias, para a eternidade: “Sinto que minha missão vai começar, minha missão de fazer amar o Bom Deus, como eu o amo; de indicar às almas meu pequeno caminho. Se o Bom Deus atender meus desejos, meu céu se passará na terra…, até  o fim do mundo. Sim, quero passar meu céu fazendo o bem sobre a terra.”

Breves informações:

Santa Teresinha aos 8 anos

Santa Teresinha aos 8 anos

1873 – Teresinha nasceu em Alençon, pequena cidade da França. Era a última de 5 irmãs. Em 1877, Teresinha ficou órfã de sua mamãe, morta por um câncer no seio. Toda a família se transferiu a Lisieux para estar mais perto dos tios.

Paulina, que, para Teresinha, ocupava o lugar da mãe, entra no Convento das Carmelitas de Lisieux em 1882.

Em 1886, Maria, outra irmã, também se tornou Carmelita em Lisieux. Teresinha vive um momento de tremenda solidão e crise. Mas, na noite de Natal, encontrou forças para reagir a suas fraquezas de criança.

Teresinha confidencia a seu pai que quer ser carmelita. Viaja a Roma para pedir ao Papa Leão XIII a licença para entrar no Carmelo com 15 anos, e ingressou em 1888.

1890 – Com a Profissão religiosa, tornou-se carmelita. Papai, o seu “rei”, está junto dela, feliz. Em 1894, morreu Luís, o querido papai. Celina junta-se à irmã no Carmelo.

Teresinha descobriu estar gravemente doente de tuberculose, em 1896. Naquele tempo a doença era incurável.

Em 30 de setembro de 1897, morreu Teresinha aos 24 anos e 8 meses dizendo, ao contemplar o Crucifixo: “Oh, meu Deus, eu vos amo”.

O Papa Pio XI a proclama Santa em 1925, e mais de 500 mil peregrinos estavam em Roma para aclamá-la. Em 1997, o mundo inteiro celebrou o Centenário de sua morte e o Papa João Paulo II a declara  Doutora da Igreja”.

Em 18 de outubro de 2015, Francisco celebra a canonização dos pais: São Luís e Santa Zélia.

RECORDAÇÕES DE MAMÃE ZÉLIA

“Minha filha caçula, Teresinha, logo me impressionou pela sua inteligência, caráter decidido e por sua vontade de ser boa. Eu a apelidava de meu “pequeno furacão” e, desde quando a amamentava, sentia sua força e determinação. Quando pequenina, gostava sempre de dizer “não” e, mesmo que a prendesse o dia inteiro num quarto, passaria também a noite, mas não diria um “sim”.

Percebi que era orgulhosa quando, num dia, por brincadeira, lhe disse: – Teresinha, se beijas o chão, eu te dou uma moeda. Para uma criança, uma moeda era muito dinheiro e, abaixar-se para beijar o chão, era muito fácil para ela, que tinha uma estatura pequena. Com determinação, a pequerrucha respondeu: “Obrigada, mamãe, prefiro não ganhar a moeda”.

Quando pequena, Teresinha tinha um costume muito especial: ao subir a escada, parava a cada degrau e gritava “mamãe!”. Se eu não respondesse logo: “Oi, minha pequena”, parava no degrau, sem subir e nem descer.

Teresinha gostava muito que eu lhe falasse sempre do céu e, uma vez, me disse: “Mamãe, se fosse para eu ir para o inferno, fugiria para junto de ti no paraíso, então tu me esconderias juntinho de ti e Deus não iria separar a mamãe de sua filhinha, não é verdade?”

O   EVANGELHO DE TERESINHA

“Tenho sede!” Escreveu: “Este trecho do Evangelho de João (19,28) começou a martelar-me no mês de março de 1887 quando, na França, o único assunto era Pranzini, um delinqüente perigoso que tinha assassinado três pessoas com a finalidade de roubar.

Pranzini foi condenado à guilhotina. Nunca o tinha visto, mas, diante deste fato, recordei-me das palavras de Jesus na Cruz: “Tenho sede”.  Tinham me ensinado na catequese que Jesus tem sede de almas. Esta alma tinha abandonado o amor de Deus e eu deveria trazê-la de volta a qualquer custo. Pranzini não era somente um criminoso: era também uma alma para ser salva.

Naquele tempo eu tinha apenas 14 anos e decidi assumir a responsabilidade espiritual por aquele homem. Somente com a oração e a penitência poderia impedir que fosse para o inferno. De vez em quando dava uma olhadela nas notícias do jornal de papai: Pranzini continuava arrogante, endurecido em seu pecado. Não desanimei. Continuei a rezar, até encomendei uma Missa por ele e pedi a Celina que me ajudasse a salvar aquela criatura de Deus. Queria entregá-la nas mãos do Pai, que lava todo o pecado com o sangue de seu Filho Jesus.

No dia 13 de julho foi decidida a condenação à morte de Pranzini, com execução marcada para o dia 31 de agosto. Eu escutava os comentários da redondeza. Impressionavam-me a raiva do povo e os julgamentos inflexíveis das pessoas. Se tivessem oportunidade, o matariam dez vezes. Estavam esquecidos de que aquela alma custara a morte de Jesus na Cruz.

Intensifiquei minhas orações e, no dia 1º de setembro, dei uma olhada no jornal La Croix; Pranzini tinha subido à guilhotina sem se confessar mas, no último momento pediu um crucifixo e beijou as chagas de Jesus. Meu Deus! Estava salvo! Venceu tua misericórdia!” 

O   PEQUENO CAMINHO

Santa Teresinha com suas irmãs

Santa Teresinha com suas irmãs

No Carmelo, Teresinha adoeceu gravemente e viveu a doença com a serenidade que lhe era própria. O extraordinário em Teresinha foi ter realizado coisas normais com tanto amor.

Rezou, serviu, calou, pintou, escreveu, sofreu: somente por amor.

Num dia em que sentia a vontade de salvar o mundo e se via prisioneira numa pequena cela, exclamou: “A minha vocação é o amor. No coração da Igreja, minha Mãe, eu serei o amor, e assim serei tudo”. Neste amor estendido ao mundo e oferecido a Deus pelo mundo, Teresinha partiu em 30 de setembro de 1897.

O Pequeno Caminho de Teresinha compõe-se de dois valores:

a misericórdia do Pai,

– a necessidade de permanecer criança para sempre permanecer em seu amor.

É um caminho que todos podem percorrer sem medo, sem angústia, porque Ele faz tudo: “Quero ir para o céu através de um pequeno caminho, bem reto, muito curto, um pequeno caminho bem novo.

Estamos num século de invenções. Nas casas dos ricos um elevador tira o cansaço das escadas. Eu também quero encontrar um elevador que me leve a Jesus, porque sou pequena demais para subir a dura escada da perfeição”. “O elevador que me deve levar até ao céu são os vossos braços, Jesus, por isso não preciso ficar grande, pelo contrário, devo permanecer pequena”. Andei lendo: “Se alguém é pequeníssimo, venha a mim”. Então, Senhor, penso ter encontrado aquilo que procurava: “Como uma mãe acaricia o filho, assim eu vos consolarei, vos carregarei no meu coração e vos apoiarei nos meus joelhos” (Is 66,12-13). 

A   GRANDE MISSIONÁRIA

Santa Teresinha, padroeira das Missões

Santa Teresinha, padroeira das Missões

Teresinha nasceu missionária. Desde pequena, pegava suas economias e oferecia uma moeda para as Missões. Foi uma missionária infatigável entre as quatro paredes de sua cela. Sua oração, seu sacrifício, o amor que punha em todas as pequenas coisas do dia-a-dia, eram oferecidos pelos sacerdotes e para a missão deles. Era a força que impelia os apóstolos.

O anúncio do Evangelho no mundo inteiro não deixava de preocupá-la a ponto de desejar partir em missão para a Indochina, onde havia sido fundado um Carmelo, mas a saúde frágil não lhe permitiria. Santa Teresinha, já em seus últimos dias de vida terrena, profetizará que seria missionária sempre ao dizer que “passaria o seu tempo no céu fazendo o bem sobre a terra”.

Em 1927, o Papa Pio XI a declarou “Padroeira Universal das Missões e dos missionários, como São Francisco Xavier.” Suas intervenções em favor dos missionários se fizeram sentir em todo o mundo. Em 1917, o missionário Pe. Charlebois, que há cinco anos lutava pela evangelização dos esquimós na baía de Hudson, sem qualquer resultado, certo dia jogou sobre eles um pouco de terra que havia sido recolhida do túmulo de Teresa. Os esquimós, sentindo-se tocados interiormente, pediram o batismo. Teresa ensinou que evangelizar não é só pregar, ensinar… mas sim, como Cristo fez, amar e doar a própria vida. O amor é sempre um meio de evangelização mais eficaz e mais eloqüente que as palavras.

PENSAMENTOS

“Para mim, a oração é um impulso do coração, um simples olhar, dirigido aos céus, um grito de gratidão ou de amor em meio a provações ou alegrias. É algo, enfim, muito grande, sobrenatural que me dilata a alma e une a Jesus”.

“Eu fiz a experiência: quando não sinto nada, quando não sou capaz de rezar, é então o momento de procurar as pequeninas ocasiões, os nadas que dão prazer…

Quando não tenho ocasião, quero pelo menos dizer muitas vezes a Jesus que eu O amo…”

“Tudo o que fiz –  até apanhar uma agulha – era para dar prazer a Deus, para salvar almas.

Caminho em lugar de um missionário. Penso, que muito longe, um deles se encontra cansado, em suas andanças apostólicas. E, para diminuir suas fadigas, ofereço as minhas a Deus”.

Sua última oração, escrita com mão trêmula: “Ó Maria, se eu fosse a Rainha do Céu e vós fôsseis Teresinha, eu queria ser Teresinha a fim de que fôsseis a Rainha do Céu”.

Pe. José Artulino Besen

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A VERDADE LIBERTA A PAZ

Paquistão - criança acaricia o pai desesperado - Foto di Gjorgji Lichovski, novembre 2015

Paquistão – criança acaricia o pai desesperado – Foto di Gjorgji Lichovski, novembre 2015

E Jesus dizia: Se permanecerdes na minha palavra,
sereis meus verdadeiros discípulos:
conhecereis a verdade e a verdade vos libertará (Jo 8,31-32).

Um jornalista perguntou a São João Paulo II qual, a seu ver, seria a palavra mais importante do Evangelho. O Papa pensou e declarou: A verdade vos libertará (Jo 8, 32). E justificou a escolha: A pessoa humana não pode viver na mentira, no engano. Ninguém nasce para se iludir ou iludir os outros. E, no Cristianismo, a verdade libertadora não é uma teoria, doutrina, mas é uma pessoa: Jesus Cristo. A verdade que liberta é o Senhor Libertador que nos mergulha no mundo onde as coisas são verdadeiras, e não ilusões.

E mais: a palavra de Jesus é a verdade, e a verdade se identifica com o mandamento do amor: Amar a Deus acima de tudo e ao próximo como a si mesmo (cf. Mc 12, 30-31). Jesus é a verdade, é o amor feito homem. Ninguém se achega à verdade se não passar pelo caminho do amor. E ninguém é verdadeiramente livre sem o caminho da verdade/amor.

A maioria das pessoas busca o conhecimento da verdade, estuda, participa de cursos, ingressa em movimentos filosóficos, adere a religiões que prometem o verdadeiro conhecimento, mas continua sempre buscando, sem alcançá-lo. Vive na ilusão de uma verdade que satisfaça apenas à inteligência. Não é possível: a verdade não é um conhecimento obtido nos livros, ela nasce em nosso coração, em nossa interioridade onde mora Deus, que se revela e é conhecido pelo amor.

A verdade vos libertará, o amor vos tornará livres, diz Jesus. Pensamos que liberdade é fazer o que se quer, sem levar em conta a pessoa do outro, sem levar Deus em conta. Ninguém é realmente livre sem a experiência do amor libertador de nós mesmos, de nossas coisas, de nosso dinheiro, de nossas manias, de nos ocuparmos apenas com nossa família, de acharmos que não temos tempo para nada. O apego a isso tudo é escravidão, e pensamos que é liberdade.

Toda escravidão das coisas, dos bens, nos impede de amar, porque não saímos de nós mesmos, de nosso mundo. Com esses sentimentos acabamos por escravizar até a pessoa do outro colocando-a a nosso serviço, dela nos aproveitando, apenas. É triste a visão errada que hoje se está dando ao amor, especialmente ao amor entre um homem e uma mulher. Nada mais é que um egoísmo refinado, que pode assim ser resumido: Eu quero você para mim, porque quero ser feliz…

Cristo, verdade que liberta a paz

No dia 20 de setembro, Francisco presidiu o 30º Dia Mundial de Oração pela Paz, na cidade de Assis. Reuniu mais de 500 líderes religiosos de todo o mundo, cristãos, judeus, muçulmanos, representantes das grandes religiões, para rezar pela paz no mundo. Deus nos dá a paz que vem da justiça e do diálogo, por isso devemos orar pedindo a paz.

O mundo vive uma guerra mundial em pedaços (diversas guerras ao mesmo tempo), então devemos nos empenhar pela paz em pedaços: cada pessoa, cada família, cada comunidade, cada Igreja, religião, se comprometer com a paz, e assim, a união desses pedaços nos dará a paz verdadeira.

Aceitamos muito as mentiras dos poderosos do mundo que se empenham em discursos pacíficos quando, na verdade, financiam guerras em outras nações, e lucram com o mercado internacional das armas, chegando mesmo a usar o nome do Deus amor e verdade para explodir pessoas, destruir culturas. Quantas vezes o sentimento patriótico foi instrumentalizado como se fosse sentimento religioso e, na verdade, serviu apenas para aumentar fronteiras, garantir mercado e matérias primas. É esse o alimento de guerras fomentadas pelos estados modernos, também atuais, cujo fruto triste é produzir multidões de migrantes e imigrantes, depois tratados como lixo incômodo do grande mercado capitalista. É muito sintomático que os séculos XX-XXI, tempo de expansão imensa do capitalismo, sejam o tempo das maiores migrações de que se tem notícia na história humana. A gula pela riqueza provoca ânsia de vômito diante de povos errantes pelas estradas e que o deus capital pretende evitar construindo muros.

Deus é a verdade, Jesus é a verdade que traz a vida, não a morte. Blasfêmia gravíssima colocar o nome de Deus no meio do ódio e da mentira. Deus é Deus da paz. Não existe um deus da guerra. Quem faz a guerra é o maligno, o diabo, que quer a morte de todos.

Somente a busca sincera da verdade vai nos libertar da mentira que transforma cidades em ruínas, pessoas em mira de fuzis e bombas. Ao iniciar a guerra, a primeira vítima é a verdade.

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Como crentes, não podemos cair no paganismo da indiferença, que nos leva a cruzar os braços diante do sofrimento de homens e mulheres, jovens e crianças. Seremos chamados de filhos de Deus se formos construtores da paz.

Francisco nos convida ao diálogo pela paz e à educação para o diálogo: diálogo-educação. O diálogo nasce quando sou capaz de reconhecer que o outro é um dom de Deus e tem algo a dizer-me. A verdade que liberta nos conduz à pedagogia do encontro, ao diálogo que ensina a aprender, o oposto das conversações ordinárias que dividem as pessoas entre as que estão certas e as que estão erradas. Entrar em diálogo significa superar a imagem refletida no espelho, ensina aprender enriquecer-se com a diversidade do outro. No diálogo não existem perdedores, mas somente vencedores. A verdade nos libertará.

Pe. José Artulino Besen

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SANTA TERESA DE CALCUTÁ

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Madre Teresa foi recebida pelos Papas diversas vezes e sua pessoa e vida tocaram-nos profundamente. Paulo VI recebeu-a três meses antes de morrer, em 6 de maio de 1978, e falou, olhando para ela: “É uma coincidência que Jesus ousa fazer, direi com surpreendente grandeza e bondade, de colocar-se no lugar do irmão menor e mais necessitado, mais sofrido e degradado, e dizer: “A mim o fizeste”. Essa “encarnação” mística de Jesus no pobre, no miserável, está verdadeiramente entre as coisas mais luminosas e mais instrutivas do Evangelho”.

E João Paulo II, na homilia de beatificação, em 19 de outubro de 2003: “Sou pessoalmente grato a esta mulher corajosa, que senti sempre ao meu lado. Ícone do Bom Samaritano, ela ia a toda a parte para servir Cristo nos mais pobres entre os pobres”.

Madre Teresa foi uma santa contracorrente, que em grande parte de sua vida experimentou a escuridão, as noites da fé. Por muitos anos não pode mais escutar a voz de Deus. É contracorrente sua defesa da família e da vida: “Hoje, o aborto é o maior destruidor da paz porque, se um mãe pode matar o próprio filho, não há mais nada que impede a mim de matar a ti, e a ti de matar a mim”, falou em 1979, ao receber o Nobel da Paz.

Na mesma ocasião revelou o amor pelos pobres que inclui o êxtase: “Os pobres são grandes pessoas. Podem ensinar-nos muitas coisas belas”. E assim explicou: “Todo ser humano é uma grande pessoa, mas, nos pobres há uma intensidade única, uma aura própria e específica. Neles, a necessidade de amor é visível e se pode tocar com as mãos. Eles nos ensinam que a realidade verdadeira, em cada coisa, é o amor. Eles nos recordam essa verdade. A presença deles é um pró-memória que faz bem à nossa humanidade”. “Quando conhecermos verdadeiramente os pequenos e os fracos, poderemos experimentar a esperança que sabem dar. Os pobres são nossa alegria” (Aos jovens, em Milão, 1973).

Madre Teresa pedia que não se julgassem as pessoas: “Se julgas as pessoas, não terás tempo para amá-las”.  Isso fazia com que encontrasse a bondade em cada pessoa e ao mesmo tempo a suscitava nela, quer fosse pecador, quer santo. O efeito era impressionante: a pessoa sentia-se amada.

Há 50 anos da aprovação pontifícia por Paulo VI em 1964, as Missionárias da Caridade de Madre Teresa passaram de algumas centenas a 5.300 religiosas em 758 fundações que ela gostava de denominar “tabernáculos de Jesus”, espalhadas em 123 países.  Seria um erro ler a história dessa mulher à luz da estatística dos “sucessos” numéricos. Ela pôs no centro de sua vida e de seu testemunho o amor incondicionado pelos pobres, pelos últimos.

Para poder enfrentar as necessidades de um apostolado sempre em aumento, fundou as Missionárias da Caridade, os Irmãos Missionários da Caridade, os dois ramos contemplativos (das Irmãs e dos Irmãos), e o ramo dos sacerdotes.

madre-teresa (2)Cristo foi o primeiro missionário da caridade: “o serviço que oferecemos é um trabalho humilde entre os pobres mais pobres. Não julgamos que seja uma perda de tempo gastar toda a nossa vida matando a fome dos famintos, dando uma casa aos pobres sem teto, vestindo os nus, assistindo os doentes, ensinando os ignorantes, amando quem não é amado, aceitando quem é rejeitado, porque Jesus disse: ‘A mim vós o fizestes’”.

Navin Chawla – intelectual hindu, biógrafo de Madre Teresa, afirmou que ela aprendeu a mendigar. Essa mais profunda humilhação a fortaleceu. Quando encontrava alguém pensava: “o que pode fazer por mim?”, ou seja, como pode ajudar os pobres através de minha obra? Não necessitava converter alguém porque a criança pobre abandonada pela estrada era Jesus. O leproso era Jesus. O moribundo era Jesus.  Não precisava converter alguém que já era Deus. (cfr. N. 22 da GS: “Com a encarnação, o Filho de Deus de certo modo se uniu a cada homem”).

Na Europa e na América, escreveu Madre Teresa, dedicamos o nosso trabalho aqueles que consideramos os mais pobres entre os pobres espiritualmente, e esses são aqueles que não são amados, não são queridos, não são assistidos, pessoas que ninguém ama: “A doença mais grave, hoje, não é a lepra ou a tuberculose, mas a solidão, o sentir-se ignorados, não amados, não desejados”. A solidão é a lepra do Ocidente.

Teresa de Calcutá – a santa da escuridão

Na história da espiritualidade cristã, Madre Teresa mergulha na tradição dos grandes santos e místicos, entre os quais citamos João da Cruz, Teresa d’Ávila, Elisabeth da Trindade, Edith Stein. Passou pela noite escura da fé, essa experiência de amor perfeito na qual o Amado se esconde, aumenta no amante o desejo de possuí-lo e sempre mais se esconde. Noite escura, sim, mas noite plena de claridade, porque vivida entre o Senhor e sua amada. A noite escura é o não sentir-se amado.

Através de alguns de seus escritos, hoje temos algum conhecimento dessa imensa e fascinante aventura de Madre Teresa. Deus dela se escondeu, para que fosse visto apenas numa pessoa: a do pobre. Seus olhos estão sempre abertos, procuram, mas não encontram o Senhor e sim, os pobres deste mundo. E ela está sempre sorrindo, pois no rosto do pobre contempla seu Amado, o Senhor.

Para que o leitor tenha uma pálida idéia do combate da fé vivido Madre Teresa de Calcutá, citamos alguns textos.

Madre Teresa com mães e crianças em sua missão em Calcutá, Índia

Madre Teresa com mães e crianças em sua missão em Calcutá, Índia

Madre Teresa com mães e crianças em sua missão em Calcutá, Índia

“Meu sorriso é um grande manto que cobre uma multidão de dores”, escreveu ao diretor espiritual.  O início de sua missão foi na “escuridão”, mediante as locuções interiores que teve no trem noturno que a conduzia a Darjeeling, em 10 de setembro de 1946. Todo o resto de sua existência – após seis meses de extraordinário confronto com Jesus – foi vivido por Teresa na completa escuridão espiritual, sem mais confortos espirituais, pelo contrário, com a constante sensação de viver na distância e na ausência de Deus. É como se, desde o início, ela tivesse tido que experimentar não só a pobreza material e a impotência dos marginalizados, mas também sua trágica desolação.

Escrevia a Dom Périer, em março de 1953, ao assumir a direção da Congregação das Missionárias: “Por favor, reze especialmente por mim, para que eu não arruíne o trabalho de Jesus, e Nosso Senhor se revele, porque há em mim uma terrível escuridão, como se tudo fosse morto desde que eu iniciei a obra. Peça a Nossa Senhora que me dê coragem”. Suas forças vinham de uma certeza: o trabalho pela Congregação das Missionárias da Caridade “não é feito por mim, mas por Jesus: estou mais certa disso do que de minha real existência”.

Em janeiro de 1955, escrevia ao arcebispo Périer de Cacutá: “Há em meu coração uma solidão tão profunda que não sei expressá-la”. Em dezembro do mesmo ano: “Tudo está gelado dentro de mim. É somente a fé cega que me transporta, porque, na verdade, para mim tudo é escuridão”. “Às vezes a agonia da desolação é tão grande e, ao mesmo tempo, é tão profundo o desejo do Ausente, que a única oração que ainda consigo fazer é: “Sagrado Coração de Jesus, eu confio em ti. Saciarei a tua sede de almas” (março de 1956).

Em abril de 1957: “Quero sorrir até para Jesus, de forma a esconder também a ele, se possível, a dor e a escuridão de minha alma”. Em janeiro de 1958: “O desejo vivo de Deus é terrivelmente doloroso e, contudo, a escuridão se torna sempre maior. Que contradição há em minha alma! É tão grande a dor interior, que nada sinto com toda a publicidade e o falar do povo”.

Por apenas um mês seu sofrimento teve alívio: foi em outubro de 1958, quando era celebrada na Catedral de Calcutá a missa em sufrágio de Pio XII: naquela ocasião, Madre Teresa, sufocada pelo sofrimento espiritual, pediu a Jesus um sinal de sua presença. Na carta de 17 de outubro narrou a Dom Périer que “então desapareceu aquela longa escuridão, aquele sentimento de perda, de solidão, daquela estranha e prolongada dor. Hoje a minha alma está cheia de amor, de alegria indizível, de uma ininterrupta união de amor”.

Mas, Jesus foi breve. Já em novembro escrevia que “Nosso Senhor pensou que era melhor para mim permanecer no túnel, e assim ele novamente se foi. Sou-lhe grata por aquele mês de amor que me concedeu”.

O tormento continuou até sua morte, por 39 anos, de modo a purificá-la sempre mais no seu amor por Deus e pelos irmãos. Passou a perceber melhor o significado dessa dolorosa experiência e a colocá-la em relação com sua vocação. Em novembro de 1958, disse a Dom Picachy que nunca soubera “que o amor pudesse fazer sofrer tanto, tanto pela ausência como pelo desejo”. No início de 1960 confidenciou ao Pe. Neuner: “Pela primeira vez, nestes onze anos, comecei a amar a escuridão. Porque agora creio que ela é uma parte, uma pequeníssima parte, da escuridão e da dor vivida por Jesus na terra”.

Sua pergunta era sempre a mesma: “Que proveito Deus tem comigo, enquanto vivo neste estado, sem fé, sem amor, sem nem mesmo um sentimento? Num outro dia houve um momento no qual quase rejeitei aceitar essa situação, e então tomei do Rosário e comecei a recitá-lo lentamente e com calma, sem nada meditar ou pensar. Assim passou aquele momento duro, mas a escuridão é verdadeiramente densa e a dor muito tormentosa. Em todo caso, aceito tudo o que ele me dá e dou-lhe tudo o que ele pega”.

Ficava perturbada diante da reação das pessoas que lhe estavam próximas. Em setembro de 1962, escreveu a Dom Picachy: “As pessoas dizem que se sentem jogadas rumo a Deus vendo minha sólida fé. Isso não significa enganar o povo? Mas, a cada vez que eu queria dizer a verdade – que eu não tinha fé – as palavras não saíam, minha boca permanecia fechada e continuava a sorrir a Deus e a todos”.

Apesar dos sofrimentos e da escuridão espiritual, Madre Teresa sempre tinha clara consciência de que a fé era o verdadeiro farol de sua vida. Era freqüente interromper uma frase para dizer: “Olha o que Deus está fazendo”, e “Admira a grandeza de Deus”.

Uma carta às Missionárias, de 31 de julho de 1962, num dos períodos mais dolorosos de sua experiência espiritual, manifesta a convicção que ela colocara em prática por toda a vida: “Cristo se servirá de ti para fazer grandes coisas com a condição de que tu creias mais no seu amor do que na tua fraqueza. Crê nele, tem fé nele com absoluta e cega confiança porque ele é Jesus, e somente ele é a vida; e que a santidade não é outra coisa que o próprio Jesus que vive intimamente em ti”.

O olhar e o sorriso de Madre Teresa: viveu buscando a Deus e sempre encontrando os pobres. Mas, em 5 de setembro de 1997, encontrou-se com seu Amado, para sempre.

madre-teresa-enrugadaSua vida e santidade foram aprovadas pela Igreja quando, em 19 de outubro de 2003, apenas seis anos após a morte, foi beatificada por São João Paulo II na Praça de São Pedro.  Era o Dia Mundial das Missões, e assim falou o Papa: “Porque o Filho do Homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (Mc 10, 45). Madre Teresa partilhou a paixão do Crucificado, de modo especial durante longos anos de “obscuridade interior”. Aquela foi a prova, por vezes lancinante, acolhida como um singular “dom e privilégio”.

Nos momentos mais difíceis ela recorria com mais tenacidade à oração diante do Santíssimo Sacramento. Esta difícil angústia espiritual levou-a a identificar-se cada vez mais com aqueles que servia todos os dias, experimentando o sofrimento e por vezes até a recusa. Gostava de repetir que a maior pobreza é não sermos desejados, não ter ninguém que se ocupe de nós.

“Dai-nos, Senhor, a Vossa graça, em Vós esperamos!”. Quantas vezes, como o Salmista, também Madre Teresa, nos momentos de desolação interior, repetiu ao seu Senhor: “Em Vós, meu Deus, em Vós espero!”.

E, no dia 4 de setembro de 2016, no Ano da Misericórdia, na Praça de São Pedro o papa Francisco a proclamou Santa Teresa de Calcutá, glorificando a aventura humana e espiritual de uma das mais fascinantes personalidades da Igreja do século XX, uma mulher pequeninha, frágil como uma borboleta, forte como um leão.

Pe. José Artulino Besen

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