A LIBERDADE PELO AMOR LIBERTA A PAZ

Paquistão - criança acaricia o pai desesperado - Foto di Gjorgji Lichovski, novembre 2015

Paquistão – criança acaricia o pai desesperado – Foto di Gjorgji Lichovski, novembre 2015

E Jesus dizia: Se permanecerdes na minha palavra,
sereis meus verdadeiros discípulos:
conhecereis a verdade e a verdade vos libertará (Jo 8,31-32).

Um jornalista perguntou a São João Paulo II qual, a seu ver, seria a palavra mais importante do Evangelho. O Papa pensou e declarou: A verdade vos libertará (Jo 8, 32). E justificou a escolha: A pessoa humana não pode viver na mentira, no engano. Ninguém nasce para se iludir ou iludir os outros. E, no Cristianismo, a verdade libertadora não é uma teoria, doutrina, mas é uma pessoa: Jesus Cristo. A verdade que liberta é o Senhor Libertador que nos mergulha no mundo onde as coisas são verdadeiras, e não ilusões.

E mais: a palavra de Jesus é a verdade, e a verdade se identifica com o mandamento do amor: Amar a Deus acima de tudo e ao próximo como a si mesmo (cf. Mc 12, 30-31). Jesus é a verdade, é o amor feito homem. Ninguém se achega à verdade se não passar pelo caminho do amor. E ninguém é verdadeiramente livre sem o caminho da verdade/amor.

A maioria das pessoas busca o conhecimento da verdade, estuda, participa de cursos, ingressa em movimentos filosóficos, adere a religiões que prometem o verdadeiro conhecimento, mas continua sempre buscando, sem alcançá-lo. Vive na ilusão de uma verdade que satisfaça apenas à inteligência. Não é possível: a verdade não é um conhecimento obtido nos livros, ela nasce em nosso coração, em nossa interioridade onde mora Deus, que se revela e é conhecido pelo amor.

A verdade vos libertará, o amor vos tornará livres, diz Jesus. Pensamos que liberdade é fazer o que se quer, sem levar em conta a pessoa do outro, sem levar Deus em conta. Ninguém é realmente livre sem a experiência do amor libertador de nós mesmos, de nossas coisas, de nosso dinheiro, de nossas manias, de nos ocuparmos apenas com nossa família, de acharmos que não temos tempo para nada. O apego a isso tudo é escravidão, e pensamos que é liberdade.

Toda escravidão das coisas, dos bens, nos impede de amar, porque não saímos de nós mesmos, de nosso mundo. Com esses sentimentos acabamos por escravizar até a pessoa do outro colocando-a a nosso serviço, dela nos aproveitando, apenas. É triste a visão errada que hoje se está dando ao amor, especialmente ao amor entre um homem e uma mulher. Nada mais é que um egoísmo refinado, que pode assim ser resumido: Eu quero você para mim, porque quero ser feliz…

Cristo, verdade que liberta a paz

No dia 20 de setembro, Francisco presidiu o 30º Dia Mundial de Oração pela Paz, na cidade de Assis. Reuniu mais de 500 líderes religiosos de todo o mundo, cristãos, judeus, muçulmanos, representantes das grandes religiões, para rezar pela paz no mundo. Deus nos dá a paz que vem da justiça e do diálogo, por isso devemos orar pedindo a paz.

O mundo vive uma guerra mundial em pedaços (diversas guerras ao mesmo tempo), então devemos nos empenhar pela paz em pedaços: cada pessoa, cada família, cada comunidade, cada Igreja, religião, se comprometer com a paz, e assim, a união desses pedaços nos dará a paz verdadeira.

Aceitamos muito as mentiras dos poderosos do mundo que se empenham em discursos pacíficos quando, na verdade, financiam guerras em outras nações, e lucram com o mercado internacional das armas, chegando mesmo a usar o nome do Deus amor e verdade para explodir pessoas, destruir culturas. Quantas vezes o sentimento patriótico foi instrumentalizado como se fosse sentimento religioso e, na verdade, serviu apenas para aumentar fronteiras, garantir mercado e matérias primas. É esse o alimento de guerras fomentadas pelos estados modernos, também atuais, cujo fruto triste é produzir multidões de migrantes e imigrantes, depois tratados como lixo incômodo do grande mercado capitalista. É muito sintomático que os séculos XX-XXI, tempo de expansão imensa do capitalismo, sejam o tempo das maiores migrações de que se tem notícia na história humana. A gula pela riqueza provoca ânsia de vômito diante de povos errantes pelas estradas e que o deus capital pretende evitar construindo muros.

Deus é a verdade, Jesus é a verdade que traz a vida, não a morte. Blasfêmia gravíssima colocar o nome de Deus no meio do ódio e da mentira. Deus é Deus da paz. Não existe um deus da guerra. Quem faz a guerra é o maligno, o diabo, que quer a morte de todos.

Somente a busca sincera da verdade vai nos libertar da mentira que transforma cidades em ruínas, pessoas em mira de fuzis e bombas. Ao iniciar a guerra, a primeira vítima é a verdade.

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Como crentes, não podemos cair no paganismo da indiferença, que nos leva a cruzar os braços diante do sofrimento de homens e mulheres, jovens e crianças. Seremos chamados de filhos de Deus se formos construtores da paz.

Francisco nos convida ao diálogo pela paz e à educação para o diálogo: diálogo-educação. O diálogo nasce quando sou capaz de reconhecer que o outro é um dom de Deus e tem algo a dizer-me. A verdade que liberta nos conduz à pedagogia do encontro, ao diálogo que ensina a aprender, o oposto das conversações ordinárias que dividem as pessoas entre as que estão certas e as que estão erradas. Entrar em diálogo significa superar a imagem refletida no espelho, ensina aprender enriquecer-se com a diversidade do outro. No diálogo não existem perdedores, mas somente vencedores. A verdade nos libertará.

Pe. José Artulino Besen

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SANTA TERESA DE CALCUTÁ

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Madre Teresa foi recebida pelos Papas diversas vezes e sua pessoa e vida tocaram-nos profundamente. Paulo VI recebeu-a três meses antes de morrer, em 6 de maio de 1978, e falou, olhando para ela: “É uma coincidência que Jesus ousa fazer, direi com surpreendente grandeza e bondade, de colocar-se no lugar do irmão menor e mais necessitado, mais sofrido e degradado, e dizer: “A mim o fizeste”. Essa “encarnação” mística de Jesus no pobre, no miserável, está verdadeiramente entre as coisas mais luminosas e mais instrutivas do Evangelho”.

E João Paulo II, na homilia de beatificação, em 19 de outubro de 2003: “Sou pessoalmente grato a esta mulher corajosa, que senti sempre ao meu lado. Ícone do Bom Samaritano, ela ia a toda a parte para servir Cristo nos mais pobres entre os pobres”.

Madre Teresa foi uma santa contracorrente, que em grande parte de sua vida experimentou a escuridão, as noites da fé. Por muitos anos não pode mais escutar a voz de Deus. É contracorrente sua defesa da família e da vida: “Hoje, o aborto é o maior destruidor da paz porque, se um mãe pode matar o próprio filho, não há mais nada que impede a mim de matar a ti, e a ti de matar a mim”, falou em 1979, ao receber o Nobel da Paz.

Na mesma ocasião revelou o amor pelos pobres que inclui o êxtase: “Os pobres são grandes pessoas. Podem ensinar-nos muitas coisas belas”. E assim explicou: “Todo ser humano é uma grande pessoa, mas, nos pobres há uma intensidade única, uma aura própria e específica. Neles, a necessidade de amor é visível e se pode tocar com as mãos. Eles nos ensinam que a realidade verdadeira, em cada coisa, é o amor. Eles nos recordam essa verdade. A presença deles é um pró-memória que faz bem à nossa humanidade”. “Quando conhecermos verdadeiramente os pequenos e os fracos, poderemos experimentar a esperança que sabem dar. Os pobres são nossa alegria” (Aos jovens, em Milão, 1973).

Madre Teresa pedia que não se julgassem as pessoas: “Se julgas as pessoas, não terás tempo para amá-las”.  Isso fazia com que encontrasse a bondade em cada pessoa e ao mesmo tempo a suscitava nela, quer fosse pecador, quer santo. O efeito era impressionante: a pessoa sentia-se amada.

Há 50 anos da aprovação pontifícia por Paulo VI em 1964, as Missionárias da Caridade de Madre Teresa passaram de algumas centenas a 5.300 religiosas em 758 fundações que ela gostava de denominar “tabernáculos de Jesus”, espalhadas em 123 países.  Seria um erro ler a história dessa mulher à luz da estatística dos “sucessos” numéricos. Ela pôs no centro de sua vida e de seu testemunho o amor incondicionado pelos pobres, pelos últimos.

Para poder enfrentar as necessidades de um apostolado sempre em aumento, fundou as Missionárias da Caridade, os Irmãos Missionários da Caridade, os dois ramos contemplativos (das Irmãs e dos Irmãos), e o ramo dos sacerdotes.

madre-teresa (2)Cristo foi o primeiro missionário da caridade: “o serviço que oferecemos é um trabalho humilde entre os pobres mais pobres. Não julgamos que seja uma perda de tempo gastar toda a nossa vida matando a fome dos famintos, dando uma casa aos pobres sem teto, vestindo os nus, assistindo os doentes, ensinando os ignorantes, amando quem não é amado, aceitando quem é rejeitado, porque Jesus disse: ‘A mim vós o fizestes’”.

Navin Chawla – intelectual hindu, biógrafo de Madre Teresa, afirmou que ela aprendeu a mendigar. Essa mais profunda humilhação a fortaleceu. Quando encontrava alguém pensava: “o que pode fazer por mim?”, ou seja, como pode ajudar os pobres através de minha obra? Não necessitava converter alguém porque a criança pobre abandonada pela estrada era Jesus. O leproso era Jesus. O moribundo era Jesus.  Não precisava converter alguém que já era Deus. (cfr. N. 22 da GS: “Com a encarnação, o Filho de Deus de certo modo se uniu a cada homem”).

Na Europa e na América, escreveu Madre Teresa, dedicamos o nosso trabalho aqueles que consideramos os mais pobres entre os pobres espiritualmente, e esses são aqueles que não são amados, não são queridos, não são assistidos, pessoas que ninguém ama: “A doença mais grave, hoje, não é a lepra ou a tuberculose, mas a solidão, o sentir-se ignorados, não amados, não desejados”. A solidão é a lepra do Ocidente.

Teresa de Calcutá – a santa da escuridão

Na história da espiritualidade cristã, Madre Teresa mergulha na tradição dos grandes santos e místicos, entre os quais citamos João da Cruz, Teresa d’Ávila, Elisabeth da Trindade, Edith Stein. Passou pela noite escura da fé, essa experiência de amor perfeito na qual o Amado se esconde, aumenta no amante o desejo de possuí-lo e sempre mais se esconde. Noite escura, sim, mas noite plena de claridade, porque vivida entre o Senhor e sua amada. A noite escura é o não sentir-se amado.

Através de alguns de seus escritos, hoje temos algum conhecimento dessa imensa e fascinante aventura de Madre Teresa. Deus dela se escondeu, para que fosse visto apenas numa pessoa: a do pobre. Seus olhos estão sempre abertos, procuram, mas não encontram o Senhor e sim, os pobres deste mundo. E ela está sempre sorrindo, pois no rosto do pobre contempla seu Amado, o Senhor.

Para que o leitor tenha uma pálida idéia do combate da fé vivido Madre Teresa de Calcutá, citamos alguns textos.

Madre Teresa com mães e crianças em sua missão em Calcutá, Índia

Madre Teresa com mães e crianças em sua missão em Calcutá, Índia

Madre Teresa com mães e crianças em sua missão em Calcutá, Índia

“Meu sorriso é um grande manto que cobre uma multidão de dores”, escreveu ao diretor espiritual.  O início de sua missão foi na “escuridão”, mediante as locuções interiores que teve no trem noturno que a conduzia a Darjeeling, em 10 de setembro de 1946. Todo o resto de sua existência – após seis meses de extraordinário confronto com Jesus – foi vivido por Teresa na completa escuridão espiritual, sem mais confortos espirituais, pelo contrário, com a constante sensação de viver na distância e na ausência de Deus. É como se, desde o início, ela tivesse tido que experimentar não só a pobreza material e a impotência dos marginalizados, mas também sua trágica desolação.

Escrevia a Dom Périer, em março de 1953, ao assumir a direção da Congregação das Missionárias: “Por favor, reze especialmente por mim, para que eu não arruíne o trabalho de Jesus, e Nosso Senhor se revele, porque há em mim uma terrível escuridão, como se tudo fosse morto desde que eu iniciei a obra. Peça a Nossa Senhora que me dê coragem”. Suas forças vinham de uma certeza: o trabalho pela Congregação das Missionárias da Caridade “não é feito por mim, mas por Jesus: estou mais certa disso do que de minha real existência”.

Em janeiro de 1955, escrevia ao arcebispo Périer de Cacutá: “Há em meu coração uma solidão tão profunda que não sei expressá-la”. Em dezembro do mesmo ano: “Tudo está gelado dentro de mim. É somente a fé cega que me transporta, porque, na verdade, para mim tudo é escuridão”. “Às vezes a agonia da desolação é tão grande e, ao mesmo tempo, é tão profundo o desejo do Ausente, que a única oração que ainda consigo fazer é: “Sagrado Coração de Jesus, eu confio em ti. Saciarei a tua sede de almas” (março de 1956).

Em abril de 1957: “Quero sorrir até para Jesus, de forma a esconder também a ele, se possível, a dor e a escuridão de minha alma”. Em janeiro de 1958: “O desejo vivo de Deus é terrivelmente doloroso e, contudo, a escuridão se torna sempre maior. Que contradição há em minha alma! É tão grande a dor interior, que nada sinto com toda a publicidade e o falar do povo”.

Por apenas um mês seu sofrimento teve alívio: foi em outubro de 1958, quando era celebrada na Catedral de Calcutá a missa em sufrágio de Pio XII: naquela ocasião, Madre Teresa, sufocada pelo sofrimento espiritual, pediu a Jesus um sinal de sua presença. Na carta de 17 de outubro narrou a Dom Périer que “então desapareceu aquela longa escuridão, aquele sentimento de perda, de solidão, daquela estranha e prolongada dor. Hoje a minha alma está cheia de amor, de alegria indizível, de uma ininterrupta união de amor”.

Mas, Jesus foi breve. Já em novembro escrevia que “Nosso Senhor pensou que era melhor para mim permanecer no túnel, e assim ele novamente se foi. Sou-lhe grata por aquele mês de amor que me concedeu”.

O tormento continuou até sua morte, por 39 anos, de modo a purificá-la sempre mais no seu amor por Deus e pelos irmãos. Passou a perceber melhor o significado dessa dolorosa experiência e a colocá-la em relação com sua vocação. Em novembro de 1958, disse a Dom Picachy que nunca soubera “que o amor pudesse fazer sofrer tanto, tanto pela ausência como pelo desejo”. No início de 1960 confidenciou ao Pe. Neuner: “Pela primeira vez, nestes onze anos, comecei a amar a escuridão. Porque agora creio que ela é uma parte, uma pequeníssima parte, da escuridão e da dor vivida por Jesus na terra”.

Sua pergunta era sempre a mesma: “Que proveito Deus tem comigo, enquanto vivo neste estado, sem fé, sem amor, sem nem mesmo um sentimento? Num outro dia houve um momento no qual quase rejeitei aceitar essa situação, e então tomei do Rosário e comecei a recitá-lo lentamente e com calma, sem nada meditar ou pensar. Assim passou aquele momento duro, mas a escuridão é verdadeiramente densa e a dor muito tormentosa. Em todo caso, aceito tudo o que ele me dá e dou-lhe tudo o que ele pega”.

Ficava perturbada diante da reação das pessoas que lhe estavam próximas. Em setembro de 1962, escreveu a Dom Picachy: “As pessoas dizem que se sentem jogadas rumo a Deus vendo minha sólida fé. Isso não significa enganar o povo? Mas, a cada vez que eu queria dizer a verdade – que eu não tinha fé – as palavras não saíam, minha boca permanecia fechada e continuava a sorrir a Deus e a todos”.

Apesar dos sofrimentos e da escuridão espiritual, Madre Teresa sempre tinha clara consciência de que a fé era o verdadeiro farol de sua vida. Era freqüente interromper uma frase para dizer: “Olha o que Deus está fazendo”, e “Admira a grandeza de Deus”.

Uma carta às Missionárias, de 31 de julho de 1962, num dos períodos mais dolorosos de sua experiência espiritual, manifesta a convicção que ela colocara em prática por toda a vida: “Cristo se servirá de ti para fazer grandes coisas com a condição de que tu creias mais no seu amor do que na tua fraqueza. Crê nele, tem fé nele com absoluta e cega confiança porque ele é Jesus, e somente ele é a vida; e que a santidade não é outra coisa que o próprio Jesus que vive intimamente em ti”.

O olhar e o sorriso de Madre Teresa: viveu buscando a Deus e sempre encontrando os pobres. Mas, em 5 de setembro de 1997, encontrou-se com seu Amado, para sempre.

madre-teresa-enrugadaSua vida e santidade foram aprovadas pela Igreja quando, em 19 de outubro de 2003, apenas seis anos após a morte, foi beatificada por São João Paulo II na Praça de São Pedro.  Era o Dia Mundial das Missões, e assim falou o Papa: “Porque o Filho do Homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (Mc 10, 45). Madre Teresa partilhou a paixão do Crucificado, de modo especial durante longos anos de “obscuridade interior”. Aquela foi a prova, por vezes lancinante, acolhida como um singular “dom e privilégio”.

Nos momentos mais difíceis ela recorria com mais tenacidade à oração diante do Santíssimo Sacramento. Esta difícil angústia espiritual levou-a a identificar-se cada vez mais com aqueles que servia todos os dias, experimentando o sofrimento e por vezes até a recusa. Gostava de repetir que a maior pobreza é não sermos desejados, não ter ninguém que se ocupe de nós.

“Dai-nos, Senhor, a Vossa graça, em Vós esperamos!”. Quantas vezes, como o Salmista, também Madre Teresa, nos momentos de desolação interior, repetiu ao seu Senhor: “Em Vós, meu Deus, em Vós espero!”.

E, no dia 4 de setembro de 2016, no Ano da Misericórdia, na Praça de São Pedro o papa Francisco a proclamou Santa Teresa de Calcutá, glorificando a aventura humana e espiritual de uma das mais fascinantes personalidades da Igreja do século XX, uma mulher pequeninha, frágil como uma borboleta, forte como um leão.

Pe. José Artulino Besen

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PADRE LUIZ JOÃO BERTOTTI

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Pe. Luiz João Bertotti (01/01/1929 – 21/08/2016)

Pe. Luiz João Bertotti nasceu em Nova Trento em 1º de janeiro de 1929. Seus pais: Alberto Bertotti e Francisca Bottamedi. Percorreu sua formação seminarística nos Seminários de Azambuja, e de São Leopoldo. Foi sempre aluno e seminarista exemplar e, como estudante, caracterizou-se pela clareza do raciocínio. Madre Paulina tinha firme o plano de criar o ramo masculino de sua Congregação: era a Congregação dos Robertinos, iniciada por ela em Nova Trento, mas suprimida por Dom Duarte Leopoldo, sob o argumento que já havia fundações suficientes e que bastava escolher uma delas. Santa Paulina, radicalmente obediente à autoridade eclesiástica, conservou o sonho dessa fundação. As Irmãzinhas auxiliaram na formação de seminaristas de Nova Trento, esperando que, como padres, levassem adiante a bandeira. Foram esses os seminaristas: Tarcísio Marchiori, Cláudio Cadorim e Luiz João Bertotti, todos ordenados padres e já falecidos.

Foi ordenado presbítero por Dom Joaquim Domingues de Oliveira no Santuário de Azambuja em 8 de dezembro de 1956. Em 29 de dezembro de 1956 recebeu a provisão de vigário paroquial de São Sebastião de Tijucas, trabalhando com o rigoroso Mons. Augusto Zucco nesta grande paróquia que abrangia Tijucas, Canelinha, Porto Belo e Itapema, com suas distâncias e muitas capelas.

Em 21 de dezembro de 1961, foi nomeado pároco de Sant’Ana de Canelinha, onde iniciou a construção da igreja matriz sob projeto arquitetônico moderno e funcional. Não era de seu temperamento pedir dinheiro, organizar festas, mas não teve medo do trabalho. Dois anos depois, em 24 de dezembro de 1963, assumiu como vigário paroquial de Mons. José Locks em São João Batista.

Homem de consciência social, no espírito da ação católica, enfrentou a poderosa USATI, Usina de Açúcar de Tijucas, denunciando a dupla exploração daquele povo: no preço da cana e nos baixos salários. Foi muito criticado como comunista, mas não era homem de temer gente importante. No ano seguinte veio o Golpe militar de 31 de março e os problemas sociais tiveram de ser varridos para debaixo do pano. Além disso, sob as ordens do severo Mons. José Locks não havia muito espaço para pregação social. Mons. José enxergava os problemas e se indignava com eles, mas, receava o perigo vermelho nas denúncias deles, especialmente quando escutou que Pe. Luiz queria organizar uma greve dos trabalhadores da cana.

Em 1968, Pe. Luiz trabalhou no Seminário de Azambuja, como professor e na dura missão de assistente de meia centena de adolescentes que se aproveitavam de sua bondade e paciência e o provocavam com bagunça nos corredores e salas de estudo. Lecionava a disciplina de Concílio do Vaticano II, introduzindo nos seminaristas uma mentalidade aberta sobre a Igreja, Povo de Deus. Não era de seu temperamento gritar ou castigar, razão pela qual pediu transferência e, em 14 de fevereiro de 1969 foi provisionado pároco do Divino Espírito Santo de Camboriú.

Pe. Luiz era bom pregador e suas homilias, breves, partiam da Palavra de Deus. Quem o escutasse pela primeira vez poderia ter a impressão de estar diante de um revolucionário. Era consequente com o Evangelho. A linguagem clara e original era fruto de muito estudo, da capacidade de expressar com beleza o que ensinava. Que ele gostasse da filosofia, não se pode negar. Especialmente era um bom tomista, na lógica do raciocínio. Também era claro seu apreço pela eclesiologia do Concílio, seu desejo de uma Igreja a caminho, atuante na história. Sua espiritualidade e ação pastoral não eram muito dadas a devoções, manifestações da religiosidade popular. Preferia a Palavra.

Era um homem sério e que levava a realidade e as pessoas a sério. Não se pode imaginá-lo em brincadeiras ou manipulações. O interlocutor ganhava seu respeito e uma resposta objetiva aos problemas.

Dois irmãos e uma história

Aconteceu então um fato que mudou o exercício de seu ministério sacerdotal: seu irmão padre, Egídio Alberto Bertotti, ex-jesuíta, incardinado na diocese de Maringá, pediu para trabalhar na Arquidiocese de Florianópolis e, se possível, junto com seu irmão, que tinha dificuldade ao volante por não ter boa visão. Dom Afonso Niehues aquiesceu ao pedido e, em 26 de janeiro de 1970 nomeou Pe. Luiz vigário do Santíssimo Sacramento de Itajaí e Pe. Egídio pároco. O projeto pastoral de Dom Afonso era que Pe. Luiz cuidasse da capela da Vila Operária, preparando-a para futura sede paroquial, o que não aconteceu, pois era comunidade muito próxima da Matriz do Santíssimo e Pe. Luiz julgou que seria apenas multiplicar estruturas.

Em 10 de janeiro de 1980, os dois irmãos foram provisionados para São João Batista. Não havia mais o problema social da Usina de Açúcar, que tinha sido fechada e transformada na Cerâmica Porto Belo em Tijucas. Após décadas de exploração e de fuligem descarregada pela chaminé, poluindo o ambiente urbano, São João Batista viveu o drama do desemprego, suavizado depois pela indústria calçadista. Os tempos eram outros. Ali Pe. Luiz dedicou-se à pregação evangélica iluminada pela opção preferencial pelos pobres de Puebla, cuja Conferência fora realizada no ano de 1979.

Pe. Paulo Bratti, diretor do ITESC, julgou de bom propósito pedir a Pe. Luiz que lecionasse Doutrina Social da Igreja em Florianópolis. O pedido foi aceito e Pe. Luiz se empenhou no compromisso semanal mas, foi apenas um ano. Ele pensava numa análise teórica da Doutrina Social, num estudo exigente. Infelizmente os estudantes estavam mais entusiasmados pela pastoral de passeata, dos slogans, o que espantou o professor e a experiência ficou restrita ao ano de 1981.

Aqui é oportuno lembrar que Pe. Luiz Bertotti era um intelectual, homem de reflexão e de muita leitura, e isso sempre. Não apreciava sucesso fácil.

Em 29 de janeiro de 1993, recebeu a provisão de vigário paroquial de São Francisco Xavier de Saco Grande, uma grande e exigente paróquia cujos limites iam de Saco Grande até o Rio Vermelho, o Norte da Ilha de Santa Catarina. Seu irmão era o pároco e deu prosseguimento à construção da igreja matriz. Só Deus sabe o que significou levar adiante essa obra, num tempo de inflação galopante e sem referencial de moeda. Tiveram a alegria de inaugurá-la.

A partir dessa missão, os dois irmãos sentiram problemas de saúde, e Pe. Luiz sempre mais sofria, enxergando apenas com uma vista. Foram transferidos 1998 para a paróquia Nossa Senhora do Desterro, Catedral metropolitana, como vigários paroquiais. Ali se dedicaram ao atendimento espiritual, às confissões, com zelo e desprendimento, mesmo com a idade avançando e a saúde debilitada. Eram ótimos e sábios conselheiros.

Em 2010, Pe. Luiz percebeu que não era mais tempo de compromissos e, junto com Pe. Egídio, decidiram fixar residência em Nova Trento, no Salto. Terminavam onde iniciaram.

A saúde de Pe. Luiz, com sérios problemas cardíacos, foi se deteriorando. Sabia sofrer, sabia viver. Sua fé iluminava seus passos e lhe indicava o novo horizonte que se abria. Em agosto de 2016 esteve internado no Hospital de Azambuja. Retornou a Nova Trento, em cujo hospital passou os últimos dias de sua longa existência terrena e sacerdotal.

No dia 21 de agosto Deus o chamou. Seu irmão, Pe. Egídio, ouviu suas últimas palavras conscientes: “Mãe, Mãe, Mãe do Céu – não aguento mais…vem, vem Mãe” e … deu o último suspiro. Na manhã do dia seguinte foi sepultado em Nova Trento.

Pe. Luiz viveu uma bela vida de 87 anos de idade e, no dia 8 de dezembro festejaria o Jubileu de Diamante sacerdotal. Deixou-nos a imagem de um padre pastor, dedicado, perseverante, humilde. No silêncio viveu, no silêncio Deus o recolheu.

Deixou o comovente exemplo de vida fraterna, trabalhando junto com seu irmão Pe. Egídio por 46 anos. Eram dois irmãos no sentido mais belo: trabalhando, conversando, estudando, discutindo, na alegria da unidade segundo a palavra bíblica: “Oh, como é bom, como é agradável para irmãos unidos viverem juntos” (Salmo 133, 1).

Pe. José Artulino Besen

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A DESPEDIDA DE NOSSO IRMÃO SEBASTIÃO

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Sebastião Artulino Besen – em seu último ano

Recordo, na memória e no coração, o dia 30 de dezembro de 1958, um dia de muito calor e de muita alegria: de madrugada nossa vó materna Maria Gesser Pauli foi chamada para atender nossa mãe. Passado um tempo, ouvimos o choro de uma criança: era mais um bebê, mais um irmãozinho que acabava de chegar. Devido ao pudor que reinava em nossa casa, somente de manhã pudemos conhecer a novidade que já tinha recebido nome: Sebastião. Muita alegria lá em casa e o Sebastião já tinha o apelido de Tãozinho.

No meio da tarde, um susto: Tãozinho teve uma espécie de ataque, ficou vermelho e a mãe lamentava a morte iminente. Para garantir que fosse para o céu, mãe Lúcia o batizou e, dias depois, foi batizado na casa paroquial, sendo de nós o único que teve dois batismos. O bebê não morreu, cresceu uma criança muito linda, cabelos louros, cacheados. Para falar a verdade, nós guardávamos certa raivinha dele, inveja de criança, e porque todos queriam segurá-lo ao colo. Juvenila, nossa empregada, era a defensora de Tãozinho, a criança linda que podia fazer o que quisesse, que tinha sempre razão, ai de quem mexesse com ele. Às vezes, o beliscávamos para vê-lo chorar exageradamente e assim vingar as proteções de Juvenila. Ela perguntava ao Tão quem o tinha ofendido e ele sempre apontava um de nós, que recebíamos a correção devida.

Tãozinho era muito inteligente e tinha todas as atenções merecidas pelos caçulas.

Quando ele nem entendia muito da vida e da morte, lembro-me dele de mãozinhas no bolso, olhando para tanta gente reunida lá em casa, perguntando se mamãe iria se acordar logo. Não iria: era o 25 de novembro de 1964, e mãe Lúcia estava num caixão, tinha morrido naquela madrugada na Casa de Saúde São Sebastião. O sepultamento foi no dia seguinte, e o pai estava sério, cercado pelos oito filhos a quem deveria criar, educar, formar. O pai se consolava dizendo que perdera a esposa, mas tinham ficado os filhos. Mamãe tinha 47 anos e o Tãozinho estava para completar 6 e recebia o doloroso título de órfãozinho. Juvenila estava casada, minhas irmãs mais velhas, Maria e Nesir, eram internas no Colégio Coração de Jesus e eu estava no Seminário de Azambuja.

Aquele menino louro, vivo, acarinhado era uma criança meio solitária, agora privado das defesas que os caçulas costumam ter.

A palavra “mãe” não lhe trazia mais recordações. Como deve ter sofrido a solidão, o pobrezinho, aumentada porque nosso pai Artulino não era de dar proteção a algum filho. Todos foram criados como se fossem um só.

No tempo que foi passando, todos foram matriculados na escola das primeiras e segundas letras, na escola do catecismo, na escola do trabalho na roça.

Em 1971, ao chegar em casa para as férias, nosso pai deu-me a notícia: Sebastião queria ser padre, ia para o Seminário de Azambuja, onde eu agora lecionava e frequentava o curso de Filosofia. Por dever de ofício, tive de mostrar uma grande felicidade mas, intimamente sentia a nova solidão que meu irmão caçula iria viver: ser anônimo numa casa com mais de 100 crianças e jovens, sozinho e anônimo por aqueles grandes corredores, quentes no verão, frios no inverno. Recordo com muito sentimento a dor que sentia ao contemplá-lo passando pela experiência da saudade da casa, da família, dos amigos da infância, numa casa de formação tocada por homens sem muitos sentimentos, na qual eu já vivia há 12 anos e onde eu derramei todas as lágrimas que podia, pura saudade, mesmo carregando o peso de que era pecado ter saudade, pois Jesus e Nossa Senhora davam muito mais alegria. Assim foi, porque assim era.

Tãozinho era de personalidade forte, teimoso a ponto de não aceitar desafios. Lembro um dia, assim me contaram, em que Pe. Albano afirmara que ninguém colaria a prova com ele. Sebastião abriu o livro de latim e disse: “eu colo, e pronto!” Ganhou um zero, mas vencera o desafio, como muitas vezes enfrentou depois.

Em setembro de 1972 eu fui indicado para cursar Teologia em Roma. Deixei meu irmão sozinho. Lembro de cartas que me dirigiu, falando de algum formador que não “ia com a cara dele”, da saudade que sentia de tudo. Meu irmão deve ter sofrido muito.

Terminado o Ginásio, deixou o seminário e nosso pai permitiu que ele cursasse o Colegial em Florianópolis, residindo numa pensão. Ali Sebastião foi batizado numa outra vida, onde não faltava o álcool, a droga e as farras. Os sentimentos religiosos foram se apagando, o carinho pela família também. Era outro Sebastião e pouco lembrava o Tãozinho de nossa casa.

Retornei de Roma em 1975 e me preparei para a ordenação presbiteral no ano seguinte, sentindo a indiferença de meu irmão, que me afirmou ver em tudo “babaquice”. Fez o favor de participar mas, no último banco da Igreja à moda hippie, cabelos compridos, calça e camisa jeans, estilo dos rebeldes da época. Nossas veneráveis tias comentavam: “Como ele é diferente”… Lá no fundo da igreja, Sebastião ria… Conseguiu ser diferente.

Tãozinho, nossa irmã Maria e Pedrinho, em 4 de fevereiro de 1967

Tãozinho, nossa irmã Maria e Pedrinho, em 4 de fevereiro de 1967

Desejava partir para o mundo, e partiu. Parece que foi para Porto Alegre. Teve uma experiência não tão boa e depois de uma ou duas semanas voltou…. Mas, antes de ir, escreveu uma carta que Irmã Maria leu para o pai. O assunto era que ele ia partir. Agradecia a educação recebida, mas que este tipo de educação não servia para ele. Passou um tempo no Ribeirão da Ilha, sustentado por nossa irmã Cecília, indo sempre ia ter com ela. Ia também visitar Ir. Maria, no Saco dos Limões. Quando voltou para casa, já noite adentro, disse para o pai que estava voltando. O pai mandou imediatamente o Pedrinho ir para o Ribeirão buscar as coisas dele, antes que se arrependesse. Sebastião ficava no quarto, dormia bastante, levantava pelas 9hs, fazia ele mesmo o sua merenda e almoço, pois era vegetariano. Depois tomava banho no rio. Admirável nosso humilde pai: não chamava atenção, alegre por seu filho estar em casa.

Tempo depois, Sebastião quis realizar o velho sonho: ir para São Paulo, ser livre. Teimou, e meu pai teve de autorizar mas, diferente do pai do filho pródigo, não lhe deu herança, apenas um dinheiro para a viagem e primeiras despesas. Era o ano de 1977 quando Sebastião nos abandonou para viver a vida longe de casa, sozinho no meio urbano, integrado num mundo estranho, e esquecido de seu pai e irmãos, aos quais nem deu o endereço, nem telefonou. Pelo que foi possível pescar, andou no Nordeste, apanhou da polícia, esteve preso, foi internado em hospital devido a alimentos estragados, viajou de trem até a Bolívia, pois queria drogas e queria viver livre. O dinheiro para viver arrecadava vendendo artesanato de couro,.que produzia.

Após dois anos de ausência total, numa madrugada bateu à janela do quarto de nosso pai, dizendo: “pai, sou eu, estou de volta!” Nesse momento nosso pai teve a atitude do pai do filho pródigo e respondeu: “Está bem, Tãozinho, entra para descansar”. E mais não disse, nem mais perguntou. Sebastião entrou em casa como se nunca dela tivesse saído.

Começou nova fase da vida, trabalhando na roça, sendo amigo dos mais pobres e dos humildes, marca de sua personalidade. Recuperou a fé, participava dos sacramentos, mas sempre na liberdade, a ponto de interromper uma homilia do padre para dizer que estava tudo trocado. Sebastião não conseguiu crer por obrigação, nunca mais.

Em 1979 ele quis fazer a experiência de vida dos Irmãozinhos de Jesus, e passou o ano em João Pessoa, trabalhando como servente de pedreiro, muito apoiado pelo Irmão Chico, que nele trabalhou o caminho da conversão.

Retornou nele o desejo de ser padre. Achei que Azambuja não seria o lugar adequado e, graças ao bom Pe. Alcido Kunzler, foi aceito no Seminário de Chapecó, conhecido pelo compromisso social. Mais um ano e, em 1981 veio para Azambuja, cursar a Filosofia. Eu era o formador e não foi fácil tratar com meu irmão, que não admitia a mínima injustiça nem ser obrigado a obediências. Meu irmão continuava o mesmo, cioso da liberdade mesmo a troco de perder benefícios.

Líder nato, engajado nas questões sociais, assumiu o Diretório Acadêmico da Fundação Educacional de Brusque, onde desenvolveu ótimo trabalho. Era 1985 quando eu deixei Azambuja e em 1986 ele deixou o Seminário. Competente e responsável, foi empregado na Prefeitura Municipal de Brusque, por seus méritos chegando a ser nomeado Secretário da Cultura.

Esposo e pai, o adeus

Herança do tempo de Seminário, namorava uma funcionária do Hospital de Azambuja, Nilzete Dubiella. Uma mulher íntegra, paciente, talhada para suportar as liberdades de Sebastião e que o salvou libertou das drogas. Compraram um lote de terra e construíram uma boa casa em Tomás Coelho, onde residia Nilzete. O casamento foi celebrado em 17 de janeiro de 1987, e teve suas peculiaridades: Sebastião entrou na capela de São Roque de manga de camisa, com gravata azul, calça jeans e tênis. Como ele gostava, não como o aconselhavam.

Nilzete e Sebastião foram um casal abençoado pela seriedade, honestidade e inserção na comunidade. O trabalho na prefeitura era bom, trazia o pão de cada dia, mas dependia dos humores da política.

Recebeu e aceitou o convite de meu cunhado Mário César e minha irmã Ivone para montar uma empresa em Curitiba e para lá se transferiu. Foram bem sucedidos e anos depois Sebastião e Nilzete abriram empresa própria, também com muito sucesso. Fiéis a suas convicções, foram sempre justos e generosos na remuneração dos empregados. Ao mesmo tempo adotaram uma família numerosa e muito pobre a quem visitavam a cada sábado, cobrando as lições escolares e ajudando na alimentação e educação. Assumiu o culto na capela Santa Teresinha e preparava jovens para a Crisma. Pouco a pouco revivia em nosso irmão Sebastião a formação religiosa recebida em casa. Foram abençoados pelo nascimento de dois filhos, Daiare e Gabriel. Eles crescendo, não contava as horas para conversar com os filhos sobre Deus, sobre a vida.

Tudo ia muito bem para essa família abençoada em todos os sentidos. Mas, Deus que a visitava sempre, quis que fosse visitada pela cruz, uma pesada cruz que, improvisamente, desmontou aquela felicidade: em 28 de junho de 2006, enquanto Sebastião dirigia o veículo para ir ao trabalho, sentiu dores anormais num braço e decidiu visitar o médico, visitar por visitar. Ao entrar no consultório, foi vitimado por diversos ataques cardíacos que o deixaram inconsciente.Às pressas foi internado no Hospital Evangélico de Curitiba. Era segunda-feira. No sábado seguinte, de manhã, acordou-se e conversou normalmente sobre a família e o trabalho. Daiare falava com muita convicção: “o pai não vai morrer, porque Deus sabe que ele é tão bom e somente fazia o bem. Tenho certeza”. Daiare não conhecia as surpresas de Deus.

Depois, Sebastião apagou-se, mergulhando na agonia que somente terminou em 16 de agosto de 2006. No dia seguinte, foi sepultado no cemitério de Antônio Carlos. Marcada pela dor inesperada, Nilzete falou enquanto olhava o cadáver de seu esposo: “Sebastião, estou muito triste porque você nos deixou. Mas, tenho um consolo: não perdi você para a riqueza, para outra mulher: perdi você para Deus!” Foi sua última conversa, um ato de amor e de fé de quem deveria assumir os filhos Daiare e Gabriel, a casa e as empresas. Foi vitoriosa. A cada fim de tarde se retirava para conversar com Sebastião.

Ali não estava nossa irmã mais velha, Maria, que tanto cuidara de Tãozinho. Era missionária no Ceará. Viveu um luto mais doloroso, pois não se despedira de Tãozinho. Nossa família tinha-se reunido ali, nesse cemitério, em 2 de janeiro de 2002, para a despedida de nosso pai Artulino, abençoado por uma existência de 82 anos e com a graça de não ser provado pela perda de um filho.

Na despedida final de Tãozinho me veio à mente o 26 de novembro de 1964: nesse mesmo lugar nossa mãe se despediu de nós aos 47 anos. Ao lado de seu caixão estava uma criança de 6 anos, o caçulinha Sebastião, que agora também partia, aos 47 anos.

Pe. José Artulino Besen

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SANTA MARIA MADALENA – apóstola dos apóstolos – 22 de julho

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Não me segures – Jesus e Maria Madalena – Giotto

Assinado em 3 de junho de 2016 por decisão de Francisco, um decreto da Sagrada Congregação do Culto elevou a memória de Santa Maria Madalena ao grau de Festa, como a devida aos outros apóstolos. A decisão está inserida no novo contexto eclesial que pede profunda reflexão sobre a dignidade da mulher, a nova evangelização e a grandeza do mistério da misericórdia divina.

São João Paulo II já tinha se referido à missão peculiar de Maria de Mágdala como primeira testemunha que viu o Ressuscitado e primeira mensageira que anunciou aos apóstolos a ressurreição do Senhor.

Santa Maria Madalena é apresentada como um exemplo de “verdadeira e autêntica evangelizadora”, que anuncia a alegre mensagem central da Páscoa. Francisco tomou essa decisão para significar a importância desta mulher que demonstrou um grande amor a Cristo e que tão profundamente foi amada por ele.

O papa São Gregório Magno definiu-a como “a primeira testemunha da ressurreição”, e Santo Tomás de Aquino chamou-a de “apóstola dos apóstolos” porque foi ela que anunciou aos discípulos amedrontados e trancados no cenáculo o que eles deverão, por sua vez, anunciar a todo o mundo. João evangelista a descreve em lágrimas por não ter encontrado no túmulo o corpo do Senhor. Jesus teve compaixão dela fazendo-se reconhecer como Mestre e transformando suas lágrimas em alegria pascal. Tudo isso motivou a decisão papal de que sua festa litúrgica de 22 de julho tenha o mesmo grau das celebrações dos apóstolos no Calendário Romano Geral.

Segundo os biblistas, Santa Maria Madalena não foi a prostituta de que Lucas fala e que ungiu os pés do Senhor (Lc 7, 36-50), uma anônima pecadora conhecida na cidade. Também não é a outra Maria, irmã de Marta e Lázaro, a Maria de Betânia (Jo 12, 1-8). Esse engano deu origem a intensa devoção e inspirou grandes artistas.

Maria Madalena é o que diz seu nome: era de Mágdala, povoado de pescadores à margem do Lago de Tiberíades, mercado de peixes, cujas escavações nos anos 70 do século XX revelaram o desenho urbano da antiga vila. E escavações em 2009 possibilitaram a descoberta da antiga sinagoga, uma das mais antigas dentre as descobertas em Israel: sua posição na estrada que liga Nazaré a Cafarnaum indicaria como aquela frequentada por Jesus.

Maria Madalena aparece pela primeira vez no capítulo 7 de Lucas, quando se narra que Jesus passou por cidades e povoados proclamando a Boa-nova do Reino de Deus, e com ele estavam os Doze a algumas mulheres que tinham sido libertadas de espíritos malignos e de enfermidades e que lhe serviam com seus bens. Entre elas estava “Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios”. Como escreveu o cardeal Gianfranco Ravasi, “em si mesma, a expressão [sete demônios] pode indicar um grave mal (sete é o número de plenitude) físico ou moral que afligiu a mulher de que Jesus tinha libertado.

Sofrendo um mal grave, de natureza desconhecida, Maria Madalena pertencia, assim, ao povo de homens, mulheres e crianças feridas em muitos aspectos que Jesus liberta do desespero para devolvê-los à vida e aos seus entes queridos. Jesus, em nome de Deus, só faz gestos de libertação do mal e de resgate da esperança perdida. O desejo humano de uma vida boa e feliz pertence à intenção de Deus, que é o Deus da cura, nunca cúmplice do mal.

Maria Madalena reaparece nos Evangelhos na hora mais terrível e dramática da vida de Jesus: em seu fiel apego ao Mestre acompanha-o ao Calvário juntamente com outras mulheres, para observá-lo de longe. Em seguida, se apresenta quando José de Arimatéia deposita o corpo de Jesus no túmulo, que é fechado com uma pedra. Depois, no sábado, na manhã do primeiro dia da semana volta ao túmulo e descobre que a pedra fora retirada e corre para contar o fato a Pedro e João, que, por sua vez, correm ao sepulcro para conferir a ausência do corpo do Senhor.

O encontro com o Ressuscitado  

Enquanto os dois discípulos voltam para casa, ela permanece ali, chorando. Inclinando-se no túmulo vê dois anjos e lhes pergunta se não sabiam onde colocaram o corpo do Senhor. Então, olhando para trás, ela vê Jesus, mas não o reconhece, acha que é o jardineiro. Quando Ele pergunta a razão de suas lágrimas e o que procurava, ela respondeu: “Senhor, se tu o levaste, diz-me onde o puseste, e eu vou buscá-lo”.  Jesus disse-lhe, então: “Maria!” (Jo 20,15-16). Citando-lhe o nome, Jesus se revela como o seu Senhor, aquele que ela procura.

O diálogo continua e Maria Madalena diz em hebraico: “Rabuni”, o que significa “Mestre”. Jesus diz: “Não me segures, pois ainda não subi para o Pai; mas vai dizer a meus irmãos: “Eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus”. Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: “Eu vi o Senhor!”. E também narrou o que ele tinha dito “(Jo 20, 16-18).

Maria expressa a maternidade na fé e da fé. Com ela tem início a longa série das mães que, através dos séculos, se dedicam à geração de filhos e filhas de Deus. A decisão de Francisco é um dom belo, expressão de uma revolução antropológica que se refere à mulher e atinge toda a vida eclesial: entender que homem e mulher, numa dualidade encarnada, podem tornar-se anunciadores luminosos do Ressuscitado.

Pe. José Artulino Besen

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NÃO ADIANTA QUERER SER OUTRO 

Criança em plantação de chá - Ruanda - Sebastião Salgado - 1991

Criança em plantação de chá – Ruanda – Sebastião Salgado – 1991

Tu és meu filho, eu hoje te gerei (Sl 2,7).

Contou um monge do deserto do Egito, no século 4º, que um noviço chamado Cirilo se entregava a muitas penitências, vida de oração contínua que a cada dia ia alterando sua personalidade, a ponto de seus companheiros quase não o reconhecerem mais. Seu mestre espiritual o chamou e perguntou-lhe o porquê de tanta mudança. Cirilo respondeu satisfeito: “Meu pai espiritual, tudo o que estou fazendo, os sacrifícios que aceito e a mudança que estão observando em mim prova que estou no caminho certo: quero ser igual a Santo Antão”. Cheio de experiência e de sabedoria, o velho mestre o repreendeu: “Meu filho, Deus não quer que você seja Santo Antão. Deus quer apenas que você seja Cirilo!”.

O ser humano é único e irrepetível. Não há nem haverá alguém igual a nós, somos originais. Isso também significa que não somos reencarnação de alguém que em outra época teve outra cara, outra personalidade e outro nome. Diz a Sagrada Escritura: “Tu és meu filho, eu hoje te gerei” (Sl 2,7), e não “Tu és meu filho, eu hoje te reencarnei”… A reencarnação nega a nossa individualidade e a nossa liberdade, pois supõe que tenhamos sido outro em outra encarnação e que estejamos pagando pelos erros desse outro, como um karma. Deus criou nosso ser no momento de nossa concepção, quando soprou um sopro de vida novo.

Quando o mestre espiritual na história contada há pouco diz que “Deus quer apenas que sejamos nós mesmos”, nos coloca diante de duas realidades fundamentais: nossa originalidade e nossa missão única no mundo.

Somos únicos e necessários

Deus nos criou de modo único. No meio dos bilhões de habitantes da terra e dos bilhões de antes e do futuro, ninguém foi ou será igual a nós, nem na aparência nem na personalidade. A Bíblia diz que fomos tecidos no ventre de nossa mãe, cada um de nós é uma obra-prima da sabedoria e do amor de Deus (cf. Sl 138,13-14).

Copiar é obra da limitação humana, incompatível com a inteligência divina: Deus cria, não copia. Somos únicos no mundo. A consequência é que devemos nos estimar e valorizar. Não somos qualquer coisa, nem qualquer um. Deus não cometeu erros quando nos criou: somos obra de seu amor. Por que, então, estar reclamando de si mesmo, da inteligência, do aspecto externo, das limitações naturais? Seremos felizes não nos comparando com os outros, querendo ser outro, mas valorizando cada vez mais a maravilha que somos nós, alimentando uma visão positiva a respeito de nossa individualidade.

Outro ponto fundamental: nossa vida é única e necessária. Deus não cria pessoas descartáveis ou supérfluas. Cada um de nós tem uma missão a cumprir na história do mundo. Se não a cumprirmos, a história humana ficará incompleta. Isso mostra a importância de nossa vida. Nossas omissões deixarão a história humana imperfeita. Veja a responsabilidade que Deus colocou em nossas mãos: completar ou deixar incompleta a criação!

Então, tudo o que realizamos adquire uma importância decisiva no plano de Deus. Se não temos isso bem claro, fazemos as coisas mais ou menos, reclamando e até deixando de fazê-las porque nos julgamos uns pobres coitados, inúteis, incapazes.

Resumindo: eu me chamo José, Maria. Sou necessário ao mundo. Deus quer apenas que eu seja José ou Maria. Nada de complexos ou comparações. Eu me basto para ser feliz.

Pe. José Artulino Besen

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JESUS DÁ VIDA ÀS NOSSAS MÃOS

Mãos dos Apóstolos (Aleijadinho - Congonhas)

Mãos dos Apóstolos (Aleijadinho – Congonhas)

Estava na sinagoga um homem com a mão direita atrofiada.
Jesus lhe disse: Levanta-te e fica aqui no meio. Estende a mão!
Ele o fez e a mão voltou ao estado normal (cf. Lc 6,6-11)

Simples e significativa esta cena do Evangelho. Apresentam a Jesus um homem com a mão ressequida. Jesus não cura logo a mão. Primeiro ordena: Levanta-te e fica aqui no meio! E depois: Estende a mão!

As mãos são símbolo e instrumento de realização humana. Com elas pegamos e produzimos os alimentos. Com as mãos seguramos uma criança, um deficiente, um doente. Com as mãos acariciamos a quem amamos. Com as mãos o artista realiza uma obra de arte, o poeta compõe uma poesia, o músico toca um instrumento. Com as mãos o lavrador semeia e colhe, o operário transforma a matéria-prima. Com as mãos nos defendemos do perigo, garantimos nossa segurança.

Triste quando as mãos ficam ressequidas: deixamos de viver. Renunciamos ao trabalho, à arte, ao carinho, à vida plena. Mãos ressequidas significam que caímos por terra, não acreditamos em nós, na vida, na alegria de existir. Passamos a viver como derrotados, não acreditando em nós.

Mas, não adianta termos mãos perfeitas se não ficarmos de pé, não crermos em nós.

Por isso mesmo, a primeira atitude de Jesus é ordenar que nos levantemos, vençamos o desânimo, a covardia: Levanta-te e fica aqui no meio! Ordena olhar a vida e o mundo com confiança, coragem, não isolados, mas na companhia dos outros. Ter certeza de que somos capazes de quase tudo, ou então, que somos capazes de viver de verdade e não apenas ficar vivos. Existe muita gente que está viva, mas não vive. É o idoso que acha que já deu tudo e espera a morte. É o aposentado que renuncia às mãos, ficando satisfeito em sobreviver. É o jovem, o adulto que deixam os sentimentos ressecarem, renunciando ao amor, ao afeto, ao carinho, entregando-se ao lamento, ao choro, à decepção.

Muitas mãos perfeitas estão ressequidas, porque seus donos estão por terra, prostrados, desanimados, declarando-se derrotados. Conhecemos pessoas que perderam as mãos em acidentes, mas são exemplo de superação: treinam os pés para agirem em lugar das mãos. Admiramos cegos cheios de vida, caminhando com coragem, cuidando da casa, trabalhando como se os olhos não fizessem falta. Aqui recordo o maior escultor brasileiro, o Aleijadinho: com as mãos quase destruídas pela doença, pedia que nelas amarrassem o cinzel e assim cortava a pedra-sabão, dela extraindo imagens, flores, anjos, animais. E, por outro lado, conhecemos tantos, fisicamente perfeitos, mas que se declaram incapacitados, preferindo fazer do pessimismo a regra de vida. E esterilizam suas capacidades de viver bem e de fazer o bem.

Não vale cair na autojustificação de que, como não sei fazer bem, ou o melhor, deixo de fazer, pois a imperfeição é o grande dom da natureza que nos desafia a recriar, refazer. O combate da vida é o combate pela perfeição que não será alcançada e que sempre permanece combate. Essa expectativa sempre frustrada é o motor da vida e exercita nossas mãos para a arte da existência.

Jesus vem ao nosso encontro para trazer-nos salvação, restituir-nos o gosto pela vida, pela ação, pelo amor, pelo trabalho solidário. Ele oferece forças para que nós nos reergamos, confiemos em nós, valorizemos a vida, deixemos de lado qualquer sentimento de inutilidade, desânimo. Quer que nos levantemos e fiquemos de pé para olharmos a todos de frente.

Fazendo isso, estenderemos as mãos e elas recuperarão a vida, a agilidade, a capacidade de acolher, transformar, amar, viver. Nossa fé cristã não tem como finalidade que percamos o gosto pela vida, esperando a morte e a vida eterna. O contrário: sentindo-nos amados por Deus, amarmo-nos a nós mesmos, aos outros, ao mundo.

Pe. José Artulino Besen

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O AMOR ESCANDALOSO DE DEUS

Jubileu dos padres da Arquidiocese de Florianópolis
Santuário de Azambuja, 2 de junho de 2016.

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Neste Ano Santo da Misericórdia, Jubileu de graça e de reconciliação, recebemos a imerecida graça de podermos nos colocar diante do Deus Pai da Misericórdia que é o Senhor, e diante do homem e da mulher, filhos da Misericórdia gerados no Espírito Santo e regenerados pela Cruz do Senhor. O Ano da Graça não é um período de regeneração delimitado pelo começo e pelo fim de um ano na cronologia da história, mas sim, é um Ano mergulhado no Hoje de Deus, no mistério da salvação decidido por Deus desde toda a eternidade, pois o plano da criação inclui o plano da salvação (Rm 16,25; Ef 3,9; Cl 1,26). Ao proclamar  Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir, na sinagoga de Cafarnaum, Jesus une o Antigo Testamento (cf. Isaías 61,1ss) ao Novo (cf. Lucas 4,18-19), sem delimitar nem povo nem tempo. Assim, o Ano Santo é ocasião propícia para tomarmos consciência do Ano da Graça, e viver na alegria da misericórdia sempre oferecida a cada um de nós.

Gostaria de propor breve reflexão, confrontando o ato da criação com o ato da redenção: o homem e a mulher foram criados à imagem de Deus e segundo a sua semelhança (Gn 1,26). Nós somos à imagem e semelhança de Deus, e Deus é à nossa imagem e semelhança. A primeira semelhança se refere ao ato da criação e a segunda, ao ato da encarnação. É bastante difícil aceitarmos que o Deus encarnado seja à nossa imagem e semelhança, parecendo-nos uma afirmação blasfema ou jogo literário. Na realidade, o dogma cristão inclui essa verdade quando afirma que o Filho eterno se encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria e se fez homem, homem-Deus, igual a nós em tudo, exceto no pecado.

Em Cristo, Deus assume a condição humana, e nós recuperamos a semelhança divina. Deus vivencia os sentimentos humanos e, ao mesmo tempo, oferece-nos a graça de vivermos os sentimentos divinos: “haja entre vós o mesmo sentir e pensar que no Cristo Jesus” (Fl 2, 5). É o caminho da humanização divina e da divinização humana realizada de modo exemplar em Maria: quando o Verbo se fez carne o ventre de Nossa Senhora foi divinizado pela habitação, nele, da Trindade e a carne humana e a natureza divina foram unidas. Na Encarnação, o ventre de Maria é o Sacrário onde acontece a história da salvação.

Essa comunhão-comunicação dá-se no amor: ‘Sede misericordiosos como o Pai’ (cfr. Lc 6, 36), lema do Jubileu da Misericórdia: o Pai é o Misericordioso e nós recebemos o mandamento de vivermos a mesma misericórdia que Jesus revela nas parábolas da ovelha perdida e encontrada, da dracma perdida e encontrada, do filho perdido e encontrado (Lc 15), narrando quem é e como age o Pai. Com sua vida humano-divina, Cristo é o narrador do Pai que quer encontrar a humanidade plenificada em seu amor.

Mais do que pensarmos em indulgência, porta santa, o Jubileu nos propõe conhecermos nosso Deus, pois, antes de tudo o Jubileu é uma questão de Deus: dar a Deus o que é de Deus, e corrigir as distorções da imagem divina que nos foram transmitidas na educação religiosa e familiar.

O desafio é grande no Ocidente secularizado: reabrir, em termos existenciais, a questão de Deus, quem é Deus, seu rosto, num mundo que age como se Deus não existisse, e isso porque não reconhece mais aquele que é o Misericordioso. A secularização priva-nos da paternidade divina, nos abandona na aridez de uma vida sem espiritualidade que também nos deixa sem o calor da fraternidade, pois são irmãos os que possuem o mesmo pai, o Pai. Também a fé cristã se deforma na influência dessa secularização quando insiste na ética, na organização pastoral, na produtividade, atividades tão amadas em nosso tempo, mas que nos privam da alegria do improviso da graça, da inesperada ação divina. Deixamos de ser pastores para sermos agentes de pastoral. Deixamos de procurar e encontrar a ovelha, a dracma, o filho.

A Misericórdia se expressa no Encontro de Deus conosco, e se propaga noutro Encontro: com todos aqueles que vivem nas periferias existenciais. Misericórdia e Encontro são categorias fundamentais na antropologia de Papa Bergoglio e definem a ação pastoral e missionária da Igreja.

A misericórdia escandalosa de Deus

Há imensa dignidade em cada um de nós, sem nenhum merecimento: somos o centro aonde converge o amor divino e recebemos o dom inestimável de poder amar, de sermos divinos pelo ato de amar.

Deus é amor, o amor é divino: nós somos feitos à imagem e semelhança de Deus e recuperamos nossa semelhança pela conversão ao amor. E isso não é pesado, não é um mandamento duro: somos amados primeiro. Nosso amor é somente resposta. “O Senhor não olha tanto a grandeza das nossas obras. Olha mais o amor com que são feitas” (Santa Teresa d’Ávila).

Por diversas vezes, Francisco tem-se referido ao capuchinho Frei Luiz Dli, apreciado confessor em Buenos Aires. Escrupuloso, quando receia ter sido excessivamente indulgente com o pecador, põe-se diante do sacrário e diz: “Jesus, perdoa-me porque perdoei demais. Mas, foste tu quem deu o mau exemplo!”. Frei Luiz reconhece que alguns pecadores deveriam primeiro receber uma boa penitência, e depois a absolvição. Reconhece, contudo, que a misericórdia do Senhor é escandalosa mesmo, ilimitada. Dele provém o perdão sem condições, prazos, admoestações, também porque o confessionário não é uma “câmara de tortura”,  nas palavras de Francisco, mas um “hospital de campanha” onde são tratadas as vítimas da guerra decretada pelo mal: se fizermos muita exigência, acabarão morrendo. Recordo aqui o Cura d’Ars que, diante de penitentes mais graves, declarava que ele mesmo faria a penitência. Nossa penitência é aceitar o amor!

“A misericórdia é algo de escandaloso e até loucura”, escreveu Enzo Bianchi, prior da comunidade monástica de Bose, em 15 de maio de 2016 (cf. Enzo Bianchi: L’amore scandaloso di Dio – San Paolo – 2016).

Nas suas palavras, nem os homens religiosos entenderam de verdade a misericórdia de Deus. Na história da Igreja, a misericórdia foi interpretada exatamente ao contrário do que Jesus pôs em prática, e citamos como exemplo sua atitude diante da mulher adúltera que os escribas e fariseus queriam apedrejar, a quem Jesus primeiro perdoa e depois pede a conversão. E podemos contemplar ainda mais claramente o grande mistério deste amor dirigindo o olhar para Jesus crucificado. Enquanto, inocente, está para morrer por nós, pecadores, suplica ao Pai: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34). É na cruz que o pobrezinho Jesus, todo ferido pela violência, apresenta à misericórdia do Pai o pecado do mundo: e o pecado de todos, os meus, os teus, os nossos foram perdoados com antecedência.

A misericórdia é algo de escandaloso, e até loucura na lógica humana, repito. Sentido paradoxal da misericórdia: não é o arrependimento que cria o perdão, “mas o perdão que nos é dado provoca o arrependimento”. O perdão instaura o cenário do arrependimento e permite ao homem de recomeçar.

Para entendermos de verdade o sentido do perdão, devemos ir à Escritura e ler a afirmação revolucionária do profeta Oséias, que coloca na boca de Deus: “Eu quero misericórdia e não sacrifícios, o conhecimento de Deus mais do que holocaustos” (Os 6,6), e o próprio Filho de Deus declara: Quero misericórdia e não sacrifícios (Mt 9,13). É radicalmente novo colocar juntos misericórdia e conhecimento de Deus. Significa que podemos conhecer a Deus somente numa experiência passiva de misericórdia, de amor e de reconciliação. Caso contrário, Deus se torna um ídolo que fabricamos sob medida, o produto de nossas projeções autoritárias que fazem ameaçar com castigos o pobre pecador já fragilizado. O inferno, para o homem, para cada um de nós, é não sermos perdoados por ninguém.

A evolução do rito penitencial, com a imposição de largas e longas penitências antes de proclamar o perdão foi uma das causas da exigência de sacrifícios para ser declarado perdoado, mas isso foi causado pelo distanciamento da prática de Jesus, que veio para os pecadores e não para os justos: a inversão levou à convicção de que somente se participaria da comunhão eclesial após pagar pelos pecados, levando a crer que Jesus veio para os justos (cf. Mt 5,23).

Na verdade, o sacrifício de Jesus na cruz liberta o homem do sacrifício, afirma Bianchi. O Cristianismo inclui uma concepção antissacrifical: Jesus é uma possibilidade de libertação do sacrifício, da abnegação, da mortificação. Jesus liberta a lei da própria lei, com ele termina a concepção patibular, retributiva e justicialista da lei. A justiça de Deus que Jesus encarna implica a exceção, a possibilidade do perdão = a misericórdia.

O filho pródigo - Murillo

O filho pródigo – Murillo

Pode-se ver isso na história da adúltera ou do filho pródigo (Jo 8,1-11; Lc 15,11-32): o filho não retorna à casa porque estivesse arrependido, mas porque tinha fome, tanto que pede para ser tratado como um dos empregados. Mas, o pai não pede explicações, logo o veste e prepara a festa. O perdão do pai precede o arrependimento do filho. Este é o escândalo. A adúltera se refugia junto a Jesus para não ser apedrejada, e recebe o perdão sem pedir, e depois o convite à mudança de vida.

Escreve Enzo Bianchi: “o sacrifício é comum a todas as religiões e chega a gerar violência. Se o sacrifício é mortificação, não tem nada a fazer com a vida cristã. Se, ao contrário, é renunciar a algo pelo outro, então todos os dias fazemos sacrifícios”. A espiritualidade cristã oferece a unidade jejum-esmola-oração para nos libertar do sacrifício pelo sacrifício, fazendo com que o não consumido pelo jejum seja esmola para o próximo. Assim, o sacrifício cristão supõe uma privação pessoal de tempo, dinheiro e alimento doados ao pobre e ao doente. Evidente que não se deve confundir o sacrifício voluntário com os sacrifícios que nascem de nossa condição de fragilidade, como doenças e privações de coisas e pessoas.

“O sacrifício torna-se patológico quando gera um prazer no sujeito e se torna critério de superioridade moral em confronto com os outros: eu jejuo, eu me mortifico, eu faço penitência. Esse é o risco sempre presente na psicologia do homem religioso. Jesus Cristo morre na Cruz e completa o último, grande sacrifício que definitivamente liberta o homem do sacrifício” (Recalcati, psicanalista italiano). 

A reconciliação ou, Deus oferece o perdão

 Deus nunca deixou de oferecer o seu perdão aos homens: a sua misericórdia faz-se sentir de geração em geração (cf. Sl 100,5; 106). Muitas vezes pensamos que os nossos pecados afastam o Senhor de nós: na realidade, pecando, somos nós que nos afastamos dele que, ao ver-nos em perigo, vem-nos procurar ainda mais, como um bom pastor que não se contenta enquanto não encontra a ovelha perdida (cf. Lc 15,4-6). Ele reconstrói a ponte que nos une ao Pai e permite reencontrar a dignidade de filhos. Mas, por que é possível que nos escondamos do Senhor, a ponto dele precisar nos procurar?  Adão, onde estás?, uma pergunta tão atual! A resposta reside no ato criador de Deus, quando nos fez à sua imagem e semelhança. Ser à imagem e semelhança inclui, por analogia, a própria condição divina com a posse da liberdade: o pecado não nos privou da imagem divina e o mistério da salvação é recuperarmos a semelhança com Deus, segundo a doutrina de Irineu de Lyon (cf. Adversus Haereses), fonte da soteriologia patrística.

O pecado é deveras uma expressão de recusa do amor divino e tem como consequência nos fecharmos em nós mesmos, na ilusão de que encontramos mais liberdade e autonomia, conforme a tentação original, mas, longe de Deus, já não temos uma meta, e de peregrinos neste mundo tornamo-nos “errantes”.

“Reconciliai-vos com Deus!” (2Cor 5, 20): aceitemos o convite a deixar-nos reconciliar com Deus, para nos tornarmos novas criaturas e poder irradiar sua misericórdia entre os irmãos, no meio do povo.

Não necessitamos ficar abismados pelos santos que deram a vida pelo próximo, pelos jovens que se consagram à missão, por aqueles que empenham toda a vida no serviço ao próximo, à família: sentem-se amados e não conseguem se fechar em si, também se dilatam no amor.

Tudo se faz amor quando meditamos no amor pessoal de Deus por cada um de nós: “Tu és Trindade criadora e eu sou tua criatura. Tu estás enamorado de tua criatura”, declarava, cheia de encanto e maravilha, Santa Catarina de Siena (1347-1380). Ela, a analfabeta doutora da Igreja, sentia a paixão divina por ela, caso contrário, não a procuraria sem lhe dar sossego. É essa, igualmente, nossa história: Deus se enamora de nós, a cada dia com mais intensidade. Nunca esqueçamos: Jesus se deixa “contaminar” pelos pecadores, ele se contamina pelos nossos pecados.

O Evangelho é a boa nova da Misericórdia, e não o anúncio da lei esterilizante que sucumbe à tentação de nos julgarmos avalistas do amor de Deus. É o Evangelho da misericórdia que transforma, que faz entrar no coração de Deus, que nos torna capazes de perdoar e olhar para o mundo com mais bondade.

E qual é a resposta única que Deus nos pede? Papa Francisco nô-la oferece meditando a parábola do homem rico e do pobre Lázaro (Lc 16, 19-31): “Ignorar o pobre é desprezar Deus porque, se não abro a porta de meu coração ao pobre, ela permanece fechada também para Deus, e isso é terrível”. Quantas vezes disfarçamos nosso olhar e passos para darmos a impressão de que não vemos o pobre, que ele não existe: a misericórdia de Deus por nós está ligada à nossa misericórdia pelo próximo.

Pe. José Artulino Besen

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PADRE JOSÉ EDGARD DE OLIVEIRA – 1929-2016

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Padre José Edgard De Oliveira – 1929-2016

Padre José Edgard de Oliveira nasceu no bairro Cardoso, em São João Batista, pequena cidade catarinense no vale do rio Tijucas, em 31 de dezembro de 1929. Seus pais eram católicos fervorosos, Francisco Joaquim Leonardo de Oliveira e Nila Soares Pereira de Oliveira. O pai dirigia o culto dominical na capela do bairro, puxando o terço do rosário. Isso é o bastante para se dizer que os filhos beberam na mesma fonte religiosa.

Em 1943, o jovem José Edgard, depois sempre conhecido por Edgard, manifestou o desejo de ir para o Seminário para ser padre. Saiu de sua casa para o seminário de Pinheiral, instituição dos padres jesuítas que atendiam à paróquia de Nova Trento. Terminando o estudo preliminar, a família preferiu que fosse matriculado no Seminário Nossa de Lourdes, em Azambuja, onde já se encontravam colegas seus.

Pode-se dizer que a grande característica que o marcou por toda a vida foi a alegria espontânea, a peraltice, a capacidade de fazer amigos e “aprontar” surpresas que animavam os colegas. Um artista nato. Era inteligente para os estudos, especialmente para a língua portuguesa e a declamação.

Os primeiros anos em Azambuja coincidiram com a Guerra mundial (1939-1945) e a prevenção contra o comunismo ateu. Esse medo estava ligado à contínua oração contra o perigo vermelho, que os seminaristas temiam estar planejando a invasão do Seminário de Azambuja. Pe. Edgard gostava de lembrar a noite em que uma coruja entrou com barulho no dormitório e algum seminarista gritou “os comunistas!”. Foi o que bastou para se instalar um clima de pavor, a maioria fugindo para o pátio e rezando. Comoveu a todos o Raul de Souza (Pe.) ajoelhado e gritando: “Meu Deus, ofereço a minha vida pela conversão da Rússia!”. Outros mais se ofereceram pela salvação das almas, mas ficaram felizes ao descobrirem que tudo foi causado por uma desgovernada coruja. (Continue lendo…)

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A FELICIDADE NASCE DE DENTRO DE NÓS

 

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Ó Deus, vós me tecestes no seio de minha mãe (Sl 138,13).

O Pe. John Powell SJ, no seu livro “Felicidade: um trabalho interior”, conta que determinada pessoa encontrou uma solução prática para não ficar reclamando dos outros. Colocou no espelho de seu banheiro um cartaz com a frase: “Você está vendo a pessoa responsável pela sua felicidade”. Deste modo, cada vez que se dirigia ao banheiro sentia com clareza o impacto da frase: somente ele era o responsável pela sua felicidade!

Deus nos criou para sermos felizes. Tudo o que fazemos tem este objetivo: alcançar a felicidade. Se alguém não aspirasse mais a ser feliz, estaria doente, seria um caso clínico. Nada mais desanimadora do que uma pessoa que se conformasse em viver triste, sem ânimo, conformada com o própria derrota.

Por outro lado, a experiência nos demonstra que muita gente não é feliz, luta para sê-lo, mas não consegue. A causa maior disso é que espera que a felicidade venha dos outros, venha das coisas. Coloca a felicidade como algo que, de fora, corra ao seu encontro. A esposa aguarda que o marido a faça feliz. O namorado acha que a amada vai tirar dele a infelicidade. Os pais nutrem a esperança de que os filhos os farão felizes. O jovem pensa que o amigo vai fazê-lo feliz. E isto não acontecerá, pois a felicidade brota de dentro de nós.

Ninguém pode nos fazer felizes, porque nós somos responsáveis pela nossa felicidade! Por respeitar nossa maturidade pessoal, nossa liberdade de escolha, Deus também não nos faz felizes. O resto, é ilusão: buscamos a felicidade no dinheiro, no luxo, na beleza física, na fama, no sexo, na festa, na droga, e vamos querendo sempre mais, porque a infelicidade continua a ser nossa companheira.

Duas inimigas – competição e comparação

Há ainda duas outras atitudes que impedem deixar a felicidade brotar de dentro de nós: a competição e a comparação.

Achamos que o outro é feliz porque faz as coisas melhor do que nós, é sempre vitorioso, ganha mais, é o tal. Passamos então a competir para ser como ele, melhor do que ele. E assim continuamos, de competição em competição, e a frustração continua conosco.

Ou então, passamos a nos diminuir, a pensar mal de nós: ficamos nos comparando com os outros. Surge a inveja: gostaríamos de ter um nariz como o outro, os olhos da cor dos olhos de nossa amiga, nos achamos baixinhos diante de quem é alto, quereríamos ter a inteligência de nosso colega, achamos nossa voz sem graça porque a do outro é que é bonita, nossa casa seria melhor se fosse como a do vizinho. Numa palavra, pensamos mal de nós e de nossas coisas e vamos sendo roídos pela inveja. E somos infelizes.

Estamos perdendo tempo e pensando mal de Deus. Afinal, nenhum de nós foi mal feito, nenhum de nós foi jogado no mundo com a incapacidade de se realizar. Cada um possui tudo o que é necessário para ser feliz: Deus nos fez de um modo maravilhoso, mas bem diferentes uns dos outros. Quem tem fé exclama, feliz, como o salmista: “Sede bendito, ó Deus, por me terdes feito de um modo tão maravilhoso” (Sl 138,14).

Então, para que competir, para que ter inveja? Ninguém é incompleto. Basta que nos contemplemos com amor, com otimismo, desenvolvamos a estima pessoal. Para que machucar nossos sentimentos comparando-nos com os outros?

Depois, com certeza, sentiremos a felicidade transbordar de dentro do nosso coração. A receita é simples: se eu não me amo, não me valorizo, quem me amará, quem me valorizará?

Pe. José Artulino Besen

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ANO SANTO DA MISERICÓRDIA – ENXUGAR AS LÁGRIMAS

 

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Criança salva nos escombros de bombardeio em Aleppo – 28-04-2016

Dentro do Ano Santo da Misericórdia, Francisco preside no dia 5 se maio, quinta-feira, uma Vigília de oração para enxugar as lágrimas dos que sofrem. A imensa Basílica de São Pedro no Vaticano será casa de misericórdia, casa de compaixão, seu magnífico espaço não será olhado pela beleza da arte, da arquitetura, mas pela beleza de corações que choram, que derramam lágrimas tanto por si quanto pelos outros que padecem de dor física ou espiritual.

Consolar os aflitos é uma das sete obras da misericórdia espiritual, que leva-nos a enxugar os rostos regados pelas lágrimas de sofrimento e oferecer consolação e esperança.

Ao anunciar essa Vigília com a presença do Papa, a Rádio Vaticana assim descreveu a finalidade: “um anúncio visível da misericordiosa mão do Pai que busca enxugar as lágrimas: de uma mãe que perdeu um filho, de um filho que perdeu o pai, dos que padecem enfermidades, dos que perderam o emprego ou não o encontram, dos que vivem situações de desunião familiar, dos que fazem experiência da solidão e do abandono, dos que são vítimas da injustiça, daqueles que perderam o sentido da própria vida e não conseguem encontrá-lo. São numerosos e de toda espécie os sofrimentos que cada um carrega dentro de si, todos verdadeiros e que podem nos conduzir à falta de esperança e de confiança”.

O dia de enxugar as lágrimas será o Jubileu daquele que chora lágrimas de dor ou de felicidade, de desespero ou de emoção por um acontecimento inesperado. Francisco não faz diferença quanto à origem do choro, desde que nasça do coração.

A Igreja e, nela, cada um de nós deve aprender a consolar os aflitos e abrir a Porta Santa para todos aqueles que sabem chorar. Sem citá-lo, o Papa se refere ao “dom das lágrimas”, dom concedido pelo Espírito Santo e que nos faz chorar nos momentos pessoais de escuridão ou de claridade. Pergunta Francisco: “Sentimos o valor das lágrimas que lavam nossos olhos para contemplar, ver o Senhor? […] É uma graça. Chorar por tudo: pelo bem, por nossos pecados, pelas graças, também pela alegria”.

Tanto as lágrimas de alegria como as de dor nascem do mesmo ventre do amor: “são filhas de um coração que deseja e espera sempre o bem daquele a quem se ama. As mamães o sabem muito bem. Se uma mãe chora, é quase sempre por causa de seus filhos. São lágrimas inquietas, fruto do amor profundo que nutrem por seus filhos”.

As lágrimas são fruto de corações misericordiosos, e somente desses corações. A frieza de um comerciante de armas resseca seus olhos, a ânsia pelo poder não permite as lágrimas. A frieza dos fanáticos religiosos ou políticos que fazem guerra tornam-nas mais abundantes nas famílias destruídas, nas crianças que vagueiam sem escola, sem infância, nos jovens privados de sonhar o próprio futuro, nos anciãos desamparados de quem se roubou até o passado.

A justiça divina vai nos julgar não por nossas obras, por nosso sucesso, e sim, pelas lágrimas que enxugamos no sofredor, pelas lágrimas que soubemos derramar. A balança do julgamento pesará as lágrimas e gemidos que decidirão nossa eternidade.

Deus é solidário com nossas dores e alegrias

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Nossa Senhora das Lágrimas de Siracusa – foto da lacrimação de 29-08-1953

Nosso Deus chora por nós e conosco: o Filho Jesus chorou pela morte do amigo Lázaro e pelo sofrimento de suas irmãs Marta e Maria. Seremos também surpreendidos pelas lágrimas de Deus Pai, pois também ele chora: “Se não quiserdes obedecer, em segredo minha alma vai chorar: por causa do orgulho, estarão meus olhos chorando sem parar, derramando lágrimas” (Jeremias 13, 17). Quanta ternura contemplamos em nosso Abbá-Pai num cantinho, chorando, de esguelha olhando para nós, esperando que nos decidamos por ele!

“Contaste os passos da minha caminhada errante, minhas lágrimas recolhes no teu odre; acaso não estão escritas no teu livro?” (Salmo 56, 9). Nada justifica a omissão, nem o mais empenhativo compromisso religioso: “Quando estiveres extasiado junto de Deus, se um doente te pedir uma tigela de caldo, desce do sétimo céu e dá-lhe o que pede” (Ruysbroeck). Nada está acima da misericórdia, nada é mais importante do que enxugar lágrimas.

Não podemos ficar indiferentes diante das tragédias de nossa época, como o sofrimento dos migrantes, a dor de quem é escravizado para o serviço da riqueza ou do prazer dos poderosos, do desemprego que humilha, não permitamos nossos ouvidos tratarem as mortes no trânsito, nos bombardeios apenas como problemas estatísticos, porque a morte de uma pessoa já é excessiva.

Para a Vigília na Basílica de São Pedro, o Papa decidiu trazer e expor uma pequena imagem, Nossa Senhora das Lágrimas. Em 29 de agosto de 1953, em Siracusa um jovem casal corria o risco de interrupção da gravidez. A futura mãe chorava desconsolada quando levou um susto e gritou: “Olhem que a imagem chora!”. E era verdade: lágrimas escorriam pela face da imagem mariana e a lacrimação se prolongou por 4 dias aos olhos de todos, de devotos ou curiosos, de médicos, fotógrafos, filmadores. A ciência não conseguiu explicar o fenômeno, pois era inexplicável mas, quem enxuga lágrimas logo compreende: a Mãe de Jesus tem diante de seus olhos o Filho crucificado pelo qual chorou dolorosamente e sempre chora ao ver o sofrimento daqueles de quem ele falou: “Mulher, eis aí teu filho”.

Pe. José Artulino Besen

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