SÃO MAXIMILIANO MARIA KOLBE

São Maximiliano Kolbe – sacerdote e mártir

Nasceu em Lodz, na Polônia, em 8 de janeiro de 1894. Seus pais, Júlio Kolbe e Maria Dabrowska, eram tecelões bem de vida, que trabalhavam em casa com equipamentos teares próprios.

Em 1907, junto com o irmão Francisco deixou a casa paterna iniciando a provação junto aos frades menores conventuais em Leópolis onde, em setembro de 1910 vestiu o hábito religioso. Após o ano de noviciado e de estudos humanísticos foi enviado a Roma onde, de outubro de 1912 a julho de 1915, cursou filosofia na Universidade Gregoriana, seguida da teologia no Colégio Seráfico romano. Por motivo da guerra, passou um tempo em São Marinho, país neutro.

Em 17 de outubro de 1917 fundou a associação “Milícia de Maria Imaculada”, em 1922 erigida como “Pia União”, cujo fim era buscar a conversão dos pecadores, hereges, cismáticos, infiéis e especialmente maçons e a santificação de si próprios e de todos sob o patrocínio da Bem-aventurada Virgem Maria Imaculada e medianeira, assim ele mesmo definiu no redigir os estatutos.

Em 28 de abril de 1918 foi ordenado sacerdote e desejou celebrar a primeira Missa no altar do milagre na igreja de Santo André. Retornando à Polônia, contagiou-se com tísica e teve de passar quatro anos num sanatório vizinho a Zakopane. Em janeiro de 1922, o jovem Kolbe fundou uma revista mariana com o título significativo de “Milícia da Imaculada”, e assim constituir os fundamentos das futuras “Cidades da Imaculada”. A primeira dessas cidades surgiu em 1927, a 40 quilômetros de Varsóvia: era casa editora, a grande tipografia, as casas para os operários, as oficinas, ao todo mais de mil pessoas, a serviço da difusão do culto de Maria no mundo. Das 22 mil cópias em 1922, a revista chegou a ter mais 750 mil espalhadas por todo o mundo. Kolbe pensava em difundir sua obra nos países mais distante. Não por acaso, a segunda “Cidade da Imaculada” surgiu no Japão.

Em 1º de setembro de 1939, com a invasão da Polônia pelas tropas nazistas, estourou a segunda Guerra mundial. A “Cidade da Imaculada” estava exposta à rapidíssima invasão das tropas alemãs e, por isso, a prefeitura de Varsóvia ordenou a imediata evacuação de todos os seus habitantes. Kolbe reuniu os seus e ordenou a todos de salvar-se nos locais mais seguros. Ele ficou permaneceu no posto e se apresentou às tropas alemãs que prenderam as cinquenta pessoas restantes que, após uma caminhada de três dias foram internadas no campo de concentração de Amtitz. Mas, três meses depois foi-lhes permitido retornar à “Cidade da Imaculada”. Kolbe e a comunidade abriram aquelas casas aos doentes e vitimados pela guerra. Foi possível editar um número da revista, onde Kolbe publicou seu último artigo, no qual suplicava à Imaculada para que trouxesse uma paz sempre mais profunda ao mundo.

O Cavaleiro da Imaculada

Em 17 de fevereiro de 1941, o epílogo dramático: a Gestapo invadiu a “Cidade” e prendeu o Pe. Kolbe e outros quatro padres mais anciãos. A motivação foi a mesma que provocou milhões de deportados: a Polônia deveria ser purificada de todos os elementos que com sua profissão pudessem enfraquecer o front interno.

São Maximiliano Kolbe – só o amor é forte

Maximiliano Kolbe foi internado na prisão de Pawiak na noite de quarta-feira, 28 de maio, quando chegou ao campo de concentração de Auschwitz com outros 320 prisioneiros. Na primeira noite ficaram trancados na sala de ingresso do lager, oito metros por trinta. Na manhã seguinte foram despidos e lavados com fortes jatos de água gelada. A todos foi entregue um macacão com um número, e o de Pe. Kolbe era 16670. Foram colocados no barracão 17 dos trabalhos forçados, num primeiro tempo para a construção de um muro ao redor do forno crematório, e depois de uma semana empregados no corte das árvores num bosque distante quatro quilômetros do barracão 17. Foram duas semanas de esforços incríveis, sob as contínuas humilhações dos carcereiros. Doente de pulmonite, terminou no hospital por três semanas e em seguida foi colocado no barracão número 12, o dos inválidos. Pouco tempo depois, Pe. Kolbe foi novamente colocado no barracão dos trabalhos forçados, o famigerado n.14.

Em julho de 1941 um dos prisioneiros desse bloco, o 14, conseguiu fugir: como represália, dez prisioneiros dessa unidade foram condenados a morte pela fome. Esperou-se ainda um dia para continuarem as buscas pelo prisioneiro fugido do lager. Na manhã seguinte, após a chamada, na ausência do fugitivo, o bloco 14 não foi mandado para o trabalho, mas deixado sob contínuo sol quente, por todo o dia. Ao anoitecer, o comandante do campo anunciou aos prisioneiros a sentença e escolheu dez deles para a morte. Frente ao desespero de um dos dez, o pai de família Frank Gajowniczek, Pe. Kolbe deu um passo à frente e ofereceu-se em lugar dele, salvando-o. Os dez foram conduzidos ao bloco n. 13, localizado na parte direita do campo e circundado por um muro de seis metros de altura. No subterrâneo ficavam as celas dos condenados, algumas delas sem janelas. Ao final da terceira semana eram poucos os sobreviventes, entre eles o Pe. Kolbe. Uma injeção de ácido muriático encerrou a vida dos mártires; era 14 de agosto de 1941.

 
São Maximiliano Kolbe – mártir da caridade

O secretário e intérprete do chefe alemão no subterrâneo da morte, Bruno Borgowiecz, assistiu os últimos momentos: “… os pobres condenados morriam um depois do outro, tanto que ao final da terceira semana restavam somente quatro, entre os quais o Pe. Kolbe. Isso deu à autoridade a impressão que era tempo demais, as celas eram necessárias para outras vítimas… O Pe. Kolbe, com a oração nos lábios, ajudou o carrasco na aplicação da injeção mortal…. Tendo saído o SS com o carrasco, retornou à cela, onde encontrou o Pe. Maximiliano sentado, apoiado na parede, com os olhos abertos e a cabeça inclinada. Sua face, serena e bela, estava irradiante”. Pe. Maximiliano Maria Kolbe estava na pátria celeste, em Deus.

Papa São Paulo VI o declarou bem-aventurado em 17 de outubro de 1971. São João Paulo II o canonizou em 10 de outubro de 1982. Um processo rápido, apenas 42 anos após seu martírio.


Pe. José Artulino Besen

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SANTA MARIA MADALENA, APÓSTOLA DOS APÓSTOLOS

Por vontade do papa Francisco, um decreto da Sagrada Congregação do Culto divino de 3 de junho de 2016 elevou a memória litúrgica de Santa Maria Madalena à Festa igual a dos Apóstolos, com data de 22 de julho. Por que essa memória litúrgica de 22 de julho é equiparada à Festa dos Apóstolos? Na verdade, desde uma homilia do papa São Gregório Magno, as três mulheres são reduzidas a uma “Maria”. E assim ficamos 1.500 anos celebrando Maria Madalena como a Maria de Betânia e a Maria prostituta. Essa redução de Maria Madalena tornou-a sinônimo de mulher vulgar na linguagem do povo.

Se formos fiéis aos textos evangélicos, perceberemos uma história diferente para as três mulheres com o nome de Maria, todas tocadas pelo amor do Senhor, com a vida transformada após o contato regenerador. São três Marias, três histórias de salvação.

Foram necessários dois Papas, João Paulo II e Francisco, para retomarmos a imagem verdadeira e única de Maria Madalena. Foi João Paulo II que dedicou grande atenção não só à importância das mulheres na própria missão de Cristo e da Igreja, mas também, e com forte acento, à função de Maria Madalena qual primeira testemunha que viu o Ressuscitado e, mais, a primeira mensageira que anunciou aos apóstolos a ressurreição do Senhor. Santo Tomás de Aquino (1225-1274) definiu-a como “apóstola dos apóstolos”, porque foi ela que anunciou aos discípulos amedrontados e fechados no cenáculo aquilo que eles, por sua vez, deveriam anunciar a todo o mundo.

Promovendo o papel das mulheres na Igreja

O papa Francisco recebe críticas quando se trata de seus esforços (ou falta deles) em promover as mulheres, especialmente para cargos-chave dentro do Vaticano.

Muitas vezes seus críticos o acusam de grandes promessas, mas falhas na entrega. Em setembro de 2014, ele levantou as esperanças de muitos quando nomeou uma mulher – Irmã Missionária Comboniana, Luiza Premioli, brasileira – como membro de pleno direito da Congregação para a Evangelização dos Povos. Isso foi histórico: até então, “membros” das congregações romanas eram sempre homens: cardeais, bispos e às vezes chefes de ordens religiosas masculinas.

No último dia 8 de julho, quase cinco anos depois, Francisco causou alguma comoção quando nomeou sete mulheres para estarem entre as 23 pessoas recém-nomeadas como membros da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica. Seis dessas mulheres são superioras gerais de ordens religiosas, enquanto a sétima lidera um instituto secular.

De repente, o papa fez a bola rolar novamente, deixando os tradicionalistas alarmados. Estaria o papa dando os últimos retoques no documento preliminar para reformar a Cúria Romana?  É de se esperar que outras nomeações semelhantes de mulheres sigam em massa?

Contratempos e mensagens mistas

Maria Madalena (1809 – Antônio Canova)

Maria Madalena – uma mulher – pode ter sido a primeira pessoa a anunciar a ressurreição, mas no Vaticano os homens ainda estão controlando a mensagem.

Apenas 10 dias após a nomeação de sete mulheres como membros da congregação romana que lida com ordens religiosas, o Vaticano anunciou a nomeação do novo diretor em tempo integral da Sala de Imprensa da Santa Sé. Os três oficiais recém-nomeados são todos homens. E todos são italianos, embora um tenha nascido e vivido brevemente na Grã-Bretanha antes de ser mudado para Roma.

Havia a expectativa de que uma mulher fosse nomeada como vice-diretora da assessoria de imprensa. Pelo menos três mulheres foram convidadas a assumir o cargo. Duas delas, uma italiana e outra latino-americana, recusaram-se por várias razões. Diz-se que a terceira, uma brasileira que trabalhou no Vaticano por muitos anos, não conseguiu a aprovação da Secretaria de Estado.

Existem 12 “superiores”, com tarefas variadas, no dicastério da comunicação. Apenas 11 desses postos estão preenchidos no momento (não há vice-diretor do departamento de imprensa). Os homens ocupam 10 deles – nove são italianos e um é argentino. Uma teóloga leiga, eslovena, é a única mulher no alto escalão. Elas não estão melhor representadas entre os 17 membros em tempo integral neste dicastério. Existem apenas duas delas, os outros são 14 cardeais e bispos e um leigo. Há 31 pessoas listadas entre os funcionários dos vários departamentos e escritórios do jornal. Apenas três deles são mulheres no Osservatore Romano.

O papa Francisco normalmente não realiza revoltas radicais: ele prefere iniciar processos que levem a mudanças graduais – e irreversíveis, gosta de estabelecer cuidadosamente as bases ao longo do tempo, o que pode ser extremamente frustrante para pessoas impacientes ou para aqueles que estão empenhados em buscar justiça aqui e agora.

Mas Roma não foi construída em um dia e os papas que tentam mudar as coisas muito rapidamente podem se ver isolados, suas diretivas ignoradas ou obstruídas, e sua própria saúde e bem-estar em perigo! Francisco sabe disso e está cuidadosamente escolhendo suas batalhas. E enquanto ele continua dizendo que é a favor do avanço das mulheres para as funções de liderança e tomada de decisões dentro do Vaticano e de toda a Igreja, ele muitas vezes parece estar perdido em como fazê-lo.

Talvez ele esteja apostando em obter mais orientação e um pouco de especial intercessão de duas das mulheres que ele mais admira – Nossa Senhora, Desatadora dos Nós e Santa Maria Madalena.

Maria Madalena vê o Senhor

Era bem de madrugada, ainda escuro, e Maria Madalena foi ao túmulo e viu que a pedra tinha sido retirada. Assustada, saiu correndo e foi se encontrar com Pedro e o Discípulo amado para queixar-se: “Tiraram o Senhor do túmulo e não sabemos onde o colocaram”.  Os dois discípulos entram no túmulo e percebem que tudo estava em ordem como tinham deixado por ocasião do sepultamento, mas Jesus não estava lá. Viram e creram, e voltaram para casa.

Maria Madalena ficou perto do túmulo, do lado de fora, chorando. Enquanto chorava, inclinou-se para olhar dentro do túmulo. Enxergou dois anjos, sentados onde tinha sido posto o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. Perguntaram-lhe: “Mulher, por que choras?”. Ela respondeu: “Levaram o meu Senhor e não sei onde o colocaram”. Dizendo isto, Maria virou-se para trás e enxergou Jesus em pé, mas não o reconheceu. Jesus perguntou-lhe: “Mulher, por que choras? Quem procuras?”. Pensando que fosse o jardineiro, ela disse: “Senhor, se foste tu que o levaste, dize-me onde o colocaste, e eu irei buscá-lo”. Então, Jesus falou: “Maria!”. Ela voltou-se e exclamou: “Mestre!” Alegre, ela buscou tocar Jesus, que lhe disse: “Não me segures, pois ainda não subi para junto do Pai. Mas vai dizer aos meus irmãos: subo para junto do meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus”.

Então, Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: “Eu vi o Senhor”, e contou o que ele lhe tinha dito (cf. Jo 20, 1-18). Ela penetrava no íntimo da fé: o Senhor ressuscitou.

Revelou ao mundo um novo mundo: Cristo ressuscitou! Esse anúncio não proveio de descoberta intelectual, ideológica, e crer nele exige entrar no mistério. Assim expressou Francisco: “Entrar no mistério significa capacidade de espanto, contemplação; capacidade de escutar o silêncio e escutar o murmúrio de um fio de silêncio sonoro no qual Deus nos fala. Para entrar no mistério é preciso humildade, a humildade de abaixar-se, de descer do pedestal de nosso orgulhoso eu. É preciso o rebaixamento que é impotência, esvaziamento das próprias idolatrias.

Tudo isso nos ensinaram outras mulheres discípulas de Jesus (cf. Lc 24, 1-8). Com Maria Madalena elas passaram a noite em vigília, bem cedinho, saíram levando perfumes e com o coração ungido pelo amor. Saíram e encontraram o sepulcro aberto. E entraram. Vigiaram, saíram e entraram no mistério. Não podemos nos confrontar com o evento da ressurreição racionalmente. Ele somente pode ser contemplado e experimentado participando de sua potência de atração que toca o íntimo. Isto ensinam as mulheres, que não buscam entender, mas se deixam agarrar, entram no mistério”.

João Paulo II ressaltou a importância das mulheres na própria missão de Cristo e da Igreja e, de modo especial, à função peculiar, à função de Maria Madalena, a primeira testemunha que viu o Ressuscitado e a primeira mensageira que anunciou aos apóstolos a ressurreição do Senhor. Santa Maria Madalena é apresentada como um exemplo de “verdadeira e autêntica evangelizadora”, que anuncia a “alegre mensagem central da Páscoa”. Francisco quer significar a relevância desta mulher que mostrou um grande amor e foi tão amada por Cristo. Fazia parte dos discípulos de Jesus, havia-o seguido até aos pés da cruz e, no jardim onde se encontrava o sepulcro, tinha sido a primeira testemunha da ressurreição, testemunha da divina misericórdia.

O decreto que insere a memória de Maria Madalena na liturgia como dos apóstolos encontra a explicação no atual contexto eclesial, que convida a refletir mais profundamente a dignidade da mulher, a nova evangelização e a grandeza do mistério da misericórdia divina. Esperamos redescobrir na Igreja latina Maria de Mágdala evangélica, discípula de Jesus, testemunha da ressurreição e, por isso definida por Francisco “apóstola da nova e grande esperança”.

Pe. José Artulino Besen

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NOSSA SENHORA DO CARMO

Nossa Senhora do Carmo

O título de Nossa Senhora do Monte Carmelo, ou também do Carmo, é uma  das devoções mais antigas e amadas da cristandade e deita raízes nos tempos bíblicos. É a padroeira dos carmelitas e daqueles que se empenham em viver a espiritualidade do Carmelo; é protetora e intercessora daqueles que carregam o Escapulário, é a Rainha das almas do purgatório.

Em todo o mundo se multiplicaram os santuários, igrejas, irmandades, e, santos, papas, religiosos e devotos invocam esse título mariano festejado em 16 de julho.

O culto de Nossa Senhora do Carmelo tem suas raízes nove séculos antes do nascimento de Maria e está ligado a uma passagem da vida do profeta Elias, na cadeia montanhosa do Monte Carmelo, na Alta Galileia, onde tinha fundado uma comunidade de homens, defendendo a pureza da fé no Deus vivo contra a tentação do culto idolátrico a Baal. Ali Elias teve a visão da pequena nuvem, pequena como a mão de homem, que da terra subia para o monte, trazendo a chuva e salvando Israel da seca.

“Então, Elias disse a Acab: “Vai, come e bebe, porque já ouço o ruído de uma grande chuva”. Voltou Acab para comer e beber, enquanto Elias subiu ao cimo do monte Carmelo, onde se encurvou por terra, pondo a cabeça entre os joelhos. Disse ao seu servo: “Sobe um pouco e olha para as bandas do mar”. Ele subiu, olhou o horizonte e disse: “Nada”. Por sete vezes, Elias disse-lhe: “Volta e olha”. Na sétima vez, o servo respondeu: “Eis que sobe do mar uma pequena nuvem, do tamanho da palma da mão”. Elias disse-lhe: “Vai dizer a Acab que prepare o seu carro e desça para que a chuva não o detenha”. Num instante, o céu se cobriu de nuvens negras, soprou o vento e a chuva caiu torrencialmente. Acab pulou na carruagem e partiu para Jezrael.  A mão do Senhor veio sobre Elias, o qual, tendo cingido os rins, passou adiante de Acab e chegou à entrada de Jezrael. ” (1Re 18, 41-45).

Nesta imagem, uma tradição transmitida nos escritos pelos Padres da Igreja via na pequena nuvem o símbolo da Virgem Maria que – carregando em si o Verbo de Deus – deu ao mundo vida e fecundidade e continua a oferecer aos homens sua poderosa intercessão. Essa tradição forte no período medieval, encontrou acordo entre os exegetas os místicos cristãos.

As origens do culto

A devoção a Nossa Senhora do Monte Carmelo é inseparável da história e dos valores espirituais da Ordem dos Frades Carmelitas, à difusão do Escapulário e à oração pelas almas do purgatório.

Nos séculos medievais se estabeleceram no Monte Carmelo as primeiras comunidades monásticas que deram início à vida contemplativa. No século XI, os cruzados encontraram estes religiosos, provavelmente do rito maronita que se definiam herdeiros e discípulos do profeta Elias e seguiam a regra de São Basílio. Pelo ano 1154, retirou-se ali o nobre francês Bertoldo, vindo da Palestina com seu primo Armério e veio decidido a reunir os eremitas em vida cenobítica.

Ali, rodeada pelas pequenas celas construíram pequena igreja que dedicaram a Maria, e os eremitas se denominaram “Frades da Bem-aventurada Virgem Maria do Carmelo”, os atuais Carmelitas. Deste modo, o Carmelo adquiria definitivamente suas duas características: a referência ao profeta Elias e a união com a Virgem. Em seguida, o patriarca de Jerusalém redigiu os primeiros estatutos para os eremitas do Monte Carmelo.

Por volta de 1235, os frades tiveram que abandonar o Oriente, devido à invasão sarracena. Os que não sofreram o martírio instalaram-se pela Europa, fundando  o primeiro convento em Messina. Deste modo os carmelitas espalharam o culto àquela “a quem foi dada a glória do Líbano e o esplendor do Carmelo e do Saron” (Is 35,2).

O Escapulário do Carmelo e as promessas

Por volta de 1247, o frade Simão Stock foi escolhido como o sexto prior geral da Ordem Carmelitana; ele, venerado como santo pela Igreja Católica, propagou a devoção da Virgem do Carmelo e compôs para ela um belo hino, o Flos Carmeli.

São Simão Stock era profundamente devotado a Nossa Senhora e muitas vezes implorava-lhe que concedesse proteção especial à sua Ordem, com o dom de algum privilégio. Segundo a tradição, a Virgem quis ouvi-lo e no domingo, 16 de julho de 1251, apareceu ao Santo, com 86 anos, rodeada de anjos e com o Menino nos braços, mostrou-lhe um Escapulário e disse: “Filho amado, leve este Escapulário da sua Ordem, sinal de minha Irmandade, um privilégio para você e todos os Carmelitas. Aquele que morrer neste hábito não sofrerá um fogo eterno; ele é um sinal de saúde, de segurança nos perigos, de um pacto de paz e de um pacto de eternidade”.

Deste modo, a Virgem deixou nas mãos de Simão o penhor de sua primeira “Grande Promessa”: proteção e salvação eterna àqueles que usassem seu hábito sagrado. Originalmente, o escapulário era uma peça sem mangas e aberto nos lados. Na Idade Média, era usado por monges e frades para cobrir a veste no peito e nas costas.

A segunda promessa: o privilégio do Sábado

Vários anos depois da primeira promessa, no início dos anos 1300, a Virgem apareceu a Jacques Duèze, futuro Papa João XXII, e lhe teria dito: “Aqueles que estiverem vestidos com este hábito sagrado serão libertados do purgatório no primeiro sábado após a sua morte”. Portanto, se com a primeira promessa a Virgem assegurava a salvação eterna, com a segunda ela reduzia a permanência da alma no purgatório a um máximo de uma semana.

Assim, por mais de sete séculos os fiéis têm usado o Escapulário do Carmelo para assegurar a proteção de Maria em todas as necessidades da vida e para obter, através de sua intercessão, a salvação eterna e uma pronta libertação do purgatório.

As promessas relacionadas ao Escapulário também foram confirmadas pela Virgem em Fátima. Em 13 de outubro de 1917, de fato, enquanto o grande milagre do Sol era visto por mais de cinquenta mil pessoas, Maria mostrava-se aos pastores sob as vestes da Virgem do Carmelo, segurando apresentando o Escapulário em suas mãos.

Pode-se dizer, portanto, que os inestimáveis ​​privilégios ligados ao Escapulário são parte integrante da Mensagem mariana de Fátima, juntamente com o Rosário e a devoção ao Imaculado Coração de Maria. De fato, as referências ao inferno e ao purgatório, a necessidade de penitência e a intercessão de Nossa Senhora contidas na Mensagem estão em absoluta harmonia com as promessas ligadas ao Escapulário. Não é por acaso que Lúcia, a única dos três pastores que permaneceu viva, se tornou uma Carmelita Descalça, e disse que na mensagem de Nossa Senhora “o Rosário e o Escapulário são inseparáveis”. A Igreja sempre reconheceu e apreciou o Escapulário, através da vida de tantos santos e de Papas que o recomendaram e trouxeram.

São João XXIII confirmou a devoção e mais vezes o recomendou; São Paulo VI exortava ao uso e “recomendou expressamente a prática religiosa do Rosário e do Escapulário do Carmo”. E São João Paulo II falou a dois carmelitas: “também eu carrego no meu coração, há tanto tempo, o Escapulário do Carmelo, pelo amor que nutro pela Mãe celeste, cuja proteção experimento continuamente”.

Milhões de devoto espalhados pelo mundo atestam a devoção mariana, tão simples, simbolizada nas medalhas sobre o peito e a coluna, o Escapulário da Mãe de Deus.


Pe. José Artulino Besen

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CARDEAL JOHN HENRY NEWMAN

Santo para o nosso tempo.

Card. John Henry Newman

Em 1º de julho o Papa Francisco anunciou a canonização de cinco Bem-aventurados para o dia 13 de outubro, dentre eles a Irmã Dulce dos Pobres, a humilde religiosa dos Alagados de Salvador, e o grande convertido, teólogo e filósofo inglês do século XIX, John Henry Newman.

Uma criança, encantada com a figura do Cardeal Newman, lhe perguntou: “Quem é maior, um cardeal ou um santo?” Newman respondeu: “Veja, meu pequeno, um cardeal pertence à terra, é terrestre; um santo pertence ao céu, é celeste”. O postulador da causa de canonização concluiu: “de uma parte existe a atenção do cardeal pela santificação diária, a santidade simples dos pequenos gestos, mas, de modo radical há a ideia de que a realidade verdadeira é aquela celeste”. Numa pequena reflexão sobre a criança, Newman escreveu que a criança “saiu das mãos de Deus com todos os ensinamentos e conhecimentos do Paraíso há pouco impressos nela”.

Por muitos, Newman é considerado um dos maiores prosadores ingleses, o maior apologista da fé católica nascido na Grã Bretanha e dos mais importantes na história do Cristianismo. Seu arquivo pessoal, guardado no Oratório em Birmingham, conserva 37 tomos versando sobre teologia, filosofia, literatura, história, espiritualidade, e 70 mil cartas. Tinha convicção de que as cartas também eram um meio de fazer apostolado. Sua obra inclui também a fundação da Universidade Católica de Dublin, de que foi Reitor.

A “consciência” é o primeiro vigário de Cristo no homem, definiu esse homem que fez dela o grande tema de seu pensamento, sendo esse o grande mérito: a consciência é o tribunal do homem, é o tribunal que ninguém pode violar. A reflexão de Newman teve ressonância no Concílio Vaticano II, nos grandes temas da liberdade religiosa, liberdade de consciência, diálogo religioso e ecumênico. Sua visão de Igreja estava profundamente radicada na história humana, no compromisso com os pobres.

John Henry Newman pertencia a uma família de religião anglicana, e nasceu em Londres em 21 de fevereiro de 1801. Seu pai John Newman era banqueiro, enquanto que a mãe Jemina Fourdrinier descendia de família huguenote. Sua mãe a avó materna nele incutiram forte religiosidade, já o pai tinha mais interesse no teatro e na música.

John Henry recebeu ótima educação na escola de Ealing, perto de Londres e ali sob o influxo de um pastor, em 1816 aderiu ao Cristianismo reformado a que ele chamou sua “primeira conversão”. No mesmo ano, o banco de seu pai faliu por causa das guerras napoleônicas e o jovem Newman contraiu uma doença grave, que mais tarde qualificou como providencial. Em sua posição religiosa protestante, chegou a crer que o papa era o anticristo.

Em 1817 ingressou no Trinity College de Oxford, marcando pela vivacidade, criatividade e inteligência. Em 1824, decidido a seguir carreira eclesiástica foi ordenado diácono e no ano seguinte, presbítero, recebendo como primeiro encargo a paróquia de St. Clement.

Newman conheceu em Oxford o grupo de teólogos liberais que procuravam explicar racionalmente os dogmas e a fé cristã. Mas depois, foi instruído por teólogos que lhe falaram do valor da Igreja visível, do valor dos sacramentos, de modo especial da sucessão apostólica. O tema da fé e a sucessão apostólica, a visibilidade da Igreja marcavam sua preocupação.

No final de 1827, sofreu uma espécie de colapso nervoso, causado por excesso de trabalho e problemas econômicos da família, ao que se somou a súbita morte de sua irmã caçula. Pouco tempo depois, nas férias de 1828, começou a ler as obras dos Padres da Igreja.

Entrou no Movimento de Oxford, que tentava mostrar que a Igreja Anglicana descendia dos apóstolos. Isso fez com que ele refletisse sobre a Igreja, posição mais próxima à comunhão com Roma. Quanto mais aprofundava o conhecimento da doutrina católica, mais sentia-se distante da doutrina anglicana.

John Henry Newman – 1844

Em 1842, retirou-se para a cidade de Littlemore onde, como um monge austero, levou vida comum com um pequeno grupo de seguidores. Em 1843, retratou-se formalmente de suas declarações contra a Igreja Católica. Em setembro do mesmo ano, pregou seu último sermão como anglicano. Dois anos depois, em 1845, converteu-se ao Catolicismo.

Introduziu no livro Ensaio sobre o Desenvolvimento da Doutrina Cristã, escrito em 1845, a ideia do desenvolvimento da doutrina para defender a doutrina católica de ataques e críticas feitas por alguns anglicanos e protestantes, que achavam que alguns elementos da doutrina católica eram corrupções ou inovações contrárias aos ensinamentos de Jesus Cristo. Esse desenvolvimento foi, em sua opinião, a consequência natural e benéfica do estudo e reflexão da razão humana sobre a Revelação divina, que é imutável. Ele defendeu que este estudo teológico levou a Igreja Católica a perceber progressivamente certas realidades reveladas e que antes não tinha compreendido explícita e totalmente. Joseph Ratzinger (Bento XVI) salientou que “a concepção de Newman sobre a ideia do desenvolvimento marcou o seu caminho rumo ao Catolicismo. Contudo não se trata apenas de um desenvolvimento coerente de ideias. No conceito de desenvolvimento está em jogo a própria vida pessoal de Newman, […] a própria experiência pessoal de uma conversão jamais concluída.” Ratzinger afirmou ainda que, com esta concepção teológica, Newman “ofereceu-nos a interpretação não só do caminho da doutrina cristã, mas também da vida cristã”.

Da fé no Deus vivo à fé católica

A conversão à fé no Deus vivo é a primeira conversão de John Newman. Até aquele momento, ele pensava como a média dos homens do seu tempo e como a média dos homens também de hoje, que não excluem pura e simplesmente a existência de Deus, mas consideram-na em todo o caso como algo incerto, que não tem qualquer função essencial na própria vida. Como verdadeiramente real apresentava-se lhe, a ele como aos homens do seu e do nosso tempo, o empírico, aquilo que se pode materialmente agarrar. Esta é a “realidade” segundo a qual nos orientamos. O “real” é aquilo que se pode agarrar, são as coisas que se podem calcular e pegar na mão.

Ratzinger comenta que, em Newman, a força que impelia pelo caminho da conversão era a consciência. Para ele, “consciência” significa a capacidade de verdade do homem: a capacidade de reconhecer, precisamente nos âmbitos decisivos da sua existência – religião e moral –, uma verdade, a verdade. E, com isto, a consciência, – a capacidade do homem de reconhecer a verdade -, impõe-lhe, ao mesmo tempo, o dever de se encaminhar para a verdade, procurá-la e submeter-se a ela onde quer que a encontre. Consciência é capacidade de verdade e obediência à verdade, que se revela ao homem que procura de coração aberto. Podemos afirmar que a verdade é encontrada por quem a procura.

A conversão ao Catolicismo de 1845 exigiu-lhe o abandono de quase tudo o que lhe era caro e precioso: os seus haveres e a sua profissão (em Oxford), o seu grau acadêmico, os laços familiares e muitos amigos. A renúncia que a obediência à verdade, a sua consciência, lhe pedia, ia mais além ainda. Newman sempre estivera consciente de ter uma missão para a Inglaterra. Mas, na teologia católica do seu tempo, dificilmente podia ser ouvida a sua voz; era demasiado alheia à forma dominante do pensamento teológico e mesmo da devoção.

Em janeiro de 1863, escreveu no seu diário estas palavras: Como protestante, a minha religião parecia-me miserável, mas não a minha vida. E agora, como católico, a minha vida é miserável, mas não a minha religião.

Não chegara ainda a hora da sua eficácia, de sua aceitação. Na humildade e na escuridão da obediência, ele teve de esperar até que a sua mensagem fosse utilizada e compreendida. A “consciência” é a expressão da acessibilidade e da força vinculadora da verdade: nisto se funda o “seu” primado. Sua profunda afirmação: “Sem dúvida, se fosse obrigado a introduzir a religião nos brindes após um banquete (o que não me parece a coisa melhor), brindarei, se quiserdes, ao Papa; todavia, primeiro à Consciência, depois ao Papa”. Para ele era evidente: ao Papa pode ser dedicado o segundo brinde, porque a sua missão é exigir a obediência à verdade.

Fundou o Oratório de São Filipe Neri, na Inglaterra. Em 1879 o Papa Leão XIII criou-o cardeal, e escolheu como lema Cor ad cor loquitur (O Coração fala ao coração).

Morreu em 11 de agosto de 1890. No sermão fúnebre, o Cardeal Manning, também ele um convertido, falou: “Perdemos nosso maior testemunha da fé, e todos ficamos mais pobres e menores por essa perda”.

Passou mais de metade da existência no Oratório de Edgbaston (Birmingham). Viveu o sacerdócio católico celebrando os sacramentos, ensinando as orações, o catecismo, sendo notável pregador. O Cardeal Newman foi sempre manso e nunca atacou a fé católica e a fé anglicana. Sendo grande filósofo e teólogo, dedicou-se aos humildes, compondo e imprimindo orações, exortações, cartões devocionais. Socorreu os pobres, os empestados, sofrendo com eles os efeitos da revolução industrial.

Ó meu Deus, eu creio que tu me amas
mais do que eu me amo a mim mesmo”.

Suas palavras expressam intensa piedade:

“Ó se pudéssemos ver as coisas
com tamanha simplicidade,
de sentir que a única coisa que temos de fazer
é agradar a Deus”.

Bento XVI o declarou bem-aventurado em 19 de setembro de 2010 em Birmingham, em sua viagem apostólica à Inglaterra.

O epitáfio que escreveu para o túmulo indicava o objetivo de sua vida e também a história de sua conversão:

Pelas sombras e pelas imagens, à verdade.

Pe. José Artulino Besen

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IRINEU DE LYON: SOBRE A IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS

Igreja de S. Ireneu, Lyon.

Santo Irineu de Lyon é o grande mestre da teologia oriental, que lhe deve a explicação sobre a criação do homem à imagem e semelhança de Deus: Deus nos criou à sua imagem, mas o pecado enfraqueceu em nós a imagem divina, deixando-nos, porém, a nossa semelhança com o Criador. 

Irineu segue o caminho bíblico oferece como a melhor explicação: o homem é imagem de Deus na sua integridade, espírito e corpo, sem divisão. Vencer a tendência a sermos desencarnados: realçar a alma, a inteligência, deixando de lado a corporeidade. O homem é imagem de Deus na sua totalidade, carne e espírito, não é um anjo sem asas.

Irineu diz que Deus criou o homem à imagem do Verbo encarnado. O Espírito Santo é aquele que realiza este progresso, o dinamismo entre a imagem e a semelhança.  Não permite a interrupção do processo, buscando a restauração pela qual a semelhança recupera a imagem divina. Essa é a obra da vida espiritual do homem, cujo artífice é o Espírito Santo que amadurece

O Espírito Santo é o artífice da vida espiritual do homem, que o amadurece. No termo final dessa passagem, o homem, esquecendo as propriedades da carne, se tornará forma incorruptível, imortal. Assim, a restauração da imagem só pode ser realizada pela ação do Espírito Santo.

O ponto de partida é esse impulso (Fl 3,13-14): em certo sentido, o homem é um ser orientado para o Outro e aspira a superar-se, pois nunca está satisfeito. O pobre em nós busca tornar-se rico. O homem aspira ao que é maior do que ele e orienta-se ao totalmente outro. O “Deus desconhecido” (pregação de Paulo – At 17, 22-31) é a Imago Dei: não é um ideal, mas o princípio constitutivo do ser humano.

O fato da Encarnação é um fato primordial: sem ela, tudo passa a ser vã pretensão. Com ela, o homem se transforma na face humana de Deus. Por isso, a Encarnação não pode estar condicionada à queda, que aconteceria mesmo sem o pecado. O eros (eros = amor que necessita do outro) divino fez Deus descer à terra, fê-lo deixar o mundo do silêncio. O impulso que o homem tem no coração atinge o cume no Cristo histórico. O homem e Deus se olham no espelho e, em certo sentido, se conhecem (Pavel Evdokimov).

O homem, da semelhança à imagem de Deus

Irineu de Lyon (130-200), originário do Oriente, natural de Esmirna, foi discípulo de Policarpo que, por sua vez é discípulo de João. Irineu faz a ponte entre a teologia cristã e a era apostólica. Através dela atingimos o mundo dos apóstolos. Acompanhou um grupo de gregos imigrado na Gália, procurando libertá-los das heresias. Na idade adulta foi ordenado presbítero e depois eleito bispo de Lião. Ali redigiu sua obra fundamental “Adversus Haereses” (contra as heresias), sobre o Deus criador. Abandona a filosofia alexandrina, transmitindo o ensinamento bíblico.

Deus criou o homem “imperfeito”, mas nele incluiu um grande desejo, um impulso de perfeição. Há no homem um profundo desejo de perfeição.

A imperfeição se refere à temporalidade: o tempo tem um valor específico. Nele, tudo se desenvolve segundo certa ordem. Os seres nascem pequenos e passam a crescer. Deus se adapta a esta ordem do ser. Para Irineu, Adão e Eva não são trágicos, mas sim, ingênuos, sem experiência, e são modelos pedagógicos para o homem. A experiência significa amadurecimento. Antes de experimentar, o homem não sabe ir adiante.

Irineu fala do Adão criança mesmo tendo corpo de adulto, pela sua falta de experiência. Idade não fisiológica, mas psicológica: falta de discernimento. Adão ainda não tinha tido tempo para aprender. Mas, sua imperfeição, inocência, era transitória. Por ser ainda ingênua, Eva logo foi convencida pela serpente. Adão era destinado ao crescimento: Deus se serve de uma pedagogia diante do homem. Isso é importante para a espiritualidade: a perfeição nunca está no início do processo, mas é o fim desse processo. Deste modo, o pecado não é trágico: é aprendizado.

Há no homem uma “lei do progresso”: o que conta é atingir a perfeição. O progresso é constitutivo do homem. Deus coloca no homem o impulso, o desejo de perfeição, o sopro de vida. Assim, mesmo a expulsão do paraíso foi pedagógica, para que o homem se tornasse mais perfeito. O pecado e o exílio são temporais: o homem vencerá. Não se prender às consequências do pecado, mas ver a pedagogia, pela qual o homem procura a perfeição.

A queda provocou um enfraquecimento do espírito: a potência divina não foi destruída, mas enfraquecida. O tempo tem imenso valor, pois nele se realiza o progresso: do estado infantil, o homem se encaminha à idade adulta, à imagem de Cristo, o homem perfeito. Cristo é a imagem do Deus invisível (Cl 1,15).

O progresso está inscrito no ser do homem, mas Deus respeita a liberdade e o ritmo do homem. É um progresso lento, inerente ao ser corpóreo. Deus poderia ter dado a perfeição no início, mas o homem não seria capaz de acolhê-la. Assim, pela obra do Espírito, o homem e a mulher caminham sempre mais, da semelhança até a imagem de Deus. Essa é a perfeição fruto a obra de Cristo.

Santo Irineu ofereceu uma reflexão mais bíblica sobre a ação do Deus Criador. O homem e a mulher são grandes, porque essa é a vontade divina:

A glória de Deus é o homem vivo; e a vida do homem é a visão de Deus”.

Pe. José Artulino Besen

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