MISERICORDIA ET MÍSERA

Abraço de Francisco

Abraço de Francisco

No dia 13 de março de 2015, segundo aniversário de seu Pontificado, numa liturgia penitencial Francisco anunciou a celebração de “Um Jubileu extraordinário que tenha como centro a misericórdia de Deus. Será um Ano Santo da Misericórdia, para que vivamos à luz da palavra do Senhor: ‘Sede misericordiosos como o Pai’ (cfr. Lc 6, 36)”. Nesta celebração foi proclamado o Evangelho da mulher pecadora (Lc 7, 36-50), que colocou-nos diante da misericórdia e do julgamento. Uma mulher perdoada porque muito amou.

Mulheres, ícones da misericórdia

008-misericordiaHoje, 20 de novembro de 2016, papa Francisco fechou a Porta Santa da basílica de São Pedro, encerrando o Jubileu extraordinário do 29º Ano Santo da Misericórdia. No dia 21, Francisco publicou a Carta Apostólica “Misericordia et misera”, e coloca-nos diante de outra mulher, perdoada porque muito amou (cf. 8, 1-11). “MISERICÓRDIA E MÍSERA (misericordia et misera) são as duas palavras que Santo Agostinho utiliza para descrever o encontro de Jesus com a adúltera (cf. Jo 8, 1-11). Não podia encontrar expressão mais bela e coerente do que esta, para fazer compreender o mistério do amor de Deus quando vem ao encontro do pecador:  ´Ficaram apenas eles dois: a mísera e a misericórdia’”.

Objetivo do Jubileu foi agradecer a Deus Pai por sua eterna misericórdia e avivar sempre mais intensamente nossa fé/confiança na misericórdia divina. Francisco mergulhou o Ano Santo no despertar para o Concílio do Vaticano II (1962-1965) e sua mensagem de abertura eclesial para o mundo dos pobres, a Igreja servidora, Igreja missionária em saída, hospital de campanha, o diálogo ecumênico e inter-religioso.

 A partir da bula “Misericordiae Vultus” foi tocante e desafiador o compromisso papal com as obras da misericórdia corporal e espiritual, já um pouco esquecidas e agora reavivadas com a força do Espírito que impele a Igreja à misericórdia divina e à misericórdia com o próximo. A misericórdia foi orientada para os pobres, as vítimas da “guerra mundial em pedaços”, os 65 milhões de migrantes forçados, rejeitados como lixo pelas potências, a paz entre as nações, nela incluída a participação efetiva na pacificação interna da Venezuela, da Colômbia, de Cuba, de nações africanas em conflito. E, deve ser sempre mais recordado, o cuidado com a Casa Comum, o meio-ambiente, que mereceu a rica encíclica “Laudato si”. Francisco tornou-se a voz incômoda ao defender os pobres e a paz, defender a natureza violentada e que gera mais pobres. Com a “Amoris Laetitia” entoa um hino de louvor à família cristã e um hino de compreensão com os casais cuja primeira união fracassou. Ninguém está excluído do amor divino e do amor eclesial. Àqueles que preferem as certezas jurídicas admoesta: “certos rigorismos nascem de uma carência, de querer esconder dentro de uma armadura sua triste insatisfação pessoal”.

Peregrino da misericórdia

007-misericordiaNas Sextas-feiras da Misericórdia, Francisco realizou uma obra de misericórdia, dentro e fora de Roma, e podemos citar: o encontro amigo com prostitutas, travestis, transformers e gays, a visita às prisões, visita a doentes terminais, a jovens resgatadas da exploração sexual, aos tóxico-dependentes, recém-nascidos doentes, a favelas, celebração com presidiários e seus familiares na Basílica vaticana, a visita aos migrantes alojados na ilha grega de Lesbos que funciona como depósito de migrantes e cemitério de esperanças; visitou de improviso sete ex-padres e suas famílias, encontrou-se com os sem-teto, em outras palavras, colocou os excluídos e as periferias do mundo e da Igreja no centro da Igreja; e a canonização de Santa Teresa de Calcutá.

Viajou, e muito para um homem de 79 anos, para países das periferias geo-políticas, visitando católicos, ortodoxos, protestantes, judeus e muçulmanos, a ninguém rotulando de fieis ou hereges, revelando um coração completamente dominado pelo amor sem medida para os filhos de Deus. Não é dominado pelo instinto de conquista para as estatísticas católicas, inclusive rotulando de pecado o proselitismo, a pescaria de almas: “O proselitismo entre cristãos é um pecado grave. A Igreja não é um time de futebol à procura de torcedores” (Avvenire, 18/11/2016). Revelou profundo e respeitoso afeto e veneração por todas as autoridades religiosas que visitou ou recebeu em Roma.

Sem receio das críticas, foi a Lund, na Suécia, participar da inauguração do 5º Centenário da Reforma luterana. Francisco fala do caminho da Igreja para viver e testemunhar o Evangelho como caminho de misericórdia e não como ideologia. “A viagem foi mais um passo para fazer compreender o escândalo da divisão, e que deve ser superado com gestos de unidade e de fraternidade” (no no avião, de retorno de Lund, 01/11).

Foram muitos os passos dados no Ano Santo no caminho da reconciliação entre cristãos, mas os tempos da plena unidade são estabelecidos pelo Espírito Santo: “Para o ecumenismo é decisivo juntos servir os pobres, ‘a carne de Cristo’, sem contrapor doutrina e caridade pastoral’ (idem).

O Papa, além da caridade, inclui no ecumenismo os encontros e as viagens, que muito ajudam a fraternidade e fazem-na crescer. Entabular processos ao invés de ocupar espaços é a chave do caminho ecumênico. Para os que julgam o caminho ecumênico muito lento, iniciado há 50 anos, Francisco diz que “não podemos ser impacientes, desencorajados, ansiosos. O caminho exige paciência no preservar e melhorar o que já existe, que é muito mais do que o que divide”: a unidade não acontece porque nos colocamos de acordo entre nós, mas porque caminhamos seguindo Jesus (Avvenire 19-11). Para pedir a unidade entre nós cristãos somente basta contemplar Jesus e suplicar que o Espírito Santo opere em nós.

Francisco julga que a unidade dos cristãos é feita em três estradas: caminhando juntos, com as obras de caridade; rezando juntos e reconhecendo a confissão de fé comum que se expressa no martírio comum recebido no nome de Cristo, e no ecumenismo de sangue.

Cantar, sempre, a divina Misericórdia

O Jubileu foi um hino à misericórdia do Pai, ao Senhor, rosto da misericórdia. Foi o confronto entre o “amor louco” de Deus por seu povo e a nossa infidelidade. O amor de Deus “sem medidas” de um lado e, do outro, “a resposta do povo egoísta, duvidosa, adúltera, idolátrica”.

“O que faz sofrer o coração de Jesus Cristo é essa história de infidelidade, de não reconhecer as carícias de Deus, o amor de Deus, de um Deus enamorado que te procura, que deseja que também tu sejas feliz” (Santa Marta, 17/11/2016).

Francisco está convencido de que o câncer da Igreja é o dar-se glória um ao outro, buscar o prestígio, lógica da ambição do poder. A Igreja é o Evangelho, a autorreferencialidade é o câncer. É obra de Jesus Cristo, que cresce por atração. Quando prevalece a tentação de construir uma Igreja “autorreferencial” que em vez de olhar a Cristo olha a si mesma, surgem as contraposições e divisões: o câncer é um glorificar o outro. A Igreja não tem luz própria, somente “existe” como instrumento para comunicar aos homens o plano misericordioso de Deus.

Ser cristão é viver e anunciar a misericórdia

Conversa amiga com dois Cardeais

Conversa amiga com dois Cardeais

Com seu Consistório de 19 de novembro, o Papa ampliou as fronteiras do mundo, incluindo no Colégio cardinalício nações nunca representadas, com isso deslocando o eixo católico dos velhos centros europeus para as periferias onde moram os pobres. Os três Consistórios de Francisco premiaram pastores com “cheiro das ovelhas”, dioceses periféricas, continentes pouco representados. São 17 novos cardeais que na Igreja devem ser bem mais do que príncipes: são missionários nos pontos mais distantes e muitas vezes mais atribulados do mundo.

A coragem de ser pobre é outro tema em que Francisco insiste nos encontros jubilares com bispos, padres, religiosos, diplomatas: o povo de Deus tem imensa capacidade de perdoar as fraquezas e pecados dos padres, mas não consegue perdoar dois: o apego ao dinheiro e quando o padre maltrata os fieis (Santa Marta, 18/11/2016).

Como fruto principal do Ano Santo da Misericórdia o Papa espera que muitas pessoas tenham descoberto que são muito amadas pelo Senhor, recordando que o amor de Deus e do próximo são “inseparáveis”: servir os pobres significa servir Cristo, porque os pobres são a carne de Cristo (Avvenire, 19/11/2016).

Para encerrar, essas palavras de Francisco no Consistório (19/11/2016):

“O inimigo é alguém que devo amar. No coração de Deus não há inimigos, Deus tem somente filhos. Nós erguemos muros, construímos barreiras e classificamos as pessoas. Deus tem filhos, e não para afastá-los de sua companhia”.

“O nosso Pai não espera para amar o mundo quando formos bons, não espera para amar-nos quando seremos menos injustos ou perfeitos; ama-nos porque decidiu amar-nos, ama-nos porque nos deu o estatuto de filhos. Amou-nos quando éramos seus inimigos. O amor incondicionado do Pai por todos foi, e é, verdadeira exigência de conversão para o nosso pobre coração que tende a julgar, dividir, opor e condenar. Saber que Deus continua a amar também quem o rejeita é uma fonte ilimitada de confiança e estimulo para a missão”.


Pe. José Artulino Besen 

 

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PADRE PEDRO LUIZ AZEVEDO

Padre Pedro Luiz Azevedo

Padre Pedro Luiz Azevedo

Fiquei feliz ao receber do Pe. Flávio Feler um exemplar do livro “Homilias do Pe. Pedro Luiz Azevedo”, publicado em 2013. Foi um gesto de gratidão de Pe. Flávio, ao sacerdote que era seu pároco em Canelinha à época de sua ordenação presbiteral. O livro contém homilias breves, bem preparadas e destinadas a celebrações de jubileus, casamentos, sepultamentos. Entre as muitas que algum distraído jogou no lixo, foram as poucas que sobraram, felizmente, e permitem penetrar na alma sacerdotal de Pe. Pedro.

Somos gratos ao Pe. Flávio por esse gesto amigo e que nos dá acesso à alma pastoral do Pe. Pedro.

O chamado de Deus

Padre Pedro Luiz Azevedo nasceu em Brusque em 5 de fevereiro de 1955, último filho de Marcelino Azevedo e de Guilhermina Ramos Azevedo. Era morador da Rua Nova Trento, que liga Azambuja à Rua 1º de Maio. Pela vizinhança com o Seminário Menor, conhecia quase todos os seminaristas, especialmente os estudantes de filosofia. Foi sempre amigo humilde de todos.

Importante para sua formação cristã foi o casal Hilário e Raquel Bernardo, que muito o incentivaram a participar do grupo jovem do Santuário, o COJA – Companhia de Jovens de Azambuja, que frequentou de 1973 a 1978. Foi atuante na pastoral litúrgica e da juventude brusquense.

Como operário, trabalhou no setor de recursos humanos do SENAI e, ao mesmo tempo, cursou a faculdade de Estudos Sociais na Fundação Educacional de Brusque – FEBE. Pe. Alvino Milani, formador no seminário menor, foi importante no seu encaminhamento cristão e vocacional. Nesse período eu era assistente dos estudantes de filosofia residentes no Seminário de Azambuja e escutei que Pedro pensava em ser padre, mas não queria entrar no Seminário porque precisava trabalhar e gostava da liberdade. De certa forma isso era um problema, pois a norma previa o ingresso no Seminário para aprofundamento da fé e da vida comunitária.Teimoso, decidiu arriscar para ver. Lembro que num dia lhe falei que o caminho não era esse e que se o arcebispo me pedisse recomendação, não daria.

Mas, a vida é melhor do que as normas e no final de 1978, Pedro pediu para falar comigo e veio exatamente para solicitar a Carta de recomendação. Ele sentiu-se grato, porque logo o atendi e escrevi a Dom Afonso Niehues recomendando-o e falando de suas qualidades para o ministério. Eram palavras verdadeiras.

Os próximos quatro anos Pedro estudou Teologia no Instituto Teológico de Santa Catarina – ITESC em Florianópolis. Os finais de semana de 1979-1980 fez estágio pastoral em Canelinha, acompanhado pelo Pe. Sérgio Giacomelli e nos anos de 1981-1982 trabalhou em Tijucas, com Monsenhor Augusto Zucco, homem enérgico e afamado por disciplinar quem trabalhasse com ele. Por onde passava, Pedro Azevedo se empenhava nos grupos jovens, de coroinhas e nas equipes de Liturgia. Seu espírito alegre, bem humorado, conquistou muitos amigos. Mesmo irritado, às vezes desbocado, era incapaz de ofender alguém. Era seu dom.

A alegria do ministério sacerdotal

Padre Pedro Luiz Azevedo

Padre Pedro Luiz Azevedo

Concluídos os estudos, em 31 de julho de 1982 foi ordenado Diácono na igreja matriz de Tijucas. Seu lema, muito verdadeiro: “Tu me amas? Senhor, tu sabes que eu te amo” (Jo 21, 17). E, no dia 05 de dezembro de 1982, a ordenação Sacerdotal no Santuário de Azambuja, onde iniciou e alimentou sua fé. Bispo ordenante, Dom Afonso Niehues. Juntamente com ele outro brusquense foi ordenado padre, Gilberto Mafra (+ 1996). Seu lema: “Chamei-te pelo nome: és meu. És caro aos meus olhos, digno de estima, te amo” (Is 43, 1-5).

Seu primeiro campo de apostolado foi em Tijucas mesmo, até fevereiro de 1983, nas férias de Mons. Zucco. Em 11 de fevereiro de 1983 recebeu a provisão de vigário paroquial da paróquia Senhor Bom Jesus de Nazaré, em Palhoça. Ali, muito trabalhou e aprendeu com o zeloso Pe. Alvino Introvini Milani, numa grande paróquia hoje dividida em seis comunidades paroquiais. Sua alegria e bom humor contagiavam a todos e até estimulou a construção de uma capela na localidade de Pachecos, cujo padroeiro ficou sendo São Pedro, em homenagem ao Pe. Pedro e aos muitos Pedros do lugar.

Com a morte repentina de Monsenhor Augusto Zucco, em 1987, foi provisionado pároco de Tijucas em 28 de maio. Já amava e muito amou essa Paróquia onde trabalhara como estudante e neo-sacerdote e onde tinha grande número de amigos. Pe. Pedro gostaria de permanecer muitos anos em Tijucas mas, em 28 de dezembro de 1994 o novo arcebispo Dom Eusébio Oscar Scheid, SCJ, o transferiu para Anitápolis, grande paróquia, mas na serra, isolada do mundo onde vivera. Eram 15 capelas, com poucos habitantes, a 85 km. de Florianópolis.

Obediente, Pe. Pedro assumiu o trabalho. Sofreu muito a solidão, a distância dos amigos. Quem o conhecia percebeu que a melancolia tomava conta de sua vida, ia perdendo o ânimo, o bom humor. E, talvez isso fosse mais grave, espantava a tristeza com a crescente dependência do álcool. Às vezes,  a vida da Igreja, em nome da presumida sabedoria das autoridades, se impõem serviços cujo maior serviço é afugentar o gosto pela vida. Nós sentíamos o isolamento de Pe. Pedro, o silêncio que o rodeava. Ali viveu e trabalhou até 20 de dezembro de 2002, data de sua nomeação para pároco de Sant’Ana de Canelinha, onde trabalhara e aprendera como seminarista, e perto de Tijucas. Conseguiu reanimar a paróquia, cujo pároco tinha saído da casa paroquial para o casamento.

O leito de dor é o altar de Pe. Pedro

Pe. Pedro Luiz Azevedo estava doente, tomado por crescente tristeza e pela doença que se insinuava em seu corpo. Mesmo sofrendo, marcava seu apostolado com a bondade, dedicação, seriedade e cultivando amizades. Em 07 de dezembro de 1993 sentiu o baque da perda da mãe Guilhermina, a quem estava muito ligado. Doente, de certo modo impondo-se o isolamento, não partilhava suas dores, e posso pensar o quanto foi valente e generoso em meio a tantos trabalhos, compromissos, capelas, enterros, casamentos, celebrações.

Não aceitou festejar seu jubileu de prata sacerdotal em 2007. Era avesso a qualquer tipo de festa, e escreveu: “todos os dias são dias de festa, basta saber vivê-los. Agradeço a Deus por esses 25 anos de ministério e a todos os que me ajudaram ao longo dessa caminhada”. Também não quis celebrar o cinquentenário da criação da paróquia de Sant’Ana, em 17 de janeiro de 2009.

Pe. Pedro não aceitava submeter-se a um tratamento mais prolongado, que lhe foi oferecido, e assim o câncer no fígado foi dominando seu organismo. Quem o via sozinho, sentado na calçada da casa paroquial, em silêncio, não percebia que Pe. Pedro se preparava para morrer e, o que é mais doloroso, Pe. Pedro queria morrer.

Finalmente, em 10 de agosto de 2010 foi internado no Hospital de Tijucas, depois no Caridade de Florianópolis e, em busca de especialização, no Hospital Evangélico de Brusque. Foi longo e doloroso seu calvário de 47 dias. O arcebispo Dom Murilo Krieger assim falou na homilia exequial: “A morte de nosso irmão sacerdote Pe. Pedro Luiz Azevedo não foi uma surpresa para nós: surpresa foi sua resistência e a longa duração de seu Calvário. Como pude lhe dizer por ocasião da última visita que lhe fiz, na UTI do Hospital Evangélico, em Brusque: Hoje, sua cama é seu altar; seus sofrimentos se unem aos sofrimentos de Cristo; mais do que nunca, você está vivendo seu sacerdócio”.

Na última visita que Dom Murilo lhe fez, ele não podia mais falar mas, ao chegar perto de sua cama, viu que uma lágrima descia pelo canto de seus olhos: “Aquela lágrima era uma palavra, uma grande palavra, ainda mais partindo dele, que sempre procurava disfarçar seus sentimentos. Que esta sua lágrima, expressão de tudo o que viveu nas últimas semanas de sua vida, seja fonte de vida para muitos e de novas vocações sacerdotais para a Igreja”.

Após 57 anos de existência e 28 dedicados ao sacerdócio, às 21 horas de 07 de outubro de 2010, Pe. Pedro nos deixou. No dia seguinte, dia 08, seu corpo foi velado na igreja matriz de Sant’Ana de Canelinha, com a sentida presença do povo. Às 15 horas, Dom Murilo presidiu a Missa de Exéquias e, em seguida, seus restos mortais foram sepultados no cemitério Parque da Saudade em Brusque, na área reservada aos padres diocesanos de Florianópolis.

Pe. Pedro, na sua simplicidade pessoal e seriedade no trabalho,  deixou-nos a recordação um homem digno do nome sacerdotal.


Pe. José Artulino Besen

 

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PAPA FRANCISCO NOS 500 ANOS DA REFORMA

Francisco visita os luteranos na Suécia

Francisco visita os luteranos na Suécia

No dia 31 de outubro de 1517 Frei Martinho Lutero afixou suas 95 teses sobre as Indulgências na porta da igreja de Todos os Santos em Wittenberg. Foi o início não planejado da Reforma que levou à divisão da Igreja entre Católica e Luterana, levou às guerras religiosas, à fragmentação da Alemanha, à divisão da unidade européia que tinha como fundamento histórico a fé católica. Somente a Itália, Espanha e Portugal permaneceram católicos.

No dia 31 de outubro de 2016, o Papa Francisco e Igrejas luteranas celebrarão um Culto ecumênico pela passagem dos 500 anos do início da Reforma, com o tema da ação de graças, da penitência e do compromisso no testemunho comum. O objetivo é expressar os dons da Reforma e pedir perdão pela divisão perpetuada pelos cristãos das duas tradições. E, pela primeira vez, a celebração não será marcada pelos ataques teológicos, pela culpabilização, pela busca de quem estava/está certo ou errado. Afinal, quando se processa uma divisão entre irmãos na fé, com o ódio pelo outro, há culpa e acerto nos dois lados. Ecclesia semper reformanda é um mandamento que vale para o século XVI e o século XXI. Do mesmo modo que Francisco busca renovar a Igreja católica a partir da fidelidade ao Evangelho, os evangélicos também necessitam de uma renovação interior no confronto com as Sagradas Escrituras.

O encontro celebrativo dos 500 anos da Reforma será em Lund, cidade sueca onde em 1947 foi fundada a Federação Luterana Mundial, que hoje congrega 147 Igrejas protestantes.

Alguns dados biográficos do reformador alemão

Martinho Lutero (Martin Luther) nasceu em 1483 em Eisleben, de pais camponeses. Vencendo as limitações econômicas da família, entre 1501-1505 estudou na Universidade de Erfurt. Em 18 de julho de 1505, após muitas dúvidas e reflexões, entrou no Convento dos Eremitas Agostinianos de Erfurt, onde foi ordenado padre em 1507.

Em 1512, Lutero é superior do Convento Agostiniano de Wittenberg, doutor em teologia e em exegese bíblica, lecionando as Cartas paulinas aos Gálatas e ao Romanos.

Por uma formação religiosa deficiente, onde contava muito o peso e o medo da condenação eterna, Lutero sofria o pavor do inferno, e era escrupuloso. Alcançou a paz interior entre 1512-1513, na famosa Experiência da Torre (Turmerlebnis): após muita oração, Deus lhe permitiu descobrir que a salvação é dada ao homem somente pela fé em Cristo, como puro dom, e não como recompensa pelas obras: “O justo vive pela fé”  (Rm 1,17). Sentiu paz interior e nunca mais a perdeu, mesmo no ardor dos embates em que esteve envolvido.

Frei Martinho Lutero, um homem religioso

Martinho Lutero não era um monge corrupto, degenerado, psicopata, mentiroso, como durante séculos quis ensinar a apologética católica. Foi monge, viveu como monge e morreu casado; não foi anjo, nem demônio, mas testemunha de Cristo. O século XVI, século da Reforma, mostrou com clareza as deficiências da organização eclesiástica e, o que era mais grave, as deficiências na condução da espiritualidade e piedade cristãs.

Hoje, todos reconhecem em Lutero uma autêntica religiosidade. Teve uma experiência pessoal de Deus, um autêntico sentido do pecado e da própria nulidade, que vencia por uma entrega total a Cristo e uma confiança cega nele e em sua redenção. Possuía um sentido trágico da miséria humana, da qual deriva a escassa ou quase nula utilidade das muitas práticas religiosas. Grande apego à oração e uma imensa confiança na graça. A tudo isso, unia um grande amor pelos pobres.

Pela sua índole, pelos seus dotes de pregador, de chefe, de guia, pela vivíssima fantasia, rica em imagens, demonstrava estar convencido de ser enviado por Deus para anunciar uma experiência íntima e transformadora, único caminho de paz e salvação. Lutero tinha sido feito para inflamar as massas populares e convencer e agitar os ouvintes. O dom de comando, nele, se unia a uma irradiação interior e grande sensibilidade pelos outros.

Era dotado de caráter forte, unilateral, impulsivo, forte subjetivismo, com pouca disposição para aceitar mediadores entre Deus e os homens. Autêntica e profunda religiosidade, mas tendência ao autoritarismo e violência. Mesmo reconhecendo nele toda a seriedade religiosa, pode-se afirmar que faltou-lhe uma autêntica humildade, a capacidade de ouvir os outros, a Igreja.

O jesuíta alemão Ludwig Hertling, historiador da Igreja católica, reconhecendo a aventura espiritual de Lutero, afirma que por sua personalidade, força de comando, acentuou no caráter alemão algumas características que se impuseram nos séculos seguintes, até de modo trágico: a autossuficiência, arrogância, orgulho nacional, o sentido dos deveres cívicos.

É fácil e confortável apontar as deficiências de um homem, mas não se pode ignorar que Lutero foi um homem religioso, homem de oração. Sua vida não pode ser confundida com as turbulências da Reforma, onde o desejo de uma fé pura misturou-se com a ambição de príncipes ansiosos para tirar proveito das divisões e apossar-se dos bens da Igreja.

O papa João Paulo II [1], escreveu em 31 de outubro de 1983 : “Os esforços dos evangélicos e católicos que, em grande medida, coincidem nos resultados, permitiram delinear um quadro mais complexo e articulado da personalidade de Lutero e do complexo entrelaçamento das circunstâncias históricas, da sociedade, da vida política e da Igreja na primeira metade do século XVI. Resplandeceu evidente a profunda religiosidade de Lutero, com a sua problemática da salvação eterna vivida com ardente paixão”.

Os estudos do século XX revelaram com clareza a profunda religiosidade de Lutero, homem cujo impulso e paixão era a pergunta sobre a salvação eterna.

Tudo requer uma pesquisa sem preconceitos para se revelar uma imagem justa do reformador, e não somente dele, mas do período da Reforma e das pessoas nela envolvidas, reconhecendo a culpa de uma e de outra parte. Uma atitude de purificação através da verdade permite-nos encontrar uma comum interpretação do passado e, ao mesmo tempo, construir um novo ponto de partida para o diálogo hoje obtido pela clareza histórica.

O estudo dos escritos confessionais evangélico-luteranos encontram sua base sólida naquilo que nos une também depois da separação: a Palavra da Escritura, as Profissões de Fé e os Concílios da Igreja antiga.

João Paulo II, conclui: “Na humilde contemplação do Mistério da divina Providência e na devota escuta daquilo que o Espírito de Deus hoje nos ensina na recordação dos acontecimentos da época da Reforma, a Igreja tende a dilatar os limites de seu amor, para ir ao encontro da unidade de todos aqueles que, através do Batismo, carregam no nome de Jesus Cristo”.

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O drama de Martinho Lutero: como posso me salvar?

Lutero saiu da Igreja após séria luta e sem ter intenção de fazê-lo. Tornou-se reformador na luta contra uma interpretação do catolicismo que de fato era cheia de deficiências. Deixou a Igreja para descobrir aquilo que é o centro da própria Igreja: o primado da graça.

Por que houve a Reforma? Hoje podemos afirmar que ela foi provocada pelos católicos, pois Lutero era católico, monge sério e sincero, que nunca quis deixar de ser católico. Séculos de aversão a Roma, envolvida na política internacional, mergulhada no Humanismo renascentista, a decadência da própria vida católica alemã, com uma hierarquia não livre de máculas morais e corrupções (houve bispos que não celebraram três missas em longo episcopado!), mosteiros decadentes, fizeram com que boa parte da população alemã visse na pregação de Martinho Lutero o renascer do verdadeiro Cristianismo. Isso ajuda a entender porque tantos alemães, desde Carlos Magno fiéis e dóceis ao Papa, tenham aceitado romper a unidade católica.

Bento XVI analisou com empatia a questão central de Frei Lutero[2]: O que não lhe dava paz era a questão sobre Deus, que foi a paixão profunda e a mola mestra de sua vida e de seu caminho. “Como posso ter um Deus misericordioso?”: esta pergunta lhe penetrava no coração e estava por trás de toda sua pesquisa teológica e de toda a luta interior. Para Lutero, a teologia não era uma questão acadêmica, mas a luta interior consigo mesmo, na luta a respeito de Deus e com Deus. “Como posso ter um Deus misericordioso?”. Escreve Bento XVI: “que esta pergunta tenha sido a força motora de todo o seu caminho me toca sempre novamente o coração. De fato, quem hoje ainda se preocupa com isso, mesmo entre os cristãos? O que significa a questão sobre Deus em nossa vida?”.

 A pergunta “qual é a posição de Deus em relação a mim? Como eu me encontro diante de Deus?”, esta palpitante pergunta de Lutero deve novamente, e em forma nova, ser a nossa pergunta, não acadêmica, mas concreta.

O pensamento de Lutero, toda a sua espiritualidade era de todo cristocêntrica: “O que promove a causa de Cristo” era, para Lutero, o critério hermenêutico decisivo na interpretação da Sagrada Escritura. Isto pressupõe que Cristo seja o centro de nossa espiritualidade e que o amor por ele, o viver junto com ele oriente a nossa vida.

A coisa mais necessária para o ecumenismo é, antes de tudo que, sob a pressão da secularização, inadvertidamente não percamos as
grandes coisas que temos em comum, que nos tornam cristãos. O erro da época confessional foi ter visto mais o que separa, e não ter percebido em modo existencial aquilo que temos em comum nas grandes diretrizes da Sagrada Escritura e nas Profissões de fé do cristianismo antigo.

Em sua passagem por Lund, casa mundial do Luteranismo, Francisco nos ensinará a levar adiante, com decisão, o caminho do ecumenismo, da busca da unidade na diversidade.

Pe. José Artulino Besen


[1] Mensagem de João Paulo II ao Cardeal J. Willebrands, Presidente do Secretariado para a unidade dos Cristãos, em 31 de outubro de 1983, por ocasião do 5o centenário de nascimento de Lutero.

[2] Discurso de Bento XVI no encontro com representantes da Igreja Evangélica na Alemanha, em 23 de setembro d 2011, na Sala do Capítulo do ex-Convento dos Agostinianos de Erfurt.

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PADRE EVARISTO DEBIASI

Pe. Evaristo - Homilia na Santa Missa em 25-02-2014

Pe. Evaristo – Homilia na Santa Missa em 25-02-2014

Normalmente escrevo sobre pessoas que já encerraram o caminho terreno, pois a distância possibilita o olhar mais objetivo, liberto dos condicionamentos da proximidade. Hoje faço uma exceção: desde janeiro, Pe. Evaristo Debiasi vive em estado vegetativo no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. Graves complicações, surgidas no momento da anestesia, nos privaram desse grande sacerdote e amigo. Nada indica que retornará a comunicar-se com o nosso mundo e o seu mundo. Vive, mas somente como presença, sem a palavra, sem os gestos. Por esse motivo, escrevo essas páginas a respeito do sacerdote que não viveu para si, mas que fez-se entrega a tantos que o procuraram como diretor espiritual, conselheiro, amigo. Não reservou tempo para si, para sofrimentos pessoais, porque sua vida foi a dos outros, suas dores, as dos que o procuraram.

Evaristo Debiasi nasceu em Barracão, Orleans em 19 de dezembro de 1939, filho de Sílvio Debiasi e Dorvalina Mazon Debiasi.

Estudou no Pré-seminário de São Ludgero e no Seminário Menor Metropolitano de Azambuja, Brusque, onde cursou o Ginásio e o Clássico. Caracterizou-se pela amizade fácil e verdadeira com todos e foi hábil tocador de violino na orquestra que acompanhava o coral do Seminário.

Os cursos de Filosofia e o de Teologia foram completados no Seminário Nossa Senhora da Assunção, em Viamão, RS. Foi ordenado padre por Dom Frei Anselmo Pietrulla, bispo de Tubarão, em 23 de julho de 1967. O segundo semestre desse ano, suas primícias sacerdotais foram vividas na catedral diocesana de Tubarão. Desde Viamão, como seminarista e agora, como padre, característica marcante foi a capacidade de comunicação: a bela voz grave, o porte físico imponente, atraía todas as pessoas que se encontravam com ele e dele recebiam uma palavra clara, amorosa.

Devido à capacidade de comunicação e de orientar com discernimento, em 12 de janeiro de 1968 foi nomeado Assistente espiritual no Instituto Provincial Catarinense em Curitiba, o PAULINUM, onde estudavam os seminaristas maiores de Santa Catarina. Era um ambiente complexo e multiforme, pois devia atender os candidatos ao ministério sacerdotal de todas as dioceses catarinenses, o que significava harmonizar mentalidades diversificadas, numa época de crise marcada pelas incertezas na formação. No mundo, o ano de 1968 simbolizou a ruptura com os valores tradicionais da autoridade, da família, da Igreja. Tudo era contestado sob o slogan “é proibido proibir”. “Sejamos realistas; peçamos o impossível”, foi a divisa do Maio de 68.

O Concílio do Vaticano II terminara em 1965 e sua abertura a uma eclesiologia de comunhão colocava novas perguntas para as quais ainda não se tinha resposta clara, especialmente a “qual é a imagem do padre?”. Discutia-se o exercício do ministério e até se esperava a abertura ao celibato opcional. Numa Igreja ministerial, o que sobraria para o padre? Um tempo rico, mas difícil para os padres orientadores do período: Pe. Afonso Paulo Guimarães, Pe. Osmar Pedro Müller, Pe. Paulo Bratti e Pe. Evaristo.

Devido a seu temperamento conciliador, seu acolhimento de cada seminarista, capacidade de animar e diminuir os dramas pessoais, foi o padre certo na hora certa. Bom número de decisões vocacionais pelo sacerdócio tiveram origem na sua capacidade de aconselhar. Com Pe. Evaristo, ninguém se sentia inútil, nenhum problema era um problemão.

O PAULINUM viveu uma experiência dolorosa em 1970, com a saída para o casamento de seu padre Reitor. Fato inesperado, sem dúvida. Nesse momento, o nome que sanaria o drama e recolocaria o clima de confiança era um: Padre Evaristo Debiasi. E assim, em 17 de abril de 1971 os bispos catarinenses nomearam-no Reitor do PAULINUM. Em 24 de abril de 1971 foi nomeado professor no Instituto Teológico de Curitiba, o ITC. Pe. Evaristo não era somente professor, era o professor. Nesse período, sua alegria de ser padre, a sabedoria nos momentos de conflito, a incapacidade de tratar alguém de modo ríspido foram fundamentais. No atendimento pessoal, problemas e defeitos eram apenas desafios colocados por Deus e vencidos no amor divino.

Havia uma nova situação: o episcopado catarinense decidira, finalmente, sediar em Santa Catarina os estudos filosóficos e teológicos, de modo que, a partir de 1970, não mais foram encaminhados seminaristas para Curitiba, cada diocese procurando um meio de garantir os estudos humanísticos no próprio seu território, enquanto se providenciava a transferência da Faculdade de Teologia para Florianópolis, o que  aconteceu em 1973, com a criação do Instituto Teológico de Santa Catarina-ITESC. Os últimos seminaristas do PAULINUM foram ordenados em 1973.

Devido à capacidade comunicativa e espiritualidade pessoal de Pe. Evaristo, os bispos catarinenses indicaram-no para aprofundar em Roma os estudos teológicos, o que ele fez de 1973 a 1975, obtendo o mestrado em Teologia dogmática pela Universidade Gregoriana. Sua presença em Roma, no Pio Brasileiro e na Universidade Gregoriana foi um “sucesso”, no sentido que era procurado por padres e religiosas da cidade para retiros, conferências e aconselhamento. Sua encantadora humildade e palavras de vida eram extraordinárias para as religiosas romanas. Pe. Evaristo não era nenhum mestre na língua italiana, que aprendera no dialeto vêneto mas, por incrível que pareça, fazia-se entender porque, acima de tudo, era um rosto e uma voz a serviço da palavra “amor”. Com uma dúzia de palavras também ministrava palestras em alemão. Magnetizava pela presença humana e espiritual. Essa foi sempre sua arte e virtude.

Ao retornar ao Brasil, em 1976, recebeu duas missões importantes: ser orientador espiritual no Seminário Nossa Senhora de Fátima, em Tubarão, e professor no Instituto Teológico de Santa Catarina, ITESC, em Florianópolis. Ali fez companhia ao reitor Pe. Paulo Bratti e a seu antigo professor, Pe. Ney Brasil Pereira e ao ex-aluno Pe. Orlando Brandes.

Pe. Evaristo na AIS

Pe. Evaristo na AIS

Orientou o Seminário Nossa Senhora de Fátima com dois anos de residência, depois viajando semanalmente para oferecer o atendimento. Foi um tempo muito difícil pelas mudanças bruscas introduzidas e que alteraram profundamente o modelo pedagógico do seminário. Apesar disso, foi um tempo de muitas vocações e ordenações, garantindo sempre um razoável número de seminaristas e, depois, teólogos e sacerdotes.

Em 1978 veio residir em Florianópolis, como auxiliar direto do Pe. Paulo Bratti, que preferiu ser diretor do ITESC e ter Pe. Evaristo como Reitor do Seminário Maior em 1979, cargo em que permaneceu até 1982. A partir de 1983, Pe. Evaristo foi diretor espiritual do Seminário e, de modo especial, do Seminário Teológico da Diocese de Tubarão, em Florianópolis, missão que assumiu até os últimos dias.

No final da década de 90 deixou de lecionar, por não lhe sobrar tempo. Ministrava o curso de Escatologia, sobre as realidades últimas da vida humana: morte, juízo, inferno e paraíso. Deixou o magistério também porque sua bondade parecia excessiva, dizia-se, e que ninguém mais iria para o inferno… Pe. Evaristo tinha certeza, pois a última palavra é do amor misericordioso.

A partir de sua chegada à Capital catarinense, seu nome circulou velozmente nas camadas médias e ricas da população. A procura por um atendimento era tamanha que não lhe foi mais possível residir no Seminário, indo ocupar um apartamento no Centro. Falar com Pe. Evaristo dava status, certo extrato feminino chegava a mentir dizendo ter recebido um abraço, um beijo do pobre padre. Era tamanha a confiança nele que lhe foi entregue, pela Casa Civil do Governo estadual, um talão de cheques – sempre renovado, para usar em suas obras comunitárias e de caridade. Pe. Evaristo não quis se comprometer com esse tipo de confiança e entregava o talão a algum estudante de Teologia.

De todo lado surgiam pedidos para conferências, retiros, palestras em colégios, encontros familiares, sempre atendidos. Qual era o segredo desse padre, que não era um intelectual? Era o amor que comunicava, eram palavras certeiras para cicatrizar corações feridos, quase mergulhados no desespero, unindo psicologia profunda e fé. Nenhum coração atribulado saía “impune” de um atendimento. Fazia iniciar um processo de reconstrução pessoal.

Presidente do Movimento Porta Aberta

A ideia do Centro de Interação e Integração Humana de Santa Catarina – Movimento Porta Aberta, partiu do Pe. Paulo Bratti, então diretor do Instituto Teológico de Santa Catarina. Para ele, o pobre ou necessitado deveria encontrar uma porta aberta, alguém que lhe ouvisse as angústias nos momentos mais intensos de sofrimento. Assim, em 31 de julho de 1980 o centro foi fundado, também com o apoio do Pe. Evaristo Debiasi e de Bruno Rodolfo Schlemper (+ 1999).

No início oferecia apenas aconselhamento. A partir do ano de 1985, passou a profissionalizar os atendimentos. Hoje trabalham 40 psicólogos que se revezam de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 14h às 18h. Há profissionais voluntários que atuam há mais de 30 anos. Por ano, são atendidas acima de cinco mil pessoas, apenas de Florianópolis. Mas também passam pela Clínica do Porta Aberta crianças, adolescentes, adultos e idosos de Palhoça, São José, Biguaçu, Antônio Carlos e Santo Amaro da Imperatriz. O Centro funciona em Florianópolis, na Rua Álvaro de Carvalho, 155.

Pe. Evaristo e Bruno Schlemper entregaram-se de corpo e alma ao atendimento gratuito de tantos sofredores. Era bela a comunhão entre o Padre e o luterano Bruno. Diante de corações angustiados, cessam as divergências religiosas e brilha a unidade na caridade.

Assistente eclesiástico nacional da AIS Brasil

Fundada em 1947 pelo Padre Werenfried van Straaten, a Ajuda à Igreja que Sofre (Kirche in Not – AIS) hoje é uma Fundação Pontifícia cuja missão é apoiar projetos de cunho pastoral em países onde a Igreja Católica está em dificuldades, quer pela perseguição religiosa por causa de guerras e revoluções, quer pela miséria. Mais de 60 milhões de pessoas são beneficiadas todos os anos por meio dos mais de 5 mil projetos apoiados pela Ajuda à Igreja que Sofre – AIS em cerca de 140 países, incluindo o Brasil. Tudo isso graças aos seus mais de 600 mil benfeitores.

Ao ser convidado,  Pe. Evaristo Debiasi não relutou em assumir o ministério de Assistente Eclesiástico da AIS no Brasil. Fez sua casa a ponte aérea Florianópolis-São Paulo. Por sua facilidade de comunicação assumiu programa na TV Canção Nova, também retransmitido por outras emissoras. O programa visa tornar conhecido o trabalho da Fundação “Ajuda à Igreja que Sofre” apresentando suas obras sociais, projetos e carisma, relata os desafios enfrentados pelos cristãos e pela Igreja Católica em todo o mundo, principalmente nos países em desenvolvimento e onde há perseguição religiosa aos cristãos. O programa vai ao ar toda quarta-feira a partir das 12:30h.

Através dos meios de comunicação, Pe. Evaristo também realiza apreciado trabalho de evangelização, salientando sempre o amor de Deus por cada um de nós. É o anunciador do amor.

Com apresentação dele, mensalmente é editada a revista ECO DO AMOR, enviada aos colaboradores e prestando conta da ação caritativa da AIS.

A visita da dor e da cruz

Nos últimos anos sua saúde não foi a mesma, especialmente após sofrer uma queda e apresentar sinais de tumor nos rins. Nada que impedisse seu trabalho, porém. Mas, em 19 de janeiro de 2016 foi internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo e, infelizmente, apresentou dificuldades na fase pré-operatória e seu organismo entrou em pane no momento da anestesia. Aquilo que parecia até simples, tirou de Pe. Evaristo a saúde, de modo irreversível.

Seu lema de ordenação presbiteral, impresso no santinho de recordação, foi: “Sacerdote a serviço do Povo de Deus”. E seu pedido: “Tuas orações são a garantia de minha missão sacerdotal”. Tenho certeza das muitas milhares de pessoas que nesse momento rezam por ele, pelo seu sacerdócio, agora fecundo no silêncio da solidão e do sofrimento de um leito hospitalar.

Pe. José Artulino Besen

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MISSÃO E CUIDADO DA CASA COMUM

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A natureza – um hino à vida

Em outras épocas, tanto a Missão católica quanto a de outras confissões cristãs tinha como foco o anúncio confessional, era mais propaganda religiosa, oferecimento de salvação, garantia da posse da verdade. Era o proselitismo, hoje não mais aceito como método para o anúncio do Evangelho de Jesus. Tanto na América, como na África e na Ásia, o missionário acompanhava expedições conquistadoras, unindo a cruz à espada.

Admirar a coragem e a generosidade missionária não significa apreciar a pedagogia que implicava na destruição de culturas e de religiões ancestrais. A missão é o anúncio vivido do Senhor que deu a vida por todos os povos, o que não pode admitir que se mate em nome dele. A ação missionária com a espada foi fruto da dominação dos povos europeus que buscavam riquezas, matérias primas, na suposição e convicção de que em troca ofereciam o melhor para esses povos considerados atrasados e que deveriam agradecer o dom da civilização e, especialmente, o dom da salvação.

Encima de tudo isso foi edificada uma civilização que negava a riqueza pessoal do outro, negava a cultura e a religiosidade de povos até então desconhecidos, negava mesmo sua dignidade inviolável, reduzindo-os a coisas, a escravos. No Brasil, a missão deixou um rastro de 400 anos da escravidão negra, de julgamento do valor das pessoas pela cor da pele, mesmo sendo batizadas.

Evidente que não podemos desconhecer a generosa e heroica ação de homens e mulheres que deram a vida, criaram obras de misericórdia para o socorro de doentes, de leprosos, com eles dividindo a doença, as privações, amando como Jesus ama. Levaram o estilo de vida dos discípulos de Jesus, sem a preocupação de aumentar suas fileiras religiosas.

Graças à ação do Espírito, somos hoje capazes de reconhecer a dignidade de todos, de sentir as sementes da verdade por toda a terra. Não há nenhum povo abandonado por Deus. O Superior Geral dos Jesuítas, Pe. Adolfo Nicolás, afirmou que o primeiro ato de um missionário é descobrir a ação do Espírito Santo na cultura aonde é enviado, ver o que Deus já fez ali no decorrer de sua história. Assim, a ação missionária é comunhão fraterna com quem é diferente, mas tem conosco a ação divina que nos chama a todos de filhos.

A missão não pode se expressar na competição, nas acusações doutrinais cuja virulência oculta o rosto do Pai: “Deus-Amor se anuncia amando”, tuitou Francisco em 6/10/16.

Cuidar da Casa Comum – obra de misericórdia

agua-fonte-da-vida-m-sokalA Igreja não conhece um tempo de acomodação, como se bastasse conservar o que já se alcançou, sem novos desafios. O papa Francisco tem claro que a missão da Igreja, das igrejas e das religiões está sujeita à contínua reforma, porque a vida não para, há um dinamismo interno em toda a criação e que não permite conservarmos a linguagem apenas religiosa e doutrinal. O ser humano está situado no mundo, não nas alturas. Francisco acentuou a misericórdia como centro da existência cristã e nela, como tema de seu pontificado, a crise da humanidade inserida na economia global e que gera milhões de migrantes, expatriados, frutos da guerra, da miséria. Sua primeira viagem fora de Roma foi a Lampedusa, onde aportam diariamente barcaças trazendo milhares de pobres africanos e árabes. Outro tema, a crise da humanidade que explora egoisticamente as riquezas naturais, profanando a beleza da criação e deixando como rastro a poluição, a desertificação, comprometendo o presente e o futuro da família humana. A encíclica “Laudato si” sobre o cuidado da casa comum (18/06/2015) testemunha para o mundo a preocupação com o destino da criação; foi fruto da escuta de cientistas interessados no meio ambiente e de seu contato com a paisagem desoladora de tantos países devastados pela economia de regiões ricas que buscam seu conforto sem se deter no destino de miséria e violência em que mergulham nações pobres.

“Cuidar da Casa Comum é a nossa missão”, é o tema da Campanha Missionária de 2016 e o lema, “E Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1, 31). Somos desafiados a preservar a obra divina confiada ao homem e à mulher, num caminho que vincula indissoluvelmente a todos os povos, regimes, religiões e Igrejas, caso queiramos garantir para nós e as gerações futuras um planeta habitável.

O Papa Francisco mostrou-nos a associação íntima que existe entre a vida dos pobres e as fragilidades do Planeta. A Campanha Missionária oferece material específico para as comunidades refletirem sobre o tema com o objetivo de chamar a atenção a respeito do compromisso de todos – especialmente dos cristãos – para o cuidado em relação ao planeta, à “Casa Comum”.

missao-e-ecologiaÉ preciso considerar o sentido humano da Ecologia e buscar um novo estilo de vida que olhe a integração de tudo. Como salienta a ecologia integral, os seres humanos estão profundamente ligados entre si e à criação na sua totalidade. Quando maltratamos a natureza, maltratamos também os seres humanos. Ao mesmo tempo, cada criatura tem o seu próprio valor intrínseco que deve ser respeitado. Escutemos ‘tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres’ e procuremos atentamente ver como se pode garantir uma resposta adequada”, destaca Francisco. Da sua parte, como uma resposta concreta, o Papa tomou a iniciativa de propor no elenco das conhecidas sete obras de misericórdia materiais e espirituais a inclusão de uma oitava, a saber: o cuidado da casa comum.

Na espiritualidade do Ano Santo da Misericórdia poderemos receber a indulgência plenária vivenciando o cuidado com a casa comum. Preservar o meio ambiente é abrir a Porta Santa do louvor ao Criador, amar as criaturas, defender a vida em todos os seus aspectos, permitir que declaremos, com o autor bíblico, “e Deus vê que tudo é muito bom”. E também devemos nos penitenciar pela ação missionária que acompanhou e apoiou o secular processo de colonialismo econômico e cultural que saqueou a riqueza de povos e deixou-lhes como herança a miséria, a briga pelo poder e guerras sem fim. Promover a reconstrução da casa comum é assumir como nosso o plano do Criador que deu tudo a todos e o que deu era muito bom.

Pe. José Artulino Besen

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TERESINHA – A PEQUENA GRANDE MISSIONÁRIA

Santa Teresinha e seus pais São Luís e Santa Zélia

Santa Teresinha e seus pais São Luís e Santa Zélia

Teresa pertencia a uma família de classe média-alta da época. Morava numa mansão, tinha escola e até professora particular. Uma menina mimada e apaixonada pelo pai, o senhor Martin, que a chamava de “minha rainhazinha”. Teresa tinha tudo para se tornar uma dama rica da sociedade francesa do fim do século XIX.

No entanto, seu coração humilde bem cedo sente o desejo de se entregar única e exclusivamente a Deus. Teresa está convencida que o “Deus vingador” que lhe é apresentado na catequese não corresponde à imagem de Pai misericordioso que tem no coração. Partindo dessa convicção, ela sente a necessidade de buscar outros caminhos. Quer ser “santa, grande santa”, mas não como certos santos antigos…

Teresa oferece ao futuro um novo estilo de santidade, uma nova forma de amar: o pequeno caminho.  O único caminho para o amor é a confiança, a perseverança, a aceitação: “Agora compreendo que a caridade perfeita consiste em suportar os defeitos dos outros, em não estranhar suas fraquezas, em edificar-se com os menores atos de virtude que a gente vê praticar.”

Naquela época já havia elevador nas casas ricas, fato que levou Teresinha a fazer esta comparação: “Nas casas muito altas, as pessoas se esforçam por chegar até em cima usando o elevador. Eu encontrei o meu elevador, ele me leva até o Pai… são os braços de Jesus.”

Na vida comunitária do Carmelo, Teresinha não quer ficar perdendo tempo com as mesquinharias do dia-a-dia. Ela intui que o que conta é o amor, só o amor.  Entende que amar é acolher o outro; é saber dar ao outro a liberdade de amá-la ou mesmo de não amá-la; é contemplar no outro a pessoa de Jesus: “É a Santa Face de Cristo que amamos, impressa em cada pessoa.”

Teresinha sente-se missionária, como os que tinham a coragem de partir rumo às terras distantes. Mas, como sê-lo ficando parada, enclausurada? Teresinha supera essa dificuldade: “Sinto em mim todas as vocações: de apóstolo, de missionário, de sacerdote, de mártir, de doutor… Considerando, porém, que não posso vivê-las todas, na Igreja eu serei o amor”.

Assim Teresa nos ensina que todos, mesmo permanecendo onde estamos, poderemos chegar lá onde o coração quer ir. A missionariedade não é questão de geografia, é questão de amor.

Santa Teresinha é uma santa para nossos dias, para todos os dias, para a eternidade: “Sinto que minha missão vai começar, minha missão de fazer amar o Bom Deus, como eu o amo; de indicar às almas meu pequeno caminho. Se o Bom Deus atender meus desejos, meu céu se passará na terra…, até  o fim do mundo. Sim, quero passar meu céu fazendo o bem sobre a terra.”

Breves informações:

Santa Teresinha aos 8 anos

Santa Teresinha aos 8 anos

1873 – Teresinha nasceu em Alençon, pequena cidade da França. Era a última de 5 irmãs. Em 1877, Teresinha ficou órfã de sua mamãe, morta por um câncer no seio. Toda a família se transferiu a Lisieux para estar mais perto dos tios.

Paulina, que, para Teresinha, ocupava o lugar da mãe, entra no Convento das Carmelitas de Lisieux em 1882.

Em 1886, Maria, outra irmã, também se tornou Carmelita em Lisieux. Teresinha vive um momento de tremenda solidão e crise. Mas, na noite de Natal, encontrou forças para reagir a suas fraquezas de criança.

Teresinha confidencia a seu pai que quer ser carmelita. Viaja a Roma para pedir ao Papa Leão XIII a licença para entrar no Carmelo com 15 anos, e ingressou em 1888.

1890 – Com a Profissão religiosa, tornou-se carmelita. Papai, o seu “rei”, está junto dela, feliz. Em 1894, morreu Luís, o querido papai. Celina junta-se à irmã no Carmelo.

Teresinha descobriu estar gravemente doente de tuberculose, em 1896. Naquele tempo a doença era incurável.

Em 30 de setembro de 1897, morreu Teresinha aos 24 anos e 8 meses dizendo, ao contemplar o Crucifixo: “Oh, meu Deus, eu vos amo”.

O Papa Pio XI a proclama Santa em 1925, e mais de 500 mil peregrinos estavam em Roma para aclamá-la. Em 1997, o mundo inteiro celebrou o Centenário de sua morte e o Papa João Paulo II a declara  Doutora da Igreja”.

Em 18 de outubro de 2015, Francisco celebra a canonização dos pais: São Luís e Santa Zélia.

RECORDAÇÕES DE MAMÃE ZÉLIA

“Minha filha caçula, Teresinha, logo me impressionou pela sua inteligência, caráter decidido e por sua vontade de ser boa. Eu a apelidava de meu “pequeno furacão” e, desde quando a amamentava, sentia sua força e determinação. Quando pequenina, gostava sempre de dizer “não” e, mesmo que a prendesse o dia inteiro num quarto, passaria também a noite, mas não diria um “sim”.

Percebi que era orgulhosa quando, num dia, por brincadeira, lhe disse: – Teresinha, se beijas o chão, eu te dou uma moeda. Para uma criança, uma moeda era muito dinheiro e, abaixar-se para beijar o chão, era muito fácil para ela, que tinha uma estatura pequena. Com determinação, a pequerrucha respondeu: “Obrigada, mamãe, prefiro não ganhar a moeda”.

Quando pequena, Teresinha tinha um costume muito especial: ao subir a escada, parava a cada degrau e gritava “mamãe!”. Se eu não respondesse logo: “Oi, minha pequena”, parava no degrau, sem subir e nem descer.

Teresinha gostava muito que eu lhe falasse sempre do céu e, uma vez, me disse: “Mamãe, se fosse para eu ir para o inferno, fugiria para junto de ti no paraíso, então tu me esconderias juntinho de ti e Deus não iria separar a mamãe de sua filhinha, não é verdade?”

O   EVANGELHO DE TERESINHA

“Tenho sede!” Escreveu: “Este trecho do Evangelho de João (19,28) começou a martelar-me no mês de março de 1887 quando, na França, o único assunto era Pranzini, um delinqüente perigoso que tinha assassinado três pessoas com a finalidade de roubar.

Pranzini foi condenado à guilhotina. Nunca o tinha visto, mas, diante deste fato, recordei-me das palavras de Jesus na Cruz: “Tenho sede”.  Tinham me ensinado na catequese que Jesus tem sede de almas. Esta alma tinha abandonado o amor de Deus e eu deveria trazê-la de volta a qualquer custo. Pranzini não era somente um criminoso: era também uma alma para ser salva.

Naquele tempo eu tinha apenas 14 anos e decidi assumir a responsabilidade espiritual por aquele homem. Somente com a oração e a penitência poderia impedir que fosse para o inferno. De vez em quando dava uma olhadela nas notícias do jornal de papai: Pranzini continuava arrogante, endurecido em seu pecado. Não desanimei. Continuei a rezar, até encomendei uma Missa por ele e pedi a Celina que me ajudasse a salvar aquela criatura de Deus. Queria entregá-la nas mãos do Pai, que lava todo o pecado com o sangue de seu Filho Jesus.

No dia 13 de julho foi decidida a condenação à morte de Pranzini, com execução marcada para o dia 31 de agosto. Eu escutava os comentários da redondeza. Impressionavam-me a raiva do povo e os julgamentos inflexíveis das pessoas. Se tivessem oportunidade, o matariam dez vezes. Estavam esquecidos de que aquela alma custara a morte de Jesus na Cruz.

Intensifiquei minhas orações e, no dia 1º de setembro, dei uma olhada no jornal La Croix; Pranzini tinha subido à guilhotina sem se confessar mas, no último momento pediu um crucifixo e beijou as chagas de Jesus. Meu Deus! Estava salvo! Venceu tua misericórdia!” 

O   PEQUENO CAMINHO

Santa Teresinha com suas irmãs

Santa Teresinha com suas irmãs

No Carmelo, Teresinha adoeceu gravemente e viveu a doença com a serenidade que lhe era própria. O extraordinário em Teresinha foi ter realizado coisas normais com tanto amor.

Rezou, serviu, calou, pintou, escreveu, sofreu: somente por amor.

Num dia em que sentia a vontade de salvar o mundo e se via prisioneira numa pequena cela, exclamou: “A minha vocação é o amor. No coração da Igreja, minha Mãe, eu serei o amor, e assim serei tudo”. Neste amor estendido ao mundo e oferecido a Deus pelo mundo, Teresinha partiu em 30 de setembro de 1897.

O Pequeno Caminho de Teresinha compõe-se de dois valores:

a misericórdia do Pai,

– a necessidade de permanecer criança para sempre permanecer em seu amor.

É um caminho que todos podem percorrer sem medo, sem angústia, porque Ele faz tudo: “Quero ir para o céu através de um pequeno caminho, bem reto, muito curto, um pequeno caminho bem novo.

Estamos num século de invenções. Nas casas dos ricos um elevador tira o cansaço das escadas. Eu também quero encontrar um elevador que me leve a Jesus, porque sou pequena demais para subir a dura escada da perfeição”. “O elevador que me deve levar até ao céu são os vossos braços, Jesus, por isso não preciso ficar grande, pelo contrário, devo permanecer pequena”. Andei lendo: “Se alguém é pequeníssimo, venha a mim”. Então, Senhor, penso ter encontrado aquilo que procurava: “Como uma mãe acaricia o filho, assim eu vos consolarei, vos carregarei no meu coração e vos apoiarei nos meus joelhos” (Is 66,12-13). 

A   GRANDE MISSIONÁRIA

Santa Teresinha, padroeira das Missões

Santa Teresinha, padroeira das Missões

Teresinha nasceu missionária. Desde pequena, pegava suas economias e oferecia uma moeda para as Missões. Foi uma missionária infatigável entre as quatro paredes de sua cela. Sua oração, seu sacrifício, o amor que punha em todas as pequenas coisas do dia-a-dia, eram oferecidos pelos sacerdotes e para a missão deles. Era a força que impelia os apóstolos.

O anúncio do Evangelho no mundo inteiro não deixava de preocupá-la a ponto de desejar partir em missão para a Indochina, onde havia sido fundado um Carmelo, mas a saúde frágil não lhe permitiria. Santa Teresinha, já em seus últimos dias de vida terrena, profetizará que seria missionária sempre ao dizer que “passaria o seu tempo no céu fazendo o bem sobre a terra”.

Em 1927, o Papa Pio XI a declarou “Padroeira Universal das Missões e dos missionários, como São Francisco Xavier.” Suas intervenções em favor dos missionários se fizeram sentir em todo o mundo. Em 1917, o missionário Pe. Charlebois, que há cinco anos lutava pela evangelização dos esquimós na baía de Hudson, sem qualquer resultado, certo dia jogou sobre eles um pouco de terra que havia sido recolhida do túmulo de Teresa. Os esquimós, sentindo-se tocados interiormente, pediram o batismo. Teresa ensinou que evangelizar não é só pregar, ensinar… mas sim, como Cristo fez, amar e doar a própria vida. O amor é sempre um meio de evangelização mais eficaz e mais eloqüente que as palavras.

PENSAMENTOS

“Para mim, a oração é um impulso do coração, um simples olhar, dirigido aos céus, um grito de gratidão ou de amor em meio a provações ou alegrias. É algo, enfim, muito grande, sobrenatural que me dilata a alma e une a Jesus”.

“Eu fiz a experiência: quando não sinto nada, quando não sou capaz de rezar, é então o momento de procurar as pequeninas ocasiões, os nadas que dão prazer…

Quando não tenho ocasião, quero pelo menos dizer muitas vezes a Jesus que eu O amo…”

“Tudo o que fiz –  até apanhar uma agulha – era para dar prazer a Deus, para salvar almas.

Caminho em lugar de um missionário. Penso, que muito longe, um deles se encontra cansado, em suas andanças apostólicas. E, para diminuir suas fadigas, ofereço as minhas a Deus”.

Sua última oração, escrita com mão trêmula: “Ó Maria, se eu fosse a Rainha do Céu e vós fôsseis Teresinha, eu queria ser Teresinha a fim de que fôsseis a Rainha do Céu”.

Pe. José Artulino Besen

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A VERDADE LIBERTA A PAZ

Paquistão - criança acaricia o pai desesperado - Foto di Gjorgji Lichovski, novembre 2015

Paquistão – criança acaricia o pai desesperado – Foto di Gjorgji Lichovski, novembre 2015

E Jesus dizia: Se permanecerdes na minha palavra,
sereis meus verdadeiros discípulos:
conhecereis a verdade e a verdade vos libertará (Jo 8,31-32).

Um jornalista perguntou a São João Paulo II qual, a seu ver, seria a palavra mais importante do Evangelho. O Papa pensou e declarou: A verdade vos libertará (Jo 8, 32). E justificou a escolha: A pessoa humana não pode viver na mentira, no engano. Ninguém nasce para se iludir ou iludir os outros. E, no Cristianismo, a verdade libertadora não é uma teoria, doutrina, mas é uma pessoa: Jesus Cristo. A verdade que liberta é o Senhor Libertador que nos mergulha no mundo onde as coisas são verdadeiras, e não ilusões.

E mais: a palavra de Jesus é a verdade, e a verdade se identifica com o mandamento do amor: Amar a Deus acima de tudo e ao próximo como a si mesmo (cf. Mc 12, 30-31). Jesus é a verdade, é o amor feito homem. Ninguém se achega à verdade se não passar pelo caminho do amor. E ninguém é verdadeiramente livre sem o caminho da verdade/amor.

A maioria das pessoas busca o conhecimento da verdade, estuda, participa de cursos, ingressa em movimentos filosóficos, adere a religiões que prometem o verdadeiro conhecimento, mas continua sempre buscando, sem alcançá-lo. Vive na ilusão de uma verdade que satisfaça apenas à inteligência. Não é possível: a verdade não é um conhecimento obtido nos livros, ela nasce em nosso coração, em nossa interioridade onde mora Deus, que se revela e é conhecido pelo amor.

A verdade vos libertará, o amor vos tornará livres, diz Jesus. Pensamos que liberdade é fazer o que se quer, sem levar em conta a pessoa do outro, sem levar Deus em conta. Ninguém é realmente livre sem a experiência do amor libertador de nós mesmos, de nossas coisas, de nosso dinheiro, de nossas manias, de nos ocuparmos apenas com nossa família, de acharmos que não temos tempo para nada. O apego a isso tudo é escravidão, e pensamos que é liberdade.

Toda escravidão das coisas, dos bens, nos impede de amar, porque não saímos de nós mesmos, de nosso mundo. Com esses sentimentos acabamos por escravizar até a pessoa do outro colocando-a a nosso serviço, dela nos aproveitando, apenas. É triste a visão errada que hoje se está dando ao amor, especialmente ao amor entre um homem e uma mulher. Nada mais é que um egoísmo refinado, que pode assim ser resumido: Eu quero você para mim, porque quero ser feliz…

Cristo, verdade que liberta a paz

No dia 20 de setembro, Francisco presidiu o 30º Dia Mundial de Oração pela Paz, na cidade de Assis. Reuniu mais de 500 líderes religiosos de todo o mundo, cristãos, judeus, muçulmanos, representantes das grandes religiões, para rezar pela paz no mundo. Deus nos dá a paz que vem da justiça e do diálogo, por isso devemos orar pedindo a paz.

O mundo vive uma guerra mundial em pedaços (diversas guerras ao mesmo tempo), então devemos nos empenhar pela paz em pedaços: cada pessoa, cada família, cada comunidade, cada Igreja, religião, se comprometer com a paz, e assim, a união desses pedaços nos dará a paz verdadeira.

Aceitamos muito as mentiras dos poderosos do mundo que se empenham em discursos pacíficos quando, na verdade, financiam guerras em outras nações, e lucram com o mercado internacional das armas, chegando mesmo a usar o nome do Deus amor e verdade para explodir pessoas, destruir culturas. Quantas vezes o sentimento patriótico foi instrumentalizado como se fosse sentimento religioso e, na verdade, serviu apenas para aumentar fronteiras, garantir mercado e matérias primas. É esse o alimento de guerras fomentadas pelos estados modernos, também atuais, cujo fruto triste é produzir multidões de migrantes e imigrantes, depois tratados como lixo incômodo do grande mercado capitalista. É muito sintomático que os séculos XX-XXI, tempo de expansão imensa do capitalismo, sejam o tempo das maiores migrações de que se tem notícia na história humana. A gula pela riqueza provoca ânsia de vômito diante de povos errantes pelas estradas e que o deus capital pretende evitar construindo muros.

Deus é a verdade, Jesus é a verdade que traz a vida, não a morte. Blasfêmia gravíssima colocar o nome de Deus no meio do ódio e da mentira. Deus é Deus da paz. Não existe um deus da guerra. Quem faz a guerra é o maligno, o diabo, que quer a morte de todos.

Somente a busca sincera da verdade vai nos libertar da mentira que transforma cidades em ruínas, pessoas em mira de fuzis e bombas. Ao iniciar a guerra, a primeira vítima é a verdade.

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Como crentes, não podemos cair no paganismo da indiferença, que nos leva a cruzar os braços diante do sofrimento de homens e mulheres, jovens e crianças. Seremos chamados de filhos de Deus se formos construtores da paz.

Francisco nos convida ao diálogo pela paz e à educação para o diálogo: diálogo-educação. O diálogo nasce quando sou capaz de reconhecer que o outro é um dom de Deus e tem algo a dizer-me. A verdade que liberta nos conduz à pedagogia do encontro, ao diálogo que ensina a aprender, o oposto das conversações ordinárias que dividem as pessoas entre as que estão certas e as que estão erradas. Entrar em diálogo significa superar a imagem refletida no espelho, ensina aprender enriquecer-se com a diversidade do outro. No diálogo não existem perdedores, mas somente vencedores. A verdade nos libertará.

Pe. José Artulino Besen

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SANTA TERESA DE CALCUTÁ

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Madre Teresa foi recebida pelos Papas diversas vezes e sua pessoa e vida tocaram-nos profundamente. Paulo VI recebeu-a três meses antes de morrer, em 6 de maio de 1978, e falou, olhando para ela: “É uma coincidência que Jesus ousa fazer, direi com surpreendente grandeza e bondade, de colocar-se no lugar do irmão menor e mais necessitado, mais sofrido e degradado, e dizer: “A mim o fizeste”. Essa “encarnação” mística de Jesus no pobre, no miserável, está verdadeiramente entre as coisas mais luminosas e mais instrutivas do Evangelho”.

E João Paulo II, na homilia de beatificação, em 19 de outubro de 2003: “Sou pessoalmente grato a esta mulher corajosa, que senti sempre ao meu lado. Ícone do Bom Samaritano, ela ia a toda a parte para servir Cristo nos mais pobres entre os pobres”.

Madre Teresa foi uma santa contracorrente, que em grande parte de sua vida experimentou a escuridão, as noites da fé. Por muitos anos não pode mais escutar a voz de Deus. É contracorrente sua defesa da família e da vida: “Hoje, o aborto é o maior destruidor da paz porque, se um mãe pode matar o próprio filho, não há mais nada que impede a mim de matar a ti, e a ti de matar a mim”, falou em 1979, ao receber o Nobel da Paz.

Na mesma ocasião revelou o amor pelos pobres que inclui o êxtase: “Os pobres são grandes pessoas. Podem ensinar-nos muitas coisas belas”. E assim explicou: “Todo ser humano é uma grande pessoa, mas, nos pobres há uma intensidade única, uma aura própria e específica. Neles, a necessidade de amor é visível e se pode tocar com as mãos. Eles nos ensinam que a realidade verdadeira, em cada coisa, é o amor. Eles nos recordam essa verdade. A presença deles é um pró-memória que faz bem à nossa humanidade”. “Quando conhecermos verdadeiramente os pequenos e os fracos, poderemos experimentar a esperança que sabem dar. Os pobres são nossa alegria” (Aos jovens, em Milão, 1973).

Madre Teresa pedia que não se julgassem as pessoas: “Se julgas as pessoas, não terás tempo para amá-las”.  Isso fazia com que encontrasse a bondade em cada pessoa e ao mesmo tempo a suscitava nela, quer fosse pecador, quer santo. O efeito era impressionante: a pessoa sentia-se amada.

Há 50 anos da aprovação pontifícia por Paulo VI em 1964, as Missionárias da Caridade de Madre Teresa passaram de algumas centenas a 5.300 religiosas em 758 fundações que ela gostava de denominar “tabernáculos de Jesus”, espalhadas em 123 países.  Seria um erro ler a história dessa mulher à luz da estatística dos “sucessos” numéricos. Ela pôs no centro de sua vida e de seu testemunho o amor incondicionado pelos pobres, pelos últimos.

Para poder enfrentar as necessidades de um apostolado sempre em aumento, fundou as Missionárias da Caridade, os Irmãos Missionários da Caridade, os dois ramos contemplativos (das Irmãs e dos Irmãos), e o ramo dos sacerdotes.

madre-teresa (2)Cristo foi o primeiro missionário da caridade: “o serviço que oferecemos é um trabalho humilde entre os pobres mais pobres. Não julgamos que seja uma perda de tempo gastar toda a nossa vida matando a fome dos famintos, dando uma casa aos pobres sem teto, vestindo os nus, assistindo os doentes, ensinando os ignorantes, amando quem não é amado, aceitando quem é rejeitado, porque Jesus disse: ‘A mim vós o fizestes’”.

Navin Chawla – intelectual hindu, biógrafo de Madre Teresa, afirmou que ela aprendeu a mendigar. Essa mais profunda humilhação a fortaleceu. Quando encontrava alguém pensava: “o que pode fazer por mim?”, ou seja, como pode ajudar os pobres através de minha obra? Não necessitava converter alguém porque a criança pobre abandonada pela estrada era Jesus. O leproso era Jesus. O moribundo era Jesus.  Não precisava converter alguém que já era Deus. (cfr. N. 22 da GS: “Com a encarnação, o Filho de Deus de certo modo se uniu a cada homem”).

Na Europa e na América, escreveu Madre Teresa, dedicamos o nosso trabalho aqueles que consideramos os mais pobres entre os pobres espiritualmente, e esses são aqueles que não são amados, não são queridos, não são assistidos, pessoas que ninguém ama: “A doença mais grave, hoje, não é a lepra ou a tuberculose, mas a solidão, o sentir-se ignorados, não amados, não desejados”. A solidão é a lepra do Ocidente.

Teresa de Calcutá – a santa da escuridão

Na história da espiritualidade cristã, Madre Teresa mergulha na tradição dos grandes santos e místicos, entre os quais citamos João da Cruz, Teresa d’Ávila, Elisabeth da Trindade, Edith Stein. Passou pela noite escura da fé, essa experiência de amor perfeito na qual o Amado se esconde, aumenta no amante o desejo de possuí-lo e sempre mais se esconde. Noite escura, sim, mas noite plena de claridade, porque vivida entre o Senhor e sua amada. A noite escura é o não sentir-se amado.

Através de alguns de seus escritos, hoje temos algum conhecimento dessa imensa e fascinante aventura de Madre Teresa. Deus dela se escondeu, para que fosse visto apenas numa pessoa: a do pobre. Seus olhos estão sempre abertos, procuram, mas não encontram o Senhor e sim, os pobres deste mundo. E ela está sempre sorrindo, pois no rosto do pobre contempla seu Amado, o Senhor.

Para que o leitor tenha uma pálida idéia do combate da fé vivido Madre Teresa de Calcutá, citamos alguns textos.

Madre Teresa com mães e crianças em sua missão em Calcutá, Índia

Madre Teresa com mães e crianças em sua missão em Calcutá, Índia

Madre Teresa com mães e crianças em sua missão em Calcutá, Índia

“Meu sorriso é um grande manto que cobre uma multidão de dores”, escreveu ao diretor espiritual.  O início de sua missão foi na “escuridão”, mediante as locuções interiores que teve no trem noturno que a conduzia a Darjeeling, em 10 de setembro de 1946. Todo o resto de sua existência – após seis meses de extraordinário confronto com Jesus – foi vivido por Teresa na completa escuridão espiritual, sem mais confortos espirituais, pelo contrário, com a constante sensação de viver na distância e na ausência de Deus. É como se, desde o início, ela tivesse tido que experimentar não só a pobreza material e a impotência dos marginalizados, mas também sua trágica desolação.

Escrevia a Dom Périer, em março de 1953, ao assumir a direção da Congregação das Missionárias: “Por favor, reze especialmente por mim, para que eu não arruíne o trabalho de Jesus, e Nosso Senhor se revele, porque há em mim uma terrível escuridão, como se tudo fosse morto desde que eu iniciei a obra. Peça a Nossa Senhora que me dê coragem”. Suas forças vinham de uma certeza: o trabalho pela Congregação das Missionárias da Caridade “não é feito por mim, mas por Jesus: estou mais certa disso do que de minha real existência”.

Em janeiro de 1955, escrevia ao arcebispo Périer de Cacutá: “Há em meu coração uma solidão tão profunda que não sei expressá-la”. Em dezembro do mesmo ano: “Tudo está gelado dentro de mim. É somente a fé cega que me transporta, porque, na verdade, para mim tudo é escuridão”. “Às vezes a agonia da desolação é tão grande e, ao mesmo tempo, é tão profundo o desejo do Ausente, que a única oração que ainda consigo fazer é: “Sagrado Coração de Jesus, eu confio em ti. Saciarei a tua sede de almas” (março de 1956).

Em abril de 1957: “Quero sorrir até para Jesus, de forma a esconder também a ele, se possível, a dor e a escuridão de minha alma”. Em janeiro de 1958: “O desejo vivo de Deus é terrivelmente doloroso e, contudo, a escuridão se torna sempre maior. Que contradição há em minha alma! É tão grande a dor interior, que nada sinto com toda a publicidade e o falar do povo”.

Por apenas um mês seu sofrimento teve alívio: foi em outubro de 1958, quando era celebrada na Catedral de Calcutá a missa em sufrágio de Pio XII: naquela ocasião, Madre Teresa, sufocada pelo sofrimento espiritual, pediu a Jesus um sinal de sua presença. Na carta de 17 de outubro narrou a Dom Périer que “então desapareceu aquela longa escuridão, aquele sentimento de perda, de solidão, daquela estranha e prolongada dor. Hoje a minha alma está cheia de amor, de alegria indizível, de uma ininterrupta união de amor”.

Mas, Jesus foi breve. Já em novembro escrevia que “Nosso Senhor pensou que era melhor para mim permanecer no túnel, e assim ele novamente se foi. Sou-lhe grata por aquele mês de amor que me concedeu”.

O tormento continuou até sua morte, por 39 anos, de modo a purificá-la sempre mais no seu amor por Deus e pelos irmãos. Passou a perceber melhor o significado dessa dolorosa experiência e a colocá-la em relação com sua vocação. Em novembro de 1958, disse a Dom Picachy que nunca soubera “que o amor pudesse fazer sofrer tanto, tanto pela ausência como pelo desejo”. No início de 1960 confidenciou ao Pe. Neuner: “Pela primeira vez, nestes onze anos, comecei a amar a escuridão. Porque agora creio que ela é uma parte, uma pequeníssima parte, da escuridão e da dor vivida por Jesus na terra”.

Sua pergunta era sempre a mesma: “Que proveito Deus tem comigo, enquanto vivo neste estado, sem fé, sem amor, sem nem mesmo um sentimento? Num outro dia houve um momento no qual quase rejeitei aceitar essa situação, e então tomei do Rosário e comecei a recitá-lo lentamente e com calma, sem nada meditar ou pensar. Assim passou aquele momento duro, mas a escuridão é verdadeiramente densa e a dor muito tormentosa. Em todo caso, aceito tudo o que ele me dá e dou-lhe tudo o que ele pega”.

Ficava perturbada diante da reação das pessoas que lhe estavam próximas. Em setembro de 1962, escreveu a Dom Picachy: “As pessoas dizem que se sentem jogadas rumo a Deus vendo minha sólida fé. Isso não significa enganar o povo? Mas, a cada vez que eu queria dizer a verdade – que eu não tinha fé – as palavras não saíam, minha boca permanecia fechada e continuava a sorrir a Deus e a todos”.

Apesar dos sofrimentos e da escuridão espiritual, Madre Teresa sempre tinha clara consciência de que a fé era o verdadeiro farol de sua vida. Era freqüente interromper uma frase para dizer: “Olha o que Deus está fazendo”, e “Admira a grandeza de Deus”.

Uma carta às Missionárias, de 31 de julho de 1962, num dos períodos mais dolorosos de sua experiência espiritual, manifesta a convicção que ela colocara em prática por toda a vida: “Cristo se servirá de ti para fazer grandes coisas com a condição de que tu creias mais no seu amor do que na tua fraqueza. Crê nele, tem fé nele com absoluta e cega confiança porque ele é Jesus, e somente ele é a vida; e que a santidade não é outra coisa que o próprio Jesus que vive intimamente em ti”.

O olhar e o sorriso de Madre Teresa: viveu buscando a Deus e sempre encontrando os pobres. Mas, em 5 de setembro de 1997, encontrou-se com seu Amado, para sempre.

madre-teresa-enrugadaSua vida e santidade foram aprovadas pela Igreja quando, em 19 de outubro de 2003, apenas seis anos após a morte, foi beatificada por São João Paulo II na Praça de São Pedro.  Era o Dia Mundial das Missões, e assim falou o Papa: “Porque o Filho do Homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (Mc 10, 45). Madre Teresa partilhou a paixão do Crucificado, de modo especial durante longos anos de “obscuridade interior”. Aquela foi a prova, por vezes lancinante, acolhida como um singular “dom e privilégio”.

Nos momentos mais difíceis ela recorria com mais tenacidade à oração diante do Santíssimo Sacramento. Esta difícil angústia espiritual levou-a a identificar-se cada vez mais com aqueles que servia todos os dias, experimentando o sofrimento e por vezes até a recusa. Gostava de repetir que a maior pobreza é não sermos desejados, não ter ninguém que se ocupe de nós.

“Dai-nos, Senhor, a Vossa graça, em Vós esperamos!”. Quantas vezes, como o Salmista, também Madre Teresa, nos momentos de desolação interior, repetiu ao seu Senhor: “Em Vós, meu Deus, em Vós espero!”.

E, no dia 4 de setembro de 2016, no Ano da Misericórdia, na Praça de São Pedro o papa Francisco a proclamou Santa Teresa de Calcutá, glorificando a aventura humana e espiritual de uma das mais fascinantes personalidades da Igreja do século XX, uma mulher pequeninha, frágil como uma borboleta, forte como um leão.

Pe. José Artulino Besen

 Pode ler, nesse blog:

 

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PADRE LUIZ JOÃO BERTOTTI

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Pe. Luiz João Bertotti (01/01/1929 – 21/08/2016)

Pe. Luiz João Bertotti nasceu em Nova Trento em 1º de janeiro de 1929. Seus pais: Alberto Bertotti e Francisca Bottamedi. Percorreu sua formação seminarística nos Seminários de Azambuja, e de São Leopoldo. Foi sempre aluno e seminarista exemplar e, como estudante, caracterizou-se pela clareza do raciocínio. Madre Paulina tinha firme o plano de criar o ramo masculino de sua Congregação: era a Congregação dos Robertinos, iniciada por ela em Nova Trento, mas suprimida por Dom Duarte Leopoldo, sob o argumento que já havia fundações suficientes e que bastava escolher uma delas. Santa Paulina, radicalmente obediente à autoridade eclesiástica, conservou o sonho dessa fundação. As Irmãzinhas auxiliaram na formação de seminaristas de Nova Trento, esperando que, como padres, levassem adiante a bandeira. Foram esses os seminaristas: Tarcísio Marchiori, Cláudio Cadorim e Luiz João Bertotti, todos ordenados padres e já falecidos.

Foi ordenado presbítero por Dom Joaquim Domingues de Oliveira no Santuário de Azambuja em 8 de dezembro de 1956. Em 29 de dezembro de 1956 recebeu a provisão de vigário paroquial de São Sebastião de Tijucas, trabalhando com o rigoroso Mons. Augusto Zucco nesta grande paróquia que abrangia Tijucas, Canelinha, Porto Belo e Itapema, com suas distâncias e muitas capelas.

Em 21 de dezembro de 1961, foi nomeado pároco de Sant’Ana de Canelinha, onde iniciou a construção da igreja matriz sob projeto arquitetônico moderno e funcional. Não era de seu temperamento pedir dinheiro, organizar festas, mas não teve medo do trabalho. Dois anos depois, em 24 de dezembro de 1963, assumiu como vigário paroquial de Mons. José Locks em São João Batista.

Homem de consciência social, no espírito da ação católica, enfrentou a poderosa USATI, Usina de Açúcar de Tijucas, denunciando a dupla exploração daquele povo: no preço da cana e nos baixos salários. Foi muito criticado como comunista, mas não era homem de temer gente importante. No ano seguinte veio o Golpe militar de 31 de março e os problemas sociais tiveram de ser varridos para debaixo do pano. Além disso, sob as ordens do severo Mons. José Locks não havia muito espaço para pregação social. Mons. José enxergava os problemas e se indignava com eles, mas, receava o perigo vermelho nas denúncias deles, especialmente quando escutou que Pe. Luiz queria organizar uma greve dos trabalhadores da cana.

Em 1968, Pe. Luiz trabalhou no Seminário de Azambuja, como professor e na dura missão de assistente de meia centena de adolescentes que se aproveitavam de sua bondade e paciência e o provocavam com bagunça nos corredores e salas de estudo. Lecionava a disciplina de Concílio do Vaticano II, introduzindo nos seminaristas uma mentalidade aberta sobre a Igreja, Povo de Deus. Não era de seu temperamento gritar ou castigar, razão pela qual pediu transferência e, em 14 de fevereiro de 1969 foi provisionado pároco do Divino Espírito Santo de Camboriú.

Pe. Luiz era bom pregador e suas homilias, breves, partiam da Palavra de Deus. Quem o escutasse pela primeira vez poderia ter a impressão de estar diante de um revolucionário. Era consequente com o Evangelho. A linguagem clara e original era fruto de muito estudo, da capacidade de expressar com beleza o que ensinava. Que ele gostasse da filosofia, não se pode negar. Especialmente era um bom tomista, na lógica do raciocínio. Também era claro seu apreço pela eclesiologia do Concílio, seu desejo de uma Igreja a caminho, atuante na história. Sua espiritualidade e ação pastoral não eram muito dadas a devoções, manifestações da religiosidade popular. Preferia a Palavra.

Era um homem sério e que levava a realidade e as pessoas a sério. Não se pode imaginá-lo em brincadeiras ou manipulações. O interlocutor ganhava seu respeito e uma resposta objetiva aos problemas.

Dois irmãos e uma história

Aconteceu então um fato que mudou o exercício de seu ministério sacerdotal: seu irmão padre, Egídio Alberto Bertotti, ex-jesuíta, incardinado na diocese de Maringá, pediu para trabalhar na Arquidiocese de Florianópolis e, se possível, junto com seu irmão, que tinha dificuldade ao volante por não ter boa visão. Dom Afonso Niehues aquiesceu ao pedido e, em 26 de janeiro de 1970 nomeou Pe. Luiz vigário do Santíssimo Sacramento de Itajaí e Pe. Egídio pároco. O projeto pastoral de Dom Afonso era que Pe. Luiz cuidasse da capela da Vila Operária, preparando-a para futura sede paroquial, o que não aconteceu, pois era comunidade muito próxima da Matriz do Santíssimo e Pe. Luiz julgou que seria apenas multiplicar estruturas.

Em 10 de janeiro de 1980, os dois irmãos foram provisionados para São João Batista. Não havia mais o problema social da Usina de Açúcar, que tinha sido fechada e transformada na Cerâmica Porto Belo em Tijucas. Após décadas de exploração e de fuligem descarregada pela chaminé, poluindo o ambiente urbano, São João Batista viveu o drama do desemprego, suavizado depois pela indústria calçadista. Os tempos eram outros. Ali Pe. Luiz dedicou-se à pregação evangélica iluminada pela opção preferencial pelos pobres de Puebla, cuja Conferência fora realizada no ano de 1979.

Pe. Paulo Bratti, diretor do ITESC, julgou de bom propósito pedir a Pe. Luiz que lecionasse Doutrina Social da Igreja em Florianópolis. O pedido foi aceito e Pe. Luiz se empenhou no compromisso semanal mas, foi apenas um ano. Ele pensava numa análise teórica da Doutrina Social, num estudo exigente. Infelizmente os estudantes estavam mais entusiasmados pela pastoral de passeata, dos slogans, o que espantou o professor e a experiência ficou restrita ao ano de 1981.

Aqui é oportuno lembrar que Pe. Luiz Bertotti era um intelectual, homem de reflexão e de muita leitura, e isso sempre. Não apreciava sucesso fácil.

Em 29 de janeiro de 1993, recebeu a provisão de vigário paroquial de São Francisco Xavier de Saco Grande, uma grande e exigente paróquia cujos limites iam de Saco Grande até o Rio Vermelho, o Norte da Ilha de Santa Catarina. Seu irmão era o pároco e deu prosseguimento à construção da igreja matriz. Só Deus sabe o que significou levar adiante essa obra, num tempo de inflação galopante e sem referencial de moeda. Tiveram a alegria de inaugurá-la.

A partir dessa missão, os dois irmãos sentiram problemas de saúde, e Pe. Luiz sempre mais sofria, enxergando apenas com uma vista. Foram transferidos 1998 para a paróquia Nossa Senhora do Desterro, Catedral metropolitana, como vigários paroquiais. Ali se dedicaram ao atendimento espiritual, às confissões, com zelo e desprendimento, mesmo com a idade avançando e a saúde debilitada. Eram ótimos e sábios conselheiros.

Em 2010, Pe. Luiz percebeu que não era mais tempo de compromissos e, junto com Pe. Egídio, decidiram fixar residência em Nova Trento, no Salto. Terminavam onde iniciaram.

A saúde de Pe. Luiz, com sérios problemas cardíacos, foi se deteriorando. Sabia sofrer, sabia viver. Sua fé iluminava seus passos e lhe indicava o novo horizonte que se abria. Em agosto de 2016 esteve internado no Hospital de Azambuja. Retornou a Nova Trento, em cujo hospital passou os últimos dias de sua longa existência terrena e sacerdotal.

No dia 21 de agosto Deus o chamou. Seu irmão, Pe. Egídio, ouviu suas últimas palavras conscientes: “Mãe, Mãe, Mãe do Céu – não aguento mais…vem, vem Mãe” e … deu o último suspiro. Na manhã do dia seguinte foi sepultado em Nova Trento.

Pe. Luiz viveu uma bela vida de 87 anos de idade e, no dia 8 de dezembro festejaria o Jubileu de Diamante sacerdotal. Deixou-nos a imagem de um padre pastor, dedicado, perseverante, humilde. No silêncio viveu, no silêncio Deus o recolheu.

Deixou o comovente exemplo de vida fraterna, trabalhando junto com seu irmão Pe. Egídio por 46 anos. Eram dois irmãos no sentido mais belo: trabalhando, conversando, estudando, discutindo, na alegria da unidade segundo a palavra bíblica: “Oh, como é bom, como é agradável para irmãos unidos viverem juntos” (Salmo 133, 1).

Pe. José Artulino Besen

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A DESPEDIDA DE NOSSO IRMÃO SEBASTIÃO

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Sebastião Artulino Besen – em seu último ano

Recordo, na memória e no coração, o dia 30 de dezembro de 1958, um dia de muito calor e de muita alegria: de madrugada nossa vó materna Maria Gesser Pauli foi chamada para atender nossa mãe. Passado um tempo, ouvimos o choro de uma criança: era mais um bebê, mais um irmãozinho que acabava de chegar. Devido ao pudor que reinava em nossa casa, somente de manhã pudemos conhecer a novidade que já tinha recebido nome: Sebastião. Muita alegria lá em casa e o Sebastião já tinha o apelido de Tãozinho.

No meio da tarde, um susto: Tãozinho teve uma espécie de ataque, ficou vermelho e a mãe lamentava a morte iminente. Para garantir que fosse para o céu, mãe Lúcia o batizou e, dias depois, foi batizado na casa paroquial, sendo de nós o único que teve dois batismos. O bebê não morreu, cresceu uma criança muito linda, cabelos louros, cacheados. Para falar a verdade, nós guardávamos certa raivinha dele, inveja de criança, e porque todos queriam segurá-lo ao colo. Juvenila, nossa empregada, era a defensora de Tãozinho, a criança linda que podia fazer o que quisesse, que tinha sempre razão, ai de quem mexesse com ele. Às vezes, o beliscávamos para vê-lo chorar exageradamente e assim vingar as proteções de Juvenila. Ela perguntava ao Tão quem o tinha ofendido e ele sempre apontava um de nós, que recebíamos a correção devida.

Tãozinho era muito inteligente e tinha todas as atenções merecidas pelos caçulas.

Quando ele nem entendia muito da vida e da morte, lembro-me dele de mãozinhas no bolso, olhando para tanta gente reunida lá em casa, perguntando se mamãe iria se acordar logo. Não iria: era o 25 de novembro de 1964, e mãe Lúcia estava num caixão, tinha morrido naquela madrugada na Casa de Saúde São Sebastião. O sepultamento foi no dia seguinte, e o pai estava sério, cercado pelos oito filhos a quem deveria criar, educar, formar. O pai se consolava dizendo que perdera a esposa, mas tinham ficado os filhos. Mamãe tinha 47 anos e o Tãozinho estava para completar 6 e recebia o doloroso título de órfãozinho. Juvenila estava casada, minhas irmãs mais velhas, Maria e Nesir, eram internas no Colégio Coração de Jesus e eu estava no Seminário de Azambuja.

Aquele menino louro, vivo, acarinhado era uma criança meio solitária, agora privado das defesas que os caçulas costumam ter.

A palavra “mãe” não lhe trazia mais recordações. Como deve ter sofrido a solidão, o pobrezinho, aumentada porque nosso pai Artulino não era de dar proteção a algum filho. Todos foram criados como se fossem um só.

No tempo que foi passando, todos foram matriculados na escola das primeiras e segundas letras, na escola do catecismo, na escola do trabalho na roça.

Em 1971, ao chegar em casa para as férias, nosso pai deu-me a notícia: Sebastião queria ser padre, ia para o Seminário de Azambuja, onde eu agora lecionava e frequentava o curso de Filosofia. Por dever de ofício, tive de mostrar uma grande felicidade mas, intimamente sentia a nova solidão que meu irmão caçula iria viver: ser anônimo numa casa com mais de 100 crianças e jovens, sozinho e anônimo por aqueles grandes corredores, quentes no verão, frios no inverno. Recordo com muito sentimento a dor que sentia ao contemplá-lo passando pela experiência da saudade da casa, da família, dos amigos da infância, numa casa de formação tocada por homens sem muitos sentimentos, na qual eu já vivia há 12 anos e onde eu derramei todas as lágrimas que podia, pura saudade, mesmo carregando o peso de que era pecado ter saudade, pois Jesus e Nossa Senhora davam muito mais alegria. Assim foi, porque assim era.

Tãozinho era de personalidade forte, teimoso a ponto de não aceitar desafios. Lembro um dia, assim me contaram, em que Pe. Albano afirmara que ninguém colaria a prova com ele. Sebastião abriu o livro de latim e disse: “eu colo, e pronto!” Ganhou um zero, mas vencera o desafio, como muitas vezes enfrentou depois.

Em setembro de 1972 eu fui indicado para cursar Teologia em Roma. Deixei meu irmão sozinho. Lembro de cartas que me dirigiu, falando de algum formador que não “ia com a cara dele”, da saudade que sentia de tudo. Meu irmão deve ter sofrido muito.

Terminado o Ginásio, deixou o seminário e nosso pai permitiu que ele cursasse o Colegial em Florianópolis, residindo numa pensão. Ali Sebastião foi batizado numa outra vida, onde não faltava o álcool, a droga e as farras. Os sentimentos religiosos foram se apagando, o carinho pela família também. Era outro Sebastião e pouco lembrava o Tãozinho de nossa casa.

Retornei de Roma em 1975 e me preparei para a ordenação presbiteral no ano seguinte, sentindo a indiferença de meu irmão, que me afirmou ver em tudo “babaquice”. Fez o favor de participar mas, no último banco da Igreja à moda hippie, cabelos compridos, calça e camisa jeans, estilo dos rebeldes da época. Nossas veneráveis tias comentavam: “Como ele é diferente”… Lá no fundo da igreja, Sebastião ria… Conseguiu ser diferente.

Tãozinho, nossa irmã Maria e Pedrinho, em 4 de fevereiro de 1967

Tãozinho, nossa irmã Maria e Pedrinho, em 4 de fevereiro de 1967

Desejava partir para o mundo, e partiu. Parece que foi para Porto Alegre. Teve uma experiência não tão boa e depois de uma ou duas semanas voltou…. Mas, antes de ir, escreveu uma carta que Irmã Maria leu para o pai. O assunto era que ele ia partir. Agradecia a educação recebida, mas que este tipo de educação não servia para ele. Passou um tempo no Ribeirão da Ilha, sustentado por nossa irmã Cecília, indo sempre ia ter com ela. Ia também visitar Ir. Maria, no Saco dos Limões. Quando voltou para casa, já noite adentro, disse para o pai que estava voltando. O pai mandou imediatamente o Pedrinho ir para o Ribeirão buscar as coisas dele, antes que se arrependesse. Sebastião ficava no quarto, dormia bastante, levantava pelas 9hs, fazia ele mesmo o sua merenda e almoço, pois era vegetariano. Depois tomava banho no rio. Admirável nosso humilde pai: não chamava atenção, alegre por seu filho estar em casa.

Tempo depois, Sebastião quis realizar o velho sonho: ir para São Paulo, ser livre. Teimou, e meu pai teve de autorizar mas, diferente do pai do filho pródigo, não lhe deu herança, apenas um dinheiro para a viagem e primeiras despesas. Era o ano de 1977 quando Sebastião nos abandonou para viver a vida longe de casa, sozinho no meio urbano, integrado num mundo estranho, e esquecido de seu pai e irmãos, aos quais nem deu o endereço, nem telefonou. Pelo que foi possível pescar, andou no Nordeste, apanhou da polícia, esteve preso, foi internado em hospital devido a alimentos estragados, viajou de trem até a Bolívia, pois queria drogas e queria viver livre. O dinheiro para viver arrecadava vendendo artesanato de couro,.que produzia.

Após dois anos de ausência total, numa madrugada bateu à janela do quarto de nosso pai, dizendo: “pai, sou eu, estou de volta!” Nesse momento nosso pai teve a atitude do pai do filho pródigo e respondeu: “Está bem, Tãozinho, entra para descansar”. E mais não disse, nem mais perguntou. Sebastião entrou em casa como se nunca dela tivesse saído.

Começou nova fase da vida, trabalhando na roça, sendo amigo dos mais pobres e dos humildes, marca de sua personalidade. Recuperou a fé, participava dos sacramentos, mas sempre na liberdade, a ponto de interromper uma homilia do padre para dizer que estava tudo trocado. Sebastião não conseguiu crer por obrigação, nunca mais.

Em 1979 ele quis fazer a experiência de vida dos Irmãozinhos de Jesus, e passou o ano em João Pessoa, trabalhando como servente de pedreiro, muito apoiado pelo Irmão Chico, que nele trabalhou o caminho da conversão.

Retornou nele o desejo de ser padre. Achei que Azambuja não seria o lugar adequado e, graças ao bom Pe. Alcido Kunzler, foi aceito no Seminário de Chapecó, conhecido pelo compromisso social. Mais um ano e, em 1981 veio para Azambuja, cursar a Filosofia. Eu era o formador e não foi fácil tratar com meu irmão, que não admitia a mínima injustiça nem ser obrigado a obediências. Meu irmão continuava o mesmo, cioso da liberdade mesmo a troco de perder benefícios.

Líder nato, engajado nas questões sociais, assumiu o Diretório Acadêmico da Fundação Educacional de Brusque, onde desenvolveu ótimo trabalho. Era 1985 quando eu deixei Azambuja e em 1986 ele deixou o Seminário. Competente e responsável, foi empregado na Prefeitura Municipal de Brusque, por seus méritos chegando a ser nomeado Secretário da Cultura.

Esposo e pai, o adeus

Herança do tempo de Seminário, namorava uma funcionária do Hospital de Azambuja, Nilzete Dubiella. Uma mulher íntegra, paciente, talhada para suportar as liberdades de Sebastião e que o salvou libertou das drogas. Compraram um lote de terra e construíram uma boa casa em Tomás Coelho, onde residia Nilzete. O casamento foi celebrado em 17 de janeiro de 1987, e teve suas peculiaridades: Sebastião entrou na capela de São Roque de manga de camisa, com gravata azul, calça jeans e tênis. Como ele gostava, não como o aconselhavam.

Nilzete e Sebastião foram um casal abençoado pela seriedade, honestidade e inserção na comunidade. O trabalho na prefeitura era bom, trazia o pão de cada dia, mas dependia dos humores da política.

Recebeu e aceitou o convite de meu cunhado Mário César e minha irmã Ivone para montar uma empresa em Curitiba e para lá se transferiu. Foram bem sucedidos e anos depois Sebastião e Nilzete abriram empresa própria, também com muito sucesso. Fiéis a suas convicções, foram sempre justos e generosos na remuneração dos empregados. Ao mesmo tempo adotaram uma família numerosa e muito pobre a quem visitavam a cada sábado, cobrando as lições escolares e ajudando na alimentação e educação. Assumiu o culto na capela Santa Teresinha e preparava jovens para a Crisma. Pouco a pouco revivia em nosso irmão Sebastião a formação religiosa recebida em casa. Foram abençoados pelo nascimento de dois filhos, Daiare e Gabriel. Eles crescendo, não contava as horas para conversar com os filhos sobre Deus, sobre a vida.

Tudo ia muito bem para essa família abençoada em todos os sentidos. Mas, Deus que a visitava sempre, quis que fosse visitada pela cruz, uma pesada cruz que, improvisamente, desmontou aquela felicidade: em 28 de junho de 2006, enquanto Sebastião dirigia o veículo para ir ao trabalho, sentiu dores anormais num braço e decidiu visitar o médico, visitar por visitar. Ao entrar no consultório, foi vitimado por diversos ataques cardíacos que o deixaram inconsciente.Às pressas foi internado no Hospital Evangélico de Curitiba. Era segunda-feira. No sábado seguinte, de manhã, acordou-se e conversou normalmente sobre a família e o trabalho. Daiare falava com muita convicção: “o pai não vai morrer, porque Deus sabe que ele é tão bom e somente fazia o bem. Tenho certeza”. Daiare não conhecia as surpresas de Deus.

Depois, Sebastião apagou-se, mergulhando na agonia que somente terminou em 16 de agosto de 2006. No dia seguinte, foi sepultado no cemitério de Antônio Carlos. Marcada pela dor inesperada, Nilzete falou enquanto olhava o cadáver de seu esposo: “Sebastião, estou muito triste porque você nos deixou. Mas, tenho um consolo: não perdi você para a riqueza, para outra mulher: perdi você para Deus!” Foi sua última conversa, um ato de amor e de fé de quem deveria assumir os filhos Daiare e Gabriel, a casa e as empresas. Foi vitoriosa. A cada fim de tarde se retirava para conversar com Sebastião.

Ali não estava nossa irmã mais velha, Maria, que tanto cuidara de Tãozinho. Era missionária no Ceará. Viveu um luto mais doloroso, pois não se despedira de Tãozinho. Nossa família tinha-se reunido ali, nesse cemitério, em 2 de janeiro de 2002, para a despedida de nosso pai Artulino, abençoado por uma existência de 82 anos e com a graça de não ser provado pela perda de um filho.

Na despedida final de Tãozinho me veio à mente o 26 de novembro de 1964: nesse mesmo lugar nossa mãe se despediu de nós aos 47 anos. Ao lado de seu caixão estava uma criança de 6 anos, o caçulinha Sebastião, que agora também partia, aos 47 anos.

Pe. José Artulino Besen

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SANTA MARIA MADALENA – apóstola dos apóstolos – 22 de julho

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Não me segures – Jesus e Maria Madalena – Giotto

Assinado em 3 de junho de 2016 por decisão de Francisco, um decreto da Sagrada Congregação do Culto elevou a memória de Santa Maria Madalena ao grau de Festa, como a devida aos outros apóstolos. A decisão está inserida no novo contexto eclesial que pede profunda reflexão sobre a dignidade da mulher, a nova evangelização e a grandeza do mistério da misericórdia divina.

São João Paulo II já tinha se referido à missão peculiar de Maria de Mágdala como primeira testemunha que viu o Ressuscitado e primeira mensageira que anunciou aos apóstolos a ressurreição do Senhor.

Santa Maria Madalena é apresentada como um exemplo de “verdadeira e autêntica evangelizadora”, que anuncia a alegre mensagem central da Páscoa. Francisco tomou essa decisão para significar a importância desta mulher que demonstrou um grande amor a Cristo e que tão profundamente foi amada por ele.

O papa São Gregório Magno definiu-a como “a primeira testemunha da ressurreição”, e Santo Tomás de Aquino chamou-a de “apóstola dos apóstolos” porque foi ela que anunciou aos discípulos amedrontados e trancados no cenáculo o que eles deverão, por sua vez, anunciar a todo o mundo. João evangelista a descreve em lágrimas por não ter encontrado no túmulo o corpo do Senhor. Jesus teve compaixão dela fazendo-se reconhecer como Mestre e transformando suas lágrimas em alegria pascal. Tudo isso motivou a decisão papal de que sua festa litúrgica de 22 de julho tenha o mesmo grau das celebrações dos apóstolos no Calendário Romano Geral.

Segundo os biblistas, Santa Maria Madalena não foi a prostituta de que Lucas fala e que ungiu os pés do Senhor (Lc 7, 36-50), uma anônima pecadora conhecida na cidade. Também não é a outra Maria, irmã de Marta e Lázaro, a Maria de Betânia (Jo 12, 1-8). Esse engano deu origem a intensa devoção e inspirou grandes artistas.

Maria Madalena é o que diz seu nome: era de Mágdala, povoado de pescadores à margem do Lago de Tiberíades, mercado de peixes, cujas escavações nos anos 70 do século XX revelaram o desenho urbano da antiga vila. E escavações em 2009 possibilitaram a descoberta da antiga sinagoga, uma das mais antigas dentre as descobertas em Israel: sua posição na estrada que liga Nazaré a Cafarnaum indicaria como aquela frequentada por Jesus.

Maria Madalena aparece pela primeira vez no capítulo 7 de Lucas, quando se narra que Jesus passou por cidades e povoados proclamando a Boa-nova do Reino de Deus, e com ele estavam os Doze a algumas mulheres que tinham sido libertadas de espíritos malignos e de enfermidades e que lhe serviam com seus bens. Entre elas estava “Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios”. Como escreveu o cardeal Gianfranco Ravasi, “em si mesma, a expressão [sete demônios] pode indicar um grave mal (sete é o número de plenitude) físico ou moral que afligiu a mulher de que Jesus tinha libertado.

Sofrendo um mal grave, de natureza desconhecida, Maria Madalena pertencia, assim, ao povo de homens, mulheres e crianças feridas em muitos aspectos que Jesus liberta do desespero para devolvê-los à vida e aos seus entes queridos. Jesus, em nome de Deus, só faz gestos de libertação do mal e de resgate da esperança perdida. O desejo humano de uma vida boa e feliz pertence à intenção de Deus, que é o Deus da cura, nunca cúmplice do mal.

Maria Madalena reaparece nos Evangelhos na hora mais terrível e dramática da vida de Jesus: em seu fiel apego ao Mestre acompanha-o ao Calvário juntamente com outras mulheres, para observá-lo de longe. Em seguida, se apresenta quando José de Arimatéia deposita o corpo de Jesus no túmulo, que é fechado com uma pedra. Depois, no sábado, na manhã do primeiro dia da semana volta ao túmulo e descobre que a pedra fora retirada e corre para contar o fato a Pedro e João, que, por sua vez, correm ao sepulcro para conferir a ausência do corpo do Senhor.

O encontro com o Ressuscitado  

Enquanto os dois discípulos voltam para casa, ela permanece ali, chorando. Inclinando-se no túmulo vê dois anjos e lhes pergunta se não sabiam onde colocaram o corpo do Senhor. Então, olhando para trás, ela vê Jesus, mas não o reconhece, acha que é o jardineiro. Quando Ele pergunta a razão de suas lágrimas e o que procurava, ela respondeu: “Senhor, se tu o levaste, diz-me onde o puseste, e eu vou buscá-lo”.  Jesus disse-lhe, então: “Maria!” (Jo 20,15-16). Citando-lhe o nome, Jesus se revela como o seu Senhor, aquele que ela procura.

O diálogo continua e Maria Madalena diz em hebraico: “Rabuni”, o que significa “Mestre”. Jesus diz: “Não me segures, pois ainda não subi para o Pai; mas vai dizer a meus irmãos: “Eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus”. Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: “Eu vi o Senhor!”. E também narrou o que ele tinha dito “(Jo 20, 16-18).

Maria expressa a maternidade na fé e da fé. Com ela tem início a longa série das mães que, através dos séculos, se dedicam à geração de filhos e filhas de Deus. A decisão de Francisco é um dom belo, expressão de uma revolução antropológica que se refere à mulher e atinge toda a vida eclesial: entender que homem e mulher, numa dualidade encarnada, podem tornar-se anunciadores luminosos do Ressuscitado.

Pe. José Artulino Besen

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