MONSENHOR AGENOR NEVES MARQUES

Monsenhor Agenor Neves Marques

Monsenhor Agenor Neves Marques

Agenor Neves Marques nasceu na Palhoça em 10 de outubro de 1915, filho de Natalino Manoel Marques e de Otília Neves Marques. Teve como catequistas e depois, benfeitoras, Otília e Áurea Cruz. Filhas do ex-padre Manoel Miranda da Cruz, consagraram sua vida pela salvação do pai, doaram seus bens para a construção da Igreja de Fátima no Estreito e foram benfeitoras de Pe. Agenor. Extremamente religiosas, prometeram a Deus colocar no altar um padre no lugar abandonado por seu pai.

Integrou a primeira turma do Seminário de Azambuja, em 1927 tendo como colegas Dom Afonso Niehues e Dom Wilson Laus Schmidt.

Agenor foi ordenado padre em Tijucas, no dia 29 de dezembro de 1940. Em sua longa vida, quase sem sair do lugar pertenceu a três dioceses: Florianópolis (até 1954), Tubarão (até 1998), Criciúma (até a morte). Pe. Agenor era extremamente comunicativo, simpático na abordagem das pessoas, ótimo imitador e contador de histórias, um orador nato e corajoso.

Em 27 de janeiro de 1941, foi nomeado vigário paroquial do Santíssimo Sacramento de Itajaí e de Nossa Senhora da Penha, Penha. Um período difícil para os padres de origem alemã e os alemães, que eram muito atacados como quinta-coluna, espiões nazistas, especialmente Pe. José Locks, valoroso pároco. Pe. Agenor, do púlpito, respondia a todos os ataques. Sendo brasileiro, sua voz era respeitada e procurada pelos católicos e protestantes alemães. Nascia ali um tribuno competente a convincente, um orador sacro.

Em 16 de janeiro de 1942, foi transferido para ser vigário paroquial de São José, em Criciúma, onde paroquiava o benemérito padre italiano Pedro Baldoncini. Teve algum desentendimento com ele, o que era de esperar, pois levou para a casa paroquial pai e irmão, o que tirou a privacidade da casa. Ali fundou a Casa da Criança, que hoje é o Colégio São Bento, confiado às Irmãs e é um colégio particular. Em 1944 foi o mediador do litígio dos moradores de Içara, onde duas capelas vizinhas tinham o mesmo padroeiro São Donato, disputa conhecida como a “briga das imagens”. Com sua mediação, derrubaram-se as duas capelas e foi construída uma nova para São Donato, o padroeiro de Içara. Nesse caso, executou as orientações severas de Dom Joaquim Domingues de Oliveira.

Grande momento de sua atividade pastoral e catequética foi o “Congresso Eucarístico de Criciúma”, em dezembro de 1946. Durante um ano, o Sul catarinense foi catequizado sobre o mistério eucarístico, realidade essa muito viva na espiritualidade dos descendentes dos imigrantes primeiros imigrantes.

Nova transferência, em 8 de janeiro de 1947: pároco de Nossa Senhora Aparecida, em Siderópolis (Nova Belluno), desmembrada de Urussanga.

A vida dedicada a Urussanga

A partir de 29 de setembro de 1947 sua vida esteve ligada a Urussanga, onde permaneceu até a morte. Primeiro foi vigário paroquial de Nossa Senhora da Conceição, onde era pároco o santo ancião italiano Pe. Luiz Gilli, que ali trabalhou 52 anos. Em 1º de abril de 1948, foi nomeado pároco. Permaneceu no cargo até 1987, ali residindo até a morte em 2006.

O clero do Sul era, em sua maioria, italiano, alemão e polonês. O “brasileiro” Pe. Agenor foi o padre que falava bem o português, e da arte do bem falar fez um poderoso instrumento pastoral. Empenhou-se na catequese de crianças e de adultos. Visitava os mineradores do carvão, dava catequese de madrugada, de manhã, à tarde. Seu zelo apostólico era incansável, especialmente pelo receio de perder para os comunistas muitos católicos. A verdade era que os mineradores não eram muito dados à prática sacramental. Nesse contexto, Pe. Agenor escreveu e publicou pelas Edições Paulinas sua obra “Catequista Ideal” em 1955, livro muito apreciado no Brasil e prefaciado por Mons. Ascânio Brandão (1901-1956), figura de proa do clero brasileiro. Quando Dom Joaquim soube dos planos desse livro, escreveu ao Pe. Agenor observando ter notado que sua biblioteca ser muito pequena e que talvez seria melhor estudar um pouco mais… O padre resistiu e, em 30 de agosto de 1955, foi até nomeado Diretor do Ensino religioso na Arquidiocese de Florianópolis.

Monsenhor Agenor Marques durante entrevista.

Monsenhor Agenor Marques durante entrevista.

Padre Agenor em defesa dos pobres e mineradores

Numa época conturbada da história brasileira, numa região povoada de mineradores, o movimento sindical era forte e tendia para a solução comunista, como se preferia dizer. Pe. Agenor atacou sem medo a ameaça comunista e, o contraponto, da direita udenista. Em público chamava os comunistas e udenistas para a briga. Indomável e sem medo. Ele vivenciou a situação difícil dos mineiros, as injustiças que sofriam, as doenças que os levavam prematuramente à morte. Era um getulista convicto: até o fim da vida conservou a admiração por Getúlio Vargas. Na questão partidária era do Partido Social Democrático-PSD e do Partido Trabalhista Brasileiro-PTB, e isso no meio de um clero udenista por natureza. Devido à sua forte liderança e do significado religioso de sua pessoa, a opção política não interferiu no relacionamento com o povo, mas sim, com as autoridades. Pela sua Rádio Difusora atacava os candidatos udenistas, apoiando os pessedistas e petebistas.

Em 1954, por ocasião do suicídio do Presidente Getúlio Vargas, a situação política de Urussanga e adjacências ficou aquecida, pois se acusou a UDN pelo suicídio. Arrebanhado por Pe. Agenor através da Rádio Difusora, o povo – entenda-se especialmente os mineradores da Companhia Siderúrgica Nacional, parecia querer arrebentar com tudo. O Exército foi mobilizado pela Delegacia de Ordem Pública e Social. Em 22 de outubro de 1954, o General de Brigada Octacílio Terra Ururahy transmitiu a Dom Joaquim longa correspondência do Tenente Coronel Trogílio Melo, em que consta: “Desde que foi nomeado vigário desta paróquia e desde sua chegada, deixou de reinar a paz e a harmonia nesta região. Foi incitador e principal responsável da greve dos mineiros do corrente ano. … É o Padre Agenor elemento perigosíssimo à ordem pública, com palavra fácil e fluente, demagogo de grandes recursos oratórios, arrojado e de fértil fantasia”. Depois, segue a notícia de dois processos contra ele, que comprou dois revólveres antes da última campanha política, que arregimentou mineiros para apedrejar um ônibus carregado de udenistas…

Em 3 de novembro, Pe. Agenor escreveu a Dom Joaquim, apresentando sua defesa e concluindo com essas palavras fortes e proféticas:

“Serei sempre revolucionário do bem, enquanto não vir o respeito dos fortes para com os fracos, a condescendência dos poderosos para com os humildes, a complacência dos ricos para com os pobres, a paz dos perseguidos contra a fúria dos perseguidores. Serei sempre revolucionário, enquanto houver na minha paróquia o ódio e a vingança, a perseguição e a calúnia, o orgulho e a prepotência! Certo e convicto estou de que, o dia em que eu, por medo de receber a condenação que recebeu Cristo: “…este homem subleva o povo”, deixar de “comer à mesa com os pecadores”; o dia em que eu procurar o meu conforto pessoal, em lugar de sofrer e lutar com os que “padecem por amor à justiça”; o dia em que eu abandonar na arena os membros sofredores da Igreja; o dia em que eu for me banquetear comodamente com os afortunados, deixando de trilhar este caminho, não só estarei atraiçoando a minha Pátria e o meu sacerdócio, como estarei deixando a meta livre para os comunistas fazerem, pelos meios drásticos e paganizados da matéria, aquilo que nós poderíamos fazer pelos meios suaves e santos do espírito pregado por Cristo: o socialismo cristão!”.

O sindicato dos mineiros colocou-se em firme defesa do Pe. Agenor. No meio tempo chegam, a Dom Joaquim, telegramas de solidariedade da parte de padres Estanislau Cizeski e Boleslau Smieleski, e do Prefeito de Criciúma Addo Caldas Faraco. Estava-se vivendo um clima de levante dos mineradores, e mais uma greve em dezembro do mesmo ano. O comércio tinha medo de ser depredado, a polícia não sabia o que fazer porque, acima de tudo, Pe. Agenor era amado, respeitado e ai de quem nele tocasse a mão. E Dom Joaquim? Também foi solidário com o padre e, em junho de 1955 dá-lhe o honroso título de Monsenhor Camareiro Secreto, mesmo já tendo sido criada a diocese de Tubarão.

A grande preocupação de Monsenhor era a sedução e o engano comunista. Em 1964, por ocasião do Golpe Militar, vê no acontecimento a defesa da pátria e da liberdade. Por limitações impostas pelo novo regime (1964-1984), dedicou-se com mais afinco a iniciativas que dessem dignidade aos pobres.

Pe. Orlando Cecchinel, seu sucessor, e o Mons. Agenor, nos últimos anos.

Pe. Orlando Cecchinel, seu sucessor, e o Mons. Agenor, nos últimos anos.

Um homem assumindo a vida do povo

Preocupado com a infância, fundou o “Paraíso da Criança” que poderia abrigar 150 crianças pobres ou abandonadas, e que funcionou por 55 anos nesse estilo. Hoje, a obra se transformou numa casa de passagem, com menos de 10 crianças, encaminhadas para a adoção ou para o retorno ao lar.

As posições de Monsenhor Agenor sempre foram muito livres. Veja-se o que afirmou sobre o celibato numa entrevista em 2 de outubro de 2003 ao Jornal VANGUARDA: “Naquele tempo (da ordenação) eu não sabia nada disso. Hoje, o Papa poderia ter misericórdia da humanidade e, dado os acontecimentos atuais que nós conhecemos, tão “vindolorosos”, a minha tese e o meu desejo sempre foram, e já expressos há bastante tempo, que se abolisse o celibato. Por mais lindo que ele seja, por mais santo que ele seja, ser opcional que um padre possa ser casado. Que tenha o direito de arranjar uma moça bem bonita e continuar a vida religiosa, porque todo mundo quer casar com moça bonita, e eu também queria”. São declarações da velhice, quando se tem a liberdade de falar.

Praticou gestos muito lembrados pelo inusitado e corajoso: tendo proibido um baile e, sendo desobedecido, entrou no salão com túnica e capa e aspergiu todos com água benta. Foi um reboliço. Outra vez, sabendo de uma estátua de Marx a ser inaugurada na Praça, à noite foi lá e destruiu-a.

Monsenhor era muito família: a casa paroquial era a casa de sua família: ali viveu e morreu, quase centenário, seu pai, seu irmão Jorge Reis Neves Marques, morto em 2011 aos 82 anos.

Adotou oficialmente como filho Luiz Antonio Neves Marques, que assim se expressou por ocasião da morte de Pe. Agenor: “Devo tudo que sou hoje como pai, marido e cidadão a ele”, resume. Casado e com um filho, Luiz foi adotado oficialmente pelo padre em 1965: “Foi o último pedido da minha mãe antes de morrer, e ele atendeu”.

Fundou diversos organismos e entidades de sustentação e amparo, como a Sociedade das Damas de Caridade, as Obras Sociais da Paróquia, entre as quais a Gráfica Paraíso e a Malharia, cujos lucros são aplicados integralmente na manutenção dos desamparados.
Em 1951, fundou a Rádio Difusora de Urussanga ZYT-22, hoje Rádio Marconi. No mesmo ano criou o programa radiofônico “Andorinha Mensageira”, de grande audiência. Era através dessa rádio paroquial que o povo esperava as novidades de Mons. Agenor e suas palavras de ordem.

Foi típico e original o período em que anunciava na rádio que as pessoas interessadas em receber a bênção de sua casa deixassem um lençol branco, com uma cruz de flores, na frente de casa. Depois, Mons. Agenor pegava carona no avião de um amigo e saía benzendo do alto…
Guardava carinhosamente, por décadas, um pedaço de papel embaixo da toalha do altar, contendo o nome de todos os seus amigos padres falecidos, e que acrescentava silenciosa e humildemente nas intenções de cada missa que rezava.

Após 40 anos como pároco, em 1987 quis que a paróquia passasse a mãos mais jovens e continuou a residir junto à casa paroquial, ajudando no que podia.

Escritor e acadêmico

Com certo exagero alguém escreveu que Monsenhor foi apicultor, aviador, acadêmico, padre, pai, pesquisador, poliglota, político, poeta, motoqueiro, radialista, rotariano, soldado, sociólogo, orador, escritor, pediatra, historiador. Pode-se dizer que foi tudo isso e de tudo um pouco, mas, especialmente, sacerdote, e sacerdote escritor.

Foram essas as obras que escreveu: Catequista Ideal – 1955; Metodologia do Catecismo – 1962; Imigração italiana – 1977; Magnólia Branca – 1978; Apicultura em Marcha – 1980; Magos – 1980; Jesus, o Galileu Passionário – s/d; História de Urussanga – 1990; Abelha Maravilha 1993; Clarice em branco, Lispector em preto – 2005 (escrito em 1994).

As duas obras de apicultura são fruto de sua experiência como apicultor, trabalho a que se dedicou intensamente a partir de 1987, quando deixou o paroquiato.

Pertenceu a três sodalícios literários: Academia Internacional dos Poetas – cadeira Clarice Lispector, nº 255; Academia Urussanguense de Letras – membro fundador, Cadeira 15; Academia São José de Letras – cadeira Mons. João Nepomuceno Manfredo Leite, nº 6.

Como poeta, escreveu a letra dos hinos de Urussan

ga, Jaguaruna, Morro da Fumaça, Grão Pará, Cocal, Timbé do Sul.

Em 1988, inaugurou o Museu Histórico Municipal de Urussanga Monsenhor Agenor Neves Marques, onde estão recolhidas imagens de santos, objetos religiosos e muita coisa que explica a vida e o trabalho dos primeiros colonos e imigrantes de Urussanga e Nova Veneza. A base desse Museu foi por ele iniciada em 1950.

Certamente que uma vida tão fecunda e dedicada num dia chegaria ao fim. E Monsenhor Agenor Neves Marques faleceu em 31 de agosto de 2006, aos 91 anos de idade e 66 de sacerdócio. Foi sepultado no Cemitério Municipal de Urussanga, SC, com o acompanhamento triste de milhares de pessoas vindas de todas as partes do Brasil para suas exéquias no dia 1º de setembro de 2006. Era considerado um santo. Por 60 anos sua personalidade marcou a vida de Urussanga e do Sul catarinense. Um sacerdote fiel em meio a seu povo, que aprendeu a amá-lo e respeitá-lo.

Pe. José Artulino Besen

  1. MONSENHOR AGENOR MARQUES – MINISTRO DA PALAVRA | Pe. José Artulino Besen

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