PADRE JOÃO ANTÔNIO FIDALGO

Médico de corpos e almas

Pe. João Antônio Fidalgo

Pe. João Antônio Fidalgo

Nascido em Portugal em 1857, após a ordenação presbiteral Pe. João Antônio Fidalgo foi trabalhar nas missões africanas. Ao retornar, foi nomeado diretor do prestigioso Colégio das Missões de Lisboa, que reformou. Desgostoso com as medidas anti-católicas de 1911 editadas pela República portuguesa de 1910, Pe. João Antônio Fidalgo veio para o Brasil em 1916, sendo acolhido por Dom Joaquim.

Em 10 de fevereiro do mesmo ano foi nomeado vigário das Paróquias de Sant’Ana de Mirim e Vila Nova acumulando, a partir de março de 1917, São Joaquim de Garopaba.

Pe. Fidalgo foi uma figura que impressionava. Chegando a Garopaba logo conquistou a população. Seus habitantes muito desejavam que perma­necesse entre eles. Um abaixo-assinado a Dom Joaquim, apre­sentado pelo Superintendente Dorval Maria de Araújo, pede que ele fixe residência em Garopaba, e não em Mirim: “…as maneiras atrativas do Pe. Fidalgo têm cativado o povo e sabe chamar à religião aqueles que se afastaram por ignorância. Os atos religiosos que aqui têm sido celebrados é com o templo repleto de católicos”.

O carisma em conflito com a instituição

Acontece que isso fez o Pe. Fidalgo se indispor em seu relacionamento com D. Joaquim, visivelmente irritado contra ele. Motivo: era dotado de dons curativos e poderes paranormais, além de pregar e escrever muito bem. As pessoas acorriam de longe para ao menos tocar suas vestes, caso não pudessem receber uma bênção especial. Espalhando-­se a fama, aumentavam os devotos. Mesmo na Capital do Esta­do sua presença, ao ser noticiada, atraía pessoas. Em Visita Pastoral, Dom Joaquim se irritava quando atribuíam as capelas lotadas ao excelente trabalho do padre. Em 24 de janeiro de 1916 Pe. Fidalgo passou por um interrogatório conduzido por dois doutores jesuítas, Lourenço Schneider e Gallus Benz, que o aprovaram em teologia e moral.

Dom Joaquim proibiu-o de distribuir bênçãos (porque impunha as mãos nas cabeças das mulheres e moças), exercitar os dons curativos e escrever nos jornais. Isto doeu demais no coração do sacerdote. Pe. Fidalgo dirigiu-se ao Bispado (3 de agosto de 1917) e ali foi-lhe exigido o seguinte juramento diante do Santíssimo: “Eu, Padre João Antônio Fidalgo, residente ad tempus nesta Diocese, ajoelhado diante de Deus e de Vós Exmo. e Revmo. Snr. Bispo de Florianópolis, prometo que, de ora em diante e em parte alguma da Diocese, nunca mais empregarei meio algum de cura, real ou imaginária, por tacto, hipnotismo ou sugestão sistemática, fazendo alarde de forças naturais, e que tem servido de escândalo para as consciências com grave risco para a disciplina diocesana”. A pena pela desobediência seria a suspensão ipso facto incorrenda de todas as ordens e poderes. Ele aceitou a humilhação mas, numa carta subseqüente (22 páginas de papel ofício), em 20 de agosto, lançou no rosto de Dom Joaquim uma frase que mudou para bem o relacionamento: “Vossa Excia. Revma. é movido pela inveja!”. A Autoridade Eclesiástica sugeriu-lhe então que procurasse outras Dioceses: Curitiba, Porto Alegre, redigindo, inclusive, uma carta de apresentação onde constava “nada haver que desabone a conduta do sacerdote”.

Percebendo a perseverança do padre, em 2 de julho de 1918 Dom Joaquim nomeou-o vigário de São João Batista, onde permaneceu até a morte.

Espírito missionário, Pe. Fidalgo fazia de cada visita às capelas uma Santa Missão, com grande reavivamento espiritual. Era um carismático no sentido verdadeiro da palavra. Veja-se o exemplo da Galera: seu povo era considerado um povo matador, brigão, ladrão, vivendo como bugre, não se casando nem no civil. Os bons pediram socorro. Após três visitas houve a mudança total: “Este povo é hoje o meu predileto. Nunca vi mudança desta ordem. E amam-me”, escreveu no Livro do Tombo em novembro de 1921. O mesmo aconteceu com as outras comunidades. Em abril de 1923 houve a Visita Pastoral de Dom Joaquim, que teceu muitos elogios à vitalidade da Paróquia (que abrangia Canelinha, com as capelas do Moura).

Uma questão importante foi a do Cemitério de São João Batista, até 1920 administrado pela paróquia. Em novembro daquele ano o Intendente Municipal principiou a dar licenças para sepulturas e cobrar por elas, pretendendo ainda retroagir à Proclamação da República. Pe. João lhe escreveu em 7 de novembro de 1921 lembrando que a República ao menos respeitou as propriedades da Igreja e lembrou todos os melhoramentos que a paróquia ali realizara. Fechou a porta do cemitério e disse que ali só se entraria arrombando. O Intendente cedeu, mas no ano seguinte esqueceu o combinado. Pe. João reuniu o Conselho de Fábrica e fechou o cemitério, depois chegando a um acordo. Em março de 1925 tomou-se outra decisão: o Cemitério foi confiado ao Sr. Joaquim Luiz da Silva, que poderia cobrar o que quisesse pelos serviços, mas mantendo o caráter cristão do Campo santo. Ao mesmo tempo foi criada uma Associação, na qual os inscritos pagariam mil réis por ano. Ao morrer, o finado teria direito a três toques de sinos e sepultura de graça. O padre ameaçou ainda: se alguém se revoltasse, ou usasse violência, o cemitério seria desconsagrado e o padre abençoaria túmulo por túmulo, cuidando para que nenhuma gota de água benta caísse nos túmulos não consagrados.

Um padre reconciliado com seu tempo

Pe. João Batista Fidalgo redigiu seu Testamento em 20 de julho de 1923, após ter-se recuperado de grave paralisia quase total. Nele transparece perdão, reconciliação, fé: “Havendo sido fulminado por um ataque, nada vulgar, e havendo o médico declarado que eu estava sujeito a uma re­petição, é de prudência dispor as cousas que tenho, de modo que tudo esteja bem disposto, se isso suceder. Portanto, a mi­nha pequena livraria, ofereço-a a V. Revma. Não pode ficar em melhores mãos. Tenho, na Casa André Wendhausen & Cia., um depósito de 2:499$700 réis – declaro que V. Excia. Revma., por minha morte, fica senhor deste depósito, assim como dos juros, se os houver. Peço-lhe que reze, todos os anos, uma Missa por minha alma. E, quando eu morrer, peço a V. Excia. Revma. que mande celebrar 20 Missas por mim, destas Missas que um sa­cerdote celebra, quando não tem Missa especial. Estas Missas são de pequena espórtula. O capital, a piedade de V. Excia. Revma. gastá-lo-á em obras piedosas e religiosas. Parece-me que não posso deparar melhor executor destas pias disposições. Peço que me desculpe e perdoe. Agora fico tranqüilo. Ore por mim, Senhor Bispo, para que Deus me leve na melhor hora. Beijo-lhe o seu venerando anel, e peço-lhe de joelhos e sua bênção.

O seu Vigário, Pe. João Antônio Fidalgo”.

Em 1925 foi internado no Hospital de Caridade de Florianópolis, onde faleceu em 19 de outubro. O inventário de seus bens foi feito em 22 de outubro, presidido pelo Pe. Bernardo Füchter. Chama atenção a qualidade de sua biblioteca: boa literatura em francês, latim, espanhol e português. Entre outros salientam-se: de Charles Darwin os 2 volumes de L’Espèce Humaine, obras de Herculano, Lacordaire, Bossuet, Bordaloue, Balmes (Filosofia), Tratamento pela Água (Kemiff), obras de Teologia moral, História e bons dicionários. Ler e conservar livros de Darwin, convenhamos, não era admissível para um padre do período. Era um homem santo e sábio ao mesmo tempo. Essa abertura intelectual, o espírito missionário, a presença cativante e carismática, o pastoreio firme fizeram do Pe. Fidalgo um presbítero santo e reconciliado com seu tempo.

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