DOM AFONSO NIEHUES – PAI DA IGREJA EM SANTA CATARINA

O Papa João XXIII em diálogo com Dom Afonso Niehues em outubro de 1962, primeira Sessão do Concílio do Vaticano II.

Terra conhecida como “fábrica de padres” , são Ludgero foi o berço natal de Dom Afonso Nie­hues, filho de Germano Niehues e Teresa Rohden Niehues, nascido a 23 de agosto de 1914. Terra de agricultores, homens de fé e de trabalho, vi­veu seus primeiros anos no duro trabalho da ro­ça, freqüentando o Primário ali mesmo.

Em fevereiro de 1927, Dom Joaquim dava início ao Seminário Arquidiocesano em Florianópolis, no mês seguinte transferido para Azambuja. O me­nino Afonso Niehues foi da primeira turma, que incluía Dom Wilson Laus Schmidt e Mons.Frederico Hobold. Vindo do interior, como seus colegas ad­mirava-se também ele das maravilhas da cidade, vista pela primeira vez: a luz elétrica, o tele­fone, o movimento urbano.

De temperamento introvertido, as origens da família vão manifestar-se no Seminário: estudio­so, piedoso e trabalhador, a tudo somando grande senso de responsabilidade, nas palavras do Rei­tor, o futuro Cardeal Dom Jaime de Barros Câmara.

Logo foi escolhido como bedel (líder,diría­mos hoje} da turma. Terminado o Seminário Menor, em Azambuja mesmo cursa a Filosofia, seguindo depois para São Leopoldo, no Rio Grande. De lá foi chamado por Dom Joaquim para ir Cursar a Teologia em Roma. Sem poder ir despedir-se dos pais e amigos, parte para a Cidade Eterna, onde obteve a Licenciatura em Teologia e o Bacharelado em Direito Canônico. Em Roma foi ordenado presbítero em 16 de abril de 1938.

A serviço da formação presbiteral

Retornando, não pôde ainda ir cumprimentar sua mãe (seu pai já falecera) e irmãos, agora residentes em Salete. Dom Joaquim o envia à paróquia de Laguna, para auxiliar nas cerimônias natalinas.­

Somente depois foi celebrar sua primeira Missa junto aos familiares.

Em 1940 foi nomeado Professor e Prefeito de Disciplina em Azambuja, no ano seguinte ocupando o cargo de Vice-Reitor. Em 1943 é escolhido para primeiro Reitor do Pré-Seminário de São Ludgero. Mais urna vez às pressas: a casa não estava concluída, faltavam os móveis, fogões, forno, tudo o que é material necessário. E os alunos já chegavam. A tudo resolveu na amizade com o povo e no tino administrativo!

Quatro anos depois, em 1947, tornou-se o 3º  Reitor de Azambuja, onde não lhe faltou  trabalho. Foi de seu tempo a adaptação da vida seminarística aos novos tempos preconi­zados por Pio XII, de urna formação mais aberta para a realidade. Grande atenção dada aos estudos, que fazem o Seminário de Azambuja tornar-se um modelo de estabelecimento educacional, o melhor, sem dúvida, entre seus congêneres à  época. O período foi reconhecido como o da “época áurea” da formação intelectual do Seminário Arquidiocesano.

No cargo recebeu as distinções de Cônego catedrático (1948) e Monsenhor Camareiro Secreto (1953).

Bispo coadjutor de Lages

No dia 10 de janeiro de 1959 foi eleito Bispo Titular de Éurea no Epiro e Coadjutor com Direito à Sucessão do Bispo de Lages. Solene sagração episcopal no Santuário de Azambuja em 5 de abril de 1959, rodeado por seus seminaristas e inumeráveis amigos que conquistara pelo seu trabalho junto à comunidade brusquense. Deixou o Seminário em vias de ser ocupado nas suas novas instalações, começadas sob seu impulso. Importante lembrar o trabalho pastoral e administrativo realizado junto ao Santuário: dele nasceu a idéia da construção do Morro do Rosário, Bar, Almoxarifado, Edifício do Peregrino. Como Cura, concluiu as obras do novo Santuário.

No meio das saudades, deixou Azambuja, toman­do posse no novo cargo a 7 de maio. Em Lages não mediu esforços para atender ao imenso rebanho espalhado pelo Planalto. As Visitas Pastorais ficam a seu cargo: visita mais de 700 comunidades, muitas vezes dirigindo seu próprio Jeep, sob intenso frio, passando pelas muitas privações brotadas da vida de um povo sofrido.

Sua grande preocupação foi a reorganização do Seminário Diocesano, instituição vital para o futuro de toda Diocese. Durante o Concilio, junto aos Bispos alemães conseguiu dinheiro para a construção do grande Centro de Formação diocesano.

Dom Afonso Niehues – arcebispo de Florianópolis (1964-1991)

Arcebispo metropolitano de Florianópolis

Lá foi colhido a 14 de agosto de 1965 pela sua nomeação para Arcebispo Coadjutor com Direito a Sucessão do Arcebispado de Florianópolis e Administrador Apostólico “sede plena”. Ofício não fácil: a Arquidiocese estava parada, pois Dom Joaquim não acompanhara os novos tempos do Concílio. Era preciso atualizar a vida arquidiocesana, revitalizar a pastoral. Delicada a tarefa de administrar Florianópolis ao lado de seu titular, o venerando Dom Joaquim, de quem recebera a sagração episcopal e de quem sempre obtivera o maior crédito de confiança, sempre alçado a funções da maior responsabilidade. Mas, não lhe faltaria tino para este trabalho, inovar construindo e construindo respeitando.

Estava preparado: participara de todas as sessões do Concílio Ecumênico.

Tomou posse a 30 de dezembro de 1965, no Ginásio Charles Edgar Moritz, após vibrante acolhida em Biguaçu. Seu discurso revela o que lhe vai na alma para o bem do Rebanho. As decisões do Concílio devem ser postas em prática: “em vão procuraremos outra bússola de precisão que aponte aos nautas peregrinos de Deus nos mares da vida, o porto de seu imortal destino”. Aceita como suas as teses de Paulo VI na Encíclica “Ecclesiam Suam” sintetizadas na trilogia: Consciência – Renovação – Diálogo. “Corajosa tomada de consciência de si mesma, re­novação de mentalidade e da legislação canôni­ca, estabelecimento de maior contato com o mundo pluralista de hoje em todas as esferas da atividade e cultura humanas”

Dom Afonso tem consciência de que a Igre­ja, perfeita no seu conceito ideal, deve ir se aperfeiçoando sempre mais na sua existência terrestre.

O esforço de renovação será mais no sentido de produzir novas energias do que em elabo­rar novas teorias. Onde procurar estas energi­as? Aqui o ponto central de seu discurso de posse e que segue fielmente em seu pastoreio: “Não se acumulam, porventura, nas angústias latentes do clero? Ou entre os muros dos Conventos? Nos lares das famílias? Na inquietação dos estudantes? No sofrimento do operário? Na esperança dos infortunados? Na insatisfação dos abastados? Na decepção dos governantes? Na interrogação dos céticos? Na desorientação da multidão anônima que marcha sem destino? Nas interrogações lapidares, que brotam da Gaudium et Spes“? Grande ânsia sua a do diálogo: “Os homens começaram a caminhar para Deus depois que Deus começou a caminhar entre os homens”. Tema central de uma antropologia cristã após a Encarnação do Verbo. Se o Cristianismo não caminhar com o mundo, o mundo caminhará sem ele, e contra ele. Tem o novo Arcebispo Coadjutor a clara consciência de que a Doutrina da Igreja conti­nua essencialmente a mesma dentro de uma renovação clara e responsável. A linguagem deve mudar, acompanhando os novos tempos.

Foi e é este o seu ideário, assumido com mais força em maio de 1967, pelo falecimento de Dom Joaquim. Era agora Arcebispo metropolitano.

Atualização pastoral

Primeiro passo foi o da atualização pasto­ral. Criou-se o Secretariado Arquidiocesano de Pastoral, ao qual se acrescentaram a Equipe Central de Pastoral e o Conselho Arquidiocesano de Pastoral. O Concílio não tinha sido dogmático, nem tinha a pretensão de dar respostas prontas, mas tinha em mente a renovação eclesial e pastoral. Caberia ao Bispo, assessorado por presbíteros, religiosos e leigos, orientar e impulsionar a vida pastoral.

Surgem, em seguida, as diversas Comissões ou Grupos de Trabalho: Catequese, Liturgia, Música Sacra, Vocações e Seminários, Estatística e Pesquisa histórica – CERIS – Publicidade e ou­tras. Pela primeira vez se procedeu a um levan­tamento sócio-econômico de toda a Arquidiocese e se estruturaram dois Planos de trabalho: o 1º e o 2º Plano de Pastoral de Conjunto. Monta-se urna pequena livraria para atender ao clero, religio­sos e lideres pastorais. A Revista PASTORAL DE CONJUNTO, nascida anos antes na Paróquia do Es­treito, é melhorada e modernizada.

Promovem-se cursos de atualização para o Clero, Religiosos e Leigos, surgindo, junto à Universidade Federal de Santa Catarina, um Curso de Teologia de um ano.

A modesta Ação Social é reestruturada e am­pliada, dela nascendo a conhecida sigla ASA (A­ção Social Arquidiocesana) que se ramifica pelas obras filiadas nas Paróquias.

Do ponto de vista econômico, nota-se a modernização da estrutura administrativa da Arqui­diocese, que até meados da década de 80 subsistiu sem o concurso das Paróquias, que assim podiam aplicar seus recursos nas próprias obras. O Clero foi amparado do ponto de vista material, primeiro pelo Instituto de Previdência do Clero (IPREC) e depois pela filiação ao INPS, além de ter seus vencimentos majorados. Quase todas as Paróquias introduziram o Dízimo.

O Seminário Menor recebeu em cheio os novos ares conciliares, especialmente a partir de 1969, aceitando plenamente a renovação dos métodos de formação, mesmo correndo o risco inicial dos inevitáveis solavancos antes de se acertar a rota. Muitas ordenações sacerdotais, garantindo a renovação permanente do colégio presbiteral.

Introduziu na Arquidiocese o Diaconato Permanente, ordenando Edu Mário Tavares, o primeiro diácono permanente do Brasil e criando a Escola Diaconal São Francisco de Assis.

Com referência ao Governo Arquidiocesano, foram criadas duas assessorias: o Conselho presbiteral e o Conselho Econômico. O Cabido Metropolitano teve suas funções restringidas, alargando as consultas ao Presbitério.

Diversas inovações no setor administra­tivo: organização do Arquivo Histórico e Eclesiástico de Santa Catarina, da Bibliote­ca do Arcebispado, a restauração de livros antigos ameaçados pelas traças. Com esta medida, Dom Afonso garantiu a preservação de um rico acervo documental, destino obrigatório e compensador de quem quiser escrever sobre a História da Igreja.

Em seu tempo a Província Eclesiástica de Santa  Catarina foi acrescida das Dioceses de  Rio do Sul, Caçador e Joaçaba.

Como Metropolita, Dom Afonso empenhou-se na criação do Regional Sul-IV da CNBB, cuja instalação aconteceu a 2 de janeiro de 1970, emprestando-lhe a Arquidiocese uma sede.

Grande contribuição para os estudos eclesi­ásticos: conseguiu-se realizar o velho anseio de uma formação filosófica e teológica no próprio Estado, sem precisar recorrer ao Rio Grande ou ao Paraná. A partir de 1970 os seminaristas de Azambuja que concluíam o 2º Grau passaram a estudar Filosofia junto ao Convento dos Padres Dehonianos em Brusque. Em 1973 nasceu o Instituto Teológico de Santa Catarina (ITESC) que funcionou inicial­mente em prédio construído pela Arquidiocese. Os estudos filosóficos dos seminaristas catarinenses (exceção aos de Tubarão) passaram a ser feitos em Brusque, na Fundação Educacional de Brusque (FEBE). Em 1978 as primeiras turmas se hospedaram no Seminário de Azambuja. Em 1982 teve início Seminário Filosófico Catarinense (SEFISC), com sede em Brusque. Para a manutenção tanto do ITESC como do SEFISC foi criada a Fundação Dom Jaime de Barros Câmara.

Enviou sete padres e três seminaristas para estudarem na Europa.

Foi Secretário Nacional na CNBB para os Seminários. Em 1979 foi eleito pelos bispos do Brasil como um dos representantes do Episcopado na Conferência de Puebla, no México.

Promoveu a criação de 22 Paróquias e de um Curato, visando à ampliação da estrutura paroquial. Todas estas Paróquias estão situadas no entorno de Itajaí e Florianópolis, que viram suas populações muito aumentadas.

Os tempos mudam muito rapidamente, fazendo com que a Igreja particular se adapte às novas  circunstâncias e desafios pastorais. O tema de seu discurso de posse – o diálogo com os tempos – continuou a frutificar. Crescem as exigências do trabalho social, da opção incondicionada pelos pobres, pela justiça, pelas Comunidades E­clesiais de Base. A tudo isto Dom Afonso esteve a­tento, quer pela observação da realidade, quer pelo estudo e atualização diuturnos.

Todos percebiam nele a mente aberta para o diálogo, o respeito às opiniões e iniciativas alheias. Conduzido pelo espírito democrático, respeita a autonomia pastoral, as novas frentes de trabalho, desde que as­sumidas com bom senso.

Notável seu senso de prudência, que faz preferir caminhar devagar, mas com seguran­ça, do que rápido, com idas e retornos bruscos. Aquilo que às vezes podia dar a impres­são de lentidão, era fruto do bom senso de quem primeiro observa, para depois dar os passos condizentes.

Em 1985 recebeu como bispo auxiliar Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger, SCJ que permaneceu na Arquidiocese até 8 de maio de 1991, quando foi nomeado Bispo diocesano de Ponta Grossa, PR.

Em  23 de janeiro de 1991 a Santa Sé aceitou o pedido de renúncia feito por Dom Afonso.

Deixou Florianópolis em março do mesmo ano, passando a residir no Seminário de Azambuja, local onde sempre residiu seu afeto e zelo de pastor.

Deus o chamou durante o retiro do Clero, na noite de 30 de setembro de 1993. Pranteado pelo povo e pelo Clero, foi sepultado na Catedral de Florianópolis. Seu lema tinha sido “Ite in Vineam”, ide para a vinha.

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