PADRE BERTOLINO SCHLICKMANN

Pe. Bertolino Schlickmann

Pe. Bertolino Schlickmann

Bertolino nasceu em São Ludgero, município catarinense rico em vocações sacerdotais e religiosas, em 10 de julho de 1928, filho de Augusto Schlickmann e de Amália Buss (sobrenomes de muitas vocações sacerdotais).

As vocações naquela paróquia foram alimentadas em duas instituições: o Colégio Sant’Ana, dirigido pelas Irmãs da Divina Providência, que estimulavam o surgimento e encaminhamento de meninos vocacionados ao sacerdócio; e Monsenhor Frederico Tombrock, exemplo de padre e que foi pároco por 56 anos, marcando e orientando a vida religiosa e social dos paroquianos, na maioria descendentes da imigração alemã. Para ele, o bom seminarista passava as férias na casa paroquial, rezando, trabalhando, ouvindo conselhos, bem alimentado e, principalmente, contemplando essa grande figura sacerdotal que ofereceu à Igreja dezenas de padres. Por questão de justiça, deve ser lembrado que, no final da existência, residiam em São Ludgero mais dois Monsenhores do mesmo cerne: Francisco Xavier Giesberts e Huberto Ohters. Os colonos gostavam de contemplar essas veneráveis figuras, no fim da tarde, conversando no jardim da casa paroquial.

Como todos os outros, Bertolino estudou no Seminário de Azambuja, em Brusque e filosofia e teologia em São Leopoldo, RS. Foi ordenado padre por Dom Joaquim Domingues de Oliveira em 28 de novembro de 1954, em São Ludgero. A Liturgia de ordenação foi especial pois inclui três jovens de São Ludgero: Bertolino Schlickmann, o primo Vito Schlickmann e Vendelino Waterkemper. Monsenhor Tombrock esteve presente, e viveu mais três anos.

Pe. Bertolino exerceu os primeiros três anos de ministério como professor e prefeito de disciplina no Seminário de Azambuja, de 16 de dezembro de 1954 a 1956. Em 11 de fevereiro de 1957, foi nomeado vigário paroquial do Santíssimo Sacramento de Itajaí, e promovido a pároco dessa prestigiosa paróquia de 30 de março de 1960 a 1964, marcando seu ministério com as visitas às famílias e o cuidado com a catequese. Ele sucedeu a Monsenhor Vendelino Hobold, que colhia os louros por ter completado e inaugurado a igreja matriz, colocada entre as mais belas de Santa Catarina. Além disso, Monsenhor detinha forte influência social e política na cidade. Padre Bertolino não se preocupou com isso, não pretendeu competir, buscava apenas ser um padre santo e dedicado, e recebeu a veneração e o afeto do povo.

A família, lugar central da missão sacerdotal

Sua história sacerdotal, porém, recebeu marca própria em 20 de janeiro de 1965, quando foi transferido para São Vicente de Paulo de Luiz Alves, onde foi zeloso pastor durante 27 anos. Foi substituir o duro, intransigente, sério e íntegro Pe. Afonso Reitz, removido pelo Arcebispo contra a vontade pessoal. Competente e de bom gosto, tinha dotado a cidade de bela igreja matriz em puro estilo românico. Pe. Bertolino viveu ali a primavera do Concílio Vaticano II, recebido com empenho e alegria. Fundou comunidades, dedicou-se com gosto à formação de leigos, de catequistas, organizou a pastoral de conjunto. Homem sério, sereno, alta estatura, consumidor de dezenas de cigarros diários, onde escondia um coração paterno, afável, compreensivo, sacerdotal. Impressionou sempre o amor e respeito pelos leigos.

Era bem diferente do antecessor Pe. Afonso Reitz, um esteta, construtor de jardins e bromeliários. Pe. Bertolino, para mágoas de Pe. Afonso Reitz, conservava a raiz de colono: em vez de jardim, grama para criar vaquinha de leite; em vez de bromeliário, um belo galinheiro com galinhas poedeiras, fora outros bichos e quejandos que inventou para guardar a raiz familiar. A casa paroquial ficou uma extensão da roça de seus pais, que viveram com ele os últimos anos.

Pe. Bertolino era entusiasta vocacional: nas férias também queria seminaristas com ele, para ajudá-lo na formação de leigos. Nunca economizou para auxiliar o seminário e o seminarista.

Assumiu o campo missionário no Projeto Igrejas-irmãs do Regional Sul-IV da CNBB: entre 1975 e 1979, por três vezes organizou expedições missionárias que, durante um mês, trabalhavam no sertão baiano, preparados e custeados pela paróquia. Viu no Movimento dos Cursilhos de Cristandade um grande meio de formar leigos adultos. Dava a vida pelos Cursilhos e era defensor de cursilhista. Se alguém dissesse que tal político era corrupto, retrucava na hora: “Não é verdade! Ele é cursilhista!”. Esperamos que não tenha se enganado muitas vezes…

Pe. Bertolino acreditava na família e na oração em família: família que reza vence tudo e permanece unida, era seu refrão semanal. A bem da verdade, eram famílias bem constituídas e, na maioria, agricultores católicos e com razoável padrão de vida.  O êxodo rural também atingiu-as fortemente devido ao desejo dos filhos de deixarem a agricultura. De sua oração pela família recordo uma peregrinação que, em 1997, fiz com ele à Terra Santa. Ele presidiu a Missa na Igreja de Marta, Maria e Lázaro, em Betânia. Num ambiente tão bíblico, evocativo da amizade com o Senhor, o tema da homilia, imensa, foi  a oração em família.

Em 1992, obediente e com dor, aceitou ser diretor espiritual no Seminário de Azambuja e Reitor do Santuário Nossa Senhora de Azambuja. Procurou organizar a pastoral dos peregrinos, vivendo seus dias como conselheiro e confessor. Os seminaristas receberam dele a imagem de um padre sério, bom, piedoso, realizado. Já se manifestavam os sintomas de um câncer, mas que não levava a sério.

Pe. Bertolino Schlickmann em 1999

Pe. Bertolino Schlickmann em 1999

Por dois anos e meio, de 1999 a julho de 2002, foi pároco de Santa Catarina, em Dom Joaquim, Brusque. Retornou ao entusiasmo da juventude, desprezando os problemas cardíacos, de pressão arterial e de próstata, que se vingaram minando-o silenciosamente, mas não o convenceram de largar o cigarro. Pe. Bertolino fez a alegria da criançada, orientava uma centena de coroinhas. Sábados à tarde, seu dia de festa, aguardava um por um, tratando pelo nome, feliz e fazendo felizes os meninos e meninas.

Foram essas crianças os que mais choraram no dia 15 de julho de 2002, quando o Senhor fê-lo ingressar na eternidade. Os adultos choravam pelas crianças que choravam a perda de um pai. Graças a Deus. Foi padre 48 anos.

E eu me perguntaria: qual a imagem que guardo desse homem sério, bonachão, com quem nunca convivi no dia a dia? Guardo uma imagem muita clara e revestida de espiritualidade que me era dado contemplar uma vez ao ano, no retiro espiritual do Clero: nos três dias de retiro, antes do sinal de despertar, a partir das 6 horas Pe. Bertolino Schlickmann já estava de joelhos diante do Santíssimo. Adorador, ali permanecia imóvel por uma hora. Era a imagem do sacerdote diante do Sumo e Eterno Sacerdote.

Pe. José Artulino Besen