1. A finalidade da oração

Em verdade, se quiseres cobrir os pensamentos de vergonha, viver tranqüilamente na paz e com facilidade possuir um coração sóbrio, a oração de Jesus esteja unida à tua respiração e em poucos dias verás tudo isso realizado.

Hesíquio Presbítero,
A Teódulo 182

Um irmão de nome João, proveniente da região à beira-mar, dirigiu-se ao santo e grande pai Filêmon; abraçou-lhe os pés e lhe disse: “O que devo fazer, pai, para ser salvo? Vejo que as profundidades de meu coração se agitam e vagam ora aqui, ora acolá, para o que é proibido”. Ele hesitou um pouco, depois lhe falou: “Essa paixão é própria daqueles do mundo (cf. 1Cor 5,12; Col 4,5; 1Tes 4,12) e permanece porque ainda não tens um perfeito desejo de Deus. Ainda não te chegou o calor do desejo e do conhecimento de Deus”. O irmão disse: “O que devo fazer, pai?”. Respondeu: “Vai, e por um pouco de tempo faz em teu coração uma meditação secreta, que possa purificar o teu profundo de tudo isso”. O irmão, que não era iniciado no que lhe era dito, falou ao ancião: “O que é a meditação secreta, pai?”. Ele lhe disse: “Vai, sê sóbrio no teu coração, e sobriamente diz na tua mente, com temor e tremor: ‘Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim’; assim recomenda o beato Diádoco aos principiantes”.

O irmão foi embora e com o auxílio de Deus e as orações do pai; tendo-se colocado em paz, encheu-se de doçura por um pouco de tempo com tal meditação. Mas, como ela improvisamente retirou-se dele e não podia cultivá-la com sobriedade e orar, retornou ao ancião e narrou-lhe o acontecido. Ele lhe disse: “Eis: conheceste a indicação da paz interior e do esforço, e experimentaste a doçura que disso vem Portanto, guarda-a sempre em teu coração. Quer comas, quer bebas (1Cor 10,31), quer vás visitar outros, seja fora da cela, seja pela estrada, não deixa de dizer essa oração, de dizer os salmos, de meditar orações e salmos com uma mente sóbria e coração estável. Mas, também em estado de absoluta necessidade, não fique inerte teu coração no meditar secretamente e no orar. Assim, poderás conhecer as profundidades da divina Escritura e a força escondida nela, e poderás fazer o coração trabalhar incessantemente para cumprir o mandato apostólico que ordena: Orai sem cessar (1Tes 5,17). Fica muito atento, portanto, e guarda teu coração para que não acolha pensamentos malvados ou, de qualquer modo, vãos e inúteis, mas sempre, quer durmas quer te levantes, quando comes, bebes ou encontres outros, o teu coração ora medita os salmos, ora reza em segredo, no pensamento: ‘Senhor Jesus Cristo, filho de Deus, tem piedade de mim’. E ainda, quando rezas os salmos, presta atenção para não dizer certas coisas com a boca e viajar com o pensamento em outras”.

Abbá Filêmon,
Discurso utilíssimo, vol. II

É denominada oração do coração, pura e livre de distrações, aquela pela qual nasce certo calor no coração. Está escrito: O meu coração ardia dentro de mim e na minha meditação acendia-se um fogo (Sl 38,4); trata-se daquele fogo que o Nosso Senhor Jesus Cristo veio acender na terra dos nossos corações, que, num tempo, por causa das paixões, continha espinhos, mas agora, por causa da graça, contém o Espírito, como disse o Senhor Nosso Jesus Cristo: Vim trazer fogo à terra e como queria que já estivesse aceso (Lc 12,49). É o fogo que uma vez se acendeu em Cléopa e em seu companheiro, que os aqueceu e fez um dizer ao outro, como se estivessem fora de si: Não ardia o nosso coração dentro de nós durante o caminho? (Lc 24,32). Também o grande João Damasceno, num tropário, um de seus cantos à puríssima Mãe de Deus disse: “O fogo que tenho no coração me arrasta e me  leva a celebrar o amor virginal”. E Santo Isaac escreve (Isaac de Nínive, Primeira coleção 15): “O calor sem medida que, com seu fogo consome dentro o coração através dos pensamentos ardentes que inesperadamente sobem à superfície de nosso profundo, nasce da violência que fazemos a nós mesmos. Essa atividade e a vigilância afinam o profundo do coração com seu calor e lhe trazem a visão”, e mais adiante: “Das lágrimas contínuas a alma recebe a paz dos pensamentos. Da paz dos pensamentos se eleva à pureza do profundo do coração e, através da pureza do profundo, o homem alcança ver os mistérios de Deus”. E pouco depois: “Após isso, o profundo do coração chega a ver revelações e prodígios, como viu o profeta Ezequiel”. E ainda (id. Terceira coleção 16): “As lágrimas, o bater a cabeça durante a oração, o fervor das prostrações acordam no coração o calor da sua doçura. E num êxtase louvável o coração voa a Deus e grita: ‘A minh’alma tem sede de Deus, o forte, o vivente; quando virei e verei tua face, Senhor?’ (cf. Sl 41,3) e o que segue”. E Clímaco: “O fogo que vem morar no coração desperta a oração; e uma vez que essa foi despertada e elevado ao céu, acontece a descida do fogo na câmara de cima (cf. At 2,3 e 1,13) da alma” (João Clímaco, Escada 28). E ainda: “Qual é o monge fiel e prudente (cf. Mt 24,45) que guardou o próprio calor sem consentir que se apagasse e que, até o final da vida, a cada dia acrescenta fogo ao fogo, calor ao calor, desejo a desejo, esforço ao esforço?” (id. Escada 1).

E Santo Elias Écdico: “Quando a alma abandonou as coisas exteriores e se uniu à oração, então a oração a envolve como uma chama como o fogo envolve o ferro, e a torna toda em chamas. A alma permanece a mesma, mas não se pode tocá-la do mesmo modo que o ferro em brasa não pode ser tocado”. E ainda: “Feliz aquele que nesta vida foi digno de ver-se assim, contemplando a sua figura, por natureza feita de argila, tornada fogo por graça de Deus”.

Calixto e Inácio Xantopoulos,
Método 54

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