Arquivo para categoria Jesus Cristo

SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

Jesus revela seu Coração a Santa Margarida

O Filho de Deus veio ao mundo para revelar o amor de Deus Pai por todas as criaturas, sem perder nenhuma. Veio trazer-nos a mensagem da paternidade divina em sua infinita bondade e compaixão. É essa a mensagem central da Sagrada Escritura: Deus é amor.

Houve períodos da história cristã em que o acento da fé e da vida recaíram no medo de Deus, na justiça divina mais como vingança por nossos erros do que como justiça que nos faz justos gratuitamente.

Nessas horas o Senhor desperta homens e mulheres e lhes dá a graça de sentirem sua misericórdia, anunciando-a pela vida e pela palavra. No século 20 conhecemos a mensagem extraordinária da Divina Misericórdia através de Santa Faustina, que trouxe para a Igreja uma poderosa corrente de confiança no Senhor que nos salva. Também conhecemos a vida de São Padre Pio, que fez do confessionário sua tribuna. Leia o resto deste post »

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CRISTO GLORIOSO NO POBRE SEM TETO

Jesus, o pobre sem-teto - Escultura de Timothy Schmalz

Jesus, o pobre sem-teto – Escultura de Timothy Schmalz

Timothy Schmalz, escultor católico canadense contemporâneo busca, com sua arte, continuar a grande tradição cristã de expressar o mistério da fé cristã através da beleza da arte. Descreve suas esculturas como traduções visuais dos Evangelhos e fica muito feliz quando as vê expostas em ruas e praças. Pela sua resistência e duração, aprecia o bronze como matéria de transfiguração a perpetuar a beleza e a experiência do Belo.

Não é necessário ser conhecedor dos Evangelhos ou dos dogmas cristãos para mergulhar no mistério cristão, como não é necessário ser musicista para sentir o mistério oculto numa Sonata de Beethoven ou numa Antífona gregoriana. Ao contemplar a obra artística se é levado à contemplação do mistério e da verdade porque, pela encarnação do Filho, a matéria tornou-se apta para ser transfigurada no divino: da mesma forma que o Senhor glorioso é o Jesus despojado de glória, também o Jesus pobre de Nazaré é o Senhor da glória.

Ao abençoar obras de arte, a Igreja nos ensina que a matéria transfigurada em beleza tornou-se fonte de bênção, é bênção. Pena que “benzemos” imagens, rosários, velas sem a consciência do mistério que a matéria passa a comunicar.

Inspirada em Mateus 25, 31-46 (Eu tive fome e me destes de comer, …), a imagem de Tim Schmalz na abertura desta reflexão é uma representação a sugerir que Cristo está com os mais marginalizados em nossa sociedade. A figura de Cristo está envolta em um cobertor e a única indicação de que é Jesus são as chagas visíveis nos pés.

Colocada diante de uma igreja canadense, a escultura foi feita em tamanho real e, deitada num banco de jardim, deixa espaço suficiente para que alguém possa nele sentar-se. As atitudes dos que transitam pelo caminho revelam o que se passa no coração de cada um: há quem prefira olhar de longe, fingindo que não viu; quem olha com cuidado, mas logo segue adiante, preferindo demonstrar que não entende o sentido da imagem; quem julga estar diante de uma blasfêmia dessacralizadora, pois lugar de Cristo é na igreja e não na rua. Enfim, existem aqueles que tomam assento aos pés da imagem, com carinho massageiam os pés feridos, primeiro pela compaixão diante do pobre e depois, ao perceberem que o pobre é o Senhor.

Alguns insistiram com o padre para que retirasse essa escultura e a colocasse dentro da igreja, aparentando a sugestão um sinal de respeito, mas, na verdade, era apenas constrangimento: a imagem do Cristo sem-teto se fixa na mente e não se consegue mais deixar de contemplá-la em todos os sem-teto, agora de carne e osso. Isso é muito desagradável e agride a paz espiritual, dizem. Dar esmola dentro da igreja é fácil, emocionalmente é mais difícil contemplar em carne e osso quem a recebe.

Muito significativa foi a reação de alguns moradores ao verem o inusitado Sem-teto: chamaram a polícia para retirá-lo, mas porque pensavam que era um pobre de verdade… Esse Cristo pobre, sem elegância desafia as igrejas a buscarem sua elegância no acolhimento aos pobres, sinal autentificador da fé cristã.

Os gestos de amor, gestos de beleza

A sabedoria e a espiritualidade dos pobres imediatamente levaria a contemplar no sem-teto o Bom Jesus. Nosso povo não divaga sobre distinções entre o Cristo da fé e o Jesus da história, o Jesus de Nazaré e o Cristo do Concílio de Calcedônia. Acha essas complicações até divertidas, pois tem clareza que são dois nomes para o Bom Jesus e que são muitos os nomes de Jesus dados a partir dos locais onde foi contemplado: Iguape, Lapa, Matozinhos, ou situações que viveu: dos Passos, da Coluna, do Bom fim.

No 6 de agosto, a Liturgia celebra a Transfiguração de Nosso Senhor e o povo, junto com ela e até contraditoriamente, celebra o Bom Jesus. Se pode estabelecer um belo diálogo: a Liturgia nos revela que o Senhor encarnado é o Cristo transfigurado, e o povo ensina que o Cristo transfigurado é o Senhor encarnado, o Bom Jesus. Um está coroado de espinhos, o outro coroado de glória, em duas faces do mesmo amor por nós. O povo pobre e humilde revela todo seu carinho ao contemplar o Bom Jesus, pois sabe por experiência o que é sofrer o abandono, o desprezo.

Voltemos ao Cristo sem-teto deitado no banco da praça e façamos a pergunta verdadeira: quem estou olhando ao contemplar esse homem? Sou capaz de contemplar o Cristo sem-teto em cada morador de rua? Então poderei declarar no tribunal de minha consciência: tudo o que faço a um desses mais pequeninos, que são meus irmãos, é ao Senhor que estou fazendo (cf. Mt 25, 45). “Quem ajuda os doentes e necessitados toca a carne de Cristo, vivo e presente no meio de nós” (Twitt de Francisco em 23/07/2015).

Contemplando essa imagem, assim escreveu o compositor e biblista Pe. Ney Brasil Pereira: “Que dizer mais? Como o Evangelho nos amarra, não nos deixa escapar: perdoai-nos assim como perdoamos… Aquele mendigo era Eu, sou Eu… O que quiserdes que os outros (Deus) vos façam, fazei-o vós a eles (a Ele)…”

Para descobrirmos a beleza de Jesus em todas as periferias existenciais, nossa cátedra será o banco da praça ou a esquina da rua. Ao nos aproximarmos de um desses desconhecidos, pediremos que nos fale e, abrindo nossos ouvidos, dele escutaremos palavras belas, palavras de verdade e de vida. Então, seremos cristãos de verdade, capazes da fé.

Pe. José Artulino Besen

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VIII – A FÉ – CREIO EM JESUS CRISTO, SALVADOR

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Por que o Filho de Deus veio ao mundo? Para a nossa salvação, logo respondemos, e precisamos ter clareza sobre o que é a salvação, o que significa ser salvo. Em primeiro lugar, Jesus não veio apenas para nos dar uma boa morte, como se nossa vida terrena nada contasse, nem veio apenas para que não fôssemos condenados ao inferno. Isso é consequência da salvação, de uma vida salva.

O evangelho de João revela com clareza a salvação que Jesus oferece: “Eu vim para que todos tenham vida, e vida em abundância” (João 10, 10). Vida em abundância a partir do momento da concepção, passando pelo nascimento, crescimento, vida adulta e morte. Tudo na plenitude do amor de Deus, não vivendo de qualquer jeito, fechado em si mesmo, não colaborando para que o outro também viva em abundância.

O Filho de Deus veio ao mundo para nos ensinar o caminho da vida, onde a morte não tem mais poder, onde a liberdade nos faz humanos.

Criando o homem e a mulher à sua imagem e semelhança, Deus tinha-lhes dado uma participação especial na própria vida divina. Segundo o projeto de Deus, o homem não deveria nem sofrer nem morrer. Além disso, reinava uma harmonia perfeita: no próprio ser humano, entre a criatura e o criador, entre o homem e a mulher, bem como entre o primeiro casal humano e toda a criação (CIC 374-379). A obra divina é obra de harmonia, de paz, de santidade.

Mas, Deus nos fez livres e nos quer livres. Uma característica do ser humano é a liberdade, que o distingue de todas as outras criaturas. É o poder, dado por Deus ao homem, de agir e não agir, de fazer isto ou aquilo, e implica também a possibilidade de escolher entre o bem e o mal. A liberdade é a característica dos atos propriamente humanos e seu melhor fruto é fazer o bem, o que nos torna verdadeiramente livres. A escolha do mal é um abuso da liberdade, e nos conduz à escravidão do pecado.

Filiação divina e conhecimento de Deus

O primeiro pecado enfraqueceu a liberdade humana e, na sucessão de pecados se acentuou o enfraquecimento da liberdade. Mas “é para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gal 5,1). Com a sua graça, o Espírito Santo reconduz-nos para a liberdade espiritual, para fazer de nós colaboradores livres da sua obra na Igreja e no mundo.

Crer em Jesus Cristo significa crer que ele é Senhor e Salvador. No nome “Jesus” está incluída a sua missão, pois significa “Deus salva”, é aquele que salva o povo de seus pecados, que nos reconduz à liberdade. “Cristo”, “Messias” significa ungido, Jesus é o Cristo porque é consagrado por Deus, ungido pelo Espírito Santo para a missão redentora.

“Vós todos sois filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo” (Gálatas 3, 26). No mundo religioso que anunciava castigos divinos, onde Deus era temido, rei e juiz terrível, por Jesus chegou a boa notícia: somos filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo. Deu-nos a capacidade e o direito de nos dirigirmos a Deus como a um Pai, como ele o fazia. Nossa oração principal tem início com “Pai nosso”. O Pai nos faz participantes da vida de seu Filho.

E como conhecer o Pai? Jesus é o narrador do Pai, com toda autoridade, pois o conhece desde toda a eternidade. Essa revelação é feita pela Palavra e pelos gestos que o Senhor realizou na terra e nos são transmitidos pelos Evangelhos. Quando Filipe pede para conhecer o Pai, Jesus responde: “Filipe, quem me viu, viu o Pai” (João 14, 9). A vida de Jesus é a narração do coração do Pai.

Certamente isso causou mal-estar nas pessoas que se achavam conhecedoras de Deus e agora escutavam e viam alguém dizendo: “como eu vivo, assim é o Pai”. João Batista anunciava um tempo de justiça, colheita, e Jesus anuncia o tempo da graça, da misericórdia, da paciência, porque Deus é amor.

O tempo da salvação

Paulo afirma que, desde toda a eternidade, Deus tinha decidido nos enviar o Filho, isso antes do pecado: Jesus viria ao mundo mesmo sem o pecado dos primeiros pais, porque o plano divino é de nos salvar. Em outras palavras: Deus nos fez à sua imagem e semelhança, e Jesus veio para levar essa semelhança à plenitude.

Então, o que é a salvação? É a transformação realizada em nós pela graça e que nos torna a cada dia mais semelhantes a Deus. O homem plenamente salvo é o homem plenamente divinizado. A salvação tem início com o batismo que nos oferece um caminho de perfeição que se concluirá na eternidade. É um caminho dinâmico de transformação alimentado pelo amor divino em Cristo e pela nossa busca contínua da felicidade: queremos ser como Deus, queremos ver o Pai.

Cristo é nosso Salvador: vivendo no meio de nós, com sua vida narrou o Pai e narra para nós o caminho da salvação. Somente ele, Deus e homem, pode dizer: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (João 14, 6). Assim cremos, assim somos salvos

José Artulino Besen

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VII – A FÉ – E A PALAVRA SE FEZ CARNE – A EUCARISTIA

«O Senhor da Humildade» (ícone russo)

«O Senhor da Humildade» (ícone russo)

A fé cristã afirma Deus como Pai, Filho e Espírito Santo, e afirma o Filho como verdadeiro Deus e verdadeiro Homem: Trindade e Encarnação. São esses os mistérios que fundam e fundamentam a fé cristã. O Filho recebe o nome de Jesus (Deus salva) e Cristo (o Ungido de Deus) e é nosso único Senhor.

Em sua Carta aos Filipenses (2, 5-11) São Paulo transcreve um Hino que era memorizado pelos cristãos e que narra dois mistérios do Filho:o mistério da descida (sendo Deus, Jesus renunciou à condição divina, fez-se homem assumindo a condição humana, descendo até o abismo da morte) e o mistério da subida (Deus o ressuscitou e o exaltou, dando-lhe um Nome acima de todo nome, para que todos proclamemos que ele é o Senhor). Tudo isso, para a glória de Deus Pai, no Espírito Santo.

O mistério da descida – a Palavra se fez Carne

Nós proclamamos no Credo: “Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, Nosso Senhor, que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria”.

O Filho eterno, Deus eterno com o Pai, se fez carne, isto é, se fez humano e habitou entre nós (João 1, 1-14). Desde toda a eternidade, antes da criação do mundo e do homem e da mulher, foi esse o projeto de Deus: o Filho vir habitar na natureza humana e no meio de nós. Muito importante: Deus entrou na história, no tempo. Numa época, o ano I de nossa era, e num lugar, a Palestina. A história humana é agora história divina, a vida humana é também vida divina.

O Pai decidiu seguir os meios que estabeleceu para nós: o Filho se encarna em Maria de Nazaré da Galiléia, seu sangue é nosso sangue, sua carne é nossa carne. Podemos afirmar com todo o direito: somos da linhagem divina, e Deus é da linhagem humana (Atos, 17, 29). Concebendo por obra do Espírito Santo, Maria é chamada Mãe de Deus, pois não podemos separar em Jesus o que é divino e o que é humano: Jesus é Deus e homem verdadeiro, em unidade perfeita e sem confusão.

A palavra “carne” significa a pessoa humana em todas as dimensões: física, psicológica, emocional, espiritual. Tudo isso o Filho assumiu ao se encarnar em Maria: Deus decidiu passar pelas experiências humanas em toda a sua riqueza e fraqueza, menos no pecado. Paulo afirma que Jesus assumiu a condição de escravo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz.

O mistério da subida – ressurreição e Eucaristia

A descida de Jesus está incluída na sua obediência radical e livre ao Pai, que não o deixa abandonado ao poder da morte. Pelo contrário: Deus o exaltou e deu-lhe um Nome pelo qual podemos ser salvos. E a exaltação se conclui: em Nome de Jesus todo joelho se dobre e toda língua proclame “Jesus Cristo é o Senhor”, para a glória de Deus Pai. Na obediência, o Senhor desceu o máximo e, na subida, o Pai lhe dá o título máximo de Senhor. Devemos recordar, contudo, que o Senhor que subiu na glória se encontra presente em nossa humildade, pois Deus decidiu estar conosco para sempre.

Em cada Eucaristia celebramos a vida do Filho, sua encarnação, nascimento, morte, ressurreição e ascensão ao Pai. A Eucaristia é a presença plena do Senhor em nós e de nós nele. Assim como pela digestão o pão e o vinho são transformados, do mesmo modo, na Eucaristia são transformados porque digeridos e, desse modo, nós somos transformados em Corpo de Cristo. São João Crisóstomo assim fala: uma vez que como o pão e o vinho, Corpo e Sangue de Cristo, sou transformado no Corpo e no Sangue de Cristo a tal ponto que “não sou mais eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). E Santo Agostinho: se quisermos ver a Eucaristia e compreendê-la, olhemos o que está no altar: nós estamos no altar onde está Cristo e na união com ele nós nos tornamos Corpo e Sangue de Cristo.

A Liturgia russa nos comove com um belo título para Jesus: o Senhor da Humildade. Tão cheio de poder e glória, e tão cheio de simplicidade e bondade. Na língua grega do Novo Testamento, o Filho é denominado “Kyrios”, o “Senhor”, nome que indica não somente respeito, mas, em Jesus, significa que não há nenhum poder fora dele, tudo está submetido à sua autoridade. Nele, Deus Pai quer ser glorificado. O nome “Senhor” era de tal modo profundo que a Liturgia romana manteve no grego a prece “Kyrie eleison”, Senhor, tende piedade de nós, no ato penitencial, que era repetida três vezes. Somente mais tarde incluiu outro nome, o “Christe eleison”. Isso porque somente ele tem direito ao nome Senhor, somente ele merece a nossa humilde submissão, sempre confortadora. E somente ele, o Senhor, tem a autoridade de nos reconciliar com o Pai, o mundo, a humanidade. E, na sua humildade, pela Eucaristia nos torna seu Corpo e Sangue.

Pe. José Artulino Besen

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SOMOS PEREGRINOS E MENDICANTES

«Um dos Discípulos, aquele a quem Jesus amava». (Jo 13,23)

Ao respondermos ao chamado de Jesus tem início nossa peregrinação de mendicantes: não sabemos aonde ele nos leva, mas sabemos que é o único lugar que vale a pena conhecer, e somos mendicantes do pão da verdade e da alegria. A fome é sempre mais intensa, o caminho é sempre mais longo e pede-nos um passo a mais, a cada passagem da vida.

Somos peregrinos, sempre a caminho. A resposta ao chamado não pode ser “não vou conseguir”. O peregrino levanta-se e anda, como Abraão. Ele sabe que, se quiser ser discípulo, não terá resposta objetiva além de se levantar e pôr-se a caminho porque, diante do peregrino, o que se estende é o caminho. Não se define pelo que consegue fazer, mas por se saber amado pelo Senhor. É porque Jesus me ama que eu me ponho a caminhar e, no caminhar, a vida se transfigura e torno-me íntimo dele.

O quarto Evangelho fala dos Doze, do chamado recebido, mas, o Senhor não chamou somente os Doze. Coloca diante de nós um outro discípulo, o Discípulo amado, que não é João irmão de Tiago, mas um jovem que seguia Jesus e se manifesta apenas na última Ceia (cf. Jo 13, 21-26). O peregrinar com Jesus o transfigurou e ali, nesse momento de extrema intimidade – era a hora do Adeus – manifesta o quanto foi amado e o quanto amou.

Estava com a cabeça inclinada no peito de Jesus. Escuta o coração de Jesus bater e seu coração pulsa com o dele. É seu amigo íntimo, encontra tempo para essa intimidade e oração.

Não está ali por obrigação, o que tiraria todo o sentido: um amor o amou primeiro e a vocação é resposta de amor a quem amou primeiro.

O Discípulo amado não abandona o Mestre, pois não sabe viver sem ele e dele brota o sentido de sua vida. Quando Jesus está suspenso na cruz, abandonado, humilhado, todos os discípulos desapareceram, até Pedro, menos aquele que se sabia amado (Jo 19, 25-27). Não que Jesus o amasse mais do que aos outros, mas, era ele o que mais se sentia amado, num amor que o faz permanecer “em pé” diante da cruz, juntamente com Maria, a Mãe, e Maria, aquela que tinha sido libertada de uma legião de demônios.

Os outros discípulos tinham ouvido a mesma voz, escutado o mesmo chamado, mas não tinham ouvido e sentido o coração de Jesus. E assim acontece no caminho da história cristã: Paulo deixa de viver para viver Cristo, Francisco abraça o leproso, Madre Teresa limpa feridas purulentas, num amor igual ou maior que o sentir de cada mãe ao contemplar a dor de um filho. Cada Discípulo amado tem força e alegria para ficar ao lado de todos os sofredores da história.

Deus é amor

Na ressurreição, o Discípulo amado é o primeiro que chega ao túmulo, mas não entra (Jo 20, 1-8). Ele cede a honra a Pedro que, nessa hora, vê e crê, pois viu o amor. Só o amor faz crer no que fisicamente não se comprova. Há conflito quando acho que devo ser o primeiro ou que os outros devam ser como eu, o que não acontece com o Discípulo: ele vê, mas Pedro entra. Quem é amado ajuda o outro a assumir o seu lugar.

Dias depois, eles estão no barco e percebem um homem às margens do mar da Galiléia (Jo 21, 4-8). A partir do sinal do fogo e do peixe que está sendo preparado ele não tem dúvida, pois o conhece, e diz: “é o Senhor”. O discípulo reconhece a presença do Ressuscitado hoje e, também na cruz, vê sinal de ressurreição. Vê luz onde todos somente vêem a escuridão. Seu amor pela Igreja não disfarça a realidade de pecado que nela existe, mas é capaz de contemplar o luminoso mistério da Igreja que resplandece no amor, na missão, na doação de seus filhos.

O Discípulo amado, e todos os discípulos transfigurados pelo amor, tudo transforma em alegria: faz brilhar o que é bom e torna bom o que estava comprometido pelo mal.

Ao escrever sua Carta às comunidades cristãs, João, o Discípulo amado, exclama: Deus é amor. A prova é que nos amou primeiro. Quem ama permanece nele (cf. 1Jo 4, 7-16).

Nosso amor sempre será tímida resposta a seu amor para conosco, timidez que nos leva a empreender o caminho da peregrinação ao encontro do Amor e da busca do pão. Quando dissemos o sim inicial, uma força maior nos alimentou e movimentou: amar é dar a vida. Porque Jesus deu a vida por nós. Queremos ser discípulos amados, deixar nosso coração pulsar ao ritmo do coração de Jesus.

Pe. José Artulino Besen

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