Arquivo para categoria Jesus Cristo

SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

Jesus revela seu Coração a Santa Margarida

O Filho de Deus veio ao mundo para revelar o amor de Deus Pai por todas as criaturas, sem perder nenhuma. Veio trazer-nos a mensagem da paternidade divina em sua infinita bondade e compaixão. É essa a mensagem central da Sagrada Escritura: Deus é amor.

Houve períodos da história cristã em que o acento da fé e da vida recaíram no medo de Deus, na justiça divina mais como vingança por nossos erros do que como justiça que nos faz justos gratuitamente.

Nessas horas o Senhor desperta homens e mulheres e lhes dá a graça de sentirem sua misericórdia, anunciando-a pela vida e pela palavra. No século 20 conhecemos a mensagem extraordinária da Divina Misericórdia através de Santa Faustina, que trouxe para a Igreja uma poderosa corrente de confiança no Senhor que nos salva. Também conhecemos a vida de São Padre Pio, que fez do confessionário sua tribuna.

O século XVII espalhou pelo mundo uma devoção, a maior e mais legítima devoção cristã: ao Sagrado Coração de Jesus. Foi numa época em que prevalecia o rigorismo cristão, a busca da salvação pelas obras e pela penitência. O Senhor manifestou a devoção ao Sagrado Coração a uma jovem religiosa, Santa Margarida Alacoque e usou como canal a Companhia de Jesus.

Margarida nasceu no dia 22 de Agosto de 1647 em Verosvres, na Borgonha (França). Seu pai, Claudio de Alacoque, juiz e tabelião, morreu quando Margarida ainda era muito jovem, forçando ela e a mãe a irem morar com um tio e junto a parentes que lhes fizeram conhecer a humilhação da necessidade, parentes pouco generosos e nada propensos a consentir que ela realizasse o seu desejo de ingressar no convento.

Depois foi internada no pensionato das religiosas clarissas, iniciando uma vida de sofrimento que soube orientar para Deus: “Sofrendo entendo melhor Aquele que sofreu por nós”. Uma enfermidade forçou-a a viver acamada por quatro anos. Foi curada pela intercessão da Virgem Maria.

Na festividade de São João Evangelista de 1673, moça de vinte e cinco anos, irmã Margarida Maria, recolhida em oração diante do Santíssimo Sacramento, teve o singular privilégio da primeira manifestação visível de Jesus, que se repetiria por outros dois anos, toda primeira sexta-feira do mês. Margarida passou a viver em intensa intimidade com o Senhor, que lhe mostrava o Coração.

Em 1675, durante a oitava do Corpo de Deus, Jesus manifestou-se-lhe com o peito aberto e, apontando com o dedo seu Coração, exclamou:

Eis o Coração que tem amado tanto aos homens a ponto de nada poupar até exaurir-se e consumir-se para demonstrar-lhes o seu amor. E em reconhecimento não recebo senão ingratidão da maior parte deles“.

Segundo seu testemunho, o Coração estava rodeado de chamas de fogo, coroado de espinhos, com uma ferida aberta da qual corria sangue e de cujo interior brilhava uma luz.

Meu divino Coração está tão apaixonado de Amor pelos homens, em particular por ti, que, não podendo conter nele as chamas de sua ardente caridade, é necessário que as derrame valendo-se de ti, e a eles se manifeste para enriquecê-los com os preciosos dons que te estou revelando, os quais contém as graças santificantes e salutares necessárias para separá-las do abismo de perdição. Te escolhi como um abismo de indignidade e de ignorância, para que tudo seja obra minha”.

A difusão da obra de Santa Margarida

Sendo mulher e mística e religiosa, Margarida foi muito incompreendida no seu ambiente e também na Igreja local que julgava as aparições “fantasias” místicas, “coisas de mulher”. Opinião diferente teve o jesuíta São Cláudio de la Colombière, profundamente convencido da autenticidade das aparições. Tornado diretor espiritual dela, buscou não só defende-la, mas também propagar a espiritualidade do Sagrado Coração.

Margarida progrediu na santidade pessoal, na vida comunitária e teve a alegria de ver a difusão da devoção do Sagrado Coração, nos séculos seguintes assumida pela Igreja, pelos Papas. A Associação do Apostolado da Oração, nascida para a vivência da misericórdia divina se espalhou pelo mundo, congregando atualmente 35 milhões de pessoas. Assumida pelas padres jesuítas, a cada mês os associados se unem ao Papa que lhes confia uma Intenção Geral e uma Intenção Missionária.

O Catecismo na Igreja Católica (§478 ) assim se expressa:

“Jesus conheceu-nos e amou-nos a todos durante sua Vida, sua Agonia e Paixão e entregou-se por todos e cada um de nós: “O Filho de Deus amou-me e entregou-se por mim” (Gl 2,20). Amou-nos a todos com um coração humano. Por esta razão, o sagrado Coração de Jesus, traspassado por nossos pecados e para a nossa salvação, – é considerado o principal sinal e símbolo daquele amor com o qual o divino Redentor ama ininterruptamente o Pai Eterno e todos os homens”.

Margarida Maria de Alacoque faleceu em 17 de Outubro de 1690, aos 43 anos de idade. Foi canonizada pelo Papa Bento XV em 1920.

Difundiu e ajudou a difundir as 12 Promessas do Sagrado Coração de Jesus, alimento seguro de milhões de devotos.

  1. Dar-lhes-ei todas as graças necessárias ao seu estado de vida.
  2. Estabelecerei a paz nas suas famílias.
  3. Abençoarei os lares onde for exposta e honrada a imagem do Meu Sagrado Coração.
  4. Hei-de consolá-los em todas as dificuldades.
  5. Serei o seu refúgio durante a vida e em especial na hora da morte.
  6. Derramarei bênçãos abundantes sobre todos os seus empreendimentos.
  7. Os pecadores encontrarão no Meu Sagrado Coração uma fonte e um oceano sem fim de Misericórdia.
  8. As almas tíbias tornar-se-ão fervorosas.
  9. As almas fervorosas ascenderão rapidamente a um estado de grande perfeição.
  10. Darei aos sacerdotes o poder de tocarem os corações mais empedernidos.
  11. Aqueles que propagarem esta devoção terão os seus nomes escritos no Meu Sagrado Coração e d’Ele nunca serão apagados.
  12. Prometo-vos, no excesso de Misericórdia do Meu Coração, que o Meu Amor Todo-Poderoso concederá, a todos aqueles que comungarem na Primeira Sexta-Feira de nove meses seguidos, a graça da penitência final; não morrerão no Meu desagrado nem sem receberem os Sacramentos: o Meu Divino Coração será o seu refúgio de salvação nesse derradeiro momento.

“Do vosso lado aberto a Igreja nasceu, e dos Sacramentos a fonte correu” – assim cantava um antigo hino religioso, afirmando o nascimento da Igreja pelo Coração aberto do Senhor, donde brotaram o Batismo e a Eucaristia, a água e do sangue.


Pe. José Artulino Besen

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CRISTO GLORIOSO NO POBRE SEM TETO

Jesus, o pobre sem-teto - Escultura de Timothy Schmalz

Jesus, o pobre sem-teto – Escultura de Timothy Schmalz

Timothy Schmalz, escultor católico canadense contemporâneo busca, com sua arte, continuar a grande tradição cristã de expressar o mistério da fé cristã através da beleza da arte. Descreve suas esculturas como traduções visuais dos Evangelhos e fica muito feliz quando as vê expostas em ruas e praças. Pela sua resistência e duração, aprecia o bronze como matéria de transfiguração a perpetuar a beleza e a experiência do Belo.

Não é necessário ser conhecedor dos Evangelhos ou dos dogmas cristãos para mergulhar no mistério cristão, como não é necessário ser musicista para sentir o mistério oculto numa Sonata de Beethoven ou numa Antífona gregoriana. Ao contemplar a obra artística se é levado à contemplação do mistério e da verdade porque, pela encarnação do Filho, a matéria tornou-se apta para ser transfigurada no divino: da mesma forma que o Senhor glorioso é o Jesus despojado de glória, também o Jesus pobre de Nazaré é o Senhor da glória.

Ao abençoar obras de arte, a Igreja nos ensina que a matéria transfigurada em beleza tornou-se fonte de bênção, é bênção. Pena que “benzemos” imagens, rosários, velas sem a consciência do mistério que a matéria passa a comunicar.

Inspirada em Mateus 25, 31-46 (Eu tive fome e me destes de comer, …), a imagem de Tim Schmalz na abertura desta reflexão é uma representação a sugerir que Cristo está com os mais marginalizados em nossa sociedade. A figura de Cristo está envolta em um cobertor e a única indicação de que é Jesus são as chagas visíveis nos pés.

Colocada diante de uma igreja canadense, a escultura foi feita em tamanho real e, deitada num banco de jardim, deixa espaço suficiente para que alguém possa nele sentar-se. As atitudes dos que transitam pelo caminho revelam o que se passa no coração de cada um: há quem prefira olhar de longe, fingindo que não viu; quem olha com cuidado, mas logo segue adiante, preferindo demonstrar que não entende o sentido da imagem; quem julga estar diante de uma blasfêmia dessacralizadora, pois lugar de Cristo é na igreja e não na rua. Enfim, existem aqueles que tomam assento aos pés da imagem, com carinho massageiam os pés feridos, primeiro pela compaixão diante do pobre e depois, ao perceberem que o pobre é o Senhor.

Alguns insistiram com o padre para que retirasse essa escultura e a colocasse dentro da igreja, aparentando a sugestão um sinal de respeito, mas, na verdade, era apenas constrangimento: a imagem do Cristo sem-teto se fixa na mente e não se consegue mais deixar de contemplá-la em todos os sem-teto, agora de carne e osso. Isso é muito desagradável e agride a paz espiritual, dizem. Dar esmola dentro da igreja é fácil, emocionalmente é mais difícil contemplar em carne e osso quem a recebe.

Muito significativa foi a reação de alguns moradores ao verem o inusitado Sem-teto: chamaram a polícia para retirá-lo, mas porque pensavam que era um pobre de verdade… Esse Cristo pobre, sem elegância desafia as igrejas a buscarem sua elegância no acolhimento aos pobres, sinal autentificador da fé cristã.

Os gestos de amor, gestos de beleza

A sabedoria e a espiritualidade dos pobres imediatamente levaria a contemplar no sem-teto o Bom Jesus. Nosso povo não divaga sobre distinções entre o Cristo da fé e o Jesus da história, o Jesus de Nazaré e o Cristo do Concílio de Calcedônia. Acha essas complicações até divertidas, pois tem clareza que são dois nomes para o Bom Jesus e que são muitos os nomes de Jesus dados a partir dos locais onde foi contemplado: Iguape, Lapa, Matozinhos, ou situações que viveu: dos Passos, da Coluna, do Bom fim.

No 6 de agosto, a Liturgia celebra a Transfiguração de Nosso Senhor e o povo, junto com ela e até contraditoriamente, celebra o Bom Jesus. Se pode estabelecer um belo diálogo: a Liturgia nos revela que o Senhor encarnado é o Cristo transfigurado, e o povo ensina que o Cristo transfigurado é o Senhor encarnado, o Bom Jesus. Um está coroado de espinhos, o outro coroado de glória, em duas faces do mesmo amor por nós. O povo pobre e humilde revela todo seu carinho ao contemplar o Bom Jesus, pois sabe por experiência o que é sofrer o abandono, o desprezo.

Voltemos ao Cristo sem-teto deitado no banco da praça e façamos a pergunta verdadeira: quem estou olhando ao contemplar esse homem? Sou capaz de contemplar o Cristo sem-teto em cada morador de rua? Então poderei declarar no tribunal de minha consciência: tudo o que faço a um desses mais pequeninos, que são meus irmãos, é ao Senhor que estou fazendo (cf. Mt 25, 45). “Quem ajuda os doentes e necessitados toca a carne de Cristo, vivo e presente no meio de nós” (Twitt de Francisco em 23/07/2015).

Contemplando essa imagem, assim escreveu o compositor e biblista Pe. Ney Brasil Pereira: “Que dizer mais? Como o Evangelho nos amarra, não nos deixa escapar: perdoai-nos assim como perdoamos… Aquele mendigo era Eu, sou Eu… O que quiserdes que os outros (Deus) vos façam, fazei-o vós a eles (a Ele)…”

Para descobrirmos a beleza de Jesus em todas as periferias existenciais, nossa cátedra será o banco da praça ou a esquina da rua. Ao nos aproximarmos de um desses desconhecidos, pediremos que nos fale e, abrindo nossos ouvidos, dele escutaremos palavras belas, palavras de verdade e de vida. Então, seremos cristãos de verdade, capazes da fé.

Pe. José Artulino Besen

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VIII – A FÉ – CREIO EM JESUS CRISTO, SALVADOR

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Por que o Filho de Deus veio ao mundo? Para a nossa salvação, logo respondemos, e precisamos ter clareza sobre o que é a salvação, o que significa ser salvo. Em primeiro lugar, Jesus não veio apenas para nos dar uma boa morte, como se nossa vida terrena nada contasse, nem veio apenas para que não fôssemos condenados ao inferno. Isso é consequência da salvação, de uma vida salva.

O evangelho de João revela com clareza a salvação que Jesus oferece: “Eu vim para que todos tenham vida, e vida em abundância” (João 10, 10). Vida em abundância a partir do momento da concepção, passando pelo nascimento, crescimento, vida adulta e morte. Tudo na plenitude do amor de Deus, não vivendo de qualquer jeito, fechado em si mesmo, não colaborando para que o outro também viva em abundância.

O Filho de Deus veio ao mundo para nos ensinar o caminho da vida, onde a morte não tem mais poder, onde a liberdade nos faz humanos.

Criando o homem e a mulher à sua imagem e semelhança, Deus tinha-lhes dado uma participação especial na própria vida divina. Segundo o projeto de Deus, o homem não deveria nem sofrer nem morrer. Além disso, reinava uma harmonia perfeita: no próprio ser humano, entre a criatura e o criador, entre o homem e a mulher, bem como entre o primeiro casal humano e toda a criação (CIC 374-379). A obra divina é obra de harmonia, de paz, de santidade.

Mas, Deus nos fez livres e nos quer livres. Uma característica do ser humano é a liberdade, que o distingue de todas as outras criaturas. É o poder, dado por Deus ao homem, de agir e não agir, de fazer isto ou aquilo, e implica também a possibilidade de escolher entre o bem e o mal. A liberdade é a característica dos atos propriamente humanos e seu melhor fruto é fazer o bem, o que nos torna verdadeiramente livres. A escolha do mal é um abuso da liberdade, e nos conduz à escravidão do pecado.

Filiação divina e conhecimento de Deus

O primeiro pecado enfraqueceu a liberdade humana e, na sucessão de pecados se acentuou o enfraquecimento da liberdade. Mas “é para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gal 5,1). Com a sua graça, o Espírito Santo reconduz-nos para a liberdade espiritual, para fazer de nós colaboradores livres da sua obra na Igreja e no mundo.

Crer em Jesus Cristo significa crer que ele é Senhor e Salvador. No nome “Jesus” está incluída a sua missão, pois significa “Deus salva”, é aquele que salva o povo de seus pecados, que nos reconduz à liberdade. “Cristo”, “Messias” significa ungido, Jesus é o Cristo porque é consagrado por Deus, ungido pelo Espírito Santo para a missão redentora.

“Vós todos sois filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo” (Gálatas 3, 26). No mundo religioso que anunciava castigos divinos, onde Deus era temido, rei e juiz terrível, por Jesus chegou a boa notícia: somos filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo. Deu-nos a capacidade e o direito de nos dirigirmos a Deus como a um Pai, como ele o fazia. Nossa oração principal tem início com “Pai nosso”. O Pai nos faz participantes da vida de seu Filho.

E como conhecer o Pai? Jesus é o narrador do Pai, com toda autoridade, pois o conhece desde toda a eternidade. Essa revelação é feita pela Palavra e pelos gestos que o Senhor realizou na terra e nos são transmitidos pelos Evangelhos. Quando Filipe pede para conhecer o Pai, Jesus responde: “Filipe, quem me viu, viu o Pai” (João 14, 9). A vida de Jesus é a narração do coração do Pai.

Certamente isso causou mal-estar nas pessoas que se achavam conhecedoras de Deus e agora escutavam e viam alguém dizendo: “como eu vivo, assim é o Pai”. João Batista anunciava um tempo de justiça, colheita, e Jesus anuncia o tempo da graça, da misericórdia, da paciência, porque Deus é amor.

O tempo da salvação

Paulo afirma que, desde toda a eternidade, Deus tinha decidido nos enviar o Filho, isso antes do pecado: Jesus viria ao mundo mesmo sem o pecado dos primeiros pais, porque o plano divino é de nos salvar. Em outras palavras: Deus nos fez à sua imagem e semelhança, e Jesus veio para levar essa semelhança à plenitude.

Então, o que é a salvação? É a transformação realizada em nós pela graça e que nos torna a cada dia mais semelhantes a Deus. O homem plenamente salvo é o homem plenamente divinizado. A salvação tem início com o batismo que nos oferece um caminho de perfeição que se concluirá na eternidade. É um caminho dinâmico de transformação alimentado pelo amor divino em Cristo e pela nossa busca contínua da felicidade: queremos ser como Deus, queremos ver o Pai.

Cristo é nosso Salvador: vivendo no meio de nós, com sua vida narrou o Pai e narra para nós o caminho da salvação. Somente ele, Deus e homem, pode dizer: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (João 14, 6). Assim cremos, assim somos salvos

José Artulino Besen

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VII – A FÉ – E A PALAVRA SE FEZ CARNE – A EUCARISTIA

«O Senhor da Humildade» (ícone russo)

«O Senhor da Humildade» (ícone russo)

A fé cristã afirma Deus como Pai, Filho e Espírito Santo, e afirma o Filho como verdadeiro Deus e verdadeiro Homem: Trindade e Encarnação. São esses os mistérios que fundam e fundamentam a fé cristã. O Filho recebe o nome de Jesus (Deus salva) e Cristo (o Ungido de Deus) e é nosso único Senhor.

Em sua Carta aos Filipenses (2, 5-11) São Paulo transcreve um Hino que era memorizado pelos cristãos e que narra dois mistérios do Filho:o mistério da descida (sendo Deus, Jesus renunciou à condição divina, fez-se homem assumindo a condição humana, descendo até o abismo da morte) e o mistério da subida (Deus o ressuscitou e o exaltou, dando-lhe um Nome acima de todo nome, para que todos proclamemos que ele é o Senhor). Tudo isso, para a glória de Deus Pai, no Espírito Santo.

O mistério da descida – a Palavra se fez Carne

Nós proclamamos no Credo: “Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, Nosso Senhor, que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria”.

O Filho eterno, Deus eterno com o Pai, se fez carne, isto é, se fez humano e habitou entre nós (João 1, 1-14). Desde toda a eternidade, antes da criação do mundo e do homem e da mulher, foi esse o projeto de Deus: o Filho vir habitar na natureza humana e no meio de nós. Muito importante: Deus entrou na história, no tempo. Numa época, o ano I de nossa era, e num lugar, a Palestina. A história humana é agora história divina, a vida humana é também vida divina.

O Pai decidiu seguir os meios que estabeleceu para nós: o Filho se encarna em Maria de Nazaré da Galiléia, seu sangue é nosso sangue, sua carne é nossa carne. Podemos afirmar com todo o direito: somos da linhagem divina, e Deus é da linhagem humana (Atos, 17, 29). Concebendo por obra do Espírito Santo, Maria é chamada Mãe de Deus, pois não podemos separar em Jesus o que é divino e o que é humano: Jesus é Deus e homem verdadeiro, em unidade perfeita e sem confusão.

A palavra “carne” significa a pessoa humana em todas as dimensões: física, psicológica, emocional, espiritual. Tudo isso o Filho assumiu ao se encarnar em Maria: Deus decidiu passar pelas experiências humanas em toda a sua riqueza e fraqueza, menos no pecado. Paulo afirma que Jesus assumiu a condição de escravo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz.

O mistério da subida – ressurreição e Eucaristia

A descida de Jesus está incluída na sua obediência radical e livre ao Pai, que não o deixa abandonado ao poder da morte. Pelo contrário: Deus o exaltou e deu-lhe um Nome pelo qual podemos ser salvos. E a exaltação se conclui: em Nome de Jesus todo joelho se dobre e toda língua proclame “Jesus Cristo é o Senhor”, para a glória de Deus Pai. Na obediência, o Senhor desceu o máximo e, na subida, o Pai lhe dá o título máximo de Senhor. Devemos recordar, contudo, que o Senhor que subiu na glória se encontra presente em nossa humildade, pois Deus decidiu estar conosco para sempre.

Em cada Eucaristia celebramos a vida do Filho, sua encarnação, nascimento, morte, ressurreição e ascensão ao Pai. A Eucaristia é a presença plena do Senhor em nós e de nós nele. Assim como pela digestão o pão e o vinho são transformados, do mesmo modo, na Eucaristia são transformados porque digeridos e, desse modo, nós somos transformados em Corpo de Cristo. São João Crisóstomo assim fala: uma vez que como o pão e o vinho, Corpo e Sangue de Cristo, sou transformado no Corpo e no Sangue de Cristo a tal ponto que “não sou mais eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). E Santo Agostinho: se quisermos ver a Eucaristia e compreendê-la, olhemos o que está no altar: nós estamos no altar onde está Cristo e na união com ele nós nos tornamos Corpo e Sangue de Cristo.

A Liturgia russa nos comove com um belo título para Jesus: o Senhor da Humildade. Tão cheio de poder e glória, e tão cheio de simplicidade e bondade. Na língua grega do Novo Testamento, o Filho é denominado “Kyrios”, o “Senhor”, nome que indica não somente respeito, mas, em Jesus, significa que não há nenhum poder fora dele, tudo está submetido à sua autoridade. Nele, Deus Pai quer ser glorificado. O nome “Senhor” era de tal modo profundo que a Liturgia romana manteve no grego a prece “Kyrie eleison”, Senhor, tende piedade de nós, no ato penitencial, que era repetida três vezes. Somente mais tarde incluiu outro nome, o “Christe eleison”. Isso porque somente ele tem direito ao nome Senhor, somente ele merece a nossa humilde submissão, sempre confortadora. E somente ele, o Senhor, tem a autoridade de nos reconciliar com o Pai, o mundo, a humanidade. E, na sua humildade, pela Eucaristia nos torna seu Corpo e Sangue.

Pe. José Artulino Besen

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SOMOS PEREGRINOS E MENDICANTES

«Um dos Discípulos, aquele a quem Jesus amava». (Jo 13,23)

Ao respondermos ao chamado de Jesus tem início nossa peregrinação de mendicantes: não sabemos aonde ele nos leva, mas sabemos que é o único lugar que vale a pena conhecer, e somos mendicantes do pão da verdade e da alegria. A fome é sempre mais intensa, o caminho é sempre mais longo e pede-nos um passo a mais, a cada passagem da vida.

Somos peregrinos, sempre a caminho. A resposta ao chamado não pode ser “não vou conseguir”. O peregrino levanta-se e anda, como Abraão. Ele sabe que, se quiser ser discípulo, não terá resposta objetiva além de se levantar e pôr-se a caminho porque, diante do peregrino, o que se estende é o caminho. Não se define pelo que consegue fazer, mas por se saber amado pelo Senhor. É porque Jesus me ama que eu me ponho a caminhar e, no caminhar, a vida se transfigura e torno-me íntimo dele.

O quarto Evangelho fala dos Doze, do chamado recebido, mas, o Senhor não chamou somente os Doze. Coloca diante de nós um outro discípulo, o Discípulo amado, que não é João irmão de Tiago, mas um jovem que seguia Jesus e se manifesta apenas na última Ceia (cf. Jo 13, 21-26). O peregrinar com Jesus o transfigurou e ali, nesse momento de extrema intimidade – era a hora do Adeus – manifesta o quanto foi amado e o quanto amou.

Estava com a cabeça inclinada no peito de Jesus. Escuta o coração de Jesus bater e seu coração pulsa com o dele. É seu amigo íntimo, encontra tempo para essa intimidade e oração.

Não está ali por obrigação, o que tiraria todo o sentido: um amor o amou primeiro e a vocação é resposta de amor a quem amou primeiro.

O Discípulo amado não abandona o Mestre, pois não sabe viver sem ele e dele brota o sentido de sua vida. Quando Jesus está suspenso na cruz, abandonado, humilhado, todos os discípulos desapareceram, até Pedro, menos aquele que se sabia amado (Jo 19, 25-27). Não que Jesus o amasse mais do que aos outros, mas, era ele o que mais se sentia amado, num amor que o faz permanecer “em pé” diante da cruz, juntamente com Maria, a Mãe, e Maria, aquela que tinha sido libertada de uma legião de demônios.

Os outros discípulos tinham ouvido a mesma voz, escutado o mesmo chamado, mas não tinham ouvido e sentido o coração de Jesus. E assim acontece no caminho da história cristã: Paulo deixa de viver para viver Cristo, Francisco abraça o leproso, Madre Teresa limpa feridas purulentas, num amor igual ou maior que o sentir de cada mãe ao contemplar a dor de um filho. Cada Discípulo amado tem força e alegria para ficar ao lado de todos os sofredores da história.

Deus é amor

Na ressurreição, o Discípulo amado é o primeiro que chega ao túmulo, mas não entra (Jo 20, 1-8). Ele cede a honra a Pedro que, nessa hora, vê e crê, pois viu o amor. Só o amor faz crer no que fisicamente não se comprova. Há conflito quando acho que devo ser o primeiro ou que os outros devam ser como eu, o que não acontece com o Discípulo: ele vê, mas Pedro entra. Quem é amado ajuda o outro a assumir o seu lugar.

Dias depois, eles estão no barco e percebem um homem às margens do mar da Galiléia (Jo 21, 4-8). A partir do sinal do fogo e do peixe que está sendo preparado ele não tem dúvida, pois o conhece, e diz: “é o Senhor”. O discípulo reconhece a presença do Ressuscitado hoje e, também na cruz, vê sinal de ressurreição. Vê luz onde todos somente vêem a escuridão. Seu amor pela Igreja não disfarça a realidade de pecado que nela existe, mas é capaz de contemplar o luminoso mistério da Igreja que resplandece no amor, na missão, na doação de seus filhos.

O Discípulo amado, e todos os discípulos transfigurados pelo amor, tudo transforma em alegria: faz brilhar o que é bom e torna bom o que estava comprometido pelo mal.

Ao escrever sua Carta às comunidades cristãs, João, o Discípulo amado, exclama: Deus é amor. A prova é que nos amou primeiro. Quem ama permanece nele (cf. 1Jo 4, 7-16).

Nosso amor sempre será tímida resposta a seu amor para conosco, timidez que nos leva a empreender o caminho da peregrinação ao encontro do Amor e da busca do pão. Quando dissemos o sim inicial, uma força maior nos alimentou e movimentou: amar é dar a vida. Porque Jesus deu a vida por nós. Queremos ser discípulos amados, deixar nosso coração pulsar ao ritmo do coração de Jesus.

Pe. José Artulino Besen

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INTRODUZ OS POBRES, OS ESTROPIADOS, OS CEGOS E OS COXOS

Jesus assume o rosto da mulher adúltera para que o rosto dela se tornasse o rosto de Jesus

Jesus assume o rosto da mulher adúltera para que o rosto dela se tornasse o rosto de Jesus

“Não há pecado ou crime que possa cancelar um homem do coração de Deus”, afirmou Francisco, ao Angelus de 3 de novembro de 2013, porque o coração de Deus, abismo de santidade, é uma casa de doentes e pecadores, uma casa de filhos.

Nós, quando tomados por um estreito moralismo, fazemos seleção dos que podem se salvar como se fôssemos agentes de salvação, revelando a insignificância a que reduzimos o amor do Pai e a fé cristã. Deus é apresentado num retrato muito mesquinho: um deus frustrado que cria com abundância para, em seguida, condenar também com abundância, e se contentar com bem poucos em seu Reino. Um deus assim cruel não é o Deus revelado por Jesus. Não existe: somos ateus achando-nos grandes devotos.

Por que temos essa preocupação em condenar o comportamento das pessoas? Um dos motivos, arrisco dizer, é nossa frustração diante da vida que lutamos para conservar, em outras palavras, levamos uma vida pretensamente correta, mas estéril, pesada, que se mantém pelo contínuo medo do inferno e pelo desejo de que os outros sejam condenados. Uma vida triste e entristecedora, porque excludente. Uma vida de amor próprio, não uma vida amorosa, acolhedora.

Temos nojo dos pecadores, dos viciados que batem à nossa porta, pelo caminho evitamos o encontro com as pessoas tomadas pela doença, pela deformidade física. Nosso higienismo físico e espiritual evita os contatos com as almas “sujas” para não nos sujarmos, mas, esquecemo-nos que estamos sujos e os iguais se repelem. Com uma diferença: eles são “sujos” por tantos motivos que levam alguém a comprometer a existência, e nós somos “sujos” de tanta limpeza produzida pelo nosso narcisismo.

Jesus é muito diferente e revelou-nos o Pai carinhoso e ciumento por cada filho. Na parábola do banquete (Lucas 14, 5-24) encontramos essa demonstração: num primeiro grupo, os convidados “sérios” encontram desculpas para não participarem: casamento, negócios, compromissos. O dono da festa envia os empregados a chamarem os pobres, os estropiados, os cegos e os coxos, todos. E ainda sobra lugar, e exige que procurem mais convidados “para que minha casa fique completa”. A festa é a vida, o dono é o Pai, os convidados são os filhos dispersos pelo mundo e pela história. A sala do banquete é seu coração misericordioso.

Não quebrar o caniço machucado

“Não quebrará o caniço rachado, não extinguirá a mecha que ainda fumega”, proclama o profeta sobre a missão do Servo Sofredor (Isaías 42, 3). Um caniço tratado com cuidado pode tornar a crescer, uma chama fraca, com algum sopro delicado ganha força e um bom fogo é aceso. O Pai não enviou o Filho para queimar e apagar, mas para fazer reviver e renascer. O Filho não veio até nós e deu a vida para selecionar os bons e expulsar os maus, pois a humildade do Crucificado é o sinal do rebaixamento para que nós sejamos elevados.

A história revelada é História da Salvação, a palavra proferida é Palavra de Salvação.

Foi-nos confiada a missão de reanimar os debilitados, e a Igreja é a casa dos enfraquecidos que nela devem encontrar novas forças para viver o caminho, forças brotadas do amor.

A opção cristã e eclesial pelos pobres não leva em conta sua situação moral: é opção pelos pobres da história, sem esquecer que nós também somos pobres e necessitamos de quem opte por nos acolher, salvar. A opção pelos pobres não inclui adjetivos: são acolhidos e incluídos porque são pobres.

Do modo como reavivamos a chama da brasa, também tratamos uma pessoa enfraquecida, doente: com delicadeza. Não como truque para convencer, mas como gesto de amor desinteressado, amor por amor. Jesus foi mestre de delicadeza, humildade, bondade e seu poder curativo se manifesta primeiro no toque, no afago. Não intimida. Lembremos sua atitude diante da mulher adúltera que os escribas e fariseus lhe apresentaram para o apedrejamento, conforme mandava a Lei (João 8, 1-11). Jesus tinha diante de si uma mulher humilhada, fragilizada, destruída, e evitou olhá-la nos olhos, para não envergonhá-la, intimidá-la. Inclinou-se e começou a escrever no chão. Quando todos se retiraram, assumindo que não tinham condições de atirar a primeira pedra, ele se ergueu e, manifestando cumplicidade, perguntou-lhe não o erro cometido, mas sim: “Onde estão eles? ninguém te condenou?”. E seguiu a palavra decisiva, regeneradora: “Eu também não te condeno. Vai, e de agora em diante não peques mais”. O caniço reviveu, a chama transformou-se em fogo. Jesus assumiu o rosto da mulher para que o rosto da mulher se tornasse o rosto dele.

O perdão é a palavra que queremos escutar e que os outros querem também ouvir de nós. Somente assim se descortina o horizonte da vida, dos passos a serem dados. E teremos a certeza de que “se os santos têm um passado, os pecadores têm um futuro” quando lhes apresentamos o Pai das misericórdias.

Pe. José Artulino Besen

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JESUS, MESTRE EM COMUNICAÇÃO

Jesus no meio do povo.

Jesus no meio do povo.

Os pregadores que não falam com profundidade procuram fazê-lo com o tamanho. Ou, como afirmou um diretor espiritual ao padre que lhe perguntava o porquê de serem tão longos os seus sermões: seus sermões são compridos porque sua espiritualidade é curta.

Jesus foi mestre em comunicação, aliava de modo perfeito a palavra e a imagem, o sinal e o ensinamento. Era breve.

Podemos até dizer que Jesus usava, nas condições do tempo, o os recursos modernos da comunicação, como o Twitter, – a rede social que permite enviar e receber atualizações pessoais de outros contatos em textos de até 140 caracteres. Ouvindo o Cardeal Ravasi no “Portal dos Jornalistas”, recebi e transmito essas palavras sobre a comunicação de Jesus.

Jesus e o Twitter

Jesus anunciava os ensinamentos centrais com menos de 140 caracteres. Ele tuitava os ensinamentos fundamentais aos que o seguiam. Era impossível não guardá-los na memória. Vejam esses exemplos:

  • O Reino de Deus está próximo: convertei-vos (43 caracteres).
  • Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus (55 caracteres).
  • Ama o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo (130 caracteres).
  • O Filho do Homem vai ser entregue às mãos dos homens, e eles o matarão. Morto, porém, três dias depois ressuscitará (115 caracteres). Essa profecia transmitida por Marcos (9, 31) é, no dizer dos estudiosos, palavra literal de Jesus, talvez sua única palavra literal. E tão breve!

E assim por diante, podemos encontrar outras palavras de Jesus que, simples e diretas, transmitem o ensinamento do Reino.

Jesus e a TV – ele servia-se do recurso mais apreciado e atraente da TV: a cena, a narração encenada, como pequena novela. Tinha capacidade incisiva, marcante, para despertar na imaginação dos ouvintes o significado de seu ensinamento e o modo de vivê-lo: são as parábolas, breves capítulos do seriado cristão.

  • O bom samaritano
  • O filho pródigo
  • O Rico e o Lázaro.

E outras. Nenhum aspecto do Reino de Deus deixou de receber uma cena que flui em nossa imaginação.

Jesus e a corporeidade – o toque corporal é, hoje, fundamental na comunicação. E também na vivência quotidiana. Temos necessidade vital de tocar e sermos tocados, sentir nossa dimensão corporal.

A obra de Jesus é basicamente constituída por curas e toques: toca os corpos, cura, usa a imposição das mãos, a saliva, o toque. Ele toca e deixa-se tocar. E, a novidade do Reino, ele toca os que ninguém queria tocar, porque eram impuros, pecadores. Especialmente o Evangelho de Marcos traz a riqueza da dimensão corporal da nova vida. Podemos citar, entre tantos “toques”:

  • Os dez leprosos
  • O filho da viúva de Naim
  • A mulher pecadora
  • O menino epiléptico
  • O cego de Jericó

O Papa Francisco insiste que o cristão deve ter cheiro de pobre, sentir o pobre, tocar o aflito. Jesus nos precedeu nesse caminho.

Dificuldade da Igreja em se comunicar.

O dicionário Aurélio registra 435 mil verbetes e 510 mil palavras. Os jovens brasileiros atuais, com suas palavras resumidas e expressões utilizam de 800 a mil. Sua mente e comunicação é feita de sinais e imagens e pouco de raciocínio.

Mudaram os ambientes onde se comunica: agora é a TV, o computador, o celular. Este novo modelo trouxe uma ruptura séria no relacionamento. Na comunicação humana normal tem parte fundamental o ver e ser visto, o face-a-face, o olhar recíproco. O outro capta meu sentimento contemplando minha face.

Agora é menor esse olhar recíproco. Se um jovem passa 5 horas diárias frente à TV, muda a sua realidade. Ele apenas recebe, não há a reciprocidade. Ele vê, mas não é visto. O outro se expõe, ele não. Há nova gramática de comunicação, onde se namora, se faz sexo virtual, se expõe a intimidade através do facebook, mas não há contato. É difícil, para eles, articular o pensamento. Tudo o que ele elabora é mutável, subjetivo, transitório.

E, como fica a comunicação cristã? Como ser missionário em um novo tempo? Lamentar é perder tempo. Podemos voltar à comunicação de Jesus, tão ricamente expressa nos 4 breves Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João.

Sentiremos que a Verdade que procuramos não é transitória, não é da moda e sim, um mar infinito no qual devemos mergulhar: Cristo é a Verdade. Foi com essa constatação que o judeu Kafka confidenciou ao amigo Gustav Janouch: “Cristo é um abismo de luz. É preciso fechar os olhos para não nos precipitarmos nele”. Se cuidasse, Kafka ficaria cristão.

Pe. José Artulino Besen

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A PALAVRA DE JESUS: LEVANTA-TE E ANDA

Jesus cura o paralítico - Mosaico do Centro Aletti em Vicenza

Jesus cura o paralítico – Mosaico do Centro Aletti em Vicenza

Nos caminhos por onde andamos e onde nos fixamos encontramos pessoas feridas, derrotadas, pessoas dominadas pelas drogas, jogadas no abandono, na miséria, esquecidas pelos familiares, e sentimos compaixão. Vem-nos logo o desejo de ajudá-las e nos perguntamos: que palavra proferir, que gesto fazer para manifestar solidariedade? Como demonstrar nosso afeto?

Como cristãos, o caminho é contemplarmos a vida de Jesus, e recordamos que ele sempre encontrava a palavra, o gesto, o sinal para libertar a pessoa e fazer a vida brotar. E, ao lembrar Maria nas Bodas de Caná, escutamos: “façam tudo o que ele disser”. É o nosso caminho.

Há uma palavra que Jesus usou diversas vezes e, mais tarde, também os apóstolos em sua missão: “levantar-se”. Posso dizer ao ferido meu desejo de ajudá-lo e até oferecer-lhe a mão, mas, ele é que deve se levantar.

A ordem “levanta-te” foi dirigida ao homem de mão seca (Lc 6,6-11), ao filho da viúva de Naim (Lc 7,11-17), ao leproso que retornou (Lc 17, 11-19), ao cego Bartimeu (Mc 10,46-52) e em outras ocasiões. O fruto era seguro: quando a pessoa se levanta, recebe o dom da cura.

Jesus não age sozinho: desperta a pessoa a assumir sua vida, andar com as próprias pernas. Jesus não carrega ninguém, pois o andar pertence à pessoa. Podemos ser um cajado, isso sim, para o outro andar, mas não substituir-lhe as pernas.

É difícil levantar-se quando as derrotas se acumularam em nossa história pessoal e quase não temos forças para um gesto assim.

E, ainda, não basta levantar-se: é necessário também andar. O homem ferido pode até achar que não o amamos, que somos duros nos sentimentos, não entendemos sua dor, mas, esse é o caminho ensinado por Jesus – levantar-se e andar, e nós queremos amar a pessoa derrotada, não ser amados por ela.

Levantar-se, palavra do Ressuscitado

Após a ressurreição do Senhor e a vinda do Espírito Santo, os apóstolos foram iluminados em sua ação. Pedro e João se dirigiam ao Templo e um homem que não andava se aproximou, pedindo esmola. Pedro repete o Mestre e lhe diz: Ouro e prata não tenho, mas o que tenho eu te dou: em nome de Jesus Cristo, levanta-te e anda! (At 3, 1-10). Fizeram o que Jesus fazia. Sua riqueza era o exemplo de Jesus.

Quando nos aproximamos da ovelha ferida, ter a palavra que a desperta, a palavra que Paulo usou após chamar-nos a ser filhos da luz: “Levanta-te, tu que estás dormindo, e Cristo te iluminará” (Ef 5, 14).

Pedro e Paulo também receberam a ordem de se levantarem. Paulo a caminho de Damasco era um homem seguro, cheio de certezas, mas caiu e também recebeu a ordem: Levanta-te! A Ananias, indicado para introduzi-lo na fé, a mesma ordem: Levanta-te! (At 9, 6.11). Ao paralítico, em Lida, a ordem de Pedro: Enéias, levanta-te, arruma tu mesmo a tua cama” e, em Jope, fala à discípula Tabita, que tinha morrido: Tabita, levanta-te! (At 9, 34.40).

O primeiro milagre é realizado por nós: levantar-me e tomar a cruz, palavra de Jesus para nos introduzir no discipulado. Depois, podemos segui-lo (Mt 16, 24).

Eu posso ordenar ao homem sofrido que se levante porque eu mesmo tenho de tomar essa decisão em minha vida. Cada um de nós, em algum momento da existência, é um cego à beira do caminho. Minha cura depende de minha decisão, e a cura do homem ferido, da decisão dele. E, depois, vem a oferta do cajado fraterno.

A mesma palavra deve ser usada pela Igreja, se quiser imitar o Senhor. A Igreja não é para resolver situações através de dinheiro. Tem como vocação permitir que a pessoa se erga, permitir que tudo o que há nela possa desabrochar.

A missão da Igreja é convidar cada pessoa: levanta-te e anda. A Igreja cria espaços e situações de oferecimento de vida, de liberdade. Ajuda o ferido que decidiu levantar-se, mas, não se ensina alguém a viver um caminho se não se vive o caminho. Somente uma Igreja pobre é capaz de encontrar o pobre. Ela não tem ouro nem prata, porque está decidida a ter liberdade.

A Igreja tem que estar atenta pois, se cai na tentação da busca de bens e riquezas, é-lhe tirada a liberdade e fica aprisionada em muitas dependências. E, o pior, ela não pode dizer a mesma palavra que Jesus disse, o que é essencial para a fidelidade à missão: Ouro e prata não tenho!, porque uma Igreja rica tem, sim, ouro e prata cujo peso deixa-a prostrada pelo caminho. Então, sua conversão será escutar, ela também, do pobre, do ferido, que dela se compadece e diz-lhe, como Pedro: “Igreja, ouro e prata não tenho, mas o que tenho te dou: em nome de Jesus Cristo, levanta-te e anda”. O Papa Francisco nos tem repetido isso com insistência: estarmos com o pobre para ter o cheiro do pobre, aceitar o desafio que nos apresenta de não ter as seguranças no ouro e na prata.

Nós temos a graça de oferecer ao sofrido da história a palavra “levanta-te” e temos também a graça de escutar o pobre a oferecer-nos essa palavra “levanta-te”, porque a vida é eterno peregrinar e todos somos mendicantes da liberdade.

Pe. José Artulino Besen
a partir de reflexão de Ir. Henrique da Trindade

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JESUS, UMA DOENÇA QUE NÃO TEM CURA

Há uma simbologia muito forte no final do ano: quando todos celebramos o triunfo de um ano que passou, felizes pelas vitórias alcançadas, o Espírito nos assusta colocando diante de nós o Deus Menino na gruta de Belém, pobrezinho cercado por pobres, para nos chamar a atenção: a vitória cristã é a pobreza de Deus, a riqueza da Igreja é adorar o Senhor que nada é. Somente assim teremos a alegria da fé, a felicidade que nos faz aceitar ser loucos aos olhos do mundo, mas, inteiramente livres para adorar um Deus Menino.

Abū Bakr Muhammad ibn ‘Alī ibn ‘Arabi (1165-1240), místico muçulmano sufi, filósofo e teólogo nascido na espanhola Andaluzia e morto em Damasco, afirmou a uma consulta que lhe tinha sido feita a respeito de converter cristãos para o islamismo. Para ele, era trabalho perdido: “Os que sofrem da doença chamada Jesus nunca se recuperarão”. Seguir a Jesus é uma doença incurável. Não há remédio ou terapia que restabeleça a “saúde” dos seguidores de Jesus.

A Bíblia não esconde cenas em que pessoas importantes se fazem de loucas por amor e alegria. O rei Davi fez-se louco diante de Abimelec, que, escandalizado, expulsou-o de sua presença. E Davi cantou: “Bendirei o Senhor em todo o tempo, seu louvor estará sempre em minha boca” (Sl 33, 1-2). Quando entrou em Jerusalém com a arca, dançando e soltando gritos de alegria, sua mulher Micol, filha de Saul, desprezou-o em seu coração porque pensou que estivesse doido (cf. 2Sam 6, 15-16).

Paulo, doutor na escola de Jerusalém, cidadão romano, fez a experiência de trocar tudo pela loucura da cruz, e testemunhava: Deus escolheu o que para o mundo é loucura e fraqueza para envergonhar os sábios e fortes, escolheu o que não tem nome nem prestígio, que não é nada, para mostrar a nulidade dos importantes (cf. 1Cor 1, 18.27-28). De fato, às vezes, uma igreja feita de sábios, teólogos e doutores, de reverências e eminências, de instituições bem estruturadas, não é capaz de dar testemunho da “loucura da cruz”, do amor pelo Crucificado, pelo Desprezado, pelo Alienado que morreu na cruz. Prefere optar por refinadas teologias que não exigem o sacrifício da sabedoria humana.

Diante de um espantado Pilatos que lhe perguntava se era rei, o Abandonado declarou com toda segurança: “Tu o dizes. Eu sou rei!” O pobrezinho estava sujo de escarros, sangue, açoites, tabefes, sem amigos que o defendessem na hora da condenação à morte, e se diz “rei”. Um rei muito diferente e, por isso mesmo, rei verdadeiro, um rei acima do poder, da força, da riqueza, um rei apenas rei. Pouco antes, traído por um discípulo, aceitara ser trocado por 30 moedas. Sua doação era total na hora em que, à sua libertação, seus amados preferiram a do criminoso Barrabás: amava sem nenhum desejo de retribuição a não ser ouvir a palavra “ele nos amou até a morte”. Ressuscitado, sai à procura dos Apóstolos que o abandonaram vergonhosamente e, ao traidor Pedro, entrega o cuidado dos seus.

Os frutos do presépio e da cruz

No decorrer dos séculos, discípulos de Jesus aceitaram viver a alegria da loucura da cruz na perseguição, entregues às feras, na doação da vida pelos sem vida ou escondidos no deserto. Bernardo de Claraval (+1153), monge, teólogo, místico, apreciava que o chamassem de “bobo”, “palhaço” e comparava a vida monástica a uma brincadeira: o que o mundo quer, nós jogamos fora, o que o mundo joga fora, isso nós queremos. Os monges dão o que pensar não apenas porque não fazem nada de particular, mas também porque as suas vidas não buscam nenhum objetivo. Francisco de Assis (+1226) se auto-definia: “sou o palhaço de Jesus”, “sou o louco em Cristo, ingênuo e ignorante”. Foi apelidado de “o pobre de Deus”.

Inácio de Loyola (+1556) definia sua companhia de jesuítas como “sociedade de loucos e dos que professam a loucura”. Ele recomendava que vez ou outra se escolhesse um superior meio “desparafusado” para obedecer-lho em decisões estapafúrdias e assim não se dar muita importância ou seriedade. O francês Bento Labre (+ 1783) fez-se mendigo de Deus, vagabundo de Cristo junto com outros na porta de uma igreja em Roma. Morreu novo pelos maus tratos recebidos e pela completa falta de higiene. Apenas morreu, o milagre da multidão gritando: “santo, santo, santo”.

Marcelo Cândia (+1983), rico industrial italiano, vendeu tudo e veio trabalhar com os leprosos em Marituba, no Pará: um rico que se fez pobre para se tornar santo. E ele o fez por um motivo simples: queria ser feliz e trocou o nada da riqueza pelo tudo do amor.

Jornalista americana, observando Madre Teresa de Calcutá (+1997) tratando carinhosamente de um doente coberto de feridas, exclamou: “Madre Teresa, nem por 5 milhões de dólares eu faria isso”, ao que Madre Teresa retrucou: “Nem eu!”. Era a loucura do amor a força que a impelia a essa consagração.

A doença Jesus é especialmente indicada para quem quiser possuir a verdadeira alegria. Necessitamos lembrar com maior freqüência que o programa que Jesus nos ofereceu está nas “bem-aventuranças”, na felicidade somente alcançada por quem assumir a simplicidade como regra de vida (cf. Mt, 5).

O servo de Deus François Van Thuan (+ 2002) bispo e cardeal vietnamita que passou 13 anos em cárceres imundos, afirmava que seu fascínio por Jesus tinha origem nos “defeitos” de Jesus: má memória (esquece os pecados quando perdoa, como ao Bom Ladrão), mau matemático (deixa 99 ovelhas garantidas para procurar uma extraviada), sem lógica (os primeiros serão os últimos e os últimos serão os primeiros), mau candidato (a quem o segue promete cruzes e perseguições), mau administrador (paga o mesmo salário a quem trabalhou uma hora e a quem suou por seis), amigo da covardia (dar a outra face a quem bateu numa) e assim por diante.

O Evangelho é a narração humilde de uma vida humilde, cheia de pessoas pobres, doentes, pecadores. O Evangelho é Jesus, esse pobre fascinante que nos revelou o coração frágil e paterno de Deus. Quem sentiu esse amor não tem mais cura: podem oferecer-lhe todo o ouro e poder do mundo, fama, prazeres sem conta e ele rirá de tudo. Não por desprezo, mas pela insignificância.

Num dia, Martinho de Tours (+397) teve uma visão: um homem resplandecente, com roupas reais, coroado com diadema de pedras preciosas e lhe falou: “Martinho, eu sou Cristo. Antes de retornar à terra quis em primeiro lugar manifestar-me a ti, pois bem o mereces”. Martinho fixou-o nos olhos e disse: “Eu não creio que Cristo voltará ao mundo com veste e aspecto diferentes dos que sofreu a paixão, sem carregar os sinais da cruz. Afasta-te, Satanás!”.

Enquanto os Ibn ‘Arabi deste mundo identificarem gente com a incurável doença Jesus o cristianismo e a Igreja estão com boa saúde e representarão uma ameaça ao sossego do mundo. Uma Igreja poderosa, carregada da sabedoria dos doutores e teólogos e de impressionantes estruturas e projetos não oferece perigo para o mundo. Apenas causa boa impressão e entra na concorrência do mundanismo.

Não têm futuro os que gozarem da ótima saúde que o mundo oferece: neles Jesus não tem seguidores, apenas admiradores que carregam cruzes de ouro penduradas ao peito e cheios de razão multiplicam regras que terão a força do medo, não do discipulado. Mas, Jesus continuará oferecendo a todos o contágio da doença do amor. Até o fim dos tempos.

Pe. José Artulino Besen

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OS GESTOS DE JESUS – BELEZA E BONDADE

A última Ceia – Fazei isto em memória de mim (Giotto)

Toda Liturgia é celebração da Paixão, Morte-Ressurreição e Ascensão do Senhor, do mistério pascal gerado no Espírito Santo. A Palavra de Deus e cada Sacramento narram a ação divina e, por isso mesmo, transmitem-nos a simplicidade bela do divino e dos gestos do Senhor: é ele quem fala, batiza, unge, alimenta, une, ordena, perdoa, cura.

A vida de um cristão é bela e verdadeira quando manifesta, no quotidiano, esses gestos, sendo continuamente um liturgo. O ser humano, sacerdote da criação é, sacramentalmente, criador de beleza: plantando flores, amassando o pão, acalentando uma criança, criando arte e ciência, consolando os tristes, perdoando ofensas, erguendo as mãos em oração é instrumento da Beleza que vem de Deus.

Os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João oferecem-nos quatro retratos do Senhor em suas palavras e atos. Não há, em Jesus, nenhum gesto ou palavra que não esteja envolvido pelo belo. Marcos, em seu breve e biográfico Evangelho, presta-se muito bem à contemplação da beleza litúrgica dos gestos de Jesus. Procuraremos senti-lo evocando algumas passagens, cujos gestos do Senhor preparam o ato final da Cruz. 

Jesus, um mestre da beleza e da bondade

Ao contrário de tantos pregadores que se servem de gritos, gestos espetaculares, exorcismos dramáticos, sermões longos e empolados, em Jesus percebemos apenas o carinho pelo doente e a cura silenciosa e respeitosa. Ele viveu a existência diária como obra-prima de bondade e beleza. Podemos contemplar a cura do homem com espírito impuro (Mc 1,21-28), sofrido pela presença do Mal e sentir o retorno da harmonia com o “Cala-te, sai dele!”, do Senhor.

Aproxima-se da sogra de Pedro e, tomando-a pela mão, levanta-a; a febre a deixou, e ela se pôs a servi-los: ele a serve e ela, põe-se a servi-lo (1,29-31). Um leproso aproxima-se dele e, de joelhos, suplica: “Se queres, tens o poder de purificar-me”. Jesus enche-se de compaixão e, estendendo a mão sobre ele, toca-o, sem nenhuma repugnância: “Eu quero, fica purificado” (Mc 1,40-45).

Homens rudes, pobres trazem, numa maca, um paralítico; como a entrada da casa está impedida pela multidão, abrem o teto, exato no lugar onde estava o Senhor e, pelo buraco, descem a maca com o paralítico. Vendo a fé desses homens, Jesus diz ao paralítico: “Filho, os teus pecados estão perdoados” (Mc 2,1-12). Num dia de sábado, enfrentando doutores legalistas e insensíveis, Jesus, entristecido pela dureza de seus corações, diz ao homem: “Estende a mão”. Ele estendeu a mão, que ficou curada” (Mc 3,1-6).

Quando um possesso libertado quis segui-lo Jesus não o permitiu, pois tinha missão maior a confiar-lhe: “Vai para casa, para junto dos teus, e anuncia-lhes tudo o que o Senhor, em sua misericórdia, fez por ti” (Mc 5,1-20). Timidamente, a mulher com hemorragias toca em suas vestes, esperando ser curada. Jesus pergunta, no meio da multidão: “Quem tocou na minha roupa?” A mulher, com medo, cai-lhe aos pés e conta toda a verdade, e Jesus a consola: “Filha, a tua fé te salvou. Vai em paz e fica livre da tua doença” (Mc 5,21-34).

Afastando a multidão, levou consigo os discípulos, o pai Jairo e a mãe da menina e entrou no lugar onde estava a menina morta. Não montou cenários, nem declarações. Apenas pegou a menina pela mão e disse-lhe: “Menina, eu te digo, levanta-te”. E a menina logo se levantou (Mc 5,35-42). Reafirmando a aliança de Deus com o povo judeu, também nela inclui toda a humanidade, numa conversa com a mulher siro-fenícia, pagã, que pedia a cura de sua filha. Jesus: “Deixa que os filhos se saciem primeiro; pois não fica bem tirar o pão dos filhos para jogá-lo aos cachorrinhos”. Ela: “Senhor, também os cachorrinhos, debaixo da mesa, comem as migalhas que os filhos deixam cair”. E Jesus, aceitando o argumento: “Por causa do que acabas de dizer, podes voltar para casa. O demônio já saiu de tu filha” (Mc 7,24-30).

Em Betsaida, segurou o cego pela mão, levou-o para fora do povoado, cuspiu nos olhos dele, impôs-lhe as mãos e perguntou: “Estás vendo alguma coisa?”. Não enxergando bem, Jesus novamente impõe as mãos sobre os olhos e ele começou a enxergar perfeitamente (Mc 8,22-26). Outro cego, Bartimeu, escutando que Jesus passava. jogou o manto fora, deu um pulo e se aproximou de Jesus. Respeitando-o, o Senhor pergunta-lhe o que quer, e ele: “Rabuni, que eu veja”. E Jesus: “Vai, tua fé te salvou”. (Mc 10,46-52).

As crianças são um capítulo à parte, para irritação dos discípulos, incomodados com as mães que traziam crianças para que Jesus as tocasse, – “barulho e perda de tempo”, ruminavam. Vendo isso, Jesus se aborreceu e disse: “Deixai as crianças virem a mim. E abraçava as crianças e, impondo as mãos sobre elas, as abençoava” (Mc 10,13-16).

Um dia, Jesus estava sentado em frente do cofre das ofertas e observava como a multidão depositava dinheiro no cofre. Muitos ricos depositavam muito. Chegou uma viúva pobre e deu duas moedinhas. Discretamente, Jesus chama os discípulos e comenta: “Em verdade vos digo: esta viúva pobre deu mais do que todos os outros que depositaram no cofre. Pois todos eles deram do que tinham de sobra, ao passo que ela, da sua pobreza, ofereceu tudo o que tinha para viver” (Mc 12,41-44).

A beleza dos gestos sacerdotais na Ceia da caridade e do adeus

Na Antiga Aliança, Moisés, com dois sinais, anuncia a Nova Aliança: toma o Livro da Aliança, lê em voz alta e o povo manifesta a obediência; em seguida, com o sangue separado, asperge o povo, dizendo: “Este é o sangue da Aliança que o Senhor fez conosco” (cf. Ex 24, 7-8).

Levando a Aliança à plenitude, Jesus é o Livro é o Sangue, o que é prefigurado na multiplicação dos pães quando fala e depois alimenta. A multidão faminta de salvação passou o dia com ele, e anoitecia. Os discípulos acham que era hora de mandá-los embora, pois estariam com fome. Jesus anuncia o banquete do Reino pedindo que a alimentem. Trazem-lhe cinco pães e dois peixes.

Jesus não quis que a distribuição fosse feita com tumulto, desordem. A mesa da caridade supõe beleza, mesa arrumada. Assim, todos se sentam em grupos de cem e de cinqüenta. E, nesse momento, com gestos belos de extrema simplicidade litúrgica, Jesus toma os cinco pães e os dois peixes, ergue os olhos ao céu, pronuncia a bênção, parte os pães e dá-os aos discípulos, para que os distribuam. Seis gestos, seis verbos que indicam ação, seis atitudes: toma-ergue-pronuncia a bênção-parte-dá-distribuam (Mc 6,30-44).

Os gestos da Ceia dos Pobres preanunciam a Ceia Pascal: Jesus não quer que seja celebrada de qualquer jeito, mesmo tendo como convidados homens humildes. Ele quer celebrá-la com dignidade e beleza: envia dois deles a procurarem o lugar para comerem a Páscoa. Foi escolhida, no andar de cima, uma grande sala, arrumada, onde foram feitos os preparativos.

No meio da ceia, Jesus celebra a Ceia da Nova Aliança. Enquanto estavam comendo, tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu-o e lhes deu, dizendo: “Tomai, isto é o meu corpo”. Novamente os verbos que denotam a simplicidade e a beleza desse momento que inaugura a eternidade: toma-abençoa-parte-dá-diz-tomai (Mc 14,12-16.22-25). Os gestos do sacramento do Irmão são os mesmos do sacramento do Altar. A Nova Aliança é bela porque une as mesas na beleza do amor.

Todos os gestos de sua vida, palavras proferidas, as mãos que tocam, a acolhida, os olhos para os doentes e pobres, Jesus realiza nessa Ceia de Adeus, numa sala arrumada e preparada, reunido com os amigos onde se oferece como Caminho, Verdade e Vida. O Belo é revelado na simplicidade e realizado com gestos solenes, no silêncio onde se escuta apenas uma voz: a de quem é Mestre e Senhor. Toda Liturgia cristã é uma arte da comunhão e uma ação cujo fim é ordenar o amor. Sem estardalhaço nem desordem.

Pe. José Artulino Besen

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O CORAÇÃO DE JESUS, CORAÇÃO DE DEUS

Sagrado Coração de Jesus – por Salvador Dalí

Venham a mim,
vocês todos que estão aflitos e sobrecarregados sob o fardo,
e eu vos aliviarei” (Mt 11,28).

A mais profunda e significativa entre as devoções cristãs é a do Sagrado Coração de Jesus: é a devoção afetuosa e adoradora do próprio Filho entregue a nós pelo Pai. Nenhuma beleza se compara à imagem do Homem‑Deus, rasgando o peito e oferecendo ao mundo, ardendo em chamas, seu coração! Parece dizer‑nos: “Eis o coração que tanto ama o mundo. Eis um coração ardendo de amor, mas que tem tão poucos dispostos a aceitar serem amados por ele”.

Forte desde a Idade Média, a devoção se intensificou a partir das revelações privadas de Jesus à francesa Santa Margarida Maria de Alacoque (1647-1690). As revelações se estenderam por 17 anos e nelas Jesus a chamava de “discípula predileta” e que desejava revelar-lhe “os segredos de seu coração divino” e ensinar-lhe “a ciência do amor”. Mal compreendida, acusada de propagar fantasias místicas, foi determinante o encontro com o padre São Cláudio de la Colombière (1641-1682) que assumiu sua direção espiritual e atestou a autenticidade das revelações. Não era fácil para as autoridades eclesiásticas aceitarem visões de mulheres, sempre acusadas de propensas à fantasia.

Jesus pedia que uma Festa fosse dedicada a seu Coração. Após dúvidas, foi celebrada pela primeira vez na França, em 1672, e tornou-se festa de toda a Igreja em 1856, com data fixada na oitava de Corpus Christi. Os padres jesuítas foram e são seus grandes propagadores, de modo especial através do Apostolado da Oração.

Na devoção ao Coração de Jesus a Igreja presta culto ao coração humano de Jesus, inseparável de sua divindade, e ao amor do Salvador pela humanidade, cujo símbolo é seu coração.

Entre as Doze Promessas feitas por Jesus a Santa Margarida, salientamos: – os pecadores encontrão em meu Coração a fonte e o mar infinito da misericórdia (6ª.), as almas tíbias se tornarão fervorosas (7ª.) e as almas fervorosas elevar-se-ão rapidamente a grande perfeição (8ª.). O centro é o acolhimento à pessoa humana em sua situação real de santa ou pecadora, triste ou feliz, piedosa ou blasfema, sadia ou depressiva.

O Coração de Jesus, fonte e mar infinito da misericórdia, ao ser traspassado pela lança, com o sangue e a água fez jorrar para o mundo o batismo e a eucaristia, a fonte regeneradora da vida. Revelando-se como fogo, chama de amor, Jesus nos convida ao calor que brota do amor, do perdão, da misericórdia.

Numa época em que se afirmava o rigor de Deus, a distância instransponível entre Deus e o homem, o acesso mínimo, por indignidade, à Comunhão, Jesus anuncia a proximidade, a amizade. Convida-nos a residir em seu Coração divino. Não foi outra a causa de sua vinda ao mundo. 

Nossa resposta ao amor misericordioso

Preferimos continuar na solidão, sofrendo amarguras, sozinhos carregando os fardos da existência humana. Mas, há alguém disposto a ajudar‑nos a carregá‑los. Há alguém pedindo que lhe ofereçamos nossas aflições, querendo ser companheiro de jornada. É Jesus, oferecendo-nos abrigo em seu coração. Importante, há alguém que quer ser nosso companheiro no socorro aos sofredores.

Os olhos de Jesus nos fixam, até com angústia: pedem que aceitemos ser amados por ele. É verdade que muitas cruzes tornam pesada nossa vida. Jesus sabe disso melhor do que ninguém e, por isso mesmo, quer ser nosso amigo, compartilhar nossas dores e alegrias.

Coração de Jesus, coração de misericórdia, abrigo de santos e pecadores, de mansos e violentos, abrigo com vagas ilimitadas. Lembra o homem de Nazaré diante da pecadora a quem desejam apedrejar: “Mulher, eu não te condeno. Vai em paz, e não tornes a pecar”. Lembra Jesus rodeado de crianças: “Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o Reino dos céus”. Lembra os usurários Mateus e Zaqueu, o amigo Pedro que o trai, o bom Ladrão na cruz. Lembra Jesus se opondo a deixar a multidão faminta, multiplicando‑lhe o pão. E, acima de tantos gestos de ternura, amizade, compreensão, nos faz elevar os olhos e contemplar o Crucificado: nada mais restando para comprovar‑nos seu amor, oferece a própria vida!

Homens e mulheres, jovens e velhos, encontram no Coração de Jesus não o conformismo, mas a força para a luta, para a vida. A ele se dirigem devastados pela dor, e dele retornam novas criaturas, com o fogo do amor tendo devorado as causas do sofrimento. Nele buscam amor, e saem para amar. São agressivos, orgulhosos: com ele aprendem a ser mansos e humildes de coração.

Quando Filipe pediu a Jesus: “Senhor, mostra‑nos o Pai”, obteve a resposta que revoluciona nossa relação com Deus: “Filipe, quem me vê, vê também o Pai!” (Jo 13,8‑9). O Coração de Jesus é o coração de Deus. A ternura de Jesus é a ternura de Deus, o Pai. Tudo o que podemos imaginar de carinho, compreensão, misericórdia, justiça, em Jesus, podemos ter a certeza de encontrar no Pai.

O medo sai de nossa vida. A tristeza nela não tem mais lugar. Se o pecado e o fracasso nos deprimem, o perdão e o afeto divinos nos reerguem. No Sagrado Coração de Jesus, fonte de vida e santidade encontramos, enfim, a paz que nos fará ter paz, e lutar pela paz.

Pe. José Artulino Besen

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