DE COROINHAS E ANJINHOS

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Além do evidente sentido teológico, as celebrações católicas oferecem aos olhos beleza e encanto através das flores, dos cantos, luzes e da presença das crianças. Há alguns anos, para insistir no valor dos adultos nas Celebrações e no enfraquecimento da piedade popular, o nascimento de uma Liturgia mais contemplativa, conceitual, com minhas memórias de infância pensava que duas classes estariam chegando ao fim. E percebia mesmo que me encontrava diante dos últimos exemplares dessa espécie: os anjinhos e os coroinhas.

Os anjinhos eram presença necessária nas procissões, coroações, recepções, tinham seu Globo de Ouro nas Primeiras Comunhões, Coroações de Nossa Senhora, Corte do Divino, e eram anjinhas, pois as vestes femininas, o diadema, as asas, a cestinha com pétalas de rosas, eram ornamentos que os meninos rejeitavam por tudo e pelo cheiro de menina que ficava na roupa.

Para tão importante função eram destacadas as meninas clarinhas, cabelo crespo, jeito piedoso bem falsinho. As morenas e pretinhas nem entravam no jogo, pois, cor de anjo, quanto mais branca, mais verdadeira pois anjo é luz. As candidatas ao ministério angelical ficavam tristes quando cresciam pois não poderiam mais ser anjos. Alguma tia com suposto discernimento maior diria que “mesmo sem crescer já não pode mais, pois para anjo não leva mais jeito. Tenho ouvido coisas…”. Para alguma crescida restava o consolo de cantar o “Aceitai essa coroa” nas Coroações.

Para meu espanto de vigário, e para alegria de minha infância despertada, os anjinhos retornaram com tudo e, quebrando todas as santas regras, temos OS anjinhos, pois os meninos não aceitam a exclusão em favor das meninas. Os anjinhos e as anjinhas convivem bem, exceto por alguma escaramuça das anjinhas, que rejeitam não comandar o ritual. É evidente que as anjinhas preferem levar as túnicas para casa, evitando o cheiro de futebol, de tangerina roubada e suor com que os meninos carimbam tudo.

E assim é: tudo parece que mudou, mas, os anjinhos sobrevivem e podem ser observados na cidade e na roça, catedrais e capelas, retornando donde tinham sido excluídos, agora branquinhos e pretinhos, felizmente, pois a Corte celeste se revela bem mais colorida.

Coroinhas e acólitos

Muito piedoso, o coroinha controla o vigário enquanto oferece vinho ao padeiro

Muito piedoso, o coroinha controla o vigário enquanto oferece vinho ao padeiro

Os coroinhas passaram por ameaça semelhante de extinção: não deveriam ser coroinhas, mas acólitos, gente grande, de jovem para cima, de preferência casais, manifestando a família na Liturgia. Coroinha nem fica bem, pois vigários modernos não se sentem à vontade coroados pela gurizada que já traz no nome a missão: coroa de enfeite; na verdade, a origem de coroinha vem de “menino de coro”, crianças que cantavam no coro. O patrono dessa turma, São Tarcísio (século III), deixou de ser cultuado como um menino para ser contemplado como um Ministro da Comunhão heróico. Ultimamente voltou a ser conhecido como a criança romana que levava a comunhão para doentes e que, atacado a pedradas por meninos, morreu defendendo a Santa Hóstia.

A criançada feliz que forma o grupo dos coroinhas passou a ser vista como vestibular do Seminário, racinha onde bom olheiro vocacional já divisa futuros padres, pois muitos padres tiveram o primeiro sinal vocacional servindo de coroinhas e nem sempre eram os mais piedosos. Algumas igrejas até cederam o secular espaço dos coroinhas para seminaristas envergando túnicas ou batinas, ou para jovens com jeito de futuros clérigos.

Os coroinhas estão por tudo e têm o maior prazer em servir o padre, ou servir na Missa. Ressurgiram com força e, como tudo tem troca, devem conviver com as meninas coroinhas que aceitaram a presença dos meninos anjinhos. Mas, necessitam de muita atenção, porque, à menor distração, as meninas ocupam todo o espaço e toda autoridade.

Se nossa língua fala em coroinhas, outras usam vocábulos sonoros e simpáticos: chierichetto em italiano, servant d’autel em francês, monaquillo em espanhol, altar server em inglês e Messdiener em alemão.

Receberam novos nomes e dignidades por causa das novas missões no altar, e podem ser acólitos, sacristãos, sineteiros, turiferários, naveteiros, ceroferários, cruciferários, caudatários, libriferários, mitríferos, baculíferos, pois são muitas as necessidades num dia mais solene e a turma dos coroinhas aceita o peso dessas funções. Saber todos esses nomes é sinal de importância e estabelece graus de domínio. Realmente, levei um susto quando escutei um coroinha comentando a beleza da “férula” do Papa. Pesquisei e descobri que a férula é a Cruz processional papal. Ter esse conhecimento equivale a vencer uma olimpíada litúrgica no facebook.

As vestes formam outro conjunto de variedades e tenho percebido na Liturgia gosto insistente pelo uniforme do leitor, comentarista, ministro e, claro, dos coroinhas. Os coroinhas estão caindo em tentação: querem se vestir como o padre. Não há regras fixas, mas suas vestes podem ser batinas+sobrepeliz+pala, túnica+escapulário, batina vermelha+sobrepeliz branca, túnica branca+capuz, batina na cor litúrgica.

Os coroinhas, quanto mais sérios e dignos de confiança, mais inventam outras funções: tocar o sino fora de hora, pendurar-se na corda para ver aonde chega, brincar de esconder nos corredores e sacristias, vestir-se como manda a regra e sair para jogar corrida fora da igreja, desprezar e provocar as meninas, esbarrar na sineta quando o padre fecha piedosamente os olhos durante as leituras, tirar o badalo da sineta para fazer a coroinha chorar. Havendo dois desses santinhos numa mesma sacristia, alternadamente um se coloca piedosamente de joelhos diante do altar para controlar a movimentação enquanto que o outro bebe uns goles de vinho. Se o padre descobrir, denunciam o pobre sacristão da véspera. 

Anjinhos e coroinhas

Os coroinhas participam de reuniões, encontros onde aprendem a usar a Bíblia, refletem temas litúrgicos e lhes são passados princípios de convivência de meninos com meninas, momento esse último em que se parte para o ataque e o mexerico, no qual as meninas saem-se melhor.

Em 2004, o papa São João Paulo II pediu que os párocos tivessem atenção especial com os coroinhas, “que são como um ‘viveiro’ de vocações sacerdotais. O grupo de acólitos, bem acompanhado por vós no âmbito da comunidade paroquial, pode percorrer um válido caminho de crescimento cristão, formando quase uma espécie de pré-seminário”, declarou.

Numa audiência geral particular, com mais de quarenta mil Coroinhas da Europa, o Papa Bento XVI pediu aos pequenos servidores do altar que estivessem abertos à possível chamada à Vocação Sacerdotal, aos meninos, e religiosa, para as meninas. Pode-se ver como esses meninos e jovens são importantes!

Anjinhos e coroinhas são bela tradição, sentida recordação de quem viveu a experiência e a contempla em alguma foto guardada pela mãe que sente emoção pelo filho coroinha, pela filha anjinho. Ou ajudando no altar ou abrilhantando solenidades, neles mergulhamos na singeleza da infância e da mocidade, no desejo de emendar os fios rompidos da primeira religiosidade. Complicamos tanto nosso presente que nos emocionamos ao afirmar: “Aquilo é que era tempo bom!”. Continua bom.

Pe. José Artulino Besen

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