Arquivo para categoria Deus e Criação

NÃO ADIANTA QUERER SER OUTRO 

Criança em plantação de chá - Ruanda - Sebastião Salgado - 1991

Criança em plantação de chá – Ruanda – Sebastião Salgado – 1991

Tu és meu filho, eu hoje te gerei (Sl 2,7).

Contou um monge do deserto do Egito, no século 4º, que um noviço chamado Cirilo se entregava a muitas penitências, vida de oração contínua que a cada dia ia alterando sua personalidade, a ponto de seus companheiros quase não o reconhecerem mais. Seu mestre espiritual o chamou e perguntou-lhe o porquê de tanta mudança. Cirilo respondeu satisfeito: “Meu pai espiritual, tudo o que estou fazendo, os sacrifícios que aceito e a mudança que estão observando em mim prova que estou no caminho certo: quero ser igual a Santo Antão”. Cheio de experiência e de sabedoria, o velho mestre o repreendeu: “Meu filho, Deus não quer que você seja Santo Antão. Deus quer apenas que você seja Cirilo!”.

O ser humano é único e irrepetível. Não há nem haverá alguém igual a nós, somos originais. Isso também significa que não somos reencarnação de alguém que em outra época teve outra cara, outra personalidade e outro nome. Diz a Sagrada Escritura: “Tu és meu filho, eu hoje te gerei” (Sl 2,7), e não “Tu és meu filho, eu hoje te reencarnei”… A reencarnação nega a nossa individualidade e a nossa liberdade, pois supõe que tenhamos sido outro em outra encarnação e que estejamos pagando pelos erros desse outro, como um karma. Deus criou nosso ser no momento de nossa concepção, quando soprou um sopro de vida novo.

Quando o mestre espiritual na história contada há pouco diz que “Deus quer apenas que sejamos nós mesmos”, nos coloca diante de duas realidades fundamentais: nossa originalidade e nossa missão única no mundo.

Somos únicos e necessários

Deus nos criou de modo único. No meio dos bilhões de habitantes da terra e dos bilhões de antes e do futuro, ninguém foi ou será igual a nós, nem na aparência nem na personalidade. A Bíblia diz que fomos tecidos no ventre de nossa mãe, cada um de nós é uma obra-prima da sabedoria e do amor de Deus (cf. Sl 138,13-14).

Copiar é obra da limitação humana, incompatível com a inteligência divina: Deus cria, não copia. Somos únicos no mundo. A consequência é que devemos nos estimar e valorizar. Não somos qualquer coisa, nem qualquer um. Deus não cometeu erros quando nos criou: somos obra de seu amor. Por que, então, estar reclamando de si mesmo, da inteligência, do aspecto externo, das limitações naturais? Seremos felizes não nos comparando com os outros, querendo ser outro, mas valorizando cada vez mais a maravilha que somos nós, alimentando uma visão positiva a respeito de nossa individualidade.

Outro ponto fundamental: nossa vida é única e necessária. Deus não cria pessoas descartáveis ou supérfluas. Cada um de nós tem uma missão a cumprir na história do mundo. Se não a cumprirmos, a história humana ficará incompleta. Isso mostra a importância de nossa vida. Nossas omissões deixarão a história humana imperfeita. Veja a responsabilidade que Deus colocou em nossas mãos: completar ou deixar incompleta a criação!

Então, tudo o que realizamos adquire uma importância decisiva no plano de Deus. Se não temos isso bem claro, fazemos as coisas mais ou menos, reclamando e até deixando de fazê-las porque nos julgamos uns pobres coitados, inúteis, incapazes.

Resumindo: eu me chamo José, Maria. Sou necessário ao mundo. Deus quer apenas que eu seja José ou Maria. Nada de complexos ou comparações. Eu me basto para ser feliz.

Pe. José Artulino Besen

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TRINDADE SANTA – PAI, FILHO E ESPÍRITO SANTO

A Trindade Santa - ícone de Andrej Rublev - 1425.

A Trindade Santa – ícone de Andrej Rublev – 1425.

No primeiro domingo depois do Pentecostes, a Liturgia nos faz contemplar nosso Deus, a Trindade Una e Santa, nos leva a mergulhar em sua beleza de amor. Há cristãos que acham o Deus Trindade um assunto muito complicado, que quase ninguém sabe explicar menos ainda, entender. Lembro aqui algo fundamental na fé: Deus não se explica, mas é narrado através daquilo que revela na Escritura e na criação, e Deus não se entende, mas se vive no mistério revelado por Jesus. É claro que se pode explicar e entender como analogia, pois a razão está a serviço da fé mas, que não se pode é transformá-lo em teorema, pois ele é amor. Trilhando a narração da história da Salvação chegaremos ao caminho de Jesus.

“Desde o nascimento da Igreja, é ele (o Espírito Santo) quem dá a todos os povos o conhecimento do verdadeiro Deus” (Prefácio de Pentecostes). Nosso Deus não é somente o Deus do Antigo Testamento, não é o Alá dos muçulmanos, não é Brahman, não é Buda. Nosso Deus é o Pai, o Filho e o Espírito Santo, três Pessoas divinas pelo amor unidas num só Deus. E, após a Encarnação, nosso Deus é Pai, Filho divino e humano e Espírito Santo. Em Cristo, a humanidade participa da vida trinitária.

Por que podemos falar assim, quase com soberba, com tanta segurança? Porque Deus nos revelou através de seu Filho, que esteve entre nós. É um Mistério tão fascinante que se procura “humanizar”, tornar palatável à inteligência através também de uma teologia avessa à contemplação. Vale a frase do convertido romancista inglês G.K. Chesterton: “os tempos modernos estão infestados de ‘virtudes cristãs tornadas loucas’ para que possamos aceitar o mistério”. Nosso Deus é conhecido por comunhão de amor, por contemplação maravilhada e não por discussões ou pela inteligência. Dele sabemos o que nos revelou, assim como também nós somos conhecidos somente naquilo que revelamos.

Contemplemos nosso Deus, concretamente, agindo em nossas vidas pelo amor sem medida, fiel, misericordioso, excessivo na beleza de criação. É escândalo para judeus, muçulmanos, religiosos de todas as nações, intelectuais, ouvir que nosso Deus morreu na cruz por amor, que ele é frágil, sofre da mais bela das doenças: a doença do amor.

Nosso Deus é comunhão – Tri-Unidade

Nosso Deus é a Tri-Unidade, Deus uno e três vezes santo, comunhão de amor entre Pai, Filho e Espírito Santo, comunhão não fechada em si, mas, que se abre a nós, chamados a acolher e a responder a tal amor. Como sempre, no Cristianismo, a meditação sobre Deus parte do homem Jesus Cristo, “o Filho unigênito que narrou Deus” (cf. Jo 1,18), que não traz uma “mensagem”, mas sua própria Pessoa divina e humana.

O Deus Trindade não é intimismo, solidão: é voltado para fora, comunica-se com o homem, seu amor é para o mundo, é “Deus para nós e por nós”. Rémi Brague, filósofo e historiador francês, afirma que “O dogma trinitário é o esforço obstinado de aprofundar a afirmação do apóstolo João de que “Deus é amor” (1Jo 4,8). “Deus é amor” é o nome de nosso Deus, pleno de compaixão e misericórdia, capaz de graça e de perdão, desce para alcançar o homem na escravidão e no pecado, como no caminho do Êxodo do Egito.

Deus ama a tal ponto o mundo, a humanidade, que lhe dá seu Filho para a salvação dele. Um filho único é toda a vida de um pai, é o que ele mais ama: o Deus que doa o Filho único, Jesus, é o todo-poderoso Deus movido por um amor louco. Há um excesso no amor divino e esse excesso é o Filho Jesus Cristo: que consumiu sua vida até à morte na liberdade e por amor de nós e, com o seu passar entre nós, fazendo o bem na potência do Espírito Santo (cf. At 10,38), narrou-nos que “Deus é amor” (1Jo 4, 8.16).

“Deus tanto amou o mundo que lhe deu seu Filho unigênito, para que quem nele crer não morra, mas tenha a vida eterna”. Com sua vida e com sua auto-doação, Jesus revelou o amor louco de Deus pelos homens. Renascido do alto, Paulo procura fazer da comunidade de Corinto uma morada do “Deus do amor e da paz” (2Cor 13,11). O homem é chamado à semelhança divina.

“Deste modo se manifestou o amor de Deus por nós: Deus enviou seu Filho ao mundo para que nós vivêssemos por meio dele. Assim é o amor de Deus: não fomos nós que amamos Deus, mas é ele que nos amou e enviou seu Filho como vítima de expiação por nossos pecados. Desse modo conhecemos que permanecemos em Deus e Deus em nós: pelo Espírito que ele nos deu como prêmio. E nós contemplamos e testemunhamos que o Pai enviou o Filho como Salvador do mundo (cf. 1Jo 4, 9-14). E, pela potência de Deus, o Espírito Santo, podemos renascer de verdade, do alto.

Assim nos ama Deus

A ação do Deus Uno-Trindade é perdão, amor, comunhão e podemos experimentá-la em nossa vida de . O modo com que Deus nos ama é antes de tudo fidelidade ao homem infiel, incapaz de querer corresponder a esse amor: a fidelidade e o amor de Deus tornam-se sua responsabilidade pelos homens pecadores. Deus se preocupa conosco, sente-se responsável por cada um de nós. E é assim que seu amor, unilateral e incondicionado, não condena, mas salva.

E como Deus provou seu amor? Na cruz, assumindo a forma do escândalo, do excesso que quebra todos os parâmetros humanos de reciprocidade, correspondência e retribuição do amor. O dom superabundante demonstrado na cruz é o perdão de Deus, o amor que Deus já predispõe para aquele que peca ou pecará. Nossos pecados já foram contemplados pelo Filho na cruz: o perdão já foi ofertado, aceitá-lo é da nossa responsabilidade.

O Deus que ama é também o Deus que sofre se não aceitarmos seu amor, se rejeitarmos a graça que vem do Filho e da comunhão no Espírito. Sofre se encetamos uma viagem que o torna sempre mais distante do horizonte de nossa vida. O Deus Trindade é o Deus que não vive sem o homem. E o homem, pela fé situando-se em Cristo e deixando-se guiar pelo Espírito, passa a morar no ágape, no amor, e assim, conhece a comunhão com Deus, com o Deus que é amor. O ágape, amor em plenitude, gratuito, é o coração da vida trinitária.

O grande modelo para o anúncio da Beleza que salvará o mundo é a Trindade: harmonia e beleza sem limites, amor que une três Pessoas num Deus, a juventude do Filho, a feminilidade do Espírito, o encanto do Pai. A Trindade se revelou de modo pleno na beleza de Maria, venerada por todos os povos em sua beleza e encanto. Os místicos gostam de falar de Deus como “el Hermoso”,  o Formoso. Deus é formosura.

Nossa resposta ao nosso Deus: acolhendo tal amor somos capazes de exercitá-lo, amando-nos uns aos outros. O Filho nos redime, o Espírito cria a unidade, o Pai acolhe sem condições e passamos a profetizar. Deste modo o amor de Deus pode difundir-se e manifestar-se na história. E com o universo cantaremos o hino: “Onde o amor é verdadeiro, aí Deus está!”.

Pe. José Artulino Besen

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NOSSO DEUS, O PAI DE JESUS CRISTO

Na criação resplandece o amor do Pai

Na criação resplandece o amor do Pai

AS SAUDADES DE DEUS

Deus não esperava a atitude de Adão e Eva. Queriam ser como ele e, até mais, queriam negá-lo. Os dois eram crescidos, mas tinham coração de criança. Pela inexperiência e ingenuidade foram logo enganados pela serpente.

Inicialmente, fez que não viu nada, quem sabe, retornariam pedindo perdão e nova chance. Nada acontecia. O dia estava acabando e eles estavam lá, nus, envergonhados. Chegando a noite, lamentou Deus, passariam frio.

Entristecido, pensou em conversar com eles, mas percebeu que preferiam ficar escondidos, não desejavam mais sua companhia.

Deus tomou uns pedaços de pele de animais, uma agulha, e costurou uma roupa para Adão e outra para Eva. Achegou-se deles e os vestiu carinhosamente, como se fosse uma mãe. Da parte deles, nenhuma palavra.

Respeitando sua decisão, abriu a porta do paraíso e deixou que saíssem. Antes de partirem, deu mais uma ajeitada nas vestes e tomou coragem para dizer: “Olhem, essa roupa fui eu que fiz para vocês. Cada vez que se despirem ou vestirem, não se esqueçam: eu costurei cada pedaço de acordo com seu tamanho. Se ficar apertada voltem, eu arrumo”.

Adão e Eva foram caminhando, caminhando. Dois anjos se colocaram à porta do paraíso, para evitar que Deus também fosse embora com os dois (do Livro do Gênesis – 3,20).

 DEUS INVENTOU O PERDÃO

Antes de fazer definitivamente o mundo, prevenindo complicações futuras, Deus fabricou um protótipo da criação. Queria analisar-lhe o funcionamento.

Realizou muitas experiências, mas não ia bem. Os planetas encontravam a teimosia das estrelas, os cometas, vaidosos, não aceitavam caminhos definidos, o riacho reclamava da água da chuva que lhe manchava a pureza, o urubu achava o beija-flor muito irrequieto para seu gosto, e também as flores reclamavam dessa avezinha gulosa e sem sossego. Para complicar, o homem reclamava da mulher, que reclamava das crianças, que reclamavam da comida… Nada parecia bom, pois cada um queria viver por si e não perdia ocasião de uma vingança.

E Deus concedeu-se um tempo para responder ao enigma: por que nada funciona, nada permanece de pé, se tudo está muito bom?

Talvez a alternativa fosse criar tudo perfeito. Mas isso não seria mais criatura e sim, cópia dele mesmo.

E na sua sabedoria e amor, tirou de seu peito a receita para deixar a criação em pé: inventou o perdão. E assim tudo foi feito.

Milhares de anos depois, a criação andava de cabeça para baixo. Percebendo a inutilidade de seus esforços, Deus tomou a decisão de a tudo destruir para realizar outra obra. Ia proferir sua palavra final de justiça, quando escutou um grito saído do profundo da história: “Pai, perdoai-lhes! Eles não sabem o que fazem!”

Olhou para baixo e viu seu Filho, nu, coroado de espinhos, se esvaindo em dor e sangue, pregado numa cruz, em Jerusalém. Deus, cheio de ternura, atendeu a seu amado Filho Jesus, pois viu que ele tinha praticado o perdão (da sabedoria hassídica).

À PROCURA DO FILHO

Enquanto os bons trabalham, escondidos nas igrejas,
religiosos e religiosas se protegem com suas vestes,
cristãos se defendem contra os maus,
excelências reverendíssimas discernem os males do mundo,
mestres de cerimônia discutem a qualidade do incenso,
reverendíssimos reprovam os que fogem de sua cartilha,
os perfeitos se orgulham de não errar,
teólogos suam para penetrar nos mistérios,
filósofos procuram a essência das coisas,
Deus sobe a mais alta montanha,
esperando, preocupado,
o retorno de um filho perdido.

A OVELHINHA PERDIDA

O Bom Pastor

O pastor percebeu a falta da ovelhinha. Para seu conforto, 99 ovelhas, gordas, bonitas, cheias de lã, estavam ali. Mas, a ovelhinha fazia falta: logo se percebia sua ausência: o sossego e o bom comportamento se instalavam, pois acabava a graça de suas aventuras. Na verdade, muita ovelha gorda gostaria de aprontar, mas tinha um nome a zelar.

O pastor, para cansaço das 99, resolveu ir procurá-la, correndo até o risco de uma revolta enquanto durasse a ausência.

Subiu e desceu colinas, saltou pedras e obstáculos, atravessou areais. Finalmente encontrou a ovelhinha: estava à beira de um riacho, bebendo água. Olhou-o com o rabinho do olho, cheia de alegria, fingindo que não era com ela.

O pastor suspirou aliviado, correu-lhe ao encontro e tomou-a ao colo. Sentiu seu coração saltando forte no peito. Estava emocionada e cansada. Feliz, encostou cabecinha em seu peito e falou-lhe cheio de ternura, enquanto ela lhe lambia o rosto: “Pobrezinha! Você está tão cansada. Ninguém me disse que você foi para longe porque estava com sede e com fome!”.

E decidiu carregá-la ao pescoço.

Chegando ao curral, deu ordens para que, a partir daquele momento, as ovelhas mais jovens caminhassem sempre à frente, para poderem pastar as ervas mais tenrinhas.

(Shemot Rabbã, II,2).

Pe. José Artulino Besen

 

 

 

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ESCRAVOS EM NOSSO TEMPO

 28 de fevereiro – Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo

“O tráfico de pessoas é uma atividade ignóbil, uma vergonha para as nossas sociedades que se dizem civilizadas”, afirmou Papa Francisco, cuja preocupação com as migrações internacionais fê-lo ir à Lampedusa, no sul da Itália, em 8 de julho de 2013. Essa ilha é o porto onde desembarcam milhares de africanos e asiáticos, fugindo da guerra e da miséria, ou sendo enganados por atravessadores que enchem barcos inseguros de pobres ao lhes prometerem o paraíso.

A denúncia papal ajuda-nos a abrir os olhos para uma realidade que preferimos situar no passado, no século 19: a escravidão e o tráfico de escravos. Um capítulo vergonhoso da história humana e que fez do Brasil o maior importador de escravos africanos entre os séculos 16 e 19. Mas, é também um capítulo vergonhoso que está presente em nossos dias.

A Campanha da Fraternidade de 2014 tem como tema “Fraternidade e Tráfico Humano” e como lema  É para a liberdade que Cristo nos libertou (Gl 5,1). A redenção que o Filho de Deus nos traz inclui a dignidade fundamental de pessoas livres, dotadas de liberdade. Sem a liberdade é-nos subtraído um aspecto decisivo do ser humano: ser livre.

O tráfico humano, ou tráfico de pessoas humanas tem como conseqüência a escravidão, que se define como forçar alguém a trabalhar, sob ameaça de violência, sem remuneração além da subsistência. O tráfico assume modalidades diversas: traficar um ser humano para a exploração no trabalho, traficar para a exploração sexual, traficar para a extração de órgãos, tráfico de crianças e adolescentes.

Nas extremidades dessa ação criminosa se encontra alguém sem escrúpulos, levado simplesmente pela busca do dinheiro, e a pessoa fragilizada pela miséria onde nasceu ou pelas promessas de uma vida melhor, em situação de vulnerabilidade social. É a mulher aliciada por ganhos extraordinários em emprego no exterior e que termina nas malhas da prostituição na Espanha, Portugal, Holanda, Alemanha. É a criança seqüestrada e tempos depois devolvida com um rim só, pois o outro foi extraído e vendido. É o migrante brasileiro seduzido por um gato que o leva para grandes fazendas e ali fica em situação análoga à escravidão, devedor da passagem e dos mantimentos.

Benjamin Skinner, historiador norte-americano, em 2008 publicou um livro estarrecedor: A Crime So Monstrous: Face-to-Face with Modern-Day Slavery – Um crime tão monstruoso – face-a-face com a moderna escravidão.

Tudo começou quando descobriu um grupo evangélico pretendendo comprar escravos em massa para garantir a sua liberdade. Resolveu investigar esse processo. Por cinco anos, em 12 países, rastreou mais de uma centena de escravos, traficantes de escravos e ex-escravos pela Índia, Romênia, Dubai, Haiti, Sudão, Holanda, Turquia, Europa oriental. E também em Nova Iork, descobrindo que se poderia ir dessa cidade à capital do Haiti, e por 50 dólares adquirir um escravo de 12 anos.

Descobriu mega bordéis em Bucareste e grandes haréns para milionários e turistas na famosa Dubai. Seqüestros e venda de mulheres birmanesas para serem vendidas como esposas para chineses. Muçulmanos do Sudão aprisionando cristãos para depois trafica-los com organizações cristãs que os libertavam.

Seu caminho tornou-se claro quando entrou em contato com um escravo em carne e osso: Muong Nyong era sudanês e estava a correr, descalço, por duas semanas, no deserto escaldante buscando a liberdade. Nyong revelou-lhe o que era ser escravo no século 21 e ajudou-o a mergulhar no mundo da escravidão moderna. E assim, Skinner tornou-se a primeira pessoa da história a desvendar a venda de seres humanos nos quatro Continentes. Conheceu crianças escravas nas carvoarias e fábricas de tijolos no Brasil e na Índia. Latino-americanos escravizados em luxuosas confecções paulistas. Jovens escravizados por dívidas dos pais. Irmãos vendendo as irmãzinhas como se isso fosse natural. Crianças deformadas propositalmente para serem usadas no pedido de esmolas. Escravos por violência, escravos vítimas de falsas promessas.

Sua conclusão foi dolorosa: hoje temos mais escravos no mundo do que em qualquer outro período da história humana: registrou 27 milhões de homens, mulheres e crianças cuja escravização anualmente rende 32 bilhões de dólares.

Alguns dados desse drama moderno:

  • No topo da lista, a Mauritânia – 140/160 mil em 4 milhões de habitantes, o que significa 4% da população.
  • Haiti – 200 mil
  • Paquistão – 2 milhões
  • Índia – 14 milhões de escravos.
  • China – 3 milhões
  • Brasil – 200/220 mil.
  • Nigéria – 701 mil
  • Etiópia – 651 mil
  • Rússia – 516 mil
  • Tailândia – 472 mil
  • Congo – 462 mil
  • Mianmar – 384 mil
  • Bangladesh – 343 mil 

O número de pessoas hoje privadas da liberdade é maior do que o retirado da África nos séculos 17 e 18 (cf. globalslaveryindex.org). Se, na origem da escravização africana, estava o conceito de raça inferior, amaldiçoada, hoje o grande motivo reside na convicção de tantos para quem a mulher, o jovem e a criança pobres podem ser subjugados, colocados a serviço de gente “superior”. Antes como agora, a busca do lucro e do prazer.

Felizmente, hoje existem protocolos internacionais banindo o tráfico humano e o Brasil é signatário deles. O que Skinner trouxe de novo foi o alcance numérico da escravidão contemporânea, pois não se pensava que nosso mundo iluminista, técnico se pensava livre dessa praga antiga e percebe que ela brota e cresce em seus centros desenvolvidos.

A Campanha da Fraternidade nos convida à conscientização da liberdade dos filhos de Deus, feitos à imagem e semelhança do Criador, chamados a serem cooperadores da obra divina e nunca para serem subjugados por outro ser humano. Um fato marca quem entra em contato com essa realidade: mesmo escravizados, no final de um dia trabalho o menino brinca com qualquer objeto parecendo bola, e a menina se produz diante de um espelho. Tão sofridos, e tão crianças ainda.

Pe. José Artulino Besen

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O AMOR E A PROFUNDIDADE DOS SEXOS

igor-mitoraj-sono-iiNossa cultura avalia as coisas e ações pelo prazer ou dor que produzem e, para isso, não rejeita fazer o corpo sofrer para tornar-se uma fábrica de orgasmos: regimes ascéticos, liposucções e lipoaspirações, socorro de Viagra, RU-486, vibradores eletrônicos, a prática de um eros virtual, a pornodependência da internet e tantos outros. Por causa do hedonismo, nossa sociedade é tremendamente mortificadora.

O prazer é procurado na quantidade, cumpulsão, o encontro sexual é reduzido ao prazer físico e ao orgasmo: é preciso possuir o outro para fazê-lo instrumento do prazer que é possuí-lo. Reduz-se a riqueza humana a um corpo que se torna objeto, mercadoria e diz-se: «o corpo é meu e faço dele o que bem entendo». É uma pena, pois não tenho um corpo, mas sou um corpo e não posso me destruir fazendo o que bem entendo.

Esquecemos que a energia sexual é unificadora se dirigida pelo amor, pela comunicação, pela relação, uma história de amor. Reduzida ao erotismo se fragmenta, divide, dissipa o sujeito (Fabrice Hadjadj [1]). O ato carnal não é essencialmente gozo, mas comunhão de duas pessoas.

Certa moral cristã insiste tanto no pecado carnal que esquece o pecado espiritual, diabólico, raiz de tudo: o demônio é um espírito. A Bíblia oferece compreensão para o pecado carnal, nunca para a infidelidade. Na genealogia de Jesus encontramos cinco mulheres: Tamar foi explorada pelos filhos de Judá e teve um casal de gêmeos com ele; Raab era prostituta; Betsabéia foi obrigada a ser adúltera com Davi; Ruth era estrangeira pagã. Quatro mulheres mal afamadas, e a quinta é Maria, Mãe de Jesus. O pensamento bíblico insiste na fidelidade, e nós insistimos na castidade, onde o que é da carne é pecaminoso.

A alegria da união do homem e da mulher é tão sagrada que livra o noivo do serviço militar: «Se um homem é recém-casado, não irá à guerra nem lhe será imposto nenhum cargo, mas ficará livre em casa durante um ano, para se alegrar com a mulher que desposou» (Dt 24, 5). Os rabinos não separam a Torah da união carnal de que origina a família e afirmavam: «Não há família sem a Torah, e não há a Torah sem a família». A união sexual brota da Torah e da Torah brota a união sexual. Atualizando: «não há família sem Evangelho, e não há Evangelho sem a família», porque Deus põe o casal como símbolo de sua Aliança com a humanidade. O amor nupcial se define pela aliança cujo protagonista é Deus: a comunhão de vida e de amor vivida no matrimônio é um sinal do amor fiel de Deus pela Humanidade.

A fecundidade divina na fecundidade humana

O ato sexual é uma santificação: há o sacramento do matrimônio, de modo que a união do homem e da mulher é sinal vivo da união de Deus com a humanidade, de Cristo com a Igreja. Assim, o ato carnal não é somente abençoado, é também imagem da união na Trindade e início imediato da Redenção.

Tudo isso é tão belo que exige a alegria da unidade: num homem estão todos os homens, numa mulher estão todas as mulheres. Quando se casa, o homem acolhe todas as mulheres numa só e eles se pertencerão na geração da fidelidade. Deus não é homem nem mulher, ou então, assume em si, num modo inefável, as perfeições do masculino e do feminino. Cristo é celibatário para melhor ser esposo de cada alma. Maria é virgem para melhor ser mãe. O celibato masculino e feminino é fecundo, inclusivo, não estéril proibição ou privação do prazer.

O mistério central do Cristianismo é a Encarnação: o Pai quer nos salvar e faz seu Filho encarnar-se, mergulhar na carne e gerar carne divino-humana. A encarnação redentora é precedida de todas as pessoas frutos da encarnação do homem na mulher.

Essa é a vontade de Deus na criação: os anjos, criou diretamente. O homem e a mulher, porém, Deus cria necessitando da intermediação do homem e da mulher: espera pacientemente que os futuros pais durmam; somente através da interpenetração dos dois corpos Deus cria uma alma, um ser humano, mesmo que o ato tenha sido violento, pois a invasão da morte não extingue os pequeninos amados por Deus e criados para sua glória. Retribui a generosidade do casal com um prazer unificador e total.

O casal se une como fruto duma história de amor, na experiência do amor plural: um só amor em dois amores. A presença de Deus no ato sexual tem como fruto a capacidade do ser humano se relacionar com o Absoluto. Deus se abre a nós e nós nos abrimos a ele, como na Eucaristia: recebemos Cristo encarnado e por ele somos recebidos.

É no relacionamento humano dos sexos – pois todo encontro é sexual, sempre acontece entre homem e mulher – que cada um se revela ou aproveitador destrutivo ou ser voltado para a comunhão, capaz da amizade, da doação e do heroísmo.

Pe. José Artulino Besen


[1] Fabrice Hadjadj: judeu a ateu, e hoje cristão católico. Devo-lhe as intuições desse texto.

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PARAÍSO CELESTE, PARAÍSO TERRESTRE

A criação, desperdício de Beleza

A criação, desperdício de Beleza

Deus tomou o homem
e o colocou no jardim do Éden
para o cultivar e o guardar (Gn 2,4-17).

O paraíso terrestre, onde Deus colocou o homem e a mulher, obriga-nos a fazer uma pergunta diante do mundo que temos: É esse mundo, cheio de sofrimentos, o mundo que Deus planejou para o ser humano? A Bíblia diz que não: para o homem, Deus reservou o paraíso! Depois, o Senhor Deus plantou um jardim em Éden, a oriente, e pôs ali o homem que havia formado. O texto bíblico não afirma que o ser humano foi colocado em qualquer jardim, e sim, num jardim plantado pelo próprio Deus. Isso revela o carinho divino por cada um de nós: tudo canta a glória de Deus, é verdade, mas tudo Deus fez para seus filhos.

Não podemos fazer uma leitura apenas literal da Escritura: imaginar que o paraíso fica num outro mundo ou é um lugar tão especial como nunca houve nem nunca haverá. O paraíso bíblico está situado no próprio mundo, que Deus achou muito bom (Gn 1,25) após tê-lo criado. No plano de Deus, a vida humana se situava num ambiente de bondade, de equilíbrio.

Alguns sinais bíblicos indicam em que consistia o paraíso. Primeiro, não havia solidão: homem e mulher se completavam em tal comunhão de vida que eram uma só carne. O homem e a mulher eram senhores da natureza, a tudo dominavam, não sendo escravos de nada: viviam em liberdade. A mulher dava à luz sem sofrimento: realizava na alegria sua missão de mãe. O trabalho não era visto como castigo, suor sofrido, mas colaboração com Deus no aperfeiçoamento da criação. Estavam livres da angústia da morte porque viviam em Deus. Estavam nus e não se envergonhavam (Gn 2,25): a nudez não significava fraqueza, falta de proteção, derrota, mas verdade, transparência, autenticidade. Homem e mulher se aceitavam como eram. Viver no paraíso incluía o respeito mútuo nas qualidades e defeitos. Por último, conversavam com Deus, “que passeava no jardim, à hora da brisa da tarde” (Gn 3,8). Estar em comunhão com Deus é o nosso paraíso.

Assim, a vida no paraíso não era viver na preguiça, tendo tudo pronto, Deus substituindo o trabalho humano. Era o estado de vida em que homem e mulher viviam em comunhão consigo mesmos, com Deus e com a natureza, em paz.

Sonhar com o paraíso é sonhar com o plano de Deus e esperar recuperá-lo.

Se a lembrança do paraíso de nossos primeiros pais evoca o sentimento da saudade, a fé no plano de Deus nos faz acreditar que, pelo nosso empenho, é possível restaurá-lo. E mais: o paraíso é construído ou destruído com nossa responsabilidade, pois nos foi entregue para dele cuidarmos.

Deus nos fez senhores de sua obra. Ser senhor é ser guardião, conservar, restaurar, embelezar, proteger. Ninguém, em são juízo, estraga o que é seu, por isso, diante da criação que nos foi entregue, nossa atitude é de amor e louvor. Tudo canta a glória de Deus.

Colaboração e louvor

Tudo vem de Deus, tudo é de Deus, mas tudo nos é confiado para que vivamos a dignidade de colaborar com o Criador através do trabalho incessante pelo qual transformamos a feiúra em beleza, a confusão em ordem, a cada dia refundando a obra divina.

Deus não tem ciúme de nossa competência, não se sente diminuído pelo progresso da ciência, pois também ela está em seus planos. Conta um sábio judeu que um homem cuidava de seu jardim, a cada dia deixando-o mais belo, plantava novas flores para que encantassem os visitantes. Sempre que alguém vinha visitá-lo, ao ver tanta beleza acabava dizendo: “Isso somente pode ser do senhor e de Deus”. E assim a cada dia, a ponto de o jardineiro sentir-se melindrado em dividir seu trabalho com Deus. Num dia, bastante irritado, respondeu: “Vocês falam sempre ‘isso só pode ser do senhor e de Deus’, mas, deviam saber o estado em que tudo isso se encontrava antes de mim!”. Tirando as invejas, é verdade: Deus confia que faremos sempre o melhor com o que nos deixou.

O Senhor também quer ser louvado pelo conjunto de sua obra. Louvá-lo é a melhor parte da oração e nos faz muito bem. Quando sabemos louvar, admirar, ser tomados pelo encanto da beleza temos mais saúde, alegria. Louvar a obra divina é alegrar o Criador. Entra aqui a sabedoria de um velho judeu alemão. Gastara os anos de sua vida, dia por dia, atravessando as noites, para estudar as Sagradas Escrituras. Sua vida era seu quarto, a lâmpada e o texto bíblico. Num dia, para susto de todos, ergueu-se e falou, decidido: “Vou para a Suíça!”. Ninguém conseguiu acreditar nessa notícia, nem entender o motivo, até que ele explicou: “Estive pensando que a morte está próxima, e acontecerá o julgamento diante do Senhor. E me veio à mente: e se o Senhor me perguntar ‘o que achou da beleza dos Alpes suíços?’, quanta vergonha sentirei, pois nunca estive lá. É o que vou fazer, enquanto tenho tempo”. Deus se alegra em sua obra.

Assim transcorre a vida no paraíso que recebemos e construímos: buscamos a paz em tudo o que fazemos, sabemos que tudo nos foi dado pelo Senhor que, por sua vez, espera tudo de nós, e quer viver como nós. Foi essa a razão pela qual, no tempo apropriado, enviou seu Filho, para ser um de nós, viver a experiência humana.

Pe. José Artulino Besen

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E DEUS CRIOU O SER HUMANO

Adão e Eva revestidos de luz - Igreja de Santa Maria - Maribor - Eslovênia

Adão e Eva revestidos de luz – Igreja de Santa Maria – Maribor – Eslovênia

«E Deus disse: ‘Não é bom que o homem esteja só.
Vou fazer uma auxiliar que lhe corresponda’. …
Depois, da costela do homem,
Deus modelou uma mulher e a trouxe ao homem».

(Gn 2,18-25).

O texto do livro do Gênesis 2, 18-25 é precedido de uma cena rica em simbolismo: Depois de ter criado a terra, os astros, as plantas e os animais, o Senhor fê-los passarem diante do homem, que a tudo deu nome, com isso tomando posse de tudo. Mas, com tanta coisa que lhe fora entregue, não estava feliz, pois não encontrara em nenhum deles uma companhia que vencesse sua solidão.

Seria mesmo estranho que o ser humano vencesse a solidão com terra, plantas, animais, riquezas naturais. Para o ser humano, somente um ser humano, pois o Senhor prometera: Vou fazer uma auxiliar que lhe corresponda.

A tudo o Senhor criou com fartura, em grande número, mas, somente o ser humano foi criado único, à imagem e semelhança dele e com uma missão própria e única em toda a criação. Ele, de certa forma, é a síntese de todas as obras divinas e pode entrar em comunhão com todas.

À imagem e semelhança de Deus, o ser humano encerra em si toda a beleza.

Um sábio judeu assim se refere à criação do humano:

Para criar o primeiro homem/mulher Deus tomou terra dos quatro ângulos do mundo, misturou-a com a água dos quatro oceanos e, depois, infundiu-lhe o sopro dos quatro ventos. Assim fez para que todos os povos fossem representados no primeiro homem, pois cada ser humano é filho do pó da terra dos quatro pontos cardeais, da água de todos os oceanos e do sopro dos quatro ventos.

Assim fez o Senhor para nos ensinar que todos os povos são iguais, nenhum sendo superior ao outro em natureza e cultura. E criou a humanidade de um único ser para sabermos que quem mata um ser humano está matando a humanidade inteira e quem salva um ser humano, também salva toda a humanidade.

Solidão e nudez

Voltemos ao homem que ficou na solidão, mesmo tendo tomado posse de tudo. No decorrer dos tempos ele procurou vencer a solidão com coisas, plantas e animais, mas não foi possível. Nossa sociedade solitária inventou os bichos de estimação – gato, cachorro, passarinhos – para não estar só. Uma pena, pois cada um está rodeado de tanta gente que é abandonada e poderia fazer-nos companhia. Devemos agradecer aos bichinhos que confortam e fazem companhia a tanta gente, mas não foi essa a solução oferecida pelo Criador.

O Senhor, ao contemplar Adão sentiu a solidão humana e fez um outro ser, a mulher, para companhia do homem que pulou de alegria, pois era carne de sua carne, osso de seus ossos. Uma companhia à altura. A Palavra não diz que somente a mulher faz companhia ao homem, pois muitos nem se casam. Ela ensina que o Senhor criou outro ser humano para companhia humana, criou o humano de outro humano: um filho que se consagra totalmente ao cuidado dos pais velhos, venceu a solidão; uma religiosa, um padre, que se consagram a uma comunidade ou obra de caridade encontraram companhia conveniente, um eremita vive sua solidão em comunhão com Deus e junto a ele intercede por todos. O que não se pode é fugir das pessoas e refugiar-se nas criaturas. Deus fez as aves do céu, mas somente o ser humano ele criou à sua imagem e semelhança.

Somente nós podemos fazer companhia a Deus.

O homem e a mulher estavam nus e não se envergonhavam (Gn 2, 24-25). O texto sagrado contrapõe essa afirmação positiva à outra, negativa: após o pecado, o homem e a mulher estavam nus e sentiam vergonha um do outro (Gn 3, 7). Seria empobrecer o texto bíblico ver nessas afirmações apenas a conotação sexual. Existem povos que passam parte da existência nus, e não se envergonham e, esses mesmos povos, cobrem-se nas estações frias.

Estar nu, a nudez, evoca a intimidade e a fragilidade. Ficar nu é arrancar as máscaras, os disfarces. Expor a própria fraqueza permite o desenvolvimento de uma história em comum. Se o ser humano oculta a verdade de si mesmo ao outro/outra, vive de engano e obriga o outro a viver também de engano.

É um esforço grande, positivo e necessário, revelar-se nas fraquezas e forças e aceitar a revelação da outra pessoa. Feito de outro ser humano, o humano somente pode se aperfeiçoar revelando-se ao humano. Revelar-se não é dominar, possuir, destruir, diminuir. Revelar-se é estar diante do outro como se é e olhá-lo como ele é. E não sentir vergonha da nudez, mas ver nela a possibilidade da construção de um caminho.

O Senhor nos fez do melhor modo possível, com o que de melhor possuía para que deixemos sempre mais belo o trabalho de suas mãos.

Pe. José Artulino Besen

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A CRIAÇÃO DO MUNDO E A DIMINUIÇÃO DE DEUS

Dança azul - Tom Wesselmann

Dança azul – Tom Wesselmann

No princípio, Deus criou o céu e a terra” (Gn 1,1-25).

A ciência tem a missão de procurar penetrar, cada vez com mais profundidade, os segredos da vida, da matéria, do universo. Quis Deus que o homem “dominasse a terra” (Gn 1,28). Mas, a ciência parece sentir-se atraída pela hipótese de negar o Criador, atribuindo tudo ao simples acaso, a uma explosão inicial que teria dado origem aos universos e depois a todas as formas de vida. Tudo bem: aceitemos a hipótese de uma explosão inicial, pois o Big Bang (grande explosão) não complica nossa fé. Ficam duas perguntas: – o que explodiu para que tudo tivesse início? – quem fez o que explodiu, se do nada nada se produz?

Permanece nos cientistas o desafio de explicar criação sem Criador. A cada grande descoberta sobre a origem do mundo surge uma nova descoberta completando a anterior. A ciência vai caminhando de hipótese em hipótese, para acabar sempre com a mesma pergunta: – E como tudo começou?

Conta uma história que o homem construiu o computador do tempo. Poderosíssimo, teria a capacidade de caminhar para trás, vencendo as etapas da história, penetrando sempre mais no passado. A cada comando, milhões de anos eram vencidos. Chegou o início da vida humana, da vida animal, vegetal, à origem dos minerais, dos corpos materiais, dos tecidos celulares, das células, estava atingindo as origens das moléculas.

Os cientistas estavam cada vez mais satisfeitos: mais alguns passos, e se chegaria ao início. Tudo estaria explicado. O computador vence as moléculas, chega aos átomos. Faz-se um novo programa e o átomo é um novo mundo a ser penetrado. Diminuto, mas tão complicado como o mais complicado dos mundos: nele há um novo universo –  prótons, elétrons, nêutrons, mésons, fótons, etc. Está chegando à última partícula do universo. Felicidade geral. Vencendo essa etapa, tudo estará explicado e todos os teólogos e religiosos estariam relegados ao museu da história, inúteis para o mundo governado pela ciência. O computador foi penetrando cada partícula do átomo, tudo parecia indicar que, finalmente, se chegaria à origem do universo. Mas, para a decepção dos cientistas, a máquina teve um superaquecimento e, no visor, lê-se um pedido de socorro, sem o qual o computador não poderia ir adiante: “Faça-se a luz!“. E a máquina se desintegrou. “Faça-se a luz” (Gn 1, 3a) é a primeira palavra de Deus na história do tempo e do espaço. Essa luz somente pode ser alcançada com o auxílio de quem a criou.

Crer que tudo é obra do acaso seria o mesmo que afirmar que um dicionário é o resultado de uma explosão numa tipografia (B. Franklin).

Assim como é próprio da ciência não ter respostas definitivas, também é da fé se completar e enriquecer com os dados científicos. “Ciência e religião não estão em conflito, mas precisam uma da outra para completar-se na mente de um homem que pensa seriamente”, afirmou ninguém menos do que Max Planck, o pai da teoria quântica. Ciência e fé não são incompatíveis: o que mais se percebe é o abuso de poder de uma sobre a outra. A ciência se dedica aos “fenômenos”, enquanto que a teologia e a filosofia se dirigem ao “fundamento” dos fenômenos, escreve o Cardeal Ravasi, do Pontifício Conselho para a Cultura e promotor do diálogo entre ciência e fé, e entre crentes e não-crentes. 

A criação, participação de Deus

No princípio, Deus criou o céu e a terra” (Gn 1,1-25). É a primeira afirmação da Bíblia e princípio essencial da fé: admitimos que Deus existe, além dele nada existia e por ele o mundo passou a existir. Sendo isso claro, nossa fé é clara. É o início da fé bíblica: Deus é o Criador.

A terra era informe e vazia e no “faça-se a luz” a ordem se impôs e teve início a evolução do universo, os sete dias da criação. A ciência trabalha com a hipótese de que o primeiro dia foi há 13 bilhões de anos. Definitivo ou provisório, esse cálculo possui grande importância: houve um primeiro dia, o mundo não é eterno.

Aqui surge a primeira objeção: se Deus é onipresente, ocupa todos os espaços, como haveria lugar para a criação? A criação seria emanação de Deus, isto é, identifica-se com o divino, como afirmam os panteístas? Para eles, tudo é Deus e Deus é tudo, enquanto que nós dizemos que tudo é de Deus e Deus é senhor de tudo.

Como fomos acostumados a refletir sobre Deus a partir da filosofia, da metafísica, temos dificuldade de pensar Deus e a criação com os critérios da revelação bíblica, da história da Salvação. Nela, Deus se revela como “aquele que se diminui”, aquele que se contrai, se autolimita.

Antes da criação, Deus ocupava todo o Universo, de modo que não haveria lugar para as criaturas. No seu amor, Deus se diminuiu, se contraiu para dar lugar à criação. Ele, perfeito, despiu-se de parte de seu poder e criou o espaço para sua obra. Simone Weil (1909-1943), encantadora filósofa e teóloga francesa, que percorreu os caminhos do judaísmo, ateísmo e chegou ao catolicismo (religião dos pobres e ignorantes, por isso verdadeira!, em seu dizer) afirma em sua obra A sombra e a Graça: “Deus, junto com todas as suas criaturas, é menos que que Deus sozinho”. Então, por que criou o mundo? Por amor e com amor. Loucura de amor.

É nesse espaço de autolimitação, diminuição que nós podemos fazer uso da liberdade, entrar em diálogo com Deus. E é nessa liberdade que podemos entender as grandes tragédias da humanidade, as guerras, os genocídios que Deus permite porque, por sua decisão, não é mais perfeitamente onipotente. É incrível, mas o Deus dos judeus e dos cristãos é um Deus enfraquecido de amor.

Dois pensadores e teólogos contemporâneos, André Neher e Hans Jonas, conduzem a essa verdade a partir da reflexão bíblica e da cabala judaica. Aceitam o Tzimtzum – contração – termo hebraico que a cabala usa para designar essa autolimitação divina para possibilitar a criação.

Bento XVI, seguindo a tradição bíblica, expõe o amor erótico de Deus pelo ser humano, o que é possível somente com a diminuição de Deus: “O amor apaixonado de Deus pelo seu povo — pelo homem — é ao mesmo tempo um amor que perdoa. E é tão grande, que chega a virar Deus contra Si próprio, o seu amor contra a sua justiça. Nisto, o cristão vê já esboçar-se veladamente o mistério da Cruz: Deus ama tanto o homem que, tendo-se feito Ele próprio homem, segue-o até à morte e, deste modo, reconcilia justiça e amor” (Deus caritas est, 10). Criação e redenção só existem como fruto do rebaixamento de Deus, cuja última “contração” é encarnar-se em Jesus de Nazaré. Deus é totalmente transcendente, está acima de tudo, e é totalmente imanente, está em tudo. Somente o amor é capaz desse milagre, aceitável apenas por quem sabe o que é amar.

Por amor e com amor “no princípio Deus criou o céu e a terra”, sem medo de competição das criaturas, mas para entrar em diálogo com elas.

Pe. José Artulino Besen

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LOUVADO SEJAS, MEU SENHOR, POR NOSSA IRMÃ A MÃE TERRA

«Mãe Terra» – Giustina Toni

Lembramos de São Francisco de Assis quase sempre num ambiente externo, de braços abertos, olhando para o céu, cercado de passarinhos, animais. É difícil imaginá-lo dentro de uma igreja, em ambiente fechado: Francisco é o cantor da criação, tudo nele é louvor ao Criador. Até o fim da vida desejou ver o mundo inteiro em estado de exaltação e louvor de Deus, por tudo e por todos, o mundo como imensa catedral sem paredes nem teto.

Sua sensibilidade pelas criaturas era tamanha que era incapaz de jogar uma brasa pela janela: depositava-a no chão delicadamente, para que não se ferisse. Tudo despertava seus mais íntimos e sensíveis afetos, da irmã Dor à irmã Morte, pois tudo tinha origem no insondável amor divino. Consumia o mínimo, quase constrangido em servir-se de bens da Terra.

E assim, no mês de abril/novembro de 1225, no pequeníssimo jardim do Convento de São Damião, à noite, quase cego e fora de si de dor e desconforto, em estado febril, sozinho em sua cabana de palha, atormentado pelos ratos que não o deixavam dormir, explode de alegria e louvor ao Criador, o Cântico das Criaturas, também conhecido como Cântico do Irmão Sol. Na profundidade do coração descobre a Terra como irmã e mãe:

Louvado sejas, meu Senhor,
Por nossa irmã a mãe Terra,
Que nos sustenta e governa,
E produz frutos diversos
E coloridas flores e ervas.

O penitente de Assis, reconciliado com a irmã Dor, não se continha em louvores.

Inspirada, a artista italiana Giustina Toni coloca Francisco dentro da mãe Terra donde ele saiu, e dentro da Terra aonde retorna. Sua veste é da cor do barro. Francisco é terra, mas não se identifica com ela: somente ele pode permanecer prostrado no ventre acolhedor em posição de adoração. Cabeça, mãos espalmadas e pés tocam a terra mansamente, tranqüilo como a criança embalada num colo materno.

E o amor de Francisco se expande, germina e do solo brotam ervas, frutos, flores coloridas no encontro com o irmão Sol.

Enamorado, Francisco confia na Terra Mãe que protege e na Terra Irmã que lhe é amiga e, com seus produtos, alimenta os seres vivos, oferece o fruto da terra e da videira para o pão e o vinho da eucaristia. Sustenta as criaturas necessitadas de alimento, revigora os ressequidos com a irmã Água. Benquista, a Terra governa-nos pela harmonia e, malquista, transformada em lixões, deixa-nos ao desamparo, sem vida.

O pobrezinho de Assis descansa dentro da terra que foi digna de ser palmilhada por Jesus, terra na qual o Verbo se fez carne e dela recolheu o alimento. Terra do Bom Pastor, terra do Redentor, cujo sangue derramado na Cruz penetrou-a no monte Calvário e continua a circular por suas veias até a regeneração final com novos céus e nova terra. Francisco contempla as imagens de criaturas escolhidas pelo Senhor para ser recordado ou que tocou: as ovelhas, a videira, a figueira, o cordeiro, a semente, o solo, rede, peixes, árvore, passarinhos, crianças, estrelas, vinho, água, pão, pedra, sal, lamparina, azeite, casamento, mulheres, sepulcro, doentes, lepra, cegueira, surdes, oliveira, espinhos, pescadores, pobres, paralisias, estrelas, tantas criaturas dignas, todas as criaturas que celebram Deus e a ele conduzem. Lembra o presépio que lhe montaram em Gubbio a fim de poder contemplar o nascimento do Menino pobrezinho e se encanta com Maria e José, os pastores, o boi e o jumento … quase explode de alegria por essa terra tão digna nos seus frutos e nos seus filhos. Tudo obra de seu Pai.

Francisco descansa profundamente na mãe Terra que num dia será seu berço, jazigo. E mansamente retornará ao pó, à terra donde veio, e ao Criador amado e amante. Então se elevará acima dela e, num hino cósmico, será puro louvor ao seu Senhor que lhe deu a mãe Terra por irmã.

Novamente será criança e aos pequeninos estará unido no canto: Ó Senhor, nosso Deus, como é glorioso teu nome em toda a terra! (Sl 8,2), convidando todas as criaturas a cantarem que Os céus proclamam a glória de Deus, o firmamento anuncia as obras de suas mãos (Sl 19,2).

Pe. José Artulino Besen 

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ECOLOGIA – LIBERTAR A CRIAÇÃO DO PECADO

Criação de Adão – Catedral de Monreale, Palermo – século XII

Creio em um só Deus, Pai todo poderoso, Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis”, assim iniciamos a proclamação de nossa de Fé cristã desde o século IV, e assim a renovamos nos dias festivos. Não afirmamos Deus sem a criação, nem afirmamos a criação sem Deus, nem unimos Deus e a criação numa única realidade. Cremos em Deus que é Pai, e cremos nele como Criador.

Nosso Pai quis que criaturas participassem de seu ser, de sua sabedoria e de sua bondade e beleza (CIC 319). No abismo intransponível da eternidade Ele criou o tempo e, no tempo, iniciou o plantio do Universo e do resplendor das criaturas há incríveis 13 bilhões de anos. E a obra divina não terminou: meu Pai sempre trabalha até agora, e eu também trabalho, disse Jesus (Jo 5,17).

Deus criou a terra para que fosse a casa de Adão e de seus descendentes (Gn 1,28), a nossa casa. Toda a criação, todo o universo são frutos de excesso/desperdício de seu amor, e o ser humano foi criado para com ele dialogar. Escreveu Santo Irineu de Lyon (séc. II) que Deus criou todas as maravilhas do universo e, depois, o homem, a quem presenteou com seus dons maravilhosos. Os teólogos gostavam de afirmar que a criação do homem e da mulher foi obra das duas mãos do Pai, a Palavra e o Espírito. Adão e Eva, homem e mulher são o fruto mais perfeito da amorosa criatividade divina.

Mas, Deus não criou céu e terra por distração, para demonstrar poder solitário. A visão cristã glorifica a criação em sua dignidade, em seu fundamento e em seu destino: a criação foi feita pelo Pai por meio de seu Filho e para seu Filho e “é por ele que subsiste o universo” (cf. Cl 1,16-17); tudo o que nele existe tornou-se vida (Jo 1,3-4), o Filho é o herdeiro de todas as coisas criadas (Hb 1,2), e todas as coisas nele serão regeneradas (cf. Ef 1,10) para que Deus seja tudo em todos (1Cor 15,28).

Na Liturgia concluímos a Oração eucarística com o grande hino de louvor ao Pai “por Cristo, com Cristo, e em Cristo, na unidade do Espírito Santo”. E o Espírito nos oferece o Pão e o Vinho transfigurados em Cristo e, com Cristo, damos ao Pai toda a honra e toda a glória. A cada eucaristia toda a criação é transfigurada em Cristo e nele é salva e, a cada eucaristia, professamos a fé no Deus Pai Criador.

O cristão é necessariamente ecológico

O universo não é somente obra de Deus, mas é também habitado pela presença de Deus: através do Filho feito homem fez habitar na carne humana a plenitude da vida divina (Jo 1,14)

A ecologia, a proteção da criação é compromisso ecumênico no sentido de que nada, nem ninguém, pode se omitir na defesa da obra da criação e, de modo todo especial, os cristãos, que professam a encarnação do Verbo. Deus nos fez senhores, guardiões de sua obra. Se protejo com ciúme o que é meu, embelezo, cultivo, o mesmo devo fazer com a obra divina a mim confiada.

Durante milênios e séculos os rios, os animais e vegetais foram considerados como mero contexto para a vida do homem, nada mais do que instrumentos a seu serviço, do qual se serviu sem cuidado e, com isso, permitindo sua ruína. Achava-se que o desperdício podia ser insaciável no tempo e no espaço.

A tradição cristã não pode separar justiça e paz, condivisão da terra, cuidado pela natureza e pela qualidade da vida humana menosprezando o fato de que Deus acompanhou seu povo nessa terra, o Filho nela viveu e trabalhou, tudo santificando com sua presença.

A criação é um dom de comunhão divina: um dom eucarístico. No pão e no vinho depositados no altar incluímos os pecadores, os leprosos, os doentes, os famintos, os solitários, os estrangeiros, as vítimas da violência, a criação profanada, e tudo oferecemos para que tudo seja transfigurado pelo Espírito: Deus aceita nossa oferta de misérias. E não oferecemos solitariamente: toda Igreja oferece conosco, a do céu e a da terra, pois cada um de nós representa misticamente a totalidade da obra divina. Deus está em tudo e, pela comunhão, estamos em Deus.

Justiça e paz geram a harmonia pela rejeição da desordem e da prepotência do poder, rostos visíveis do pecado. A qualidade da vida humana depende da vida do cosmo, do qual o homem faz parte e no qual tem sua residência por dom de Deus. O pecado original criou a ruptura do homem com o Pai e, através do pecado pessoal, também a ruptura com a humanidade e a natureza. Desse modo passamos a nos guiar por impulsos egoísticos e consumistas, explorando e comprometendo o ambiente em que vivemos, o que faz o Patriarca Bartolomeu I, de Constantinopla, afirmar que “a crise verdadeira não está no ambiente, mas no coração do homem”.

O caminho cristão é sacramental: as obras de Deus nos fazem prorromper em louvor e o fruto do trabalho de nossas mãos igualmente inspiram hinos de louvor e gratidão, numa troca de dons celestes e terrestres.

A redenção do Senhor nos liberta da ruptura com Deus e com a natureza, transfigura e regenera a própria matéria pois “a criação espera com impaciência a revelação dos filhos de Deus” (cf. Rm 8, 19-20). As leis e a ética podem apenas retardar a destruição da obra divina, pois não eliminam o egoísmo: somente a oferta da criação a cada Sacramento pode regenerá-la e salvá-la, por gratidão ao Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis.

Pe. José Artulino Besen

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LOUVADO SEJAS, MEU SENHOR, PELO IRMÃO SOL

E Francisco, em meio à noite, continua seu canto:

Louvado sejas, meu Senhor,
Com todas as tuas criaturas,
Especialmente o senhor irmão Sol,
Que clareia o dia
E com sua luz nos alumia. 

E ele é belo e radiante
Com grande esplendor:
De ti, Altíssimo, é a imagem.

O senhor Irmão Sol – de Giuliana de Toni

A primeira palavra de Deus Pai na criação foi “faça-se a luz”, e “a luz foi feita”. Tornou-se possível ordenar a criação ainda mergulhada no caos, tornou possível o desenvolvimento da vida. O irmão Sol foi posto para presidir o dia, para presidir a formação dos seres viventes.

Francisco dá-lhe o honroso título de senhor, o senhor irmão Sol. Ele é o senhor da ordem: sua ausência confunde as coisas, sua presença, torna-as distintas. É o senhor da beleza: possibilita existirem as cores, contemplar a variedade que torna belas as criaturas e obras de arte. Belo e radiante, todos esperam-no, após dias de chuva e então ele torna a natureza acolhedora. O dia já é belo e o irmão Sol, com seu esplendor, dá-lhe mais beleza ainda. Quando as nuvens se espalham pelo firmamento o sol brinca de artista tingindo-as de fogo, desenhando seres que nos divertimos para decifrar.

“A mãe deu à luz”, é a grande notícia do nascimento de mais um filho. “Apagou-se”, é a constatação de que alguém deixou esta vida, abandonando a luz do sol para contemplar o Sol eterno.

Não há vida sem a luz do irmão Sol com seu trabalho incansável de fotossíntese: as plantas perdem o viço, a natureza definha. Quanto mais intensa sua presença mais crescem as semeaduras que germinaram, mais sabor adquirem as frutas. Sem ele, se multiplicam os sinais de morte. Além de iluminar, o irmão Sol aquece a terra, como que aquecendo o berço onde a vida possa se desenvolver

A luz do sol purifica o ambiente, torna a casa acolhedora, dá cor às faces angelicais das crianças que correm às ruas para brincarem.

O irmão Sol é imagem do Altíssimo, a Luz divina, fonte da vida: Cristo é a Luz do alto que nos vem visitar; luz do mundo, é vencedor das trevas (cf. Lc 1,78-79). Nós somos desafiados a viver como filhos da luz, com transparência; quem vive nas trevas procura ocultar baixezas, a luz lhe faz mal (cf. Ef 5, 8-9).

Quantos de nós, ao raiar o sol matutino, damos graças a Deus que nos dá mais um dia: somos inundados pela beleza da criação que se revela aos nossos olhos. A entardecer, contemplamos sua majestade a se recolher para nos dar descanso; saem as cores e mergulhamos no silêncio da noite. E então unimos o Oriente ao Ocidente contemplando a luz vespertina. E rezamos:

Ó luz serena, da glória do Pai celeste e imortal,
santo e bem-aventurado, ó Jesus Cristo.

Chegados ao fim do dia, contemplando a luz vespertina,
cantamos ao Pai, cantamos ao Filho e ao Espírito Santo de Deus”.

Nessa hora o sol cede lugar à luz divina que ilumina nosso coração e nos permite silenciosamente meditar sobre o dia que passou, nos reconciliando com a vida e pedindo ao Senhor mais um dia a graça, mais uma vez contemplar todas as maravilhas que nos revela o senhor Irmão Sol. Admirar o irmão Sol é louvar quem o criou.

Pe. José Artulino Besen

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