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O HOMEM É AQUILO QUE COME

Eucaristia (Daniel Lifschitz)

Eucaristia (Daniel Lifschitz)

O filósofo alemão Ludwig Feuerbach (1804 – 1872) inicialmente foi reconhecido pela elaboração de uma teologia humanista e depois passou à filosofia materialista. Em sua obra “Pensamentos sobre Morte e Imortalidade”, negou toda possibilidade de imortalidade e resume o homem no conhecido ditado: “O homem é aquilo que come”. Após a morte, as qualidades humanas são absorvidas pela natureza, afirma.

Essa definição de Feuerbach em sentido materialista é assumida como estritamente bíblica e cristã pelo teólogo ortodoxo Alexandre Schmemann (1921-1983), cujo estudo centrou-se na Liturgia: “Quem se alimenta com a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6,54). Se a tentação de comer o fruto da árvore da Vida trouxe a morte, o comer da Carne e Sangue do Filho de Deus traz a vida.

O mundo é um banquete, e a imagem do banquete aparece em toda a Bíblia. O último encontro de Jesus com os seus foi numa Ceia, os Evangelhos situam grandes encontros de Jesus em banquetes (Zaqueu, Levi, Simão, Marta e Maria,…), a ponto de fariseus o acusarem de glutão e beberrão. Banquete é alegria, festa.O Senhor se apresenta como o noivo que chegou para o casamento com seu povo e o grande encontro final será à Mesa do Reino.

Deus não criou o ser humano somente para dar-lhe glória, o que diminuiria sua bondade, mas também para ser feliz aqui na terra: Deus quer tudo repartir conosco e nos entrega tudo. Nicu Steinhardt (1912-1989), judeu romeno convertido, lembra que o banquete é o único lugar em que o homem se alegra com a alegria alheia (Diário da Felicidade, p. 207). Quanto mais os convivas estão contentes, mais o homem é feliz. Isso pressupõe a capacidade de se alegrar com a alegria de outros, de reparti-la. Nos Anjos acolhidos por Abraão com um banquete está simbolizada a vontade de Deus de banquetear conosco (cf. Gn 18,1-15). O povo bíblico, povo do deserto, tinha em conta especialíssima a hospitalidade e o banquete.

O homem é o que come e o que come revela o homem. Se come na fraternidade, gera a festa; se come na exclusão dos pobres, gera condenação, caso do Rico banqueteiro e o pobre Lázaro.

Mas, o homem é o que come também espiritualmente. A Escritura judaica e cristã é rica no chamar o Livro e a Palavra de comida. Jeremias: “Quando encontrei tuas palavras, alimentei-me; elas se tornaram para mim uma delícia e a alegria do coração” (15,16). Ezequiel: “’Abre a boca e come o que te dou’. Eu olhei e vi uma mão estendida para mim, e nela um livro enrolado. … Ele me disse: ‘Filho do homem, come o que tens diante de ti! Come este rolo e vai falar à casa de Israel’” (2, 8; 3, 1). O Apocalipse:  “Eu fui até o anjo e pedi que me entregasse o livrinho. Ele me falou: ‘Pega e devora. Será amargo no estômago, mas na tua boca será doce como o mel’” (10,9). João Crisóstomo afirma que na Palavra comemos a Carne e o Sangue do Senhor!

No amor entre as pessoas, o ato de comer é extremamente rico de simbolismo. A mãe, encantada com seu filhinho, diz com ternura: “É tão fofinho que dá vontade de comer”. Quantas crianças mordiscam seus brinquedos prediletos! Mesmo que hoje confundida na vulgaridade, a relação sexual, sinal máximo da unidade entre o homem e a mulher, pode ser expressa pelo verbo comer: no momento do êxtase um se torna alimento do outro, literalmente se comem e se tornam uma só carne. É nesse ato de “comer” que homem e mulher demonstram ser alimento um do outro ou apenas exploração carnal. Todo verdadeiro relacionamento humano, de amizade, de namoro, se reveste do desejo de ser comida e de recebê-la. É de nossa natureza, porque é da natureza divina.

A Eucaristia – comer a Vida

O sacramento da Eucaristia é o sacramento do irmão, afirmou João Crisóstomo, indicando que o alimento eucarístico nos faz portadores de alimento físico e espiritual para os irmãos. A Ceia eucarística dos primeiros cristãos era precedida pela ceia fraterna que distribuía alimento, sem acepção de pessoas.

O rito eucarístico nos oferece duas Mesas fartas: a da Palavra (comer a Palavra) e da Eucaristia (comer o Senhor no Pão e no Vinho). Para escândalo dos ouvintes, Jesus afirmou: “Quem come minha Carne e bebe meu Sangue permanece em mim e eu nele” (Jo 6, 56). Carne e Sangue significam Pessoa: Jesus quer ser comido por nós para nos transfigurar: seremos o que comemos. Se comemos Cristo, nos tornaremos divinos; se o rejeitarmos, permaneceremos humanidade fragmentada. A cada Comunhão nos tornamos mais divinos e Deus se torna mais humano. O Cântico dos Cânticos, grande Hino ao amor matrimonial, revela-nos Deus como o noivo à procura da noiva, para consumar o matrimônio.

A Comunhão eucarística torna possível sermos divinos porque nos alimentamos do divino e nos prepara, pouco a pouco, dia por dia, para degustarmos as alegrias do banquete celeste na eternidade. Feuerbach se equivoca ao concluir que na morte as qualidades humanas são absorvidas pela natureza. Na verdade, na morte, o que é verdadeiramente humano é assumido pelo divino, pelo eterno.

Aqui na penumbra e lá, na Luz, viveremos na realidade expressa por uma antífona proclamada antes da Comunhão: “Felizes os convidados para o banquete das núpcias do Cordeiro” (Apc 19, 9).

Pe. José Artulino Besen

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A MORTE, PLENITUDE DE VIDA

Cristo Ressuscitado na Igreja, penhor de nossa ressurreição (Centro Aletti)

Cristo Ressuscitado na Igreja, penhor de nossa ressurreição (Centro Aletti)

As almas dos justos estão nas mãos de Deus
e nenhum tormento as atingirá.
Eles estão em paz” (Sb 3,1-7).

Diante de um túmulo, onde acabamos de depositar os restos mortais de um familiar, de um amigo querido, de um jovem, uma criança, o silêncio é o discurso mais forte e convincente. O silêncio da morte se confraternizando com o silêncio da dor, da solidariedade. E, talvez, achemos que tudo foi um absurdo, que a vida não passou de uma grande ilusão, que o amor de Deus por nós foi uma brincadeira de mau gosto.

Pensamos que a morte seja o fim, que não valeu tanto esforço. Para um cristão, porém, não é assim. Ao descrente, a morte pode ser irmã da desesperança, mas para quem crê, a morte é apenas um passo que nos leva da esperança da eternidade feliz à posse da felicidade eterna.

A morte é a plenitude da vida. É o momento mais significativo da existência humana. Naquele momento em que os olhos se fecham para a vida terrena, a vida atingiu seu momento mais pleno: naquele instante colocamos nas mãos tudo o que fomos e fizemos em nossa vida. Como que, dizemos ao mundo e a Deus: “Eis o que consegui fazer com minha vida!”. Ali se encerra a etapa do crescer e fazer, do construir, do realizar o bem e o mal. O momento do nascimento foi o início de um projeto: o instante da morte é o balanço final deste mesmo projeto.

Não é importante viver muitos anos: o importante é nascer. Quando a criança vem à luz, inicia seu caminho para a eternidade. Um caminho longo ou breve, fácil ou difícil, levado com seriedade ou na brincadeira, mas um caminho que desemboca irreversivelmente na existência sem fim. No instante da morte fechamos os olhos à luz do mundo para, em seguida, os abrirmos às portas do Reino da Luz, onde existiremos no amor em plenitude, em Deus.

Não tememos esse momento, pois o Deus do amor e da misericórdia “que nos carregou ao colo e nos acariciou no regaço” (Is 66,12) é o motivo de nossa confiança. “Ainda que eu atravesse o vale escuro, nada temerei, pois estás comigo” (Sl 22,4).

A morte nos ensina como a vida é importante, decisiva. Ensina-nos, igualmente, como as pessoas são importantes. Tão importantes que fazem falta ao morrerem, deixam-nos um vazio impossível de ser preenchido, por que cada pessoa é única. Não será repetida. Sua vida foi uma missão dada por Deus. O que ela não fizer, ninguém mais o fará. Deus não nos fez criaturas descartáveis, mas necessárias para seu plano de amor. E mais: Deus não nos jogou no mundo como brinquedos nas mãos do destino. Criou-nos para sermos seus filhos, num primeiro momento vivendo a existência terrena e depois, junto dele, eternamente.

A partida de alguém nos faz mergulhar na saudade. Recordando as palavras do grande intelectual cristão: “Passamos a vida dizendo adeus: adeus aos anos, adeus à saúde, adeus aos projetos pessoais, adeus aos amigos. E num dia diremos A DEUS – vou para Deus”. Mas essa mesma partida do mundo é a chegada a Deus, que também tem saudades de seus filhos e os quer junto de si. Deus nos leva quando estamos maduros, “como um feixe de trigo que se recolhe a seu tempo” (Jó 5,26).E toda a despedida é um “até logo”, pois logo mais também chegaremos à plenitude de nossa vida, também nós abriremos nossos olhos à Luz eterna. E será o reencontro final na casa do Pai, na nossa casa: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Depois de ir e vos preparar um lugar, voltarei e vos tomarei comigo, para que, onde eu estou, também vós estejais” (Jo 14,2-3).

Pe. José Artulino Besen

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PAI, EM TUAS MÃOS ENTREGO O MEU ESPÍRITO

Solidão de Jesus - Michel Ciry

Solidão de Jesus – Michel Ciry

Ninguém tem maior amor
do que aquele que
dá a sua vida por seus amigos
(Jo 15,13).

O homem, por si só, não busca a salvação. É Deus quem vem salvá-lo. Por si só, o homem prefere viver sem Deus: mas Deus não consegue viver sem o homem. O amor divino não se permite excluir alguém, muito menos ser feliz sozinho. Por isso, por amor a cada um de nós, pessoalmente, Deus veio ao nosso encontro através de seu Filho Jesus. Que se fez igual a nós em tudo, menos no pecado. Fez-se o menor de todos, o servidor universal. Curou os doentes, consolou os tristes, perdoou os pecadores, ensinou um novo caminho de verdade e de vida.

Achou, porém, que era pouco: quis dar tudo, para que tivéssemos a certeza de que nos ama plenamente, apesar do que somos e fazemos de misérias e pecados: Jesus, tendo amado os seus que estavam no mundo, até ao extremo os amou (Jo 13,1). E amar ao extremo, perfeitamente, é não ficar com nada para si: é dar a própria vida. Esse o grande sinal da morte de Jesus, de sua fraqueza plena na Sexta-feira santa, quando ele, que poderia destruir todos os poderes deste mundo, aceitou por eles ser levado à morte. Não qualquer morte, mas a morte mais humilhante no seu tempo, a morte na cruz. Não uma morte rápida: queria tudo sofrer, da humilhação à tortura, da dor ao abandono dos seus, da coroa de espinhos à cruz, do manto de púrpura à nudez total, do suor de sangue ao derramamento da última gota de sangue. No final, pendurado na cruz, desprezado por quase todos, morto, de seu lado aberto saiu sangue e água. Nada mais tinha a oferecer por nós e no sangue deu-nos a Eucaristia e, na água, o Batismo.

O Cristo morto parecia representar a vitória do ódio, do pecado: era, porém, a vitória do amor. Aqueles que o humilharam, flagelaram e crucificaram, esperavam palavras de ódio, exclamações pedindo vingança, que entrasse no jogo humano do ódio. Mas não! O que ouviram foi uma palavra mansa, brotada do coração do homem das dores: Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem! (Lc 23,34) Achavam que tinham morto um homem prepotente, blasfemo, que queria conspirar contra a ordem política e religiosa. Mas o homem de Nazaré somente queria amar, que aceitassem ser amados por ele. Ele poderia nos salvar pelo poder do amor, mas preferiu salvar-nos pelo amor puro, sem outra força que a do próprio amor.

Naquela tarde de sexta-feira, no Monte Calvário assistiu-se a uma cena que somente o amor poderia criar: o Filho de Deus, Senhor e Rei, tomando sobre si todos os pecados da humanidade, de todos os tempos e lugares, aceitando ser transformado num ser irreconhecível, desfigurado, fedendo suor e sangue em decomposição, cercado de dois ladrões, para poder dizer a cada um de nós: “O que podia fazer por você, eu fiz! Recebam meu amor!” Jesus colocou-se entre nós e Deus, como a galinha que esconde sob as asas seus pintinhos para que, antes de nos ver, Deus enxergue seu Filho e não leve em conta nossos pecados.

Podemos não compreender o amor de Jesus, mas temos que ser muito insensíveis para não perceber o amor que ele tem por cada um de nós e não aceitá-lo em nossa vida. Mas, não vale a pena viver sem Jesus, pois não vale a pena viver sem um amor tão grande!

Pe. José Artulino Besen

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VIVER PARA MORRER – MORRER PARA VIVER

Jesus pregado na cruz – Cripta na igreja de São Pio

Morte e vida são estados inseparáveis da experiência da fé cristã. Quem não morre não produz frutos se não vive, e quem vive não produz frutos se não morre. Essa é a pedagogia que Jesus revelou no drama da redenção: sendo Deus, fez-se homem, e fez-se homem para ser Deus. Desceu ao mais profundo da miséria para alcançar o mais alto da glória.

A vida espiritual, isso é, a vida no Espírito, tem início quando Cristo nos ordena: Vive! E tem continuidade quando novamente nos ordena: Morre!

A ordem de viver se dirige a nossa condição de mortos pelo pecado necessitados de morrer para o pecado. Somente o Senhor que venceu a morte pode ordenar que a vida tome conta de nossa existência. Mas, o cristão não tem como opção simplesmente viver, pois ele busca reviver a vida do Paraíso. Apenas viver é um convite ao comodismo, uma cilada na qual muitos caem: estou livre, pois morri para o pecado e agora vivo. A salvação está garantida. Engano.

Jesus não morreu e ressuscitou para que vivêssemos apenas vida humana: a vocação cristã é a vida divina, sermos imagem e semelhança de Deus. Com o “vive”, somos imagem de Deus; com o “morre” iniciamos o caminho da semelhança com Deus, nossa deificação. O horizonte não pode prescindir do chamado que Deus nos faz: sermos participantes da natureza divina (2Pd 1,4), pois somos da raça divina (At 17,28-29). Somos chamados a ter a mesma herança de Cristo, formar o mesmo corpo de Cristo, participar da mesma promessa de Cristo (cf. Ef 3,6).

Alguém poderia objetar: então, viver vida cristã é deixar de viver vida humana? Não, pois se é realmente humano sendo realmente divino, à imagem de Cristo. Vivendo em Cristo, quanto mais humanos, mais divinos somos e, quanto mais divinos, mais humanos. O Senhor veio nos descrever o Pai para nos introduzir na pedagogia de filhos.

Após o grito do “vive”, segue-se o grito do “morre”: morrer para tudo aquilo que em nós obscurece a imagem de filhos de Deus, deturpa nossa condição de sermos de raça divina, de possuirmos a natureza divina. É o caminho tantas vezes citado por Paulo: no momento em que renascemos iniciamos o logo, doloroso, mas feliz processo de conversão. A conversão é o ponto de partida daqueles que escutaram o grito da Vida e sentem que não morrendo para a morte não alcançarão a vida em plenitude, a liberdade dos filhos de Deus. Morrer para todas as escravidões é tornar possível sermos verdadeiramente livres.

Esse destino não é fruto de nossa competência: é obra da graça. Deixamos o caminho livre e a graça pode nos trabalhar até liquefazer nossa alma, na expressão bela e atemorizadora de Evágrio Pôntico (+399): para nos introduzir na beleza da vida espiritual, o Espírito precisa nos liquefazer e assim nos moldar segundo a semelhança de Deus. Na hora em que morrermos totalmente para o egoísmo nossa vida será reconstruída como vida nova, vida em Cristo.

Os santos e profetas escutaram o “Vive” e sentiram muita alegria. Depois escutaram o “Morre” e mergulharam no campo das provações de amor. Novamente escutaram o “Vive” e mergulharam na paz total quando, novamente, o Senhor ordenou “Morre”, pois na condição presente a perfeição é um caminho a ser plenificado somente na contemplação definitiva da face do Senhor, buscada com todo o empenho durante a vida terrena.

É um combate de amor, é uma luta de amantes: Oséias a viveu casando-se com uma prostituta que depois retorna à prostituição; Jeremias, perseguido por todos os lados, chora como amante provado: “Tu me seduziste, Senhor, e eu me deixei seduzir! Foste mais forte do que eu e me subjugaste! Tornei-me a zombaria de todo dia, todos se riem de mim. … Pensei: Nunca mais hei de lembrá-lo, não falo mais em seu nome!. Mas parecia haver um fogo a queimar-me por dentro, fechado nos meus ossos. Tentei agüentar, não fui capaz!  … Tu, porém, Senhor, estás comigo como lutador invencível!” (cf. Jr 20, 7-13). Para Jeremias, era impossível viver sem o Senhor. Dom Hélder Câmara (+ 1999), profeta da Igreja, foi seduzido pelo Senhor na imagem do injustiçado: nunca mais teve paz. De todo lado perseguição, calúnia, desprezo entre seus próprios irmãos, mas permaneceu na alegria de ser liquefeito por Jesus escondido em cada pobre. Pe. Paulo Bratti (+ 1982), homem provado na fidelidade ao Evangelho, gostava de repetir: “Nós queremos as consolações de Deus, mas não queremos o Deus das consolações”. Queremos ouvir o “vive”, subtraindo o “morre” o que é impossível para quem aceita viver a vida cristã como paixão e ressurreição.

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CRIATIVIDADE DOS SANTOS, MONOTONIA DO PECADO

Jesus é erguido por nós – Via-sacra de Jasna Gora

O velho confessor, de ouvidos cansados de escutar pecados do tempo da rigidez moral, que na época recente tivera a paciência de escutar pecados dos que se diziam sem pecado, considerando-se apenas vítimas de condicionamentos psicológicos, que ultimamente reabrira os ouvidos ao retorno dos antigos pecados, lamentava-se com um amigo: “Estou cansado! Não há pecados novos! Tanta coisa mudou, e os pecados continuam os mesmos!”. O amigo, vivido de experiência semelhante, o confortou: “É assim mesmo, irmão. O diabo é o mesmo, não mudou de receita, de sorte que nos pecados não há criatividade. Criatividade só se encontra nos santos, somente a santidade é criativa!”.

Foi pensando nessa queixa, e na resposta, que lembrei do pecado e da graça original: aos primeiros Pais e a cada um de nós, diariamente a proposta é a mesma: “Se não comeres do fruto da árvore do bem e do mal, não morrerás”, fala o Senhor. “Se comeres o fruto da árvore do bem e do mal, não morrerás!”, fala a velha Serpente.

Dependendo de nossa atitude, ou morreremos ou não morreremos. Aceitando o limite imposto pelo Criador diante de nossa imensa liberdade, viveremos. Aceitando a sedução do tentador de optarmos pela não aceitação de um limite e pela escolha da escravidão, morreremos. Na morte, a monotonia e na vida, a criatividade. No pecado a imposição do egoísmo, na obediência, a abertura ao outro no amor.

O mal não é uma conseqüência necessária, mas um ato livre do homem, conclui Dostoievski meditando sobre o resultado infinito de uma divisão infinita provocada pela desobediência.

Voltemos aos ouvidos cansados do velho confessor: tudo o que ele pode escutar é o fruto da divisão infinita operada pela ruptura entre o ser humano e Deus. Ele escutará os frutos monótonos de quem vive para si, no amor de si mesmo: o espírito voltado contra a vontade de Deus, o coração agindo exclusivamente no próprio interesse, o corpo a serviço do domínio e do prazer. Na obediência dá-se o contrário: o espírito é naturalmente voltado para Deus como Pai, o coração naturalmente voltado para o outro como irmão, todos os órgãos do corpo voltados para o serviço a Deus e ao outro, numa síntese amorosa e criativa.

O pecado será um monótono não, repetido a tudo e a todos e um sim infinito a si mesmo. A obediência a Deus será um sim criativo à vida, aos outros, à natureza, a Deus, na única competição que se permite, fazer o bem.

E voltamos à resposta do sábio confessor: “Criatividade só se encontra nos santos, somente a santidade é criativa”. O motor da santidade é o amor divino enxertado no amor humano por Jesus, Deus/Homem. Sem muita complicação Santo Tomás define o amor como o querer o bem do outro: “amar é querer o bem do outro”. Simples assim, sem condicionantes. Essa decisão nos coloca numa busca criativa de meios para repartir o pão, visitar o enfermo, consolar o triste, abrigar o peregrino da vida, promover a vida em comunidade, oferecer o braço amigo ao idoso, ao cego, ao deficiente, proteger a criação, multiplicar os dons recebidos, não se conformar diante de quem escolheu a morte das drogas, a fidelidade sem divisões no amor prometido, o corpo como comunicação do bem, do afeto, quebrar as correntes do ódio e da injustiça, mover-se pela compaixão, ouvir mais do que ser ouvido, perdoar sem a troca de ser perdoado, sentir-se servidor de cada criatura, numa palavra, fazer o que Deus faz e que nos é narrado por Jesus. E sempre com bom humor, pois santo triste é triste santo, o que não existe.

Os santos, única novidade na história humana, foram exímios na criatividade: da intimidade com Deus jorrava deles uma ilimitada intimidade com o ser humano e tornaram-se artistas do bem. São dotados de riqueza inesgotável em sua criatividade, pois nada se reservam e assim, o que sobra é sempre mais do que o repartido.

Sua generosidade e criatividade foram tão profundas que se ofereceram como vítimas associadas à Cruz de Cristo pela salvação do mundo: alguns viveram por anos a dolorosa noite escura da fé (Madre Teresa), outros receberam os estigmas dolorosos acompanhados de intenso sofrimento (Padre Pio), outros ainda semanalmente participaram dos sofrimentos de Cristo (Martha Robin), outros se ofereceram para fazer penitência em lugar dos pecadores (o Cura d’Ars). Não aceitaram deixar Jesus sofrendo sozinho, nem aceitaram que algum filho de Deus fosse condenado por sua omissão: livremente foram fazer companhia a Jesus no Calvário. Quanta vida a serviço da graça!

O pecado é um relato monótono da obra satânica, porque é filho da escravidão. O Cristianismo é a narração contínua da criatividade dos santos, pois é filho da liberdade.

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NÓS CREMOS NA VIDA ETERNA

“Se cremos que Jesus morreu e ressuscitou,
assim também os que morreram em Jesus,
Deus há de levá‑los em sua companhia”
(1Tes 4,14).

Finados 2São Paulo divide os homens em duas categorias: os que vivem tristes porque não têm esperança, e os que vivem felizes, porque têm esperança (cf. 1Tes 4, 13ss).

Tem esperança o que sabe que a vida começa em Deus, ultrapassa os poucos anos passados na terra, e em Deus continuará para sempre. O pensamento da morte, então, consola e não desespera, pois sabe que tudo tem sentido, que tudo está orientado para o encontro final da criatura com o Criador. Nada do que realiza é sem importância, pois tudo está orientado para a posse de uma eternidade feliz.

A certeza da ressurreição faz com que o idoso não desanime ao ver que suas forças definham, que serão sempre menos os anos de sua vida. Faz com que o doente irrecuperável tenha um horizonte de vida, além do sofrimento e da morte certa. Faz com que não se desespere diante da morte de uma criança inocente, de um jovem no vigor da mocidade. Porque a figura deste mundo passa, mas a vida permanece para sempre.

O cristão não perde a cabeça diante dos desafios da vida, não perde a alegria de viver, mesmo carregando cruzes pesadas, porque diante de si tem um horizonte onde brilha a Luz que não tem fim. Ele não sabe quais serão seus próximos passos, mas sabe qual será o final: a festa sem fim no Reino de Deus. A sua caminhada pode ser marcada por lutas difíceis, mas tem confiança na vitória final da vida sobre a morte. Tudo passa, somente a vida permanece.

Toda essa esperança, porém, não o faz fugir dos compromissos diante do mundo e da vida. Pelo contrário: o horizonte da ressurreição leva‑o a empenhar‑se com mais vigor para que, já aqui, sinta o gosto da eternidade. Ele sabe que todos ressuscitarão: por esse motivo se esforça para que mais gente caminhe, confortada pela esperança da eternidade. Tendo a certeza da comunhão final com Deus quer, já agora, reunir os filhos de Deus numa grande família.

A ressurreição mostra com clareza a importância da vida: conhecendo o final, não se desviará do caminho que a ele conduz, não empenhará sua existência naquilo que a traça destrói e a ferrugem corrói. Evitará fazer qualquer coisa que o impeça de ver a Luz final.

O homem passará pela experiência da morte, mas não pela experiência do abandono do Deus vivo que o gerou. O Deus que o chama carinhosamente de filho, não o destruirá para sempre. Quer tê‑lo para sempre junto de si; é o Criador buscando ansiosamente o encontro final e definitivo com a criatura.

Por isso conserva viva a esperança, e é feliz. Cristo ressuscitou. Nele a garantia de nossa ressurreição.

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A SABEDORIA QUE VEM DA CRUZ

«Completo, em minha carne,
o que falta às tribulações de Cristo
pelo seu Corpo, que é a Igreja»
(Cl 1,24)

A Cruz - Andy Wahrol

A Cruz – Andy Wahrol

Ninguém deve querer sofrer, mas também ninguém escapa do sofrimento. A fragilidade moral, física e emocional é companheira de toda a vida. É quase impossível imaginarmos que uma pessoa passe pela vida sem ter carregado alguma cruz. Inclusive podemos dizer, sem medo de errar, que uma pessoa que nunca sofreu sabe muito pouco da vida. Nem é capaz de dar conselho! De que modo confortar uma pessoa que sofre, se nunca se sofreu? Um exemplo: quem nunca passou pela experiência da morte de um ente queridoé capaz de se aproximar de uma mãe que chora o filho morto e destilar‑lheum discurso sobre a conformidade com o sofrimento, o que é inútil e até ofensivo. Por outro lado, quem viveu essa experiência, permanecerá silencioso ao lado da mãe enlutada, pois sabe que nenhuma palavra serve para quem está dilacerado pela dor.

Nós podemos sofrer ou revoltados ou dando um sentido redentor ao sofrimento: como que Cristo não sofreu tudo na cruz. Deixou um pouco para nós. São Paulo diz que completamos em nossa carne o que falta aos sofrimentos de Cristo pela salvação do mundo (Cl 1,24). Podemos oferecer nosso sofrimento por aqueles que não sabem sofrer, por aqueles que não aceitam Deus. Um sofrimento solidário e redentor.

Tem mais, porém. A dor é grande mestra para nossa vida: faz‑nos mais humildes, coloca‑nos em nossa verdade de pó e cinza, onde não tem muito sentido a vaidade: “Tudo ia de vento em popa… e a cruz veio mudar a direção dos acontecimentos”, choramos decepcionado.

A dor, com a solidão que produz, nos faz valorizar mais o que realmente conta: as pessoas que nos cercam. Vivíamos insensíveis, pensando apenas nos nossos projetos e sonhos. E no sofrimento podemos perceber quanta gente quer o nosso bem, torce por nós, fica de nosso lado. E nós que não víamos ninguém ao nosso lado…

Quando pensamos que o dinheiro resolve tudo, a cruz e a doença nos explicam com muita clareza que o maior bem é a vida, e não o lado material que a rodeia. Que adiantam tesouros para um canceroso vivendo os últimos dias!?

A dor nos ensina a viver com intensidade cada dia. Não amontoar tesouros para um futuro que nem sabemos se existirá. Sermos prudentes, é claro, mas viver hoje o dia de hoje, como se fosse o último. Amar as pessoas como se fosse o último dia que as temos entre nós.

Quanta sabedoria vem pela cruz! Pode acontecer que sejamos visitados por ela, e nada aprendamos. Mas, se quisermos, sairemos muito mais amadurecidos para a vida após o sofrimento físico, ou moral, ou psicológico. Nele veremos a visita carinhosa de Deus nos admoestando a cultivarmos os verdadeiros valores. Não foi por acaso que Jesus quis‑nos salvar pela cruz. Foi porque toda cruz é redentora, toda cruz purifica. Lutemos para vencer a dor, mas, enquanto ela nos visita, aprendamos com ela a grande lição da vida, da verdadeira vida.

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