PADRE JANUÁRIO TESTA – UM PADRE AMIGO

Pe. Januário Testa

Pe. Januário Testa

Januário (Gennaro) Testa nasceu em Pozzuoli, perto de Nápoles, em 08 de janeiro de 1881, filho de Prócolo e Maria Ângela Carannante, e foi batizando no dia seguinte pelo Pe. Francesco d’Isanto, na paróquia de Santa Maria delle Grazie, em Pozzuoli. Também conhecida como “Putéoli”, é uma antiqüíssima Igreja, visitada por São Paulo no ano de 61 (cf. At 28,13), a caminho de Roma.

Foi ordenado presbítero em 30 de agosto de 1908 pelo bispo de Pozzuoli, Dom Michele Zezza di Zapponeta. Seu primeiro ministério foi ser vigário paroquial em Santa Maria delle Grazie. Sabendo da presença italiana no Sul do Brasil e da necessidade de missionários, sentiu o chamado e partiu. Chegou ao Brasil em 18 de agosto de 1926 e, em 21 de outubro, recebeu a provisão de pároco de São João Batista, extensa paróquia que incluía os atuais municípios de Canelinha e Major Gercino, com muitas capelas, distâncias e estradas difíceis. Por quase 25 anos  consagrou-lhe o melhor de suas energias sacerdotais.

Se expressava em dialeto napolitano e não aprendeu a falar bem o português, e tratava a todos com o “misi querido”, “misi querida”.

Para as práticas ou sermões, lia um comentário homilético português e, em seguida, passava a comentá-lo, o que encompridava a Missa, fazendo os homens se retirarem para outras ocupações. Gostava muito de ouvir música nas Celebrações e adquiriu um harmônio Bohn para embelezar o canto coral.

O povo o amava em sua bonomia e doação pessoal, que nada exigia para si. Era um “pedinchão” nato. Saía com a carrocinha puxada por um cavalo e pedia tudo o que encontrava. Chegando a São João Batista, distribuía a maior parte aos pobres, que não eram poucos.

Narra o Pe. José Edgard de Oliveira: “A sua proverbial atitude de pedir não tirava o respeito que o povo lhe devotava. Os paroquianos eram na grande maioria lavradores e pequenos profissionais liberais. Já conheciam e até esperavam a choraminga do padre Gennaro nas visitas às capelas, nos assentamentos de batismos e casamentos e até mesmo no confessionário. Vi-o puxar a cortina, chamar de volta o penitente e dizer: “Já colheste o milho? Non esquecer o padre, non é…”

O tempo de Páscoa era o preferido para sair pelas casas a bendizer – benzê-las, como dizia ele. Então, quem o acompanhava podia se preparar para carregar cacho de banana, saco de milho, farinha, batata, aipim, ovos e galinhas. A carroça voltava cheia. As donas de casa, já sabiam, quando ele via uma choca com ninhada de pintos: Non esquecer do vigário, non é! Mas, quando a atenciosa proprietária fazia menção de que podia levar um pintinho, Pe. Gennaro se aprestava em dizer: Non, non, misi querida, quando crescer…”. O pedido valia também para os leitões, deixando ao doador o compromisso engordá-lo.

Tudo estava bom para Pe. Ge

nnaro. Mas, podemos imaginar o cenário da casa paroquial e quintal, onde se amontoavam abóboras, bananas, frutas, aipim, o galinheiro, um chiqueiro, pombos, ratos, etc. A torre da antiga matriz era outro depósito. O problema da higiene era um caso sério. Poucos tinham coragem de sentar-se à sua mesa, ainda mais que o prato já era servido cheio, uma mistura que não se sabia bem o que era! Um paroquiano seu, Pe. Raul de Souza, comentava o receio que tinha de ser convidado para almoçar com ele.

Pe. Gennaro achava tudo muito bom e era feliz, e o povo também era feliz. Pe. Gennaro personificava o clero napolitano de seu tempo, do sul italiano belo e pobre, generoso e egoísta, rico de história, mas dilapidado e abandonado.

Retorno à pátria e saudades do Brasil

Januário Testa Cônego da Catedral de Pozzuoli - 1956

Januário Testa Cônego da Catedral de Pozzuoli – 1956

O povo tudo perdoa ao padre quando percebe que ele é bom. E Pe. Gennaro era bom, atencioso, sendo raríssimas as ocasiões em que se alterava. Nem um cachorro coçando-se nele durante a Missa o perturbava: “Deixe, misi querido, cachorro também é filho de Deus”.

A idade produzia estragos em sua saúde, mas Pe. Gennaro continuava sua missão apostólica, sempre com alegria. Houve problemas, evidente, pois a autoridade diocesana percebia a decadência material do ambiente paroquial. Dom Joaquim Domingues de Oliveira o repreendia, mas sem sucesso. Essas chamadas à atenção o feriam muito, pois achava que tudo estava tudo normal.

Certa vez, lembra Pe. Edgard, quando já estava no seminário de Azambuja, passando por ele na sacristia da igreja matriz desabafou: Pensa em ser padre, misi querido, ma com bispo non é fácile.

Com o tempo percebeu-se que a paróquia necessitava de um novo pároco e as queixas se avolumaram. Dom Joaquim, não conseguindo que Pe. Gennaro renunciasse, em 28 de fevereiro de 1950 declarou vaga a paróquia, dando ao Pe. Gennaro a faculdade de pregar, celebrar e confessar na Arquidiocese de Florianópolis. O Arcebispo não suportava mais os ofícios em português italianado, a desorganização do arquivo. Não conseguindo outra colocação, teve de retornar à Itália natal e, para isso, em março recebeu as Cartas de Recomendação. Na esperança de retornar, não deixou seus bens inventariados, e houve quem deles se apoderou.

Na distante Pozzuoli, onde foi nomeado vigário paroquial novamente em Santa Maria delle Grazie, foi nomeado Cônego Honorário do Capítulo da Catedral de Pozzuoli em 8 de janeiro de 1956. Feria-o a saudade do Brasil. Diversas vezes escreveu a Dom Joaquim pedindo que aceitasse seu retorno, mas a resposta era sempre a mesma: “Lamentamos ter de informar a V. Revma. que no momento não há posto vago nessa Arquidiocese”.

E ali entregou a alma a Deus, em 14 de janeiro de 1958, sendo sepultado no cemitério de Pozzuoli.

Em São João Batista, uma rua lembra a sua passagem, e seu nome é guardado com carinho e saudade pelos que conheceram sua bondade e piedade.

Notadevo a maior parte das informações pessoais do Pe. Gennaro a dois de seus paroquianos ordenados padres: Pe. Raul de Souza e Pe. José Edgard de Oliveira. O dados históricos me foram enviados pelo arquivista de Pozzuoli Fábio Cutolo e se encontram no Requisita ordinandorum, faldone 65, fascicolo 1102).

Pe. José Artulino Besen

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