8. Amar a Deus

Contou-me um desses que amam a Deus com um desejo insaciável: como desejasse conhecer verdadeiramente o amor de Deus, o Bom concedeu-me a graça com viva experiência e certeza. E tive tão forte a experiência que a alma era solicitada com inexprimível alegria e amor a sair do corpo, a ir para junto do Senhor, como que ignorando as condições dessa vida destinada a passar.

Além disso, é preciso saber que aquele que é atraído por Deus a tal amor, no tempo de tal ação se encontra acima da fé, como se pelo grande amor possuísse com a experiência do coração aquele que honra com a fé, coisa que nos indica com sabedoria o santo Paulo, dizendo: Agora permanecem essas três coisas: a fé, a esperança, a caridade, mas a maio de todas é a caridade (1Cor 13,13). Quem possui Deus na riqueza da caridade, conforme disse, é muito maior do que a própria fé, pois está totalmente inteiro no desejo de Deus.

Aquele que fez experiência de tal amor, mesmo se sofresse mil ofensas e danos – pois ainda acontece passar por tais provações – não se irrita contra quem o ofendeu ou lhe fez mal, mas permanece unido a ele. Se irrita somente contra aqueles que vão contra os pobres, ou contra Deus, como diz a Escritura, falam injustiças (Sl 74,6), ou então vivem de modo perverso. Quem ama, mas somente a Deus, mais do que a si mesmo, não reivindica mais a própria honra, mas somente quer que seja prestada honra à justiça daquele que honrou com amor eterno. E isso não tem origem em escasso desejo, mas agora possui tal disposição íntima como hábito, por causa da grande experiência do amor de Deus.

Diadoco de Fótica,
Discurso ascético 91

As paixões, dominando o coração, ligam-no às realidades materiais e, uma que o separaram de Deus, o fazem ocupar-se delas. O amor de Deus, pelo contrário, uma vez que tomou posse do coração, o liberta das dependências, convencendo-o a desprezar não só as realidades sensíveis, mas também a nossa vida destinada a passar.

Máximo o Confessor,
Sobre a caridade 2,3

Quando se ama alguém, dedica-se com todo o empenho a servi-lo em tudo. Se alguém ama a Deus, empenha-se em tudo a fazer aquilo que lhe agrada (1Jo 3,22); se, pelo contrário, ama a carne, preocupa-se em fazer aquilo que lhe causa prazer.

Máximo o Confessor,
Sobre a caridade 3,10

São verdadeiramente poucos os que adquiriram um perfeito amor para com Deus, sem ter em nenhuma conta os prazeres do mundo e seus desejos, e suportando com paciência as tentações do malvado. Mas, não é necessário renunciar ou negligenciar a boa esperança, pois, mesmo que o naufrágio surpreenda muitos navios, existem aqueles que completam a viagem e alcançam o porto. Por isso temos necessidade de muita fé, paciência (Hb10,36), atenção e luta além de fome e sede de bem com muita inteligência e discernimento, mas sem teimosia e descaramento no pedir.

De fato, a maior parte dos homens quer alcançar o Reino, como já se disse, sem fadigas e suores, e proclama felizes os homens santos e deseja suas honras e dons; mas não querem participar de suas tribulações, fadigas e s

ofrimentos. Isso todos querem, prostitutas, publicanos, todo homem, mas para isso aguardam-lhes tentações e provas, para que fique claro quem são aqueles que verdadeiramente amaram o seu Senhor, e esses, justamente, alcancem o reino dos céus.

Macário o Egípcio,
Paráfrases 59

Início do amor a Deus: desprezo pelas realidades visíveis e humanas; no meio, a purificação do coração e de suas profundezas, da qual deriva o desvelamento espiritual dos olhos espirituais e o conhecimento do reino dos céus escondido em nós; no final, uma incontida paixão de amor pelos dons sobrenaturais de Deus e um desejo natural da mesma união com Deus no repouso nele.

Onde está a paixão do amor a Deus, o trabalho espiritual e a participação da luz inacessível, lá está a paz das potências da alma, a purificação do coração e a inabitação da Santa Trindade. Está dito: Quem me ama observará a minha palavra e meu Pai o amará e nós viremos a ele e nele faremos morada (Jo 14,23).

Nicetas Stéthatos,
Capítulos naturais 1-2

À alma é ensinado amar a Deus mais do que a si mesma e o próximo como a si mesma e assim conhecer e guardar a própria dignidade e ordem e, em verdade, amar a si mesma: de fato, quem ama a injustiça odeia a sua alma (Sl 10,5), faz em pedaços e inutilizável o ser à imagem de Deus, e assim incorre num mal semelhante àquele que, tomado pela loucura, sem ter consciência reduz miseravelmente em pedaços a sua carne. Também ele, sem perceber, arruína e dilacera miseravelmente a beleza que nele está e, estupidamente, joga fora o mundo trinitário supramundano de sua alma, realizado perfeitamente em seu intimo pela caridade.

Gregório Pálamas,
Cento e cinqüenta capítulos 40

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