HÁ 50 ANOS, DESPEDIDA DE NOSSA MÃE LÚCIA

1964 - 25 de novembro - 2014 - Encomendação e Despedida de nossa mãe

1964 – 25 de novembro – 2014 – Encomendação e Despedida de nossa mãe

Não creio que haja diálogo mais doloroso do que esse, em 29 de novembro de 1964, quando Pe. Osmar Müller me perguntou: – “Então sua mãezinha morreu, não é mesmo?” Só lembro que fiquei muito envergonhado, pois os soluços não me deixaram falar. Senti-me o adolescente mais infeliz do mundo e na pior idade para ouvir essa pergunta afirmativa.

Era verdade: três dias antes, na igreja matriz de Antônio Carlos, ainda sem reboco, estávamos reunidos meu pai, e meus irmãos Maria, Nesir, eu, Cecília, Inês, Ivone, Pedro e Sebastião. Esse último, o caçula, estava com seis anos e Maria, a mais velha, com 17. Imenso e tranqüilo, como a nos envolver num único abraço, meu pai Artulino: 44 anos de idade e 8 filhos para criar e educar. Não era imenso, mas parecia ser, pois era nosso único refúgio humano. Tranquilo, sim, pois não tinha oportunidade para expressar dramas. Lembro o momento mais belo – na extrema dor há muita beleza –, na hora da Consagração, quando o coral cantava o hino “Mais perto do meu Deus, ó Pai do céu, em dura provação, e tentação. Quando em pavor gemer, hei de fiel dizer: mais perto do meu Deus, ó Pai do céu!”. Ouvi-lo foi tão doloroso que cuidei para nem ao menos suspirar, assim prejudicando a beleza pungente desse canto de fé cantado nos últimos momentos do naufrágio do Titanic, em 1912. Tantas vezes o tinha cantado e escutado, mas somente nesse momento ouvi-o de verdade.

No meio de meus irmãos, tios, primos, povo, Pe. Alfredo Junckes, ao lado do cadáver de Lúcia Pauli Besen, minha mãe, senti-me vítima de divina injustiça na provação e na tentação. E me fiz a pergunta idiota que daí para frente escuto, e já são 50 anos: “Por que nós?” Tempos depois penso que faria uma afirmação mais equilibrada, porque a convivência com a dor nos torna misericordiosos: “Felizmente nós, e não os outros”. Missa terminada, o sepultamento, no antigo cemitério, ao lado da igreja. Passava das 11 horas de um dia de muito calor. O povo, generoso com sua presença, olhava-nos com ternura e solidão, porque nada podia fazer, e se retirava. Recordo que Ivone chorava desconsolada e pedi que parasse, pois não ficava bem. Estética das lágrimas num adolescente que guardou-as para derramá-las nas décadas seguintes, aumentadas com a morte de meu pai e do caçula Sebastião, que morreu aos 47 anos, mesma idade daquela que sepultávamos.

Na véspera, 25 de novembro, ao desembarcar em Biguaçu, mal informado, perguntei ao motorista: “E como está a mãe?” A resposta foi seca: “Já morreu nessa madrugada”. Passados 50 anos, acho que foi a melhor resposta, unindo perfeita dor com perfeita verdade, sem encantamentos que eventualmente poderiam postergar a dor, não suprimi-la. E eu tive uma certeza: não temos mais mãe.

Agora já estava sepultada, numa carneira, e nos foi dado o consolo de não escutar a música fúnebre das tradicionais pazadas de barro, cadenciadas ao ritmo do choro. E meu pai falou: “Filhos, vamos para casa, que o pai vai preparar o almoço”. O pai não teve tempo para lamentos, as oito bocas pediam comida.

A noite que antecedeu o enterro e a tarde que seguiu foram os tempos mais longos de minha vida. Tinha o sentimento de que o tempo voava, mas é porque estava parado. Aproveitei e escrevi carta para Mons. Valentim Loch, reitor do seminário de Azambuja, onde estava internado. Ignoro os caminhos, mas parou com minha irmã Nesir que a guardou, mostrou-me, mas não li. É um cofre que vela os sentimentos daquela tarde há 50 anos, e acho que não fica bem violá-los.

Antigas recordações que não envelhecem

Lúcia Pauli Besen - nossa mãe

Lúcia Pauli Besen – nossa mãe

Lúcia, nossa mãe, nasceu em Antônio Carlos em 12 de setembro de 1917. Bárbara, sua irmã, ingressou no convento das Irmãs da Divina Providência em Florianópolis. Pouco depois, ela também teve autorização para segui-la, o que lhe deu o privilégio de estudar no Colégio Coração de Jesus, assim aprendendo a falar em português. Era postulante devota quando se dirigiu à Irmã Bernadete: “Irmã, quero deixar o convento”. Diante do susto da formadora, afirmou com segurança: “Quero me casar para ter uma filha freira e um filho padre”. Saiu, e conseguiu trabalho no Hospital de Caridade onde, pela competência e dedicação, mereceu ir para o centro cirúrgico como instrumentadora do Dr. Richard Gottsmann, que nela apreciava a atenção, a rapidez e o falar alemão. Não engane o nome “Gottsmann” – homem de Deus, porque era ateu devoto. Minha mãe, ingênua, queria convertê-lo para salvar-lhe a alma e Herr Doktor sempre repetia: “Já viu alma na barriga de alguém?” Em sua ânsia missionária teve de se haver com três alemães: Moellmann, Gottsmann, Freusberg.

O tempo passou, e lembrou a promessa de ter uma filha freira e um filho padre. Retornou à família e, em 7 de setembro de 1946, contraiu matrimônio com Artulino Besen. Os filhos foram aparecendo até o oitavo, em 1959. Hoje ainda recordo como nossa mãe dava conta do serviço: o lar, os filhos, nossa avó Catarina sempre doente, o quintal, as galinhas, tirar leite, cozinhar, fazer pão, aplicar injeções nos vizinhos, costurar toda a roupa da família, remendar as usadas, rezar e cantar. Rezar. E como minha mãe rezava. As Irmãs tinham-lhe ensinado o medo do pecado, mas não lhe lembraram a alegria de não pecar. Escrupulosa, num dia confessou-se duas vezes, para ter certeza, e sempre em alemão, para ter mais certeza ainda. Grande prazer de minha mãe era escutar notícias de outros países e depois conferi-las num Atlas geográfico, pois a palavra “estrangeiro” nela despertava emoções revividas olhando mapas.

Os filhos foram a alegria que o Senhor lhe concedeu nessa vida. E cuidou de nossa vida espiritual com zelo. Ao anoitecer, tirava-nos da cama para “tomar” nossas orações, primeiro para decorarmos e depois para rezarmos: Pai-nosso, Ave-Maria, Creio, Salve Rainha, as duas Consagrações e um bocado de Jaculatórias. Mesmo com tanto trabalho, permitiu aos três mais velhos estudarem fora, buscando a vida religiosa. E cumpriu a promessa: Maria, a primeira filha, tornou-se religiosa e missionária, hoje na Bahia. E ao mais velho, competia ser padre.

Lembro com muita nitidez da imagem que se formou em minha mente na hora em que o motorista disse: “Já morreu de madrugada”. À beira da BR 101, abandonado até pela solidão, a imagem que se formou em minha mente foi um flash: eu estava rezando a Primeira Missa sem a presença de minha mãe. E, daí em diante, tive que tomar a decisão vocacional sem o anteparo de alegrá-la.

No dia de Finados de 1964, quem conta é minha irmã Maria, nossa mãe falou, da porta da cozinha, olhando para o cemitério: “Este Mês estarei lá”. Foi a profecia. Meio século passado, neste 2 de novembro lembro tudo isso e pela primeira vez compartilho, por causa dela e de meu pai e meus irmãos. Nenhum de nós duvida de sua ressurreição.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por marcos santos em 31 de outubro de 2014 - 16:06

    As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo. (Cânticos 8:7)

%d blogueiros gostam disto: