2. O abandono

O duplo temor (obs.: o que nasce da ameaça de castigos e o gerado pelo amor que impede o pecado), os abandonos por parte de Deus e as provações que têm finalidade pedagógica, sabem produzir uma estável continuidade da atenção na faculdade suprema (obs.: o princípio diretivo localizado nas profundezas do coração) do homem que procura obstruir a fonte dos pensamentos e das ações más. Por causa dessa fonte nos vêm, da parte de Deus, também os abandonos e as tentações imprevistas para a correção de nossa vida.

Hesíquio Presbítero,
A Teódulo 7

Quando o homem que enfrenta a luta [espiritual] se revestiu de todas as virtudes e, sobretudo, da perfeita pobreza, a graça ilumina com uma percepção mais profunda toda a sua natureza, aquecendo-a com o grande amor de Deus. Por isso, então, as flechas do demônio se apagam bem longe do corpo; a brisa do Espírito Santo, de fato, movendo o coração para os ventos de paz, apaga as flechas do demônio que espalham fogo quando ainda se movimentam no ar. Todavia, também aquele que alcançou tal medida, às vezes Deus o abandona à maldade dos demônios, deixando sua mente privada de luz para que a nossa liberdade não esteja completamente vinculada pela ligação da graça, não só porque o pecado é vencido pelas lutas, mas também porque o homem deve ainda progredir na experiência espiritual. Aquilo que é julgado perfeito por aquele que está sendo educado, é ainda imperfeito diante da riqueza de Deus, que educa com amor obstinado também se um, graças ao progresso de suas fadigas, pudesse subir toda a escada mostrada a Jacó (cf. Gn 28,12).

Diadoco de Foticéia,
Discurso ascético 85

O abandono pedagógico traz, para a alma, grande dor. Humilhação e desespero moderado a fim de que a parte dela que ama a vanglória e se deixa levar pela paixão retorne à humildade. Mas logo traz para o coração o temor de Deus e lágrimas de confissão, e um grande desejo do belíssimo silêncio. Ao contrário, o abandono que vem quando Deus se retira, deixa que a alma seja ocupada pelo desespero, pela falta de fé, orgulho, ira. Devemos, portanto, conhecer, por experiência, ambos os abandonos para chegar a Deus no modo conveniente a cada um.  No primeiro caso, devemos pedir perdão e dar-lhe graças como àquele que castiga, com a retirada da consolação, a falta de temperança da nossa vontade para ensinar-nos, qual bom Pai, a diferença entre a virtude e a maldade. No segundo caso, devemos dirigir a Deus uma incessante confissão dos pecados, lágrimas ininterruptas e uma maior solidão para que, acrescentando tais fadigas, possamos suplicar que Deus volte, como antes, o seu olhar aos nossos corações.

Diadoco de Foticéia,
Discurso ascético 87

Quem declara sem paixão os pecados de um irmão, o faz por dois motivos: ou para corrigi-lo ou para servir de auxílio a um outro. Se o declara fora desses motivos quer a ele, quer a um outro, o faz para ofendê-lo ou para ridicularizá-lo, e não poderá escapar do abandono da parte Deus, mas cairá de cheio naquele ou em outro pecado e, acusado e ofendido pelos outros, será envergonhado.

Máximo o Confessor,
Sobre a caridade 3,73

Justamente a cólera, isto é, o abandono, atinge a mente orgulhosa, como se disse; tal abandono consiste no fato de que os demônios recebem a permissão de distraí-la durante a contemplação, a fim de que tome consciência da própria debilidade natural e reconheça a potência divina e a graça que o protegem, e que levam à realização de todo o bem, e para que ela se humilhe, afastando completamente a arrogância que lhe é estranha e é contra a natureza. Assim, se humilhar-se e tomar consciência daquele que dá todos os bens, não o atingirá aquela outra cólera, a que tira os carismas que lhe foram dados.

Máximo o Confessor,
Sobre a teologia 5,16

Naqueles que enfrentam a luta espiritual, todo abandono provém ordinariamente dessas coisas: da vanglória, da condenação do próximo e do ensoberbecer-se por causa das virtudes. Se uma dessas coisas se aproximar das almas daqueles que enfrentam a luta espiritual, lhes trará o abandono da parte de Deus, e eles não escaparão do justo juízo desse abandono por causa de suas quedas até que, rejeitada a causa que precedeu o abandono, não se refugiarem na altura da humildade.

Nicetas Stethatos,
Capítulos práticos 47

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