A MENINA QUE EXPLICOU A MORTE

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Esperávamos a paz, e construímos uma década de violência, de guerras. Países em guerras fratricidas no mundo árabe da Síria, do Iraque, do Oriente médio. Nações africanas em guerras internas, cujo único objetivo é a garantia do poder e do domínio sobre riquezas e populações. Em nosso mundo latino-americano sofremos a guerra pelo tráfico e pelos pontos de drogas. Nos países ricos assistimos a outra guerra, a da rejeição dos migrantes, dos fugitivos do mundo conflagrado que diariamente tentam encontrar novo chão, nova pátria, e encontram a expulsão, o desprezo a deportação.

Milhares de famílias abandonam sua terra e seus bens e atravessam fronteiras esperando alguma acolhida, mas são acolhidas pela ordem de retorno ao lugar nenhum, pela deportação. São consideradas peso morto, ameaça ao conforto dos países ricos. As famílias deixam de ser famílias: são mães abandonadas, crianças fugindo pelas estradas e ruínas, homens tentando salvar algum coisa, jovens deserdados da esperança. As imagens geradas por esses dramas quase não comovem, pois  a violência continua e as ruínas aumentam com destruições sempre maiores.

Mas, sem dúvida, o que mais nos fere são as imagens das crianças, das quais se rouba a infância e que são marcadas a ferro pelo vírus da violência, a ponto de não conhecer outro tipo de vida. Apesar disso, as crianças brincam, jogam bola, as meninas se fazem de professoras, realizando o milagre da  vida mas injetando no coração o sentimento da violência, pois foi isso que sempre viram e sentiram.

A saudade é o amor que permanece

Dr. Rogério Brandão, oncólogo brasileiro no Hospital de Câncer de Pernambuco onde atuou por 29 anos, narra a experiência que o marcou: uma criança com câncer, feliz apesar de tudo. Ao nascer sua primeira filha, começou a assustar-se ao ver o sofrimento das crianças, vítimas inocentes do câncer.

Ele narra que num dia um anjo passou por sua vida, um anjo em forma de uma menina de 11 anos de idade, provada pelos anos de tratamentos diverso, manipulações, injeções e todos os incômodos provocados pelas aplicações químicas e as radioterapias.

Dr. Rogério nunca viu esse pequeno anjo fraquejar. Viu-a chorar muitas vezes, viu o medo em seus pequenos olhos. Esse anjo era humano, afinal.

Num dia, chegou mais cedo ao hospital e encontrou o pequeno anjo sozinha, no quarto. Perguntou por sua mãe e recebeu uma resposta que o deixou profundamente emocionado:

Tio, disse ela, às vezes minha mãe sai do quarto para chorar às escondidas no corredor. Quando eu morrer, creio que ela vai sentir muita saudade. Mas, eu não tenho medo de morrer, tio. Eu não nasci para essa vida!.

E o  que é a morte para você, minha querida? – perguntou o doutor.

– Escuta, tio, quando a gente é pequena, às vezes vai dormir na cama de nosso pai e, na manhã seguinte, ao acordarmos estamos em nossa cama, não é verdade? Um dia eu dormirei e meu Pai virá buscar-me. Eu acordarei na casa d’Ele, em minha verdadeira vida.

O médico ficou estupefato, sem saber o que dizer. Estava impressionado pela maturidade com que o sofrimento tinha acelerado a visão e a espiritualidade daquela criança, que ainda acrescentou: – Então minha mãe se recordará de mim com saudade.

Emocionado, segurando uma lágrima e um soluço, perguntou-lhe:

– E o que significa a saudade para ti, minha querida?

– A saudade é o amor que permanece!

Muitos anos depois, aos 53 anos de idade, o médico desafia a quem quiser a dar uma definição melhor, mais direta e simples da palavra saudade: o amor que permanece.

O anjinho se foi há muitos anos. Mas deixou uma grande lição que ajudou a melhorar a vida de Dr. Rogério Brandão, a ser mais humano e carinhoso com seus pacientes, a rever seus valores.

Quando a noite chega, se o céu está limpo e vê uma estrela, para ele é o “meu anjo” que brilha e resplandece no céu.

Imagina que ela é uma estrela fulgurante em sua nova e eterna casa. E não esquece de agradecer ao pequeno anjo as lições que lhe e ensinou e pensa: – que bom que existe a saudade, o amor que permanece para sempre.

Pe. José Artulino Besen

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  1. #1 por Laerte Tavares. em 17 de fevereiro de 2017 - 12:48

    Oh Padre Besen, maravilhosa história – o amor que permanece,,,

    A MENINA QUE EXPLICOU A MORTE

    Meu anjo, o que é saudade?
    É o amor que permanece
    Como de Deus, a benesse
    À dura realidade.

    Esse anjo, em tenra idade
    Ensinou a nós, a prece
    Para quem ama e padece
    Por uma perda, em verdade.

    E Deus soube recebe-la
    Fez dela, no céu, estrela
    Que ilumina e encanta.

    Foi-me graça receber
    A história desse ser
    Que me será nova santa.

    Cordialmente. Laerte Tavares.

  2. #2 por Ademar Arcângelo Cirimbelli em 18 de fevereiro de 2017 - 08:08

    Padre José, tomei a liberdade de compartilhar com os amigos do face. Obrigado, mais uma vez.

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