MONSENHOR GREGÓRIO LOCKS

Filho de Germano Locks e de Elizabeth Hobold, nasceu em São Ludgero em 17 de novembro de 1914. Seus avós maternos, Henrique Hobold e Maria Ana Schmoller, e paternos, Bernardo Locks e Elizabeth Frankmüller, eram imigrantes da Westfália que se estabeleceram em Teresópolis e, em busca de melhores terras, migraram para São Ludgero.

Gregório teve 11 irmãos, ele sendo o caçula. Cresceu e foi educado na fé, sob a imagem sacerdotal de Mons. Frederico Tombrock. Seu primeiro banco escolar foi na escola paroquial de São Ludgero, tendo como professoras as Irmãs da Divina Providência que ajudaram a nele despertar a vocação sacerdotal.

Onde estudar, se não havia seminários em Santa Catarina? Os primeiros quatro vocacionados se dirigiram a Pareci Novo, no seminário dos jesuítas: Nicolau Gesing, Bernardo Füchter, Huberto Rohden e José Locks. A cavalo, com os pais, enfrentaram 16 dias entre a ida e a volta. Todos foram ordenados padres.

Depois, os jesuítas abriram o seminário em São Leopoldo e, em fevereiro de 1926, foi lá matriculado, após enfrentar penosa viagem de navio que durou uma semana. E, cercado pelas saudades e pelos seminaristas gaúchos, iniciou nova vida. Submeteu-se a um exame de aproveitamento e foi matriculado no Preliminar B, o mais fraco. Mas, no ano seguinte, com muito esforço, ingressou no 1º Ginasial. Tinha dificuldade na língua portuguesa, pelo fato de ter estudado o primário em alemão, por isso, no ano seguinte, retornou ao preliminar, agora na série A, a forte. A dificuldade na língua portuguesa continuava, agravada, agora, pelo latim.

Devido ao trauma da viagem de navio, preferiu passar as férias com um colega em Santa Cruz do Sul.

Estava em 1927. Recebeu cartas de colegas de infância e de escola que estavam no Seminário de Azambuja, fundado naquele ano: Afonso Niehues, Huberto Brüning, João Philippi e Frederico Hobold. Animado para revê-los, ensacou seus pertences e foi passar as férias em São Ludgero. O reencontro foi animador, encontravam-se diariamente na hora da missa. Recebeu o convite de ir com eles a Azambuja e aceitou. Era o seminário recém-fundado, funcionando no mesmo edifício do hospital, sob a reitoria do Pe. Jaime de Barros Câmara, rigoroso e paterno. Além das aulas e da vida de oração, não faltavam trabalhos manuais, arrumação dos pátios, quadras para os esportes, ampliação da casa.

Era sua nova casa, onde passou oito anos, cursando o ginásio, o científico e a filosofia.

E, em 1936, retornou a São Leopoldo, para os quatro anos de estudos teológicos. Desse tempo, Gregório guarda as melhores recordações das festas, passeios, música sacra, canto polifônico, canto gregoriano, banda de música, orquestra. Era uma turma de 150 teólogos, sempre de batina.

Teve professores e orientadores espirituais doutos e santos, dentre eles o venerável Padre João Batista Reus, professor de liturgia e que os introduzia no profundo sentido das celebrações. Exemplo vivo de virtude, transmitia o que vivia.

Em 1939, concluiu os estudos teológicos e, com ele 32 seminaristas do clero secular, dentre eles quatro catarinenses: Wilson Laus Schmidt, Augusto Zucco, João Philippi e Frederico Hobold. O retiro espiritual de preparação para o sacerdócio foi na Vila Manresa.

Vieram para Florianópolis visitar o Arcebispo Dom Joaquim Domingues de Oliveira e receber as datas de ordenação: 1º de janeiro, na véspera transferida para 31 de dezembro de 1939, na Catedral Metropolitana. Os pais e irmãos alugaram um caminhão para se fazerem presentes. Após a solene liturgia, Dom Joaquim ofereceu aos ordenados um banquete no palácio: um bom feijãozinho e algum acompanhamento, que era o prato especial do arcebispo.

Com a Primeira Missa marcada para 6 de janeiro, ele e Pe. Frederico Hobold hospedaram-se junto às Irmãs da Divina Providência, na Trindade. No dia 6, Pe. Frederico cantou a Missa às 8 horas e Pe. Gregório às 10.

Como eram parentes e vizinhos, as duas famílias se uniram para o banquete.

Muita alegria, muita piedade, alguns dias de férias e a primeira nomeação, que veio em fim de janeiro.

Primícias do ministério sacerdotal

Em 31 de janeiro de 1940, num envelope fechado, recebeu a primeira provisão apostólica: Vigário Paroquial de Teresópolis, São Sebastião de Anitápolis e de São Bonifácio, como coadjutor do Pe. Augusto Schwirling. Era região montanhosa, com grandes distâncias, tudo feito a cavalo ou de charrete. Após alguns meses, passou a atender a região de Anitápolis, e o Pe. Schwirling ficou com as comunidades da estrada geral do Capivari.

Em Anitápolis, havia casa paroquial, possível de ser ocupada após pequena reforma. Pe. Gregório convidou os pais a residirem com ele, o que aconteceu.

Nessas comunidades, Pe. Gregório empenhou-se em despertar a vida religiosa, promovendo os movimentos apostólicos de que sempre se serviu: Apostolado da Oração para o povo em geral, Congregação Mariana para a mocidade, Cruzada Eucarística para as crianças. Não conseguindo formar um coral, serviu-se de um grupo de crianças, às quais ensinou inclusive missa em latim, a duas vozes. Com vocação também de construtor, iniciou e inaugurou um salão de festas.

De 4 de janeiro de 1942 a 20 de janeiro de 1948, exerceu a missão de vigário encarregado de São Marcos, Rio Fortuna, que era atendida pelos padres dehonianos que a tinham devolvido à arquidiocese, por falta de padres. Foi grande sua alegria acrescentar essa comunidade à sua missão de coadjutor de São Bonifácio. Ali instituiu as associações religiosas, tanto na matriz como nas capelas, com frutos muito positivos, pois a região era bastante participativa.

Seus pais foram residir em Rio Fortuna e, pouco a pouco, também ele. Era padre novo, cheio de ardor sacerdotal para enfrentar muito trabalho, enormes distâncias, quase tudo a cavalo. Percebendo a forte devoção mariana, levantou uma gruta a Nossa Senhora, inaugurada em 8 de setembro de 1944 com a presença de Dom Joaquim, Arcebispo.

Rio Fortuna era uma colônia forte, com disposição para colaborar. Com isso, Pe. Gregório animou-se e foram construídos salão de festas, nova casa paroquial, concluídos a pintura da nova igreja, altares novos e o mais necessário.

A Igreja o chama, responde sim

Era grande sua felicidade por trabalhar em Rio Fortuna, mas, recebeu nova missão: em 18 de janeiro de 1948 foi nomeado Pároco de Nosso Senhor do Bonfim, Braço do Norte. Incansável, introduziu os mesmos movimentos religiosos, com reuniões mensais, e estimulou os ensaios de canto, percebendo a importância do canto com o povo.

Sua disposição para construções foi admirável: continuar a construção do hospital que estava parado e, com a generosidade do povo, concluiu-o e deixou em funcionamento. Graças aos bons ofícios de Mons. Arlindo Thiesen que trabalhava no Rio de Janeiro, conseguiu a vinda das Irmãs do Instituto Coração de Jesus.

E, novamente, casa de formação para as Irmãs, edificação de salão de festas, nova casa paroquial, vitrais artísticos na grandiosa igreja matriz, altares, aquisição de órgão de tubos, etc. Na comunidade do Azeiteiro, foi construída uma gruta dedicada a Nossa Senhora de Fátima, com Via-Sacra na subida.

Num campo tão vasto de apostolado, surgiram desavenças, intrigas políticas, problemas administrativos, que Pe. Gregório depois entendeu como frutos da fraqueza humana e que fazem melhor realçar a graça divina, que tudo realiza.

Em dezembro de 1954, foi criada a Diocese de Tubarão, desmembrada da Arquidiocese de Florianópolis. Como sinal de reconhecimento pelo dedicado exercício do ministério, em 31 de maio de 1955, Dom Joaquim Domingues de Oliveira conferiu o título de cônego honorário do Cabido metropolitano de Florianópolis a três padres: Agenor Neves Marques, Paulo Hobold e Gregório Locks.

O primeiro Bispo de Tubarão foi o franciscano Dom Anselmo Pietrulla. Após 11 anos em Braço do Norte, Côn. Gregório sentiu que seria melhor, para ele e para o povo, uma transferência. E, para susto seu, foi-lhe indicada a formação dos seminaristas.

Em 9 de janeiro de 1959, assumiu como Reitor do Seminário Diocesano Nossa Senhora de Fátima, em Tubarão. Um trabalho para o qual não se sentia melhor preparado, mas obedeceu, permanecendo dois anos nesse ministério.

Em final de 1960, acompanhado de três colegas padres, viajou até Brasília e passou o Natal em Graciosa, Paraná. Nessa paróquia, tinha muitos conhecidos e que ofereceram auxílio ao Seminário: 23 novilhas gordas.

Em 20 de janeiro de 1961, recebeu o encargo de pregar retiros abertos nas paróquias, o que muito gostava de fazer. Podendo escolher o local de residência, optou pelo Santuário de Nossa Senhora de Caravaggio, em Nova Veneza, para alegria daquele povo. Para servir bem a comunidade, programou-se para sair às segundas-feiras e retornar na quinta, à noite, ou sexta, pela manhã.

Juntamente com os retiros, recebeu o encargo diocesano das missões e vocações.  Despertou grande interesse missionário, principalmente nas escolas e colégios. A pregação de retiros prestava-se bem para o trabalho vocacional.

Em Roma, junto ao Papa, e conhecendo a Europa

No início de 1962, Dom Anselmo sugeriu-lhe a participação no Congresso Internacional de Vocações, a ser realizado em Roma. Em 31 de março, teve a surpresa de receber o título de Monsenhor Camareiro Secreto do Papa João XXIII, o que entendeu como desafio para maior dedicação ao trabalho.

Em 15 de maio, embarcou em Porto Alegre num quadrimotor da “Panair do Brasil”.  Após 13 horas no ar, estava em Roma, recebido de braços abertos pelo Pe. Paulo Bratti. Sempre ciceroneado por um teólogo do Pio Brasileiro, conheceu o que mais lhe interessava: basílicas, catacumbas, o Museu do Vaticano, etc.

O Congresso Vocacional reuniu perto de 500 representantes de diversos países. Mons. Gregório pode acompanhar as conferências com a tradução simultânea em alemão. Ao final, foram recebidos por João XXIII, em rápida audiência.

Apesar da distância e do alto preço, com 4 colegas foi conhecer a Terra Santa, com a companhia de freis franciscanos.

No retorno a Roma, no dia de Pentecostes, participou de Missa solene na Basílica de São Pedro, com assistência pontifical. Foi grande sua emoção, especialmente pela entrada do Papa, ao canto do Credo: “Fiquei comovido com a solenidade litúrgica, imagem, certamente, da liturgia na eternidade”, escreveu.

No dia 28, teve a graça de participar da audiência particular com o Papa, acompanhando o Bispo de Bauru, Dom Vicente Zioni, que conseguira que três padres participassem como secretários.

Mons. Gregório decidiu conhecer outros lugares. Foi para o norte da Itália, demorando-se alguns dias em Voghera, residência das Irmãs Beneditinas da Divina Providência, que tinha conhecido em Nova Veneza e Caravaggio. Além de muitas recordações, teve a felicidade de ser conduzido pelas Irmãs à grande Catedral de Milão e à Basílica de Caravaggio, onde, em 1432, Nossa Senhora apareceu a Juanita (Giannetta).

Depois, continuou a viagem até a Alemanha, chegando a Frankfurt. Permaneceu diversas semanas na Alemanha, conhecendo boa parte da Westfália, região de origem de seus antepassados. A pedido de Dom Anselmo, procurou recursos para o Seminário de Tubarão. Testemunhou a generosidade do povo e de suas instituições: recebera de Dom Anselmo 1.315,00 dólares, e devolveu-lhe 30.245,00.

De trem, viajou a Paris, mas com o interesse de conhecer Lourdes, onde, em 1858, Nossa Senhora apareceu a Santa Bernadete. Seguiu até Lisboa e, de ônibus, foi a Fátima, tendo o privilégio de falar com irmãos dos videntes Lúcia, Jacinta e Francisco. 

Santuário de Caravaggio

O Santuário de Nossa Senhora de Caravaggio, em Nova Veneza

Passados dois meses de viagens, estava de volta a Caravaggio, onde chegou em 19 de julho, recebido com muita festa e foguete. Logo retomou a pregação de retiros e, em outubro de 1962, as obras materiais, começando com o salão de festas. Pensando nos seminaristas de Tubarão, preparou duas chácaras, uma de laranjas e outra de bananas.

Conseguiu-se fazer os bancos, adquiriu-se mais um sino e um órgão eletrônico. O altar da celebração é de duas pedras de granito. O suporte em forma de cruz, a mesa de uma só peça. Tudo foi feito numa pedreira de Urussanga. Dom Afonso Niehues foi convidado para a consagração do altar.

Em 1º de outubro de 1967, aconteceu a solene inauguração e consagração do Santuário por Dom Anselmo Pietrulla, que assim se expressou: “A Catedral de Tubarão é a cabeça da Diocese, o Santuário de Caravaggio é o coração”.

Pronto e inaugurado, o Santuário foi confiado aos cuidados dos Freis Capuchinhos, num contrato de 12 anos. Com romarias e atendimento missionário, souberam despertar a devoção à Maria. A grande festa é no último domingo de maio e constitui-se na maior concentração de povo no Sul Catarinense.

Em 21 de janeiro de 1965, trabalhou como vigário paroquial de São Marcos Evangelista, Nova Veneza, sendo vigário substituto, em dezembro de 1967.

De 1967 a 1968, foi o primeiro pároco de São João Batista, em São Bento Baixo, Nova Veneza. Durante um ano, residiu na casa de Miguel Bortolotto, e logo iniciou a construção da casa paroquial. Por um tempo, atendeu Caravaggio e São Bento Baixo.

Na arquidiocese de Florianópolis

Amigo do Arcebispo de Florianópolis, Dom Afonso Niehues, dispôs-se a trabalhar um tempo na Arquidiocese de Florianópolis. Havia outro motivo: a busca de saúde, pois sofria de bronquite e de gripe – quase crônicas.

Em 15 de fevereiro de 1969, foi provisionado como 1º pároco de Santa Catarina, em Dom Joaquim, Brusque. Aproveitando-se da presença do Governador Ivo Silveira, na inauguração de um pontilhão na sede, pediu-lhe a fundação de um ginásio. Ivo Silveira prontamente o atendeu e, num ano, estava construído o novo prédio escolar, fazendo questão de denominá-lo Grupo Escolar Monsenhor Gregório Locks. Hoje é Colégio.

Cedendo o posto ao amigo, Pe. Vandilino Waterkemper, em 26 de janeiro de 1970, foi nomeado pároco do Divino Espírito Santo, em Camboriú, ingressando no mundo do catolicismo popular. Não havia construções a fazer, além de duas pequenas capelas. O povo achou-o muito rigoroso, mas na verdade era zeloso nas confissões e na exigência do casamento religioso. Deixou a paróquia com o nome de “padre brabo”.

Em 11 de fevereiro de 1976, Mons. Gregório Locks foi transferido para a Paróquia de São João Batista, onde permaneceu quatro anos, sempre em busca da saúde. Visitou todas as famílias e construiu e inaugurou grande salão de festas. Quis que ali acontecesse uma reunião geral do clero que também significaria sua despedida. Quando Dom Afonso afirmou que nesse salão caberia toda a paróquia, respondeu que foi pensando nisso que o construiu.

Os últimos anos de um soldado de Cristo

Retornando à Diocese de Tubarão, com a anuência do Pároco de Rio Fortuna, Pe. Afonso Schlickmann, foi residir na comunidade de Pinheiral, lugar de bom clima, a 800 metros de altitude.  Assumiu em 21 de fevereiro de 1980 como vigário paroquial de São Marcos, Rio Fortuna, com residência em Pinheiral, Capela São Francisco Xavier. Ali residiam umas 250 famílias que viviam da lavoura, suinocultura e gado leiteiro e se prontificaram a erguer a casa paroquial e sempre ajudaram na manutenção do padre.

Diversas vezes visitou todas as famílias e, aos domingos, auxiliava duas capelas de Braço do Norte: Avistoso e Santo Antônio.

Impressionante o empenho de Monsenhor em benefício da comunidade: ajardinou e lajotou a subida da igreja, fez boa plantação de eucaliptos, uma grande pastagem para alimentar as cabeças de gado que o povo doava como prendas nas festas, todo o cemitério foi cercado por um muro, construiu uma gruta em honra de Nossa Senhora de Fátima. Para o lazer da comunidade, a igreja cedeu terreno para bom campo de futebol e duas canchas de bocha.

Em todos esses trabalhos, contou com a preciosa e dedicada colaboração do Clube 4S.

Em 1985, durante sete meses, esteve ausente de Pinheiral. Passou este tempo em Alta Floresta, norte do Mato Grosso, ajudando o pároco a visitar 50 comunidades, durante a Quaresma. Em busca de clima seco, passou outros meses em Chapada dos Guimarães, cujo pároco era Pe. Gregório Michels, seu amigo da Diocese de Tubarão. A saúde, porém, não teve melhoras. No ano seguinte, acompanhado de Côn. Ludgero Waterkemper, visitou o Nordeste e Norte do Brasil, terminando o périplo em Belém do Pará.

Tempo alto de seu ministério foi a celebração de seu jubileu de ouro sacerdotal, reservando o ano de 1989 para reencontro com todas as comunidades e seminários onde trabalhou. Demonstrou grande resistência para Missas festivas e banquetes em todas as paróquias. Sempre bem acolhido, externava a alegria pelo trabalho feito e a ação de graças a Cristo sumo sacerdote, e pelo dom de ainda estar vivo, pois seus colegas de ordenação já tinham falecido.

Rico da graça de Deus e das obras espirituais e materiais que realizara, sempre fiel a suas promessas sacerdotais, estava no Instituto Coração de Jesus, Bairro Represa – Braço do Norte, quando um infarto cardíaco provocou-lhe morte instantânea, em 24 de julho de 1994. Vivera 80 anos, dos quais 54 como sacerdote. Foi sepultado em São Ludgero, sua terra natal.

Pe. José Artulino Besen

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